Sebastian Smythe
22 Quem eu sou
Notas iniciais

Dirijo alguns quilômetros até que pare. Sou eu quem sai primeiro do carro. “Saia do carro.” ordeno, mas Blaine me ignora só saindo após alguns longos minutos.
– Que lugar é esse? – ele pergunta de forma ríspida.
Ando pelo terreno gramado a frente “Só me siga.” falo alto para que possa me ouvir. Posso ouvir seus passos, logo atrás de mim quando ele pergunta: “Quem mora aqui?”. Ainda fora de minha vista, não me viro para olhá-lo e ele por sua vez não faz questão de me alcançar.
– Eu.
O silêncio se estabelece entre nós dois por todo o trajeto que percorremos. Adentramos na casa que apesar de praticamente abandonada continua impecavelmente limpa. Caminho pelo hall de entrada, tateio a parede em busca do interruptor.
Blaine se deslumbra com a casa ao vê-la iluminada. Está muito silenciosa assim como sempre esteve. Faço menção para que Blaine me sega escada acima. “O que estamos fazendo?” Blaine pergunta, mas ainda o ignoro.
Entro em meu antigo quarto. Ao fazê-lo a sensação é de estranhamento e desconforto por voltar até aquele lugar, mesmo que muito mais confortável que o alojamento, ainda sim não me faz sentir à vontade como no último. Ando até a estante de livros e de lá retiro o caderno preto encadernado. O jogo no peito de Blaine que o pega de mau jeito.
– O que é isso? – ele diz analisando superficialmente o caderno.
– Um caderno que venho anotando basicamente tudo em minha vida. – digo quebrando meu silêncio. – Se lê-lo saberá exatamente quem eu sou.
– Um diário? – ele pergunta erguendo uma sobrancelha.
Me sinto velho de mais para aquela velha discussão. Dou de ombros.
– Você está brincando, certo? – noto um tom de irritação crescente em sua voz. – Por favor, me diga que está brincando.
De todas as vezes que vi Blaine bravo e irritado, – que não foram muitas – devo admitir que nada se compara a sua feição agora. Blaine respira fundo de olhos fechados e dispara a falar de uma forma muito calma que, sinceramente, me assusta.
– Você dirige feito um louco, colocando nossas vidas e de outras pessoas em risco para me trazer aqui – diz fazendo uma pausa para olhar para o pequeno caderno em sua mão. – e me jogar um maldito diário...
Me sinto muito envergonhado e não consigo o encarar mais.
– Só por que você espera que o leia para conhecê-lo melhor... – as palavras sem duras de sua boca. – Você tem alguma noção do quanto isso é infantil e doentio?
Com muita força, Blaine o joga de volta para mim. Não o estou olhando, por isso o caderno é lançado e acerta meu braço dolorosamente caindo com um baque surdo no chão do quarto.
– Vê se vira homem – Blaine diz cuspindo de raiva agora. – e me diga o que tem para me dizer você mesmo.
Encaro o caderno ao chão.
Existe um único motivo para que aquele caderno exista. Reflito sobre aquilo. A razão é que tenho guardado comigo coisas que nunca pude desabafar com ninguém. A realidade é que sempre estive sozinho e aquele caderno servia como válvula de escape. Nunca tive coragem de contar o que tinha ali dentro. A simples idéia me incomoda de ter que partilhar o que tem ali dentro com alguém, mas não me sinto dessa forma com relação à Blaine. Talvez pelo medo de parecer frágil ou inseguro me detinha de fazer, mas eu já vi Blaine cair e se levantar diversas vezes e perante aos meus olhos ele nunca deixou de ser o cara forte e confiante que é.
Respiro fundo. Quero contar tudo, mas não é fácil.
Você passa anos guardando tudo para si, aquele é seu mecanismo de defesa, não é fácil abaixar os escudos de uma hora para a outra.
– Tudo bem... – falo olhando em seus olhos. – Senta aí.
Blaine estuda as possibilidades de acentos no quarto e opta pela cadeira de rodinhas da escrivaninha. Me sento na beirada de minha cama. Nos encaramos por alguns minutos antes que eu comece a falar.
– ... quando eu tinha nove anos de idade eu e meus pais fomos morar na França... – Até ali esta indo tudo bem, está sendo fácil até agora. – Todos, eu, a mamãe e ele ficamos muito felizes com aquilo...
No bolso de sua calça, posso ouvir o telefone de Blaine vibrar e parar. Ele não dá atenção para o telefone, apenas continuar me olhando. Aquilo me motiva a continuar a falar.
– Conforme foi passando os anos, eu ia crescendo e a minha família se separando aos poucos. Meu pai não era mais presente, minha mãe se fechou e eu, sabendo que era um pré adolescente gay, me fechei em meu próprio mundo. Logo em seguida minha mãe foi diagnosticada com câncer, mas não me contou. Para ficar melhor, peguei meu pai traindo a minha mãe e aquilo devida estar rolando havia algum tempo.
Bzzz – bzzz – bzzz
– Quando ela morreu eu passei semanas sozinho em casa, o canalha do meu pai não tinha coragem de me encarar. Eu fiquei sozinho por um longo tempo e sinceramente ainda me sinto da mesma forma...
Bzzz – bzzz – bzzz
Bzzz – bzzz – bzzz
– Eu fico com os caras sem me importar com sentimentos por que se importar machuca. Ao longo da minha vida eu pude perceber que absolutamente tudo que entra nela parece ter um tempo de validade e muito rapidamente perece. Ninguém fica na minha vida por muito tempo, então é muito mais fácil não me importar...
Bzzz – bzzz – bzzz
Bzzz – bzzz – bzzz
Bzzz – bzzz – bzzz
– Você precisa atender? – digo apontando para o celular em seu bolso.
– Não, provavelmente é só alguém me mandando mensagem. – ele diz. – Pode continuar.
Para um segundo para retomar de onde havia parado.
– Então eu conheci um cara, meu ex, provavelmente uma das melhores pessoas que já conheci. Ele me mostrou que não precisava ser assim, e ele conseguiu me fazer acreditar nisso, mas então acabou. Como sempre acaba.
Nos mantemos calados por alguns segundos apenas nos olhando. Há compaixão nos olhos de Blaine, é odioso vê-lo com esse olhar por minha causa. Não quero que pense que sou menos, que sou fraco, que sou quebravél. Desvio meu olhar do dele para não precisar encará-lo mais. Então remoto.
– A questão é, Blaine Anderson, eu estou farto disso. Eu também quero uma coisa estável pelo menos uma vez na minha vida....
Bzzz – bzzz – bzzz
Bzzz – bzzz – bzzz
Bzzz – bzzz – bzzz
Bzzz – bzzz – bzzz
O celular de Blaine começa a me irritar finalmente. Respiro fundo e prossigo.
– O que aconteceu com o seu último namorado? – Blaine tenta continuar ignorando o celular.
– Ele achou melhor terminar por que ele achou que eu precisava buscar uma coisa, descobrir o que eu realmente queria.
– E o que você queria?
– V...
Bzzz – bzzz – bzzz
Bzzz – bzzz – bzzz
Bzzz – bzzz – bzzz
Bzzz – bzzz – bzzz
Bzzz – bzzz – bzzz
– Pelo amor de Deus, vê logo o que essa pessoa desesperada quer de você. – digo irritadiço.
Blaine pega o celular em seu bolso continuo o fitando enquanto a expressão no rosto de Blaine se transforma de serenidade para aflição.
– Está tudo bem? – pergunto.
– Ah... – Blaine pisca os olhos repetidas vezes balançando a cabeça negativamente ao tentar processar o que quer que seja que tenha lido. – Kurt quer me ver...
– O quê? – O encaro severo. Como ele se atrevia? – Por quê? Quando?
– Ah... – Blaine perde as palavras. – Não sei o por que. Ele quer me ver hoje.
– Então diga que está em Lima e não em New York. – sugiro rapidamente.
Blaine faz uma pausa para olhar do celular para mim.
– Acontece que ele também está em Lima. – diz confuso.
– Espera... O que? – sim, eu estou alterado. – Como ele sabe que está em Lima? Por que ele está em Lima?
– Ele disse que a Rachel disse para ele que eu disse a ela que estaria aqui, se lembra?
Aquilo confunde minha mente.
– E por que ele está aqui? – repito a pergunta.
– Ele disse aqui que – ele diz olhando a tela de seus celular. – está comandando do New Directions como co-diretor junto com a Rachel.
– Ah é claro... – digo ao me jogar para deitar na cama. – Isso é perfeito.
Blaine se mantém calado.
– E o que vai fazer? – pergunto sem querer saber realmente a resposta, por que na verdade já a conheço.
– Eu não sei. – Blaine soa sincero.
Várias perguntas e hipóteses surgem pela minha cabeça e todas elas me ferem dolorosamente.
– Você sabia que você ele estaria aqui? – pergunto logo o que quero saber. A possibilidade de um “Sim” dobra meu estômago.
– Não, é claro que não. – Blaine diz sério. – Eu nem sei se realmente quero vê-lo novamente.
Me sento novamente na cama para encará-lo.
– Olha... Eu sei que não tenho nada a ver com isso, mas esse cara pisou nos seus sentimentos e te chutou.
Blaine tem a expressão reflexiva estampada em sua cara.
– Eu não sou muito melhor que ele, Sebastian. – Blaine diz chateado. – Eu também cometi os meus erros.
– Ta brincando? Você é mil vezes melhor que ele.
– Isso é complicado... não é fácil de explicar.
– Então deixa eu simplificar para você. – me levanto da cama e o encaro. – Você é ingênuo, Blaine. Ele vai te lançar um papinho qualquer e você vai esquecer tudo o que fez para você.
– Eu não quero voltar com ele, Sebastian. Eu estou bem sozinho.
– Ah é? – não acredito no que ele me diz. – Certo, então eu vou junto.
– O quê? – Blaine franze o cenho. – Para o quê?
– Para ter certeza que você não vai ser feito de trouxa... De novo.
– Isso é ridículo, eu não vou te levar junto.
– Eu ir é ridículo? Ou será que ridículo é você chorar por semanas por um cara que não se sentia emocionalmente pronto para corresponder aos seus sentimentos e expectativas? Você me perturbou por semanas com aquela choradeira e com aquelas músicas.
Blaine ruboriza.
– Tudo bem. – Blaine diz irritadiço – Seja ridículo, observando nós dois conversando. Ele vai te ver lá e eu digo o que?
– Diga algo convincente. Diga que estamos saindo.
– O que? – Blaine engasga com a possibilidade. – Saindo? Não. Você quer matá-lo?
– Por que não? – pergunto com naturalidade. – Se não quer voltar com ele, então não tem mau nenhum. Se ele achar que você já está em outra ele não vai tentar nenhuma gracinha.
– Sebastian, isso é loucura. – Blaine esganiça.
– E é por isso que vai dar certo. – afirmo.
– Não! Esquece, isso não vai acontecer. – diz decidido. – Isso não tem a menos remota chance de acontecer...
. . .
Paro o carro no estacionamento do Scandals, é sensação de voltar aqui mesmo depois de tanto tempo não é estranha como a de voltar para casa, pois aqui pude me sentir muito mais à vontade.
– Tudo bem, vai na frente e te encontro lá. – digo desligando o motor do carro.
– Tudo bem, mas e se ele te ver? – Blaine diz aflito.
– Não vai. – afirmo. – Eu só vou aparecer se perceber que você está amolecendo.
– Tudo bem, mas isso é loucura. – Blaine respira fundo.
– Vai logo! – ordeno e ele pela primeira vez obedece.
Blaine entra no bar, enrolo no estacionamento os dando alguma privacidade, mas não o suficiente. Ao entrar fico alguns metros de distância deles, Kurt não pode me ver, pois ele está de costas para mim. Ele e Blaine se abraçam, Blaine quase o beija por costume. Me seguro. Eles se sentam no banco do bar enquanto conversam.
Blaine mantém suas mãos em cima do balcão, Kurt as seguram. Não consigo ouvir o que conversam, só posso ver a luta no rosto de Blaine. Me aproximo alguns passos.
Blaine olha para suas mãos dadas e toma fôlego.
– Ah... – Blaine não parece se abalar com o que Kurt diz. Leio os lábios de Blaine enquanto fala. – Eu estou saindo com uma pessoa.
Eles se mantém calados.
– Ah... – Blaine parece seguro, tomando mais coragem ao falar. – É, eu queria te contar pessoalmente por que você o conhece.
Kurt não diz nada assim como Blaine. Aquela é a minha deixa.
– Nossa, oi Kurt. – digo lhe dando um tapinha em seu ombro.
– Oi. – digo sorrindo para Blaine que retribui o sorriso. Me aproximo dele, o seguro pelo queixo com o polegar e indicador, o dando um beijo carinhoso em seus lábios. Os lábios de Blaine são macios e quentes, meu instinto me diz para não parar apenas naquele beijo. Me contenho.
Blaine fica em choque.
Olho para Kurt que está boquiaberto me encarando.
Puxo um banco para me sentar ao lado de Blaine, repousando minha mão em sua coxa.
– Sebastian? – Kurt diz saindo de seu choque.
Blaine sai de seu próprio choque também. Blaine não encara nenhum de nós dois. Ele olha apenas para as próprias mãos que segura a parte da frente de seu banco.
– É eu sabia que seria meio estranho para você. – Blaine parece se arrepender da mentira.
– O que? Não! – Kurt mente. – Não tem nada de estranho. Não, como é que vocês se encontraram, gente?
– Olha, faz alguns meses. Foi lá em New York. – Blaine diz.
Encaro Kurt evitando piscar os olhos o mínimo necessário, pois sei que ele entrará em combustão de dentro para fora a qualquer segundo e eu não quero perder o espetáculo.
– Olha... – Kurt diz fingindo estar impressionado.
– Pois é, – Blaine diz. – conversamos, praticamente só de você. Eu estava tão furioso com o que rolou que fiquei desabafando a noite inteira sobre o término.
Isso não era mentira. Na verdade foram por semanas.
– Mas eu lembrei a ele como você foi legal em não dar parte na polícia quando eu fiz aquela bobagem com a raspadinha... – minto, pois jamais o defendi. Sorrio para Kurt amando cada segundo daquilo.
– Enfim, nós ficamos conversando, saindo e aqui estamos... – Blaine mente.
– Aqui estamos... – digo todo sorridente. – Seblaine. Esse é o nosso apelido
Kurt não diz uma palavra. Blaine se mantém sério. Sou o único me divertindo ali.
– Sei que não era isso o que você queria e sei que também não vai ser fácil, – Blaine diz sincero. – mas eu queria que fossemos adultos em relação a isso.
– E eu espero que possamos ser amigos, – acrescento. – você sabe, sair juntos e coisa e tal.
– Isso vai ser incrível. – Kurt diz querendo vomitar. – É... se vocês me dão licença, eu preciso ir rapidinho ao banheiro.
Blaine o segue com os olhos. Sua expressão é de pura tristeza. Kurt some de nossas vistas.
– Está tudo bem? – digo tirando minha mão da perna de Blaine.
– Eu não sei. – ele diz triste. – Por que fez aquilo?
– Aquilo o que?
– Me beijou, por que me beijou? – Blaine diz irritadiço.
– Para parecer convincente. – dou de ombros.
– Poderia ter beijado meu rosto. –
– Qual é? Que tipo de casal você acha que seriamos?
Blaine volta para seus próprios pensamentos.
– Você quer beber alguma coisa?
– Não, eu to bem.
Vários minutos se passam até que nos falemos novamente.
– Acho que ele não vai voltar.
– Como sabe? – Blaine me encara. – Não tem outra saída a não ser aquela, uma hora ele vai ter que aparecer.
– Você que pensa. Tem uma saída pelo depósito. – digo apontando para os fundos do bar.
– Como sabe disso? – pergunta franzindo o cenho.
– Não quer mesmo beber nada? – desconverso.
– Não, eu to bem.
Se passam mais alguns intermináveis minutos.
– Vamos embora? – digo finalmente cansado.
– Tudo bem. – Blaine concorda.
Saímos do bar, seguimos para o carro. Blaine mantém-se calado.
– Ta tudo bem mesmo? – insisto.
– Não sei, acho que sim.
Saimos do estacionamento. Nos mantemos calados.
– Obrigado por ter me acompanhado.
– Ah... de nada! – sorrio para ele. – Sabe, essa noite tem sido uma vadia com hoje, o que você diz de não ter que dormir no banco desse carro e dormir lá em casa? Por que eu nem dormi ainda.
– Pode ser. – ele diz sem questionar. O que me surpreende. – Eu preciso tomar um banho e descansar.
Faço um sinal positivo com a cabeça mantendo meus olhos na estrada. Já está escuro e estamos ambos cansados. Fazemos o percurso grande parte em silêncio, mas ocasionalmente Blaine faz caretas até que finalmente diga alguma coisa que está o incomodando.
– Você acredita que ele disse que iria conquistar o meu perdão e depois o meu coração de volta. – Blaine desabafa.
– O que você disse? – pergunto mantendo os olhos na rua.
– Disse que tava saindo com outra pessoa. – ele diz envergonhado.
– Esse é o meu garoto. – digo todo sorridente.
– O que ele pensa o que eu sou? – é provável que Blaine nem esteja me ouvindo. – Um objeto? Que ele chuta e depois pega de volta? Eu tenho sentimentos.
– Eu sei... – concordo mecanicamente.
– Hipócrita! – ele pragueja.
– Eu? – o olho surpreso.
– Não, ele. – ele esclarece. – Ele é um hipócrita. Ficou todo sentido quando eu fiz um fantoche dele, disse que eu o via como objeto... Mas na verdade, esse tempo todo, foi ele que me via dessa forma.
– Espera aí, você fez um fantoche dele? – o encaro.
– Fiz, por que? – Blaine pergunta de forma natural.
– Isso é bizarro! – digo rindo. – Quero dizer, o que você fazia com ele? Vestia a sua mão com ele. A sua mão agora seria a boca dele, você segurava seu pau com a boca dele e mandava a vê?
– O que? Deus, não! – Blaine repudia a idéia.
– E por que não? – pergunto tentando segurar a gargalhada.
– Sebastian! – ele me repreende.
– Desculpe.
– Você sabe quantas vezes eu me diminui só pra que ele não se sentisse ofuscado com o meu brilho e talento? E ele nunca fez isso por mim...
– Você já pensou em fazer um fantoche meu? – continuo uma conversa paralela.
– Eu estava preso em uma relação unilateral... – ele choraminga.
– Você pode me dar um fantoche seu? – pergunto. – Mas não faz a parte interna da boca com aquele feltro, mas com um tecido melhor tipo ceda ou qualquer coisa que não irrite a pele na hora da fricção.
Blaine não diz nada. O encaro e lá está ele ao meu lado, com as mãos tapando seus olhos enquanto chora em silêncio.
– Blaine... – coloco a mão em seu ombro. – Hey... olha pra mim...
Paro com o carro em frente de casa, solto o sinto de segurança para maior mobilidade.
– Blaine... – não sei o que fazer na verdade. – Vamos entrar, ta frio aqui.
Blaine enxuga os olhos e sai do carro.
Vê-lo daquela forma me quebra e despedaça todas as vezes. Não importa quantas.
Saio do carro e corro para alcança-lo.
– Vai ficar tudo bem. – prometo a ele. Não importa o que custe, vou dar um jeito de cumprir essa promessa. – Eu prometo!
Enfio as mãos nos bolsos de minha calça jeans enquanto caminhamos até a casa.
– Achei que já tivesse superado, o jeito como falou com ele... – digo me odiando por continuar com aquele assunto. – Eu achei que fosse real.
– Foi real. – ele diz com a voz embargada. – É só que ainda é doloroso, Sebastian.
– Sei como é... – digo sincero. Eu não gostaria de ter que encarar Andrew, não antes de...
Respiro fundo enchendo meus pulmões de ar e coragem.
Tiro a mão direita do bolso da calça e com ela seguro a mão de Blaine.
Para meu alívio Blaine não recua a mão. Continuamos a andar. Olho para o horizonte onde a pequena mansão branca começa a ficar embaçada as vistas pelos primeiros flocos de neve que começam a cair em uma densidade impressionante. Posso ver a minha respiração sair em forma de fumaça pelas minhas narinas.
– O que está fazendo? – Blaine diz soltando o ar pela boca fazendo uma grande quantidade de fumaça saindo dela.
Nem eu e nem Blaine estávamos devidamente vestidos para aquele frio. A temperatura havia caído drasticamente desde que saímos dali para ir até o bar.
Olho para ele pela primeira vez.
– Estou segurando a sua mão. – digo tentando parecer natural.
– E por que está segurando a minha mão?
Continuamos a andar em silêncio.
– É um apoio moral...
– Hmm...
Damos mais alguns passos deixando para trás algumas pegadas na neve que se acumula ao gramado.
– Não deveria fazer isso. – ele diz reflexivo.
– E por que não? – digo parando para olhá-lo.
– Por que não quero que se magoe. – ele diz me olhando de volta.
Blaine tem alguns flocos de neve repousando sobre seus ombros e cabelos, seus olhos estão brilhosos por que chorou, suas bochechas vermelhas assim como a ponta de seu nariz por causa do frio. Talvez o último seja também por que chorou, assim como os cílios em seus olhos estão grudados uns aos outros pelas lágrimas que os umedeceram.
O meu coração acelera.
– E como vai me magoar?
– Eu não quero estragar tudo e ter você me odiando. – ele diz sincero.
– Desculpa, Blaine. – digo segurando sua outra mão também. – Se não vai querer me dar nenhuma chance, então que seja sincero pelo motivo que o fará...
– Eu não estou... – Blaine me interrompe.
– Espera! – o impeço que me interrompa. – Eu sou bem grandinho para poder saber tomar as minhas próprias decisões, você não acha? Eu sei que tem medo, mas eu não tenho. Mesmo que seja doloroso, que eu vá sair com o coração despedaçado. Eu quero tentar, Blaine. Por que sei que vale a pena. Cada molécula do meu corpo sabe que vale a pena.
Blaine não diz nada, apenas balança a cabeça negativamente.
– Acha que você já não me machucou? Eu aguento! Sabe, eu estava abrindo o meu coração para você e você foi correndo se encontrar com o seu ex-namorado. – digo olhando eu seus olhos. – Eu aguento!
Blaine se lembra que horas antes estávamos conversando e ele saiu para se encontrar com o ex. Sua expressão se transforma em um grande “aaah é mesmo.”
– Me desculpa! – ele implora.
– Está tudo bem! – digo sincero. – Como eu disse, eu aguento isso. O que não aguento é a gente não se permitir...
Blaine passa a mão em meu rosto o acariciando. Isso me faz me calar imediatamente. Sua mão está fria, mas não me importo.
Minha respiração se torna mais acelerada, assim como a de Blaine.
– Você acha isso justo com você? – ele pergunta olhando em meus olhos e há tristeza em seus.
– Se eu aprendi alguma coisa até hoje, é que a vida não é lá muito justa. – sorrio triste.
Blaine engole em seco, olha para o chão e avança dois passos para mais perto de mim. Se ligassem fios elétricos ao meu coração, eu seria capaz de gerar eletricidade para uma cidade inteira por um mês, tamanha a velocidade que ele bate em meu peito.
Solto suas mãos e as repouso em sua cintura, Blaine entrelaça meu pescoço com seus braços. Inclino meu rosto para o de Blaine, ele fica na posta dos pés. Aquilo me faz sorrir.
Nossos lábios se tocam a primeiro momento, se abrem para se beijarem. Pode estar nevando, mas Deus... Eu nunca me senti tão quente. Abrimos espaço para as línguas darem mais ardência ao beijo intercaladamente. Nossas línguas se esbarram transformando a sensação mais gostosa. Então voltamos apenas nossos lábios, que deixaram de estar secos e frios para unidos e quentes.
Não quero deixá-lo se afastar de mim por nenhum segundo sequer. É provável que quando o beijo se acabar ele se de conta que não precisa de mim e aquilo é apenas um erro. Não quero pensar nisso. O fôlego se vai enquanto nos beijamos. Preciso respirar, mas não posso. Blaine também sente seu fôlego se esgotar.
– Calma! – Blaine diz entre o beijo. – Preciso respirar.
Ele afasta seus lábios do meu. Abro os olhos para olhá-lo. Ele está tomando ar e sorrindo para mim.
– Você sabe que... – ele começa.
– Não se atreva! – o ameaço sorrindo.
Ele ri. Sua risada é deliciosa para mim.
– Nós vamos correr congelados aqui fora.
– Você está certo... – concordo com ele relutante.
Entramos na casa, ainda de mãos dadas.
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