Notas iniciais
A tendência é sempre piorar. <3

Cinco.

Deixei o carro na esquina oposta e fui a pé até a construção abandonada, visando não alertar a Közi sobre minha chegada. Era uma indústria têxtil, produtora de grandes tecidos e um ótimo lugar para se trabalhar, famosa no início do século. Porém, segundo o que me contaram, as crises e greves de trabalhadores infelizmente a levaram ao seu fechamento. Depois de pular cercas de arame farpado que fizeram um estrago nas minhas calças, desviar de pequenas tábuas destruídas pelos cupins para dar um encontrão em tábuas maiores que escondiam aranhas e ainda tropeçar em tudo quanto foi porcaria, consegui entrar — e essa foi ironicamente a parte mais fácil, já que só precisei empurrar a porta da frente. Estava muito escuro dentro da fábrica. Eu queria andar depressa para encontrar Mana, mas qualquer movimento em falso estragaria meu disfarce (eu tinha algum?), embora para isso não houvesse solução porque eu não estava enxergando porra nenhuma. Até perdi a conta de quantas vezes bati a cabeça, prendi as mãos em tecidos velhos e dei de cara com máquinas.

Andei nessas condições lamentáveis por algum tempo, tateando o ar, até sentir o que parecia ser uma porta. Procurei pela maçaneta. Bom, tinha uma maçaneta, então era realmente uma porta. Abri, adentrando o local que aparentava ser um salão amplo e vazio, já que meus passos estavam fazendo eco. Caminhei colado com a parede, procurando por um interruptor como um cego com fome procurando a geladeira no meio da noite. Ou do dia mesmo, tanto faz, err, se o cara for cego, não tem diferença, tem? Mas não nos desviemos demais do assunto. Bom, por sorte encontrei o interruptor e já ia agradecer a Deus por isso, mas desisti assim que a luz revelou Mana de pé e me apontando uma arma.

- Não se mexa.

Como sempre, a primeira coisa que consegui pensar foi "puta merda".

- Mana? — na verdade, eu queria perguntar que droga estava acontecendo, mas achei que seria mais bonito dizer o nome dele. Pra parecer uma cena de filme, sabe?

- Faça o favor de ficar quietinho aí.

Aquele tom de voz, tão seguro de si... só o tom de voz, porque o corpo do cara tremia mais que... sei lá, pensa aí numa coisa que treme bastante. Sem gracinhas. Só o que eu sabia era que aquele Mana não era o mesmo que, horas antes, havia estado no sofá da minha sala.

- Mana... por que você...?

- Essa bala não é pra você, Kami!

O medo era perfeitamente visível em seus olhos. Tremia tanto que o revólver poderia cair a qualquer minuto.

- Mana, eu...

- Mas se der um único passo eu vou ter que atirar!

Não havia mais saída. Se não fosse por vontade própria, seria por uma bela escorregada daquele dedo, mas ele iria atirar em mim. Ah, eu ia morrer, eu ia morrer... mas não morri, caso contrário, você estaria lendo os quadrinhos num jornal agora.

Fixei meu olhar em Mana.

- Se não é para mim, por que irá desperdiçá-la comigo?

- Porque eu mandei — irrompeu uma voz nojenta de um ponto qualquer do salão.

Olhei ao redor. O dito dono do Banco de Londres estava parado frente a uma porta há poucos metros de distância. Em roupas negras de um novo-rico (que eu jurava que eram roubadas), tinha os braços cruzados e o nariz empinado, sorrindo feito um vampiro. Os cabelos rubros brilhavam à luz falha do cômodo inutilizado. O modo como seus olhos de um amarelo colérico me encaravam fez com que um arrepio descomunal me subisse pela espinha. Não que eu estivesse com medo, mas... o homem era ainda mais feio ao vivo do que na foto do jornal.

- Por favor, livre-se de sua arma.

- Como sabe que tenho uma arma?

Ele riu, debochado.

- Huhuhu... um policial não andaria sem uma arma, creio eu.

Porra, era verdade. Essa lei também se aplicava a mim, mesmo que eu estivesse no emprego errado. Suando frio sob a mira do revólver nas mãos de Mana, retirei a arma de um bolso interno do colete e a depositei no chão.

- Chute-a para mim.

Obedeci. Foi odioso ver minha arminha, tão bonita e bem polida, nas mãos daquela coisa monstruosa que chamavam de Közi.

- Será que agora alguém pode me explicar o que está havendo aqui?

- Por que não pergunta a seu amado Mana o que está havendo?

Voltei os olhos para Mana, aturdido.

- Mana...?

Közi se aproximou do pequeno, depositando-lhe um beijo na face.

- Diga a ele, Mana. Diga porque estamos fazendo isso... diga... diga! — o tom de voz lascivo e arrastado que usava para falar ao ouvido lolita me dava uma azia terrível. Tentei imaginar Közi na cama com uma mulher. Quase vomitei.

- Eu... — Mana hesitou.

- Você o quê, Mana?

Meu coração acelerou de uma vez só, entalando na garganta. Ainda tinha esperanças de que ele disesse que fora obrigado a tal extremo, mas todas as minhas esperanças morreram quando, da boca do lolita, saíram as três palavras que me atingiram com a força de uma bomba atômica.

- Eu amo Közi.

Meu mundo desabou naquele mesmo segundo.

Notas finais
O: