Segredos em Um Jardim Élfico
10 Uma Manhã Agitada
O sol mal havia tocado o horizonte quando Zara despertou — e, por um instante, não soube dizer se ainda sonhava.
O jardim de Lindon permanecia vivo em sua memória como se estivesse diante dela: o brilho suave das flores, o ar fresco, e… ele.
Gil-galad.
O nome surgiu em sua mente como se carregasse peso e música ao mesmo tempo. Ela virou-se na cama, apertando os olhos com força, tentando expulsar aquela sensação que teimava em retornar.
Mas não adiantava.
A lembrança dele persistia.
A voz — profunda, doce como vento marinho, porém firme como aço élfico.
O olhar — que parecia alcançar as partes mais íntimas e escondidas da alma, como se lesse sentimentos antes mesmo que ela os entendesse.
A presença — grandiosa, quase sagrada.
Não como um rei. Não como um elfo.
Mas como algo… além.
Zara passou as mãos pelo rosto, irritada com a própria vulnerabilidade.
— Ai que lástima! — resmungou consigo mesma. — Viajo para um reino dourado, cercada de pompa, diplomacia e elfos vaidosos, e acabo… derretida por um deles. Isso é o fim. Devo estar amaldiçoada.
Ainda perdida no devaneio, ela levou a mão ao peito sem perceber — tentando reprimir o estranho aperto, aquela mistura de tumulto e serenidade que ele provocava nela. Como era possível que o simples aproximar-se dele fosse tão… contraditório?
No fundo dela, lá onde nenhuma lâmina de guerra alcançava, Gil-galad tocava algo que ela não sabia nomear.
Era caos.
E era paz.
Tudo ao mesmo tempo.
Um toque na porta a arrancou bruscamente desse estado.
— Lady Zara? — A voz suave das amas ecoou. — Podemos entrar?
Antes que ela pudesse responder, a porta se abriu e duas elfas entraram carregando tecidos reluzentes, caixas pequenas e frascos de perfume que pareciam brilhar sozinhos.
Ela se sentou na cama, observando as caixas sendo depositadas em cima do leito.
— O que é isso? — Zara ergueu uma das sobrancelhas.
— Vestes para o dia, milady. — disse uma delas, sorridente. — Um presente direto do Alto-Rei. Um gesto de gratidão e estima da parte dele.
Zara quase engasgou.
— Do Alto-Rei?
— Sim, ele mesmo. — confirmou a outra, depositando uma caixa sobre a cama. — Joias leves… perfumes especiais… tudo escolhido com muito cuidado.
Zara abriu uma caixa que continha um colar fino, todo trabalhado em filigranas douradas e uma pedra luminosa.
— Eu não vou sair por aí parecendo um pavão recém-saído do salão de joias de Valinor! — protestou, colocando o colar de volta com exagero. — Isso brilha mais que o sol no auge do verão!
As amas riram — uma risada discreta, melódica, quase cúmplice.
— Ora, Lady Zara… — disse uma delas, tentando conter o divertimento. — Se acha isso brilhante… então é melhor nem imaginar como o Alto-Rei está hoje.
Zara congelou no lugar.
— Como assim… hoje?
— Está magnífico. — explicou a elfa, ajeitando os tecidos. — Vestes douradas novas… a coroa resplandecente… e dizem que até os anéis foram escolhidos para refletir mais luz ao caminhar.
— Parece… — completou a outra, piscando com humor — … que hoje o sol terá que competir com ele.
Zara bufou alto, como se aquilo não a afetasse nem um pouco — embora o estômago tivesse dado um salto involuntário.
— Claro. Perfeito. Ótimo. — resmungou. — Um elfo que já brilha demais resolveu brilhar ainda mais. Parece até provocação direta.
As amas trocaram olhares risonhos.
Zara voltou-se para a janela, onde os raios dourados começavam a recortar as curvas das torres de Lindon. A luz refletia, de fato, com intensidade absurda — como se o reino inteiro tivesse sido polido para receber o Alto-Rei.
E ela viu, ao longe, o comitê que se formava no pátio interno do palácio.
Anéis reluzindo.
Vestes douradas esvoaçantes.
E, no centro de tudo, ele.
Gil-galad caminhava com a solenidade de quem tinha nascido para governar. A coroa com forma de ramas parecia tecer luz ao redor de seus longos cabelos escuros, e cada gesto seu era tão impecável que chegava a irritar.
— Ah, que maravilha… — murmurou Zara, cruzando os braços. — Ele e o sol competindo para ver quem queima meus olhos primeiro.
Mas… apesar das zombarias, o que ela sentiu no fundo do peito não era irritação.
Era… um calor inesperado, involuntário, quase perigoso.
A atração que ela tentava negar — com sarcasmo, ironia e teimosia — insistia em respirar dentro dela.
— Droga… — murmurou sob o fôlego. — Por que justo ele?
As amas ao fundo, pareciam mais focadas em preparar as roupas, e Zara continuava a observar Gil-galad com aquele misto de desafio, fascínio e negação.
Sim.
O dia só estava começando.
E ela já sabia que estava em apuros.
O salão de refeições de Lindon era um espetáculo por si só — colunas altas, luz natural entrando como uma bênção, mesas arrumadas com perfeição élfica e uma paz quase intoxicante. Os elfos conversavam baixo, moviam as mãos com leveza, sorriam com serenidade…
E então, Zara entrou.
O silêncio não caiu, mas houve um pequeno… impacto. Como uma onda nova chegando no mar tranquilo.
E Gil-galad, sentado à mesa principal, ergueu o olhar exatamente no instante em que ela passou pelas portas.
E ali o caos começou.
Zara caminhava com passos firmes, ainda desconfortável com a roupa escolhida para ela: um vestido tradicionalmente élfico — leve, elegante, ainda que bem menos brilhante dos quais haviam tentado impingir a ela. Recusara as joias maiores, mas aceitara uma pulseira simples — afinal, depois das amas praticamente suplicarem, era melhor ceder em algo pequeno do que ouvir mais uma rodada de tentativas. O cabelo longo estava lindamente trançado, distante da aparência bagunçada em que vivia a maior parte do tempo.
Mas não foi nem o penteado ou vestido que chamou atenção.
Foi ela.
Natural, forte, indomável.
Um contraste gritante com a ordem não somente daquele salão, mas de toda a Lindon, incluindo seu governante.
Zara sentiu dezenas de olhos sobre si e bufou internamente.
Ótimo. Um viva para ser o espetáculo matinal dessa corte dourada…
Gil-galad — tão dourado quanto suas vestes permitiam — endireitou-se no seu assento a mesa.
Esse elfo arrogante é simplesmente… magnífico. Irritantemente magnífico.
Zara fingiu não se admirar. Mas admirava muito.
Até demais.
— Lady Zara. — Elrond a cumprimentou com um sorriso gentil, sempre diplomático. — Esperávamos que se juntasse a nós.
— É… — emurmurou ela, constrangida com a recepção tão refinada daquele café da manhã — Onde tem comida, tem Dulóriens.
Elrond soltou uma risada leve. Gil-galad apenas arqueou uma sobrancelha, lutando entre diversão e fascínio.
— Por favor, sente-se. — disse o Alto-Rei, voz profunda e calma.
Zara sentou-se. Ou melhor: caiu na cadeira, como quem enfim aceita a derrota contra o próprio estômago. Um dos ajudantes colocou um prato à sua frente: frutas cortadas em formas impecáveis, pães dourados, mel cristalizado, e um chá cujo aroma era tão delicado que ela mal identificava do que era.
Zara olhou para o prato.
Depois olhou para os elfos comendo como se cada movimento fosse uma dança.
E então ela pegou o pão da forma mais elegante que conseguia.
Eles comeram.
Mas a “elegância” durou poucos minutos. Logo ela passava diversas pastas nos pães e os devorava. Comia frutas com mel sem talheres, o néctar escorrendo pelos finos dedos e ela se deliciava tal qual uma criança provando algo pela primeira vez.
Elrond tentou esconder o sorriso. Gil-galad fracassou completamente em esconder o dele.
Zara, que percebia tudo, ergueu um pedaço de pão para o rei, com ironia pura.
— O que foi? Elfos não comem com vontade?
— Comemos. — respondeu Gil-galad, a voz um pouco mais baixa. — Apenas… com menos urgência.
— Urgência? — ela sorriu de lado. — Estou com fome desde que pisei nesse reino brilhante. A luz reflete em tudo… até meu apetite acho que refletiu junto.
Alguns elfos tossiram discretamente. Outros franziram o cenho.
Zara ignorou todos com maestria.
Gil-galad se inclinou levemente — um gesto que não era real, não era político. Era… pessoal.
— Dormiu bem? — perguntou ele.
Zara engasgou. Literalmente engasgou. E quando recuperou o fôlego, sentia-se nervosa mesmo que não soubesse o porquê.
— Quê? Eu? — limpou a garganta. — Ah, sim. Bem… dentro do possível. …Sim.
A resposta não fez sentido para ninguém — nem para ela, que corou violentamente, se repreendendo mentalmente pela embaraço.
Gil-galad percebeu.
E o canto da boca dele se ergueu num sorriso lento. Quase… perigoso.
— Fico feliz. — disse ele, com uma entonação que fez Zara encarar o próprio prato como se estivesse sendo interrogada.
Elrond observava os dois com um ar de completa diversão silenciosa.
Quando o rei ergueu a mão para pegar uma taça, as mangas douradas deslizaram como luz líquida. Os anéis refletiram o sol, criando um brilho tão forte que Zara teve que semicerrar os olhos.
— Por Aulë… — ela resmungou baixinho. — Se brilhar mais um pouco, vou precisar de uma armadura.
Gil-galad ouviu.
Elrond ouviu.
Três elfos mais próximos ouviram.
Gil-galad quase riu.
— Está tudo muito… dourado hoje — soltou junto a um suspiro. — Quase um desafio ao sol.
— Não foi intencional. — disse o rei, embora claramente soubesse que estava esplêndido. — Mas se incomoda seus olhos… posso evitar certas peças.
Zara soltou um som entre um “hã” e um riso incrédulo.
— O senhor é o Alto-Rei. Se quiser usar ouro puro da cabeça aos pés, não vou ser eu quem vai impedir.
— Então incomoda, mas não a ponto de proibir. — Gil-galad concluiu.
— Nada me incomoda a ponto de proibir o rei de brilhar como um diamante ambulante. — E completou, mordendo um pedaço de fruta: — Só aviso que posso ficar cega antes do almoço.
Gil-galad encarou-a com aquele olhar profundo demais, seguro demais, que parecia atravessar camadas dela.
Zara desviou o olhar imediatamente.
O coração bateu rápido demais.
Elrond pigarreou, quebrando a tensão.
— Zara — disse ele com gentileza —, ouvi que pretende visitar hoje nossos mapas de combate. Seus conselhos ontem foram… surpreendentes.
— Não foram conselhos. — ela corrigiu. — Só falei o óbvio.
Gil-galad inclinou a cabeça.
— O óbvio costuma escapar até dos mais sábios.
Zara congelou.
Não esperava elogio.
Muito menos daquele elogio.
Ela respirou fundo, sem encará-lo.
— Eu só… observo. É o que faço.
Gil-galad observou-a por um longo instante.
Um instante que fez Zara sentir que o salão era grande demais, brilhante demais, e que aquele rei tinha um poder absurdo de fazê-la se sentir exposta.
Finalmente, ela levantou-se.
— Preciso… me mexer. Ficar parada não é pra mim.
— Estaremos no salão de estratégia em breve. — disse Elrond.
— Ótimo. — ela respondeu, dando um passo para trás. — Nos encontraremos novamente lá. E Alto-Rei…
Gil-galad ergueu o olhar, atento.
Zara apertou os olhos por um segundo e soltou, sarcástica, para esconder a verdade:
— Reduza 10% do brilho. Só isso já me ajudaria muito.
Ela saiu antes que vissem o sorriso tímido que lutava para escapar.
Gil-galad ficou olhando, intrigado, fascinado, ligeiramente encantado — e nada disposto a esconder.
— Ela ainda vai me matar… — ele murmurou.
Elrond arqueou a sobrancelha.
— De irritação?
— De algo muito mais complicado. — disse o rei, com um suspiro.
E o café da manhã terminou com todos no salão cientes de uma única coisa:
O caos Dulórien havia encontrado o sol de Lindon.
E nada — absolutamente nada — voltaria ao normal
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