Sebastian Smythe - Contos
14 Segundo encontro.
Notas iniciais
É uma manhã fria que faz do lado de fora da cafeteria que Sebastian e eu entramos as presas para fugir da nevasca que nos pega de surpresa. “Aqui está!”. Me aproximo da pequena mesa redonda, que Sebastian ocupa, trazendo nosso café da manhã.
– Um café expresso com cafeína extra para você... – repouso a caneca na frente de Sebastian, enquanto me sento na cadeira a sua frente. – E um Latte de Abóbora com especiarias para mim.
– Obrigado. – Ele envolve a asa da caneca com seus longos dedos para leva-la à boca. – Você só esqueceu de mencionar que esse Latte vem com chantilly extra.
Ele se diverte enquanto toma seu café. Logo atrás de mim, o barista traz uma porção quentinha de cronuts com recheio e cobertura extra de geleia de frutas vermelhas, que acabaram de sair do forno, além de um cesto com uma porção de croissants de queijo. Sebastian se espanta com a quantidade, mas fica em silêncio até que o rapaz nos deixe a sós novamente.
– Não me julgue. – o censuro antes mesmo que tenha a chance de fazer graça. – Eu estou nervoso e você sabe que gosto de comer doce quando fico nervoso.
– Eu não estou te julgando. – Sebastian sorri enquanto beberica seu café. – Eu só acho graça.
Dou uma golada generosa em meu latte quando o pego me espiando por cima da caneca presa entre seus lábios.
– Por que está nervoso? – ele pergunta interessado enquanto pega um dos croissant.
– Pelo encontro é claro. – minto.
– Hmm... É bom estar mesmo. – ele brinca dando uma mordida no pão. – Não quero que você pense que sou fácil, só por que te deixei me beijar no primeiro encontro.
Balanço minha cabeça negativamente achando graça. Ele não precisa bancar a virgem Maria pra cima de mim.
– Obrigado por ter aceitado sair comigo de novo. – agradeço sincero.
– Tudo bem. – ele dá de ombros. – Eu não tinha mais nada para fazer hoje.
– Eu vou tentar não levar isso para o lado pessoal. – repouso minha caneca sobre a mesa. – Enfim, é muito bom passar essa manhã de sábado tomando esse café da manhã maravilhoso.
Ele encara o conteúdo de meu copo interessado.
– Está bom? – ele faz menção ao latte. – Está com cara de bom.
– Está incrível, mas não tão incrível quanto a companhia. – arrisco. – Quer provar?
– Não, obrigado. Eu estou bem com a minha injeção de cafeína aqui. – ele levanta sua caneca dando ênfase. – E você não precisa exagerar.
– Não é exagero. – declaro. – O único problema é esse tempo feio lá fora.
Ambos olhamos para o lado de fora através das enormes vidraças da cafeteria, que ao invés de paredes é cercada por vidro.
– Eu acho que o tempo está ótimo. – Sebastian cruza os braços enquanto observa o lado de fora. – Adoro neve.
– A época tem a sua beleza, mas eu prefiro o outono e a primavera. – anuncio.
– Bom, eu vou ignorar o fato de você não se importar de ter sido num dia como esse... – ele aponta para a janela que exibe a neve branquinha caindo delicadamente do céu. – que nós ficamos pela primeira vez.
Abro a boca para retrucar, mas ele não permite que eu sequer comece. O problema é que se nevar mais forte do que agora, isso arruinará a metade dos programas que planejei para hoje. Não posso deixar isso acontecer por que hoje precisa ser simplesmente perfeito.
– Ainda assim, – ele continua. – eu preciso dizer que acho uma graça como você acha que eu gosto de reviver os anos que vivi na França.
Ele sacode o croissant em sua mão dando ênfase ao que acaba de dizer. Eu costumava pensar que ele gostasse da comida francesa, mas parece que não o conheço tão bem quanto imaginei.
– Ah... eu não sabia que... – balbucio.
– Tudo bem. Não são de todo mal.
Comemos em silencio por algum tempo até que eu encontre uma brecha para toca-lo. Repouso minha mão sobre a sua enquanto ele bebe mais um gole de seu café. No fundo, como de costume, há uma música tocando suavemente. Eu reconheceria a voz de Elvin Bishop até de baixo da água. Fooled Around & Fell in Love se mistura com o som ambiente da cafeteria e com o murmurinho dos outros clientes.
– Eu posso dizer que estou tomando café com o cara mais lindo desse lugar? – sussurro flertivo. – Por que se eu puder, eu digo!
– Você pode até tentar, mas eu não vou concordar. – ele dá uma piscadela enquanto envolve meu polegar com quatro dedos, acariciando as costas da minha mão com seu polegar.
Desvio minha atenção para nossas mãos, voltando a olha-lo novamente logo em seguida. Neste exato momento sou fisicamente incapaz de conter o sorriso que se forma em meus lábios. É como me apaixonar por ele novamente. E assim como da primeira vez, eu me sinto nervoso e animado ao mesmo tempo.
– Então... – ele interrompe o silêncio entre nós. – Posso perguntar o que planejou para hoje? Por que aparentemente eu levantei essa manhã sem ter a mínima noção do que vai rolar.
– Não, isso estragaria toda a emoção da surpresa. – explico me arrependendo instantaneamente das palavras ditas.
– Então tem uma surpresa? – ele pergunta desconfiado.
– Não! – afirmo exasperado. – É claro que não tem surpresa. Não tem surpresa nenhuma. Eu só estou dizendo que quero te surpreender.
Sim, tem uma surpresa. O fato que posso não ter mencionado ainda é que hoje é o aniversário de Sebastian. Eu estou tão ansioso para ver a cara dele quando ver as surpresas que preparei para o longo do dia para ele.
– Tudo bem. – ele me encara desconfiado. – É só que eu odeio surpresa.
– Você odeia surpresas? – o encaro alarmado. – Você ama surpresas! Que tipo de pessoa odeia surpresa?
– Eu. – ele dá de ombros. – Por que está agindo tão estranho, Blaine?
– O que? Eu ajo estranho o tempo todo, você vai precisar ser mais específico. – dou uma risada desafinada e nervosa que faz Sebastian recuar na cadeira. – Desculpa. É a puberdade. Minha voz está mudando.
– Você já saiu da puberdade, Blaine. Você tem vinte anos. – ele me faz lembrar.
– Você tem razão. – dou um tapa em minha testa que estrala fazendo um barulho enorme. Sebastian me olha como se eu tivesse perdido o juízo. – Você me dá licença? Eu preciso ir ao banheiro.
Levanto da cadeira tropeçando no pé da mesa quase fazendo nossos cafés caírem em cima de Sebastian. Meu Deus, isso está um verdadeiro desastre. Ando com emergência para o banheiro onde saco meu celular para fazer algumas ligações.
•• P.O.V. Sebastian ••
Tudo bem, eu confesso que eu sei exatamente o que está acontecendo aqui. Sei que o Blaine andou planejando algumas coisas extravagantes para hoje. Eu não sou idiota. Quero dizer, não esse tipo de idiota. Você viu como ele surtou quando disse que não gostava de surpresas? Admito que estou me divertindo com essa neura toda.
Eu não sei como ele pode não ter percebido que isso estava tão óbvio para mim. Na semana passada, enquanto eu voltava para o apartamento, logo depois de ter levado o lixo para fora o peguei desligando o telefone todo nervoso. Então comecei a prestar mais atenção no que ele estava aprontando.
Ele ficou me dando tarefas idiotas só para que eu não ficasse perto dele. Quem faz isso além de pessoas que estão tentando esconder alguma coisa de você? Só dois tipos de pessoas fazem isso 1) os que estão tentando esconder um caso romântico, mas não estamos namorando, então essa é improvável e 2) pessoas que estão planejando uma surpresa para você. Fico com a última.
•••
Quando volto do banheiro, Sebastian parece não perceber nada. Eu confesso que seria tão bom quanto o James Bond, se eu tivesse investido nessa carreira. Sou praticamente o mestre dos disfarces. Pega-los, antes que nos pegue. É o meu jeito de fazer as coisas.
– Nossa, você está suando. – Sebastian me observa intrigado.
– Não, eu não estou. – limpo as gotas de suor em minha testa com as costas da minha mão boa. – Eu só espirrei água da torneira em mim sem querer.
– Ah... – ele volta a tomar seu café desviando a atenção de mim. – Então, senta aqui olhos amendoados, vamos tomar esse café da manhã delicioso, por que eu estou ansioso pelo que vem em seguida.
Ele dá mais uma de suas piscadinhas enquanto sorri para mim. Ele não faz a mínima ideia do que está para acontecer. Essa é a vantagem quando se tem a sutileza e habilidade de um ninja que tenho. Como eu disse: Mestre dos disfarces.
– Então, Sebastian, me conte mais sobre você. – brinco.
É legal que tenhamos essa interação de um casal que acaba de se conhecer, por que Sebastian e eu nunca tivemos isso realmente. Sentar uma mesa de café e conversar e nos conhecer em um verdadeiro encontro nunca aconteceu e é legal fazer isso, mesmo que estejamos fingindo não nos conhecer.
– Bom, eu sou um agente especial do FBI. – ele não hesita um segundo sequer em entrar no espirito da brincadeira. – Estou na cidade a negócios.
– Jura? — entro na brincadeira. – E você pode sair contando isso para os caras com quem você tem encontros?
– Na verdade eu sempre esqueço que não posso contar. – ele balança a cabeça negativamente parecendo lamentar pelo o que disse. – Sabe, toda vez que eu conto isso eu tenho que dar um jeito de silenciar o cara.
– O que isso significa? – finjo preocupação.
– Significa que não são boas notícias para você. Sabe, nem é por mim, mas é pelo protocolo. – ele fala sem emoção. – Você é uma ponta solta agora e eu não deixo pontas soltas. O que é uma pena, por que você é bonitinho.
O encaro com os olhos semicerrados, o que o faz se desmanchar em risos.
– Tudo bem. – ele fala ao se recompor. – Eu sou estudante de artes cênicas na NYADA.
– Ah isso parece mais plausível. – afirmo. – Eu também sou da NYADA.
– Legal! – ele finge empolgação.
Sebastian conta mais sobre sua vida acadêmica e impressionantemente acabo descobrindo mais algumas coisas novas sobre ele. Espio o relógio e vejo que é hora de sairmos dali para a primeira surpresa do dia.
– Sebastian!? – uma voz masculina soa no meio de um aglomerado de pessoas que tentam se organizar na fila para fazerem pedidos.
Um rapaz alto de cabelos castanhos perfeitamente alinhados caminha até nós com um copo de café para viajem. Conforme ele se aproxima, posso ver que seus olhos são de um azul claro intenso, sua barba é rala e, apesar de ter o mesmo tom de seu cabelo, conforme a luz bate sobre ela, os frios ficam louros. Exatamente como os fios de suas sobrancelhas grossas.
– Oi. – Sebastian o cumprimenta. – Ah...
– Dylan. – o rapaz anuncia enquanto para na frente da mesa que ocupamos. – Dylan McLaren. Sou o seu aluno nas aulas de reforço de coreografias.
– Isso mesmo. Dylan. – Sebastian estrala os dedos ao pronunciar o nome do rapaz. – Sinto muito por não me lembrar do seu nome. Eu tenho problemas em lembrar nome das pessoas.
– Não precisa se desculpar. – ele fala educadamente. – Imagino que com todos os alunos que tem seja natural. Eu já fico feliz de se lembrar só do meu rosto.
Agora posso perceber que o rapaz tem sotaque britânico. Ótimo! Agora ele passou de um aluno bonitão para um Lorde Britânico bonitão.
– O seu rosto não é muito fácil de ser esquecido. – Sebastian fala simpático.
Simpático demais para o meu gosto. Cruzo meus braços com dificuldade por causa da tala no braço direito, encosto no encosto da cadeira enquanto observo Sebastian atentamente.
– É muito bom encontra-lo aqui. Eu precisava mesmo falar com você. – o rapaz diz com o seu tom de voz suave. – Eu posso me sentar um segundo?
– Claro, fique à vontade. – Sebastian diz indicando a cadeira livre entre nós.
– Sabe, eu passei a noite treinando aquele novo passo, mas eu não estou conseguindo fazer aquilo da forma correta. – ele fala calmamente. – Talvez se eu tivesse mais algumas horas da sua monitoria, eu poderia conseguir fazer isso da forma correta.
– Jura? – Sebastian o encara confuso. – Você é um dos melhores da classe. Acho que nem precisa mais da minha ajuda.
É nítido para mim o que está acontecendo aqui. Ou o Sebastian sabe ou finge que não sabe para me irritar, por que até agora ele sequer me apresentou para o amiguinho dele.
– Não, sabe, é que eu tenho essa coisa comigo de auto cobrança e nada além do impecável é bom o suficiente para mim. – dessa vez Dylan tem intensidade em sua voz e olhar enquanto observa atentamente Sebastian. – É o que eu sempre digo para mim “Dylan, se não estiver impecável, então não vale a pena ser feito.”.
– Legal, – digo em um tom sarcástico. – você se refere a você mesmo na terceira pessoa.
Sebastian parece notar minha presença ali depois de séculos, assim como Dylan percebe que estou ali pela primeira vez.
– Ah, esse é o meu amigo. – Sebastian aponta para mim. – Blaine Anderson.
– Ah eu já ouvi falar em você, é um prazer. – o rapaz fala.
– O prazer é todo meu, Dylan. – minto.
– Ah, desculpe eu estou atrapalhando alguma coisa?
É perturbador o tom de sua voz é tão suave e veludosa.
– Não, nós só estávamos conversando. – Sebastian se adianta em responde-lo.
– E sobre o que estavam falando? – Dylan pergunta curioso.
– Ah, sobre a minha vida, você sabe, essas coisas. – ele fala em tom descontraído.
– Eu adoraria escutar isso. – Dylan fala empolgado. – Se você não se incomodar.
Lanço um olhar fuzilante para Sebastian se livrar do amiguinho dele, mas ele finge não entender. Dando de ombros ele concorda em prosseguir com a conversar que estávamos tendo antes do intrometido se meter entre nós.
Sebastian dá uma versão resumida e superficial sobre como foi morar em New Jersey, para depois e mudar para Paris, Lima e New York.
– É eu percebi, você tem uma sofisticação de um homem que já experimentou a diversidade mundial. – Dylan afirma.
Sebastian ri sem graça enquanto eu rio de desgosto. As coisas não estão indo como eu planejei, mas nada que eu não possa contornar.
– E você vive sozinho em New York? – ele insiste.
– Na verdade eu divido o apartamento com um cara. – Sebastian desvia seu olhar para mim rapidamente enquanto bebe mais de seu café. Eu o encaro sem emoção.
– Seu namorado? – ele arisca.
– Não. Quero dizer, não mais.
O único motivo para ele dar corda para o rapaz é para me provocar. Não é possível.
– E por que ele não é mais o seu namorado?
– Bom, isso ainda é meio doloroso para mim, Andy. – Sebastian responde com uma falsa afetação em sua voz. Eu quero esgana-lo.
– É Dylan. – ele o corrige calmamente.
– Pois é Dylan. – ele coça a testa enquanto faz a pior atuação de alguém que está com o coração em pedaços. – Nós estávamos em um relacionamento estável e ele simplesmente terminou comigo para ficar com o ex-namorado dele.
– Eu aposto que não foi isso o que aconteceu. – falo com os dentes cerrados após um longo tempo ouvindo toda aquela bobagem. Eu odeio quando ele fala que foi desse jeito que aconteceu.
Isso faz com que o cara britânico me encare cético. Mas não por muito tempo, por que logo em seguida ele volta a observar Sebastian.
– Nossa ele deve ser louco, quero dizer, com todo o respeito de aluno para mentor. – Dylan repousa sua mão sobre a de Sebastian a tirando após alguns segundos. – Eu tenho uma completa, profunda e respeitosa admiração por você.
Jura? Ninguém percebeu. Quanto ao respeitosa, duvido muito.
– Bom, como você saberia, não é mesmo? – Sebastian responde a mim. – Mas eu não o culpo. Fico feliz que ele tenha pelo menos terminado comigo antes de fazer qualquer coisa. Sabe, se livrar do peso morto antes de seguir em frente.
– Acho que você está sendo dramático. – o encaro irritadiço.
– Como você poderia saber? – é Dylan quem me encara agora. – Só a pessoa que sentiu a dor sabe o que realmente sentiu.
Respiro fundo tentando manter o meu autocontrole.
– Eu concordo com o David. – Sebastian afirma.
– Dylan.
– Isso, Dylan.
– Sabe, se eu tivesse a sorte de namorar com alguém do seu tipo, nossa... – ele solta um sorrisinho frouxo cheio de charme. – Eu não o deixaria escapar nunca.
– Obrigado, Dylan. Isso é muito gentil.
– Sabe, eu conheci o ex-namorado dele... – tento falar. – e ele não era nenhum monstro.
– Então me diga, Blaine. – Sebastian e interroga. – Que tipo de pessoa pega o coração de alguém que o da com toda a confiança e amor e daí o joga na lata de lixo e corre atrás do seu ex-namorado?
Estou prestes a abrir minha boca para retrucar, mas é Dylan quem o responde.
– Nenhum tipo de ser humano. – Dylan afirma enfático e horrorizado. – Só monstros fazem isso.
– Isso mesmo. – Sebastian concorda com ele. – Isso mesmo.
Um sorrisinho se forma no canto do rosto de Sebastian. Ele faz aquela coisa que ele se mantém sério, mas uma pequena curva nos cantos dos seus lábios se formam. Eu quero muito bater nele nesse momento.
A conversa entre eles continua enquanto o tempo passa e todo o nosso cronograma vai por água a baixo. Mais uma hora se passa até que o cara se manque e nos deixe a sós novamente, mas a essa altura não é mais seguro deixar Sebastian sozinho comigo.
– Tudo bem, eu tenho que ir rapazes. – ele se levanta da cadeira que ocupa. – Eu gostaria que pudéssemos marcar mais aulas, estou disposto a pagar pelo tempo extra, se necessário, Sebastian.
– Se você achar necessário, isso seria ótimo, Timmy. – Sebastian afirma sorridente.
– É Dylan. – o rapaz repete mais uma vez sem perder a paciência e a calma.
– Desculpe, Dylan.
É só quando Dylan deixa o café que volto a abrir minha boca.
– Eu gostaria que pudéssemos marcar mais aulas, estou disposto a pagar pelo tempo extra, Sebastian. – o imito com seu sotaque britânico idiota.
– O que foi? – Sebastian ri abertamente agora.
– Sério? – pergunto indignado. – Ele está dando em cima de você. Aulas particulares extras é a cantada mais antiga da humanidade.
– Não seja ridículo, Blaine. – Sebastian fala displicente. – É só um cara que acabou de chegar no país e está tentando explorar.
– Estou vendo bem o que ele quer explorar. – falo irritadiço.
– Ah você está com ciúmes?
Tanto eu quanto ele sabemos que essa pergunta não será respondida. O silencio se estabelece entre nós até que ele comece a insistir para que continuemos a conversar. Sedo, mas sou incapaz de tirar Dylan de minha cabeça.
– Você já foi noivo? – Sebastian ri enquanto se reclina sobre o encosto da cadeira. – Que doideira.
– Nem tanto. – afirmo sincero.
– Sei lá, para mim é sim. Eu não me imagino casado. – ele fala enquanto brinca com o a sua caneca vazia. – É insano demais. Você em algum momento deve olhar para si e se perguntar “O que eu fiz comigo?” Talvez tenha sido a melhor coisa que tenha te acontecido, digo, romper o noivado.
– Você não pensa em se casar algum dia? – pergunto realmente interessado na resposta.
– Não. – ele é rápido em responder. Não hesita em responder um segundo sequer.
– Você nem pensa em ter uma família ou coisa do tipo? – insisto.
– Não.
– Então por que está procurando um relacionamento?
Aquilo podia ser apenas uma brincadeira no início, mas agora aquilo começa a me ofender e magoar verdadeiramente.
– Eu não estou. – ele dá de ombros. – Não desde que meu ex pegou meu coração e ...
Sebastian não se atreve a terminar a frase, por que sabe que estou muito próximo de atingi-lo com alguma coisa pesada, maciça e inquebrável.
Tudo bem, talvez o café da manhã tenha sido um fracasso, e a aparição de Dylan tenha nos atrasado para o cronograma que havia programado para nós. As coisas começam a sair do controle por que quando saímos finalmente da cafeteria a neve começa a descer massivamente nos obrigando a ir a uma loja de roupas.
– Ah, você está uma gracinha. – afirmo quando ele sai do provador vestido com um suéter cashmere caramelo claro que o obriguei a experimentar.
– Não tem enche. – ele afirma mal humorado. – Eu achei que ficou muito gay. Pra que precisa desses botões nessa gola? E por que essa gola tem tanta lã?
Reviro os olhos e ando até ele.
– Você é gay, Sebastian. – enfio um sobretudo marrom em seus braços para ele vestir. – Relaxe. Não tenha medo de parecer com o que você realmente é.
– Ser gay não é tudo o que eu sou. – ele fala se distraindo com o sobretudo em suas mãos e o vestindo em seguida. – Como ficou?
– Lindo! – levanto o colarinho do sobretudo enquanto ele o abotoa.
– Agora eu só preciso de um cachecol e um par de luvas. – falo animado.
É a primeira vez que Sebastian e eu fazemos compras de roupas para ele. É uma chance perfeita que tenho para vê-lo vestido da forma que eu gostaria que ele se vestisse. Por que, vamos concordar que, ele veste como se fosse um hetero. Empurro alguns cachecóis e luvas para ele experimentar antes que ele se canse daquilo.
– Você não acha que está exagerando?
– De jeito nenhum. – falo com convicção.
Saímos da loja quentinhos e devidamente agasalhados dessa vez. O tempo piora do lado de fora a cada hora que se passa. As ruas de New York começam a se transformar em um grande amontoado de neve, tornando difícil saber diferenciar as ruas de calçadas.
– Obrigado pelas roupas novas. – ele fala enquanto andamos sem rumo, por que a essa altura meus planos estão arruinados.
– Nah isso não foi nada. – dou de ombros. – Fica como presente de Natal.
– Obrigado, mas sabe, a gente não ia precisar disso se tivéssemos voltado para casa e pegado nossos casacos. – ele fala. – Como sugeri antes da gente entrar nessa loja.
– Não, a gente não pode fazer isso. – transpareço meu nervosismo ao responder rápido demais. Por que eu continuo estragando tudo?
– O apartamento fica a três quarteirões daqui. – ele fala sem compreender minha reação exagerada.
– Jura? – finjo surpresa. – Eu não tinha percebido.
– Não tinha percebido que essa é a avenida que você passa todas as manhãs para ir a faculdade?
– Pois é, acho que estou meio distraído – dou um risinho nervoso enquanto continuamos a caminhar.
Dou uma espiada no relógio do meu celular e Sebastian vê.
– Você precisava estar em algum lugar?
– Não. De jeito nenhum. – respondo alarmado. – É como diz na canção. Não há outro lugar que eu prefira estar.
Eu não consegui fazer uma coisa acontecer certo hoje. E isso está acabando comigo. Por que será que é tão difícil fazer alguma coisa para ele?
– Por favor, não começa a cantar. – ele pede antes que eu tenha a chance fazer qualquer coisa.
– Tudo bem. – fecho a boca chateado.
Andamos lentamente em frente a uma pequenina praça. Temos uma visão dela da janela do apartamento de Sebastian e sempre vemos mães com seus filhos pequenos brincarem aqui pela manhã. Devido a nevasca o lugar está silencioso e deserto. O que dá um ar de tristeza para o lugar que costuma estar sempre cheio de vida e risadas infantis.
Sebastian se interessa pelo lugar, assim como eu. A pequena fonte de água está congelada e todo o chão está coberto de uma camada densa e profunda de neve. Atravessamos a rua tomando cuidado para não escorregar para chegar até a praça.
– Está vendo, Blaine? – Sebastian caminha com cautela pelo lugar assim como eu. – Aquelas pobres mães não podem aproveitar esse dia lindo de neve graças aquelas pestinhas que ficam doentes o tempo todo.
– O que você quer dizer?
– Quero dizer que se elas tivessem optado por não ter uma família, elas estariam aproveitando toda essa beleza aqui fora. – ele provoca. – E não enfornadas em suas casas cuidando dos remelentinhos.
O assunto sobre família retorna, o que não é uma boa ideia, já que sua posição não sobre o assunto não me agradou em nada. Eu poderia lidar com a situação de uma forma madura e sábia, mas ele está pedindo por isso desde a hora que começou a me provocar pela manhã com aquele britânico idiota. Então, obviamente, escolho a opção mais infantil possível o empurrando para derruba-lo no chão.
A neve fofa e densa não o deixa se machucar. Ele não se irrita. Já estava esperando por aquilo, eu imagino. Com os braços e pernas esticados ele faz um anjo da neve. Me deito sobre o chão, ao seu lado, o imitando criando o meu próprio anjo de neve.
– Ótimo, agora já temos dois anjos de neve gays. – ele fala após se levantar e me ajudar a me levantar.
– Anjos não são assexuados, Bas.
– E imaginários também. – ele observa as formas no gelo em silêncio. – Espera aí. Desde quando voltou a me chamar desse jeito?
– Hmm... Eu achei que não tivesse problema.
– Não tem. – ele dá um sorriso frouxo enquanto se afasta de mim e caminha em direção ao centro do parque.
Próximo ao chafariz uma camada de gelo faz com que Sebastian escorregue e caia de costas no chão. Corro até ele tentando socorre-lo.
– Você está bem? – pergunto exasperado.
– Estou... Ai! – ele geme de dor.
O puxo, mas Sebastian não parece fazer força para ser puxado, mas sim para me derrubar.
– Sebastian, não! – peço. – Eu estou com o braço quebrado. Nós dois vamos nos machucar.
Mas é claro, quando foi que ele já me ouviu antes? Não consigo me livrar de suas mãos que se agarram as minhas com firmeza. Com um único puxão, o frágil atrito que existia entre meus pés some, me fazendo perder o equilíbrio e cair sobre Sebastian.
– Ai! – gemo.
– Você está bem? – ele parece preocupado.
– Machuquei meu joelho. – passo a mão sobre a calça tentando fazer a ardência passar. – Está feliz agora?
– Bastante. – ele se diverte.
– Sebastian? – encaro seus olhos verdes.
– Hmm?
– Eu quero você de volta. – digo sincero. – Não por ego ou qualquer outro motivo idiota e superficial. Eu quero por que gosto mesmo de você e sinto muito a sua falta como meu parceiro.
– Eu odeio essa palavra. – ele revira os olhos. – Parceiro.
– Não no sentido em que costumávamos usar por que gays não podiam se casar e chamar um aos outros de namorado, noivo ou marido. – explico. – Eu estou falando de parceria. Uma equipe. E somos ótimos juntos. Eu sinto falta, Sebastian.
– Tudo bem. – ele dá de ombros como se não se importasse.
Me levanto em silêncio o deixando para trás. Seja lá o que eu tivesse planejado para hoje, nada agradaria Sebastian, por que ele não está sendo a melhor companhia hoje. Talvez tudo tenha sido um grande erro. É uma coisa boa até. Nota para mim no futuro. Nunca tente surpreender Sebastian Smythe.
Enquanto atravesso o parque alguma coisa atinge minha nuca me fazendo perder o equilíbrio e tropeçar passos à frente. Ouço uma grande gargalhada atrás de mim.
– A onde pensa que está indo, Anderson? – Encaro Sebastian que tem mais uma bola de neve entre suas mãos.
– Ah, você não fez isso. – o encaro bravo, mas não de verdade.
– Ah eu fiz! – ele provoca. – O que vai fazer a respeito disso?
Entramos em uma guerra de bolas de neve, que levei desvantagem nos primeiros minutos, mas consigo me equilibrar na briga depois de algum tempo. Por fim, não tenho a menor chance de ganhar dele.
– Eu estou congelando. – choramingo.
– Eu estou vendo. – ele me observa com atenção. – Melhor irmos para casa.
– Não sei se consigo chegar a algum lugar. – minto. Não podemos ir para casa ainda. – Eu estou morrendo de hipotermia.
Sebastian me olha alarmado.
– Vou chamar um taxi. – Sebastian me ajuda a sentar no banco da calçada enquanto tenta fazer um taxi parar para nós.
Na verdade, não estou com tanto frio assim. Só estou tentando ganhar tempo. A tarefa de conseguir um taxi em um dia de neve é quase que impossível em New York.
– Vamos. – ele diz após vinte minutos. Ele me ajuda a levantar passando meu braço em torno de seu pescoço.
– Obrigado.
Sebastian passa o endereço para o motorista ao entrarmos no taxe. Incrivelmente pegamos transito, fazendo um caminho de cinco minutos durarem incríveis vinte minutos.
– Como está se sentindo? – Sebastian pergunta baixinho para que apenas eu possa ouvi-lo.
– O calor do carro está me fazendo me sentir melhor, — digo e isso não é uma mentira por completo. – mas ainda não é o suficiente.
Ele me acolhe em seus braços esfregando suas mãos em meus braços me aquecendo rapidamente. Eu não me orgulho do que estou fazendo. Na verdade, me sinto culpado e feliz por ele estar cuidando de mim, mesmo que eu não precise. Aconchego minha cabeça em seu peito fechando os olhos ouvindo seus batimentos cardíacos.
– Hey, amigo, a rua está fechada. – o motorista fala com Sebastian. – Você quer ir andando ou posso pegar o desvio? Vai demorar mais uns vinte minutos.
Sebastian olha do motorista para mim. Ele sabe exatamente qual é a resposta certa que deve dar.
– Na verdade acho que vamos a Ponte do Brooklyn. – ele diz finalmente me surpreendendo. – Dizem que fica lindo nessa época do ano. O que acha Blaine?
– É a melhor ideia que eu ouvi hoje. – digo baixinho para ele.
– Ponte do Brooklyn! – ele afirma para o motorista.
Tudo bem, talvez ele soubesse que eu não estava morrendo de hipotermia, mas sei que ele não sabe que ele ainda vai ter pelo menos uma surpresa hoje. Talvez meu erro tenha sido achar que eu poderia fazer isso como James Bond, mas quem eu quero enganar aqui, não é? Não sou o J.B. Sou o Pássaro Noturno e apenas O Vingador Noturno poderá fazer essa surpresa de aniversário dar certo.
Sabe, a coisa com os dias frios de inverno é que começa a escurecer muito cedo. O que normalmente costuma deprimir as pessoas, na verdade anima Sebastian. As quatro horas da tarde o céu começa a escurecer e é quando chegamos próximo a ponte do Brooklyn.
– É melhor do que eu imaginei. – ele diz baixinho.
– Eu concordo. – falamos de coisas totalmente diferentes. Nada do que havia planejado para hoje chegava perto da beleza daquele cenário em frente aos nosso olhos.
Descemos do taxi, mas Sebastian pede que ele nos espere. Ele segura minha mão enquanto caminhamos até a área de observação. Me apoio na grade de contenção e, para a minha surpresa, Sebastian me abraça por trás apoiando seu queixo em meu ombro direito. Seus braços envolvem minha cintura enquanto ele se aproxima mais.
Observamos o rio East que passa sob a ponte. A água tem o movimento calmo e tranquilo, o vento gélido bate em nossos rostos desprotegidos e a neve se acumula no topo de nossas tocas e ombros.
– Eu sentia falta disso. – confesso a ele.
– Eu também. – ele fala. – Quero dizer, o Brooklyn é lindo. O que há de errado com a gente de não ter vindo para cá mais vezes?
Ele sabe exatamente que não é sobre isso o que estamos falando e por isso ri enquanto me dá um beijo carinhoso na bochecha.
– Você é tão bobo. – falo.
– É eu sei.
Me viro para encara-lo. Com seu rosto entre minhas mãos o beijo carinhosamente. Nossos lábios estão frios, mas se esquentam conforme o beijo perdura.
– Acho que está na hora de ir. – ele anuncia.
Parece noite quando voltamos para o taxi novamente. São apenas seis da tarde, mas estamos dentro do horário planejado. O caminho é mais tranquilo e chegamos em casa dentro de poucos minutos.
Empurro a chave para a fechadura enquanto tento destrancar a porta. Para Sebastian isso pode parecer o fim do nosso encontro, mas ele não está nem perto de estar certo... Espere... Sinto uma apalpada firme se fartando com minha bunda.
– O que está fazendo? – encaro Sebastian surpreso e assustado.
– Te dando um pouco da minha espontaneidade que você tanto gosta. – seu tom é provocante e sensual.
Ele envolve minha cintura com seus braços enquanto os meus repousam em seu ombro tentando afastado. Não há pior hora para Sebastian decidir que quer transar do que agora.
– Você tem razão, eu gosto, — tento falar, mas seus lábios em meu pescoço quase me fazem sucumbir. – mas não acho que seja uma boa ideia a gente fazer isso agora, Bas.
Sebastian empurra a porta, me empurrando para dentro do apartamento que esta submerso em um completo breu.
– Vai com calma! – peço enquanto ele apalpa minha bunda e explora meu pescoço.
– Não precisa fazer cerimônia comigo. – ele fala entre beijos. – Você me provocou o dia inteiro. Fala que você não quer.
– Espera aí. – tento afasta-lo mais uma vez.
Sebastian está ocupado demais com sua boca em meu pescoço enquanto tenta arrancar meu casaco. Com esforço consigo ascender a luz. Sebastian me olha por um instante enquanto um coro atrás de nós grita “SURPRESA!”. Sebastian para de me beijar. Seus lábios se afastam de minha pele vagarosamente para observar surpreso todos atrás de nós.
– Esse é o meu garoto. – uma voz familiar diz logo atrás de mim.
– Andrew? – Sebastian balbucia. – O que você está fazendo aqui? O que todos vocês estão fazendo aqui?
Consigo me desvencilhar das mãos de Sebastian que está petrificado observando todos. Rachel, Sam, Artie, Santana, Brittany, Mercedes, Kurt, Elliott e Quinn desviam olhares entre si pela cena constrangedora que acabam de assistir.
– Caramba que entrada triunfal. – Sam fala baixinho para Mercedes que dá um tapinha no ombro dele.
Sebastian não reage muito bem a presença deles ali. Mesmo assim a festa começa. Só o vejo conversar com Andrew e Elliott. Não era isso o que eu tinha em mente quando planejei uma festa. Entro em meu quarto para enviar um SMS para Tina, que ficou de trazer um aparelho de karaokê, mas sou interrompido por motim. A maioria do pessoal entra em meu quarto para reclamar do comportamento de Sebastian.
– Oi, meninas. – comprimento Brittany e Santana que adentram em meu quarto. – Eu agradeço por terem vindo. Como foi a lua de mel de vocês?
Mas minha pergunta não é respondida. Santana parece uma fera.
– Eu juro que se eu tiver que passar mais um segundo naquela sala do lado dele, – ele ameaça. – eu vou enfiar o meu salto naquela bunda magrela dele.
– Santana, eu te dei esses saltos. – Brittany fala chateada.
– Eu sei, Britty. – Santana envolve os ombros dela a afagando com carinho para tranquiliza-la. – É só um jeito de falar.
Abro a boca para falar, mas não tenho a mínima ideia do que dizer. Quinn adentra no quarto logo em seguida, mas sua expressão parece branda.
– Tudo bem, o que ele disse para você? – pergunto a ela tentando me esquivar de Santana.
– Ah... – ela olha para todos sem entender. – Do que está falando?
– Do Sebastian. Qual é a sua reclamação contra ele? – pergunto sem emoção.
– Nenhuma. – ela afirma sorridente. – Ele está sendo um doce comigo. Ele realmente mudou. Se eu não soubesse que ele é gay, eu até diria que ele estava me passando uma cantada.
– Aparentemente ele só está sendo legal com ela. – Artie se pronuncia.
– Ah isso não é verdade. Ele está sendo um doce comigo. – Elliott levanta a mão.
– É impressão minha ou ele tem cisma com os meus namorados? – Kurt retruca. – Eu deveria me preocupar com isso?
– Claro que não. – eu e Elliott respondemos simultaneamente.
– Sabe pessoa... Nós somos muito mais do que um bando de pessoas que estudaram o Ensino médio na mesma escola. – começo a falar. – Somos muito mais do que só amigos de adolescência. Nós somos como...
– Uma família. – é Sam quem completa minha frase.
– Isso, Sam, somos uma família. – concordo com ele. – E eu tenho muita sorte por ter todos vocês em minha vida.
Quando eu vim para New York, eu tive a sorte de poder ter sido amparado com o apoio e companheirismo das pessoas que eu amo. Eu tive vocês para me ajudarem a me fazer sentir em casa nesse lugar. Sebastian não teve essa mesma sorte que TODOS nós tivemos. Na verdade, eu acredito, que ele tenha tido muito pouco disso ao longo de sua vida.
Minhas palavras surtem efeito neles. Não é a minha intenção os fazerem se sentir culpados, mas de que outra forma eu poderia fazer isso, além de expor da verdade?
– Debaixo de toda aquelas palavras hostis, sarcásticas e cruéis, existe um ser humano incrível. – garanto. – Eu estou falando sério, galera. Qual é? As pessoas mudam. Todo mundo tem um motivo para agir da forma que age. É um mecanismo de autodefesa que ele tem. Ele já sofreu muito abandono.
Respiro fundo antes de prosseguir.
– Santana, você era a pessoa mais hostil que conheci do corpo estudantil e tudo por que você tinha problemas em assumir a sua sexualidade. – mesmo tendo medo de sua reação, continuo. – O que estou dizendo é que todo mundo tem problemas e se ele reage dessa forma é só uma válvula de escape para tudo de ruim que se passa em sua cabeça.
Eu o amo e o quero de volta. Então, por favor, façam esse dia ser legal para ele.
Saio decidido do quarto os deixando para trás. Na sala só encontro Andrew sentado no sofá.
– Onde ele está? – pergunto a ele sobre Sebastian.
– Está puto lá fora com você. – ele responde displicente.
– Será que ninguém aqui sabe festejar? – desabafo irritadiço.
– Sei lá, talvez ele não saiba por que, segundo você, – ele faz uma pausa antes de continuar. – “Ele teve muito pouco disso durante sua vida.”
– Vocês ouviram? – pergunto horrorizado.
– Em alto e bom som. – ele fala sem emoção. – Você tá super ferrado, Blaine.
Ignoro Andrew deixando o apartamento a procura de Sebastian. O encontro no corredor andando de um lado para o outro nervoso. Isso não pode ser um bom sinal.
– Sebastian. – o chamo.
– Você acha que eu preciso disso? – ele dispara antes mesmo de me encarar com um olhar fuzilante. – Caridade?
– Não é nada disso, Sebastian. – tento me explicar, mas o que exatamente eu estava pensando quando disse tudo aqui?
– Então me diga o que é Blaine. – ele cospe as palavras com raiva. – Por que é exatamente com isso o que se parece.
Esfrego meu rosto com a mão tentando achar a coisa certa a dizer.
– Eu só queria que você se sentisse amado e bem quisto no dia do seu aniversário.
– Mas adivinha, Blaine. Eu não sou. Manipular os seus amigos não vai fazer eles gostarem de mim. Eu nem gosto deles. – ele aponta para a porta do apartamento fazendo menção as pessoas lá dentro. – Eles tem motivos para não gostarem de mim.
Sebastian passa as mãos em seus cabelos os deixando eriçado.
– Eu não tenho problemas em ter apenas um amigo que eu me sinta confortável em contar as coisas. Você não entende, não é? Nem todo mundo precisa ser como você, rodeado de gente e atenção o tempo todo para se sentir completo e feliz. Eu gosto de ser um cara solitário. O amigo que tenho já me basta.
– Espera aí, eu sou o seu amigo também.
– Será que é? Será que é mesmo? Por que o que você fez não é coisa de amigo. Você me constrangeu como se eu tivesse mendigando pela atenção dessas pessoas.
– Isso não é verdade, Sebastian. – insisto fatigado. – Esqueça o passado. Olhe para nós. Não estaríamos aqui hoje se não tivéssemos colocado um ponto final nisso.
Ele não me encara mais. Com os braços cruzados, encarando o chão, Sebastian se encosta na parede do corredor com cara de poucos amigos.
– Vocês se deram bem no dia que eu estava no hospital. – o lembro. – Se vocês conseguiram se dar bem lá, por que não tentar agora? Se esforçar para tentar dar certo. Você os ataca com ofensas por nada.
– Eu fiz aquilo por você, Blaine. – ele murmura.
– E por que fez isso? – me aproximo dele tentando fazê-lo me encarar.
– Por que eu te amo. – seu olhar é denso e sombrio.
– E eu amo você Sebastian. – aperto sua mão com firmeza para ele saber que estou falando sério e não vou recuar. – Também amo aquelas pessoas, por que fazem parte de quem fui e quem sou. E terei sorte se eles se mantiverem em minha vida para serem parte de quem serei algum dia.
Ele me observa em silencio engolindo seco enquanto falo a última frase.
– Será que vocês não podem fazer um esforço para se darem bem? – respiro fundo para continuar. – Por que eu preciso de todos vocês em minha vida.
Nos mantemos calados por alguns segundos, seu olhar sobre mim ainda é intenso. Seus olhos semicerram enquanto me olha e se livra de minha mão que segura a sua.
– A onde você está indo agora? – pergunto quando ele se afasta de mim.
Sebastian adentra no apartamento novamente. O sigo receoso enquanto todos olham para ele, que caminha decidido até Kurt.
– Quer saber o porquê eu te odiava, Kurt? – Sebastian parece calmo e isso me assusta. – Eu te odiava por que você tinha tudo o que eu queria e você não merecia nada daquilo.
– Isso foi para eu me sentir bem? – Kurt olha de Elliott, que está logo ao seu lado, para Sebastian. A expressão em seu rosto é de pura confusão.
– Não, eu só estou expondo os fatos, Kurt. – Sebastian explica.
– Ah, tudo bem, meninos. – Elliott fala esganiçado se pondo entre Kurt e Sebastian, passando seus braços em torno dos ombros de ambos. – Que tal a gente trocar de assunto? Vocês já viram o novo álbum que a Gaga está para lançar?
– A Gaga não tem nenhum projeto futuro, Elliott. – Kurt encara o namorado.
– Jura? – ele não parece nada surpreso. – Mas funcionou, já estamos falando de outra coisa.
Sebastian se desvencilha do braço de Elliott deixando todos tensos. Andrew e Sam se aproximam dele para qualquer possível tragédia prestes a acontecer.
– Eu só estou tentando acertar as coisas, Kurt. Eu quero ficar numa boa com você. – ele olha de Kurt para o restante dos convidados. – Na verdade com todos vocês. Acho que devemos isso a Blaine, já que somos todos parte da vida dele.
Meu queixo cai enquanto as palavras saem da boca de Sebastian. Se alguém teve uma surpresa hoje, esse alguém fui eu. Posso ver os rostos aliviados de todos ao meu redor por aquilo não ter virado alguma coisa terrível.
Então a festa, finalmente, começa. Dessa vez sem ofensas, desavenças ou qualquer outra situação desagradável ou constrangedora. Bom, eu talvez possa retirar a parte do constrangedora.
– Antes de saber que eu viria para cá, eu escrevi um cartão de aniversário pro Sebastian. – Andrew diz se posicionando no centro da sala onde todos o possam observar. – E acho que dentro desse apartamento sou a pessoa que mais o conhece.
– Senta aí. – Sebastian ordena para Andrew, mas o tom de sua voz não há irritação. Talvez por que ele já tenha bebido mais do que o suficiente por um dia. – Não faça nada do que possa se arrepender.
Andrew o ignora e continua com o seu discurso.
– Calado, Smythe. – Andrew brinca. – Continuando... eu posso entender que ele possa ser interpretado e descrito como um desprezível grandessíssimo filho da puta...
Todos riem, inclusive Sebastian que está levando aquilo numa boa.
– Mas eu o conheço por dentro. – ele continua. – E não só no sentido figurado da palavra.
Andrew dá um sorrisinho charmoso e uma piscadela para Sebastian.
– A gente transava. – ele explica para que não reste qualquer dúvida.
– Eles entenderam, Andrew. – Sebastian revira os olhos enquanto morde a borda do copo de plástico vazio entre seus dentes. – Todo mundo entendeu na primeira vez.
– Eu só estava me certificando. – ele diz abrindo o cartão. – Enfim... Vamos lá... “Credo, você está ficando velho. Mas tudo bem, sou um ano mais velho que você e por sei como é.
Posso dizer que poucas pessoas conhecem quem realmente é Sebastian Thomas Smythe. Elas sequer sabem que seu nome do meio é Thomas, que é horrível por sinal.”.
Sebastian enfia a palma da mão sobre o rosto enquanto rimos. Andrew prossegue:
– Se isso fosse um interrogatório de tribunal, sobre juramento de que irei dizer só a verdade, nada além da verdade e que Deus me ajude, eu afirmaria que você, Sebastian, – ele o encara com afeição. – é uma das melhores pessoas que já tive o prazer de cruzar nessa minha vida.
Exclamações como “Aww.” surge entre o pessoal, mas não de mim. Talvez eu tenha um pouco de ciúmes da relação deles, mas eu só sou um ser humano. É natural.
– Diria que você não é uma pessoa fácil, por que é assim que as pessoas que valem a pena são. São complicadas, profundas e cheias de mistérios. – Andrew afirma. – Você é um homem talentoso que admiro pela braveza que encara e enfrenta esse mundo. Você, meu amigo, sentiu o peso do mundo sobre seus ombros muito sedo, e sinto muito que tenha sido dessa forma para você, mas a vida é um grande aprendizado e não estamos livres disso até o último suspiro.
Eu não sei qual é o plano de Andrew, mas se ele quer levar todos as lagrimas, ele está muito próximo de conseguir.
– Mas existe uma coisa que faz todos os pesares não serem tão abatedores. – ele explica. – É uma coisa que pode vir em forma de um amante, amigos, família, trabalho, coisas...
Andrew pigarreia limpando sua garganta antes de prosseguir com o seu texto.
– É uma coisa tão avassaladora que é impossível você não perceber, por que ela te domina e submerge. Te afoga até que tenha te preenchido completamente por dentro. – ele fala. – No começo pode te assustar por que toma conta de você, mas não precisa temer na hora que encarar isso. É grandioso, preenche e complementa.
Todos mantem sua atenção vidrada em Andrew. Os casais ao nosso redor começam a se abraçar e trocar leves toques e beijos carinhosos.
– Não faz quem você é, só destaca sua real natureza. E quando você se abrir de verdade para isso, então, meu amigo, você começará a ver, viver e fazer as coisas de forma diferente. – ele afirma. – Eu não preciso nomear, por que não precisa de títulos essas coisas. Mas quando você encontrar o que te faça sentir tudo isso, mergulhe de cabeça!
Mas como isso não é um depoimento sobre juramento, então tudo o que eu digo é: Parabéns pelos seus 20 anos, amigo. Sou infinitamente grato por fazer parte deles. Do seu grande e melhor amigo, ( sim, mande o Blaine engolir essa), Andrew.
As pessoas riem com a brincadeira de Andrew, mas sei que aquilo não é brincadeira.
– Se eu puder falar mais uma coisa... – Andrew diz repousando o cartão sobre a mesa de centro.
– Acho que já falou o suficiente, Andrew. – falo.
– Acho que alguém está com ciúmes. – Artie fala e instantaneamente o fuzilo com meu olhar. – Ou pode ser apenas fruto da imaginação de todos aqui.
– Bom, eu acrescentaria que você deve se abrir para novas experiências, mas eu acho que acabou de dar um grande passo essa noite. – Andrew afirma.
Sebastian não diz uma palavra sequer. Tudo o que faz é se levantar do sofá, tropeçar umas duas ou cinco vezes se aproximar de Andrew e o envolver em um abraço longo e apertado.
Na metade da noite, Tina chega com um aparelho de Karaokê para animar a festa. Sebastian canta Unusual de Tom Jones e posso apostar que ele a canta para mim. A festa se desenrola sem brigas, desavenças e qualquer momento ruim. Tudo sai perfeito, finalmente.
– Nós deveríamos fazer isso todos os dias. – Sebastian afirma enquanto o levo aos tropeços para seu quarto. A essa altura da madrugada ele está completamente bêbado. – Seus amigos são ótimos. Eu mal consigo sentir o cheiro de escola pública neles agora.
Ele ri enquanto o coloco sentado em sua cama. Felizmente ninguém ouve sua brincadeirinha desrespeitosa.
– Eu fico muito feliz que vocês estejam se dando bem. – confesso feliz enquanto tento faze-lo sossegar na cama.
Como seu eu não pesasse absolutamente nada ele me puxa sobre ele em um único solavanco.
– Eu quero voltar com você, Blaine. – ele afirma com a voz mole de embriagues. – Você quer ser o meu namorado de novo?
– Você está bêbado, Sebastian. – falo tentando me levantar.
– Você não quer? – ele parece realmente chateado agora.
– Eu quero. – afirmo. – Mas quero que cheguemos a essa decisão quando você estiver sobreo.
– Eu amo eles. – Sebastian troca de assunto como se o anterior nunca tivesse sido mencionado. – E eu amo você.
Não vou conseguir me livrar de seus braços que parecem duas barras de aço que me prendem sobre ele. O encaro a poucos centímetros de distância de mim.
– Não pude deixar de perceber que quando entramos no apartamento, você nem sequer se roçou em mim. – Afirmo. – E tanto eu, quanto você, sabemos o quanto você ama se roçar em mim. Você realmente queria transar?
– Não. – ele fala achando graça nisso.
– Você sabia, não sabia?
– Talvez um pouquinho. – ele parece uma criança arteira agora. É frustrante saber que todo o meu trabalho foi em vão. – Não, não fica triste. Você foi ótimo hoje. Eu amei cada segundo, Blaine.
– Como eu posso acreditar nisso sabendo que você me sabotou o dia inteiro?
– Não sabotei você. – ele explica. – Eu sabotei o dia que você planejou. Eu não queria passar o dia inteiro dentro de teatro, cinemas ou qualquer outro tipo de atração que eu tivesse que dispersar a minha atenção de você.
– Hmm...
– É sério. – ele insiste. – Eu fiz isso por que eu quis passar esse dia com você e nada além disso.
– Tudo bem. – dou um sorrisinho tímido. – Acho que acredito em você.
– Acredita? – ele pergunta feliz.
– Acredito!
Sebastian acaricia meu rosto me puxando pela nuca para me beijar. Suas mãos deslizam rapidamente para debaixo de minha blusa, mas somos interrompidos pelo som da porta do quarto sendo aberta.
– Ah, eles estão se agarrando aqui. – Sam grita para o resto da casa após nos flagrar. – Blaine a gente precisa de você aqui.
Olho de Sam para Sebastian constrangido.
– Tudo bem, vai lá com os seus amigos. – ele dá um sorrisinho frouxo sonolento. – Eu vou ficar bem aqui tentando dormir.
– Okay. – me reclino mais uma vez para beija-lo. – Feliz aniversário!
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