O sol mal havia tocado o horizonte quando Zara despertou — e, por um instante, não soube dizer se ainda sonhava.

O jardim de Lindon permanecia vivo em sua memória como se estivesse diante dela: o brilho suave das flores, o ar fresco, e… ele.

Gil-galad.

O nome surgiu em sua mente como se carregasse peso e música ao mesmo tempo. Ela virou-se na cama, apertando os olhos com força, tentando expulsar aquela sensação que teimava em retornar.

Mas não adiantava.

A lembrança dele persistia.

A voz — profunda, doce como vento marinho, porém firme como aço élfico.

O olhar — que parecia alcançar as partes mais íntimas e escondidas da alma, como se lesse sentimentos antes mesmo que ela os entendesse.

A presença — grandiosa, quase sagrada.

Não como um rei. Não como um elfo.

Mas como algo… além.

Zara passou as mãos pelo rosto, irritada com a própria vulnerabilidade.

— Ai que lástima! — resmungou consigo mesma. — Viajo para um reino dourado, cercada de pompa, diplomacia e elfos vaidosos, e acabo… derretida por um deles. Isso é o fim. Devo estar amaldiçoada.

Ainda perdida no devaneio, ela levou a mão ao peito sem perceber — tentando reprimir o estranho aperto, aquela mistura de tumulto e serenidade que ele provocava nela. Como era possível que o simples aproximar-se dele fosse tão… contraditório?

No fundo dela, lá onde nenhuma lâmina de guerra alcançava, Gil-galad tocava algo que ela não sabia nomear.

Era caos.

E era paz.

Tudo ao mesmo tempo.

Um toque na porta a arrancou bruscamente desse estado.

— Lady Zara? — A voz suave das amas ecoou. — Podemos entrar?

Antes que ela pudesse responder, a porta se abriu e duas elfas entraram carregando tecidos reluzentes, caixas pequenas e frascos de perfume que pareciam brilhar sozinhos.

Ela se sentou na cama, observando as caixas sendo depositadas em cima do leito.

— O que é isso? — Zara ergueu uma das sobrancelhas.

— Vestes para o dia, milady. — disse uma delas, sorridente. — Um presente direto do Alto-Rei. Um gesto de gratidão e estima da parte dele.

Zara quase engasgou.

— Do Alto-Rei?

— Sim, ele mesmo. — confirmou a outra, depositando uma caixa sobre a cama. — Joias leves… perfumes especiais… tudo escolhido com muito cuidado.

Zara abriu uma caixa que continha um colar fino, todo trabalhado em filigranas douradas e uma pedra luminosa.

— Eu não vou sair por aí parecendo um pavão recém-saído do salão de joias de Valinor! — protestou, colocando o colar de volta com exagero. — Isso brilha mais que o sol no auge do verão!

As amas riram — uma risada discreta, melódica, quase cúmplice.

— Ora, Lady Zara… — disse uma delas, tentando conter o divertimento. — Se acha isso brilhante… então é melhor nem imaginar como o Alto-Rei está hoje.

Zara congelou no lugar.

— Como assim… hoje?

— Está magnífico. — explicou a elfa, ajeitando os tecidos. — Vestes douradas novas… a coroa resplandecente… e dizem que até os anéis foram escolhidos para refletir mais luz ao caminhar.

— Parece… — completou a outra, piscando com humor — … que hoje o sol terá que competir com ele.

Zara bufou alto, como se aquilo não a afetasse nem um pouco — embora o estômago tivesse dado um salto involuntário.

— Claro. Perfeito. Ótimo. — resmungou. — Um elfo que já brilha demais resolveu brilhar ainda mais. Parece até provocação direta.

As amas trocaram olhares risonhos.

Zara voltou-se para a janela, onde os raios dourados começavam a recortar as curvas das torres de Lindon. A luz refletia, de fato, com intensidade absurda — como se o reino inteiro tivesse sido polido para receber o Alto-Rei.

E ela viu, ao longe, o comitê que se formava no pátio interno do palácio.

Anéis reluzindo.

Vestes douradas esvoaçantes.

E, no centro de tudo, ele.

Gil-galad caminhava com a solenidade de quem tinha nascido para governar. A coroa com forma de ramas parecia tecer luz ao redor de seus longos cabelos escuros, e cada gesto seu era tão impecável que chegava a irritar.

— Ah, que maravilha… — murmurou Zara, cruzando os braços. — Ele e o sol competindo para ver quem queima meus olhos primeiro.

Mas… apesar das zombarias, o que ela sentiu no fundo do peito não era irritação.

Era… um calor inesperado, involuntário, quase perigoso.

A atração que ela tentava negar — com sarcasmo, ironia e teimosia — insistia em respirar dentro dela.

— Droga… — murmurou sob o fôlego. — Por que justo ele?

As amas ao fundo, pareciam mais focadas em preparar as roupas, e Zara continuava a observar Gil-galad com aquele misto de desafio, fascínio e negação.

Sim.

O dia só estava começando.

E ela já sabia que estava em apuros.


O salão de refeições de Lindon era um espetáculo por si só — colunas altas, luz natural entrando como uma bênção, mesas arrumadas com perfeição élfica e uma paz quase intoxicante. Os elfos conversavam baixo, moviam as mãos com leveza, sorriam com serenidade…

E então, Zara entrou.

O silêncio não caiu, mas houve um pequeno… impacto. Como uma onda nova chegando no mar tranquilo.

E Gil-galad, sentado à mesa principal, ergueu o olhar exatamente no instante em que ela passou pelas portas.

E ali o caos começou.


Zara caminhava com passos firmes, ainda desconfortável com a roupa escolhida para ela: um vestido tradicionalmente élfico — leve, elegante, ainda que bem menos brilhante dos quais haviam tentado impingir a ela. Recusara as joias maiores, mas aceitara uma pulseira simples — afinal, depois das amas praticamente suplicarem, era melhor ceder em algo pequeno do que ouvir mais uma rodada de tentativas. O cabelo longo estava lindamente trançado, distante da aparência bagunçada em que vivia a maior parte do tempo.

Mas não foi nem o penteado ou vestido que chamou atenção.

Foi ela.

Natural, forte, indomável.

Um contraste gritante com a ordem não somente daquele salão, mas de toda a Lindon, incluindo seu governante.

Zara sentiu dezenas de olhos sobre si e bufou internamente.

Ótimo. Um viva para ser o espetáculo matinal dessa corte dourada…

Gil-galad — tão dourado quanto suas vestes permitiam — endireitou-se no seu assento a mesa.

Esse elfo arrogante é simplesmente… magnífico. Irritantemente magnífico.

Zara fingiu não se admirar. Mas admirava muito.

Até demais.


— Lady Zara. — Elrond a cumprimentou com um sorriso gentil, sempre diplomático. — Esperávamos que se juntasse a nós.

— É… — emurmurou ela, constrangida com a recepção tão refinada daquele café da manhã — Onde tem comida, tem Dulóriens.

Elrond soltou uma risada leve. Gil-galad apenas arqueou uma sobrancelha, lutando entre diversão e fascínio.

— Por favor, sente-se. — disse o Alto-Rei, voz profunda e calma.

Zara sentou-se. Ou melhor: caiu na cadeira, como quem enfim aceita a derrota contra o próprio estômago. Um dos ajudantes colocou um prato à sua frente: frutas cortadas em formas impecáveis, pães dourados, mel cristalizado, e um chá cujo aroma era tão delicado que ela mal identificava do que era.

Zara olhou para o prato.

Depois olhou para os elfos comendo como se cada movimento fosse uma dança.

E então ela pegou o pão da forma mais elegante que conseguia.

Eles comeram.

Mas a “elegância” durou poucos minutos. Logo ela passava diversas pastas nos pães e os devorava. Comia frutas com mel sem talheres, o néctar escorrendo pelos finos dedos e ela se deliciava tal qual uma criança provando algo pela primeira vez.

Elrond tentou esconder o sorriso. Gil-galad fracassou completamente em esconder o dele.

Zara, que percebia tudo, ergueu um pedaço de pão para o rei, com ironia pura.

— O que foi? Elfos não comem com vontade?

— Comemos. — respondeu Gil-galad, a voz um pouco mais baixa. — Apenas… com menos urgência.

— Urgência? — ela sorriu de lado. — Estou com fome desde que pisei nesse reino brilhante. A luz reflete em tudo… até meu apetite acho que refletiu junto.

Alguns elfos tossiram discretamente. Outros franziram o cenho.

Zara ignorou todos com maestria.


Gil-galad se inclinou levemente — um gesto que não era real, não era político. Era… pessoal.

— Dormiu bem? — perguntou ele.

Zara engasgou. Literalmente engasgou. E quando recuperou o fôlego, sentia-se nervosa mesmo que não soubesse o porquê.

— Quê? Eu? — limpou a garganta. — Ah, sim. Bem… dentro do possível. …Sim.

A resposta não fez sentido para ninguém — nem para ela, que corou violentamente, se repreendendo mentalmente pela embaraço.

Gil-galad percebeu.

E o canto da boca dele se ergueu num sorriso lento. Quase… perigoso.

— Fico feliz. — disse ele, com uma entonação que fez Zara encarar o próprio prato como se estivesse sendo interrogada.

Elrond observava os dois com um ar de completa diversão silenciosa.

Quando o rei ergueu a mão para pegar uma taça, as mangas douradas deslizaram como luz líquida. Os anéis refletiram o sol, criando um brilho tão forte que Zara teve que semicerrar os olhos.

— Por Aulë… — ela resmungou baixinho. — Se brilhar mais um pouco, vou precisar de uma armadura.

Gil-galad ouviu.

Elrond ouviu.

Três elfos mais próximos ouviram.

Gil-galad quase riu.

— Está tudo muito… dourado hoje — soltou junto a um suspiro. — Quase um desafio ao sol.

— Não foi intencional. — disse o rei, embora claramente soubesse que estava esplêndido. — Mas se incomoda seus olhos… posso evitar certas peças.

Zara soltou um som entre um “hã” e um riso incrédulo.

— O senhor é o Alto-Rei. Se quiser usar ouro puro da cabeça aos pés, não vou ser eu quem vai impedir.

— Então incomoda, mas não a ponto de proibir. — Gil-galad concluiu.

— Nada me incomoda a ponto de proibir o rei de brilhar como um diamante ambulante. — E completou, mordendo um pedaço de fruta: — Só aviso que posso ficar cega antes do almoço.

Gil-galad encarou-a com aquele olhar profundo demais, seguro demais, que parecia atravessar camadas dela.

Zara desviou o olhar imediatamente.

O coração bateu rápido demais.

Elrond pigarreou, quebrando a tensão.

— Zara — disse ele com gentileza —, ouvi que pretende visitar hoje nossos mapas de combate. Seus conselhos ontem foram… surpreendentes.

— Não foram conselhos. — ela corrigiu. — Só falei o óbvio.

Gil-galad inclinou a cabeça.

— O óbvio costuma escapar até dos mais sábios.

Zara congelou.

Não esperava elogio.

Muito menos daquele elogio.

Ela respirou fundo, sem encará-lo.

— Eu só… observo. É o que faço.

Gil-galad observou-a por um longo instante.

Um instante que fez Zara sentir que o salão era grande demais, brilhante demais, e que aquele rei tinha um poder absurdo de fazê-la se sentir exposta.

Finalmente, ela levantou-se.

— Preciso… me mexer. Ficar parada não é pra mim.

— Estaremos no salão de estratégia em breve. — disse Elrond.

— Ótimo. — ela respondeu, dando um passo para trás. — Nos encontraremos novamente lá. E Alto-Rei…

Gil-galad ergueu o olhar, atento.

Zara apertou os olhos por um segundo e soltou, sarcástica, para esconder a verdade:

— Reduza 10% do brilho. Só isso já me ajudaria muito.

Ela saiu antes que vissem o sorriso tímido que lutava para escapar.

Gil-galad ficou olhando, intrigado, fascinado, ligeiramente encantado — e nada disposto a esconder.

— Ela ainda vai me matar… — ele murmurou.

Elrond arqueou a sobrancelha.

— De irritação?

— De algo muito mais complicado. — disse o rei, com um suspiro.

E o café da manhã terminou com todos no salão cientes de uma única coisa:

O caos Dulórien havia encontrado o sol de Lindon.

E nada — absolutamente nada — voltaria ao normal