KARIN POV

Flagrar aquela cena de Rikuo e Hinamori – ainda mais o conteúdo da conversa – sinceramente me deu um mal-estar. Enquanto se beijavam dando início em uma outra seção de amassos escapuli dali desistindo de esperar na biblioteca. Precisava de ar, pensar em uma estratégia contra essa trama de espionagem daquela garota. O que me levou até o pátio leste do colégio.

Ele ficava entre a cafeteria e os prédios das salas de aula formando um “L”, com uma passarela interligando os dois edifícios. Portas laterais se localizavam abaixo da passarela e por elas os alunos iam e viam entre os prédios. Mas não era ali exatamente onde eu estava. No centro desse pátio um grande cedro se erguia e à sombra dele me sentei num banco de madeira. A estrutura ficava em volta da árvore, como um quadrado e o tronco servia com um bom apoio à se encostar.

Os treinos geralmente terminavam lá pelas sete da noite então eu tinha um certo tempo. O treinador me avisou no intervalo sobre minha dispensa hoje à tarde, então devia ter feito o mesmo com Toushirou. Quer dizer, ele não podia se ausentar do treino mesmo se quisesse. É o capitão e além disso, desde a nova formação tática percebi Toushirou ajudando no desempenho técnico do time. Só espero que Zaraki o tenha avisado sobre isso, seria frustrante ter esperado à toa na escola.

Pegando o caderno dentro da mochila, me acomodei lendo as anotações de Keita enquanto ainda havia sol. A luz dourada da tarde e os barulhos ocasionais dos alunos faziam um som de fundo relaxante. Aumentava minha concentração que ao me dar conta mordia o bocal da caneta. Em algum momento pesquei do meu estojo. Me encostando na árvore, consegui achar um canto para me acomodar usando o tronco como apoio. As pernas levantei e puxei para mim pondo o caderno nas coxas. Estava de short por debaixo da saia mesmo, então não me incomodei muito com a falta de decoro.

A posição do sol mudava conforme a tarde seguia e folheando até as últimas páginas do caderno acabei encontrando algo bem interessante. Num canto inferior da folha, rabiscado com floreio e vários detalhes um retrato bem suspeito de uma garota, precisamente da minha amiga Hikari sorria pra mim. Arquei a sobrancelha risonha e surpresa. Girei o caderno aproximando mais e fiquei impressionada. Puxa... Keita tinha tanto talento assim? – além de ter uma queda por Hikari.

— Kurosaki.

— Hum?

Murmurei distraída ao tombar a cabeça para trás, fitando de baixo para cima a pessoa atrás de mim. O bocal que eu mordia ficou frouxo na minha boca enquanto eu encarava bem de perto olhos verdes, meio encobertos por mechas brancas úmidas.

— O que está fazendo?

O que você está fazendo?!

Prendendo um grito histérico me sentei reta, bem a tempo dele se afastar evitando que batêssemos na cabeça. Pensei ter visto um sorriso sinuoso quando Toushirou ficou diante de mim. Caramba. Eu senti até o aroma do shampoo que ele usou! Emburrada, o encarei de soslaio ignorando meu rosto quente.

— Não devia se aproximar desse jeito sorrateiro das pessoas.

Ele escondeu o sorriso, embora seus olhos dissessem o contrário.

— Você que se assustou, Kurosaki. Não tenho culpa se estava distraída.

Estranhando, pisquei com o uso do sobrenome e logo mais vi o pessoal se aproximando indo em direção à saída. Ah... Não estávamos sozinhos. De ontem para hoje percebi algo nesse novo comportamento do Toushirou. Ele só me chamava por “Karin” quando éramos sós nós dois. Do contrário, me tratava por “Kurosaki”. Bem, não importa.

Levantei do banco, guardando o caderno na mochila e me voltei indo em direção aos prédios.

— Tanto faz. Vamos para biblioteca antes que feche.

— Tenho uma ideia melhor, vamos à outro lugar.

Ao olhar sobre o ombro emudeci por um momento. Franzindo a testa, vi Toushirou já distante de mim andando em direção à saída.

— Ei, espere.

Ele fingiu que não me ouviu e girei no lugar realmente não acreditando nisso. Caminhei apressada até ele tentando segurar o estresse.

— Toushirou!

Finalmente parando, ele esperou até que o alcançasse.

— O que?

Virando o rosto para mim, quando me encarou por um momento não soube o que dizer. Seu olhar e toda sua expressão dizia que gostava muito do que via, ou seja, eu. Fiquei até sem jeito inquieta no lugar.

— Por que a gente não faz o que treinador pediu aqui mesmo?

Novamente seus olhos se aqueceram martelando meu pobre coração, principalmente quando se aproximou um passo, dois... Com um ar insinuante que quase me esqueci de respirar.

— Não tem medo de ficar sozinha comigo?

— C..claro que não.

Droga, gaguejei e vendo ele curvou os lábios.

— Tem certeza?

— Toushirou!

Rindo abafado, Toushirou se afastou um pouco me dando espaço para respirar e o encarei ofendida. Tenho a péssima impressão de que estava brincando comigo e ele percebeu.

— Relaxe. Apenas quero comer alguma coisa, sabe como são os treinos pré-temporada.

Como sei. Zaraki praticamente surtava com os circuitos e simulações de jogos que criava para o time. Eu passei a carregar umas barras de cereal depois do primeiro treino massivo durante o intercolegial.

Mas tivesse dito antes! Esse jeito novo dele estava me deixando maluca.

— Você vem? Eu pago.

O nervosismo praticamente sumiu com o anúncio de comida grátis.

— Claro. Aonde vamos?

Escondendo um sorriso, ele apenas girou no lugar caminhando até o portão e segui ao seu lado. Entendi, não ia me dizer. Bem, não me importei. Andamos juntos pela calçada até descer a avenida e depois do sinal descemos na estação de metrô. À esse horário estava cheio e sem me avisar sua mão agarrou a minha, de um jeito firme para não soltar.

Quase protestei com o rosto afogueado quando o fluxo de gente aumentou e fechei a boca. Sorte que estava com meu cartão. Nas catracas vi que tinha crédito suficiente para ir e voltar e deixei a liderança com Toushirou. No horário de pico a plataforma estava lotada, praticamente corríamos até perto da linha amarela e esperamos. Verdade seja, eu estava super consciente em como nossas mãos se encaixavam, em como a gente devia parecer aos outros.

Um cara e uma garota de mãos dadas... Um casal de namorados.

Minha pressão subiu e sacudi a cabeça. Pare com isso, Karin. Não é hora ou lugar pra ficar sonhando. Entretanto... Não deixa de ser emocionante em estar assim com Toushirou. Dei uma olhadinha para ele e o mesmo olhava a tela verificando as linhas e estações. À essa altura seu cabelo estava mais seco e tirei esse momento para admirá-lo.

Toushirou estava com o agasalho cor de chumbo do clube, a jaqueta de zíper aberto com as mangas enroladas até os cotovelos. A alça da mochila de treino pendurava atravessada no seu peito e fitei abobalhada seus cabelos meio úmidos. Eles grudavam um pouco na nuca bagunçados ao emoldurar seu rosto.

Claro, ele tinha tomado um banho depois do treino puxado, super normal e eu devia estar acostumada, não é? Errado. Evitava de propósito toda santa vez para não admirar feito boba o jeito como os cabelos dele ficavam tão... Droga. Dava uma vontade insana de pentear com os dedos pra tirar as mechas do seu rosto. Justo nesse instante, o metrô chegava, o barulho por um momento abafando os sons. Ouvi distante o anúncio e a lufada forte de vento sacudiu essas mechas brancas me deixando mais aérea. Toushirou baixou o olhar para mim, segundos depois escondendo um sorriso.

— Karin.

— Hai.

Ah... Realmente parecem ser tão macios... Alias, ele enxugou direito com a toalha?

— Vamos.

O que? Mal me situei e ele me puxava em direção à uma das portas do metrô, costurando o fluxo de gente saindo do mesmo. Por pouco fico para trás! A pressão das pessoas quase me empurrou, mas Toushirou não me soltou e logo conseguimos entrar. Com tantas pessoas também entrando o vagão ficaria abarrotado em instantes. Já ia segurar o poste – estávamos perto dele – quando Toushirou rápido me puxou para ele e soltou minha mão para enlaçar minha cintura. Foi bem a tempo das portas se fecharem e sermos empurrados contra elas. Eu prendia o fôlego, o coração pulsando forte com o rosto enterrado na sua clavícula.

Ai... meu Deus.

Estou tremendo tanto que agarrei uma aba da sua jaqueta e esperei ouvir um sorrisinho, mas no lugar disso o braço em minha cintura se ajeitou me mantendo junto do seu corpo sem apertar.

— Tudo bem?

Assenti sem coragem pra encara-lo. Eu podia sentir até minhas orelhas quentes. Foi nesse instante que ouvi o sorriso e virei o rosto suspirando emburrada. Tinha situação melhor pra ele ter certeza em como mexe comigo? Desse jeito, Toushirou sentia até meu coração martelar contra seu peito sem problema. Pensando nisso, me toquei.

— Você planejou isso, não foi?

— O que?

Estreitei o olhar, agora nem dava pra disfarçar a satisfação que irradiava dele.

— Isso. A gente assim.

— Está pensando demais, Karin.

Sei...

Eu não tive vontade para discutir e deixei como estava. Respirava tentando me acalmar e aproveitar essa situação como Toushirou parecia estar também. Levei uma parada de estação em reparar que atraímos um certo tipo de atenção. Algumas garotas de outros colégios olhavam pra nós com ciúme e inveja, era bem claro à quem destinavam os olhares, afinal Toushirou é gato demais. Mas também havia pessoas mais velhas encarando entre um ar exasperado e divertido o modo em como ele me segurava.

Em particular, quando chegamos à uma outra estação e o fluxo de gente diminuiu um homem tentou chegar perto de nós. Achei que queria ficar próximo à saída. Antes que se aproximasse demais o cara que me segurava esticou o braço livre apoiando a mão na parede e “bloqueando” esse lado. Me espantei com essa atitude, afinal levei um susto quando fez de repente e levantei o rosto pro Toushirou. Minha boca ressecou ao ver a cara séria que ele fazia ao encarar o homem. Olhei pra esse e o sujeito rápido havia se afastado.

Era como se ele tivesse dito: “se manda daqui”.

Teria me sentido lisonjeada senão tivesse entendido. Era um daqueles pervertidos. De repente, me senti bem mais à vontade junto assim de Toushirou. Depois disso, nada mais aconteceu e duas estações depois descemos na nossa parada. Antes das portas abrirem Toushirou me soltou escorregando a mão até a minha e segurei quando a agarrou. Gente demais, foi um sufoco para sair e logo andávamos na plataforma em direção à saída.

Ao passar o cartão no leitor das catracas fiquei realmente grata que Toushirou pagaria o “jantar”, afinal já estava de noite e ele convidou. Eu não tinha dinheiro suficiente se precisasse recarregar o cartão. Quando saímos da estação para as ruas entendi porque ele me trouxe aqui. Era um bairro comercial, cheio de restaurantes e lojas.

Era o momento ideal para soltarmos as mãos, mas esqueci completamente disso enquanto caminhávamos na calçada. Ele também nem mencionou, invés disso se interessou por algo diferente.

— Aonde quer ir?

Mordi de leve o lábio indecisa, eram tantas opções.

— Não sei. Você escolhe.

Olhei para ele e Toushirou me fitava de uma maneira me aqueceu por dentro. Era carinhosa, até empolgada e ele mal conseguia disfarçar isso, pois sorriu do quer que estivesse pensando.

— Certo, não reclame depois.

O encarei curiosa, mas apenas ele ignorou e foi me guiando sem soltar nossas mãos. Pelo contrário, apenas entrelaçou nossos dedos apertando um pouco e devolvi em reflexo. Não era mais tão estranho assim. Toushirou nos levou direto à um restaurante de okonomiyaki. Sorri imaginando o quanto ele devia estar com fome e também por ser um dos meus pratos favoritos. Ele não se lembrava, certo? Aliás, nem sei ao certo se disse.

Bom, entramos e logo ele pediu uma mesa para dois. O garçom ao reparar em nós, nos arranjou um lugar no canto com vista para rua. Foi apenas nesse instante que soltamos as mãos e nos sentamos. Senti falta disso, mas tentei disfarçar estudando o cardápio. Escolhemos o sabor que queríamos e entre o preparo das porções, a massa ser trazida e a mesma sendo frita na chapa da mesa conversamos sobre o motivo desse jantar.

O seleção dos dois jogadores.

Chato, viu? Só reparei nisso quando eu mesma trouxe à tona e quis morder a língua depois de ver o ar surpreso de Toushirou. Eu tinha que matar esse clima incrível e legal desde que saímos da escola. Ainda bem que ele continuou a conversar normalmente. Comíamos aos poucos o okonomiyaki falando e falando sobre futebol e a equipe. Fluía tão bem que esqueci o mal-estar pela mancada. Quando mencionei as anotações de Keita, Toushirou pegou um pouco da panqueca fritando na chapa com a espátula.

— Eu que pedi para ele fazer isso.

Pisquei surpresa.

— Você sabia que Keita tinha um talento assim?

Afinal, fazer análises de desempenho não é nada fácil, ainda mais com o nível de observação daqueles. Comendo mais uma porção do okonomiyaki, ele engoliu antes de anuir.

— Sim e também ele queria fazer as pazes com você. Deu certo?

O que? Agora faz sentido. Envergonhada, desviei o olhar quando Toushirou estreitou risonho o seu.

— Idiota.

— Por que?

Seu tom tinha um ar tranquilo e curioso. Só me deixou mais sem graça e o fitei com cautela.

— Keita estava todo nervoso durante os treinos hoje. Você o ameaçou por acaso?

— Não.

Estreitei o olhar quando ele se inclinou um pouco na minha direção. Esse ar malicioso não me engana.

— Por que será que não acredito?

Quase rindo, seus olhos tinham um ar leve apesar de escurecidos.

— Eu não fiz nada, Karin. Agora se ele ficou nervoso deve ter sido pelo jeito que fiquei quando se afogou.

Todo ar de brincadeira dissipou ficando sério, um pouco tenso, mas aliviado por isso já ter passado. A fome também passou com esse assunto e pensei nisso.

— Eles... Eles ainda estavam lá?

Todo seu corpo enrijeceu entendendo e engoli em seco com esse ar um tanto... Obscurecido. Era como se visse uma raiva reprimida totalmente diferente das que já me mostrou. De repente, fez um pouco de sentido o comportamento de Keita.

— Estavam e riam. Só se mexeram quando mergulhei pra te tirar da água.

— Imbecis.

Estremeci revoltada, mas respirei fundo.

— Enfim, já passou e me vinguei deles.

— De fato.

Toushirou curvou os lábios, apagando qualquer indício de raiva que vi antes. Quase ri bebendo um pouco d’água e pensei nisso. Toushirou era um cara bem calmo, quieto e à vontade somente com quem ele quer. Era bem difícil imagina-lo com uma raiva daquelas. Isso só mostra que existem coisas que nem sabemos um do outro, o quanto mudamos nesses cinco anos. Mas pela primeira vez não me senti mal por isso. Deve ser porque não tinha mais que esconder quem eu era.

— Sobre o que está pensando?

— Hum...?

O olhei e me fitava curioso. O garçom apareceu para retirar a louça e nesse momento Toushirou aproveitou para pagar. Ele me olhou esperando e me toquei que nem respondi.

— Nada sério. Só no quanto a gente mudou nesses anos.

— Verdade.

Ficamos quietos, pensativos e percebi que ele tinha aquele ar especulativo quando pensava com cuidado no que queria me perguntar. Engoli em seco, me preparando.

— Karin.

— Sim?

Tomando mais uma pausa, ele desviou o olhar por um momento e se inclinou um pouco sobre a mesa com uma expressão composta no rosto.

— Esse acidente que sofreu foi há cinco anos, não é?

Um bolo de desconforto quase obstruiu minha garganta e engoli em seco baixando o olhar. Mirava minhas mãos cruzadas nas pernas, girando inquieta os dedos pra me acalmar, tentando não chorar. É claro que Toushirou percebeu exatamente quando isso me aconteceu, estava implícito na pergunta e preferi não responder.

— O que os médicos disseram?

Prendi o fôlego, sentindo as narinas e os olhos arderem ao apertar com força as mãos.

— A gente pode mudar de assunto, por favor?

Sorri sem graça, tentando ser animada ao olhar para ele e vi o quanto não deu certo. Preocupação e pesar cobriu seu rosto por uns segundos quando Toushirou encobriu num ar neutro assentindo. Droga... Meus olhos estavam bem brilhando com as lágrimas reprimidas.

— Pelo ao menos não imaginei que ficaria tão ferina e encrenqueira assim.

Arquejei surpresa e ofendida, principalmente com o modo que me fitava, cheio de malícia.

— Eu não sou encrenqueira.

— Suas vinganças ficaram lendárias, Karin.

Levantou a sobrancelha, apontando esse fato indiscutível. Eu tinha que me defender.

— Elas foram merecidas e não faria se não tivessem em primeiro lugar mexido comigo.

— Sei...

— É sério. Aliás, tem uma vantagem sobre isso.

— E qual seria?

Ele ficou mais convencido apoiando os braços cruzados na mesa. Apenas me empertiguei no assento.

— Todos pensam duas vezes antes de me incomodar.

— Correção: todo mundo tem medo da gerente bruxa do clube de futebol.

— Ei!

Joguei o guardanapo usado na sua cara, apenas pra ele se esquivar e pegar rindo abafado de mim. O som foi tão contagiante que ri também. Esse ar leve e descontraído é tão bom, realmente senti falta disso nesses anos. Quando o riso cessou pensei em algo que estava matutando desde umas semanas que entrei no clube.

— Toushirou, posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Por que não entrou em algum time de sub-17 da J-legue?

Com essa pergunta ele ergueu o olhar me encarando e esperando. Me pegou de surpresa e me remexi inquieta no assento. Como não disse nada continuei expressando esse pensamento confuso.

— Existem vários clubes profissionais pela cidade, até nas outras províncias que te aceitariam sem pestanejar. Com uma habilidade dessas por que veio pra cá?

E “pra cá” quis dizer o colégio Karakura.

— Pensei que fosse óbvio.

Pisquei mais confusa.

— Como assim?

Desviando o olhar para o copo meio vazio o remexendo, tive a impressão que ele não conseguia me encarar.

— Passei uma fase ruim uns quatro anos atrás.

— Fase ruim?

— Longa história, depois eu te conto. Mas além disso, tem razão, eu não parei de participar dos jogos e campeonatos desde àquela época. Fui convidado à mais de um clube quando estava no ginasial.

— Então por que?

Realmente não entendo e nesse instante, Toushirou parou de mexer o copo quase rindo, o barulho me soando um tanto incrédulo e tímido. Senti que estava prestes a falar algo constrangedor.

— Lembra o que eu te falei no terraço?

Essas memórias eram tão envoltas de amargura que por um momento quase esqueci do que se referia. O último dia do festival esportivo, quando nos vimos pela última vez. Meu coração acelerou como naquela época, igual a sensação quente que tomava meu peito quando ouvi da primeira vez.

“Quando for se escrever para esse colégio... Irei com você”

Erguendo os olhos, Toushirou me fitava de um jeito tão cálido entre as mechas de seu cabelo, que manchas de rubor no seu rosto não diminuíam o impacto do seu olhar.

— Eu disse que sempre ficaria perto de você.