O dia avançou, e Zara — ao lado de Elrond, cartógrafos élficos e alguns capitães da guarda — caminhava pelo salão de estratégia como se fosse terreno familiar. Mas, para Gil-galad, que observava sutilmente da beira da mesa, nada naquele lugar parecia mais fascinante do que ela.

Ela não se curvava diante de mapas e pergaminhos; dominava-os.

Não pedia permissão para sugerir; intervinha.

Não usava a voz por vaidade; falava por convicção.

Quando Elrond mostrou uma defesa tradicional das fronteiras de Lindon, Zara franziu o cenho e cruzou os braços.

— Vocês posicionam arqueiros ao norte, mas é ali que os ventos mais fortes sopram. Suas flechas perdem precisão com facilidade.

— Por isso reforçamos a margem oeste. — Elrond explicou com serenidade.

— Então reforcem o norte com escudos de barreira e lancetes leves. — Zara rebateu. — Se os orcs atravessarem essa linha aqui… — ela tocou o mapa, firme — …vocês perdem dois terços do tempo de resposta.

Os elfos trocaram olhares. Não porque ela estava errada… mas porque ninguém havia pensado naquilo.

Gil-galad inclinou-se discretamente, fascinante, atento.

— Continue. — ele disse, e o som de sua voz encheu a sala.

Zara não se intimidou.

Nunca se intimidava.

— Olhem. — ela moveu outras peças do mapa — Esta é uma estratégia de cerco de três pinças. Parece ousada demais… até…desesperada. Mas funciona se você confiar nos guerreiros que estão na ponta. O inimigo não espera que você ataque enquanto recua. É confuso. Caótico.

Elrond sorriu, impressionado.

— Você aprendeu isso… onde? — perguntou ele.

Zara respirou fundo. Caminhou até próximo da varanda onde a luz do sol já se desenhava no horizonte. Está tão imersa nas atividades que mal viu o tempo passar. Por um instante, seus olhos pareceram mais velhos que sua aparência permitia.

— Na vida. — respondeu. — Na dor. Na sobrevivência. No amor ao meu povo.

Com um olhar Elrond encerrou o momento e todos os demais que estavam ali se afastaram pelos corredores. Exceto pelo arauto e o Alto-Rei.

Zara cruzou os braços, ainda permanecendo encostada em um pilar. Aquelas palavras pareciam ainda ecoar ao redor e ela por alguns instantes voltou às suas terras. A saudade e o temor pelo seu povo contrastaram com o entusiasmo e a sabedoria do lugar onde estava.

Os olhos indo longe ao mar que se estendia ao horizonte.

Quando voltou a falar, não falava com orgulho.

Falava com verdade.

Ela os encarou, os olhos um pouco melancólicos mas com um brilho tênue.

— Eu não luto por vaidade. — continuou. — Nunca lutei para mostrar força, ou habilidade. Luto porque, se eu não fizer isso… alguém inocente morre no meu lugar. Luto por justiça. Por compaixão. Porque ninguém merece viver sob o peso do medo.

Um silêncio pairou. Pesado. Profundo.

E Gil-galad o sentiu atravessar o peito como uma lâmina luminosa.

Ele a observou como se visse — pela primeira vez — o coração por trás da guerreira. E o que viu era… raro. Quase mítico.

Uma beleza que não vinha de aparência.

Vinha da força.

Da coragem.

Da ferocidade destemida.

Do amor que ela carregava como uma chama indestrutível.

Na mente dele, uma imagem se formou sem ser convidada:

Uma rosa.

Sim.

Zara era uma rosa selvagem.

Linda, suave em alguns raros momentos, impactante como um golpe certeiro… e cheia de espinhos.

Mas nenhum espinho doía o suficiente para afastar quem quisesse admirá-la.

Nenhum espinho o impediria de querer protegê-la.

Gil-galad sentiu isso com clareza.

E foi ali — naquele instante silencioso, entre comentários de estratégia — que algo dentro do Alto-Rei começou a ceder.

Uma muralha milenar, construída de disciplina, de dever, de sabedoria contida…

…se rachou.

Ele percebeu o que aquilo significava apenas parcialmente.

Mas o suficiente para ficar desnorteado.

Eu quero protegê-la.

Quero conhecê-la.

Quero estar perto dela.

Quero… admirar.

Era uma revelação perigosa.

Quase insensata.

Zara, que voltou a se concentrar nos mapas, nem fazia ideia do abismo que acabara de abrir no coração do rei.

Gil-galad respirou fundo, tentando recompor o próprio centro.

Mas era inútil.

Ele sabia — como se algo antigo e inevitável sussurrasse dentro dele — que havia começado um caminho sem retorno.

Que a paixão, silenciosa e inesperada, já havia fincado raízes.

E ele…

ele começava a trilhar esse caminho com passos tímidos, mas certos.

Porque uma vez que a luz toca a sombra…

não há mais como voltar ao escuro.


Ao fim da tarde, quando o sol de Lindon mergulhava o horizonte em tons dourados e azulados, Gil-galad caminhou pelos jardins reais como quem busca ar — mas, na verdade, buscava algo mais difícil de admitir: buscava ela.

O vento leve carregava o perfume das flores élficas, e as lanternas de cristal começavam a despertar sua luz suave. Ele costumava encontrar paz naquele lugar. Mas naquele dia, cada passo parecia pulsar com uma expectativa inquieta.

E então, como se tivesse sido chamada pelo próprio destino, Zara surgiu entre as sombras de uma pérgola coberta de trepadeiras. Ela o encarou, parecendo surpresa ao vê-lo ali — mas não o suficiente para esconder um sutil brilho de familiaridade, como se também tivesse imaginado que ele apareceria.

— Alto-Rei. — ela o saudou, um sorriso de canto que não era formal… nem distante. Um sorriso que, para ela, seria motivo de repreensão mental.

— Gil-galad. — ele corrigiu, a voz mais baixa do que pretendia. — Aqui… não preciso de títulos.

Zara arqueou uma sobrancelha.

— Ah, é? Então devo chamá-lo como? — provocou. — Meu caro Gil? — em clara pilhéria com o Alto-Rei.

Ele riu — um som raro, que escapou antes que pudesse contê-lo.

— Gil-galad é o suficiente pra mim, Zara.

Ele caminhou alguns passos até ficar ao lado dela, observando as folhas que balançavam ao vento. O silêncio entre os dois não era desconfortável — era carregado. Vivo. Como se palavras se tornassem pequenas demais diante do que vibrava ali.

— Os jardins de noite… — Zara comentou, tocando levemente uma flor. — Parecem mais sinceros do que de dia.

Gil-galad a observou de perfil. A iluminação das lanternas fazia a pele dela brilhar com uma suavidade quase hipnótica.

— Sinceros? — ele perguntou.

— Sim. — Ela virou-se para ele. — À noite ninguém tenta impressionar. As cores são as que são. Os perfumes são naturais. É quando tudo se revela.

Inclusive você, pensou ele.

Mas não disse.

Em vez disso, gesticulou para um pequeno lago onde flores de lótus élficas flutuavam, iluminadas por dentro.

— Há algo que desejo lhe mostrar — disse ele.

Zara o acompanhou. Ele se abaixou à beira da água, direcionando uma mão para tocar a superfície com a ponta dos dedos. Um círculo de luz azulada expandiu-se pelo lago, e as flores responderam abrindo-se lentamente, irradiando brilho prateado.

Zara, também abaixada, observava ao lado dele, e arregalou os olhos como uma criança que vê magia pela primeira vez — mesmo sendo ela própria um redemoinho de força e instinto.

— Isso é… lindo. — murmurou, com uma sinceridade tão espontânea abrindo um luminoso sorriso que desarmou Gil-galad por completo.

— É uma magia antiga — explicou ele — que responde ao coração de quem a invoca.

Zara olhou para ele. Não para as flores. Para ele.

E ali, naquele instante, Gil-galad sentiu o mundo se estreitar até caber no espaço entre seus corpos.

Ela se aproximou mais, com o corpo voltado para ele.

Ele também.

Agora, tão perto um do outro que ele podia sentir o calor da respiração dela, o perfume da pele, a coragem silenciosa que sempre emanava dela.

— Gil-galad… — ela começou, a voz mais baixa, quase um sussurro. — Hoje, no salão… quando falei do que acredito, no que defendo… você me olhou como se entendesse.

— Eu entendi. — afirmou ele, sem hesitar.

— E isso… é perigoso. — completou, mas não recuou.

Gil-galad inclinou a cabeça ligeiramente, como quem estuda um segredo revelado.

— Nem toda coisa perigosa deve ser evitada.

Zara sorriu, pequeno, rápido, mas cheio de intenção.

A distância entre eles se dissolvia.

Os rostos se aproximavam.

Os lábios quase — quase — se encontravam.

Mas nessa fração de segundo, Zara respirou fundo, como se lembrasse de algo que pesava em seu interior. Ela fechou os olhos por um instante… e parou a poucos milímetros dele.

O coração de Gil-galad bateu forte demais.

Zara sussurrou, sem se afastar:

— Se…isso…acontecer… não haverá volta.

Ele respondeu sem pensar, sem filtrar:

— Talvez já não haja.

Os lábios dela tremeram em um quase-beijo… quente, iminente, inevitável.

Mas ela desviou, apenas encostando a testa na dele, como um toque íntimo e carregado de sentimentos que ela não ousaria verbalizar

Gil-galad não insistiu.

Não poderia.

Porque naquele pequeno gesto — aquela fronte unida à sua — havia mais paixão do que muitos beijos trocados às pressas.

Ele fechou os olhos e respirou o mesmo ar que ela, sentindo o destino prender os dois num laço invisível e crescente.

Quando Zara se afastou, suave, havia fogo nos olhos dela — e um aviso silencioso.

O primeiro beijo quase acontecera.

Mas agora…

a espera tornaria tudo ainda mais inevitável.

O salão de jantar de Lindon estava iluminado por centenas de pequenas chamas azuladas, flutuando como vaga-lumes elegantes. A mesa longa de madeira clara permanecia silenciosa — silenciosa demais — enquanto Zara, Elrond e Gil-galad se acomodavam.

Mas, naquela noite, nenhum deles estava realmente presente.

Zara tentava parecer firme, mas bastou a primeira troca de olhares acidental com o Alto-Rei — um único segundo de encontro de olhos — para que seu coração disparasse como se tivesse sido capturada em plena batalha.

Ela desviou o rosto com brusquidão.

E ao fazê-lo, seus dedos tocaram a haste da taça de cristal.

A taça escorregou.

Caiu.

O som estilhaçado ecoou pelo salão como um trovão indecoroso.

Zara fechou os olhos por um instante, mortificada.

— Peço… desculpas — disse ela, tensa, rígida, se preparando para se baixar e juntar por si mesma os cacos de vidro e talvez abrir um buraco no chão e se esconder, se possível.

Gil-galad, que nunca vira Zara perder o controle de si, sentiu um aperto inexplicável no peito. Quis ir ajudá-la, mas sabia que qualquer aproximação sua era como aproximar fogo de óleo.

Zara já estava prestes a incendiar-se sozinha.

— Não se preocupe — disse Elrond rapidamente, levantando-se com elegância e gesticulando para um servo. — Acidentes acontecem. Nada mais natural depois de um dia tão cheio.

Mas seu olhar sutil para Zara dizia: então é isso que está acontecendo com você.

Zara fingiu ignorar.

O jantar foi servido: legumes delicadamente grelhados, peixes preparados com ervas élficas e pães macios. Tudo perfumado, belo, impecável. Mas Zara lutava para erguer o garfo; sua mão tremia, traindo cada esforço para parecer serena.

Gil-galad observou — em absoluto silêncio.

Um guerreiro poderia tremer de medo.

Um soldado de frio.

Um coração, de amor contido.

Mas ver Zara desmoronar pela simples proximidade dele… aquilo o esmagava de maneiras que ele não sabia nomear.

— Zara — chamou ele, baixinho, preocupado.

Ela congelou.

Só a voz dele… só isso… já era demais.

— Está tudo bem? — insistiu o rei.

Zara apertou o garfo com força.

— Estou ótima. — respondeu, rápida demais. — Só… cansada.

Elrond pousou o guardanapo sobre a mesa com uma suavidade calculada.

— Compreensível minha senhora. Hoje suas demonstrações de conhecimento foram tão além a de muitos senhores milenares deste reino. Uma proeza a ser reconhecida. Não se sinta mal pelo incidente. Entendemos sua exaustão.

Zara estreitou os olhos deixando um sorriso fino escapar dos lábios.

— Dulóriens não se cansam de lutas ou batalhas , tampouco estudos, senhor Elrond — afirmou ela. — Mas se cansam… de certas situações que nem os mais sábios homens talvez tenham respostas.

Elrond deu um sorrisinho compreensivo.

Gil-galad prendeu a respiração.

Zara percebendo onde aquilo ia, desviou rapidamente.

— Eu só não estou acostumada com jantares tão formais mesmo. — murmurou.

Na verdade, era a presença dele.

A lembrança daquele quase-beijo.

A sensação da respiração dele misturada à dela.

O perfume que ainda parecia grudado em sua pele desde o jardim.

Gil-galad, lutando para manter a compostura real, observava cada detalhe, cada hesitação, cada tremor. Sentia-se como um navio preso a uma maré irresistível — quanto mais tentava manter a serenidade, mais sua mente o traía, voltando ao instante em que quase cruzara o limite proibido.

— Zara. — disse ele, num tom que pretendia ser neutro… mas não conseguiu. — Se houver algo que a esteja incomodando, posso ajustar quaisquer protocolos. Não desejo que se sinta desconfortável em meu lar.

Ela apertou os lábios.

Meu lar.

Ele falara aquilo como se ela já pertencesse ali.

Como se… desejasse que ela pertencesse.

Elrond pigarreou, quase rindo.

— Talvez devêssemos conversar sobre questões mais práticas da guerra, hm? — sugeriu, tentando salvar o clima. — Ou sobre suas impressões de Lindon? Ou…

— Ou sobre o dia de hoje — completou Gil-galad, sem perceber que o tema só faria Zara ruborizar ainda mais.

E fez.

Zara arregalou os olhos, encarando o próprio prato como se fosse um campo de batalha.

Elrond suspirou em silêncio. Para alguém tão sábio, o Alto-Rei podia ser perigosamente cego às vezes.

— Gil-galad — disse Elrond, com uma polidez afiada — talvez seja melhor permitir que nossa convidada coma em paz. Um ataque verbal agora seria tão imprudente quanto no campo de batalha.

Zara tossiu para disfarçar um riso nervoso.

Gil-galad respirou fundo, tentando retomar sua compostura régia.

— Tens razão — admitiu o rei, inclinando levemente a cabeça para Zara. — Desculpe. Não foi minha intenção pressioná-la.

Zara finalmente ergueu os olhos.

E por um instante — apenas um — encarou-o diretamente.

E tudo congelou.

Tensão, desejo, medo, curiosidade… todos os sentimentos se chocaram naquele instante.

Ela desviou rápido demais.

Gil-galad sentiu o estômago revirar.

O jantar prosseguiu, sim.

Mas era como se cada movimento fosse calculado, cada palavra pesada, cada respiração medida.

Dois guerreiros tentando sobreviver a um campo minado de emoções.

Dois corações tentando fingir que não estavam queimando.

E Elrond… assistindo tudo como alguém que, apesar de sábio, já aceitara uma verdade inevitável:

Era tarde demais para impedir o que estava nascendo ali.

E cedo demais para que os dois admitissem.


A lua pairava alta quando Gil-galad deixou o salão.

Ele caminhou rápido demais para alguém que deveria sempre manter a postura serena de um rei — mas a serenidade naquela noite havia sido destruída tão facilmente quanto a taça que Zara derrubara.

Os guardas o viram atravessar o corredor dourado, mas não ousaram sequer tentar acompanhar.

Elrond, porém, seguiu alguns passos atrás, atento.

Gil-galad virou na direção dos jardins.


As folhas prateadas dos telpëornë balançavam ao vento.

As flores luminosas que só abriam à noite refletiam a luz da lua como pequenos sóis adormecidos.

Esse era o lugar onde tudo quase acontecera.

Onde o mundo quase mudara.

Gil-galad entrou no jardim com o coração acelerado, ansioso — um sentimento tão raro para ele que parecia estrangeiro em seu próprio corpo. Os olhos percorreram cada canto, cada sombra, cada caminho.

Mas só encontrou o som da água correndo na fonte.

O murmúrio das folhas.

E o vazio.

Um vazio que, inexplicavelmente, doeu.

Ele parou no centro da clareira, respirou fundo… e sentiu o peito apertar.

Quase uma dor física.

Cenich ned maeth, Aran Arth? (Em busca de algo, Alto Rei?) — perguntou Elrond, aproximando-se com passos lentos.

Gil-galad fechou os olhos.

Respirou.

Mas não respondeu.

Elrond fitou o rosto do rei — tão calmo por fora, tão desordenado por dentro — e suspirou.

— Gil-galad… o que o perturba? — indagou com delicadeza. — Desde o encontro no campo de batalha, e mais ainda depois de hoje, percebo que há algo se movendo em seu espírito.

Gil-galad permaneceu imóvel, olhando a água correr pela fonte como se buscasse nela uma resposta.

— Elrond… — a voz dele saiu baixa, quase rouca. — Não sei o que está acontecendo comigo.

Elrond ergueu uma sobrancelha.

Era raro ouvir isso do Alto-Rei.

Gil-galad continuou, lentamente:

— Ela… Zara… — pronunciou o nome com cuidado, como se fosse precioso demais para ser dito com pressa. — Há algo… nela. Algo que não consigo entender.

Elrond cruzou as mãos nas costas, atento.

— Ela é uma comandante, sim — prosseguiu o rei. — Feroz, brilhante, diferente de tudo que já vi. Mas é mais que isso. Muito mais.

Parou. Respirou fundo.

— E não é apenas isso. — admitiu num desabafo quase inaudível. — Eu… a senti antes de conhecê-la.

— O sonho — completou Elrond, compreendendo.

Gil-galad assentiu.

— Achei que fosse apenas uma visão comum… mas agora entendo que não era sonho. Não… não daquele tipo.

Ele levou uma mão ao peito, pressionando como se o coração tivesse se tornado estranho.

— Há trechos da música de Ilúvatar que cruzam destinos, Elrond. Mas nunca senti algo assim. — Sua voz vacilou de leve. — Nunca.

Elrond o estudou por um longo momento.

— E teme isso? — perguntou enfim.

Gil-galad soltou um suspiro longo, pesado, quase humano em sua vulnerabilidade.

— Temo… e ao mesmo tempo… — ele olhou o céu claro demais da noite — parte de mim anseia por encontrá-la aqui agora. Como se a própria lua a trouxesse de volta aos meus pés.

O silêncio caiu entre eles.

O rei então fechou os dedos, frustrado com a própria fraqueza.

— Mas não está — murmurou, a voz carregada de um desalento profundo. — E esse vazio… esse espaço onde ela deveria estar… perturba minha mente mais do que deveria.

Elrond deu um pequeno passo à frente.

— Gil-galad… já tantas eras vivi ao seu lado, mas nunca o vi falar assim de alguém. Acha realmente que ela é apenas uma emissária de Eredhîr?

O rei manteve os olhos fixos no jardim vazio.

E então, como se confessasse um segredo proibido, respondeu:

— Não.

— Eu sei… — ele tocou o próprio peito, como se algo dentro vibrasse — sei que ela é mais do que um simples sonho.

— E mais do que uma comandante.

— É… como se algo dentro dela… e dentro de mim… já tivesse se encontrado muito antes deste dia.

Elrond respirou fundo.

O destino estava se movendo.

E o Alto-Rei, que nunca temera batalhas, agora temia algo muito mais perigoso:

Sentir.