Notas iniciais
Boa leitura, pessoal! (Vide as notas finais por gentileza.)

É uma ligação por engano durante madrugada de quarta-feira que me faz despertar. Passo longos minutos tentando pegar no sono novamente, mas simplesmente não consigo. O que é uma pena, já que eu estava tendo um sonho tão bom. Conformado que acordei duas horas antes do próprio sol se levantar, me levanto da cama arrastando meus pés descalços pelo chão do quarto até a cozinha onde tropeço num par de tênis abandonados de Sebastian.

Sirvo um copo de leite gelado em minha caneca do Chewbacca a levando ao micro-ondas para esquenta-lo. Ligo a cafeteira que apita alegremente, como faz todas as manhãs, feliz por fazer sua função, enquanto pego o jarro de cookies do Superman, sob o balcão lateral da cozinha. Me estico para alcançar o armário sobre a geladeira, Sebastian guarda toda a comida gostosa lá, por que sabe que não consigo alcançar.

Recentemente ele afirmou que eu tenho problemas com doces e que para o meu próprio bem, ele os esconde de mim. O que é ridículo. Eu não tenho problemas com comida. Felizmente, para mim, eu tenho um banquinho que comecei a esconder debaixo da pia após descobrir o esconderijo das guloseimas.

Me equilibrando com as pontas dos pés sobre o pequenino banco, afano a caixa de cereais açucarados e o vidro de melado para as panquecas que pretendo fazer. Ouço o arranhar de lápis soar pela sala de jantar, o que me faz levar um baita de um susto e quase derrubar o meu contrabando no chão da cozinha.

Desço em silêncio do banco o observando atentamente. Sebastian ocupa o assento da cabeceira da mesa de costas para a cozinha, o impossibilitando de me ver. Ele passa os dedos entre seus cabelos louros escuros os despenteando, enquanto olha fixamente para algo sobre a mesa à sua frente.

Repouso meu saque ao armário das guloseimas sobre balcão atrás de mim. Minha respiração e meus passos são controlados e silenciosos. Pego o jarro com cookies o devolvendo de volta ao seu lugar de origem, por que a) aquele jarro pertence ao Sebastian e b) os cookies com gotas de chocolate ali dentro, também não me pertencem. Não que ele vá dá falta de um, mas não quero dar o gostinho dele me pegar afanando seus cookies.

O micro-ondas apita alto quando o contador chega ao zero denunciando minha presença ali. Sebastian não se dá ao trabalho de se virar e me encarar. Pego minha caneca e caminho até a sala, onde Sebastian está.

– Você está bem? – me aproximo cauteloso dele.

Minha presença ali o faz distrair sua atenção dos papeis sobre a mesa para me encarar pela primeira vez. Balançando a cabeça negativamente em resposta, Sebastian tem as feições aprofundadas em seu rosto em reflexo ao estresse e cansaço acumulados da última semana.

Sebastian conseguiu um trabalho de meio período como monitor de dança para os alunos que estão tendo dificuldades nas aulas de danças da Senhorita Ports. Esse trabalho o ajuda a pagar suas contas e sustentar-se aqui, mas a verdade é: No passado, quando o assunto era dinheiro, Sebastian nunca teve que se preocupar com isso. Eu fico orgulhoso com a determinação que ele vem enfrentando isso, mas por nunca ter precisado fazer isso antes, isso parece abatê-lo mais do que com pessoas normais, que estão acostumadas a se preocupar com dinheiro.

– O que está fazendo. Por que está acordado a essa hora? – repouso a caneca sobre a mesa enquanto ocupo o assento ao seu lado.

– Eu estou fazendo as contas... – ele aponta para os papeis espalhados à sua frente.

– Você precisa descansar. – declaro.

– O que eu preciso, Blaine, é de um trabalho que pague mais. – ele afirma sem emoção enquanto encara a fatura de seu cartão.

Encaro a cara feiosa do Chewbacca em minha caneca a minha frente em silêncio. É realmente difícil encontrar um trabalho que pague bem para estudantes e com uma carga de trabalho de apenas meio período. A única alternativa é sugerir uma coisa que Sebastian não vai gostar.

– Por que você não aumenta o meu aluguel? – sugiro recioso. – Eu posso pagar um pouco mais.

– Eu não estou pedindo esmola, Blaine. – ele fala irritadiço.

– Eu nunca disse que estava. – afirmo. – Olha, você cobra um valor muito inferior para um aluguel nessa região da cidade. Eu prefiro pagar o que é justo.

Sebastian parece não perceber mais minha presença ali. Ele simplesmente me ignora e volta a sua atenção para as contas sobre a mesa. Explico que pagar um pouco mais, não irá afetar meu orçamento mensal, mas ele continua a me ignorar.

– Sebastian? – insisto.

– Vai dormir, Blaine. – ele quebra seu silêncio finalmente.

– Olha tudo bem. – repouso minha mão sobre a sua sobreposta à mesa. – Eu quero que você vá dormir. Ficar assim, até o dia raiar, se estressando, não faz bem.

Sebastian solta um risinho sem me encarar.

– “Até o dia raiar.”. – ele parafraseia. – Você parece um caipira de Ohio falando.

Reviro os olhos. Eu odeio quando ele começa a falar mal de Ohio ou Lima.

– O que importa aqui é que não é saudável você ficar acordado a noite inteira arrancando os cabelos. – digo sério.

O toque em sua mão o faz desviar novamente seu olhar dos papeis, mas dessa vez seu olhar repousa sobre nossas mãos.

– Você fica uma graça quando eu falo mal do seu precioso estado. – ele provoca.

– Se você soubesse o quanto odeio quando você fala essas coisas, você não falaria mais. – afirmo me levantando da cadeira abandonando minha caneca ali.

Ao passar ao seu lado, sou barrado pela sua mão que segura o pulso da minha mão boa. Sebastian não chega a me encarar, mas sua mão parece firme. Por mais que ele já tenha me perdoado, eu entendo o quanto pode ser doloroso para ele tentar se reaproximar de mim dessa forma.

Seus dedos deslizam de meu pulso para as costas de minha mão até que seus dedos se emaranhem e entrelacem em meus. Ofego baixinho com seu toque inesperado. “Eu não...eu só... desculpa.” Sebastian sussurra baixinho encarando os papeis a sua frente. Balanço a cabeça positivamente imediatamente, mas ele não vê.

É a primeira vez que ele toca em mim de livre e espontânea vontade. Eu simplesmente não posso deixar isso passar batido. Em seguida, Sebastian, desata seus dedos dos meus voltando a colocando sua mão sobre os papeis. O observo em silêncio por alguns instantes antes de falar novamente.

– Você quer um café ou alguma coisa? – pergunto baixinho.

– Não, eu estou bem. – ele afirma brando. – Obrigado.

Mordisco meu lábio inferior enquanto o observo por trás. Encaro as pintinhas que ele tem na nuca próximo de seu coro cabeludo. Na verdade ele tem o corpo cheio delas e eu sou louco por elas. Desvio minha atenção delas para não sucumbir. Repouso minha mão boa em seu ombro que está mais duro que uma rocha.

– Você está muito tenso. – arrisco. – Eu comprei uns óleos fantásticos para massagem. Se você tirar a camisa eu posso fazer. Eu garanto que o fato de eu só ter uma mão para fazer isso, não vai interferir na qualidade em nada.

Os ombros dele começam a se chacoalhar ao me ouvir. A primeiro momento penso que ele está chorando, mas um sonzinho que ele emite deixa bem claro que, na verdade, ele está rindo.

– Isso é sério? – ele pergunta incrédulo.

– Sério! – afirmo inocente. – Eu fiz um curso de massagem ótimo e posso te garantir que quando eu começar, você...

Sebastian balança a cabeça negativamente enquanto me dou conta ao que ele se referiu.

– Não é disso do que está falando, não é?

– Não. – ele afirma. – É sério que vai ficar passando a mão e mim, criando desculpas e pretextos para ficar tocando em mim?

– Eu, ah... – posso sentir a mudança de temperatura em meu rosto pelo rubor que se forma nele. Será que eu sou tão óbvio assim?

– Se esse é o seu melhor truque é melhor desistir agora.

Sebastian parece se divertir com a minha total falta de habilidade para flertar. Tiro minha mão de seu ombro decidido tomando o assento que ocupei instantes atrás.

– Tudo bem, olha... Eu tenho uma proposta. – o encara decidido.

– Estou ouvindo. – ele observa sem emoção apoiando seu rosto sobre a mão fechada.

– Três encontros. – disparo. – É o que te peço.

– Três encontros? – ele levanta a sobrancelha intrigado. – Você acha que consegue correr quatro bases em três tentativas?

Sim, Sebastian, eu acho. Mas ser pretencioso não faz o meu estilo. Por isso não afirmo e nem nego.

– O que eu acho não é importante. – digo sem emoção.

Ele parece se divertir com o jogo que acabo de propor. Não que isso se trate de um jogo para mim, é só que eu não sei mais o que faço para tê-lo de volta.

– Tudo bem. – ele assente.

– Ótimo. – digo decidido dando um tapinha na mesa. Mas aparentemente toda a minha confiança o faz achar graça, por que um largo sorriso se forma em seus lábios enquanto falo. – Você não precisa se preocupar com nada, tudo bem? Só esteja presente e deixa todo o resto comigo.

– Tudo bem. – o tom de sua voz é de diversão.

– Certo. – pego minha caneca ao me levar novamente. – Vá dormir!

– Eu já vou, mãe. – ele brinca.

•••

Na manhã de quinta-feira, às seis da manhã, já estou fora da cama e arrumado para o grande dia que planejei. Entro no quarto de Sebastian, que dorme tranquilamente em sua cama macia e quentinha. Abro as cortinas da janela, na esperança dos raios da manhã entrarem e o despertarem, mas minha tentativa é frustrada pelo dia nublado que faz do lado de fora.

– Levanta! – o chamo energético.

Num piscar de olhos Sebastian abre os olhos alarmado com o tom de minha voz logo cedo. Com a cara amassada e com marcas do travesseiro impressas em sua bochecha, Sebastian me olha atordoado. A luminosidade que entra pelas janelas não é grande, mas é suficiente para irritar seus olhos.

– O que é isso? – Sebastian pergunta grogue protegendo sua vista da luminosidade.

– É onze de novembro! – afirmo animado.

Me encarando como se eu tivesse sérios problemas mentais, Sebastian tenta entender o que aquilo deveria significar.

– Obrigado Blaine. – ele me olha desconfiado antes de voltar e enfiar sua cabeça entre os travesseiros. – Para que um calendário se eu tenho você para ficar me falando que dia é?

Reviro os olhos ignorando a, já esperada, reação negativa dele.

– Vista isso. – lanço sobre ele uma muda roupas velhas. – Foram as mais velhas que encontrei no seu armário. Essa blusa está meio esfolada e essa calça, apesar de aparentemente parecer nova, os bolsos da calça estão furados.

Contra gosto, Sebastian, tira o travesseiro sobre seu rosto para espiar as roupas recém jogadas em seu corpo coberto por um edredom quentinho.

– Ah, essa calça... – ele tem um sorriso malicioso em seus lábios enquanto a pega e a analisa. – Tenho boas recordações dela. Eu a usava muito. Vestia quando saia e queria me dar bem. Sabe com o bolso furado era só pegar o meu...

Ele se interrompe censurando o que está prestes a dizer. Não sei como aquela frase termina, mas tenho uma ideia do que se trata.

– Você não precisa saber disso. – ele afirma.

– Você usou essa calça quando se encontrou comigo e Kurt no Scandals, não foi? – pergunto desconfiado. – Você achou que se daria bem naquela noite?

– Hmm... não lembro. – aquilo é uma mentira que nem ele mesmo consegue disfarçar.

– Escolha outra calça. – ordeno. – Essa profana, não. Sairemos em vinte minutos.

Durante todo o percurso que percorremos da porta do apartamento até o Bronx, uma das cinco áreas mais pobres na cidade de New York, Sebastian reclamou de ter que deixar o conforto de sua cama logo cedo no feriado.

É costume as pessoas ajudarem as mais necessitadas da comunidade que vivem no dia dos Veteranos. Algumas pessoas apenas assistem a desfiles em honra aos soldados que lutaram e lutam em nome e serviço ao país. Mas há outras que se inspiram nos heróis de guerra e querem fazer a diferença para as pessoas desse país ao fazerem benfeitorias se doando a causas comunitárias nessa data.

Talvez essa não seja a ideia de um primeiro encontro perfeito, mas acredito que vai valer a pena nós dois passarmos esse dia em contato com algo que não seja de nosso cotidiano e nossos próprios problemas. Mas é claro que o Sebastian pensa de forma diferente. E ele deixa bem claro isso a cada minuto que se passa.

Ele me ajuda a carregar latas de tintas, rolos de pintura, papeis de parede e dentre outras ferramentas primordiais para uma reforma. Ao chegar na casa da família carente, que nos inscrevi para reformar, logo vemos que está um verdadeiro trapo. Tanto por fora quanto por dentro.

A casa é pequena com aparência precária. O gramado toma todo o quintal dando a aparência de um lugar abandonado. A tinta externa está desgasta e descascando, além de grandes manchas de sujeira sob a calha quebrada que deixa a sujeira da mesma descer quando chove encardindo a parede logo abaixo. Sebastian e eu teremos muito trabalho pela frente.

– Achei que só iriamos passar uma mão de tinta do lado de dentro e ir pra casa. – ele resmunga enquanto analisamos o lado interno da pequena casa.

– Bom, aparentemente temos mais trabalho do que imaginamos. – tento parecer positivo, mas a verdade é que aquilo é muito mais do que imaginei que teríamos que fazer. – Mas isso não é motivo para desanimar.

– Eu ia passar o dia inteiro dormindo e agora eu tenho que arrumar a casa de outras pessoas.

Com o tom ranzinza, ele enfia as mãos nos bolsos da calça enquanto chuta uma bola de jornal velho jogada no chão. Seu mau humor não nos ajuda em nada, como sempre.

– Um trabalho fácil não te daria a sensação de satisfação no final do dia. – afirmo.

– Eu poderia me masturbar. Isso me daria uma sensação de satisfação no final do dia. – contrapõem.

– Sebastian. – o censuro. – Nós já estamos aqui. Reclamar não adianta nada. Que tal fazermos isso da melhor forma que podemos e fazer disso uma experiência boa e grandiosa para nós? Além do mais eu preciso da sua ajuda, com esse braço aqui eu não consigo fazer tudo sozinho.

Sebstian observa meu braço sustentado pela tipoia tristemente. Eu detesto ter que me fazer de vítima aqui, mas a realidade é essa.

– Tudo bem. – ele diz emburrado. – Por onde começamos?

– Bom, podemos começar por dentro. – analiso. – Tirando todos os moveis para então depois passar a tinta.

Demoramos algum tempo até que nos sincronizemos com a evacuação da mobília da casa para o jardim, que mais parece um matagal selvagem. Em seguida pintamos a sala toda em uma hora. O que, inicialmente, acredito ser um bom tempo, mas percebo que nesse ritmo não terminaremos ainda hoje.

– Eu não acredito que acabamos. – Sebastian deita no chão com os braços e pernas esticadas. – Graças à Deus.

– Sebastian? – o observo sem entender.

– Obrigado, Senhor. – ele continua. – Agora eu posso ir para a minha casa tomar um banho quente por que o meu corpo está moído. Amém.

Reviro os olhos inconformado com o tamanho drama que ele está fazendo.

– Sebastian? – insisto.

– Não atrapalhe a prece de um homem, Anderson. – ele me censura.

– Tudo bem, mas eu só acho que você deveria saber que ainda não terminamos. – esclareço. – Nós acabamos de passar a primeira mão de tinta na sala.

– O que isso quer dizer? – ele me encara franzindo o cenho.

– Quer dizer que ainda falta mais uma mão de tinta. Que temos que tirar o papel de parede velho da sala de jantar e colocar o novo, temos que passar duas mãos de tinta nos dois quartos e o lado de fora da casa.

– Não obrigado. – ele se levanta e caminha em direção a saída.

– Não faz assim, Sebastian. – suplico. – Eu preciso da sua ajuda com isso aqui.

– Isso é absurdo, Blaine. – ele se vira para me encarar novamente. – É muita coisa.

– A gente vai conseguir. – preciso acreditar que isso é verdade. – Você prometeu que ficaria. Se ficar eu prometo que não vai se arrepender.

– Que saco! – ele pega um balde. – Está bem.

– Isso!!! Obrigado.

Passo um pouquinho de tinta na ponta de seu nariz.

– Essa coisa é tóxica, Blaine. – ele fala sem emoção.

– Você tem razão. Espera aí.

Passo o braço limpando seu nariz, então Sebastian puxa a barra de sua camiseta para limpar meu braço em seguida. As gotas de suor que se formam em sua testa me faz mordiscar meu lábio inferior enquanto o observo. Ele está perigosamente próximo de mim agora.

– Nós deveríamos voltar ao trabalho. – ele sugere baixinho.

Eu não tenho forças para falar, apenas balançar a cabeça positivamente e vê-lo se afastar de mim. Voltamos ao trabalho pesado, tentando fazer aquele lugar uma coisa nova e melhorada.

As onze horas paro meu trabalho na casa para ir ao mercadinho da esquina. Lá compro nosso almoço e volto antes que Sebastian se dê conta de minha falta. Ninguém disse que não poderíamos usar as instalações da casa e é por isso que uso a cozinha para preparar macarrão com queijo, nuggets e ervilhas frescas com cenouras em cubos. É a pior combinação de comida que já fiz na vida, mas ela tem um significado especial para Sebastian.

– Que cheiro bom é esse? – Sebastian surge na estreita porta da pequena cozinha. – Tô cheio de fome.

– Já está quase pronto. – aponto para uma sacola sobre a bancada para ele me ajudar. – Pegue os pratos e garfos de plástico dentro da sacola, por favor.

Sebastian faz o que peço sem hesitar. Ele me entrega um prato de plástico antes mesmo que eu estique minha mão para pega-lo.

– Então... – com a camisa cheia de manchas de suor e tinta, ele se encosta na pia me encarando com os braços cruzados e os olhos semicerrados. – Quer dizer que, enquanto eu estava dando o maior duro pintando as paredes daquele quarto mofado, você estava aqui fazendo comida para você?

– Não, enquanto você estava pintando o quarto, eu estava fazendo NOSSO almoço. – o corrijo. – Não é nada sofisticado, mas foi o que o dinheiro que tinha na carteira deu pra comprar.

Não o encaro, por que sou um péssimo mentiroso, e ele com certeza iria desconfiar. Sebastian ocupa um assento na mesa capenga do lado de fora da casa, me junto a ele alguns minutos depois trazendo comigo dois pratos de plástico cheios. Quando os repouso a mesa, Sebastian o olha incrédulo.

– Isso... – ele balbucia me encarando em seguida. Desvio o olhar do seu encarando meu prato enfiando uma garfada de macarrão em minha boca. – Como?

Dou de ombros fingindo não entender sobre o que ele está falando.

– Por que? – ele insiste. – Como sabia?

– Não sei do que você está falando, Sebastian. – digo enfiando um nugget inteiro na minha boca. – Tem alguma coisa de errada? Você ainda não tocou na comida. Você não gosta?

– Não, não é isso. – ele encara o próprio prato com o cenho franzido. – É que... Na verdade eu amo isso. Era a coisa que mais gostava que minha mãe costumava cozinhar pra mim.

– Sério? – eu não me sinto muito bem mentindo para ele.

– Sério! – há um certo brilho em seus olhos agora. – Ela fazia quando eu era criança. Quando a gente ainda morava em New Jersey.

Sebastian dá a primeira garfada no macarrão. Tudo bem, eu confesso. Eu liguei para a casa dele e perguntei para o pai dele qual é a coisa que ele mais gosta de comer.

Quanto mais ele come, mais a comida começa a surtir o efeito que esperava. Sebastian viaja em lembranças que apenas ele e mais ninguém poderá navegar. O prazer está estampado em suas feições e isso instantaneamente me extasia em alegria.

Após o almoço as reclamações por parte dele sessam fazendo nosso trabalho em equipe fluir de forma mais agradável e gostosa. No final do dia, quando nosso trabalho termina e todos os moveis são postos de volta para dentro da casa e finalmente o lugar está com uma cara nova e melhorada, Sebastian e eu temos algo com o que nos orgulhar.

Já é noite do lado de fora. Caminho pelo jardim onde ele está deitado sobre o gramado, recém aparado por ele, da frente da casa. Com os braços atrás da cabeça e as pernas cruzadas na altura dos calcanhares, ele observa o céu sob nós atentamente. Minha aproximação é denunciada pelos passos ruidosos que dou sobre a grama.

– Essa sensação não é ótima? – me sento ao seu lado, mas de costas para a rua. Assim posso vê-lo melhor. – A de saber que fez uma coisa boa e mudou a vida de alguém para melhor.

– Eu não sei. – ele fala tranquilo. – É uma coisa nova para mim para ser sincero.

Um sorrisinho se for nos cantos de seus lábios.

– A propósito, obrigado por me fazer vir. – ele fala docemente. – Não foi um encontro ruim. Na verdade não está nem perto dos top dez piores encontros da minha vida.

– O prazer foi todo meu. – as palavras saem sinceras de minha boca. Nada daquilo teria sido a mesma coisa sem ele. – Fico feliz por saber disso.

Me deito na grama ao seu lado, do lado oposto ao dele, ainda assim nossos rostos estão um do lado do outro. Olho atentamente o céu, que está repleto de estrelas nessa noite. Respiro fundo e o aroma de grama recém cortada invade minhas narinas e pulmões. Os grilos cantam alegremente enquanto um vento leve faz as folhas das árvores do terreno farfalharem.

– Cara, eu não tinha percebido. – ele aponta para o céu em um ponto luminoso. – Olha pra aquilo, acho que é um planeta de tão grande.

Observo o ponto em questão atentamente. É um grande ponto luminoso que pisca.

– Planetas não piscam, mas brilham mais. – aponto para um ponto luminoso no céu. – Está vendo? Bem ali. É Venus. Não pisca, mas brilha intensamente. Consegue ver?

– Consigo. – ele afirma fascinado.

– Se olhar por ali, e prender seu olhar sobre um único ponto luminoso, vai perceber que a luz oscila, ou como falamos, pisca. – aponto para alguns pontos e declaro. – Essas são estrelas.

– Uau! – ele solta um assovio longo – Você manja de astrologia?

– Eu fui do clube de astrologia na época da escola. – afirmo. Me lembrar disso me dá saudades da escola.

– Em quantas aulas extracurriculares você participou? – seu tom é de descrença. – Por que até agora já contei umas mil.

– Me inscrevi em todas. – dou de ombros.

– Você é inacreditável. – ele ri abismado.

– Isso está te irritando? – pergunto inseguro.

– Não, na verdade ta bem legal. – ele fala simplesmente.

– Tudo bem. – abro um largo sorriso enquanto continuo a falar. – Se você prestar bem a atenção, você vai perceber que as estrelas podem variar entre quatro cores: vermelha, azul, branca e amarelo ouro.

– Ah eu acho que estou vendo uma azul bem ali. – ele aponta para uma pequena estrela no céu, que de fato é azul. – O que significa?

– Significa que ela é uma estrela gigante e quente.

– Legal.

Ele faz silêncio por alguns minutos até que fale novamente.

– Mas achei que estivéssemos falando sobre estrelas e não sobre o meu pênis. – ele ri. – Gigante e quente.

– Ah Deus, – enfio minha mão em meu rosto. – é você quem é inacreditável aqui.

Sebastian ri ruidosamente antes de se desculpar pela brincadeira, que na verdade, não me ofende em nada.

– Continua falando. – ele insiste. – Eu to achando interessante.

– Jura? – pergunto surpreso.

– Sim. – ele soa sincero. – É legal ver como você gastou o tempo da sua adolescência.

Dou um soquinho no ombro dele enquanto rimos.

– O bom disso é que podemos aplicar essa técnica as outras coisas, aspectos e pessoas. – afirmo.

– Que técnica?

Me deito de bruços, apoiando meus cotovelos sobre a grama, de modo que, eu possa observa-lo e ele a mim. Mesmo que estejamos um de cabeça para baixo para o outro, ainda nos olhamos nos olhos.

– Observação. É quanto mais se olha, mais se vê coisas que não eram perceptíveis aos olhos antes. – falo. – Quanto mais se olha, mais se prende a atenção, quanto mais se prende atenção, mais lindo fica.

Apesar de sua expressão de diversão no rosto, seu cenho está franzido, enquanto me encara. Ele tenta segurar o sorriso que se forma em seus lábios, mas fracassa.

– Você é um poeta. – ele brinca.

Seu olhar desvia de meu olhar intenso para além de mim.

– Caramba, olha isso. – ele aponta. – Qual é a probabilidade de ter vagalumes em New York?

Viro meu rosto para o céu, uma quantidade considerável de vagalumes sobrevoam o terreno.

– Aqui tem bastante mato, então... – concluo com o raciocínio lógico.

– Nossa eu não vejo isso há anos. – ele vislumbra. – Desde quando eu era criança, eu acho.

– Não tinha vagalumes em Paris? – brinco.

– Não. – ele responde sério. – Bom, não aonde eu morava, pelo menos.

– Sem vagalumes? – o encaro novamente e brinco: – Aquele lugar devia ser um inferno.

– Você não tem ideia. – seu tom ainda é sério.

Sebastian não tem boas lembranças da vida que teve em Paris, o que é compreensível ele não querer tocar no assunto. Tento pensar em qualquer coisa que o faça esquecer qualquer lembrança ruim que esse assunto possa ter o feito se lembrar. A última coisa que quero fazer é fazê-lo se sentir mal.

– Você ainda consegue falar em francês? – falo a primeira coisa que passa em minha mente.

– Acho que sim. – ele estranha a pergunta. – Esquecer um idioma não é tão fácil.

– Você pode me dizer alguma coisa em francês? – peço.

– Hmm... Acho que sim. – ele me observa em silêncio. – Tu es belle au clair de lune.

– O que você disse? – pergunto curioso.

– Você está dizendo que o senhor Blaine Anderson, não fez parte do clube de francês nos tempos da escola? – ele provoca.

– Não enche. – brinco.

– Tudo bem. – ele pigarreia. – Eu disse que fica lindo sob a luz do luar.

É a forma mais desconfortável que já beijei alguém, mas é bom. Muito, muito bom. Talvez tenha sido dessa forma que Marry Jane tenha se sentindo quando beijou o homem-aranha de cabeça para baixo. A sensação é nova e divertida. Sebastian passa seus longos dedos entre meus cabelos enquanto no beijamos carinhosamente sem exasperação.

Quando nossos lábios param de se tocar, ele me olha em silêncio assim como faço. Sebastian mordisca seu lábio inferior enquanto tenta disfarçar o sorriso em seus lábios, diferente de mim, que estou sorrindo abertamente para ele. Eu quero muito mais daquilo, mas tenho receio de força-lo e fazê-lo recuar. Não, eu não tento beija-lo novamente.

É Sebastian quem beija novamente. Sem excessos. Nos observamos em silêncio enquanto ele acaricia meu rosto com a ponta de seus dedos quentes. O mais leve de seus toques faz com que minha pele se arrepie. Fecho os olhos enquanto sinto desfruto cada segundo de suas caricias.

Passamos o restante da noite deitados na grama observando as estrelas sobre nós. Discutindo hipóteses absurdas e mirabolantes sobre o que o universo é na realidade. Ensino mais algumas coisas sobre planetas, estrelas e constelações. Sebastian ficou impressionado quando mostrei para ele um satélite que passou sobre o céu acima de nós. Até que nos cansemos e voltamos para casa numa caminhada tranquila pela noite de New York.

Notas finais
Oi pessoal. Já faz algum tempo, não é mesmo? Eu lamento não ter dado notícias antes, mas tive problemas de saúde e tive que me afastar da fanfiction neste período. Estou me recuperando bem e agradeço a preocupação de todos que vieram até a inbox saber notícias. Fiquem tranquilos a Fanfiction não vai ser interrompida, talvez a frequência de postagem seja diminuída por enquanto, mas a fanfic será concluída sem ser parada no meio do caminho. Obrigados a todos pela companhia até o próximo capítulo.