Notas iniciais
Não deixe de ler as notas finais. Boa leitura!

A lâmina umedecia passa rente em meu rosto. Gostaria de dizer que o som do ambiente externo ao apartamento orna com a calmaria, tranquilidade e paciência em que me mantenho ao deslizar o barbeador em meu rosto, nas é claro que não é o que acontece. Aqui é New York, nada é calmo, nada para e eu amo isso.

A porta do banheiro é aberta silenciosamente, posso vê-la ser aberta pelo reflexo no espelho, alguns segundos depois as mãos e braços quentes de Blaine deslizam das minhas costas até a barriga. Ele se aconchega ao me abraçar por trás repousando seu rosto em minhas costas.

– O que está fazendo fora da cama? – ele pergunta sonolento.

– Me barbeando... – tento olhar para Blaine, mas seu rosto está escondido.

– Não precisa se barbear, eu gosto quando deixa ela crescer um pouco. – ele diz deslizando uma mão sobre meu peito, dando um beijo em minhas costas. – Vamos voltar para a cama!?

– Ah... – afasto a lâmina de meu rosto me encarando no espelho. – Eu não posso... Eu tenho uma coisa para fazer...

– O quê? É Labor Day... – Blaine finalmente mostra seu rosto para que eu possa olha-lo. – Ninguém trabalha hoje. É dia para descansar.

Solto a lâmina de barbear sobre a pia gelada de mármore. A calmaria se vai então. Respiro fundo, deslizo a mão sobre o braço dele até sua mão para acaricia-la. Quero ser o mais cauteloso possível para que Blaine não se exalte e com isso destrua a tranquilidade que venho tentando cria em mim mesmo para lidar com o dia de hoje.

– Olha, eu tenho um teste de elenco hoje. – digo.

– Isso é incrível! – Blaine diz eufórico.

– É, é sim... – digo sem emoção voltando minha atenção para o espelho voltando a me barbear.

Blaine, como sempre, não desiste de tentar me entender. Ele encara meu reflexo no espelho sem qualquer pudor em tentar me despir para chegar ao cerne do problema. Seu olhar me constrange, mas finjo que não, continuando com o que faço.

– Você não precisa ficar nervoso. – Blaine finalmente fala.

– Eu não estou nervoso. – minto.

– Tudo bem... – Blaine segura meu rosto entre as palmas de suas mãos sujando suas mãos com a espuma em meu rosto. – Tudo bem estar nervoso.

Sorrio carinhoso para Blaine segurando seus pulsos ao dizer pausadamente: “Eu não estou nervoso.”. Isso o faz se desculpar e se afastar aos poucos, ele sabe que invadiu meu espaço, como faz de costume. Respiro pesadamente o observando. Não quero que ele se sinta mal com aquilo.

– Obrigado por me tranquilizar. – digo ao seu reflexo.

Ele passa seu polegar em meu lábio superior.

– Tinha um pouquinho aqui... – ele diz tímido.

– Obrigado.

Nos inclinamos simultaneamente para nos beijar. Após longos minutos nos entreolhamos e Blaine consegue reestabelecer a minha paz com a mesma facilidade que a desestabiliza.

– Você... – começo a rir. Blaine, porém fica sério sem entender. – Seu rosto ficou sujo.

Passo o dedo na espuma no rosto de Blaine o passando sobre seu nariz. Seu sorriso é tão doce quanto seu olhar. Sua feição muda de um instante para o outro, uma ideia surge em sua cabeça, a ideia que não queria que tivesse, mas é tarde de mais para mim agora.

– Eu posso te acompanhar? – ele verbaliza o que não queria.

– Deus, não! – a resposta sai como um soco no estômago.

– O que? – ele me encara incrédulo. – Por quê?

– Por que eu preciso fazer isso sozinho. – digo sincero segurando suas mãos nas minhas.

– Você não precisa fazer isso sozinho – ele rebate. – É para isso que serve um relacionamento, você divide o peso das coias boas e ruins com outra pessoa.

– Ah, Killer... Não fala assim. – respiro pesadamente. – Você sabe, estamos ainda na fase de tentar impressionar um ao outro e não quero que você me veja... Você sabe...

Blaine revira os olhos teatralmente soltando as minhas mãos em seguida. Ele começa insistentemente a cutucar minha barriga com o dedo indicador enquanto em seus lábios um lindo sorriso se forma.

– Por favor, Bas, eu já te vi se barbeando... O encanto já se foi. – ele diz rindo.

Minha risada sai mais tensa do que gostaria de demonstrar.

– E tem outra coisa. É feriado! Eu esperava passar o dia com você, faz tempo que não tiramos um tempo só para nós dois... – Blaine se queixa e com razão. Faziam algumas semanas desde que tivemos um dia dedicado apenas para nós, por que passei várias semanas fugindo dele por que precisava me preparar para esse teste. Eu não me orgulho disso.

– Você pode aproveitar para se encontrar com seus amigos, é perfeito. Eu não vou estar por perto e vocês podem se divertir sem a minha presença desagradável por perto. – digo desgostoso.

– Não seja dramático, Bas. – ele contrapõem, mas sabe que estou certo.

– Dramático, é? – digo passando água em meu rosto tirando qualquer resquício de espuma ou pelo que a lâmina não tirou dele. – Já se esqueceu da última vez?

Flashback – Agosto de 2015 / Apresentação de Blaine no palco da NYADA.

Após a apresentação espetacular de Blaine no palco, ele é recepcionado pelo velho grupo de amigos em seu camarim. Fazia algum tempo que não os via todos reunidos, não desde que Kurt rompeu o noivado com ele.

Para Blaine era muito bom ver rostos familiares novamente em uma ocasião tão especial para ele. Ao desviar seu olhar para a porta vê Sebastian em pé ali lhe dando um sorriso caloroso e se retirando para o corredor em seguida. Blaine se desvencilha de seus amigos lhes pedindo alguns segundos para então seguir o namorado.

– O que é essa expressão no seu rosto? – Blaine pergunta achando graça.

– Orgulho. – Sebastian diz sorridente. – Você foi incrível!

Blaine ruboriza o que faz Sebastian sorrir ainda mais. Sebastian o presenteia com flores, ambos trocam caricias entre si até que suas atenções são voltadas para o grupo de amigos que os encaram.

Todos se entreolham à frente deles. Há conflito entre o que realmente querem fazer e o que devem fazer. Blaine se junta ao lado de Sebastian passando sua mão na do primeiro fazendo seus dedos se entrelaçarem.

– Blaine, você é meu amigo... Mas cara isso não está certo! – Sam afirma pela segunda vez naquela noite.

– O que não está certo é você dormir durante a apresentação. – Blaine diz a Sam que encolhe os ombros com a acusação. – Pensou que eu não notaria? Você até roncou.

– Ah... Isso foi... – Sam tenta rebater, mas é interrompido por Rachel.

– Bom, acho que está claro que Sebastian é alguém importante na vida de Blaine agora, por mais perturbador que isso soe. – ela olha para Sebastian desviando o olhar para seus amigos em seguida. – Então, por que não esquecemos isso tudo e vamos todos comer e beber para comemorar?

– Desculpa Blaine, mas eu a Britty estamos fora. Eu não quero ficar perto dele. – Santana aponta com desdém para mim.

– É eu deixei o Lord Tubbington sozinho e eu não posso ficar mais do que duas horas longe dele se não ele fará coisas terríveis. Ele mencionou suicídio assistido, mas não sei o que isso significa. – a garota loira tira de dentro de sua bolsa seu celular com um stream ao vivo de um gato em uma vasilha de porcelana branca cheia de chocolate derretido. – Ele me fez assinar um contrato era tudo muito técnico e acabei só assinando.

– O que é isso? – Sebastian pergunta confuso em um sussurro para Blaine.

– Nem pergunta. – Blaine sussurra de volta.

– Ele ameaçou se afogar nessa banheira de chocolate. Eu não consigo desligar isso por que ele mexeu no meu celular me obrigando a assistir isso. – ela diz guardando o celular.

Todos fazem uma pausa até que seja confortável falar novamente. É Blaine quem quebra o silêncio deixado por Brittany.

– Sam, o que diz? – Blaine pergunta.

– Tudo bem, mas eu vou por ele e não por você. – Sam diz apontando para Blaine enquanto fala ameaçadoramente com Sebastian.

Nenhum dos outros quiseram se juntar, criando desculpas ruins para não precisarem estar ao lado de Sebastian e se contrapor a Kurt.

Fim de Flashback.

– Boa sorte com o seu teste – Blaine diz da porta do apartamento para mim que já estou do lado de fora.

– Obrigado. – digo recebendo dele um beijo roubado, porém apaixonado. – Se divirta com seus amigos.

– Tudo bem. – ele sorri.

Caminho pelo corredor seguindo em direção do elevador.

– A menos que o Kurt apareça, então não se divirta. Fique triste. – digo alto o suficiente para que ele possa me ouvir.

– Toma jeito, Sebastian. – ele enfia o rosto enquanto ri.

– Só estou dizendo... – digo entrando no elevador. Antes que ele feche ouço Blaine gritar para que eu ouça: “Eu te amo!”.

– Eu te amo! – grito de volta para ele, então o elevador se fecha.

Blaine e eu estamos a quase quatro meses juntos e tem sido ótimo desde o primeiro dia até agora, mas acontece que é difícil se sentir a altura de alguém como o Blaine que parece que tudo o que toca vira ouro puro. Não me leve a mal, eu o amo e ele me faz muito feliz, mas às vezes o seu brilho acaba me intimidando.

Caminho pelas ruas de New York até entrar na estação de metrô mais próxima possível. Não pego nenhum metrô, apenas sento em um dos bancos livres da estação. Tomando um tempo para refletir no que estou prestes a fazer. Aplico um preso e importância demasiadamente superior ao que realmente aquilo costuma ter para mim.

Pelo o quinto metrô que passa ali descendo na estação próxima a Broadway que é meu destino final. Entro no prédio histórico, no quadro onde informa o que cada sala exibe há a sala de teste designadas. Sala Nove – Teste para elenco de Mamma Mia o painel informa e é para lá que sigo.

Nos bastidores, atrás do palco, há uma cerca de trinta candidatos concorrendo ao mesmo papel e eu sou um deles. Um deles mordisca as cutículas de seus dedos, outros dois andam de um lado para o outro, nervosos, provavelmente são inexperientes com isso, concluo. Vários de nós se mantêm sentados, mas alguns conversam entre si. Eu, porém, me mantenho calado com um papel em mãos que finjo ler. Seis deles se parecem comigo, o que me desanima bastante.

A medida que os nomes de meus concorrentes são chamados o bastidor fica mais vazio. A espera é dilacerante. Minha pulsação se eleva e a sensação de suor frio irreal começa aflorar desde a minha cabeça até a ponta dos meus pés, mas o suor em minhas mãos é bem real. Esfrego as palmas das mãos nas pernas da calça a fim de seca-las. Respiro fundo pelo nariz soltando o ar quente pela minha boca que deixa meus lábios mais secos. Os umedeço com a língua e torno a respirar fundo.

O medo de fracassar mais uma vez me faz querer recuar, me encolher, sentar no chão de forma fetal. Mas não o faço, me levanto

– Smythe, Sebastian. – meu nome ecoa pelo teatro.

Caminho até o centro do palco onde a diretora e a produtora executiva encaram suas pranchetas.

– Diga o seu nome e para qual personagem que está fazendo o teste, querido. – diz a mulher ruiva sem emoção na voz.

– Sebastian Smythe, meu teste é para o Sky. Vou cantar Can you feel the Love Tonight? Da peça Rei Leão.

– Muito bem. – agora é mulher de dreads que diz finalmente desviando sua atenção para mim. – Vá em frente, se precisar essa é Bernice, ela foi escalada para interpretar Sophie, o par romântico de Sky, como você bem deve saber.

Ambas tem expressão de cansaço estampando em seus rosto.

– Você pode... – digo a garota sentada na plateia.

Ela tem cabelos loiros ondulados como uma cascata de ouro líquido, seus olhos são verdes, mas há pequenas rajadas azuis neles, seu rosto tem o formato de coração e sua pele é alva como a de uma boneca de porcelana. Seus lábios são delicados assim como seus cílios são longos e dourados a fazendo parecer ainda mais com uma boneca. Ela é linda e é realmente difícil não reparar nisso.

– Claro. – a garota diz doce sorrindo para mim. Ela se levanta em um salto, ajeita seu vestido floral e sobe no palco.

– Conhece a letra? – pergunto a ela.

– Conheço. – ela afirma.

É evidente o motivo pelo qual ela foi escalada, tudo nela é gracioso. Tudo se encaixa perfeitamente. Assim como Blaine, não tem quem consiga apontar qualquer defeito que seja nele. Pessoas como eles são facilmente aceitas no mundo da arte e não pessoas como eu. Esse pensamento é doloroso, mas preciso seguir em frente. Respiro fundo mais uma vez dando um paço a frente no palco.

“I can see what's happening” canto olhando para meu lado direito com a voz um pouco esganiçada assumindo o papel de Timão, a primeira personalidade. “What?” pergunto com a voz grave de Pumba olhando para a esquerda criando o perfil da segunda personalidade. Para a minha alegria e surpresa consigo arrancar um sorriso da diretora.

“And they don't have a clue” canto com a voz da primeira personalidade. “Who?” a segunda pergunta confusa com a voz grave e rouca. “They'll fall in love and here's the bottom line.” Canto explicando sarcasticamente. “Our trio's down to two.” A primeira canta em um lamento e a segunda em um “Oh.” Entende a aonde o primeiro quer chegar.

“Ze sweet caress of twilight” explico fazendo gestos teatrais. “There's magic everywhere” reviro os olhos com desdém “And with all this romantic atmosphere” canto intenso até que “Disaster's in the air” finalizo em completo terror.

A melodia toma espaço na canção. Dou dois paços para trás ficando ao lado de Bernice. Assinto com a cabeça dando a ela a sua deixa.

“Can you feel the love tonight?” ela finalmente canta e sua voz é linda e doce, como ela. Ela não faz grandes movimentos, afinal o teste não é dela.“The peace the evening brings. The world, for once, in perfect harmony.” Eu estou simplesmente encantado com sua voz, tenho que confessor. Bernice me olha enquanto canta: “With all its living things.”

Assumo minha terceira e única personalidade agora: Simba. “So many things to tell her” canto para a platéia. “But how to make her see” faço uma breve menção para a garota parecenço um pouco nervoso e inseguro com a situação que canto. “The truth about my past?” pergunto em um sopro de esperança que a destruo no próximo verso da canção. “Impossible!” afirmo em negativa expondo meu temor: “She'd turn away from me”.

Bernice dá um passo à frente dando uma boa doze de emoção a canção quando canta para o público “He's holding back, he's hiding”. “But what, I can't decide” ela me olha com uma interrogação em seus olhos “Why won't he be the king I know he is” ela estica seu braço em minha direção oferecendo sua mão e eu a tomo em minha mão. “The king I see inside?” ela finalize lindamente.

Ando parando ao seu lado, nossas mãos ainda estão dadas e em uníssono cantamos um para o outro: “Can you feel the love tonight?” “The peace the evening brings” “The world, for once, in perfect harmony” “With all its living things”

O arranjo musical é encurtado significativamente até que finalmente cantamos juntos: “I can feel the love tonight” cantamos um para o outro esquecendo o público “You needn't look too far” ela realmente é uma boa atriz, seu olhar é intenso e aparenta sinceridade ao que as palavras são cantadas. “Stealing through the night's uncertainties” parece haver uma química real ali me equalizando na meama intensidade que ela por que precisamos estar na mesma sintonia. “Love is where we are”

Sua voz em um sopro suave canta: “And if he feels the love tonight. In the way I do”, canto em seguida “It's enough for this restless wanderer” seguramos as mãos um do outro na altura de nossos corações cantamos em uníssono “Just to be with you”.

A canção finaliza e com ela a química e o contato visual são quebrados.

– Obrigada, querido. A gente entra em contato. – a moça de dreads diz me dispensando.

As observo por um segundo e não há nada ali, nada que diga que eu realmente as toquei. Aquilo me quebra em pedaços. Caminho até a saída do palco.

No banheiro masculino me encaro no espelho. “Eu fracassei.” repito para mim mesmo. “No que eu estava pensando?”, “Você não deu o seu máximo.” e talvez a pior de todas: “Você deu o seu máximo e seu máximo não é o suficiente.”. Abro a torneira molhando minhas mãos que enfio em meu rosto o molhando também. Pego algumas folhas de papel toalha e me enxugo.

Ao sair do banheiro me deparo com Bernice encostada na parede oposta a da porta do banheiro masculino. Ela se arruma ao me ver novamente.

– Oi? – sim eu pergunto.

– Oi! – ela sorri. – Sebastian, não é?

– Isso. Você estava esperando alguma coisa? – digo apontando para o local onde a encontrei encostada.

– Ah não... – ela desconversa. – Eu só queria dizer que você foi incrível, o melhor que eu vi.

– Ah...obrigado, Bernice. – digo sincero. – Isso foi muito gentil.

– O que foi? – ela segura minha mão e parece realmente preocupada. – Tem alguma coisa errada.

Olho para a sua mão que segura a minha sem qualquer motivo.

– Ah... – olho novamente para ela. – Bom, na verdade eu provavelmente não agradei quem eu realmente deveria ter agradado.

– Eu não ficaria preocupada com isso se fosse você. – ela continua sorrindo. – Você também sentiu aquilo? No palco... sentiu?

Seu comportamento começa a me assustar e a me constranger, o que é uma coisa de se conseguir fazer.

– Olha Bernice, eu acho que você está levando isso para um lado totalmente errado. – digo desvencilhando minha mão da dela com a minha outra mão, o que não serve de grande ajuda, já que ela agarra a outra mão. – Você está sendo inconven...

– Sabe o que eu acho? Sua escolha de música foi ótima. Você é fã de rei leão? – ela pergunta me interrompendo.

– Na verdade eu gosto, mas não peguei a música do filme, mas do musical que foi produzido aqui... – explico finalmente me desvencilhando dela.

– Foi muito legal. – ela diz.

– Ah, eu tenho que ir agora... – minto. – Tenho um monte de coisa pra fazer ainda hoje.

– No LaborDay? – ela me questiona.

– É, eu não tenho folga. – sorrio, me arrependendo instantaneamente de meu ato.

– Tudo bem. – ela sorri de volta. – Que tal a gente marcar de tomar um café um dia desses? Eu pago.

– Parece ótimo, Bernice. – minto mais uma vez. – A gente marca a qualquer hora.

Saio pela porta de incêndio do prédio sem deixar alguém número de telefone ou meio de contato com ela.

Já passam da meia-noite quando caminho pelo quinta avenida. No bolso da calça sinto o celular vibrar, o pego e leio na tela “Killer.” Volto o celular no bolso ignorando a vigésima sétima chamada.

O que eu estava pensando? Broadway, sério? Quem do segundo ano consegue pegar um papel na Broadway? Eu não. Passo entre um grupo de turistas chinesas que parecem conversar animadas sobre alguma coisa e tiram fotos de outras.

Quando finalmente tomo coragem de voltar para casa, faço o trajeto a pé o que demora cerca de meia hora com os paços despreocupados e sem pressa que dou. Apenas faltando uma quadra para chegar ao prédio de casa noto no lado esquerdo da rua, na calçada, uma travesti extravagante com roupas curtas que me chama.

– Hey! Por que está tão desanimado, gracinha?

Ela é a primeira coisa que me faz sorrir durante toda a noite.

– Que tal um pouco de diversão? Aposto que faço você levantar a cabeça rapidinho e eu não estou só falando da de cima. – ela me dá uma piscadinha e um tchauzinho.

– Eu já tenho alguém que me levante a moral em casa. – digo a ela ao ela barrar minha passagem na calçada.

– Qual é o seu nome? – ela pergunta.

– Sebastian. E o seu? – rebato.

– Chirley, mas você pode me chamar do que você quiser.Sabe, aposto que sei fazer um monte de coisa que ela não sabe ou até coisas que você não tem coragem de fazer com ela. – ela diz passando seu dedo duas vezes mais grosso que o meu em meu rosto.

– Eu não tenho dúvida disso, mas elE – a corrijo sorrindo afastando meu rosto para longe se sua mão. – é bem flexível as minhas sugestões.

– Hmm...sei. – ela diz me fitando. – E o que faz andando por aqui a noite sozinho?

– Sabe como é... Eu tive um dia terrível e decidi andar para espairecer. – digo sincero.

– Eu conheço um jeito ótimo de espairecer... – ela diz insinuante passando sua mãozorra em meu peito.

– Qual é Chirley, eu estou tentando desabafar os meus problemas e você só pensa em entrar nas minhas calças? – a acuso.

Na rua uma freada brusca chama nossa atenção para o taxi que causara o barulho. Da porta traseira atrás do motorista a porta se abre rapidamente de onde um Blaine furioso irrompe atravessando a rua deserta até a causada onde Chirley e eu estamos.

– Sebastian? – ele me chama.

– É ele? – Chirley pergunta a mim.

– É sim. – a respondo sabendo que estou de todas as maneiras possíveis fodido.

– Nós três podemos fazer uma festinha, o que acham? – Chirley interesseira sugere quando um Blaine furioso de junta a nos bufando.

– O que é isso Sebastian? – pergunta me encarando.

– Não seja rude com a minha, quero dizer, nossa nova amiga, Killer. – ajo como se estivesse prestes a ser morto por ele.

– Desculpa, mas nós não vamos fazer isso. – Blaine me agarra pelo braço e me arrasta para longe.

– Vão se foder seus babacas! – Chirley grita com sua voz masculina, muito mais grave que a mim e a de Blaine. – Me fizeram perder meu tempo.

– Tá vendo o que você fez? Você chateou Chirley, Blaine. – olho para ela novamente e grito. – A gente se encontra a qualquer hora dessas...

Ela me olha pela última vez e levanta o dedo médio para mim.

– Eu não acredito que você realmente tenha cogitado isso. – Blaine quase cospe de raiva. – Você é inacreditável.

– Eu só estava conversando com ela. – digo.

– Você estava conversando com uma travesti de madrugada. – Blaine quer me estrangular e posso sentir isso em meus ossos. – Eu estava morto de preocupação por que você deveria ter chegado em casa à tarde e para piorar você nem atendia o celular. Eu pensei que estivesse morto, Sebastian.

– Desculpa, eu deveria ter atendido... – Blaine saca seu celular e começa a discar. – O que você está fazendo?

Alguns segundos depois meu celular começa a vibrar ruidosamente no bolso de minha calça me denunciando.

– Por que você não estava atendendo? – o seu olhar é mortífero. – Por que você não atendeu a porcaria do seu celular, Sebastian?

– Por que... – digo cabisbaixo. – eu... Blaine, eu fracassei.

– O que aconteceu? – ele me encara abandonando um pouco de sua raiva.

– Gostaria de saber também... – digo enfiando as mãos em meus bolsos. – Você sabe, no final eles apenas dizem ‘A gente te liga.’. A gente sabe que eles não vão ligar, então eu fracassei.

– E por que isso é tão importante? – ele pergunta. – É só mais um teste.

– Por que? Por que você é incrível, é talentoso e já faz consertos como aquele do mês passado que fez. A NYADA já te patrocina e eu sou exatamente o mesmo nada desde que entrei lá.

– Espera aí! Desde quando isso se trata sobre mim? – Blaine parece assustado com a minha reação. – O que eu tenho a ver com isso?

– Eu não tenho inveja do seu sucesso, Blaine, se é isso o que está pensando. – digo a ele.

– Eu jamais pensaria isso de você, Sebastian. – ele soa sincero.

– Isso o que você está vendo é só vergonha, de mim mesmo. – desabafo. – Eu só queria que você tivesse orgulho de estar comigo. Queria que olhasse para mim e dissesse: É esse cara que eu escolhi para estar ao meu lado e ele é incrível.

Os olhos de Blaine estão mareados enquanto balança a cabeça negativamente.

– Eu tenho muito orgulho de estar com você – ele segura minhas mãos firmemente. – E ainda não aconteceu por que não era para acontecer. Enquanto isso você vai continuar tentando até que finalmente alcance o que seu objetivo. Não tente parecer bom aos meus olhos, por que você já é, Sebastian.

Sorrio sem achar graça.

– Obrigado. Eu sei que está dizendo isso por que quer que eu me sinta bem, mas isso não me faz sentir melhor, Blaine. – digo cético.

– Você ama o meu talento ou a mim? – Blaine me questiona sério. – Ou quem sabe o que você realmente ama em mim é o meu currículo?

– Eu amo você, Blaine. Nada além importa. – digo me aproximando dele.

– E eu amo você, Sebastia. NADA além importa. – ele me fita sério. – Se eu na achasse que fosse bom o bastante para mim, nós não estaríamos construindo uma vida juntos, como estamos fazendo.

Aquelas palavras caem sobre mim de forma que toda a minha frustração e raiva se vão.

– Eu tenho fé em você, Sebastian. Você vai ser grande, mas tenha paciência. – ele sorri, o que me faz sorrir também. – Mas se eu te pegar de novo tentando arranjar um programa, a nossa conversa vai ser muito diferente.

– Eu não estava tentando arranjar um programa. Fica tranquilo que isso aqui... – faço movimentos circulares sobre minha virilha. – Te pertence.

Blaine me analisa sério.

– Pode aumentar o raio desse circulo por que... – agora é Blaine que faz um circulo com a mão em torno de mim. – Isso tudo me pertence.

– Uau! – Blaine e eu voltamos a andar. Dou um tapinha em sua bunda perfeita. – Adoro quando você fica possessivo.

– Eu ainda estou bravo com você. Nem vem...

Blaine e eu caminhamos em silêncio de mãos dadas para a casa que fica a poucos metros de onde estamos agora.

Continua...

Notas finais
O Flashback é referente ao capítulo 22 da fanfiction Sebastian Smythe, onde Blaine defente sua relação com Sebastian de seus amigos. Na ocasião Sebastian e Blaine dizem pela primeira vez que amam um ao outro, não coloquei novamente por que vocês, ou pelo menos alguns de você, já leram isso e não acho justo encher o capítulo com coisa repetida. Se bater a curiosidade volte a fanfiction Sebastian Smythe no cap 22 e leia o trecho de "2 mêses depois...". Então pessoal agradeço a todos como sempre. Os números de acesso são bastante animadores considerando ter apenas dois acapítulos publicados, muito obigado por presentear esse humilde autor com a sua valiosa leitura e tempo. Responderei aos seus comentários assim que possível. Grande abraço e até sexta que vem.