Sebastian Smythe - Contos
8 Ex-namorados
Notas iniciais

Lima, OH. – 28 de Setembro.
Dois dias após o casamento, todos os membros do antigo clube glee se reúnem na antiga sala do coral. Seria uma tarefa difícil fingir que tudo está bem entre Sebastian e eu, por isso sequer menciono sobre o que aconteceu no casamento entre nós.
Bem, na verdade, fui meio que obrigado a contar a Sam o que aconteceu. Por que, por alguma razão ele insistiu que havia alguma coisa de muito errada acontecendo comigo. Por fim, ocupamos duas cadeiras no fundo da sala, onde acabo contando o que havia acontecido há dois dias.
– E foi isso o que aconteceu. – explico a ele.
– Ele simplesmente se levantou e saiu? – ele pergunta confuso. Na verdade, qualquer coisa confunde Sam. – Tipo, ele não falou se voltou para New York?
– Não, mas acho que ele voltou. – explico amargurado. – Ele não tinha mais a onde ficar em Lima.
– Cara isso é uma droga. – Sam desabafa.
Sam sempre foi um amigo muito compreensivo, o fato de ele ser hetero e eu gay, nunca o inibiu de querer ouvir meus lamentos sobre meus relacionamentos. Ele não ajuda muito, na maioria das vezes, mas raras vezes ele consegue ser absolutamente brilhante. Contudo, não acho que alguma coisa genial vá sair de sua boca hoje.
– O que você vai fazer a respeito? – Sam olha para o canto oposto da sala de onde sentamos e encara Kurt, que conversa com os velhos e novos membros do clube glee. – Você sabe...
– Eu não faço ideia. – respondo agoniado.
– Você precisa resolver isso, cara. – Sam dá um tapinha amigável em meu ombro. – Sabe, você precisa seguir o seu coração. Quando souber o que seu coração quer, então vai com tudo para cima disso.
– Eu só não sei o que o meu coração quer ainda. – murmuro deprimido.
– Independente do que escolha, eu vou estar do seu lado! – ele afirma.
– Obrigado. – agradeço sincero.
– Sabe o que podemos fazer para te animar? – Sam pergunta ao se levantar de sua cadeira e me chacoalhar pelos ombros.
– Cantar? – arisco.
– Não. Mas isso também serve. – ele diz pensativo, mas logo volta a sua linha de raciocínio. – Fanfictions de Star Wars.
– Eu não estou a fim de ler fanfictions agora, Sam. Desculpa. – o encaro desanimado.
– Qual é cara? Você adora isso. – Sam diz em seu costumeiro tom de empolgação. – Esse é o nosso lance. É a coisa que nos faz ficar bem quanto estamos tristes ou entediados.
– É, eu adoro, mas eu não estou afim disso agora. – cruzo os braços.
A verdade é que, desde que Sebastian fez aquela pequena encenação, eu não consigo desvincular Star Wars a ele. Se eu contar a Sam que Sebastian entrou para o nosso lance de Star Wars, isso o chatearia, no mínimo.
– Muito bem pessoal. – o Sr. Schue adentra na sala de coral exultante. – Hoje é um dia muito especial.
Um grupo de alunos desajustados sentam-se nas primeiras fileiras da sala, enquanto o observam falar.
– Vocês podem estar estranhando que há alguns rostos novos aqui hoje, – ele aponta para alguns de nós – mas saibam que essas pessoas aqui fizeram parte desse clube.
Os alunos começam a nos encarar sem qualquer pudor ou cautela.
– Na verdade, – ele prossegue. – essas pessoas construíram esse Clube Glee.
Os olhares continuam sobre nós cada vez mais curiosos.
– Cada um deles contribuiu para que esse clube se erguesse, firmassem e fixasse nessa escola. – ele afirma. – E isso é uma lição que devem levar para a vida de vocês. Para sempre, durante toda a vida de vocês, tudo o que se dispuser a fazer, se tornará parte de quem foram, são e serão. Isso vale para as coisas que contribuem também. Vocês sempre deixarão um pedacinho de vocês em tudo o que fizerem, se o fizerem de coração.
O discurso do senhor Schue toca fundo em mim. Não importa o quanto eu envelheça, quantos diplomas eu receba. Ele sempre terá algo novo para me ensinar. A todos nós.
Seu discurso inspirador continua, enquanto nós, os ex-alunos, formamos uma fila horizontal atrás de Schuester. Me posiciono entre Kurt e Sam.
– Oi. – sussurro nervoso para Kurt.
– Oi. – ele responde casual.
– E é por esse motivo que eu vou pedir para que vocês deem um gostinho para essa garotada aqui do que eu estou falando. – o Sr. Schue nos pede.
– Ah, eu não sabia que teríamos que cantar. – Sam fala para Schuester. – O treinador disse que eu podia vir fazer uma visita ao clube glee, mas ele está me esperando para voltar e lavar as bolas depois do treino do time.
A sala explode em risadas e eu não posso deixar de sentir pena pela inocência de Sam.
– Tudo bem, Sam, você pode ir. – Sr. Schue diz sincero. – Talvez uma próxima.
Antes de Sam deixar a sala do coral ele me dá um soquinho em meu braço e um piscadinha. “Agora é com você.” ele esboça com a boca as palavras sem emitir som. Infelizmente a sala inteira percebeu a sua completa e total falta de sutileza.
Não sei o que tanto temo. O que mais posso perder? Por que a verdade é que a cada minuto, desde que Sebastian virou as costas para mim e se foi, sinto que uma grande parte de mim se foi com ele. Mesmo que eu tenha sido o causador disso.
Antes que me julgue, quero esclarecer que, eu não vive os últimos quatro meses com Sebastian pensando em Kurt. O conflito que vem tirando minha paz começou quanto Sebastian disse que não havia amado ninguém como me ama.
Aquela foi a primeira vez em que me perguntei: “Eu realmente o amo?”. O amo ao ponto de considerar que ninguém anteriormente teve tamanhas proporções desse sentimento em minha vida? Eu não tenho uma resposta para essa pergunta. Mas deveria ter.
Sebastian não foi o único que amei em minha vida, mas essa não é a resposta para a pergunta que foi feita. Talvez seja como Burt, pai de Kurt, disse na cerimônia: “Duas vezes em minha vida tive a sorte de encontrar o amor da minha vida.”. Talvez eu tenha tido essa sorte também.
Ainda que uma parte desse amor, que costumava sentir por Kurt, fora brutalmente dizimada quando ele resolveu terminar nosso noivado, ainda assim, de alguma forma, ver Kurt com Elliott me fez enlouquecer. Talvez tenha me feito sentir ciúmes dele. Mesmo que Sebastian tenha tomado proporções absurdas em meu coração, ainda assim me senti traído por Kurt e Elliott.
Sim, eu sei, eu sou a pior pessoa desse mundo por fazer isso com Sebastian. Mas seria certo continuar com a nossa relação se existe essa dúvida dentro de mim? O que sei é que não posso mais lidar com esse conflito dentro de mim, eu preciso por um ponto final na minha pergunta.
– Muito bem, parece que sobrou apenas você Blaine. – Schuester anuncia. – Quer cantar alguma coisa para nós, Blaine?
– Na verdade, quero sim. – caminho até a banca e sussurro: – Can’t fight this feeling.
Kurt ocupa uma cadeira no meio dos alunos. A música escolhida não foi, por nenhum outro motivo, escolhida a não ser para ser cantada a ele.
I can't fight this feeling any longer. And yet I'm still afraid to let it flow.
What started out as friendship has grown stronger. I only wish I had the strength to let it show.
Eu não canto o olhando diretamente, não tenho coragem o suficiente para fazer. Aquilo é loucura e eu sei disso.
And even as I wonder I'm keeping you in sight. You're a candle in the window on a cold dark winter's night. And I'm getting closer than I ever thought I might.
Respiro fundo antes do refrão. Dou alguns passos a frente, parando em frente a Kurt.
And I can't fight this feeling anymore. I've forgotten what I've started fighting for.
Nossos olhares se cruzam. Meu olhar é intenso e aquilo o assusta um pouco.
It's time to bring this ship into the shore. And throw away the oars. Baby I can't fight this feeling anymore.
As pessoas ao nosso redor começam a entender sobre o que tudo aquilo se trata, assim como Kurt. Ele se levanta de um salto da cadeira que ocupa e caminha para a saída da sala. Interrompo a música no meio da frase o seguindo pelo corredor lotado de alunos.
– Kurt, espera! – o chamo tentando vencer a maré de alunos que se intervém entre Kurt e eu.
Ele não para de andar até que esteja no pátio vazio da escola.
– Kurt? – me aproximo dele.
– No que é que você estava pensado, Blaine? – seu tom é de irritação.
– Eu sei que você pode achar isso estranho, mas... – balbucio.
Ele esfrega o próprio rosto evitando de me encarar.
– Eu só preciso ter certeza de uma coisa... – antes que eu perceba já estou praticamente em cima dele. Seguro seu rosto firme entre minhas mãos. A primeiro momento os nossos lábios apenas se chocam sem qualquer movimento.
Olho para um Kurt chocado que foi pego desprevenido com minha ação. Não há sinal de recusa e nem incentivo por sua parte. Então volto a beija-lo. Dessa vez um beijo real.
New York, NY – 12 de Outubro. – 9:00 am.
O que é mais deprimente do que um homem de coração partido? Talvez somente um homem de coração partido, bêbado às nove da manhã, jogado ao chão com a cara no chão e cercado por inumas garrafas vazias ao seu lado. Esse sou eu agora.
Quem não gosta de curtir uma boa e profunda fossa? Bom, minha sorte tem sido tão ruim, que nem em silêncio posso sofrer. Não hoje. Por que hoje é dia de Colombo.
A cidade de New York é a responsável pela maior comemoração desse feriado em todo o país. Um grande desfile, que percorre várias ruas da cidade, é organizado todos os anos. Para somar na minha conta de má sorte, o desfile passará pela avenida que moro.
A movimentação de caminhões durante todo o final de semana para organizar a decoração da rua para o desfile não me deixaram dormir. Quando consigo dormir, logo sou acordado por alguém gritando na rua.
– Calem a boca aí em baixo! – ordeno aos berros com a voz mole pela embriaguez. Lanço a garrafa em minha mão contra o vidro da janela, mas é a garrafa que sede ao choque se espatifando no chão e espalhando o seu conteúdo pelo chão e rodapés. – Tem gente tentando dormir.
As últimas semanas tem sido difíceis para mim. Voltar para o apartamento sem Blaine foi uma das coias mais dolorosas que tive que fazer. Sua ausência tornou a vida em New York desgastante e desinteressante. Meu desenvolvimento na faculdade decaiu e recebi algumas cartas e ligações zangadas da reitora querendo saber o motivo daquilo. Mas o pior, o pior de tudo é ter que receber cartas endereçadas à Blaine, por que ele não aparece a três semanas na NYADA.
A campainha do interfone soa estridente pelo apartamento. Com dificuldade me levanto do chão para atende-lo.
– O que é? – vocifero.
– Entrega para Sebastian Smythe. – o homem com a educação típica de New York anuncia de má vontade.
– Já vou descer.
A minha habilidade se sair arrastando tudo comigo é incrível quando estou bêbado. Tropeço em pelo menos sete itens antes que consiga sair do apartamento. A viajem do vigésimo sexto andar até o átrio no elevador me deixa enjoado. Cambaleio para fora do elevador até a portaria, onde um homem grande e gordo com cara carrancuda me espera.
– Sebastian Smythe? – ele pergunta.
– Isso.
– Assina aqui. – ele empurra uma prancheta encardida em minhas mãos. Assino o papel e em contrapartida ele me dá um envelope preto que tudo o que diz é: “Aos cuidados de Sebastian Smythe.”. O rompo em um movimento único puxando seu conteúdo para fora. Um pequeno papel retangular preto com letras brancas anuncia:
A família Perkins
Anuncia tristemente o falecimento de
Margaret Perkins
Em 11 de outubro de 2015
O velório será no Cemitério Memorial Park
3000 Harding Hwy, Lima, Ohio.
Na segunda-feira 12 de outubro às 2:00 pm.
Lima, OH.
Caminho pelo corredor deserto da Academia Dalton. Nas últimas semanas em que tenho estado em Lima, pude refletir melhor sobre o rumo que a minha vida esta tomando e se eu gostava ou não disso. Voltei à Academia Dalton algumas vezes, mas nunca tive coragem de passar da porta de entrada. Gosto de vir aqui para refletir e estar aqui me faz bem, por que amo esse lugar com todo o meu coração.
A verdade é que eu ainda estou tentando encontrar meu caminho. A Dalton foi o lugar que me encontrei quando achei que não havia lugar para mim neste mundo. Ela se tornou meu lar. E novamente estou aqui, sem lar. Talvez eu fique em Lima em indefinido tempo. Talvez eu possa até me tornar uma espécie de mentor dos Warblers. Por que nesse exato momento eu não nem Sebastian e nem Kurt.
Flashback
– Isso é loucura, Blaine. – as palavras explodem de sua boca após longos minutos de silêncio entre nós. – Você não pode virar suas costas para a NYADA. É suicídio de carreira, você viu o que aconteceu com a Rachel.
– Eu sei. – esfrego meu rosto com as palmas das mãos. Me sinto enjoado e confuso. – Eu precisava me afastar de tudo.
Kurt anda de um lado para o outro inquieto no pátio.
– Olha, eu vou ser bem sincero com você, Blaine. – diz finalmente parando em minha frente. Sustento seu olhar. – Se você tivesse aparecido algumas semanas atrás eu com certeza me jogaria nos seus braços. Mas vamos encarar os fatos, nós dois seguimos em frente.
Meu rosto se contrai com sua afirmação. Sim, é verdade, nós estamos – ou pelo menos eu estava – com outras pessoas, mas seguir em frente não consiste em não ter mais sentimentos pela pessoa?
– Eu te amo Blaine! Sempre vou amar, mas realmente consegui colocar um ponto final em nossa relação. – ele se senta ao meu lado para que conversemos. – Eu estou começando esse relacionamento novo com Elliott e ele é uma cara muito legal.
– Eu sei que ter te beijado agora foi idiotice, mas eu precisava saber...
– Blaine, não tem desculpas para isso. – Kurt fala e tenho que concordar. – Talvez você tenha se doido por me ver com ele, mas eu sei, e não acredito que vou dizer, mas eu te vi no casamento com o Sebastian e você parecia feliz com ele. Vocês dois pareciam muito felizes um com o outro. Ele nem parece tanto o cara idiota que era quando o conhecemos.
Kurt me faz lembrar dos momentos mais importantes daquele casamento do qual havia me esquecido. Antes de ter feito o que fiz. Eu nunca estive tão feliz com Sebastian. O que deu na minha cabeça?
– É, ele mudou bastante. – digo angustiado enquanto percebo o quanto estúpido fui. Sebastian nunca mais irá me perdoar.
– Do jeito torto e esquisito dele, ele te ama. E você o ama também. – ele repousa sua mão sobre a minha. – Me responde uma coisa.
– O que?
– O que sentiu quanto me beijou? Ainda é a mesma coisa que sentia?
– Sabe, a primeira vez que te beije eu estava tão nervoso. – sorrio enquanto me lembro daquele dia. – Minhas mãos suavam de ansiedade e nervosismo. Mesmo assim aquilo pareceu a coisa certa a ser feita. Nunca pareceu a coisa errada a ser feita. Mas agora, quando te beijei, pareceu tão errado.
– Por que foi errado, Blaine. – ele afirma com a cabeça. – Foi errado com você, comigo, com Sebastian e Elliott.
– Me desculpa por ter te arrastado para isso. – peço sincero.
Kurt me envolve em uma abraço amigável e reconfortante. Ficamos abraçados por um longo tempo até que ele volte a me olhar nos olhos.
– Você sempre vai ocupar um espaço grande em meu coração. Você foi o meu melhor amigo e confidente, você foi meu primeiro amor, meu primeiro beijo e o cara com quem perdi a virgindade. – ele mantém o sorriso em seus lábios enquanto discursa. – Você foi o meu cavaleiro montado no cavalo branco que me salvou das trevas que esse lugar foi para mim, Blaine.
Balanço a cabeça negativamente sorrindo.
– Mas é hora de encarar. – ele continua. – Eu quero mesmo tentar com Elliott. Acho que você deveria tentar mesmo com Sebastian, se essa for a sua vontade.
– Obrigado por isso. – digo em uma arfada só. – Mas acho que o Sebastian não vai querer olhar na minha cara de novo.
– Eu duvido muito disso, Blaine. – ele fala. – Quando você o conheceu... Nossa! Me senti tão frágil e inseguro. Faiscava alguma coisa nos olhos de vocês quando estavam no mesmo cômodo e aquilo me matava por dentro. Por isso o odiava tanto.
– Ele falou a mesma coisa sobre você. – confesso. – Que se sente inseguro quando estamos juntos, eu e você.
– Bom, parece que você é o tipo de homem que deixa os outros inseguros. – ele dá de ombros. – Por que você é uma pessoa boa, Blaine. É uma pessoa cheia de adjetivos e qualidades e a ideia de perdê-lo é muito dura para se aceitar.
Fim de Flashback
É bom finalmente criado coragem e voltar. Não conseguia entrar aqui por que me faria lembrar da última vez em que Sebastian e eu estivemos aqui*. Ando até a entrada da antiga sala de ensaio dos Warblers. Encaro a porta reformada que foi consumido pelas chamas do incêndio. Sobre ela há uma placa sobre ela dizendo: “Sala Blaine Devon Anderson”.
Aquilo não pode estar certo. Me aproximo da placa afim de poder lê-la de perto para ter certeza. Não é um engano. A sala de fato havia sido batizada com o meu nome. Mas como aquilo aconteceu?
– Senhor? Com licença. – digo adentrando na sala da diretoria.
– Senhor Anderson. – Charlies se levanta de sua poltrona para me receber. – Ao que devo o prazer dessa inesperada presença?
– Ah, eu só vim fazer uma visitinha. – digo constrangido. É de costume dos antigos alunos avisar a escola antes de aparecer.
– Muito bem, e como está indo em New York? – ele indica a cadeira à frente de sua mesa para que eu a ocupe.
– Ah, bem, obrigado por perguntar. – minto logo desconversando. – Posso fazer uma pergunta?
– Certamente, o que gostaria de saber? – pergunta todo pomposo.
– Por que a sala do coral ganhou o meu nome?
– Ah... – o homem de cabelos brancos e magrela começa a suar frio. A mera menção a sala o faz ficar notoriamente desconfortável. – Bem, você foi um dos melhores lideres que os Warblers já tiveram. Seus tempos nessa escola ainda são lembrados pelos alunos. O senhor se tornou uma lenda para esses garotos.
Aquilo, de alguma forma, não me soa sincero.
– Eu fico lisonjeado, – agradeço. – mas por que não fui avisado?
– Nós estávamos aguardando. – ele afirma.
– Aguardando o que? – rebato.
O diretor respira fundo. Tira os óculos e entrelaça seus dedos enquanto me observa.
– Senhor Anderson, eu recio que não possa te dar nenhuma informação sobre isso. – ele diz sério e menos cordial do que antes.
– Olha, se alguém mandou colocar o meu nome naquela sala, eu tenho o direito de saber quem fez isso. – insisto.
– Ele foi muito claro com relação ao senhor não ficar sabendo de nada.
– Ele quem? Saber do que?
Ele coloca seus óculos se levanta de sua cadeira. Caminha até a estante cheia de livros atrás de si. O observo em silêncio até que ele pegue um livro de capa dura e encapado em couro verde e o coloca aberto sobre a mesa que nos separa.
– Tudo o que precisa saber está aí. – seu olhar é severo. – E, acredito que não seja necessário, mas ainda assim vou lembra-lo: Eu nunca passei essas informações ao senhor.
Aquilo tudo fica mais confuso a cada meia informação nova que me é dada. Na página do livro aberto, que agora sei que é um caderno, há meu nome e em seguida uma quantia de seis dígitos em dólares.
– O...O que é isso?
– Uma doação, senhor Anderson. – ele afirma.
– Eu nunca doei dinheiro para a Dalton. – olho novamente para o valor exorbitante. – Eu nunca tive todo esse dinheiro em toda a minha vida.
– O dinheiro já foi doado, ou então não estaríamos aqui, não é mesmo? O senhor foi honrosamente nomeado um doador que salvo o legado dessa Academia. Se fizer uma visita ao terceiro andar, no corredor dos membros de renome que já estiveram nessa academia, então o senhor verá que há uma menção honrosa ao senhor.
Aquilo faz ainda menos sentido. Atordoado analiso a situação. “Quem faria aquilo? Quem eu conheço, com dinheiro suficiente, faria uma coisa dess... Meu Deus!”
Cemitério Memorial Park – Lima, OH.
Ajeito minha gravata para dentro do paletó enquanto caminho pelo cemitério em direção à capela de velamento. O local está lotando, com certeza Margaret era uma pessoa querida por muitas pessoas, não tem duvidas sobre isso.
– Angela? – chamo a mulher baixinha de cabelos loiros. Apensar de ter mais cabelos brancos que eu possa me lembrar desde a última vez que a vi. O abatimento em seu rosto vai além do costumeiro.
Todos ali presentes vestem roupas sociais pretas pelo luto. Angela me olha com seus olhos azuis como o mar. Estão inchados e marejados, mas isso não os fazem perder sua beleza.
– Oi Sebastian, – ela me cumprimenta melancólica, se aproximando para me abraçar. – quanto tempo...
Por todo o tempo que passe com Andrew, Angela nunca se mostrou uma mulher muito afetuosa, comigo pelo menos. A sua mudança de atitude me surpreende, mas ainda assim sustento seu abraço.
– Eu sinto muito. – digo sinceramente magoado enquanto a abraço forte.
– Ela sentia a sua falta, Sebastian. – ela diz se afastando do abraço.
– Eu sei. – aquilo me faz sentir culpado por não a ter visitado desde que me mudei para New York. – Eu mantinha contato com ela.
– Sim, ela me contava. – diz limpando as lágrimas de seu rosto. – Você a fez muito feliz. Ela sempre gostou muito de você.
– Obrigado. – digo enfiando as mãos nos bolsos da calça.
– Me desculpe, me desculpe. – ela dá um sorriso fraco. – Tavez você queira entrar e se despedir dela.
– Sim, eu quero. – olho para dentro da pequena capela, mas volto a olha-la. –Ele... ele está...?
– Sim, está lá dentro. – ela responde antes que eu tenha que terminar a pergunta.
Faz muito tempo desde que não vejo Andrew. Tivemos muito tempo para nos reencontrarmos, mas as circunstâncias não poderiam ser as piores. Caminho pela sala oval em direção ao caixão que está no centro deste.
– Sebastian? – a voz familiar me chama atrás de mim.
Interrompo minha caminhada, dando meia volta para encara-lo. Andrew não mudou muita coisa desde que nos vimos pela última vez. O rapaz de cabelos louros ondulados e corpo atlético anda até mim.
– Oi. – digo tentando mostrar toda a minha solidariedade à sua dor. – Como você está?
– Ah, Sebastian... – seu olhar está cheio de dor e sofrimento. Seus olhos, tão azuis e intensos quanto os de sua mãe, se enchem de lágrimas enquanto me encara.
Andrew se lança em meus braços me abraçando finalmente. Posso jurar ter ouvido alguma costela em meu corpo estalar pela força que ele me envolve. Ele sempre foi mais forte do que eu, mas agora, pelo jeito, fazer parte do time de Lacrosse da faculdade o ajudou a fortalecer ainda mais seus músculos.
– Eu sinto muito... – uso o último fôlego que me resta. Meus braços o envolvem para abraça-lo.
Acaricio os cabelos de Andrew enquanto seu corpo chacoalha pelos soluços. Não há palavras que amenizem a sua dor. Apenas o abraço e acaricio seus cabelos o oferecendo tudo o que posso ser: um ombro amigo.
– Eu passei tanto tempo evitando voltar para casa. – ele fala entre soluços. – Ela... Ela pedia para que as visitasse com mais frequência e eu inventava desculpas idiotas para ficar no campus.
– Ela te amava, Andrew, – tento o acalmar. – e ela também sabia que você estava vivendo uma coisa nova em sua vida. Acredite em mim, ela não se ressentiu por isso.
– Como sabe disso? – ele me olha após longos minutos. Posso sentir suas lágrimas quentes que encharcam meu terno.
– Por que nós ficamos amigos. – explico ao ajuda-lo a se sentar. – Ela se tornou uma avó para mim também.
A expressão em seu rosto é de ‘Do que você está falando?’ e antes que ele pergunte, eu respondo. Me sento ao seu lado enquanto ele me olha atento.
– Quando nós terminamos. – explico. – Um dia fui buscar um livro que deixei na sua casa. Ela estava lá e então começamos a conversar.
– Ela nunca me contou isso. – ele diz com a voz embargada.
– Por que eu pedi a ela que não dissesse. – afirmo. – Sabe, doeu muito quando você me dispensou e logo em seguida o Blaine ficou noivo. Foi ela quem me ajudou a me reerguer e seguir em frente.
– Eu não fazia ideia. – Andrew diz.
Flashback – 2013 – Lima, OH.
– Oi Sebastian. – Margaret diz ao abrir a porta da pequena casa suburbana em que a família vive.
– Oi. – sorrio para ela.
– Pode entrar. – diz abrindo espaço para que eu adentre na casa. – Eu fiz S’Mores deliciosos.
– Obrigado, não precisava se incomodar. – digo, mas a verdade é que amo S’mores.
– Você dá uma utilidade a essa velha. – Margaret anda apressada até a cozinha. Ela ordena que eu sente enquanto põem sobre a mesa as guloseimas que havia preparado.
Esse é o segredo das avós: Se ela disser que fez uma coisinha, pode ter certeza que um banquete te aguarda. Assim como imaginado, Margaret sobrepõem à mesa um prato cheinho de S’mores, mas diferente do original esses não levam bolachas e sim cookies caseiros. Dois cookies caseiros com gotas de chocolate, entre eles com um generoso pedaço de chocolate e marshmallow dourado ao forno. Ela ainda coloca uma linda torta salgada na mesa.
– Margaret, desse jeito eu vou ficar uma bola – falo com a boca cheia de S’mores.
– Você não é do tipo que engorda. – ela me analisa enquanto me assiste comendo. – Você está precisando engordar, mas nem se você quisesse você engordaria.
– Às vezes você fala que nem o seu neto, sabia? – falo, mas a mera menção de Andrew é dolorosa.
– Falando nele, faz algum tempo que ele não liga para a casa. – ela se queixa.
– Precisa dar um tempo para ele. – falo tomando uma golada de leite para ajudar a descer o doce pela garganta.
Ela emburra mais S’mores em meu prato ficando feliz somente quando começo a reclamar pela minha barriga estar doendo do tanto que está cheia.
– Eu preciso ir ao banheiro. – me levanto tentando manter o que comi no estômago.
Quando saio do banheiro, uma coisa diferente na sala me chama a atenção. Nunca havia notado aquela peça colonial ali antes. Talvez seja por que eu sempre estava ocupado em manter minhas mãos, olhos e boca no corpo de Andrew.
Uma linda vitrola com alguns LPs sob ele chamam a minha atenção e despertando minha curiosidade. Sento no chão à sua frente para vasculhar alguns os discos na estante.
Encontro um de Dean Martin, abro com cuidado o vidro de contenção da vitrola, levanto o braço e depositando o grande disco preto na bandeja. Dou corda no aparelho e o disco gira alegremente. Abaixo o braço da vitrola, a agula em contato com o disco em movimento libera a voz de Dean em That’s amoré.
O som invade a sala assim como a minha alma. Não há coisa melhor do que música antiga. Toda a classe e amor que nela são impecáveis. Ouço passos atrás de mim e vejo Margaret parada alguns passos de distancia de mim.
– Acho que encontrei alguma coisa. – digo.
– Eu amo essa música. Você é mesmo um garoto incomum, Sebastian. – seus olhos estão marejados pela música. – É por isso que o meu neto gosta tanto de você.
– Ele não gosta mais de mim. – digo me levantando.
– Não seja bobo! – ela diz dando um tapinha delicado em meu ombro. – Eu não sei o que deu na cabeça dele, mas eu sei ele gosta de você.
– Ele ta começando uma fase nova na vida e talvez queira se livrar do seu passado e eu faço parte disso. – dou de ombros. – Eu agora só sou um cara que ainda está no ensino médio.
– Deus sabe como conheço aquele menino. Quando o pai dele sumiu abandonando ele e a mãe, eu tive que cuidar daquele garoto. Eu o conheço bem. – ela diz. – Ele é um menino bom que passou por muita coisa e teve que amadurecer rápido. Ele sempre me ajudou com os trabalhos de casa. Sempre foi um menino responsável. Ele é muito carinhoso.
– Isso não está me ajudando muito. – digo.
– Você não entende? Ele não deixa de amar alguma coisa facilmente. Vocês são jovens e tem muito o que viver ainda. – há ternura em seu olhar para mim. – Tudo bem se essas coisas acontecem, mas eu sei que ele ainda te ama.
Fim Flashback
– Eu não fazia ideia, Sebastian. – ele me encara. Enxugo as lágrimas que escorrem de seus olhos inchados para seu rosto. – Não acredito que dançaram juntos.
Ele consegue soltar um sorrisinho enquanto imagina nós dois dançando.
– Pois é! Ela dançava muito bem. – digo sincero. – Tinha mais energia que qualquer um.
Ficamos abraçados enquanto conto velhas histórias de quando a visitava, muitas delas engraçadas.
Eu não sei se você já foi a um enterro em sua vida, mas caso já tenha ido a um, sabe que é uma experiência bastante traumática. Enquanto o coveiro aperta o botão do elevador que vagarosamente desce o caixão de Margaret. É somente quando o fundo do caixão toca o fundo da cova que as lágrimas entre os familiares começam a rolar de seus rostos.
Dois coveiros jogam terra sobre o caixão. A demora com que isso acontece é que torna tudo muito doloroso. Tudo faz me lembrar do enterro de minha mãe, que enquanto os coveiros jogam mais terra em sua cova, eu assistia sentado no chão ao lado. Meus olhos marejam de água e involuntariamente abraço mais forte Andrew. “Vai ficar tudo bem!” prometo a ele, mas Andrew está inconsolável agora.
Demoram mais algumas horas até que todos parentes e amigos se despeçam de Andrew e sua família. A essa altura, Andrew, não tem mais água em seu corpo para transforma-las em lágrimas. Ele sempre se mostrou um cara durão, que fazia graça do que lhe ofendia ou machucava. Enquanto saíamos e namorávamos, nunca o vi chorar daquela forma antes.
– Como se sente? – pergunto, mesmo sabendo a resposta, enquanto andamos até o carro de Angela.
– Péssimo. – ele esfrega seus olhos inchados.
– Acho que está na hora de vocês todos irem para casa e descansarem.
– É eu preciso ficar quieto em um canto. Preciso do meu quarto.
– Tudo bem, vou deixar vocês em paz agora. – digo ao finalmente pararmos todos na frente ao carro.
– Você pode me acompanhar até em casa? – ele pede.
– Claro. Com certeza. – afirmo solicito.
– Nós vamos andando, mãe. – Andrew a avisa.
– Tudo bem querido. Tenham cuidado. – a mulher baixinha dá um beijo na testa do filho antes de soltá-lo.
A caminhada do cemitério municipal de Lima até a casa de Andrew não é muito longa, mas no ritmo em que andamos, levaremos o dobro do tempo que normalmente aquilo levaria. Andrew enfia a mão em seus bolsos e o imito.
– Você quer conversar sobre alguma coisa? – pergunto casualmente.
– Pode ser. – ele dá de ombros. – Como estão indo as coisas em New York?
– Pior, impossível. – digo sorrindo.
– Por que? – pergunta confuso.
– Eu não quero te aborrecer com os meus problemas agora, Andrew. – desconverso. – E como estão indo as coisas na faculdade?
– Muito bem, na verdade. – ele afirma com a cabeça. – O Ohio Machine vai mandar um olheiro no próximo mês para recrutarem novos jogadores.
– Isso é sério? – digo surpreso.
– É sim. – ele dá um sorrisinho fraco.
– Caramba um time da MLL. – solto um longo assobio. – Isso é incrível.
– É sei. – ele arfa. – Eu estou bastante nervoso.
– Confie em mim. – repouso minha mão em seu ombro e o aperto. – Relaxe! Você é um dos melhores e vai fazer da certo.
– É... – ele reflete sobre aquilo.
Andamos cerca de um quilômetro em silêncio. Um tempo recorde.
– Se você conseguir, vai ter que me arranjar ingressos de graça para assistir aos jogos da liga. – o alerto.
– Toma vergonha na cara, Smythe. – Andrew me censura. – Você é podre de rico e pode comprar ingresso para jogo.
– Eu não sou mais rico. – dou de ombros.
Seu rosto se contrai em dúvida ao me encarar. “O que aconteceu?” ele questiona enquanto atravessamos a rua à caminho de sua casa.
– O Anthony cansou de me sustentar. – confesso. – Cortou todas as meus cartões de crédito e tudo o mais.
– E como você está se virando em New York? – há preocupação em sua voz.
– Eu estou dando um jeito. – dou de ombros.
– Espera, conta isso direito. Por que ele fez isso?
Conto a Andrew o que havia acontecido semanas atrás, o deixando boquiaberto.
– Você acha que a reação dele foi por você ter contado a ele que é gay? – ele para em frente ao gramado de sua casa para me interrogar.
– Com certeza. – afirmo. – A discussão foi tudo uma maquiagem para chegar ao ponto central “Nunca terei uma família normal, por que sou gay.”, segundo ele.
– Nossa! – Andrew está realmente chocado agora. – Caramba eu achei que você nunca contaria a ele. Esse cara, o Blaine, realmente te pegou de jeito. Você gosta mesmo dele para chegar a esse ponto.
Tocar no nome de Blaine me deprime profundamente.
– Como estão indo as coisas entre vocês? – ele pergunta curioso.
– Tudo bem. – minto.
– Ah... – há uma ponta de desapontamento em sua voz.
Andrew olha para sua casa e para mim novamente. “Você precisa voltar para New York hoje” ele pergunta recioso. “Não, na verdade não.” respondo.
– Já que oficialmente você é um sem-teto, quer passar a noite aqui?
– Tudo bem. – a última coisa que faria seria deixa-lo sozinho lidando com o luto. – E eu não sou sem-teto.
Continua...
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