Notas iniciais
Tô injuriada. q

Quatro.

Somente ao parar percebi o que havia feito. Meu maior sonho de consumo estava dentro do meu carro, e logo estaria na minha sala. Eu poderia ter sugerido qualquer outro lugar, mas não, tinha de oferecer o primeiro que me veio à mente!

- Eu não consigo, simplesmente não consigo acreditar! — acabei falando alto.

- Sei que sou suspeito, mas precisa acreditar em mim, monsieur Kami. Não posso confiar em mais ninguém.

O lolita abaixou a cabeça. Se soubesse que não era a isso que eu me referia...

- Conversaremos lá dentro.

Hesitei por um minuto antes de descer do carro, me perguntando mentalmente se deveria abrir a porta para Mana. Ele era homem, pelas leis da natureza tinha de abrir sozinho! Mas estava vestido como uma mulher, e agia como uma... então, talvez fosse mais certo que eu agisse como um cavalheiro. Me dirigi ao lado do passageiro, abri a porta e estendi a mão para ajudá-lo a descer.

- Merci beaucoup, monsieur.

Quase tive uma parada cardíaca quando a textura da renda tocou minha palma. Eu estava a ponto de gritar "entre em casa logo!", tive de morder os lábios para conseguir me conter. O terror era tão grande que acabei prendendo os dedos quando bati a porta do carro.

- Droga...!

- Está tudo bem?

- Oh sim, está, está! — respondi sem jeito, disfarçando sem muito sucesso minha expressão de quem iria abrir um berreiro a qualquer minuto. — Por favor, entre e me espere na sala, vou estacionar o carro!

Abri a porta e me joguei no banco. Só quando vi pelo retrovisor que ele já havia entrado na casa, gritei o mais alto que pude. Puta merda, mas que dor.

Quando finalmente entrei em casa, pensando que era só um sonho e eu despertaria assim que tomasse um bom banho, meu coração disparou outra vez. Aí sim eu pensei que fosse morrer. Ele estava mesmo na minha sala, sentado no meu sofá, com a bolsa ao lado, olhando para a minha cara de imbecil.

- Tem certeza de que está bem, monsieur Kami? Me parece pálido.

- São as luzes. — Céus, de onde tirei aquilo? — Hm, aceita um café, uma taça de vinho...?

- Se não for muito incômodo, gostaria de um copo d'água.

Dei a ele o que me pediu, e fiquei observando. Minha cara passou de imbecil para a de um completo idiota, eu parecia uma criança diante de uma prateleira de doces. Mana era lindo até tomando água... e mais tarde eu iria colocar aquele copo num saco plástico e guardar na minha gaveta de cuecas.

- Bom — eu não sabia como começar a conversa. — você disse que sabe quem está matando as... donzelas? — tive muito cuidado em escolher a palavra. Mana era "uma delas", qualquer palavra de baixo calão referente ao grupo também o ofenderia.

O rosto do lolita ganhou um ar triste. Após um breve suspiro, deixou o copo sobre a mesinha de centro e começou:

- Eu não podia falar nada perto os outros policiais. Achei até bom que o senhor tenha sugerido que conversássemos aqui, qualquer outro lugar mais movimentado seria perigoso. Ainda que a culpa seja minha, quem está consumando os crimes é outro. Közi... E se um dos informantes dele me visse conversando com o senhor, não sei o que poderia fazer.

Por que aquele nome me soava tão familiar?

- Közi?

- Oui. O dono do Banco de Londres.

- É claro, como pude esquecer desse nome? — um clarão me veio à mente. O nome e a foto (horrorosa) eram os donos da primeira página do jornal que eu havia jogado no lixo. — Mas por que ele mataria vadias de rua? — pela força do hábito a classificação me saltou da boca, me obrigando a pedir desculpas com o olhar indignado do menor. — Err, não foi isso que eu quis dizer, eu...

- Não importa. É isso que elas são. É isso que eu sou.

- Tenho certeza de que há um motivo muito forte para isso.

Mana me olhou um pouco assustado, a conversa estava tomando um rumo pessoal demais.

- Não quis me meter em seus assuntos, me... me desculpe. Por favor, continue o que estava dizendo. Por que afirma que a culpa é sua?

- Közi está matando as outras porque eu não quis me entregar a ele.

- Vingança de um cliente desprezado? Isso não faz muito sentido! — ora, para mim até fazia. Se eu não pudesse ter Mana, acho que também ficaria louco e sairia matando todo mundo.

- Közi é um homem sujo. Um agiota, que só não está mofando em uma cela porque ofereceu dinheiro suficiente para a polícia de cada país que visitou deixá-lo fugir impune. Um lascivo maldito, que não se importa em usar as pessoas e depois jogá-las fora. Apesar de ser uma prostituta, eu jamais me daria a alguém como ele, nem por todo o dinheiro que foi capaz de me oferecer. Ainda que eu realmente esteja precisando.

- Mana...

- Não acredita em mim, não é?

- Não é isso. Tudo o que acabou de me contar... por que não contou ao chefe?

- Ele não entenderia. Ninguém entenderia.

- E por que achou que eu, justamente eu, entenderia? — eu estava ficando nervoso sem querer.

A face do lolita se tingiu num vermelho violento.

- Porque sei que tem me observado — a voz saiu quase num sussurro.

- Sabe...?

- Da primeira vez que percebi que alguém me observava, pedi a uma amiga que trocasse de lugar comigo, só para que eu pudesse ter certeza de que não era Közi me vigiando. Quando ela me disse que que era um policial da Ordem, continuei com medo de voltar, mas precisava já que meu ponto de trabalho era aquele. Bom, você nunca tentou nenhuma aproximação, e como suas "visitas" eram frequentes, imaginei que não me faria mal. Acabei me acostumando com sua presença.

A revelação me atingiu como um soco na cara. Então ele sabia? Ok, eu poderia dormir sem saber daquilo!

- Quando uma prostituta vai a uma ordem policial para denunciar o dono de um banco — continuou ele -, qual é a primeira coisa que eles vão pensar? Por isso decidi apostar em você. Minha intuição dizia que eu teria uma chance, por mais absurda que minha história pudesse parecer.

- Mana, você...

- Por favor, não conte a ninguém que estive aqui — disse ele, se levantando.

- Não contarei, eu... — minha cabeça rodava com tanta informação. — Posso levá-lo em casa?

- Será melhor que eu vá sozinho. Obrigada por me escutar, monsieur. Au revoir.

Dito isso, passou por mim e disparou pela porta. Saiu com tanta pressa que não percebeu que havia esquecido a bolsa. Peguei-a, sentindo o maravilhoso aroma de Mana. Iria à Gardenia Avenue naquela mesma madrugada para devolvê-la.

Cheguei no horário de sempre, me escondi no beco nojento de sempre e ali fiquei, aguardando a chegada de Mana para que eu pudesse devolver a bolsa. Entretanto, alguma coisa aconteceu e ele não veio. Resolvi esperar mais um pouco. Dez minutos, vinte minutos, quarenta minutos. Uma hora, e nada de Mana aparecer. Não viria trabalhar de novo? Pela primeira vez durante todo o tempo que passei como observador, me aproximei do poste... e encontrei algo que jamais teria visto à distância. Estava pregado ali um pequeno envelope, amarrado com linha vermelha. Para quem seria? Não resistindo à curiosidade, desamarrei a linha e abri o envelope. Dentro dele, um bilhete feito à letras batidas de uma máquina de escrever, e um pedaço de pano preto.

Acho que ele não gostaria de morrer sem vê-lo pela última vez.

K.

Abaixo, o endereço de uma fábrica desativada e abandonada há muitos anos. Um desafio. Aquela letra K... Só podia ser de Közi! E aquele tecido? O ergui na luz para tentar reconhecer. Era um pedaço do vestido de Mana.

- Ele o sequestrou. O filho da puta sequestrou Mana! — voltei para casa à toda velocidade, entrei chutando a porta (e a quebrei) e, maluco de raiva, fui direto à gaveta da escrivaninha, jogando tudo para cima até encontrar meu revólver. Nem lembrei de fechar a porta, estava tão afoito que corri para o carro e fui direto para o local indicado no bilhete, por diversas vezes quase batendo em árvores, bancos, postes e o que mais estivesse na frente.

- Você vai morrer, Közi! Você vai morrer!