Sebastian Smythe - Contos

10 Uma semana em New York City - 2


Notas iniciais
Bom pessoal, aí está a parte final da narrativa de Andrew. Espero que gostem e que principalmente que tenham matado a saudades de Andrew. Para aqueles que não o conheciam, espero que tenham gostado dele. (Não se esqueça de ler as notas finais. Tem aviso importante.) Boa leitura!

14 de Outubro – Quarta-feira.

Durante a noite, após nosso tour pela cidade, paramos para jantar em um restaurante pequenino. Eu tenho um pouco de dificuldade para acompanhar o ritmo da cidade, por isso, após nosso segundo dia de turismo pela cidade de New York, me sinto esgotado.

O restaurante que entramos é o mais típico ítalo-americano possível. Apesar de minúsculo, o lugar é aconchegante. Sobrepostas às mesas circulares, há toalhas verdes e vermelhas quadriculadas, além de uma vela no centro de cada uma.

Há meia dúzia de clientes dentro quando chegamos. Eles parecem estar gostando de suas refeições e da música italiana ambiente que toca. Um garçom de meia idade gorducho com um grande bigode cultivado há muito tempo, caminha preguiçosamente até nós trazendo os cardápios no bolso frontal de seu avental.

– Buongiorno, meus amigos. – o homem que há poucos segundos parecia a pessoa mais desanimada viva, agora é a pessoa mais vivaz que já vi. – Já sabem o que vão querer ou vão querer o cardápio?

– Ah... – olho do garçom caricato para Sebastian.

– Vamos querer dar uma olhada no cardápio. – ele afirma simpático.

O homem tira dois cardápios de seu avental e nos entrega se retirando em seguida com a promessa que voltará em breve com uma cesta de pães italianos e uma jarra d’água.

Enquanto olhamos para o cardápio, minha atenção é distraída pela presença de um homenzinho caricatamente trajado de acordo com o ambiente que toca música italiana em seu violino em um pequeno palco no lado oposto ao nosso.

– Eu estou me sentindo no filme da Dama e o Vagabundo. – sussurro baixinho para que apenas Sebastian me ouça.

Meu comentário o faz rir, além de desviar seu olhar do cardápio para mim.

– Então, eu acho, que você não vai querer pedir o número 8, né? – ele me olha sobre o cardápio. Não posso ver seus lábios, mas posso apostar que está sorrindo, por que seus olhos se fecham um pouquinho, assim como sempre faz quando está sorrindo.

Seguro um suspiro que estou prestes a soltar por causa dele. Eu pareço um idiota sentado aqui dando mole pra ele. Olho para o cardápio procurando o prato número oito que nada mais é do que uma porção suficiente para duas pessoas de espaguete ao molho sugo e almôndegas. Sorrio abertamente para ele balançando a cabeça negativamente.

Sabe, às vezes é bem difícil de entender o que o Sebastian quer. Uma hora ele está todo interessando e respondendo as minhas investidas, mas no instante seguinte está recusando transar comigo dizendo que não é isso o que ele quer. Tudo bem, eu entendo. Beijar alguém não é a mesma coisa que transar com ela.

O que é difícil entender é o porquê, apesar de dizer amar Blaine ainda, com tantos restaurantes em New York. Por que diabos me trazer para este que tem todo um clima romântico? É pedir de mais de mim. Droga, eu sou apenas um ser humano comum e não o Capitão Eunuco sem desejos e sentimentos. A propósito, se esse super-herói existisse seria deprimente. Se bem que o vilão Darth Vader é eunuco e parece não ter muitos sentimentos... Bom, esse não é o ponto aqui.

Eu não sei o que ele espera de mim, mas isso não pode ser apenas amizade. Não pode ser coisa só da minha imaginação, talvez ele só queira ir mais devagar.

– Eu acho que é o prato perfeito. – o observo com carinho. Não consigo desfazer o sorriso em meus lábios.

– Sério? – ele pergunta surpreso.

– Eu não disse que não gostava do clima. – digo sincero.

Fecho o cardápio e o deixando na mesa. Sebastian repete o gesto descansando sua mão sobre a mesa. Seguro a tentação de segurá-la. Eu sei que, no quesito de nós dois como um casal, não houve qualquer progresso. A noite passada foi um fracasso. Mas eu não posso negar o instinto que há entre nós dois.

O garçom volta até nós trazendo o que havia prometido. Sebastian pede o número oito do cardápio e uma garrafa de vinho Cabernet Sauvignon que eu sequer consigo pronunciar.

– Eu não sabia que você era um entendedor de vinhos. – digo impressionado.

– Eu aprendi algumas coisas. – ele dá de ombros com um sorriso charmoso em seus lábios.

Será que é tentado ao pudor agarra-lo aqui mesmo e joga-lo nessa mesa? Respiro fundo enquanto repito insistentemente em minha cabeça: “Fica frio Andrew. Fica frio! Não estraga tudo.”.

– Você está se tornando um homem sofisticado, Sebastian. – flerto. – Isso é muito sexy.

Sebastian sorri envergonhado, mas não refuta ou ignora meu flerte.

– Sabe, eu fiquei deprimido com o passeio, mas isso aqui está salvando todo o dia – digo repousando minhas mãos cuidadosamente sobre a mesa.

– O que você esperava sentir quando disse que queria ver o memorial do 11 de setembro? – Sebastian toma um gole de sua taça com água. – Aquilo é um cemitério ao céu aberto, cara. Milhares de pessoas morreram de forma trágica naquele lugar.

– Eu sei. – aquilo não esta indo para onde eu quero que vá. – Mas ainda assim foi legal ter conhecido.

O jantar chega cerca de cinco minutos depois. Quando estamos na metade do jantar, vejo uma oportunidade de segurar sua mão e não a desperdiçarei. Deslizo minha mão pela mesa para segurar a sua, mas sou interrompido por uma movimentação estranha atrás do palco, cujo Sebastian senta de costas para.

“Ah... Oi, boa noite.” Blaine fala no microfone despertando a atenção de Sebastian, que sobe seu olhar do prato para me encarar cético por alguns segundos. Até que ele se vire na cadeira para olhar em direção do palco.

– Desculpem incomodar a janta de vocês, mas recentemente eu feri o coração de alguém que eu amo muito. Estou aqui para cantar uma coisa para ele. Eu não vou dizer muito mais, por que acho que essa canção vai dizer melhor por mim.

Blaine começa passar os dedos pelas teclas do teclado improvisado enquanto começa a cantar uma versão melancólica de Like I Can. Como se Sam Smith já não fosse melancólico o suficiente.

He could be a sinner, or a gentleman

He could be a preacher when your soul is damned

He could be a lawyer on a witness stand

But he'll never love you like I can, can

– Você só pode estar de brincadeira comigo. – murmuro pasmo.

Não consigo ver a reação de Sebastian a aquilo por estar de costas para mim, mas aquilo, de jeito nenhum é um ponto a meu favor.

He could be a stranger you gave a second glance

He could be a trophy of a one night stand

He could have your humour, but I don't understand

'Cause he'll never love you like I can, can, can

Não tem como não levar aquilo para o lado pessoal. Ele basicamente está cantando que eu nunca vou amar Sebastian como ele amará. Eu deveria subir naquele palco agora mesmo e tira-lo de lá. O que eu ganho é um Blaine machucado e um Sebastian me odiando. Então recolho minhas mãos da mesa, cruzando meus braços ao me encostar na cadeira, irritadiço enquanto Blaine faz sua declaração idiota para Sebastian.

Why are you looking down all the wrong roads?

When mine is the heart and the salt of the soul

There may be lovers who hold out their hands

But they'll never love you like I can, can, can

They'll never love you like I can, can

A chance encounter of circumstance

Maybe he's a mantra keeps your mind entranced

He could be the silence in this mayhem, but then again

He'll never love you like I can, can, can

Uma senhora, muito idosa, vem andando em nossa direção com uma cesta campestre de vime cheia de flores. Com um movimento discreto, a chamo até nós, enquanto Sebastian olha para Blaine.

Why are you looking down all the wrong roads?

When mine is the heart and the salt of the soul

There may be lovers who hold out their hands

But they'll never love you like I can, can, can

They'll never love you like I can, can, can

Blaine encara Sebastian vidrado enquanto toca o teclado idiota, no microfone idiota, essa música idiota com a sua voz idiota.

They'll never love you like I can, can, can

– Uma flor para ele. – digo apontando para Sebastian enquanto busco minha carteira no bolso da calça.

– Desculpe, querido. – ela diz quase sem ar. Talvez por que fumasse muito, já que ela cheira a cigarros. – Mas todas essas rosas já foram compradas por aquele rapaz ali para esse aqui.

Ela aponta de Blaine para Sebastian que fica atordoado quando recebe todas as rosas da florista idosa.

We both have demons, that we can't stand

I love your demons, like devils can

If you're self-seeking an honest man

Then stop deceiving,

Lord, please

Why are you looking down all the wrong roads?

When mine is the heart and the salt of the soul

There may be lovers who hold out their hands

But they'll never love you like I can, can, can

They'll never love you like I can, can, can

They'll never love you like I can, can, can

A noite no restaurante se resume em Sebastian deixando o mega buquê de lado, enquanto pede ao garçom que coloque nossas comidas em embalagens para viagem. O que é um grande alívio, por que realmente achei que ele se levantaria para correr na direção de Blaine e se agarrarem ali mesmo. Mas isso nunca aconteceu.

A viagem que fazemos do restaurante até seu apartamento é silenciosa e desconfortável. Levo a comida embalada para a geladeira enquanto Sebastian tranca a porta, tira seu casaco e joga as chaves em um pote de porcelana ao lado da porta.

– Quer jogar? – ele pergunta casualmente.

Tudo bem, aquilo é estranho, até para ele. Ele acaba de levar o maior pedido de ‘volta para mim’ no meio de um restaurante e a primeira coisa que diz após horas é “Quer jogar?”. Se ele quer fingir que nada aconteceu, então para mim, está tudo bem.

– E você, algum dia, precisou me perguntar duas vezes? – pergunto sorrindo.

Jogamos algumas partidas de Guitar Hero, até que estejamos verdadeiramente esgotados. E comer os restos que trouxemos do restaurante, no sofá, não nos soa como uma má ideia.

– Caramba, eu estou tendo um orgasmo aqui com essas almôndegas. – digo enfiando mais uma almôndega em minha boca.

Sebastian ri enquanto enfia mais uma garfada de espaguete na boca sujando o canto dela com molho. Pego um guardanapo o limpando com delicadeza.

– Valeu. – ele agradece olhando para a televisão.

Tudo bem, assistir Family Guy no Netflix, não é a minha definição de noite romântica perfeita. Não chega nem perto de um encontro ótimo, mas também nem perto de um encontro péssimo.

– Você só é uma criança grande, Sebastian. – digo carinhoso.

– Mas, ainda assim, sou bonitinho. – ele provoca.

– Ta brincando? Você é o cara mais feio que eu conheço.

Nós dois caímos na risada. Não consigo esconder meu olhar de admiração por ele e Sebastian logo percebe ficando sério enquanto bebe um pouco da água em sua garrafa.

– Posso perguntar uma coisa? – ele diz pensativo depois de algum tempo.

– Até duas, se a primeira for interessante.

– Tudo bem, ah... – ele descansa o garfo na embalagem com seu macarrão. – Você... Você ameaçou o Blaine hoje de manhã, não foi?

Respiro fundo antes de responde-lo. Mentir para ele não é sequer uma opção. Não que nossa relação tenha sido sempre muito franca, mas tentamos ser o mais franco possível um com o outro. Repouso a embalagem com a minha janta sobre a mesinha de centro.

– Ah... sim. – o observo em silêncio esperando sua reação, mas ele não demonstra nada. – Você está irritado comigo?

– Não. – ele soa sincero voltando a comer. – Na verdade eu fico feliz que tenha feito.

Meu coração dá um salto de felicidade.

– Isso significa que há esperança para nós? – me precipito em dizer. – Por que se tudo o que você precisa é que eu o bote para correr, então considere feito.

– Andrew, não... – ele diz calmamente.

– É sério. Eu faço isso. – digo sentando mais próximo dele no sofá. – Você sabe, Lacrosse é o nono esporte mais violento da América. O que significa que eu sei ser bem violento.

– Eu não estou dizendo isso. – ele esclarece.

– O que está dizendo então? – tento compreende-lo.

– Estou dizendo que, mesmo que eu esteja dando um gelo nele, ainda assim, eu gosto aquele idiota. – Sebastian diz as últimas palavras em um tom deprimido.

– Hmm... – olho para a televisão, mas não presto atenção nela.

Sebastian abandona sua comida sobre a mesa de centro também. Enquanto discursa calmamente. “A gente não conversou sobre a noite passada, Andrew.”

– Nós não precisamos. – digo sem emoção sem encara-lo.

– Precisamos sim. – ele se aproxima mais no sofá. – Olha, eu não vou falar que tudo o que fiz aquela noite foi por que eu estava bêbado. Eu estava, mas tudo o que fiz foi por que eu quis fazer.

Continuo com o olhar preso na televisão para não ter que encara-lo. Sebastian sabe o quanto essas coisas são difíceis, por isso não se importa. Talvez falar o que está prestes a dizer, seja mais fácil sem ter que encarar meus olhos de desapontamento.

– Eu quis que você viesse para New York por que você é o meu melhor amigo e uma das poucas pessoas que me sinto confortável para ficar ao lado. – ele discursa. – Mas também por que eu estou carente. Eu vi uma oportunidade de não se sentir o lixo que estava me sentindo há semanas, então meio que dei abertura para você. O que foi errado.

Balanço a cabeça concordando com o que fala.

– Eu não deveria ter feito isso sabendo que você tem esperança em nós. Sinto muito por ter feito isso. – ele me força a olha-lo. – Tudo o que fiz, foi por que eu quis que acontecesse. Mas agora, isso não pode voltar a acontecer.

– Por que Sebastian? Nós dois somos ótimos juntos.

– Eu concordo. Se fizéssemos um daqueles testes de internet que calculam quem é o seu par perfeito, então chegaríamos à conclusão que fomos feitos um para o outro.

– Obrigado por admitir. – digo sem emoção.

– Mas ainda assim, existe essa variável que não pode ser calculada, Andrew. O acaso, a coincidência, o destino, chame como quiser. – ele segura minha mão em suas com carinho. – E esse é o Blaine. Nós somos as pessoas mais diferentes um do outro que você pode imaginar. Ele é um cara bom, virtuoso e com um coração de ouro. E eu, bom, eu não sou nada disso.

– Você é uma pessoa boa, Sebastian. – digo irritadiço com a auto depreciação que ele faz. – Eu não acredito que você ainda possa defende-lo.

– Ainda assim eu, mesmo que doa, sou louco por ele. – assumir aquilo para si mesmo é tão doloroso que ele mal consegue suportar.

– Acredite, Sebastian... – digo amargurado soltando minha mão das suas. – Você ser louco por ele, não é só em você que dói.

Sebastian esfrega o rosto com as palmas das mãos enquanto tenta se recompor. Então é assim que o perco? Não importa o quanto o outro cara pise na bola. Eu nunca o terei de volta.

– Por que será que eu vivo te perdendo? – pergunto em um desabafo.

– Você não está me perdendo.

– Não, é sério Sebastian. – deixo parte do meu nervosismo transparecer em minha voz. – Eu sempre estou te perdendo e isso é uma droga, cara. O que tem de errado comigo que você sempre corre para o lado oposto ao meu?

– Você não fez nada. – ele se adianta a me responder. – Você é incrível, Andrew. Mas...

– Mas o que? – pergunto, mas Sebastian apenas encara o chão. A resposta para a pergunta é tão óbvia quando dura e cruel. Tão fácil que até eu posso responde-la. – Mas eu não sou o Blaine.

Ele não nega e nem confirma. Apenas me olha inexpressivo com certa vergonha em seus lindos olhos verdes. Há outra resposta fácil aqui, que esteve bem na minha cara esse tempo todo. Eu nunca o terei de volta pelo simples fato de que eu nunca o tive.

– Eu sinto muito, Andrew, – ele sussurra. – não vamos mais nos enganar. Você é o meu melhor amigo e você merece alguém que te ame do jeito que você merece ser amado. Profundamente e incondicionalmente.

Sorrio amargurado enquanto tento encarar os fatos.

– Você ficou aliviado quando a gente terminou? – pergunto amargurado.

– O que? Não, Andrew! – ele exclama. – Foi você quem terminou comigo e aquilo doeu muito. Você partiu meu coração.

– Eu não deveria ter te dispensado, não é mesmo? – concluo. – Assim você e o Blaine não teriam ficado juntos.

– Na verdade não fez muita diferença. – ele conta. – Quando fui falar com ele, estava pedindo o Kurt em casamento. Então, não fez diferença. Nós nos reencontramos em New York, no alojamento da faculdade.

– Isso é improvável. – analiso.

– É o que estou dizendo. – Sebastian franze o cenho enquanto fala. – Blaine é uma improvável na minha vida. Mas ainda assim, o que você fez, foi a coisa mais gentil e altruísta que alguém já fez por mim, Andrew. Você abriu mão do que tinha certeza por que sabia o quanto eu era uma bagunça por dentro. Você me deu a chance de me achar.

Não presto muito a atenção no que ele acaba de dizer. Minha mente está ocupada demais para tentar entender a probabilidade daquilo tudo ter acontecido. Como Sebastian e Blaine continuam se reencontrando, apesar de toda a distância e desafeto que aconteceu entre eles? Como isso é possível?

– Depois de tudo aquilo, vocês ainda se encontraram... – reflito deixando meus pensamentos escaparem em voz alta. – Espero, algum dia, encontrar um cara que me deixa assim.

– Eu não tenho dúvidas que você vá. – ele me da um empurrão carinhoso. – Quero dizer, você já se olhou no espelho? Você é gostoso e quente como o inferno.

– Nisso você tem razão. – dou-lhe um sorriso frouxo.

15 de Outubro – Quinta-feira.

Caminhamos lentamente em um dos tantos pequenos caminhos entre as árvores robustas do Central Park. O chão está coberto de folhas que caem o tempo todo da copa das árvores, variando de amarelas para laranja, vermelha e marrom. As luzes dos postes ornamentais já estão acesas às seis horas da tarde.

Faz uma tarde fria na cidade de New York, não muito adequada para o outono de outubros e sim para o inverno de dezembro. Sebastian e eu, assim como o restante das pessoas que passeiam pelo parque, parecemos com enroladinhos de salsinha por causa do excesso de roupa que vestimos devido ao frio.

Ainda que o lugar esteja cheio de natureza, quando olho para cima, posso ver os grandes arranha-céu rodeando a área em que estamos. Isso me faz soltar um “Wow!” fazendo uma grande quantidade de fumaça sair de minha boca.

– Esse lugar é incrível! – enfio minha mão livre no bolso do casaco emprestado de Sebastian, já que não estava esperando por tanto frio assim.

– É por isso que eu amo esse lugar. – ele diz com um largo sorriso nos lábios. Conforme ele fala o ar quente de sua respiração sai em forma de fumaça.

– Deve ser bom gostar do lugar que nasceu. – me divirto com toda a sua animação.

– Eu não nasci em New York. – ele diz bebericando de seu copo com chocolate quente.

– Eu sempre achei que fosse daqui. – digo confuso. – Depois foi para a Paris e sabe-se lá o porquê foi para Lima.

Sebastian ri derrubando um pouquinho de chocolate no quanto da boca, a qual ele limpa com a ponta de sua língua. Desde a noite passada, quando ele categoricamente afirmou que nossa relação é unicamente a de amizade, tem sido um trabalho difícil não olha-lo com o olhar de alguém que sente atração por ele.

– Sou de New Jersey. – ele afirma.

– É quase a mesma coisa. – dou de ombros bebendo meu chocolate fumegante.

– Se você falar isso para alguém daqui ou de Jersey, você vai levar uma surra. – ele diz rindo.

– Tanto faz. – dou de ombros. – Esse tarde fria está incrível e não vai ser um bairrismo idiota que vai estragar isso.

– Você tem razão. É um dia perfeito. – ele observa ao seu redor. – Sabe, tem uma música do Sinatra que se encaixa perfeitamente com esse momento.

Sebastian me olha empolgado e sei exatamente o que aquilo quer dizer.

– E obviamente você quer canta-la. – adivinho.

– Posso? – ele pede minha autorização como se fosse uma criança pedindo a permissão de seus pais.

Afirmo positivamente com a cabeça. Imediatamente Sebastian saca seu celular com a mão livre para buscar na internet a parte instrumental da canção.

– Autumn in New York – ele canta no ritmo lento e tranquilo da música original enquanto andamos. – Why does it seem so inviting?

Não é novidade nenhuma para mim que Sebastian é um fã de Frank Sinatra. Eu até comecei a gostar por que ele vivia cantando as músicas dele para mim. Isso trás nostalgia daqueles dias que ele me fazia ouvir setlists para escolher que música deveria cantar na próxima reunião dos Warblers.

– Autumn in New York – Sebastian dá alguns passos à minha frente, andando de costas para me encarar. – It spells the thrill of first-nighting

Em seu celular a música soa melancólica, mas ainda assim agradável para o momento.

– Glittering crowds and shimmering clouds in canyons of steel – algumas pessoas que passam em nossa volta o observa gostando do que estão vendo e ouvindo. Sebastian lança algumas piscadelas para alguns dos pedestres enquanto canta: They're making me feel I'm home.

Continuamos andando enquanto a parte instrumental dá a próxima deixa para Sebastian.

– It's autumn in New York – ele abre os braços fazendo menção ao próprio outono ao nosso redor. – That brings the promise of new love.

Ele coloca a mão esquerda, que segura seu iphone, sobre o lado esquerdo de seu peito, fazendo menção a última frase cantada. No caso dele, a promessa desse outono não é de um novo amor, mas o retorno de seu grande amor. Que já ficou bem claro que não sou eu. Me concentro para tirar esse pensamento negativo de minha mente para apreciar o que realmente importa aqui.

– Autumn in New York – ele realmente está interpretando a música. – Is often mingled with pain.

Um grupo de turistas nos cercam enquanto filmam a pequena apresentação de Sebastian com seus celulares.

– Dreamers with empty hands – ele se mostra desinibido em frente as cameras. – They sigh for exotic lands

Sebastian corre até um vendedor ambulante com um desses carrinhos com comida, tira duas chocolates espetados em um palito em forma de flor de lá. O vendedor fica confuso, quando está prestes a gritar para que Sebastian o pague, eu corro até ele para lhe entregar uma nota de cinco dólares.

– It's autumn in New York – canta enquanto caminha de volta ao seus espectadores. – It's good to live it again

O vendedor insiste que ainda o devo mais cinco dólares. O que tem naquelas flores de chocolate, ouro? Enquanto sou assaltado observo Sebastian, que está aproveitando cada segundo daquilo. Que exibido!

– Lovers that bless the dark – ele entrega as flores para um casal que o observa cantar. – On benches in Central Park

A moça fica exultante assim como o rapaz. Eu paguei por uma coisa que nem vou comer? Qual é?

– It's autumn in New York. It's good to live it again

Todos, sem exceção o aplaudem, inclusive eu. Sempre me perguntei o por que Sebastian não seguiu a carreira atlética, assim como eu. Ele era um atleta excelente. É bom que ele me faça lembra o por que. Ele é muito talentoso e sua voz um sonho. Fico feliz que ele tenha investido nisso.

– Uau! Isso foi incrível. – exclamo impressionado. Enquanto voltamos a caminhar, sem o público nos observando ou filmando.

– É o Sinatra. – ele diz guardando o smartphone em seu bolso.

– Pode até ter um dedo do Sinatra, mas você foi incrível. – insisto.

Quando estamos finalmente entrando no metrô para voltar ao seu apartamento, somos surpreendidos com uma agitação atrás de nós antes que as portas do metrô se fechem.

A principio, Sebastian não repara na movimentação, talvez por estar acostumado com pessoas se atirando para dentro do trem para não chegarem atrasados a qualquer que seja o lugar que estão indo. O que me chama a atenção é que o rapaz é conhecido. Blaine pede desculpas a todos que esbarra enquanto gera a maior confusão até que chegue a poucos metros de distância de nós, que ocupamos dois dos assentos laterais no vagão.

– Desculpem. – ele diz quando finalmente descansa o case de seu violão sobre o chão do trem.

– Sebastian, por favor, será que nós dois podemos conversar? – Blaine suplica.

– Não. – Sebastian rebate curto e grosso.

Surpreendentemente Blaine não se abala com a dureza de Sebastian.

– Eu imaginei que diria isso. – ele fala tirando o violão do case e o ‘vestindo’. – Eu só preciso que você me deixe falar que: Oh baby, give me one more chance.To show you that I love you.

Eu posso não ser um grande entendedor de músicas, mas a reconheço como I want you back do Michael Jackson, por que a ouvi nos créditos finais de Guardiões da Galáxia.

– Won't you please let me back in your heart – ele dedilha as cordas de aço de seu violão enquanto canta olhando diretamente para Sebastian, que o ignora olhando para seu celular. – Oh darlin', I was blind to let you go. But now since I see you in his arms.

Canto a letra da canção em minha cabeça por que eu realmente gosto de Guardiões da Galáxia. Acho que Sebastian me daria um soco por estar gostando daquilo.

– I want you back! – ele canta insistente. – Oh baby, give me one more chance. To show you that I love you. Won't you please let me back in your heart.

A música deve ter mais significado para os dois do que eu consigo captar, por que Sebastian fica com os olhos brilhantes como se estes fossem ficar marejados em breve, assim como os olhos de Blaine já estão. O que me faz pensar: “O que eu perdi? Por que todo mundo está quase chorando? Essa música é do Groot, galera. Animação!”

– Oh darlin', I was blind to let you go. But now since I see you in his arms – Blaine canta. – Yes I do now. I want you back!

Os passageiros a nossa volta o aplaude, enquanto ele enxuga os olhos na palma de suas mãos.

– É a nossa estação, Andrew. – Sebastian diz se levantando rapidamente.

Me levanto da assento que ocupo dando uma última olhada em Blaine que se frustra com mais uma rejeição de Sebastian. Eu não posso deixar de sentir pena e empatia por sua dor. Não que ele não mereça o tratamento que Sebastian está lhe dando, mas você sabe, às vezes o Sebastian é muito cabeça dura.

16 de Outubro – Sexta-feira.

Não ter dinheiro é, sem dúvidas, uma coisa nova para Sebastian. Mas para mim é tão natural quanto beber água. Convencê-lo de que ficar em casa em uma sexta-feira à noite seria uma boa ideia, foi a coisa mais difícil e trabalhosa que já tive que fazer na vida.

Isso por que o meu orçamento para durar uma semana já foi estourado, assim como imagino que Sebastian também não esteja esbanjando tanto dinheiro assim para bancar nós dois. Ficar em casa assistindo ao jogo de basquete dos Knicks contra os Centics me pareceu uma boa ideia.

Esse era um tipo de coisa que vivíamos fazendo quando estávamos namorando. Sebastian e eu somos muito ligados em esportes e isso com certeza era uma coisa que tínhamos e comum. Ele podia não gostar dos filmes que eu o forçava a assistir, mas quando o assunto era esporte, não tinha erro.

Se alguém nos visse assistindo a qualquer esporte, pensariam que éramos apenas dois amigos hétero assistindo a uma partida juntos. Exceto por baseball. Você já assistiu a uma partida de baseball? Se já, você já percebeu que normalmente algum jogador está com ereção. Assistir à baseball excitava a nós dois.

– Aaaah que fome! – reclamo me contorcendo no sofá enquanto seguro minha barriga que ronca de fome. – Quando é que essa pizza vai chegar?

– Daqui a pouco. – Sebastian fala enquanto pega duas latas de cerveja na geladeira. – Para de reclamar.

– Como é que você vive à base dessas coisas? – enfio almofada em cima de meu rosto para grunhir de fome.

– Cara, não faz nem três minutos que pedimos a pizza. Sossega. – ele ordena ao repousar as latas em cima da mesa de centro.

– Eu não estou falando disso. Estou falando de você viver à base de fast food. – a voz sai abafada por causa da almofada.

– Eu não vivo de fast food. – ele faz uma pausa antes de concluir. – Bom, pelo menos isso é recente. Eu não sou muito bom em cozinhar.

Isso deixa claro que a pessoa que costumava cozinhar não era ele. Blaine é um assunto que evitamos de falar, até por que não serei eu o primeiro a falar dele. Um novo assunto surge em minha cabeça, um mais problemático do que o fato do ex-namorado cozinheiro dele não estar mais aqui.

– Então, como vai fazer para se sustentar aqui? – pergunto retirando a almofada de meu rosto para que ele saiba que aquilo é uma preocupação genuína.

– Não sei ainda. – Sebastian dá de ombros enquanto liga a televisão no canal da ESPN.

– Você ainda não conseguiu achar nenhum trabalho como ator?

– Nada ainda. – ele diz. – Isso ta muito mais difícil do que eu imaginei.

Acontece que tudo é mais difícil do que a forma que imaginamos. Digo por experiência própria, quase vi minha carreira como atleta fracassar antes mesmo que tivesse a chance de começar.

– Vai aparecer alguma coisa – o tranquilizo. – Sabe, eu achei que não ia dar certo pra mim, mas agora com a promessa desse olheiro, tudo muda. Mesmo que eu não consiga, eu vou continuar tentando até que dê certo. Assim como você vai fazer. Fica tranquilo.

– É. Você tem razão. – ele fala se reclinando no encosto do sofá.

Sebastian nunca teve que passar por perrengues por falta de dinheiro. Muito menos a sensação de incerteza de não saber o que esperar pelo amanhã. Não quero preocupa-lo mais do que ele precisa ficar, então tento aliviar a tensão que aquele assunto trouxe entre nós.

– Mas, é claro, sempre tem outra opção... – digo com um sorriso e olhar maliciosos para ele.

– Eu não vou me prostituir, Andrew. – ele ri.

– Sério? – finjo surpresa com sua resposta. – Logo você? Sebastian, eu te conheço, cara.

– Aquilo era brincadeira. – ele me recrimina com seu olhar por ter ousado tocar nesse assunto.

– Brincadeira é? – digo desconfiado, mas sem conseguir esconder a graça que acho daquilo. – Até hoje nunca mais vi as minhas 15 pratas.

Sebastian se levanta para pegar sua carteira no bolso traseiro da calça, mas quando a abre só tem duas pratas nela.

– Eu te devolvo depois quando passar no banco. – ele promete guardando a carteira.

– Não precisa pagar. – digo dando um tapinha em sua bunda antes que ele volte a se sentar. – Eu prefiro continuar pensando que eu paguei por aquele mamada gostosa.

Dou uma piscada de olho para ele rindo. Ele sabe que nunca precisou ter esse tipo de resguardo comigo. Independente do que já passamos ou iremos passar, eu sempre fui e serei amigo desse idiota.

A pizza chega cerca de dez minutos depois, um tempo recorde. Em Lima, a pizza teria chegado muito depois. Acho que essa é uma, das tantas, vantagens de se morar em uma cidade como New York. Passamos a noite nos fartando com as deliciosas e incomparáveis pizzas New Yorkinas enquanto assistimos ao NY Knicks dar uma surra nos Celtics.

17 de Outubro – Sábado.

Pela manhã, enquanto Sebastian está no banheiro tomando banho para que possamos dar continuidade a minha programação de turismo gratuito, o celular dele toca insistentemente.

Caminho pelo quarto até a mesa de cabeceira, que é onde seu celular repousa. No visor da tela há apenas a letra “B” maiúscula sem nenhuma foto para o contato. Ignoro a chamada, mas o telefone toca mais uma dúzia de vezes até que eu súcuba e o atenda.

– Alô?

– Oi, Sebastian. – a voz do outro lado da linha é masculina. Ele fala surpreso rapidamente. – Sou eu, Blaine.

– Não. – digo calmamente sentando na cama de Sebastian. – Aqui é o Andrew.

– Pode passar para ele? – ele pede seco.

– Desculpa, Blaine. Ele está no banho. – digo.

Blaine faz silêncio e após alguns segundos entendo o quanto aquilo soa ruim.

– Não, olha, ele não está tomando banho por que a gente transou... – explico. – Se é o que isso pareceu.

– É, foi o que pareceu. – Blaine diz sem emoção. – Eu ligo depois então.

– Olha, cara, eu não sei se é uma boa você ficar ligando. Ele só vai te ignorar.

– Eu vou tentar mesmo assim. – há convicção em sua voz.

– Olha, Blaine. Eu estou do seu lado. – falo o mais baixo que posso para que Sebastian não me ouça. – Você precisa de uma abordagem nova.

– E por eu você acha que eu acreditaria nisso?

Ele não tem nenhum motivo para acreditar em mim. Mas eu sei o quanto Sebastian precisa dele.

– Você não tem o porquê acreditar em mim. Mas eu sei que ele ainda gosta de você. – falo baixo para que Sebastian não possa me ouvir. – Olha, eu vi como ele ficou tocado todas as vezes que você apareceu e cantou alguma coisa cafona para ele... E não estou dizendo que você não é um idiota. Eu te acho um idiota, mas ainda assim você mexe com ele.

– Eu preciso falar com ele. Me explicar.

– Eu não posso fazer muito por você, olha a gente vai passar o dia no estádio dos Yankees, então dá o teu jeito de ser ouvido.

Estou prestes a desligar a ligação quando escuto Blaine me chamar.

– Ah... Andrew?

– Fala.

– Obrigado. – ele soa sincero.

Desligo o celular o repousando no mesmo lugar de origem.

. . .

Passamos a tarde explorando todas as lojas e ambientes disponíveis do lado de fora do estádio. É apenas após almoçarmos na Hard Rock Café que percebo qualquer indício de que Blaine está por perto. Seja lá o que ele veio fazer, parece ser grande.

Uma movimentação do lado de fora nos faz andar entre a multidão que se aglomera até ouçamos uma música. Um bando de garotos, usando o uniforme da Dalton adentram na sala se posicionando na frente da classe. Acompanhei competições de coral do Sebastian suficiente para saber que aqueles eram os Warblers.

“Oh yeah” Blaine exclama ao se aproximar dos Warblers igualmente trajado como os demais rapazes. “Oh yeah” ele exclama novamente enquanto os outros Warbles fazem um tipo de background reproduzindo o som da música apenas com sons feitos por eles mesmos.

– So scared of breaking it. That you won't let it bend. – Blaine canta – And I wrote two hundred letters I will never send.

Olho para Sebastian, que está boquiaberto com o que vê diante de seus olhos e não posso deixar de achar graça em sua reação.

– Sometimes these cuts are so much deeper than they seem. You'd rather cover up, – Blaine canta flertivo. – I'd rather let them bleed. So let me be and I'll set you free.

Um grupo de pessoas segurando um botão de tulipa cada um, andam para entrega-las a Sebastian. De algum modo, Blaine consegue a proeza de conectar sua voz e dos cantores nos altos falantes dispersos pelo local.

– I am in misery – ele canta enquanto faz alguns passos em sincronia co os rapazes. – There ain't nobody who can comfort me.

Blaine anda com um olhar perigoso em seus olhos semicerrados em direção de Sebastian que sorri encantado, mas logo se contém, voltando a fechar sua cara. “Why won't you answer me?” Blaine o pergunta antes que sobreponha as mãos sobre meu peito e cante: “The silence is slowly killing me. Oh yeah!”

– Boy, you really got me bad – ele se afasta voltando de Sebastian voltando a formação inial, onde ele e os Warblers dançam em sincronia.– You really got me bad. I'm gonna get you back. I'm gonna get you back!

Vejo um sorrisinho se formar novamente nos cantos dos lábios de Sebastian.

– Your salty skin and how it mixes in with mine – as pessoas ao redor batem palmas em ritmo da música. – The way it feels to be completely intertwined. Not that I didn't care it's that I didn't know, it's not what I didn't feel, it's what I didn't show.

Eu gostaria de saber a onde ele conseguiu arranjar tanta gente para entregar flores, por que as pessoas continuam andando até Sebastian e as entregando a ele.

– So let me be and I'll set you free. – Blaine suplica. – I am in misery.

Talvez a pergunta mais pertinente aqui seja: Como foi que ele conseguiu reunir todos os antigos membros dos Warblers?

And there ain't nobody who can comfort me. Why won't you answer me?

The silence is slowly killing me.

Boy, you really got me bad, you really got me bad.

I'm gonna get you back. I'm gonna get you back!

Blaine pula sobre um dos tantos bancos da propriedade enquanto expoem: I'm desperate and confused so far away from you.” Sua apresentação é infatica e direto ao ponto. Ele quer Sebastian de volta e não vai desistir tão fácil assim. “I'm getting there, I don't care where I have to run.”.

– Why do you do what you do to me, yeah? Why won't you answer me, answer me, yeah?

a musicalidade cantada pelos Warbler cessa sendo substituída por graves palmas

– Why do you do what you do to me, yeah? Why won't you answer me, answer me, yeah?

– I am in misery. There ain't nobody who can comfort me.

Why won't you answer me? The silence is slowly killing me.

Boy you really got me bad, you really got me bad.I'm gonna get you back. I'm gonna get you back.

Sebastian não consegue disfarçar o quanto aquilo o impressiona com a apresentação. Apesar da multidão os aplaudirem fervorosamente, eles dão se permitem a parar para agradecê-lo. Enganchando uma nova música no arranjo da anterior, os Warbler começa a cantar Dark Side e finaliza com Don’t Speak.

Ao final das apresentações, tudo o que Sebastian faz é dar as costas para os Warblers e caminha em direção do estacionamento, onde deixamos seu carro. Fico para trás olhando para Blaine que o observa com olhar de desapontamento.

18 de Outubro – Domingo.

Mais uma vez, pela manhã, o celular de Sebastian toca incessantemente, mas diferente dos dias anteriores, dessa vez ele o atende.

– Alô? – ele atende grogue.

Não consigo ouvir o que a pessoa do outro lado da linha fala, mas Sebastian demora ale responder com um simples “Oi.” A pessoa do outro lado murmura outra coisa ao que Sebastian responde com: “Bem, você me ligou, então vá em frente.”.

Do outro lado da linha a pessoa fala por um bom tempo até que Sebastian o responda. “Eu não sei Blaine. Eu realmente não quero ver você agora.” ele fala passando os dedos entre os cabelos eriçados enquanto Blaine fala.

– Então as coisas entre nós realmente terminaram? – ele pergunta um pouco abalado, mas não deixa transparecer em sua voz sonolenta.

A reação de Sebastian não indica qualquer que tenha sido a resposta de Blaine. “Tudo bem.” Ele concorda apático ao que Blaine responde com animação, mas ainda assim não consigo identificar o que diz.

– É. Eu acho. – Sebastian dá de ombros. Blaine parece muito animado do outro lado do telefone, pois não para de falar, até que Sebastian o interrompa. – Me encontre daqui a duas horas na Starbucks da NYADA.

Não demora até que Sebastian desligue o telefone e se jogue de volta na cama, ao meu lado.

– Você ouviu tudo, não foi? – ele murmura com a cara enfiada no travesseiro.

– Ouvi. – o observo em silêncio. – Vocês vão voltar?

– Não. – ele diz abraçando seu travesseiro.

Eu estranharia se ele dissesse o contrário. Quando foi que vi Sebastian ceder facilmente a qualquer coisa? Nunca é a resposta. Não importa o quanto ele queira. Não importa o quanto isso o fira. Ele vai sempre buscar algum tipo de punimento para a outra pessoa que o fez se sentir mau. O que ele não percebe é que no meio de toda essa vingança, ele é quem acaba sofrendo mais.

– Bom, meu voo vai sair em... – olho para o relógio. – quatro horas. E gostaria que você me acompanhasse.

– É claro que eu vou te acompanhar, Andy. – Sebastian enfia seu dedo indicador em minha bochecha, cutucando meu rosto. Dou um tapa em sua mão para afasta-la.

– Não me chama desse jeito, só a minha mãe me chama assim. – digo me levantando de sua cama.

– Tudo bem, Andy. – ele fala com um sorriso frouxo nos lábios com a cara encostada no travesseiro de olhos fechados. – Eu não deixaria meu melhor amigo ir para o aeroporto sozinho.

– Feioso. – lanço o travesseiro que estava deitado contra ele.

– Baranga. – ele rebate.

. . .

Pontuais como um relógio, Sebastian e eu, entramos na filial da Starbucks no campus da NYADA duas horas depois. Para a nossa surpresa Blaine já espera Sebastian e um dos sofás do local.

– Hey! Obrigado por ter vindo. – Blaine diz ao se levantar para cumprimentar Sebastian, que ignora qualquer contato físico que ele tanta estabelecer entre eles.

– Tudo bem. – Sebastian diz sem emoção ao sentar-se no sofá, em uma distância segura de Blaine. Eu, porém sento ao lado de Sebastian.

– Eu pedi o seu café favorito. – ele fala para Sebastian.

– Valeu. – agradeço pegando a caneca destinada a Sebastian.

Sejamos francos, eu não acordei logo cedo para ter que pagar oito dólares em um pouco de café, não é mesmo? Eu sei que o Sebastian não beberia por que foi Blaine que comprou, então que mal há?

– Então, você voltou mesmo para New York? – Sebastian pergunta como se não importasse.

– É com certeza. – Blaine me censura com o olhar por ter pego o café de Blaine, mas ainda assim consegue ser simpático com Sebastian. – Eu percebi que meu futuro está aqui e eu não vou jogar tudo para o alto.

– Bom para você. – Sebastian continua com seu tom monotomo.

– Obrigado. – ele diz finalmente desviando seu olhar de mim para fixar sua atenção no que realmente importa. – Olha... Isso está me matando. Essas últimas semanas eu pude analisar sobre algumas coisas...

– Que tipo de coisas? – Sebastian pergunta com má vontade.

– Minha carreira, faculdade...

– Hmm...

– E a coisa mais importante. – Blaine engole seco. – Nós.

– Isso sequer ainda existe? – Sebastian o encara cético.

– Eu espero que sim. – Blaine parece recioso com a reação de Sebastian e com razão.

Eu não perderia essa discussão por nada na minha vida, mas só o café não desce bem em meu estômago. Olho no balcão uma infinidade de donuts expostos na vitrine e aquilo me dá água na boca.

Me levanto para comprar um com cobertura azul e recheio de chocolate, o que leva alguns minutos, minutos preciosos que perco da discussão deles. Quando estou voltando para o sofá que ocupam, posso ouvir e ver os ânimos exaltados de ambos. A conversa já tinha saído do ritmo apático e avançado para o nível ‘quero te matar’.

– Por favor, me deixe terminar. – Blaine suplica.

– Terminar o que, Blaine? – Sebastian está com o rosto vermelho de raiva. – O que você precisa me dizer? Que vocês transaram?

Blaine balança a cabeça negativamente. Quando está prestes a abrir a boca para retrucar, Sebastian o interrompe:

– Você esteve pensando? Muito bem, pois eu também. Estive pensando como esses últimos quatro meses tem sido uma grande mentira. – surpreendentemente o tom de sua voz é calmo, mas ele definitivamente não está calmo. – Por acaso as coisas que me disse eram verdade? Isso foi um tipo de vingança pelo inferno que eu fiz na sua vida na época da escola? É algum tipo de joguinho doentio em que você brinca com os meus sentimentos e depois me descarta para ficar com o Kurt?

Se eu tenho certeza de alguma coisa sobre a vida é que eu realmente não gostaria de ser o Blaine agora.

– Você sabe que tudo foi verdade. – Blaine retruca.

– Eu sei? – Sebastian diz irônico. – Aparentemente eu não sei de nada sobre você, Blaine.

– Olha, nós nãos transamos, certo? Eu apenas o beijei e percebi que eu não o amo mais. – ele tenta se explicar. – Não dessa maneira. Da maneira que eu costumava ama-lo. Está bem?

Dou mais uma mordida em meu donut enquanto os observo atentamente e em silêncio.

– Tenho certeza que não foi nada comparado com o que você fez com o seu amiguinho aqui. – Blaine diz apontando para mim.

– Isso é verdade. – digo sincero.

– Andrew, por favor. – Sebastian me corta voltando sua atenção para Blaine. – Não envolva ele no assunto, já que qualquer coisa que a gente tenha feito foi depois de você me levar para outro estado só para terminar comigo. Sabe, Blaine não me importa o que vocês fizeram...

Aquilo é claramente uma mentira deslavada de Sebastian.

– O que importa é o que fez comigo. Se você tinha dúvidas com relação aos seus sentimentos, você deveria ter me falado e não me arrastado para Lima para me chutar lá.

Ambos se encaram furiosos. Eu até esperaria que eles beijassem dentre alguns segundos e trepariam em cima desse sofá mesmo, mas isso aqui não é um filme pornô. É apenas a vida real. Então eles apenas se encaram até que Blaine quebre o silêncio.

– Dane-se isso, Sebastian. Eu amo você. É você e apenas você. Tem sido por mais tempo do que eu pude perceber. Eu cometi um erro estúpido, mas eu amo você.

– É, você cometeu. E eu to muito puto com você agora, Blaine. – Sebastian recobra sua calma aos poucos. – Então eu só vou te falar uma vez. Pare de me seguir, certo? Pare com as músicas.

Blaine o encara constrangido enquanto o seu duro discurso continua.

– Olha, eu sei que para você expor seus sentimentos, você gosta de cantar sobre eles. Eu entendo isso, mas eu não quero que faça mais isso. Não para mim.

– Me desculpe. Eu realmente quero que você saiba que eu realmente quero você de volta.

– Sim você deixou isso muito claro para mim. Mas, essa coisa. O que você fez foi desprezível. Você foi um cuzão, Blaine. – ele o encara duramente. – Realmente acredita que cantando me fará mudar de ideia?

As palavras de Sebastian finalmente conseguem ferir Blaine. O que surpreendentemente me da dó. Eu sei exatamente o que ele fez, mas ainda assim eu consigo sentir pena dele. Sebastian pode ser duro com suas palavras e ações, mas por dentro sei que está tão ou mais ferido que Blaine.

– Me avisa quando você for tirar o resto das suas coisas do apartamento – ele diz ao se levantar. – por que eu vou ter que alugar o segundo quarto.

– Tudo bem. – Blaine diz se emoção. Ele mal consegue encarar Sebastian ou a mim.

– Vamos, Andrew. – Sebastian fala enquanto se afasta do sofá. – Não vai querer perder o seu voo.

– Eu to indo. – falo toando o resto do café. – Quero mais um donut.

Sebastian deixa a cafeteria em poucos segundos.

– Obrigado pela ajuda. – Blaine diz realmente magoado.

– Tudo bem. – digo sincero. – Olha, Blaine, desculpa pela forma que eu falei com você naquele dia.

– Eu acho que mereci. – ele fala amargurado.

– É, mereceu. – concordo, mas ainda assim sinto pena dele. – Então, foi legal te conhecer.

– Foi legal te conhecer também. – ele dá um sorrisinho frouxo.

– Seja bom pra aquele cara, por que se não, na próxima vez eu não vou ser tão condescendente. Se você der sorte dele ainda te querer, seja bom.

– Você ouviu a conversa, ele não me quer e não tiro sua razão.

– Ele quer, mas está te odiando. – aquilo soa sem sentido, mas faz todo o sentido para Blaine. – Esse é o Sebastian. O orgulho besta dele não o deixa fazer o que o coração dele realmente quer. Isso vai exigir um certo trabalho da sua parte.

– Eu faço qualquer coisa para reconquista-lo, mas você o ouviu. Ele quer que eu pare. Eu não posso continuar por que isso vai virar abuso. – Blaine fala.

Conversamos por alguns minutos até que eu o convença do contrário. Levanto do sofá e antes eu me despeça pergunto:

– Quanto você tem de altura?

– 1,72, por que? – ele responde confuso.

– Nada. – digo aéreo. – Eu só estou tentando entender.

Sebastian me espera do lado de fora já em seu carro pronto para me levar ao aeroporto.

– Quando você vai voltar? – ele pergunta.

– Eu não sei, Sebastian. – digo sincero. – Mas eu prometo que volto antes de ser o padrinho no seu casamento.

– Cala a boca. – ele ri do que eu digo. – Eu nunca vou me casar.

Nossa despedida é breve e sem muitos rodeios, para não ficarmos sentimentais demais. Estou voltando para a minha vida pacata e comum na cidade de Lima, Ohio.

Onde certa vez, no colégio, conheci um garoto chamado Sebastian Smythe, que foi um grande amor em minha vida, mas hoje somos, não apenas bons amigos, mas sim melhores amigos. Não há nada que eu não faça por ele, até mesmo abster meus sentimentos para que ele encontre o verdadeiro amor nos braços de outro cara. Talvez, algum dia, eu encontre alguém assim para mim também.

Notas finais
Como devem saber amanhã, 31 de outubro, é Halloween. o/ E é claro que a Sebastian e Blaine terão o seu próprio especial aqui. Então não perca, à partir da meia noite (30 p/ 31 de outubro) será postado um novo capítulo. O especial de Halloween Seblaine. Estão empolgados? Eu estou! Até mais!