Sebastian Smythe
20 Academia Dalton - parte 1
Notas iniciais

Cerca de um mês depois...
Fazem anos desde que aconteceu o último Blackout na cidade de New York. A ocasião gerou caus por toda a cidade, exatamente como agora. Estamos no meio de um Blackout. Bom, pelo menos é o que eu achei que estava rolando aqui até começar o boato de que algum bando de idiotas sabotaram o gerador de energia da universidade, de novo.
Mesmo que o Blackout tenha sido forçado o caus se instala por todo o canto dentro do campus. Existe um padrão silencioso do comportamento entre as pessoas que as tornam animais irracionais quando se deparam com certas situações em suas vidas. Como quando o garçom inabilidoso derruba todos os pratos e copos que carrega empilhados em sua bandeja. Imediatamente as pessoas dão gritos e batem palmas. É exatamente o que acontece em um Blackout. Viramos animais desordeiros que abraçam o caus.
A única coisa que nos resta são luzes de segurança tão fracas que deixa o ambiênte com uma iluminação romântica.
Blaine entra no quarto arfando.
– Ah, que bom que não morreu no blackout! – digo a ele sem emoção, mas me sinto aliviado por vê-lo vivo.
– Foi por pouco. – Blaine diz ofegante fechando a porta atrás de si. – Eu nunca presenciei uma coisa dessa.
– Bem vindo ao inferno! – digo voltando minha atenção para o livro que leio de forma precária com uma pequena iluminaria abastecida por pilhas.
Uma das coisas mais legais de se dividir o quarto com alguém é poder conversar, mesmo que sejam assuntos banais e tolos. Eu adoro conversar com Blaine, mesmo que seja para irritá-lo. Mas o problema é que estou em semana de provas e não posso me dar ao luxo de não estudar para as provas só por que estamos em meio a um blackout eu preciso ler esse livro.
– Isso é insano. Por que ninguém faz nada? – Blaine anda até sua cama e joga sua bolsa nela. – Meu Deus! Por que está tão quente aqui dentro? O que aconteceu com o ar condicionado?
– Boa pergunta. – digo ainda encarando o livro. – Aparentemente o gerador de emergência não abrange ar condicionados. Então não tem eletricidade para ele.
– O quê? – Blaine diz alarmado. – Nós vamos morrer desse jeito.
– O pior é que acho que o nosso pifou com a super força e a queda dela. – desvio a atenção do livro para encarar Blaine. – Dá pra acreditar? Eu liguei para a direção e eles vão mandar alguém vir consertar amanhã à tarde, então algum de nós dois vai ter que ficar aqui pra receber o cara.
– Tudo bem. Você pode colocar uma roupa? – Blaine diz.
Antes que possa achar que eu esteja pelado, eu não estou. Estou vestindo apenas suma cueca samba canção azul, que mais parece uma bermuda do que uma cueca. É a coisa menos sexy que já vesti na vida toda. Então, meio que Blaine não tem do que reclamar.
– Qual é? Eu estou morrendo de calor. – que queixo. – Eu tomei banho, mas continuo suando.
– Só... vai colocar uma roupa. – Blaine fala sem emoção.
– Não vai acontecer. – finalizo.
Sob a meia luz posso ver pequenas gotas de suor se formar sobre a testa de Blaine, seu cabelo perfeitamente alinhado com o gel começa a se desfazer devido ao suor que lhe escorre de seu couro cabeludo para suas testa e rosto revelando seus cachos rebeldes.
– Tira um pouco dessa roupa, seu engomadinho. – rolo com a cadeira até a mini geladeira. Jogo uma garrafa de água para ele. – Vai ter uma hipertermia.
Blaine não tem muito reflexo, mas ainda assim a pega no ar com dificuldade.
– Eu estou bem. – diz se sentando em sua cama.
– Aham, fala isso para a sua cara de quem está morrendo lentamente. – digo voltando a atenção para o livro.
– Eu não estou... – Blaine balança a mão no ar como se debater aquilo fosse inútil.
Blaine tira o suéter que veste e desata sua gravata borboleta roxa abrindo o primeiro botão do colarinho. Passamos alguns minutos em silêncio. Mesmo com a cabeça abaixada sobre o livro, ao levantar meus olhos, sem que ele perceba, posso vê-lo através do reflexo da tela do notebook desligado. Blaine está sentado em sua cama, com as costas e cabeça apoiadas na cabeceira da cama, suas pernas estão esticadas sobre a cama, mas cruzadas em um “x”, sua mão descansa sobre seu abdômen enquanto a outra leva a garrafa de água até sua boca. Há manchas de suor se formando em sua camisa branca e aquilo meio que começa a me excitar.
Esfrego minha cara com as mãos me forçando a voltar ao livro.
“Foco, Smythe!”
Sucumbo alguns minutos depois. Volto espiá-lo através do reflexo.
Para a minha surpresa Blaine está me olhando. Olhando para meu corpo. Não me mexo, pois o menor movimento que eu possa fazer, pode assustá-lo e fazer desviar seu olhar sobre mim.
Alguns minutos se passam atém que Blaine pare de me olhar. “Vou tomar banho.” ele anuncia passando por mim rapidamente. Antes que eu pudesse dizer “Ta bom.” a porta banheiro se fecha muito rapidamente sendo batida. Alguns segundo depois Blaine grita lá de dentro: “Desculpa, eu não quis bater a porta.”.
– Tudo bem! – grito de volta para ele abrindo um grande sorriso. Fica difícil voltar a leitura por estar imaginando o que Blaine estaria fazendo logo ali, do outro lado da porta.
. . .
Na semana seguinte, após o término do período de provas, finalmente consigo respirar novamente. Ao sair da classe, Blaine me torpedeia pedindo que eu vá até a cafeteria do campus.
– Oi. – Blaine diz apontando a cadeira vaga a sua frente na mesa em que está ocupando. – Obrigado por vir.
– Sem problema, minha aula terminou mais cedo hoje por que a professora estava de porre e acabou vomitando no primeiro rodopio. – digo dando risada. Transpasso a alça de minha mochila no encosto da cadeira e me sento nela em seguida. – Você precisava estar lá para ver, foi genial. E pra fechar ela nos fez encarar o vômito dela por 10 minutos por que disse que o vômito dela tinha mais movimento, expressão e apelo artístico do que a dança que nós fazemos lá. Desculpe. Eu estou tagarelando aqui... O que houve? Parece preocupado.
– Preciso te contar uma coisa. – Blaine diz me encarando. – Na verdade é mais de uma coisa.
– Com licença – uma garçonete nos interrompe trazendo a em sua mão uma bandeja. Sobre ela há dois cafés e um prato com pequenos pãezinhos para petisco. – Aqui está, um café expresso grande e um café normal grande com uma dose de conhaque.
Ela deixa sobre a mesa tudo o que havia na bandeja e se retira nos deixando a sós novamente.
– Isso foi impressionante. – digo encarando o café. – Como você AINDA se lembra do que eu peço?
– Bom, é difícil esquecer. – Blaine diz tímido. – Você tem que admitir que seu pedido é bem incomum.
– Isso é... – concordo com ele. – Mas o que você ia me dizer?
Dou um grande gole em meu café de alcoólatra.
– Primeiro eu preciso te agradecer por ter me ajudado com a minha situação na faculdade.
– Isso não foi nada... – digo sincero.
– Não. Isso é sério! – Blaine sustenta o seu olhar intenso. – Não é um obrigado de obrigação, mas um obrigado sincero. Eu estava na pior e você me ajudou a me levantar enquanto eu só queria me afundar mais e mais.
– Bom... de nada! – digo erguendo meu copo para ele.
– E por isso, por ter melhorado meu desempenho estou conseguindo me destacar na faculdade agora.
– Isso é ótimo, Blaine. Parabéns!
– Isso não é tudo. – Blaine sorri de orelha a orelha. Esfrega eu rosto com as mãos e desabafa. – Tudo bem. Eu vou falar logo, por que eu estou enlouquecendo aqui. Um dos meus professores me indicou para fazer uma ponta em um musical na Broadway.
Estou com o café a meio caminho da minha boca quando Blaine anuncia. Fico ali petrificado por alguns segundos até absorver aquela informação.
– Isso é incrível, Blaine! – exclamo de excitação, por impulso seguro sua mão que repousa sobre a mesa. – Parabéns!
Blaine olha para as nossas mãos. Acompanho o seu olhar e então percebo o que havia feito. Solto sua mão de imediato. Pigarreio.
– Desculpa. – sussurro encarando meu café.
Alguns segundos se passam até que algum de nós falemos novamente.
– É, mas eu estou apavorado com isso. – Blaine diz franzindo o cenho. – Quero dizer, e se eu fracassar? Gaguejar durante a minha audição, ou vomitar quando abrir a boca para cantar. Ou esquecer a letra. Ai meu Deus, eu não posso fazer isso.
– Blaine, Blaine. – tento fazê-lo voltar a si. Blaine me olha aturdido. – Eu preciso que você me escute! Preciso que preste a atenção no que eu vou dizer, está certo?
Blaine parece entender agora.
– Blaine Anderson, – o encaro de forma intensa. – Você é a pessoa mais talentosa e cheia de qualidades que conheço! E isso inclui a mim também. Eu sou muito talentoso, como você bem sabe.
Tento fazê-lo rir ou ao menos sorrir. Não funciona.
– Hey! Se tem alguém que pode fazer isso, esse alguém é você. Você é dos bons, Blaine Anderson. E eu não permitirei que por nenhum segundo sequer você pense o contrário. Não vou permitir que o medo te faça duvidar do seu talento incrível.
– Sebastian Smythe... – Blaine diz baixinho de forma tímida.
– Sim, Blaine Anderson? – o observo.
– Quem diria que logo isso sairia de você? – ele diz dando um sorrisinho fofo. – Quero dizer, isso foi... incrível!
Sorrio para Blaine e ele retribuo o sorriso. O observando mais atentamente e noto que quando ele ri, ele fecha os olhos por completo. Notar esse pequeno, porém adorável, detalhe em Blaine faz meu coração acelerar mais rápido.
– Tem mais uma coisa. – ele diz me despertando de meus pensamentos.
– Você está cheio de notícias hoje... — digo bebericando o café. – Pode falar. Tenho certeza que isso vai ser uma...
– Eu achei um quarto disponível. – Blaine diz excitado de animação.
– porcaria... – deixo escapar.
Minhas expressões murcham.
– Incrível, não é? Espera aí, o que você disse? – Blaine se interrompe franzindo o cenho novamente.
– Hã? – digo com a melhor feição distraída que consigo fazer. – Eu disse Incrível! Era exatamente o que nós dois estávamos querendo.
– Não, você disse “porcaria”. – Blaine cruza os braços e ergue uma de suas sobrancelhas.
– Não disse não. – o imito em seus gestos.
– Sim, você disse. – ele insiste.
– Ah ta, você tem razão. Eu disse porque mordi a língua enquanto falava. – estendo a minha língua perfeitamente boa para Blaine ver. — Ó só.
– Ta bom eu acredito. – ele diz se afastando. – Para com isso.
– Então, quando vai sair? – finjo não me importar.
– Nesse final de semana provavelmente. – Blaine me analisa.
– Hmm...
Nos mantemos calados por alguns minutos.
– Bom, como você me ajudou com o meu problema, eu quero retribuir o favor e te ajudar com o seu problema. – Blaine diz alegre.
– Que problema? Eu não tenho problema. – me torno um pouco mais arisco com ele agora. – Ser atraente de mais não é um problema.
– Sebastian... – ele me censura com o olhar.
O celular de Blaine começa a tocar insistentemente o fazendo se distrair do que estava prestes a dizer.
– Ah... eu preciso atender essa ligação. – ele diz encarando o celular. – Eu já volto.
– Fique à vontade. – digo tomando mais do meu café.
Blaine sai da mesa para atender a ligação, me deixando nela com os meus próprios pensamentos.
“O que faço?
Ele não pode ir agora.
O que eu faço?
E se eu falar ainda sinto alguma coisa por ele?
Você acha que ele vai querer ficar um cara que sai noite sim, noite não, com vários caras diferentes? Sério como é que você ainda não pegou uma DST?
Tudo bem, eu não sou o melhor cara do mundo, mas ele ficou me secando naquela noite... Acho que podemos tentar alguma coisa. Ele deve gostar de mim.
Atração sexual não é GOSTAR.
O que eu faço?
Essa era a nossa chance.”
– SEBASTIAN? – Blaine me chama.
– Oi? – digo desnorteado.
– Caramba, eu estou te chamando a um século aqui. O que houve?
– Nada... – digo voltando a realidade.
– Olha, eu tenho más notícias. – Blaine carrega em seu rosto rugas de preocupação.
– Oba, mais más notícias. – digo sarcástico.
– Mas, eu não te dei nenhuma má notícia... – ele diz surpreso.
– Só fala... – digo seco.
– A Academia Dalton. – ele diz encarando o próprio celular.
– O que tem a Dalton? – era estranho ouvir aquele nome depois de tanto tempo.
– Foi incendiada ou pegou fogo, não sabem ao certo.
– Como? O quê? Como assim? Como soube disso?
– A Rachel acabou de me ligar.
O encaro incrédulo. Quem faria uma coisa dessas?
– Acho que vou até lá. – Blaine diz chateado. – Para ver se posso ajudar em alguma coisa.
– O que vai fazer lá? – tento brincar. – Cantar uma música no meio das ruínas?
– Ajudar, é claro.
Blaine embravece com a minha brincadeira.
– Olha, a menos que você seja um empreiteiro ou um milionário, — digo aquilo de forma sincera. – duvido muito que a direção da Dalton precise da sua ajuda.
– Será que dá para você mostrar empatia com alguma coisa pelo menos uma vez? Para variar?
Obviamente Blaine e eu lidamos com uma mesma situação de formas diferentes, mas não quer dizer que nos importemos mais ou menos. A Academia Dalton nos abriu para experiências e oportunidades únicas em nossas vidas e é doloroso pensar que alguém a destruiria dessa forma.
– Tudo bem então. – reflito sobre aquilo. – Eu vou com você.
– O que? Não! – Blaine parece alarmado. – Para o quê?
– Para ajudar. – digo dando de ombros.
– Não precisa ir. – ele insiste.
– Sei que não é da minha conta, mas você está meio quebrado Blaine. – Aquilo não é mesmo da minha conta, mas eu me meto da mesma forma. – As passagens áreas estão caras e você, pelo o que me disse, está meio sem grana agora.
Blaine me encara cético.
– Por que a gente não vai de carro? – sugiro.
– De carro? Tá brincando? – Blaine tenta entender qual é o truque.
– Não? Por que?
– São quase dez horas de viagem de carro. – ele diz como seu eu tivesse problemas para entender coisas simples.
– Então parece que temos muito tempo pra conversar. – digo de forma simples.
– Você está ficando maluco? Só tinha conhaque mesmo café ou tinha outra coisa mais pesada? – Blaine tira o café da minha mão para cheirá-lo.
– Eu sou uma criança de um lar desfeito, Blaine. – digo rindo. – É claro que não bato bem das idéias.
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