Para uma garota escutar seu primeiro amor, o cara por quem guardou tanto sentimentos ardorosos a chamar para sair... Foi uma emoção e tanto. Era tão forte que a garota ficou por alguns segundos paralisada, sem saber em como reagir. Seu rosto acalorava com o coração disparado.

KARIN POV

Eu estava desnorteada, mal podia acreditar no que estava acontecendo.

Um convite...

Um convite para um encontro e não imaginei isso! Larguei o travesseiro eufórica, saltando da cama e comecei à caminhar pelo quarto mal me contendo em empolgação! Abafava um gritinho interno de tão animada. Não conseguia ficar quieta, zanzando pelo quarto da minha cama para a janela e passei mordiscar a unha. Ah...como será que respondo? Que eu amaria sair com ele? Meneei a cabeça. Não, isso seria desesperado demais, será que então uma resposta evasiva? Droga, não! Assim já estou sendo infantil. Talvez então...

- Karin?

Pestanejei, de repente atenta ao sair desse monólogo interno e neurótico e parei perto da escrivaninha de estudos.

— Sim? Sim, ainda estou aqui. – Esbocei um sorriso fraco – Você me pegou de surpresa, só isso.

- Entendi... E então?

Engoli em seco, fitando um canto da parede e me sentei devagar na cadeira. Enquanto controlava minha respiração, sabia que soava desregulada, procurei me acalmar um pouco. Afinal de contas, até segundos atrás apenas estávamos flertando, supondo sem compromisso e agora... Toushirou mais uma vez demonstrou o que realmente quer comigo. Trêmula, soltei um fôlego que reprimia e baixei o olhar para a mesa, fitando o desenho imaginário que fazia com o indicador da outra mão.

— Eu adoraria... Digo, quero sim, Toushirou.

Assim que as palavras foram ditas, senti um peso se desvanecendo de dentro do meu peito. Como um passo metafórico que eu dava, enquanto criava coragem nesse salto de fé para alcança-lo. Do outro lado da linha escutei um arfar profundo de alívio.

- É sério?

— Claro.

Meus lábios se abriram calmos, em meio à essa sensação morna e leve de certeza.

- Mesmo?

Quase revirei os olhos, bem mais sossegada.

— Já disse que sim, eu amaria... – franzi o cenho, de repente cismada – Espera, só queria me ouvir repetir, não é?

Estreitei o olhar ao perceber sua intenção e escutei em troca um grunhido abafado de malícia.

- Não é todo dia que posso te escutar assim.

Um arrepio me percorreu descendo pela nuca ao ouvi-lo assim, era hipnótico.

Se estivéssemos cara a cara, bem diante de um do outro, posso apostar que veria seu rosto manchado de rubor, igualmente naquele dia do restaurante enquanto me fitava daquele jeito febril... Tão afetuoso e profundo. Às vezes, Toushirou me lembrava o quanto pode ser intenso sem dizer uma única palavra. Ou nesse caso, o tom de voz que empregava. Pigarreei com um pouco de compostura.

— Meio astuto da sua parte, não concorda?

- Eu não acho.

— Ah é?

Me empertiguei na cadeira, gostando desse ar travesso.

- Também quero muito sair com você. Demais...

Fiquei sem palavras. A sensação morna que me percorria agora era eletrizante, deixando um formigamento pelo corpo todo. Escutando uns ruídos de fundo, como se ele estivesse se endireitando na cadeira, sua voz soou mais abafada, como se me sussurrasse um segredo.

- Sabe, Karin...

— ... O que?

Ah, será que é isso? Ele vai me confessar agora? Arfei trêmula, prendendo o fôlego de tanta expectativa. Do outro lado da linha, Toushirou murmurou.

- É uma pena que nosso encontro seja só no fim de semana.

Sério isso?! Ofeguei tonta, esvaziada de toda tensão que me criou e reclamei irritada.

— Idiota, para de confundir minha cabeça!

- Como assim?

E ele ainda tem a coragem de sorrir, eu ouvi. Murmurei mais frustrada ao estreitar os olhos para o abajur da minha cama.

— Você sabe muito bem.

- Achou que eu diria outra coisa?

Mas o que?! Encarei o celular, com a súbita vontade de mudar para uma chamada de vídeo e enfrentar sua cara arrogante, mas segurei o impulso. Suspirei fundo, fechando os olhos ao procurar um pouco de calma.

— Olha, Toushirou, uma vez eu falei que você tinha um irritante ar maduro.

- Eu lembro.

— Pois então, retiro o que disse.

Ele riu um pouco, abaixando uns graus minha frustração, mas continuei quieta. Eu não ia deixar que soubesse.

- Tá bom, não vou dizer mais nada. Vai que você desiste de sair comigo.

— Eu não faria isso.

E realmente, agora menos irritada eu não mudaria de ideia.

- É mesmo?

— Unhum.

- Que bom....

Nesse instante, a atmosfera leve e divertida se dissipou, deixando em seu lugar o ar cálido e aconchegante em que estávamos. Ele não disse mais nada, e eu também continuei em silêncio. Percebi que nenhum de nós queria desligar.

- Karin.

— Oi...

Ele hesitou um pouco, como se não pudesse encontrar um assunto e pude ouvir um resmungo desanimado.

- Já está tarde.

Fitei o relógio na parede e passava das dez horas, o tempo voou tão rápido.

— Pois é.

Mais uma vez um silêncio. Senti uma súbita vontade de bocejar e mal consegui abafá-lo. Logo em seguida escutei um estalo de língua meio abatido e chateado.

- Esqueci que você deve estar bem cansada por causa de hoje...

— Não, eu... – mais uma vez bocejei e então ele suspirou rendido.

- Descanse. Amanhã, a gente se vê.

Suspirei desviando o olhar para minha mochila ao perto da cama, pelo visto ele cedeu primeiro.

— Tá bom. Boa noite, Toushirou.

- Boa noite.

Finalmente a chamada terminou enquanto eu tentei lidar com o cansaço e o martelar forte do meu coração. Me levantei da cadeira, indo até a cama e coloquei meus livros na mesinha de cabeceira junto com meu caderno. Me deitando e cobrindo com a coberta, pensei sobre o que houve. Brincadeiras à parte, esse foi um dos momentos mais intensos e verdadeiramente românticos que tivemos. Diferente dos outros, eu senti que dessa vez estava em plena sintonia com Toushirou. Sem medo ou insegura, “sozinhos” numa oportunidade onde pudesse relaxar e me permitir.

Esse foi um grande salto para nós. Para mim. Apesar da minha aspereza e evasão, Toushirou não desistiu e sem que eu percebesse, me amoleceu. Eu não sou fácil, tenho bem ciência do meu temperamento arredio, o que agora vejo, o afastava sem perceber. Outro cara pararia de tentar, mas ele? Continuou até agora.

Uma vez Toushirou me disse que seu tipo de garota eram as difíceis e agora lembrando bem... Ele não havia de certa forma me descrevido?

Caramba, isso só mostra o quão persistente ele é.

Notei que ultimamente, ele passou a usar de uma sutileza divertida e maliciosa para se aproximar de mim, e agora entendo que fez muito sentido. Éramos amigos? Sim, mas não apenas. Esse frágil equilíbrio entre a amizade e algo mais, que sinto desde que a viagem de treino terminou, agora pendeu depois da conversa que acabamos de ter.

Era... Uma sensação tão libertadora. Eu não me sentia mais intimidada com a incerteza sobre o que queria e isso era incrível. Porque eu não quero mais fingir e desde o início, ele nunca mudou de ideia.

KARIN POF

Do outro lado da cidade, uma garota havia perdido o sono e por um bom motivo. Hoje, Hinamori teve a horrível sensação de que estava alheia sobre um assunto de suma importância.

Tudo que acontecia dentro do clube de futebol e o seu capitão.

Ela tinha um plano. Desde o início do ano letivo já havia se desdobrado em vários e depois da sua suspeita na viagem de treino, mais uma vez teve que se adaptar. Rikuo, à princípio, parecia ser a escolha certa para ter olhos e ouvidos sobre todos os lugares. Ele tinha muitos amigos e famoso no instagram, era bem carismático e o melhor, tinha o maior crush nela.

Hinamori não o escolheu à toa. Rikuo era a melhor opção caso quisesse manter o controle, pois se fosse para ser mais objetiva, Digio seria o parceiro ideal. Nunca tiveram algo, longe disso, mas ela sabia reconhecer um igual quando encontrava. Ele era implacável e ambos bem parecidos. Tinham certa reputação, eram ambiciosos e ardilosos, e sempre conseguiam o que desejavam.

Isso é, até a chegada daquela esquisita da Kurosaki.

Kurosaki Karin foi como uma chave inglesa jogada dentro do delicado mecanismo social do colégio. Essa garota era uma anomalia!

Se vestia como uma perdedora, tinha uma língua afiada e não se intimidava com ninguém. No começo, Hinamori assistiu entretida Digio aplicar sua aposta. Ela queria controlar desde cedo essa garota e ele concordou com isso porque... Bem, por que não? Jogar um pouco com a nova gerente do seu clube era divertido e sádico. Kurosaki parecia uma presa fácil e oferecer migalhas de atenção, vendo-a cair na armadilha seria muito satisfatório para os dois.

Entretanto, na primeira tentativa essa esquisita ignorou. Até aí nada estranho, existiam aquelas que gostavam de bancar as duronas. Mas Kurosaki fez de novo e de novo, até os dois perceberem que era diferente. Essa garota era cautelosa demais e muito atenta. Ela enxergava através de suas intenções.

Hinamori ao perceber isso queria então melhorar o jogo; deveria existir algo que faria essa esquisita quebrar, mas Digio recusou mudando ele próprio as regras. A questão deixou de ser uma aposta de conquista corriqueira, para um rancor pessoal. Ninguém ignora o Vega, o craque e capitão do time do futebol. E Kurosaki não só o fazia, como o desrespeitava abertamente. Isso era insano e bizarro até para ela.

Veja bem, no ensino médio, havia uma hierarquia não dita que todo aluno do colegial tinha conhecimento. Veteranos e calouros, todos medidos em popularidade, vida social (falsa ou não) e o carisma. Eram critérios determinantes se você quer aproveitar sua vida no colegial, principalmente se deseja o poder entre os demais.

Tem gente que não se importa, vivendo suas vidinhas comuns e sem graça, mas ela própria, Hinamori Momo, e Digio Vega? Eram o top do colégio, a liderança do lugar. A maioria queria ser como eles, participar do “mundo” deles e tinham inveja, mas então... Na primavera desse ano Kurosaki apareceu.

A garota não tinha senso de beleza, mal se aproveitando do quão bem o uniforme feminino de Karakura vestia. Depois se comportava como uma megera, típico de alguém mal-amado, para surpreender todos com seu gênio vingativo e, detestava admitir, criativo. Quando ela própria sofreu nas mãos dessa esquisita, de repente entendeu o rancor que Digio tinha da mesma.

Kurosaki ganhou fama e respeito simplesmente sendo uma bruxa.

Não era sem razão que a chamavam assim. E isso, leva à sua inquietação.

Duas semanas, foram apenas duas para algo acontecer, e hoje, quando os alunos se concentravam no pátio da escola para apoiar os times nas competições, viu um sério sinal de alerta. Foi algo pequeno. Exatamente, o momento em que Hitsugaya viu a Kurosaki conversando com o assistente deles, e seu coração afundou.

Por um breve instante, a expressão no rosto dele foi a mesma daquela festa. No começo era frio, indiferente e taciturno, mas assim que viu aquela garota se iluminou de um jeito sutil. Olhos brilhantes, cheios de admiração e anseio, com a linha corporal perdendo toda a tensão. Quando Kurosaki entrou no ônibus, Hitsugaya a seguiu ligeiro.

Nesse momento, ela trocou olhares com Rikuo e viu ele sorrindo para ela, alheio ao ar sério que emanava. Algo aconteceu, e esse idiota estava escondendo dela. Tinha certeza disso!

Dia seguinte

KARIN POV

O futebol escolar japonês é bem competitivo. Se o clube faz parte de um colégio perto da região metropolitana de Tóquio, a disputa é acirrada. Entre as provas e o dia do Festival Esportivo se aproximando, a preparação para o próximo adversário das chaves nas eliminatórias se provava cada vez mais estressante.

Quando cheguei hoje de manhã para o treino do time, a escola já fervilhava em plena atividade em meio à névoa matutina. Os clubes que avançaram nas eliminatórias se preparavam cedo. Gritos e ordens pelos espaços dos ginásios e quadras ficavam mais nítidos enquanto se encaminhava para o prédio dos clubes esportivos.

Era uma vibração ao mesmo tempo densa e legal. Ninguém queria perder e isso era tão empolgante, entretanto... Nosso próximo adversário era o Instituto Yosei, que de delicado só tinha o nome. Conhecidos por um ataque agressivo, esse time se focava em marcar o máximo possível no primeiro tempo e fechar sua defesa como uma couraça na segunda metade da partida.

Eles só não entraram direto para o Campeonato Nacional porque seu craque havia se lesionado semanas antes, desfalcando o time e então perdendo no interhight de verão. Agora a gente enfrentaria esse monstro com tudo o que tem. Eu encarava o teto da minha sala de aula, com a mente dispersa e devaneando com essa preocupação. Esse tempo livre foi reservado para estudar, mas eu não conseguia.

Argh...

Me debrucei na minha mesa, apoiando a testa pesada no tampo liso de tanta apreensão. Hoje eu pedi que Yuzu me fizesse uma trança. Ela amou trançando meus cabelos de forma elaborada, como são compridos o suficiente ficou realmente legal, até combinava com minha franja. Mas quando procurei vestir meu moletom assim que terminou, ela quase deu um ataque, reclamando que bagunçaria o penteado e fiz sua vontade.

Hoje vim com um suéter amarelo por cima da camisa de manga curta do uniforme. Segundo ela, fiquei bonitinha assim e até me animei, mas quando cheguei no campo principal para o treino matutino, o clima lúgubre de um campo de batalha apagou qualquer animação. Como eu disse, nosso próximo adversário é um monstro.

Zaraki estava com os demônios, os garotos como se almas tivessem saído do corpo e os titulares, com os nervos à flor da pele. Suspirei esgotada, imaginando cenários estressantes no próximo sábado. Sim, a partida aconteceria semana que vem, não à daqui três dias. Pequenas alegrias, mas a gente consegue? Será que o Kiba conseguiu filmar direito os jogos desse time? Precisamos montar uma estratégia urgente pra fechar nossa defesa.

Haibara e o Keita vão dar contar de roubar a bola, mas Yami-senpai é confiante demais. Toushirou consegue armar qualquer ataque, mas a bola precisa chegar até ele. Rikuo imbecil e Nnoitra-senpai idiota, será que é pedir demais que cooperassem direito em campo?! Eu só quero chegar ao Nacional... Era tanta coisa.

— Jesus...

Minha cabeça tá começando a doer.

— Qual o problema, Karin?

Escutei ao meu lado e murmurei incoerente, meio emburrada ao virar o rosto e deitar a face na mesa. Hikari me fitava franzindo as sobrancelhas bem feitas e em suas mãos o livro de química aberto. Involuntariamente, lembrei do que Toushirou me disse ontem.

— Ei, Hikari.

— Sim?

Ela piscou confusa com meu tom amuado e suspirei desanimada.

— Aquele cretino do Kurotsuchi-sensei não passou a apostila inteira, não é?

Hikari pestanejou espantada.

— Que?! De onde tirou isso? Eu morreria tentando decorar isso tudo.

Ela sacudiu de leve no livro e fechei os olhos, de repente cansada mentalmente.

— Pois é, né? A turma do Toushirou tá ferrada mesmo com aquele insano.

— Verdade, a classe dele é a 1-5. A turma dos avançados.

Com seu tom afetado, voltei a fita-la. Meus óculos estavam meio fora de lugar por ter me debruçado na mesa e estranhei o jeito como ela me olhava agora. Era malicioso e curioso.

-... O que?

— Como sabe que a turma dele vai estudar assim nas provas?

Droga... Franzi a testa incomodada enquanto ela sorria satisfeita pelo meu deslize.

— Não tem nada pra me contar?

— Como assim?

Se inclinando ligeiramente para mim, até estarmos no mesmo nível, sua voz soava persuasiva e marota.

— Confessa logo, o que realmente tá rolando entre vocês dois?

Hum... Desviei o olhar, um pouco encabulada e me endireitei na cadeira. Hikari então arrastou sua mesa para perto da minha e apoiou o cotovelo nela, o queixo na palma esperando. Verifiquei em volta, observando todos os outros concentrados na rodinha dos seus próprios grupos e expirei fundo, sussurrando o mais baixo que podia.

— Eu te falei noutro dia que a gente estudou no fundamental, certo?

— Unhum.

Hikari parecia adorar em como eu me remexia envergonhada e toda tensa no lugar. Se bem que não é todo dia que ela me escuta falar sobre garotos. Sempre é o contrário. Remexendo os dedos no meu colo, continuei me sentindo corar aos poucos.

— Então... ontem conversamos um pouco pelo telefone e...

— Sim?

— Ele me chamou pra sair.

Ela arfou, com os olhos cintilando de alegria, mas logo em seguida os estreitou desconfiada.

— E você disse sim, né?

— Claro. – a olhei ofendida por um momento com seu tom exigente — Espere aí, você achou que eu ia negar?

Minha amiga apenas me fitou séria com um ar apático de quem me conhece muito bem.

— Nunca te vi sair com alguém, e até agora ele é o único cara que te afeta tanto assim. Vai que você recusaria de puro nervosismo.

Er.... Ela tem um bom ponto. E isso porque não contei todos os detalhes dos últimos dias, principalmente que fugi dele até perder aquele medo tolo. Hikari não precisa saber disso.

— Enfim, foi isso.

Ela pensou por uns instantes e depois sua expressão iluminou conspiratória ao curvar os lábios.

— Ah, quer dizer que agora vocês estão ficando.

Pisquei confusa. Ficando? Eu não sei o porquê, mas não gostei de como soou. Hikari parecia feliz e empolgada por mim e disfarcei o desconforto rindo sem graça.

— Er... acho que sim.

— Quando é o seu encontro? Me dá os detalhes que eu te ajudo a ficar incrível.

Ela terminou com uma piscadela marota e realmente sorri divertida revirando os olhos. Já estava pensando em pedir isso à ela mesmo e então aproveitamos para conversar sobre outros assuntos. Percebi durante o resto da aula, principalmente desde cedo que Sayuri evitava falar comigo. Era a mesma atitude de antes, e sinceramente? Nem faço questão. Hoje não haveria treino para o Festival Esportivo mesmo, então era certeza que não me abordaria mais tarde.

~*~*~*~*~

— Aposto uma grana que ele vai chorar.

Escutei esse murmúrio venenoso vindo dos reservas e fitei rancorosa esses palhaços acomodados na arquibancada. Eles ao me virem deram um pulo de susto e rapidinho procuraram o que fazer.

Idiotas... Me voltei para o extremo direito do campo secundário, vendo os jogos de grupos de cinco contra cinco e reprimi um suspiro tenso. Realmente era doloroso de assistir. Devido estarmos próximos demais das provas, não tivemos uma partida de treino, mas então nosso técnico teve outras ideias.

Agora pela tarde se desenvolveu uma sequência repetitiva de desarme e roubo de bola. Passamos uma boa hora assistindo o artilheiro do Instituto Yosei e mais um atacante furando a defesa de seus adversários nos jogos-amistosos. Kiba era um gênio por ter conseguido gravar isso e depois, Zaraki selecionou os jogadores com estilos parecidos para treinar nossos zagueiros.

Rikuo, Digio e Akira foram os escolhidos e com exceção do último, os outros dois torturavam o pobre do Keita. Era uma sacanagem pressionarem o novato daquele tanto e Zaraki deixava. Eu queria falar alguma coisa, mas fiquei quieta. Era necessário e se nem Haibara dizia algo então só demonstrava a utilidade dessa tortura.

Toushirou por outro lado...

Relanceei os olhos até onde estava, assistindo discretamente enquanto ele treinava espaço reduzido no extremo esquerdo do campo com outros titulares.

Quando finalmente houve um intervalo, ele e os demais vieram até aqui, trocando com outros dois grupos para esse treino. Eu logo fui distribuindo água e as toalhas para cada um, percebendo nesse meio tempo, mais de uma vez, uma atenção indesejada. Os garotos paravam e ficavam me olhando admirados, praticamente aturdidos. É, eu sei. Penteado novo, um suéter nunca visto antes em mim de uniforme, grandes coisas.

Eu não estava nada acostumada com isso. Um deles até comentou que eu parecia fofa e empurrei a garrafa com força no seu plexo solar. Acho que engasgou, não sei. Eu queria mesmo era ouvir a opinião de outra pessoa, mas não disse nada até agora.

Que ódio.

Toushirou apenas se mantinha calado, me lançando longos olhares fascinados, mas disfarçava quando o flagrava. Foi assim de manhã e à tarde será a mesma coisa? Ele realmente vai ficar calado? Sério, que frustrante. Desanimada, peguei a prancheta que havia largado no banco e andei um pouco pela linha lateral até me voltar para os rapazes treinando no campo. Anotava o desenvolvimento penoso dos nossos zagueiros, quando finalmente escutei passos se aproximando de mim até parar ao meu lado.

Fiz um tremendo esforço para reprimir a tensão, cheia de expectativa.

— Nunca te vi usar suéter escolar, ficou legal.

— Você acha? Quis dar uma mudada.

Aproveitei a deixa e coloquei suavemente minha trança sobre um ombro. Assim era possível perceber o trabalho incrível da Yuzu e esperei ansiosa um comentário. Agora ele não teria como ignorar.

— Hoje você não veio com aquele moletom.

Estreitei de leve o olhar para a prancheta. Sério?! Todo aquele nervosismo sumiu com seu comentário neutro e desinteressado. Soltei um suspiro deliberado ao anotar um desarme de Yami-senpai.

— Bem que eu queria, mas minha irmã brigou comigo e deixei em casa.

— Hum...

Seu grunhido soou estranho, parecia carrancudo e me intriguei. Vamos, nem um mísero elogio pelo meu penteado diferente? Toushirou, seu obtuso teimoso e tapado!

— Aquela coisa fica enorme em você, por que continua usando?

Pisquei confusa com essa insistência em reclamar do meu moletom.

— Eu gosto dele, é confortável.

— É estranho.

Nesse instante, o espiei de soslaio injuriada e acabei o flagrando já me observando. Achei que desviaria como antes, mas ele o manteve. Apesar de disfarçar, eu via nitidamente o quanto ele estava chateado, seja lá qual for a razão. Seus olhos estreitavam de leve sob as mechas úmidas de seu cabelo, realmente me dando um tipo diferente de nervosismo. Como se eu tivesse dito algo errado, não aguentei ser encarada assim.

— Por que você tá implicando de repente com isso? É só uma roupa.

Ele parecia mais ofendido, e finalmente desviou os olhos resmungando sob o gargalo da garrafa. Acho que ouvi: “... outro cara...”, mas apenas me confundiu totalmente.

— O que?

— Nada.

Agora eu vi, que flutuação de humor esquisita é essa? Respirei fundo para arranjar um pouco de calma e tentei ser a madura ali. Depois, ele me explicaria o motivo de ter ficado irritado.

— Toushirou.

Ele grunhiu um pouco enquanto bebia água, mostrando que estava me ouvindo. Observei discretamente ao redor e não havia ninguém por perto. Soltei o ar devagar, procurando conter e disfarçar a ansiedade que de repente tomava conta de mim.

— O que somos agora? Tipo, um do outro?

Titubeei um pouco, quase murmurando ao manter a voz baixa. O vento soprou forte nesse instante, a lufada sacudindo um pouco nossas roupas ao circular por entre nós. Bagunçou um pouco meu cabelo, quase estragando o esforço que tive em deixa-lo mais bonito hoje, mas essa quietude, seu silêncio... Apenas me fez segurar com força a prancheta. O pessoal praticando no campo parecia tão distante e engoli em seco com a insegurança me tomando. Poxa... já me arrependi por ter perguntado isso e sorri meio sem graça para amenizar.

– É que, eu só queria ter certeza, sabe?

Droga, por que não calo a boca? Fica quieta, garota! Ao meu lado, o escutei abaixar a garrafa, quase silencioso ao mesmo tempo que meu rosto formigava e aquecia. Ele estava me encarando.

— Não é óbvio? – Hã? Girei o rosto para ele, encontrando seu olhar sereno. Me distraí por um momento, perdida nesse verde límpido e derretido. – Estamos juntos.

Precisei de alguns segundos para me situar do que acabou de dizer e minha temperatura subiu quando entendi. Arregalei os olhos, surpresa, ao pestanejar no lugar.

— Peraí, como assim?

— Estamos juntos, namorando, Karin.

Ele repetiu na maior calma, pausadamente, e meu coração já nervoso, disparou. Por uns segundos, fiquei piscando como uma coruja, podia apostar que havia um ar abobalhado na cara.

— D-desde quando a gente tá namorando?

— Desde ontem quando te chamei pra sair e você disse sim.

Mas o que?! E ele ainda diz isso com a expressão tão plácida e plena, sem o menor problema. Seu tom neutro apenas aumentou essa sensação desnorteadora. Toushirou nem parecia se incomodar com a minha expressão ainda confusa e chocada. Minha inexperiência gritou alto agora com esse ar constrangedor que pairou entre nós.

Abaixei o rosto, com a franja encobrindo meus olhos e quase enterrei o queixo na gola do uniforme. Reprimia com todas as forças um gemido mortificado e sofrido de vergonha! Escutei um bufo divertido ao meu lado e fiquei mais encabulada ao encolher os ombros quando se aproximou um passo de mim.

— O que foi?

Idiota...

— Cale a boca, imbecil.

Sibilei trêmula e irritada com seu divertimento, que óbvio, Toushirou apenas me ignorou. Mesmo que não o observasse, sabia o quanto ele estava gostando da situação. Sem deboche ou arrogância, realmente adorando essa nossa nova dinâmica. Sério, eu sentia uma satisfação mal contida vinda de seu corpo, principalmente ao se voltar um pouco para mim, senti um leve puxão na minha trança enquanto sussurrava.

— Não precisa ficar com vergonha.

Seus dedos giravam a ponta emaranhada do meu cabelo e ergui o olhar estressada, o fuzilando de soslaio por cima dos óculos. Ao ver, seus lábios se curvaram maliciosos e apreciativos.

— Por que tão brava?

Como se não soubesse... Fechei os punhos na prancheta, bem apertados e o empurrei um pouco com o cotovelo, o afastando sem abafar sem bom humor. Resmunguei entre os dentes com essa sua expressão de deleite me dando nos nervos.

— Por acaso sou uma piada pra você? Nem um pio, ou vou te socar.

Acabo de me contradizer, mas pouco me importo. Eu estava uma pilha de nervos, tentando manter o decoro na frente dos nossos colegas e ele só me provoca? Claro que eu ficaria tensa pra caramba.

Invés de um riso ou outra gracinha, Toushirou apenas manteve seu olhar escurecido, seu divertimento atenuado enquanto esquadrilhava minha face até parar num ponto, abaixo dos meus olhos por meros segundos, e então suspirou fundo desviando o olhar. Isso me confundiu, parecia que se continha.

— Não é a única tentando ficar calma aqui. Sinto que qualquer um agora pode ver o que tá escrito na minha cara.

Ele realmente estava evitando me fitar e surpresa, assisti um rubor suave subir pelo seu pescoço.

— O que?

— O quanto sou louco por você.

Voltando o rosto para mim, seus olhos vidraram na última frase, com a voz baixa e enrouquecida. Meu pulso disparou, enquanto ficava boquiaberta e sorrindo discreto para mim, ele largou a garrafa vazia no banco, voltando depois para o campo. Eu sequer escutei direito o que Zaraki ladrou para mim, com os pensamentos desenfreados me repetindo apenas as palavras num loop viciante.

“... louco por você, louco por você, louco por você...”

Meu sangue rugia tão forte, com o coração pulsando alto e emocionado que tive de me sentar um pouco no banco. Meus joelhos pareciam se esfarelar de tão fracos com a declaração ousada dele.

~*~*~*~*~

No dia seguinte, eu acordei de péssimo humor. Uma dor fina e familiar despontava da minha perna direita e suspirei resignada. Como se para confirmar, ao tomar o café da manhã vi no noticiário a previsão do tempo. Que droga... Amuada fui para a escola, mal despedindo dos outros. Ichi-nii levou Yuzu para a escola e enquanto à mim, meu pai fez esse favor. Mamãe mal pôde dar bom dia para todos nós, abarrotada com seu projeto de trabalho.

Logo na entrada do prédio principal, tive uma rara oportunidade de ver Toushirou nos armários de sapatos. Ele já trocava os seus quando me notou e sorri discretamente para ele, indo até o meu. É, ainda me sinto bem tímida e sequer nós falamos por telefone ontem. Ele tinha me avisado por mensagem que estaria ocupado com a irmã, algo sobre pagar uma dívida, e quase ri sozinha ao lembrar que Hiyori-senpai cobrou suborno pelo meu contato.

Tinha acabado de abrir meu armário quando senti uma massa de calor sobre o ombro e uma sombra se projetou no armário de aço.

— Bom dia.

Corei sem querer e soltei o ar devagar.

— Bom dia, Toushirou.

Espiei cuidadosa em sua direção e vi que usava uma camisa branca de mangas longas, ele as havia enrolado até os cotovelos e como sempre, a gravata cinzenta pendia solta na gola.

— Por que meia-calça hoje?

— O que?

Pisquei desnorteada, conferindo sem querer a dita peça preta e depois o fitei. Ele estava encostado nos armários, a cabeça levemente inclinada na minha direção. O olhei divertida com essa pose descontraída.

— Agora vai ficar notando cada vez que mudo meu uniforme?

Um canto de sua boca ergueu malicioso.

— É divertido.

— Sei.

Seu olhar assumiu um ar atento e aquecido, isso agitava meu pulso enquanto Toushirou me observava sem reservas.

— Eu gosto, principalmente quando muda o cabelo.

Engoli em seco, de repente, envergonhada. Hoje minha irmã não teve tempo de me ajudar, então apenas fiz um coque alto. Mechas soltas e curtas emolduravam meu rosto e a franja parecia fofa. Apenas um enfeite kanzashi o deixava preso e notei, confusa, Toushirou olhar com muito interesse para ele. Como se estivesse cogitando puxá-lo do meu cabelo e me agitei.

— Nem pense nisso.

Ele desviou o olhar para meu rosto, realmente distraído.

— O que? Eu não ia fazer nada.

Ah, sei. Esse ar inocente não me engana. Tirando meus tênis, os troquei pelas sapatilhas internas, jogando-as perto dos meus pés.

— Toushirou.

— Hum?

Ele ainda verificava com muita atenção meu enfeite de cabelo. Era um modelo com flores camélias de tecido, bem bonito e sussurrei apenas para que me ouvisse.

— Sobre o nosso encontro... Aonde a gente vai?

Sorrindo, seus olhos se voltaram para os meus, brilhando lascivos ao se aproximar de mim. Quando se inclinou ao meu lado, sua boca ficou a centímetros da minha orelha com seu fôlego pairando sobre minha nuca.

— É segredo.

Arrepios me varreram num instante com o timbre rouco de sua voz, enquanto um calor redobrado subia pelo meu pescoço. Se endireitando, Toushirou curvou os lábios malicioso para mim. Era visível o quanto ele gostou de me provocar, me deixando tão vermelha. Ao se afastar daqui, levei uns segundos para me recuperar e fechei meu armário de sapatos calçando as sapatilhas.

Suspirei bem menos agitada. Hoje a previsão do tempo dizia cem por cento de chuva. A temperatura cairia bem mais pela tarde afetando meu humor. Sou meio friorenta, ainda bem que pude trazer meu moletom hoje.

Estaria o usando agora, mas lembrei do comportamento do Toushirou. Ontem, ele parecia bem enciumado pela roupa, não entendo o porquê. Queria perguntar o motivo, mas acabei esquecendo. Sem falar que hoje devido ao clima, a parte interna do meu joelho direito latejava. Eu usava a meia-calça preta por ser térmica, isso amenizava meu desconforto. E tomei dois comprimidos de analgésicos mais cedo.

Espero que melhore, com a queda gradualmente de temperatura, precisaria ter mais cuidado. Caminhava pelo corredor, quase chegando perto das escadas quando escutei um risinho. Soava deliciado e curiosa me aproximei até me deparar com um casal meio atravancando os lances de escadas. Levei uns segundos para notar que era Sayuri e o babaca do Digio. Eles sorriam e trocavam olhares, a mão dele bem segura no quadril dela enquanto conversavam lado a lado.

Ela me viu e depois me ignorou, porém, atraiu a atenção desse cara. Ele virou o rosto para mim, erguendo as sobrancelhas como se tivesse acabado de me notar. O sorriso astuto dele me enregelou a espinha.

— Ei, Kurosaki. Queria falar comigo?

Franzi o cenho mais confusa.

— Como é?

Seu sorriso apenas se pronunciou enquanto estreitava mais os olhos dourados.

— Você ficou um tempo parada aí e me encarando, achei que tinha alguma coisa pra me falar.

Filho de uma p.... Parecia que eu iria enfartar de tanto que minha pressão subiu! Ao seu lado, Sayuri apoiou delicadamente a mão no seu peito, assumindo uma expressão preocupada.

— Senpai, não diga as coisas desse jeito. Assim vão interpretar errado. – se virando para mim, seus olhos fingiram uma inocência educada — você só queria passar, não é Kurosaki? A gente acabou ficando no caminho.

Sayuri, sua sonsa! Que show é esse de falsa educação? Estremeci nervosa com esses dois, principalmente quando Digio os afastou do caminho, puxando pela cintura Sayuri bem junto do seu corpo. Esse cara a ignorava adorando minha irritação por esse ato deliberado. A vice-presidente, claro, só faltou desmaiar de emoção.

Tensa, passei subindo os degraus para meu andar.

— Dá licença.

Eles se merecem, ainda podia escutar ecos da sua conversa e revirei os olhos.

Como hoje era dia de folga do clube e parecia chover com mais probabilidade com tantas nuvens negras se juntando no céu, o clima dentro do colégio parecia melancólico. Acabei vestindo meu moletom e na aula de Matemática, o professor havia me pedido para deixar os cadernos de exercícios na sala dos professores. Aproveitei no caminho para tomar um anti-inflamatório. Eu temia um inchaço e resolvi me precaver. Estava tão agitada que peguei um atalho passando entre os prédios de aula e administrativo.

A área verde entre eles ficava perto de um bebedouro e corri no caminho de volta.

Isso foi um erro.

Quando o intervalo do almoço veio e saí para comprar o lanche sozinha (Hikari tinha saído com Kai), percebi meus bolsos da saia vazios. Já estava chegando perto da cafeteria quando notei e meu coração saltou agitado. Nervosa, verifiquei o chão de concreto, liso e limpo, e os alunos envolta pareciam entretidos em seus próprios negócios.

Segurei com todas as forças o pânico e voltei quase correndo para minha sala verificar. A caixinha com os comprimidos poderia estar lá, mas foi uma esperança tola. Não estava em lugar algum! Apavorada, refiz o caminho, tentando não dar na vista que verificava o chão quando me lembrei do pátio perto do prédio administrativo. Corri desesperada até lá, mal notei que alguém me chamou pelo nome. Quando cheguei, um chuvisco já caía fino e constante, gradualmente aumentando. Meu peito se agitava apertado de esforço e nervosismo.

Comecei a vasculhar cada canto, agitando a grama e sujando minhas sapatilhas, ficando cada vez mais afobada. E se alguém achou e escondeu? Ninguém me viu indo até aqui, não é? E se descobrirem que é meu? O que eu faço? Meus óculos embaçaram tão rápido por causa da chuva que os tirei agitada e guardei de qualquer jeito no bolso. Droga... por que não consigo encontrar?

— Karin.

Hã? Alguém me chamou?

— Ei, o que você tá fazendo?

Uma mão me agarrou pelo braço e me levantou tão de repente que me assustei. Me virei para a pessoa, tremendo e quase chorando de ansiedade, e arfei ao perceber quem era.

Toushirou arfava também, confuso ao me ver nesse estado bagunçado.

— O que fazia agachada no chão?

Arqueei as sobrancelhas de espanto. Eu tinha feito isso? Engoli em seco, me afastando um passo quando me soltou e tentei em vão me acalmar.

— Eu... eu perdi uma coisa.

— Aqui?

Percebi que franziu o rosto mais duvidoso pelo o que eu disse. O chuvisco não cessava, aumentando o frio e encharcando mais esse gramado. Só atrapalharia enquanto vasculhava. Reparando em quanto eu estava pálida e quase chorando ele baixou o tom de voz.

— O que você perdeu?

Engoli em seco, mirando desesperada o gramado ao nosso redor e não pude mais me segurar. Voltei a procurar.

— Minha caixinha com meus remédios. Vê se consegue encontrar desse lado, é de plástico, pequena e transparente.

O escutei vagamente se mexer à minha direita enquanto eu afastava com o pé um monte de folhas.

— Não consigo ver nada, não deve estar por aqui.

Esse comentário só abalou meus nervos e me virei para onde estava. Toushirou nem se mexia no lugar, mas olhava atento para o chão. Isso só me estressou.

— Droga, você nem tá tentando. Deixa que eu procuro.

Notei vagamente que fui grosseira, mas não conseguia me acalmar. Era como uma questão de vida ou morte pra mim encontrar. Ao meu lado, Toushirou assistiu por uns instantes meu desespero e suspirou.

— Algo desse tamanho sumiria fácil nesse terreno. Depois eu te ajudo, a gente precisa sair dessa chuva.

Ele mais uma vez me segurou pelo pulso, tentando me tirar daqui e foi como um estopim para meus nervos em frangalhos.

— Não, eu preciso deles agora! Me solta!

Puxei meu braço com violência, sem querer colidindo em sua mão. O choque do golpe me assustou, me acordando um pouco da histeria que me tomava e o encarei apreensiva. Toushirou apenas ficou quieto, seu olhar incerto e neutro me deixando digerir o que acabei de fazer. Droga... Encarei minhas sapatilhas sujas de terra e grama.

— Desculpa, e-eu não queria ter feito isso, é só que...

— Não quer que ninguém saiba sobre seu problema.

Expirei fraca.

— ... É.

Molhando os lábios, respirei trêmula ao segurar as lágrimas com força e me observando ele se aproximou um passo, de um jeito cauteloso comigo.

— Ninguém vai encontrar seus remédios, e mesmo que encontrem, duvido que tenham interesse neles.

— Não tem como saber disso!

Ele apenas expirou fundo, como se estivesse procurando manter a calma e paciência, mas sei que eu não consigo. Se alguém souber... isso me apavora.

— A gente precisa sair logo daqui, esse frio não é bom pra sua...

— Para! – Toushirou se calou e insegura, continuei meneando a cabeça inconformada – Por favor, não. Não... me trate com pena como se eu fosse quebrar.

Como estava o encarando vi o quanto minha explosão parecia tê-lo afetado. Seu rosto se franziu magoado.

— ... Eu só quero cuidar de você. É tão errado assim?

Isso me surpreendeu e arfando, ele me fitou desamparado, como se questionasse em que fazia de tão errado assim. Isso apertou meu peito por dentro quando murmurou.

— É tão difícil acreditar em mim?

O observando um pouco mais calma, ignorei um pouco meus remédios perdidos e suspirei sobre outra razão. A que fazia parte de uma teia complicada de receios.

— Não é. Confio em você.

Molhando os lábios, suspirei outra vez tensa, com o coração cheio de angústia dentro do peito. Afinal, não era algo que costumo comentar, muito menos dizer abertamente. Seria esperar demais que ele compreendesse sem que eu explicasse primeiro. Engoli em seco, juntando coragem antes de falar.

— Quando sofri o acidente, eu... Eu acabei caindo de uma escadaria nas ruas. Eu corria pelas calçadas assim que fugi da escola e iria direto pra casa. Sequer prestei atenção ao me redor, e a rua onde eu estava era bem mais alta do que imaginei. Só lembro de tropeçar quando esbarrei em alguém e então...

Me calei sem conseguir dizer mais nada. Três lances íngremes e eu caí no patamar do último, aterrissando sem querer com minha perna direita. Uma queda de uma grande altura e me impediu de praticar qualquer esporte de alto nível na vida. Passei muito tempo, em meio à cirurgias e fisioterapias, aguentando palavras e olhares de pena durante minha recuperação.

— Você me culpa por causa disso?

Ergui o rosto, agitada com sua pergunta e vi que ele me fitava perturbado e cheio de dor. Mesmo que eu tivesse omitido, foi claro para ele quando isso aconteceu. Era tão errado vê-lo assim que me deixou mais agoniada.

— Claro que não. Foi um acidente, como seria culpa sua?

Se foi culpa de alguém, então haveriam vários responsáveis. O zelador da escola que não me impediu, a pessoa que sem querer me derrubou quando me choquei nela e até eu mesma. Não havia um culpado, mas uma série de acasos que culminaram nesse resultado. Não daria para prever algo assim, e foi isso que aconteceu.

Ficamos em silêncio por uns instantes e suspirei esgotada.

— Meu irmão foi a principal pessoa que me ajudou a superar isso. Acho que teria entrado em depressão se não fosse por ele. – quase ri chorosa – No dia que me deu seu moletom do clube tomei uma decisão: senão posso mais jogar, posso treinar a mente e criar estratégias para o clube em que entrar. Eu ainda posso viver meu sonho de outro jeito e pra isso não poderia me distrair, me apaixonar.... Não preciso gostar de alguém, porque da última vez doeu demais.

Voltei o olhar para ele, encontrando sua expressão neutra, mas não totalmente. Seus olhos brilhavam agitados, mal disfarçando uma emoção intensa e reprimida. Toushirou parecia perturbado. Indeciso se me consolava ou não, então preferiu ficar quieto. De todas as atitudes que poderia tomar, essa foi a melhor. Engolindo em seco, fechei os olhos por um momento para não perder a coragem.

— Então sim, tive muito medo quando você deixou claro como se sentia... Eu sempre quis que a gente voltasse a ser amigos, por baixo de toda a mágoa que guardei eu sentia muita sua falta. Mas tranquei meus outros sentimentos por você depois do acidente, não queria me machucar de novo.

Soltei o ar, parecia que uma vez que comecei não conseguia ficar calada.

— O que quero dizer... É que fiquei tão presa no passado que esqueci que não era assim. Na viagem de treino você me mostrou e continuou demonstrando enquanto que só fugi e então...

— O moletom era do seu irmão?

Franzi as sobrancelhas, confusa com sua pergunta súbita e sem nexo. Achei que ainda estava se sentindo responsável. O chuvisco havia aumentado à essa altura e Toushirou, em algum momento tinha abaixo um pouco o rosto, encobrindo seus olhos com mechas do seu cabelo úmido. Foi quando percebi há quanto tempo estávamos aqui fora. A chuva se intensificava cada vez mais.

— Sim. Era dele.

Com minha resposta, Toushirou expirou fortemente como se expulsasse uma grande aflição dentro de si.

— Então realmente mentiu naquele dia.

Ah... Na viagem de treino insinuei descaradamente que era de outra pessoa. De um cara por quem era muito apaixonada. De repente, não estava mais tão deprimida, apesar da vergonha aumentando por outro motivo. Agora faz sentido seu comportamento estranho de ontem, afinal de contas, não fui honesta. Tomando fôlego, Toushirou se aproximou um passo, pegando gentilmente minha mão.

— Eu queria estar lá por você. Sabia que havia acontecido algo muito errado, mas não fazia ideia. – um estranho alívio me banhou com esse seu comentário. Fez minha insegurança parecer tão tola... — Mas então...

Então..? O que ele vai dizer? Engoli em seco, trêmula e esperando.

— É sério o que você disse?

— Sobre o que?

Eu falei sobre tantas coisas, mas principalmente derramando meu coração em cada palavra para não haver dúvidas. Erguendo os olhos, ele me fitou com um ar intenso, ardente.

— Em se negar os sentimentos que tem por mim.

Minha tensão aumentou de repente e tive uma súbita vontade de me esconder de seu olhar questionador. O nervosismo diferente de antes me tomava enquanto pensava o que dizer. De todas coisas... Justo isso chamou sua atenção? Me sentia sobrecarregada e esgotada ao mesmo tempo, precisando me acalmar por lhe contar aquilo e agora ele me vem com essa pergunta? Inquieta encarei o vazio, até as lágrimas secaram à essa altura e tentei descontrair.

— Sim — quase ri — Você provavelmente tinha adivinhado, não era?

Por que mais ele teria tanta paciência e se esforçado em provar que era um cara totalmente diferente do que eu pensava? Quis esfregar o cotovelo, mas ainda ele me segurava pela mão, apertando suavemente.

— Diz pra mim.

Erguendo o olhar, surpresa, e vi que ele havia se aproximado mais e não desviava os olhos dos meus.

— Quero ouvir.

— Ouvir?

Ecoei com a boca ressecada. Nesse instante, senti um toque suave na bochecha, eram as pontas de seus dedos da sua mão livre. Toushirou estava agora diante de mim, corado e me fitando de um jeito tão quente e calmo que atordoou.

— O que sente por mim.

Arregalei os olhos, surpresa ao prender o fôlego. Com o dorso seus dedos, ele seguia agora o contorno do meu rosto, deixando um rastro quente com seu toque e fiquei desnorteada. Tão tonta que deixou minha boca ficou sem filtro.

— Mas você já sabe.

Droga, sua burra. Entretanto, Toushirou sequer se importou hipnotizado na carícia que me fazia e com o olhar grudado no gesto sua mão subiu até segurar a ponta do meu enfeite, ainda segurando meus cabelos.

— Sim... Mas é muito diferente ouvir.

Meu coração vacilou uma batida, atordoado, e num puxão suave, ele retirou o kanzashi. Meus cabelos caíram úmidos, se desenrolando pelas minhas costas. A chuva aumentava gradualmente, mas nós dois ignorávamos. Comovida e aturdida com o que disse comecei a arfar. Ele estava mais perto, me desorientando tanto que só pude fita-lo. Eu podia sentir o enfeite entre seus dedos e o vi segura-lo com a outra mão. A mesma que segurava a minha e agora pousava em minha cintura, puxando delicadamente meu corpo tenso até se aproximar dele e ficar a centímetros do seu. Enquanto segurava meu rosto, se inclinou levemente sobre mim, o levantando na direção do seu.

— Diz pra mim.

Sua voz rouca ficou grave nesse pedido exigente e com o calor do seu corpo pairando sobre mim. À essa altura, meu peito não doía mais com a insegurança.

— Gosto de você.

Sussurrei tão de perto, como um segredo e pude ver suas pupilas se dilatarem quase engolindo as íris verdes. Sem mais medo algum com os olhos fixos nos seus, repeti aliviada.

— Sempre gostei de você.

O fôlego soprando na minha boca me deixou consciente do que estava prestes a acontecer. Os dedos arrastaram até minha nuca e afundaram nos meus cabelos, acelerando meu pulso quando fechei os olhos.

— Por que demorou tanto?

Antes que respondesse, lábios frios cobriram aos meus, abrindo suaves ao separar e beliscar meu lábio superior. Perdi o ar, eletrizada com a sensação úmida e quente do seu fôlego enquanto ele arquejava sem se afastar. Ele fez de novo e o beijei também. Frios e sensíveis. O toque eu sentia pelo corpo inteiro e trêmula, levantei os braços, enroscando as mãos no seu pescoço. Um forte arrepio o percorreu inteiro quando enterrei os dedos em seus cabelos. Eu sentia nas palmas das mãos e ele ofegou.

Um segundo. Foi o tempo que levou para enlaçar minha cintura, prendendo forte contra seu corpo ao colar a boca mais uma vez na minha.

Arfei com o coração martelando, estremecendo quando ele tombou o rosto no meu, o ângulo me fazendo separar os lábios um pouco mais e a ponta da língua deslizou ameaçando entrar. Oh... A sensação formigou meu corpo todo, pulsando forte meu sangue e aumentou enquanto Toushirou mordiscava meus lábios, movendo contra os seus me persuadindo a abrir mais.

Quando o fiz quase derreti e sentir o músculo úmido invadir minha boca, gemi sôfrega e desnorteada. Senti um toque no palato, um deslize na gengiva e então recuou sugando por um momento a minha para se concentrar nos meus lábios. Gemia trêmula agarrando ávida seus cabelos e a camisa, pelos ombros e costas, mal conseguindo acompanhar. O imitei lambendo dentro da sua boca e um gemido seu pela tentativa me arrepiou, ainda mais quando durante o arrasto do beijo sua língua deslizou para dentro da minha boca também.

Meus joelhos enfraqueceram, meu fôlego sumia e mal pude ficar de pé. Como Toushirou me sustentava bem firme contra si, ele deu um passo e depois outro, me forçando recuar até que senti uma parede em minhas costas. O frio do concreto se destacou com o calor do seu corpo quando me encurralou. O braço na minha cintura me puxou um pouco mais para cima enquanto se debruçava mais em mim. Ouvi um clique em meio aos nossos gemidos, arquejos. Distante, lembrei o que devia ser, mas não dei importância. Ser arrebatada nesse beijo não tinha nada igual.

O jeito como era sôfrego, e depois paciente, a mão guiando minha cabeça e angulando melhor... meus cabelos molhados presos entre seus dedos. Eu esqueci aonde estávamos e ficava cada vez mais sem fôlego. A chuva engrossando nos isolava do resto da escola e nada mais importava. Nem em quanto ficávamos encharcados ou esse frio... Ou se poderiam ver a gente. Era tudo quente e nós assim... Tão juntos, cada linha encaixada que sentíamos um no outro.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.