Sebastian Smythe
7 Relacionamentos
Notas iniciais

O vento, que soprava com força essa noite, faz as cortinas brancas da porta de vidro da sacada de meu quarto balançarem de modo a assemelhar-se com uma dança leve e suave. Completamente nu, caminho até a sacada recebendo uma lufada de vento em meu rosto, que faz meus cabelos voar e se assentarem em seguida. Debruço-me com os cotovelos apoiados na cerca da sacada; olho para a lua que parece estar exultante por estar impecavelmente cheia e brilhante.
Fecho meus olhos. Encho meus pulmões com o ar fresco e o soltando pela boca.
– Você vai acabar pegando um resfriado desse jeito. – abro meus olhos. Sorrio sem olhar para o dono da voz.
Me viro para olha-lo.
Andrew está parado na porta da sacada com uma toalha branca enrolada na cintura e outra pendurada no ombro, os cabelos louros molhados e bagunçados caiam sobre os olhos. Ainda restavam ainda alguns pingos d’água em seu peitoral.
– Apesar de ser um crime, — ele disse tirando a toalha de seu ombro e passando por trás do pescoço. — eu acho melhor você colocar uma roupa ou entrar pra se esquentar.
Eu já estou sentindo esquentar.
Eu poderia dizer bem aqui, neste exato momento, que estou me apaixonando por ele. Mas eu não o fiz.
Passo por ele quando passo pela porta. O beijo vorazmente. Derrubo a toalha em volta da cintura dele, e passo minha mão sobre o seu pau.
– Sério? De novo? – disse ele recuperando o fôlego após o beijo. – Eu acabei de tomar banho.
– Tanto faz. – volto para o quarto seguindo para o guarda-roupa.
– Você está bem?
– Sim, por que?
– Tipo, a gente transou umas sete vezes nas últimas 3 horas, e você ainda tá com vontade. Tá tomando alguma coisa que tá aumentando a sua testosterona? – Andrew começou a surtar enquanto eu abria a gaveta de cuecas. – Não vai me dizer que tá tomando anabolizantes. Droga cara! E se te pegarem no teste antidoping antes da partida de Lacrosse?
– Eu não to tomando nada, tá legal? – olho para ele impaciente. – O que posso dizer? Sou jovem e tenho tesão. Me processe.
– Então o problema é que eu te deixo com muito tesão?! – Andrew deu um sorrisinho sacana. – Legal!
– Não foi isso o que eu disse. – olhei para a gaveta novamente e o conteúdo começou a me intrigar. – O que disse foi “Eu TENHO tesão.” Ou seja, qualquer lugar que eu ver que tenha um buraco, eu vou querer socar nele.
– Uau! É agora que vem o “Eu te amo?”.
– Bebeu gasolina, Eisenhower? – olho irritado para ele.
Que babaca...
– Não, mas eu acho que engoli um pouco de porra sua. Acredito que é igualmente prejudicial à saúde.
– Que classe.
– Tenho mais classe que você.
Ele continuou.
– E a propósito você fica sexy me chamando todo bravinho pelo meu sobrenome. – ele disse enfiando a mão na gaveta e pegando uma cueca para ele.
Olho para aquela cena e finalmente digo.
– Desde quando tem tanta roupa sua no meu armário? – começo a revirar as cuecas na gaveta. – Tem muita cueca sua aqui. Como isso aconteceu?
Andrew se limitou apenas em me dar uma piscadinha de olho.
O que caralhos isso significa?
– Eu te faço companhia, não faço? – ele diz colocando a cueca. – Então, preciso ter algumas roupas minhas aqui, pra não te deixar abandonado nessa casa enorme e vazia.
Idiota!
– Não fode, cara. – digo pegando uma cueca e começo a vesti-la.
– Já fodi. E fodi gostoso. – ele diz me dando um tapa na bunda se divertindo com a minha irritação. – E essa cueca aí é minha.
Irritado, tiro a cueca e jogo na cara dele pegando outra.
No andar de baixo ouço um barulho de pés subindo as escadas. Olho intigrado para Andrew que se manteve calado e me olhando com os olhos arregalados.
Corro até a porta do quarto e vejo meu pai subindo as escadas.
– DROGA! – sussurro em tom de irritação. Fecho a porta sem fazer barulho.
Andrew me olha sem compreender.
– Vai pro banheiro! – ordeno em voz baixa.
– O que foi?
– Vai pro banheiro! – repito. – O meu pai tá aqui.
– Mas que porra! – Andrew diz entrando no banheiro, mas antes de fechar a porta ele diz: “Essa cueca também é minha”.
Olho para a cueca e reviro os olhos. Ouço uma batida do lado de fora do quarto na porta.
– Sebastian? – meu pai diz do outro lado da porta. – Está acordado? Sou eu, estou em casa.
Abro a porta e o encaro.
– Oi, bom te vê.
Não nos abraçamos, por que não fazemos isso um com o outro. Ele sorriu. Eu não retribui. Então ficamos ali parados, um encarando o outro.
– Não vai dizer nada? – ele perguntou.
– Você deveria ter ligado avisando que voltaria hoje.
Ele ri parecendo esperar aquela reação de mim.
– Mas isso não faz sentido, avisar quando eu vou para a minha casa... Essa casa é minha, filho.
– Não, não é. Da próxima vez ligue avisando. – Digo fechando a porta. Ele segura a porta para eu não a fecha-la.
Ele está olhando em meus olhos agora.
– Tudo bem, eu ligo da próxima vez, mas já que estou aqui vamos aproveitar pra conversar um pouco.
Eu não ia conseguir me desfazer dele.
– Tudo bem. Então só deixa eu me vestir que já desço.
Ele me analisou por um segundo e assentiu com a cabeça soltando a porta.
Supondo que Andrew tivesse ouvido toda a conversa, corro pro armário pegando uma muda de roupa limpa para mim e outra para Andrew jogo a dele para dentro do banheiro e sussurro.
– Vamos dar o fora daqui.
Quando finalmente estávamos vestidos, pulamos da sacada para o jardim, apesar de ser uma altura consideravelmente perigosa preferimos arriscar a ficar presos ali.
Não tínhamos um plano então apenas andamos por longos minutos.
Paramos em frente a um café pé sujo enquanto uma chuva fina começava a cair sobre nossas cabeças.
– Pode ir pra sua casa se quiser, eu vou ficar bem. Digo apontando para o ponto de ônibus do outro lado da rua.
– Você acha que vou te deixar vagando sozinho a noite na rua?
– Eu vou ficar bem.
Ele simplesmente ri.
– Vamos! – ele diz me puxando para o ponto de ônibus.
No banco do ponto de ônibus, um homem sem-teto está deitado ouvindo o seu radinho de pilha.
– Você sabe que uma hora vai ter que falar com ele, né?
– Sei, mas não vai ser hoje.
– Tudo bem.
Andrew não discutiu, – talvez essa seja a coisa que mais gosto dele. Ele não me questiona. –, porque sabia que o assunto me aborrecia de verdade. O rádio do homem começou a tocar Sugar da banda Marron 5.
Estamos em completo silencio ouvindo a música.
I'm hurting baby, I'm broken down
I need your loving, loving
I need it now
When I'm without you
I'm something weak
You got me begging, begging
I'm on my knees
I don't wanna be needing your love
I just wanna be deep in your love
And it's killing me when you're away
Ooh baby, cause I really don't care where you are
I just wanna be there where you are
And I gotta get one little taste
Quebro o silencio e o constrangimento que a letra da música nos causava.
– Você trouxe dinheiro, né?
Andrew apalpa os próprios bolsos.
– Não. E você?
– Também não. Droga!
Não havíamos tido a chance de pensar em pegar dinheiro ou nossas carteiras na hora da correria, por isso acabamos andando cerca de 1,5 km sob chuva até chegar à cada de Andrew. Tive que entrar pela janela do quarto porque a mãe dele estava na sala. Acabei com um arranhão na perna porque quando fui pular a janela dele acabei pisando no rabo do gato dele que se vingou me arranhando a perna toda.
. . . . . . . .
Na manhã seguinte volto dar continuidade em meus planos. Andrew tem me distraído do meu objetivo e isso não é nada bom. Quero dizer, eu estou correndo contra o tempo.
Pego meu smartphone do bolso da calça e começo a escrever.
[Oi Blaine :D]
[ É o Sebastian.]
[Espero q não se importe.]
[Consegui seu nº com a primeira pessoa que perguntei na Dalton ;P]
Pouco menos de um minuto ele responde.
[Oi =)]
[Nossa! LOL]
[Não tem problema]
[Queria saber se podemos nos ver hj depois da aula no The Lima Bean.]
[ O que acha?]
[Ah...]
Ótimo! Ele gagueja até por mensagens.
[Parece ótimo!]
[Mas não posso demorar muito]
[ ;)]
Perfeito!
Guardo o celular de volta no bolso da calça quando Andrew passa por trás de mim.
– Treino de Lacrosse hoje depois da aula, Smythe.
Me viro para olha-lo.
– Nós não temos treino hoje. – o lembro.
– Você tem, Smythe! – ele diz dando uma piscada e saindo.
Reviro os olhos.
Isso vai ter que esperar
. . . . . . . .
Após as aulas saio o mais rápido que pude da Dalton tentando evitar ser visto por Andrew.
Na entrada do café lima encontro Blaine.
– Hey, Blaine! – o chamo.
Ele olha em minha direção com a mesmo olhar de encantamento que me olhara da primeira vez que nos vimos.
– Oi Sebastian. – ele sorriu de orelha a orelha.
– E aí, como tá? – digo sendo o mais charmoso que consigo.
– Estou bem, obrigado – ele ficou me olhando. – Ah... e você? Como está?
Ri me divertindo do jeito dele sem parecer rude.
– Eu estou ótimo agora.
Ele corou de leve.
– Mas eu não te chamei aqui para a gente ficar conversando do lado de fora da cafeteria e de pé, não é mesmo?
Blaine riu mais envergonhado ainda.
– É... é isso, vamos entrando, então. – disse ele gaguejando.
Seguimos para a fila do café, enquanto esperávamos ser atendidos comecei a puxar assunto.
– Gostei da gravata.
Blaine passou a mão por ela involuntariamente.
– Ah, obrigado. – ele sorri.
– Ela combina bem com todas as cores da Dalton, que a propósito você está usando agora mesmo.
Ele parece não ter percebido, ele olhou para as cores de suas roupas e ficou envergonhado.
– Não se sinta mal. Dalton é o seu lar, sabe disso.
– Bom, eu te expliquei que o...
O interrompo antes que ele começasse com aquela baboseira de coração mais uma vez.
– Sim, sim. Eu sei. Seu coração está no Mckinley. Eu entendo. Mas será que vale a pena seguir o coração todas às vezes.
Ele parecia intrigado comigo agora.
Okay, Sebastian. Você não quer assustar o cara com a sua total falta de tato e amor pelo próximo.
Dou um largo sorriso.
– Hey, eu só estou brincando. Relaxa cara. – continuo sorrindo para ele.
– O que vão querer? – a barrista do outro lado do balcão pergunta.
– Um café médio para esse cara aqui – digo colocando minha mão no ombro dele, mas tirando em seguida. – E um café grande com uma dose de conhaque.
– Como é que você sabe o que eu peço? –
– A gente já tomou café juntos, lembra?
– Ah, mas foi só uma vez. – ele me olha intrigado franzindo o cenho.
Ele não é nada mal. Ele até fica sexy fazendo essa carinha.
– A minha memória é muito boa. – digo sorrindo para ele. Pago antes que Blaine tenha a chance de pegar a própria carteira.
Pegamos nosso pedido e nos dirigimos para uma mesa vaga. Meu celular vibra incessantemente. Blaine olha para o celular que está na minha mão agora. Na tela lê-se “Andrew Eisenhower.”
– Tudo bem, atende. Deve ser importante.
Sorrio balançando a minha cabeça negativamente.
– Sem chance. Nada é mais importante do que o aqui e o agora. E isso aqui não é nada importante. – digo ignorando a chamada e desligando meu celular em seguida.
– Ah tudo bem...
Ele continua.
– Sebastian, eu não acredito que você pediu uma dose de conhaque no café.
– Esqueço como essa cidade é chata. Quando eu morava em Paris eu bebia isso como se fosse água.
Nos sentados em na mesa livre um de frente para o outro.
– Quando você morava em ... Ah meu deus. – ele parece surpreso demais para terminar a própria frase.
– O que? – pergunto me divertindo.
– Você é tão vivido, viajado. – Blaine diz.
Olho para ele me deliciando com aquela confusão me pessoa sentada na minha frente.
– E todo esse coisinha de namoradinho tímido do colégio? Muito sexy. – flerto com ele.
Blaine muda suas feições de garoto confuso e deslumbrado para um cara sério.
– Olha Sebastian, eu tenho namorado.
Continuei o olhando sem me deixar abater.
– Não tem problema. Não sou ciumento.
Blaine não cede.
Isso tá muito divertido.
– Não. É sério, eu gosto dele de verdade. – Blaine disse ainda sério sem ser rude.
Ah, Blaine... Essa sua banca de “bom moço” todo certinho, só me deixa com mais vontade de ir até o fim com isso.
– Ele não precisa saber. – digo começando a levar aquele jogo a sério.
– Eu nunca vou querer estragar as coisas com ele. – ele insiste.
Okay, Sebastian. Fica frio.
Reclino minha cabeça para o lado estudando o rosto de um Blaine gaguejante.
– Nem pensar. – ele continua. – Ele é ótimo!
Um garoto, que eu facilmente poderia ter confundido — não apenas por causa das roupas femininas como a voz igualmente feminina — com uma mulher, parou ao lado de Blaine e disse:
– Quem é ótimo? – ele olhou de Blaine para mim de forma seca.
Mais divertido do que ver Blaine corar com as minhas investidas e insinuações, era ver ele envergonhado pela presença inesperada daquele garoto, ou garota. Se lá.
– Ah...Ah...Você! – disse Blaine gaguejando e sorrindo para o cara.
Esse porém, fitou-me de forma pouco amigável. Eu o olhei com um sorriso maldoso no canto dos lábios.
– A gente tava aqui falando de você. – Blaine não parava de falar enquanto nós dois apenas nos olhávamos. – Sebastian, esse é o Kurt, – Blaine deu um tapinha carinhoso na mão de Kurt – meu namorado.
Interrompi o contato visual com Kurt para olhar um Blaine muito confuso. Blaine tropeçava nas próprias palavras, o que era muito engraçado. O olhei rindo sem emitir som de risada.
– De quem eu tava ...nossa. – Não sei bem o que Blaine estava tentando fazer.
– Saquei. – o interrompi porque aquilo estava muito embaraçoso.
Kurt ainda me olhava quando estendeu a mão para mim. Hesitei por alguns segundos até finalmente retribuir com um aperto de mão.
– Prazer. – Kurt disse sem soar sincero.
Mantive apenas um sorriso amarelo em meus lábios.
Kurt se virou para Blaine, que estava tomando uma enorme golada de café.
– Da onde a gente conheceu o Sebastian? – Kurt o perguntou.
– Ah... nos conhecemos na... – Blaine começou.
– Na Dalton. – disse o interrompendo. Enquanto falava mantive contato visual com Blaine. – Eu tava louco pra conhecer o Blaine.
Abri um largo sorriso para Blaine que sorria lindamente de forma tímida enquanto eu falava. Não sei como Kurt estava, não perdi tempo olhando para a cara dele.
– Os Warblers não param de falar nele. Eu não achei que estaria a altura de tanto papo, mas na verdade... – Blaine sorri ainda mais.
Kurt puxa uma cadeira para si, sentando-se ao lado do namorado. Eu, porém, não quebrava o contato visual com Blaine.
– É ele é ainda mais impressionante ao vivo.
Kurt passa o braço em volta do braço de Blaine. Assisto a aquela tentativa lamentável e desesperada de Kurt.
Que idiota. Essa cara não vai me atrapalhar, na verdade ele só está elevando o nível da minha diversão aqui.
Faço a coisa mais inteligente que poderia fazer. Recuar. Recuar e ser amigo dos dois.
– E aí o que vocês dois vão fazer amanhã de noite? – pergunto para Blaine mudando de assunto.
Mas é Kurt quem me responde.
– A gente vai estar ensaiando pro musical da escola. – ele diz olhando de Blaine para mim. Eu me mantenho olhando apenas para Blaine. – E aí depois á noite a gente vai fazer a nossa tradicional esfoliação ao telefone antes de dormir.
– Por mais sexy que possa parecer, que tal dar uma sacudida nas coias? Eu consigo para vocês dois identidades falsas e a gente vai pro Scandalo em West Lima.
Kurt não para de me encarar por um segundo sequer.
– Scandalo? – Blaine se indaga olhando para Kurt em seguida. – Ah, é aquele bar gay.
– A última vez que eu fui, eu encontrei o homem dos meus sonhos na pista de dança. – disse para Kurt.
– Ah que lindo. – Kurt fala em tom falso. – Vocês estão juntos ainda?
Respondi olhando de Blaine para Kurt.
– Infelizmente não. Terminamos uns vinte minutos depois que nos conhecermos. Ah que isso gente, vão viver um pouco.
– A gente adoraria, Sebastian. Obrigada pelo convite, foi muito gentil. Mas esse não é o tipo de coisa que a gente curti. – Blaine disse.
– A gente topa. – agora foi Kurt quem falou.
– O que? – Blaine o encarou.
– É, ué. A gente tá cheio de coisa pra riscar da nossa lista. – Kurt falava para Blaine.
Olho encantado pra Blaine que sinceramente parece ser um filhote de poney inocente que usa gravatas borboletas.
– Fechado. – Kurt diz em tom desafiador para mim.
– Ótimo. – digo para Blaine.
– Legal. – diz Blaine encantado.
. . . . . . . .
Após uma hora saímos do café nos dispersando no estacionamento da cafeteria. Entro em meu carro pegando meu smartphone para liga-lo.
O celular apita enfurecido exibindo na tela “Trinta mensagens, dez chamadas perdidas e uma mensagem de voz.”
– Isso é um recorde. – digo olhando para a tela do celular.
Todas as mensagens eram de Andrew, como o esperado, mas apenas nove chamadas perdidas vieram do número dele. A mensagem de voz e duas chamadas pertenciam a outro número.
Seleciono para ouvir a mensagem de voz.
“Sebastian? Onde você se meteu a noite passada, garoto?”, o homem parecia aborrecido. “Eu te dou todo o espaço que você quer, mas pelo menos uma vez por mês, quando volto para casa, não podemos agir como uma família? Eu não estou pedindo muito.” Ele fez uma pausa e pude ouvir o som de sua respiração pesada. “Isso... isso não é o que Anne iria querer para nós. A sua mãe estaria decepcionada com a vida que estamos levando.” Ele fez mais uma pausa.
A minha expressão que era de tédio passou para ódio puro. Como ele se atreve? Por Deus, como ele se atreve?
Saio com o carro do estacionamento enfurecido, ultrapassando as velocidades permitidas e desrespeitando os faróis e as placas de PARE.
Paro o carro de qualquer jeito na frente de casa esquecendo a porta do mesmo aberta com as chaves no contato. Cego de ódio, ando até a entrada de casa, encontro um buque de flores vermelhas no carpete da porta, passo em cima delas as esmagando.
Meu pai abre a porta de casa, ao lado dele algumas malas de viajem o cercam. Movido por um impulso eu o agarro pelo colarinho da camisa.
– O que acha que te dá o direito de falar dela? Achar que sabe o que ela gostaria? – digo quase cuspindo de ódio. O meu corpo está a mil com toda aquela adrenalina, não consigo prestar a atenção em nada a minha volta.
– Se acalma, Sebastian. – a expressão na cara de meu pai era de surpresa.
FLASHBACK — 31 DE DEZEMBRO DE 2009
Sebastian está sentado em frente à janela da sala olhando a explosão de fogos de artifício no céu. Ele fora proibido de entrar no quarto de seus pais. Uma equipe de paramédicos carregavam sua mãe escadas abaixo em uma maca. Ele só a pode ver sendo posta dentro da traseira da ambulância e ser levada.
Sebastian estava sozinho na casa esperando por notícias da sua mãe, mas o telefonema veio apenas por volta das 2:00 a.m.
– Alô? – ele diz apertando o telefone com suas mãos frias.
– Alô. É da residência dos Smythe? – a mulher que falava do outro lado da linha tinha um sotaque muito carregado.
– Isso. É aqui mesmo. – ele diz se sentindo enjoado.
– Aqui é do Hospital Group Paris Saint-Joseph – ela informou. – Posso falar com o senhor Anthony Smythe? É sobre a senhora Anne Smythe.
Aqui era tudo muito doloroso. Sebastian não tinha a menor ideia onde o próprio pai estava e não sabia como sua mãe estava.
– Não, ele não está. Ele... – A vontade de Sebastian era de se desmontar ali mesmo. – Mas, eu sou o filho dela. Como... como está a minha mãe?
As palavras seguintes ditas pela mulher fizeram o mundo de Sebastian desabar. A visão do garoto ficou turva enquanto seus lábios ficavam secos, uma repentina surdez surgiu em seus ouvidos e sua respiração passara a ser ofegante. Sebastian se largou sentado frente ao telefone e se encolheu ali. Segurando suas pernas e enfiando a cara entre os próprios joelhos em prantos e soluços.
FIM DE FLASHBACK
FLASHBACK
Sebastian estava sentado na fileira de cadeiras da frente. Ele encarava com os olhos inchados o caixão da própria mãe com a ilusão de uma criança que no último segundo, antes que fechem o caixão, todos digam a ele que aquilo não passa de uma brincadeira terrível.
Haviam rostos desconhecidos pela sala, a mãe não tinha feito muitos amigos em París, por isso o velório não estava muito cheio. Ninguém estava ao lado de Sebastian para conforta-lo. Esse era o papel de sua mãe. Agora não há ninguém.
Ele olha para o fundo da sala onde o pai recebe as condolências de algumas pessoas e ao seu lado estava Alícia, a secretária de Anthony.
Sebastian tem vontade de pular em cima do pai e machuca-lo de verdade, machuca-lo como machucara ele e sua mãe. Ele se levanta e caminha em direção do pai.
– Como se atreve? – pergunta deixando transparecer todo seu ódio pelo homem.
– Sebastian, agora não! – o pai diz com rispidez. – Seja um bom menino e vá se sentar.
– Você nem sequer ligava para ela, não é? – Sebastian disse quase cuspindo de ódio.
– Eu disse agora não! – repetiu sem olhar para ele.
O garoto o encarou enfurecido, as pessoas ali presentes começaram a notar. Contra a vontade de Anthony, Alícia se retirou do recinto antes que as coisas piorassem.
FIM DE FLASHBACK
FLASHBACK
– Como se atreveu a leva-la até lá? — Sebastian berra irrompendo pela porta de entrada da casa seguido por seu pai.
– Veja lá como fala comigo, rapazinho. – o homem diz o encarando.
– Você não tem noção de porra nenhuma. – Sebastian berrava em pelos pulmões sustentando o olhar do pai. – Levar a sua amante pro funeral da minha mãe? Qual é o seu problema?
– Sebastian, eu e a sua mãe não estávamos bem. Nós iríamos acabar nos separando alguma hora. – ele disse em tom calmo.
– NÃO ME INTERESSA! ELA ERA A MINHA MÃE! – a veia do pescoço e da testa de Sebastian saltavam. – VOCÊ TINHA QUE RESPEITA-LA. ME RESPEITAR.
– Pare de gritar, Sebastian. – Anthony diz de forma branca.
Toda aquela calma surpreendia e assustava Sebastian.
– Mas que porra é essa? – o garoto olha para o pai com nojo. – Você não se importa, não é? Nunca se importou.
– Eu me importo. – o homem rebateu. – Sempre me importei. Mas como disse, as coisas entre nós não estavam dando certo havia algum tempo. Sua mãe sabia que eu havia traído ela e nossa relação se foi desgastando.
Sebastian se sentia enojado.
– Eu descobri a algumas semanas que ela não estava mais indo aos tratamentos, não estava mais tomando os remédios. – ele esfregou a testa. – Ela desistiu de nós, Sebastian. Ela não quis lutar para ficar comigo ou com você. Não sou eu quem não se importa. Era ela. Consegue entender isso, filho?
– Se ela perdeu a vontade de viver foi por sua culpa, filho da puta. – Sebastian se sentia capaz de matá-lo. – Você não é o meu pai. VOCÊ MATOU A MINHA MÃE!
O pai olhou para ele sem qualquer compaixão ou bondade.
– Desculpa, eu não penso desse jeito.
Sebastian, incrédulo com a falta de humanidade no pai, cospe nele.
FIM DE FLASHBACK
– Você destruiu essa família. – eu o olhava com ódio. – Eu tenho nojo de você e não quero te ouvir falando dela de novo.
Ele me olhava boquiaberto pela pessoa cheia de tanto ódio em sua frente.
– Eu não posso te impedir de vir aqui, mas eu juro por Deus que se eu te ouvir falar de novo na minha mãe eu acabo com a tua vida. – podia sentir meus olhos faiscarem. – Eu não tenho nada a perder Anthony.
O solto voltando a mim. Ele, porém, pega suas malas e saiu pela porta sem me dizer qualquer palavra para mim.
Olho para o carpete e vejo as flores esmagadas largadas ali. Aproximo-me para ler o cartão.
Você me deu o maior bolo da história.
Não é assim que se trata um cara que está tentando te pedir em namoro.
– Andrew E.
Fale com o autor