Sebastian Smythe
19 O drama de Blaine Anderson
Notas iniciais

Os dias que seguiriam naquela semana não foram muito fáceis para Blaine e muito menos para mim, que tive que aguentar a melancolia dele. Não pude deixar de ouvir durante várias noites Blaine chorar baixinho enquanto acreditava que eu já estivesse dormindo.
Blaine não conversou comigo sobre o que havia acontecido, mas era evidente que ele e Kurt haviam rompido o noivado. Aquela drama se repete ao longo da semana várias e várias vezes durante a noite, pelo menos eu acredito que seja somente a noite, já que é o único horário que nos encontramos.
Na semana seguinte em uma tarde quando a aula desse período foi cancelada por que o professor estava com ressaca de mais para continuar dando a aula, volto mais cedo para o alojamento. O que devo admitir ter sido uma péssima decisão.
Entro no quarto e me deparo com um Blaine chorão, largado e deitado de bruços em sua cama. Ele está com seu rosto enterrado no travesseiro e tem em sua cabeça um headphone potente que provavelmente de estar tocando alguma coisa que anula qualquer ruído externo que possa denunciar minha presença ali.
– All by myself... Don’t wanna be... All by myself. Anymore! – Blaine canta ao meio de choro e soluços.
Para mim, aquilo é de várias formas e níveis deprimente e esquisito. É desnecessário dizer que Blaine esteja na fossa, mas aquela demonstração de profundo desespero dele me deixa nítido que fora Kurt quem terminara o noivado e não o contrário.
O observo por mais alguns segundo e sinceramente aquilo me assusta e sem fazer o menor barulho me retiro do quarto antes que ele me note ali.
Á noite, quando finalmente acho seguro voltar para o alojamento, me deparo com Blaine sentado em sua própria mesa de estudo. Seu laptop está ligado sobre a mesa, mas a tela do mesmo exibe somente o desktop onde o plano de fundo é a foto dele com Kurt.
Blaine não está olhando para seu computador. Está encarando a tela de seu celular que segura cuidadosamente em suas mãos.
“Ele está alisando a tela?”
– Oi? – digo entrando no quarto fingindo não ter visto a última coisa. Blaine para de alisar a tela de seu celular imediatamente.
– Oi. – Blaine diz pressionando o botão de menu de seu celular para voltar para o desktop onde também há uma foto dele com Kurt.
Ando até minha cama, onde jogo minha mochila sobre e me sento para tirar meus tênis. Abro a mini geladeira que fica encostada na parede e próxima a minha cama e retiro um gatorade azul de lá.
– Foi na aula hoje? – pergunto a ele, mas já sabendo a resposta.
– Fui. – Blaine mente encarando o próprio celular.
O encaro de forma discreta. Abro a garrafa e bebo a metade do líquido dela.
– E como foi? – forço para ver até onde ele vai com a mentira.
– O de sempre Sebastian... – diz sem emoção.
– Sente que está mais inteligente do que se sentia antes da aula? – insisto.
Blaine fica irritadiço com o questionamento.
– Como foi a sua aula? – ele desconversa me respondendo com outra pergunta.
– Incrível! – exagero. Jogo a garrafa vazia no lixo ao lado de minha escrivaninha.
– Ah é? O que teve hoje? – Blaine se mostra interessado.
– Meu professor estava de ressaca. – digo. – Ele disse que não colocava uma gota de álcool na boca haviam 30 anos, mas ele começou a beber de novo por que só estando de porre para aguentar assistir a nossa atuação terrível.
Oculto o fato de que logo em seguida daquilo o professor havia nos liberado da aula. Blaine parece chocado com aquilo.
– Isso é terrível! – ele afirma. – Como é que isso pode ser uma aula “incrível”?
– Ele é sincero... – analiso a pergunta de Blaine. – Gosto disso nas pessoas. É uma qualidade difícil de se encontrar hoje em dia... Sinceridade.
Blaine sequer percebe a indireta.
– Então acho que teria adorado conhecer a Sue Sylverter. – Blaine deixa o celular em cima de sua mesa e cruza os braços para me encarar novamente. – Ela, assim como esse professor tem comportamentos muito desnecessários. Não se motiva os alunos dessa forma.
– Não, Blaine, você não entendeu. É justamente o contrário. – tento explicar. – Ele tenta nos tornar melhor dessa forma.
– Quem não entendeu foi você, Sebastian. – Blaine diz de forma intensa e com o olhar sombrio. – Ele tenta quebrar vocês. A partir daí quem tiver força para se remontar colando os próprios cacos para depois seguir em frente e melhorar... SE tiver força para isso.
“UAU! Nós ainda estamos falando sobre a aula?”
– Nossa! – o encaro vidrado após seu discurso. – Nós ainda estamos falando sobre o mesmo assunto?
– Deixa para lá, isso não tem importância. – Blaine se levanta e entra no banheiro se mantendo preso lá por algumas horas.
• • •
É sexta-feira à noite, estou em frente ao espelho me arrumando para sair enquanto Blaine fica sentado no chão enrolado em um edredom encarando a televisão presa à parede.
– O que você vai fazer hoje a noite? – pergunto a Blaine enquanto arrumo o cabelo.
– Vou ficar aqui. – Blaine diz enquanto vasculha o menu do Netflix. – Colocar minhas séries em dia...
Olho Blaine pelo espelho enquanto decido que gravata usarei.
– Hmm... – volto a atenção paras as gravatas, mas continuo falando com ele. – Isso não é meio deprimente?
– Depende, — Blaine diz distraído. – para mim não é.
– Você tem razão, é um programa muito sexy para se fazer em uma sexta-feira à noite. – digo sarcástico.
– Pode cortar o sarcasmo, Sebastian. – Blaine diz emburrado.
– Bom, você não me perguntou, mas eu tenho um encontro. – digo cantarolando.
Decido por uma gravata borboleta marrom lisa.
– O que acha? – pergunto à Blaine após atar o nó a ela. – Está bom?
Blaine se contorce para poder ver o que quero lhe mostrar.
– Tá legal. – ele diz voltando sua atenção para a tela da tv.
– Só legal? – digo me olhando de volta no espelho. – Eu não consigo arrancar a cueca de alguém com esse visual?
– Nojento... Desde quando você usa gravatas borboletas? – Blaine aperta os botões do controle remoto impaciente.
– Acabei de começar a usar. – digo dando de ombros. — Hmm... Tá a gente se fala mais tarde, ou amanhã, vai depender da minha sorte. Ah... a quem eu quero enganar? Até amanhã, Blaine! Bom filme ou seriado, sei lá.
Saio do quarto deixando Blaine em sua Fortaleza da Solidão.
• • •
Escancaro a porta do quarto. Devido ao excesso de força que aplico para abri-la, ela bate contra a parede e volta, se fechando na minha cara.
– Hey! – praguejo contra ela.
Se passam alguns minutos até que consiga finalmente entender como uma porta funciona e entrar no quarto entre paços mal dados e tropeços.
Blaine sai alarmado do banheiro com toda aquela barulheira que estou fazendo.
– Ei! – ele me chama a atenção. – Meu Deus, por onde você esteve?
Ele parecia realmente zangado comigo. Tento forçar na memória se invadir o quarto bêbado era contra as regras dele. Não consigo me lembrar.
O ignoro completamente passando por ele e andando direto para a mini geladeira. A vasculho em busca de qualquer bebida alcoólica. Encontro apenas uma lata de cerveja e uma garrafa aberta de vodka.
– A onde eu estava com a cabeça quando comprei isso aqui? – digo analisando a lata de cerveja por um longo tempo. Por fim a lanço contra o vão da porta afim de acertá-la, mas fracasso por que a esqueci aberta. A lata de cerveja passa voando por ela e pela porta do quarto do vizinho da frente que também mantém a sua aberta. A lata aterrissa no chão do quarto do vizinho.
– Obrigado! – o vizinho grita em agradecimento pela cerveja.
Não assimilo muito bem o que acontece, então me viro para pegar a garrafa de vodka.
– Você não vai beber isso! – Blaine está ao meu lado de braços cruzados.
– E por que não? – o encaro.
– Por que você já bebeu o suficiente, não acha? – ele diz sério.
Olho Blaine tentando me equilibrar em meus próprios pés.
– “Por que você já bebeu o suficiente, não acha?” – o imito. Tapo minha boca tentando inibir a momentânea ânsia de vômito que me sobe do estômago até a garganta. Espero alguns segundo até poder falar novamente. Respiro fundo e digo: – Tanto faz.
Coloco a garrafa de volta na geladeira.
– Onde ficou no final de semana todo? Fiquei preocupado, sabia? – Blaine continua me olhando. Respira fundo e começa a me analisar. – Isso é uma mancha de batom no seu pescoço? Cadê o outro pé do seu tênis?
– Faz tantas perguntas, Blaine Anderson... – digo me jogando na cama. Meu braço e perna esquerdos ficam pendurados para fora da cama.
– Tudo bem, não vou me preocupar da próxima vez. – ele diz em tom afetado. – Mas não ache ruim se só acharem o seu corpo em uma vala depois de meses por que ninguém se preocupou.
– Como eu acharia ruim? – digo com a voz abafada por estar com o rosto enterrado no travesseiro. – Eu estarei morto.
– Idiota! – Blaine diz voltando para o banheiro.
– Hey! – o chamo com a voz mole. Blaine para na porta do banheiro para me encarar. – Hey! Hey! Hey! Hey! Hey! He...
– Fala logo o que você quer. – Blaine me interrompe e fico grato por isso. Estava prezo em um loop infinito de “heys” em minha cabeça.
– A onde você pensa que vai? – pergunto a ele.
– Vou tomar banho, por que?
– Isso é um convite?
– Isso não é um convite. – Blaine revira os olhos.
– Shhhhhhh! – faço para ele se calar.
– O quê? – Blaine sabe que nada naquela conversa faz o menor sentido.
– Pois eu acho que ficou bem claro que foi um convite...
– Sebastian, eu não vou mais discutir com você.
– Você fala demais cabelo cacheado. – aponto o dedo para a cara dele. – Por que você não vem aqui e usa essa sua boca pra...
Então eu apago.
• • •
Teria sido muito constrangedor encarar Blaine novamente depois da noite passada, e ele devia pensar a mesma coisa. Pois quando abro meus olhos ao despertar encontro o quarto deserto.
Me sinto um lixo como sempre me sinto após beber tanto. A cabeça lateja de dor ao menor ruído, a língua estala no céu da boca seca, meus olhos doem com a luminosidade que entra da janela para o quarto.
Levando da cama ainda cambaleando e sigo para o banheiro para tomar banho. Ao sair do banho vejo que há uma carta da NYADA perto da porta, está endereçada para Blaine, mas a pego mesmo assim. De lá sigo para a cafeteria do campus e depois para a aula.
Ao fim do dia, quando volto para o alojamento, encontro Blaine sentado em sua escrivaninha.
– A onde você quer chegar desse jeito? – Blaine diz encarando a tela de seu computador, mas estava falando comigo.
– Que jeito? – pergunto surpreso.
– Que jeito? – Blaine ri sem realmente achar graça. – Bom, enchendo a cara até passar mal, sair com um cara ou mais caras diferentes todos os finais de semana...
Abro a minha boca ao entender do que ele estava falando fazendo famosa expressão de “Aaaaah, então era disso que você estava falando.”.
– Não seja hipócrita, Blaine. – digo.
– Eu não estou sendo hipócrita. – Agora é Blaine quem não sabe do que estamos falando.
– Ah não? – abro minha mochila e tiro de lá a carta da NYADA que peguei mais cedo. – Sabe o que é isso o que eu estou segurando na minha mão?
– Um papel!? – Blaine diz sem emoção.
– Não é apenas um papel, é uma carta da reitoria da NYADA.
– E daí? – Blaine dá de ombros.
– “E daí?” – falo com certa indignação. – Você sabe o que está escrito nela?
– Não. Como poderia saber se não a li?
– Eu tinha certeza que sair com o Kurt deixava as pessoas mais burras. – o provoco.
– Sebastian! – ele me censura.
– Okay! Desculpe. Voltando a carta – a sacudo em minha mão. – Ela basicamente diz que se o seu desempenho, Blaine Anderson, continuar em declínio eles serão obrigados a te CORTAR da faculdade.
O encaro esperando alguma reação da parte dele, mas Blaine não diz nada.
– O que tem a me dizer sobre isso? – o pressiono. – Ou melhor, a onde você quer chegar desse jeito?
– Espera... Quem te deu permissão para abrir minhas correspondências?
– Sério? É sobre isso o que quer discutir? E não sobre o fato de que acabou de ser ameaçado de levar um chute na bunda da NYADA? O que está rolando, Blaine?
– Olha, não é nada de demais, tá certo? – Blaine diz voltando sua atenção para seu computador. – Eu resolvo isso.
– Hmm...
– Pare de se meter na minha vida, Sebastian! – Blaine muda completamente seu tom.
– Não vai rolar. – digo jogando a carta em sua escrivaninha. – Só estou devolvendo o favor.
– Só fica na sua, tá legal!? – diz impaciente.
– Olha Blaine, não me venha dizer que isso não é da minha conta por que é, nós dividimos o mesmo quarto e o mesmo banheiro. – o seguro pelos ombros e o viro com sua cadeira giratória para que me encare. – Eu te assisto com comportamentos auto-destrutivos desde que chegou aqui. E agora isso? Ser cortado da faculdade? Não é coisa do Blaine que conheço.
Blaine afasta minhas mãos dele. Eu recuo. Ele passa a mão em seus cabelos em desespero.
– O que está acontecendo, cara? – insisto. – Eu posso te ajudar, pelo menos vou tentar.
Blaine desaba.
– É o Kurt. Nós terminamos. – Blaine diz como se eu já não soubesse daquilo. – Ele terminou com o nosso noivado e eu ainda o amo.
– Sei que ainda o ama. – encosto na parede enfiando as mãos nos bolso de minha calça. – Não sei o por que, mas entendo que o faça.
– Por favor, Sebastian... – Blaine pede.
– Não, é sério. – digo dando de ombros. – Você me dispensou por causa dele, quero dizer, você já deu uma boa olhada em mim? Eu sou bem atraente e só um louco apaixonado para querer me dispensar por causa de um outro cara com menos de 1/5 do sex appeal que tenho.
– Não sei o por que acho que posso contar as coisas para você. – Blaine enxuga as lágrimas de seus olhos.
– Ei! Relaxa eu só estou descontraindo um pouco e tentando te fazer rir. – Blaine não se mostra disposto a sorrir. – Tá continua...
Blaine me conta por horas os detalhes de seu termino, como se sentia, e todo o que tem passado desde o termino. Naquele momento pude ver o verdadeiro Blaine: Alguém intenso e apaixonado por tudo que se dispõem a fazer.
– ...puxa vida, é tão bom ter alguém com que possa conversar de novo. – Blaine fala sem fazer pausa para respirar. – Isso é maravilhoso! Você tem alguma idéia do tempo que fiquei sem desabafar com alguém? Sabe, o Kurt além de ser o amor da minha vida também era o meu melhor amigo. Contávamos tudo um para o outro. Eu tenho o Sam também. Sabe? Aquele loiro com boca de truta? Não diga que eu o chamei desse jeito. Enfim, você sabe, ele é hétero. Ele me entende, mas não da mesma maneira que um outro cara gay possa me entender...
– Eu tenho quase certeza que não existe diferença. – digo sem emoção.
– Não, não existe. Mas o que acontece é que o Sam é todo “deixa disso”, “bola pra frente”... – Blaine sacode as mãos enquanto fala. Aquilo me deixa zonzo. – E o que eu preciso de verdade é apenas um ouvinte. Sabe, as vezes tudo o que um cara quer quando está falando é ser ouvido... O que eu quero dizer é que é diferente conversar com alguém que só entenda, mas não compreenda o que estou dizendo, sabe? É que nem conversar com alguém que...
– Blaine... – o interrompo depois de horas.
– Sim? – ele parece não se importar em ser interrompido.
– São 4:30 da manhã. Você não quer dormir? – falo igual a uma criança que pede aos pais para ir para casa por que não está gostando da festa chata.
– Não, estou eufórico de mais para dormir. – ele diz animado.
– É, claro que está... – digo sem emoção, voltando para minha posição de ouvinte.
Blaine fala por mais meia hora sem parar.
– Sebastian...? – Blaine me chama.
– Hmm? – levando o meu rosto que está apoiado em minha mão enquanto durmo enquanto Blaine falava.
– Está me ouvindo? – ele me analisa.
– Hmm-hmm. – respondo sonolento.
– Desculpa, você quer dormir?
– Quero. – confesso.
– Tudo bem. – Blaine finalmente me liberta.
Blaine se deita em sua cama assim como deito na minha. Alguns minutos se passam em completo silêncio até Blaine quebrá-lo.
– Sebastian?
– Hmmmmm? – digo impaciente.
– Eu não consigo dormir. – Blaine se queixa.
– Mas eu consigo. Boa Noite. – digo me enfiando debaixo de minhas cobertas.
– Ah... – Blaine diz parecendo estar triste.
Pego no sono.
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