Sebastian Smythe - Contos
4 Quase que um Contos de Fadas.
Notas iniciais

– É o que eu estou te dizendo... – digo rindo.
Blaine gargalha com a história que acabo contar a ele. Andamos de mãos dadas pelo corredor iluminado. Definitivamente ter saído da rua foi a melhor ideia que tivemos nessa noite. O corredor do prédio não é menos frio do que o lado de fora do prédio, mas ao menos nos protege do vento que bate do lado externo.
– Você é um mentiroso. – Blaine me acusa ainda rindo. – Ta falando isso só para eu rir.
– Eu inventar uma história ridícula só para te fazer rir? Que absurdo! Eu jamais faria isso. – minto.
Tudo bem, eu confesso, sou simplesmente apaixonado pelo som da risada dele e sinceramente faço qualquer coisa para ouvi-la. Na mesma proporção, sinto o mesmo pelo som de sua voz, e quando a usa para cantar. Blaine poderia passar horas falando que eu não me cansaria de ouvi-lo. Para a minha sorte, ele adora falar.
Blaine abre a porta do apartamento me dando passagem para entrar primeiro.
– Vou tomar um banho rápido e te encontro na cama. – digo passando por ele. Ao que ele me responde dando um breve beijo em meus lábios.
Em dez minutos depois jpa estou fora do chuveiro, com a toalha enrolada em torno de minha cintura, e com uma outra enxugo meus cabelos. Blaine não está no quarto e não há sinal de que tenha estado deitado na cama. Ando pelo quarto até a cômoda pegando nela uma muda de roupas limpas.
Ouço a campainha da porta tocar uma, duas, três, quatro vezes em menos de meio minuto. Espio a sala e vejo Blaine caminhando até a porta.
– O que? Você abrir a essa hora? – pergunto baixinho para ele, mas para que a pessoa do outro lado da porta não possa me ouvir.
– Por ser alguém precisando de ajuda. – ele explica calmamente.
Ding dong
– Você não vai pelo menos ver quem é? – não me preocupo em mascarar toda a minha indignação.
Ding dong
– Era o que eu ia fazer antes de você ficar histérico. – Blaine anda até a porta e olha pelo olho-mágico da porta. – É só a nossa vizinha.
Blaine abre a porta, dou alguns passos até chegar ao centro da sala de estar, onde a vista para a porta é nítida. É Elizabeth. Tanto ele quanto eu notamos em sua expressão cansaço e preocupação, mas é Blaine a alma bondosa que pergunta: “Elizabeth, está tudo bem?”.
– Oi meninos... – ela diz.
– Se você veio por que você ouviu algum barulho... Não fomos nós. – disparo antes que ela possa falar.
Blaine me censura com o olhar.
– Não, eu... – ela passa a mão na testa. – Desculpem ter tocado tantas vezes...
– Tudo bem. – ele diz solicito. – Você quer entrar?
– Na verdade eu estou com pressa. Me biparam do hospital e precisam de mim no hospital... – ela diz tirando o pager do bolso de seu jaleco e mostra para Blaine. – e eles precisam de mim lá para uma cirurgia de emergência.
Blaine e eu trocamos olhares disfarçados enquanto ela devolve o Pager ao seu bolso e toma ar para continuar falando.
– E você precisa de alguma coisa? – Blaine pergunta.
– Na verdade sim, eu fiquei nesse feriado cuidando das minhas sobrinhas e elas ainda estão aqui. Elas são pequenas e não conheço mais ninguém aqui no prédio que ainda estejam acordados além de vocês dois...
– É nós já estávamos indo para cama quando... – começo a falar, mas Blaine me interrompe.
– Como sabia que estavam acordados? – ele pergunta.
– Ouvi vocês passarem pelo corredor enquanto me aprontava. – ela diz um pouco envergonhada.
– É que tive que buscar esse fujão aqui. – Blaine da um tapinha em meu ombro. Ele percebe a minha falta de roupa.
– O caso é que eu não consigo arranjar uma babá a essa hora, então meninos... – ela dá uma espiada em seu relógio. – Será que vocês podem...
– É claro, sem problema. – Blaine a responde antes que ela possa sequer fazer a pergunta de forma solicita. Acrescentando: – Não se preocupe, nós ficamos de olho nelas.
Olho Blaine vagarosamente com um sorriso bobo nos lábios pelo tamanho absurdo que acabara de cometer. O encarando com toda a tranquilidade que sou capaz de transparecer.
– Nós ficamos de olho nelas? – pergunto plácido.
Deduzo que aquilo só pode se tratar de uma brincadeira de mau gosto, por que aquilo é uma completa e alucinante loucura. O que faz alguém acreditar que tanto Blaine quanto eu somos capazes de cuidar de crianças? Quero dizer, eu ainda tenho a mentalidade de uma criança e Blaine tem o tamanho de uma.
– Nós ficamos de olho nelas! – Blaine me olha com o seu olhar “Seja legal! Eu te recompenso depois...” que é sempre acompanhado por um aperto sutil e carinhoso em minha mão.
Olho para Elizabeth que observa nossa breve discussão atenta e aflita por uma possível rejeição. Dou um sorriso radiante para ela ao dizer: “Nós ficaremos de olho nelas!”, o que a faz sorrir com igual intensidade para nós em resposta.
– Muito obrigada, eu não pediria isso se não fosse minha única alternativa– ela explica indicando o caminho para seu apartamento.
– Elas não vão vir aqui? – Blaine pergunta confuso.
– Ah, acho melhor você ficarem no meu apartamento, assim elas não estranham tanto e não bagunçam o apartamento de vocês. – ela diz a última coisa desejando não ter dito ao ver a zona que o apartamento se encontra.
– Sem problemas, os amigos do Blaine já deram conta de fazer isso. – dou um sorrisinho sarcástico, mas Blaine não acha graça. – Tudo bem, eu vou colocar uma roupa e sigo vocês.
Volto para o quarto substituindo o pijama que havia escolhido por uma muda de roupa normal. Corro até o hall de entrada, mas ambos há haviam deixado o apartamento. Pego meu molho de chaves no porta-chaves ao lado da porta a trancando ao sair.
Nós não temos qualquer afinidade com Elizabeth. Na verdade não sabemos quase nada dela assim como suponho que ela não deva saber nada sobre nós. As poucas conversas que tivemos foram casuais e corriqueiras, nos encontramos no corredor, na portaria e as vezes ela vem reclamar do barulho que estamos fazendo. Mas por algum motivo ela quer confiar suas sobrinhas nas minhas mãos e nas de Blaine.
Ando até o final do corredor, sendo o único apartamento do andar com a porta aberta, deduzo que seja o de Elizabeth. Localizado no extremo oposto lado ao do nosso, o apartamento dela tem a mesma estrutura do nosso, mas a mobília o torna único e absurdamente. Se o nosso é mobiliado com peças modernas e cleans, este porém, tem peças antigas, mas muito bem conservadas, além do perfume floral que se alastra pelo ar.
– Tudo bem. – Blaine diz recebendo um molho de chaves extras do apartamento em suas mãos. – Precisamos saber de alguma coisa?
Paro ao lado de Blaine, mas minha atenção se volta para o batente da porta onde duas garotinhas nos observam. As duas usam pijamas em tom lilás com pequenos unicórnios estampados. A maior tem o cabelo preso em um coque perfeito enquanto a mais nova tem um Black Power desalinhado, provavelmente por ter estado deitada.
– Não. – Elizabeth afirma. – Elas estão dormindo e é só ficarem de olho para ver se está tudo bem.
– Elas estavam dormindo... – dou ênfase no ‘estavam’. O que faz Blaine e Elizabeth olharem para as meninas.
– Oi queridas... – ela diz ficando de joelhos e abrindo os braços para que as sobrinhas se acolham neles. – Olha, esse são nossos vizinhos e vão tomar conta de vocês. A titia tem que resolver uma coisa no hospital, tudo bem?
Ela explica para as meninas com muita calma e afeição. As meninas balançam a cabeça tímidas pela nossa presença.
– Fiquem à vontade e peguem o que precisar na geladeira, peçam de fora se precisar. – ela diz para nós dando um beijo em cada uma das sobrinhas.
Blaine fecha a porta ao Elizabeth passar por ela. As garotinhas me olham, a mais nova ainda está sonolenta. Sorrio para elas.
– Oi... – Blaine diz se agachando em frente das meninas. – Eu sou Blaine.
Elas não o responde. A mais velha nos estuda em silêncio enquanto a caçula abraça mais forte o ursinho conforme a aproximação de Blaine a intimida. O que o faz implorar para mim por socorro apenas com o olhar.
– Ah... E meu nome é Sebastian... – digo estendendo minha mão para um comprimento.
Blaine dá um tapinha em minha mão para que eu a abaixe. As duas riem simultaneamente.
– Vocês não querem voltar a dormir? – Blaine sugere e em uma perfeita sincronia as meninas balançam a cabeça negativamente.
– Me ajuda aqui. – Blaine sussurra para mim ao se levantar.
– A ideia foi sua. – contraponho.
Nós quatro nos olhamos em silêncio. A mais velha tem um olhar atento sobre nós. O que me faz concluir que crianças são iguais a cachorros. Quero dizer, cachorros conseguem ver coisas que as pessoas são incapazes de enxergar, assim como crianças que sabem quando um adulto não tem autoridade.
– Se vocês não estão com sono... – começo a falar, mas não sei como terminar a frase. – ... Então porque a gente não brinca de alguma coisa?
Os pequenos músculos no corpo da garotinha se descontraem um pouco ao ouvir a palavra ‘brincar’. Blaine percebe e não deixa a oportunidade passar.
– Do que você gosta de brincar? – a mais nova se torna nosso alvo.
– Princesa encantada. – sua vozsinha diz finalmente.
– Perfeito, Blaine, vai pegar o seu vestido. – digo rindo.
As risadas são gostosas e divertidas, mas Blaine apenas revira os olhos.
– E como se brinca? – Blaine pergunta.
– A gente toma chá vestidas de princesas. – a mais velha diz.
– Um chá real? Legal! – Blaine diz empolgado. – Vou ser o cozinheiro real de vossas altezas hoje.
Ambas se animam com a ideia soltando sorrisinhos de animação.
– O cardápio será chá de camomila com deliciosos Cupcakes mágicos e pequenos croissants para acompanhar. – Blaine informa. – As majestades aprovam?
Os olhos delas se iluminam com a possibilidade de cupcakes e croissants. Cruzo meus braços ao olhar cético para um Blaine empolgado.
– Nós aprovamos. – a mais velha diz enquanto a mais nova balança a cabeça positivamente feliz do jeito que apenas crianças conseguem fazer sem parecerem idiotas.
– Então, se minhas princesas aprovam, assim será. – Blaine diz saindo da sala seguindo para a cozinha, me deixando sozinho com elas.
– Vamos colocar nossas fantasias, Jenny. – a maior anuncia pegando na mão da menor e a levando para o quarto. Respiro aliviado por não terem pedido minha ajuda para isso.
Olho para os lados assoviando baixinho. “Ta, então parece que tudo está resolvido.“ continuo olhando para os lados um pouco deslocado, até que decida fazer uma visita para Blaine na cozinha.
– Nossa a Elizabeth não tem nada que não seja verde e saudável. – Blaine reclama da dispensa.
– Então pede alguma coisa fora. – digo me aproximando e me encostando no batente da passagem para a cozinha.
– A essa hora só entregam porcarias... – Blaine diz voltando para a cozinha.
– Ah... – cruzo os braços enquanto o observo. Ficamos em silêncio por tempo demais. Pergunto a primeira coisa que vem a minha cabeça para quebrar o silêncio. – Hmm... Como foi o seu dia?
Blaine me olha sério.
– Tirando o fato que você sumiu o dia inteiro? – ele pergunta zangado.
– Eu já me desculpei por isso. – digo na defensiva. – Eu me refiro como foi o dia com os seus amigos. Afinal de contas vocês fizeram a maior zona no apartamento.
– Eu vou arrumar aquilo. – Blaine afirma. – Não precisa se preocupar.
– Vai mesmo. – afirmo desdenhoso.
– Qual é Sebastian? Não seja um idiota. – ele me olha desconfiado.
“Hmm” é tudo o que respondo enquanto Blaine me analisa em silêncio. Em um segundo seu semblante severo se transforma em uma feição descontraída e animada, seu rosto diz nitidamente ‘Te peguei!’, mas eu continuo emburrado.
– Sebastian Smythe, você é tão previsível. – ele me censura balançando negativamente sua cabeça. – O meu dia foi ótimo! E o Kurt não apareceu, como eu esperava que não aparecesse.
Por um segundo fico aliviado por saber que Kurt não esteve em nosso apartamento enquanto estive fora, mas não posso deixar de continuar emburrado pelo fato de Blaine me enchergar de forma tão transparente.
– Bom, fico feliz por você. – digo a ele como se não me importasse com a parte de Kurt não ter aparecido.
– Se bem que o pessoal não parou de falar no Kurt e o novo namorado dele. – Blaine diz tirando o avental que veste e o joga com mais força do que o necessário. – Eu prometi cupcakes para aquelas menininhas e elas os terão.
– Tudo bem. – olho do avental amarrotado no gabinete central da cozinha para um Blaine conturbado. – Está... Está tudo bem com você?
Blaine finge muito mal que o fato de Kurt estar namorando não o afeta. “Claro, eu estou ótimo.” ele diz passando pela porta que me mantenho encostado desviando de meu olhar. O observo destrancar a porta da frente.
– A onde você vai? – pergunto alarmado.
– Vou na mercearia do outro lado da rua. – ele diz calmamente.
– Tem uma mercearia aqui em baixo? E aberta há essa hora? – olho para e relógio que marca uma e quarenta e cinco da manhã.
– Aqui é New York, Sebastian. – diz simplesmente.
– Ta, mas você vai me deixar aqui sozinho com as duas? – aponto para o centro da sala onde ambas já estão sentadas em volta da mesa de centro e vestidas como princesas.
Blaine as observa por alguns instantes e me olha para mim em seguida.
– São apenas duas garotinhas uma com sete e outra com quatro. – ele se aproxima e me dá um tapinha em meu ombro. – Você vai se sair bem.
– Volta logo. – suplico.
– Volto antes que você sinta a minha falta. – ele promete.
– Já voltou? – ele acha que estou brincando, mas meu desespero é real.
Blaine sorri carinhoso, se aproxima de mim e acaricia meu rosto. Sorrio feliz com o agrado até que ele me de um beijo molhado em meus lábios.
– Não seja bobo. – Blaine diz sorrindo. – Eu já volto.
Ele se vai finalmente. Encaro a porta fechada até que as meninas chamem minha atenção com seus risinhos.
– Você vai brincar com a gente? – a mais velha pergunta.
– Ah... – hesito para responder. – Claro, mas o Blaine saiu para comprar o ingrediente dos seus bolinhos mágicos.
– Tudo bem, enquanto isso a gente se arruma... – a mais velha diz.
– Ta bom, vocês podem se arrumar e se precisar da minha ajuda é só falar. – tento falar confiante.
– Não. Você também tem que se arrumar. – a baixinha diz. – A Amy vai maquiar a gente.
– Como assim? – as encaro alarmado.
A menor caminha até mim e segura em minha mão. Ela me puxa para o centro da sala onde sua irmã nos espera com um pincel de maquiagem ameaçador. Me sento no chão ao lado oposto de Amy que pega seu pequeno kit de maquiagem e senta ao lado de sua irmã e a maquia.
– Agora é a sua vez. – Amy anuncia ao terminar de pintar sua irmã.
– Como é? – pergunto.
– É a sua vez. – ela repite.
– Acho que não precisa de maquiagem para mim, né? – tento convencê-la. – Vocês são duas lindas princesas e eu posso ser um cavaleiro do castelo de vocês e...
– Isso aqui é uma festa do chá. Apenas princesas foram convidadas para o chá das cinco. – ela fala com fervor de uma criança convicta.
– Deus... Você quer que eu seja uma princesa?
Ela não responde e nem pede permissão ao enfiar o pincel em minha cara. A menor ri escandalosamente enquanto a maior reboca minha cara com quilos e mais quilos de maquiagem. Se eu entrei relutante naquela brincadeira, agora estou até que achando divertido.
– Você precisa de um vestido. – ela diz mordendo a ponta do cabo do pincel ao me observar com um olhar de artista. – E uma tiara.
Nos olhamos por alguns segundos sem dizer uma palavra, então entendo que aquilo é para valer.
– Espera aí. – entendo o que ela quer dizer. – Você acha que eu tenho um vestido e uma tiara?
– Você não tem? – ela pergunta desanimada.
– Desculpa, mas eu não tenho. – digo.
– Então você pode pegar um da titia. – Amy diz enquanto Jenny esfrega o rosto e destrói sua maquiagem.
– Eu não posso pegar um vestido da sua tia, está bem? – surpreendente ela entende sem insistir.
Amy corre até um dos quartos e volta com um tutu rosa de balé e me entrega. É infantil e infelizmente cabe em mim. Com o tutu preso à minha cintura, busco na cozinha papel alumínio. Então vou modelando uma coroa para cada um de nós.
Um leve rangido de porta denuncia a chegada de Blaine no apartamento.
– Meu deus... O que é isso? – ele pergunta assustado olhando para o novo eu.
– Meu príncipe chegou, meninas. – digo para as meninas que riem.
– O que é isso? – Blaine me olha ainda assustado.
– Eu sou uma das princesas agora, – esclareço. – Por que você demorou de mais para me salvar.
– Ah Deus... – Blaine enfia o rosto na mão livre, sem as compras, enquanto ri– Eu... Eu vou para cozinha fazer o banquete, altezas.
Enquanto Blaine faz sua magia na cozinha, Jenny pede que eu leia seu livro favorito. O livro grande e grosso tem capa dura trabalhada em um couro vermelho com letras medievais em cor de ouro o intitulando ‘Era uma vez...’. Leio algumas histórias para elas criando uma voz para cada personagem na história. Elas vibram a cada nova voz que faço e se empolgam quando incluo alguma interpretação junto a voz. Aqui não é a Broadway, mas com certeza foi o melhor público que já tive.
São quase três horas quando finalmente comemos algumas das guloseimas que Blaine preparou para nós. Ele finalmente se junta a nós e posso ver pela primeira vez o quanto tem jeito para a coisa. Mas não é de se estranhar, Blaine é gracioso e bem sucedido em tudo o que faz, lidar com crianças não seria diferente para ele. Observa-lo e analisa-lo sempre me fazem deixar escapar um suspiro ou dois.
Conforme o tempo passa e os pratos se esvaziam descobrimos da maneira mais dolorosa que não é uma boa ideia dar açúcar para crianças após certa hora. Por que, assim como uma droga poderosa, o açúcar deu um poder de transformar pessoas em monstros eletrizados.
Blaine sugere que brinquemos de pega-pega, assim elas poderão gastar a energia que ainda lhes restam. Há bagunça, confusão e alguns hematoma adquiridos no processo, mas funciona conforme ele havia planejado. Em menos de uma hora as meninas estão dormindo exaustas no sofá.
– Isso foi incrivelmente cansativo. – Blaine sussurra para mim ao as colocarmos em suas camas.
Concordo imediatamente com ele com um sorriso sonolento em meus lábios.
– Mas foi uma experiência e tanto. – ele admite.
De fato havia sido, admito, nunca havia pensado na possibilidade em ser responsável por alguém e muito menos ser pai. Mas nessa noite pude ver como Blaine e eu somos ótimos juntos.
– Foi mesmo. – sussurro em resposta.
Me inclino para beija-lo, mas Blaine recua instantaneamente repousando suas mãos em meu peito para impossibilitar minha aproximação.
– O que foi? – pergunto ofendido.
– Eu não vou te beijar enquanto estiver parecendo um travesti. – ele diz. – Vai tirar isso.
Concordo rindo baixinho. Seguimos até a sala e nos separamos lá, onde Blaine vai se sentar no sofá e eu sigo para o banheiro para tirar a maquiagem de meu rosto. Sendo muito mais difícil de tirar do que imagino, por que ao contrário do que as pessoas possam pensar, não é por que um cara é gay que ele esteja familiarizado com maquiagem.
– Demorou, mas consegui! – digo ao sair do banheiro para Blaine, mas a única resposta que obtenho é um longo e grave ronco por parte dele.
Me esgueiro sorrateiro para o sofá em que Blaine está deitado. Blaine não ronca normalmente, mas devido ao seu cansaço, hoje se torna uma exceção. Me sento na poltrona paralela ao sofá ligando a televisão no mudo para não pegar no sono também.
As horas passam, mas o meu sono não. Pela janela observo o nascer tímido do sol que se mostra aos poucos entre os grandes prédios de New York. Olho para o relógio mais uma vez e ele marca que já são seis e meia da manhã.
É apenas quando decido fazer um café para mim que ouço uma chave sendo empurrada para dentro da fechadura da porta. É Elizabeth que entra pelo apartamento e se assusta com a minha presença ali.
– Me desculpe Sebastian. – ela coloca a mão sobre o coração. – Eu tinha esquecido que vocês estavam aqui.
– Tudo bem. – digo dando um sorriso fraco.
– Como foi? – ela diz repousando a bolsa sobre uma mesinha próxima a porta de entrada. – Elas se comportaram?
– Foi tranquilo. – amenizo. – Elas se comportaram bem.
Elizabeth anda até a porta do quarto que as sobrinhas ocupam e as observa em silêncio.
– Parece que elas se divertiram bastante. – Elizabeth sorri, mas sua expressão de cansaço é evidente em seu rosto abatido. – Eu não tenho como agradecer por isso. Elas passaram o Labor Day comigo por que minha irmã, a mãe delas, está se divorciando do pai delas.
Cada molécula do meu corpo grita para que eu durma agora mesmo, o que me faz não conseguir demonstrar muita empatia pelo problema familiar delas.
– Sinto muito por saber disso. – digo com a voz falhada.
– Não sinta, o pai delas é um porco, bêbado e imundo. – ela diz com desprezo para além das sobrinhas. – A melhor coisa que ele fará para essas meninas e minha irmã é as deixando em paz.
Assinto com a cabeça e nos mantemos em silêncio em alguns segundos.
– Eu só gostaria de ter passado mais tempo com elas. – ela se lamenta. Fico imaginando o quanto necessário é a minha presença para essa conversa e chego a conclusão de que é nenhuma.
– Você terá mais oportunidades. – digo exaurido.
– Você tem razão... – ela diz aéria. – Desculpe Sebastian, estamos todos cansados e eu fico te segurando aqui.
– Tudo bem. – minto. – Eu só preciso... Quero dizer as suas estão aqui e o meu está no sofá...
Aponto para o sofá onde Blaine está dormindo.
– Vou pegar ele e já deixo você descansar. – digo me afastando.
– Tudo bem, muito obrigada. – ela diz sinceramente agradecida. – Você pode trancar a porta quando vocês saírem? Podem ficar com a chave extra.
– Claro. – concordo com ela.
Me aproximo do sofá e acaricio o rosto de Blaine o chamando baixinho até que ele finalmente acorde. Seus olhos estão completamente vermelhos.
– Oi. – digo baixinho sorrindo para ele.
– Oi – ele sorri de volta. – Eu dormi?
– Dormiu sim, mas a Elizabeth já chegou e podemos ir para o nosso apartamento agora. – digo tirando alguns fios de seu cabelo de sua testa.
– Tudo bem. Tudo bem. – ele diz zonzo se levantando. – Preciso falar com a Elizabeth.
– Não, não precisa não. Ela está cansada e nós também. O que precisamos é dormir. – digo o ajudando a se levantar. – Vamos pra nossa cama.
– Cama. – Blaine dá um sorriso fraquinho andando apoiado em mim. – Essa é a melhor ideia dessa noite.
– Já é de manhã, B. – digo o ajudando a andar até a porta.
Andamos em uma super-velocidade de tartaruga devida a nossa falta de energia e sonolência. Chegamos a nossa cama cerca de cinco minutos depois. Coloco um Blaine sonolento que não se importa em tirar a roupa para dormir sobre ela.
– Vai dormir assim mesmo? – pergunto tirando minha roupa.
– Queria, mas você não vai me deixar. Não é mesmo? – ele me espia sonolento até que contra a própria vontade começa a arrancar a própria roupa sobrando apenas a sua cueca.
Dou risada de seu mau humor. Deito ao seu lado e naturalmente ele se aconchega em meus braços. O envolvo em meus braços e antes mesmo que eu ou ele perceba, já está dormindo. Beijo sua testa com carinho e o sono para mim não demora nada para chegar e me fazer apagar.
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