Sebastian Smythe
12 Inimigos públicos
Notas iniciais

7 de Fevereiro de 2012 – Uma semana depois...
– Corre Smythe! Mexa essa sua bunda magra e intercepta essa bola! – Andrew está berrando do outro lado do campo para mim.
Cuspo o protetor da minha boca e grito de volta para ele: “O que você espera que eu faça? A bola está do outro lado do campo. Não tem como ser eu quem vai interceptar essa bola.” Então Andrew berra de volta: “Eu quero que você mexa essa sua bunda magra e vá interceptar a porra daquela bola.”.
Aquila tinha sido uma atitude um tanto quanto desnecessária e todos , tanto dentro e fora do campo, concordavam com isso. Enfio o protetor de volta em minha boa para voltar para o jogo.
Em parte, Andrew, não tinha culpa pelo seu acesso descontrolado de raiva. Nosso treinador havia pedido demissão haviam alguns dias para treinar um time da liga profissional. E Andrew, sendo o nosso capitão, ficara incumbido de treinar o time até que outro treinador fosse contratado. Infelizmente, para Andrew, isso não acontecerá tão cedo já que os diretores do conselho esportivo da academia acharam uma boa idéia colocar e manter Andrew no controle por que: a) ele conhece o ritmo do time e b) um novo treinador agora poderia atrapalhar o rendimento do time.
O problema é que a Academia Dalton sempre se destacou em qualquer atividade competitiva que esteja participando, se tornando o suprassumo em toda e qualquer competição que entre. E quando eu digo sempre eu quero dizer que é um legado de vitórias que se estendem de geração a geração .
Por questão de tradição e honra de legado, todos os clubes que levam o nome e patrocínio da Dalton sempre carregam o fardo de terem que lidar com muita pressão, não apenas dos diretores, treinadores, professores e corpo estudantil. Temos que lidar com a pressão dos pais do alunos também.
Quero dizer, se fosse eu a ser incumbido de liderar um time no meio da temporada cuja vitória é de extrema importância para o nome da Academia; eu também estaria surtando como ele. Ah, espere aí... Eu fui nomeado líder de um time em iguais situações e nem por isso eu estou sendo um completo cuzão como o Andrew.
Vejo uma oportunidade de roubar a bola. Avanço sobre o jogador adversário, bato com o meu crosse na bola presa na rede do crosse dele. A bola cai no campo, a tomo com a rede de meu crosse, corro o mais rápido que consigo por mais da metade do campo sem ser interceptado. Três caras do time adversário bloqueiam a minha passagem. Olho a minha volta em busca de alguém de meu time. Peter está livre. Lanço a bola para Peter através do crosse. Peter faz uma recepção perfeita pegando a bola no ar e avançando para o gol. A bola é bloqueada pelo goleiro, que para o azar dele, deixa a bola escapar de seu crosse me dando a oportunidade de tomá-la e marcar ponto para a Dalton.
– Isso! – suspendo meus braços no ar comemorando. Alguns dos rapazes vem me dar tapinhas nas minhas costas. A torcida explode em aplausos e gritos de incentivo para o nosso time.
– Parem com isso! – Andrew grita. – Já conversamos sobre isso. Sem comemoração! Concentrem-se no jogo. Vocês todos!
Reviro os olhos. Caminho até Andrew que está no gol enquanto cuspo novamente o protetor da minha boca e retiro o capacete.
– O que você está fazendo? Volta para a sua posição, Smythe! – ele ordena sem tirar os olhos do jogo.
– Engraçado você dizer isso. Me traz lembranças de quando estávamos juntos. – olho para ele esperando algum sorriso, mas isso não acontece. A única forma que consigo pensar para chamar sua atenção é a mais infantil possível. Começo a imitá-lo: “Volte para a sua posição Smythe!”
Nada. Ele não ri e nem olha para mim.
– Qual é? – o encaro. – Foi engraçado!
Dou um soquinho no braço dele. Infelizmente a única coisa que consigo ali é deixá-lo mais irritado.
– Para. O. Seu. Lugar. Agora! – ele diz pausadamente com a voz ameaçadora.
– Nossa! Que ranzinza. – me equipo novamente e volto para o meio do campo.
Avanço para cima do oponente com a posse da bola. Bato no crosse dele com o meu, ele o deixa cair junto com a bola. “Cuidado aí, ô mão frouxa.” digo capturo a bola. A passo para James que está livre agora, me adianto deixando a marcação para trás, James repassa a bola para mim. Estou de costas para o gol adversário. A capturo no ar, meu movimento é rápido e eficiente, giro meu tronco e mando a bola para o fundo do gol.
O platéia estoura em mais aplausos e uivos. Corro para a frente da torcida e faço para eles o MoonWalker seguido de um giro e paro com as pernas em forma de um “X” com a cabeça abaixada e os braços levantados. A platéia vai ao delírio com a minha pequena exibição de passos do Michael Jackson. Alguém grita no meio da torcida: “Esse é o meu garoto!” Levanto minha cabeça ainda na pose em que havia parado.
– Que? – balbucio por estar com o protetor bucal em minha boca.
Atrás de mim, no centro do campo, o juiz apita o final do jogo. Olho para o campo os membros da Dalton estão andando em minha direção para me puxar para a comemoração. Arrancam o capacete de minha cabeça e a minha expressão de espanto se torna visível para todos.
O circulo de jogadores me absorve para o seu núcleo e não consigo mais vê-lo na platéia. “Vai ter que me ensinar esse passo depois, Sebastian.” Vários deles dizem para mim.
– Tudo bem. – respondo mecanicamente. – Eu preciso sair daqui pessoal. A gente comemora mais tarde.
Digo tentando me desvencilhar deles.
– Eu prometo que a gente sai pra comemorar mais tarde, mas agora eu tenho... – olho para a torcida que começa a se dispersar e não consigo vê-lo mais. Olho para o time novamente – E... Melhor! Eu pago a nossa farra hoje. Vai ser por minha conta!
Dou as costas para ele para olhar a platéia mais uma vez. Encontro-o novamente no meio da multidão. Corro até as arquibancadas.
– Hey! – digo chamando a sua atenção.
– Ah... Oi. – meu pai se vira para me olhar.
Ele agia como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Eu o encaro intrigado assim como ele me olha com um tom de diversão em seu rosto.
– O que você está fazendo aqui? – o questiono.
– Vim assistir ao jogo do meu filho. – ele diz naturalmente.
Eu ainda o encaro intrigado. Ele ri da minha cara da mesma forma como um adulto costuma rir de seu filho de 3 ou 4 anos que não entende que a peça quadrada de seu brinquedo favorito de encaixar não cabe no buraco redondo do brinquedo. Aquilo me irrita, mas ele continua: “ O que há de errado em um pai assistir ao jogo do próprio filho?”. Ele me pergunta voltando a se sentar no banco da arquibancada que a essa altura já estava parcialmente vazia. Ele aponta para o banco ao seu lado em um sinal para que eu me sente.
Coço a meu queixo e analiso aquela pergunta.
– Bom, nada, é claro. – digo me sentando ao seu lado. – A não se que o pai em questão não seja você e o filho não seja eu. Por que se for, então há muita coisa de errado com isso.
– Por favor Sebastian... – ele começa.
– Não. É sério! – digo. – Por que o cara que eu deveria chamar de pai não é do tipo que faz essas coisas e se ele começar a fazer vou começar a achar que ele foi abduzido ou coisa do tipo.
– Tudo bem. Sem gracinhas Sebastian. – ele diz ficando sério.
– Tá. O que realmente veio fazer aqui? – pergunto. – Por que sei que não veio só pra assistir ao jogo. Até por que eu não te contei que teria um jogo.
– A escola me enviou o convite para o jogo, já que o meu próprio filho não me convidou. – ele diz retirando um envelope com o brasão da Dalton estampado nele do bolso interno de seu paletó. – E fui chamado pelo seu diretor. Você andou se encrencando feio Sebastian.
– Que? –balbucio novamente, mas agora não era por culpa do protetor.
– Você quase cegou um garoto. – ele diz sério. – Foi o que ele disse. Se lembra de alguma coisa desse tipo?
– Ah... – aquilo me emudece.
Blaine não deu parte contra mim para a polícia, mas em contrapartida não apenas ele como a diretoria do Colégio William Mckinley deram parte de mim para a diretoria da Academia Dalton. Na mesma semana fui chamado para prestar esclarecimentos para com o diretor, que ao saber que eu havia feito o que havia feito visando unicamente fazer o melhor para os Warblers, que não me puniu de nenhuma forma, apenas pediu que eu tomasse cuidado.
– O que deu em você? — ele me olha profundamente. – Eu sei que você está crescendo e se tornando um homem e eu te dou toda a liberdade do mundo, mas isso não quer dizer que possa sair cegando as pessoas no processo.
No fundo eu me sentia mal com tudo aquilo e me incomoda ter que tocar novamente nesse assunto.
– Foi uma brincadeira que saiu do controle. – digo a ele. – Eu não pensei direito no que estava fazendo.
– Isso me assusta, Sebastian. – meu pai soava sincero. – Você é um garoto bom. Sei que é. E esse comportamento não é do seu feitio.
É incontrolável e por isso dou risada da cara ele.
– Mas você nem me conhece. – digo a ele.
– Deus do céu, Sebastian! – o rosto dele se transfigura. – Será que você pode parar por um segundo de se ser um moleque tão mimado e conversar comigo de forma descente? Você entende o quão grave é a situação? Quase cegar um garoto por causa de uma brincadeira? Que tipo de homem você quer se tornar desse jeito?
Eram muitas perguntas retóricas, mas respondo apenas a última.
– Não sei que tipo de homem quero me tornar só sei no tipo que não que me tornar. Que é o homem que você é. – digo o encarando.
– Tudo bem, Sebatian. Se quer desperdiçar o tempo que temos juntos me odiando, vá em frente. – ele se levanta e me olha. – Se isso te faz se sentir melhor consigo.
Ele me dá um tapinha em meu ombro e acrescenta: “Eu tenho que voltar pro trabalho agora. Jogou muito bem hoje.” Olho para o rosto dele e lá está uma expressão que não via no rosto dele por anos. Ele devia estar irritado, mas não está. Talvez a última vez que vira aquela expressão em seu rosto tenha sido quando ele me ensinou a me barbear. Sua expressão era de orgulho.
Parando para analisar isso, ensinar e aprender a se barbear é um momento de muito orgulho para a maioria dos homens. Mas por que sentir orgulho de alguém que acabou de aprender a remover pelos indesejáveis de seu rosto? Se remover pelos é motivo para se orgulhar, então as depiladoras e os barbeiros são as pessoas mais orgulhosas do mundo.
– E qual era o problema daquele goleiro? – ele pergunta apontando pro gol onde minutos antes Andrew estivera berrando com o time inteiro. – Ele precisa relaxar.
– O problema dele são vários, na verdade. – respondo sincero.
Meu pai não entende mas ri.
– Nos vemos no final de semana. – ele diz e se inclina para beijar o topo da minha cabeça.
“O que diabos deu nele?”
“O que diabos deu em mim para deixar ele se aproximar tanto assim?”
– Tá. Tanto faz. – me levanto da arquibancada e sigo para o vestiário.
. . .
O vestiário já está praticamente deserto quando encurralo um Andrew distraído em seu próprio armário.
– Andrew? – paro atrás de Andrew que já está com a sua roupa usual.
– Fala. – ele diz secamente sem se virar para me olhar.
– Oi. – hesito. – É... você está bem, cara?
– Estou incrível. – ele se vira. – O que foi?
A expressão de seu rosto é de pura impaciência com a mistura de cansaço.
– O time inteiro está convencido de que você não está muito bem. Por que você não tenta relaxar um pouco e dá o dia de amanhã de folga pra todo mundo? – sugiro.
– Você está brincando? Nós estamos no meio da temporada e precisamos vencer essa droga! – ele diz quase berrando.
Passo o dedo em meu ouvido teatralmente. Tenho quase certeza de que fiquei surdo com aqueles berros em meu ouvido.
– Tudo bem. Você tem que me ouvir. – digo a ele calmamente. – Ou você relaxa ou o time vai fazer um motim contra você.
Andrew ri sem achar a melhor graça.
– Ah é mesmo? – ele me olha debochadamente.
– É. É mesmo! – digo o olhando sério cruzando meus braços.
– E o que vocês vão fazer? Posso saber? – ele diz entrando no meu jogo.
– Não, você não pode. – nos encaramos fixamente. – Mas nós temos um plano.
Andrew suspira ruidosamente.
– Olha, eu estou dando o máximo de mim pra levar esse time a vitória. – ele esfrega a própria testa enquanto fala. – Não sei se vocês perceberam, mas eu estou sendo muito pressionado enquanto vocês ficam que nem um bando de garotas choronas que não aguentam levar um xingo.
– Nós reconhecemos o seu esforço e somos gratos por isso, todos nós, mas o que acontece é que quando você dá o seu máximo você vira um tremendo filho da puta pé no saco. – digo a ele com toda a minha sinceridade. – E pra ser justo, se você falasse menos da metade das coisas que você para nós para garotas, elas te castrariam em menos de três segundos.
Ele me olha sem expressão.
– É por isso que não fico com garotas. – ele diz.
– Ah Andrew... – dou uma risada balançando a minha cabeça negativamente para ele colocando a mão em seu ombro. – Não é por isso mesmo que você não sai com elas. Você não sai com elas por que você gosta de rola. Assim como eu. Não coloque a culpa no temperamento feminino quando o real motivo é que você gosta de rolas.
Andrew, finalmente, ri.
– Aí está! – digo apontando para o sorriso dele. – É desse Andrew que gostamos. O que sorri e não o Sargento Completo Cuzão.
– Tudo bem. – ele se vira para fechar o próprio armário e volta a me olhar tirando minha mão de seu ombro.
– Olha sai com alguém. Vai em alguma boate e arranja um cara pra você extravasar todo esse seu estresse e volte renovado pro próximo treino. – sugiro.
– É... vou fazer isso – ele diz
– Vai ter comemoração hoje. Minha casa! – digo andando para a saída do vestiário. — Por minha conta.
Andrew diz antes que eu saia do vestiário:
– Eu não conheço muito lugares pra ir para arranjar um cara. – paro na porta do vestiário para encará-lo. Ele reflete sobre aquilo. – Será que você pode me dizer algum lugar sem ser aquele lugar dos infernos que a gente esteve?
Ele se referia ao Scandals.
– Vai quer que eu coloque a camisinha em você também? – digo saindo do vestiário.
. . .
Mais tarde naquele mesmo dia...
Um garoto de aproxima de mim mal conseguindo se sustentar em suas próprias pernas e berra em meu ouvido: “Sebastian, acho que o Paul acabou de vomitar no vaso do seu hall.” O música da festa era suficientemente alta para chegar com tranquilidade aos ouvidos dos visinhos do outro quarteirão. “Não tem nenhum vaso no hall da minha...” grito para ele para conseguir ser ouvido. A imagem do porta guarda-chuvas no hall da sala me vem na cabeça. O problema é que o porta guarda-chuvas tem a sua estrutura toda vazada.
“Ah... que maravilha!”
Tudo bem, ter dado a festa da vitória na minha casa foi péssimo.
Olho para a janela próxima a mim, mas o que eu vejo não é a belo paisagismo que há no terreno da minha casa. Não, não é isso. O que vejo do lado fora é um cara espremendo uma garota contra o vidro da janela. Não era bonito de ser visto de onde eu estava vendo.
“Você está aííííí!!!” Bruce, um garoto grandalhão do nosso time, vem para cima de mim passando o braço em volta dos meus ombros. “Esse é o cara!!!” ele dizia e o bafo de bebida que saia de sua boca acertava em cheio a minha cara. “O cara bom de taco e de bola!” ele diz agarrando a região da minha virinha grotescamente. Recuo involuntariamente. Bruce não é gay só é um hétero sem noção que vivia enfiando a mão na bunda e nesse caso no pau dos colegas de time.
– Tudo bem Bruce... – digo deslaçando o braço gigantesco dele de meus ombros. – Tenho que encontrar outra pessoa. Bruce não reclama por que logo se distrai com a própria mão.
Vou até a piscina onde todo o suprimento de bebida se encontra. O dano já estava feito e esses idiotas estavam destruindo a minha casa, não posso ficar com o prejuízo todo e ainda ter que ficar sóbrio, certo? Sirvo uma dose dupla de vodka com gelo num copo, o levo até a minha boca mas antes que eu possa tocar o copo com meus lábios o este desaparece da minha mão.
– Que? — digo
– Obrigado. – olho para o ladrão da minha bebida.
Aspiro ruidosamente.
– Ah...você. – digo para ele.
Pego um novo copo e repito o processo. Levo o copo até minha boca e sinto o copo ser puxado novamente.
– Eu juro por Deus que eu vou arrancar a sua mão fora, Andrew. – o ameaço.
Ele ri largando meu copo e me deixando vira-lo em um gole só. A bebida desce queimando desde a minha língua até o estomago para finalmente começar a fazer efeito em minha cabeça.
– O que está rolando? – ele pergunta preparando o seu próprio copo.
– Por que se importa? – o respondo com outra pergunta puxando um banco para me sentar.
– Não me importo. – ele diz. – Mas pode falar mesmo assim.
– Então somos amigos de novo? – pergunto.
Andrew puxa um banco para si também.
– Não. Para ser amigo de alguém precisa haver a camaradagem mútua. E você não é amigo de ninguém, Sebastian. Não de verdade. Nada com você tem um motivo puro e sincero. As coisas com você não são transparentes. Sempre há uma penumbra. Sempre tem alguma coisa a mais. – era evidente que ele já estava bêbado. – Com você nunca é uma via de mão dupla. Não senhor! Ser seu amigo é andar na contra-mão e sabemos disso. Não sabemos quando vai acontecer, mas sabemos que uma hora ou outra um caminhão vai pegar a gente de frente. É suicídio.
Olho para a cara dele. “De onde isso veio?”
– Tá. Se eu vou ter que ficar aqui ouvindo merda de você eu vou precisar de muito mais disso aqui. – digo tirando a garrafa da mão dele e encho meu copo novamente.
Ele ri.
– Manda. – ele diz
– Tá. Eu estou afim de um cara... – digo deixando transparecer toda a minha mágoa.
– E isso é uma coisa ruim? – ele pergunta. – Estar afim dele?
– Bom, ele tem namorado e pelo jeito ele ama o cara. – digo deixando clara todo o meu desrespeito pela relação de Blaine com Kurt.
– Só isso? – Andrew mata seu copo de Vodka e tira a garrafa da minha mão. – Passa pra cá, olhos verdes.
– Não. Tem mais uma coisa... – digo encarando meu copo. – Eu quase ceguei ele.
Andrew para de encher o próprio copo e me encara horrorizado.
– Isso é sério? – ele pergunta. Eu apenas balanço a cabeça afirmando. – Cara isso é pesado.
– Mas eu não queria ter cegado ele. – tento me explicar. – Era pra ter acertado o bastardo do namorado dele.
O horror na cara de Andrew aumentou ainda mais.
– Ah sim. – ele diz em tom sarcástico. – Se foi assim então tudo bem.
Arfo em agonia. Coloco meu copo entre minhas pernas deixando minhas mãos livres para esconder meu rosto nelas.
Era frustrante em vários sentidos e em vários níveis. Talvez eu tivesse arruinado qualquer e toda chance que um dia havia existido entre mim e Blaine; Os Warblers estavam com um pé atrás comigo agora e se dependesse dos membros, exceto pelo conselho, eu já teria sido expulso do clube; Trazer Blaine de volta para os Warblers era uma parte importante para a nossa vitória no campeonato. Eu fui com tudo para cima do que queria e ninguém podia me parar. Fiz tudo o que pude e fracassei. Miseravelmente.
– Eu estraguei tudo. – digo com a voz abafada.
– Sim, você estragou. – Andrew aperta meu ombro. – Mas isso é o que você faz de melhor. Você é tão bom nisso que se você fosse um super-herói esse seria o seu super-poder: Estragar as coisas.
Andrew dizia tudo aquilo com um tom de entusiasmo em sua voz. Eu o olho sem compreender.
– Isso aí é para, de alguma forma, me fazer sentir bem? – pergunto a ele.
– Ah eu não sei se faz você se sentir bem, mas que é engraçado, é! – ele diz batendo o seu copo no meu para um brinde. Andrew toma a sua dose em um golo. – Cuidado! Aí vem o Super Estrada Tudo! Escondam as suas mulheres e as suas crianças.
De alguma forma muito bizarra e estranha aquilo me faz rir.
– Escondam os seus homens! – o corrijo. Digo desanimado. – É com eles que costumo estragar tudo.
Andrew balança a cabeça concordando comigo. Ele pega meu copo e serve mais uma dose para mim e para ele. “Um brinde a isso!” Andrew diz e levantamos nossos copos para o alto e brindamos. Virando toda a bebida dentro de nossos copos para dentro em seguida.
Ouvimos um grito de dentro da casa que aumentava a cada segundo. Olho alarmado para Andrew que corresponde meu olhar com a mesma intensidade. Um cara corre de dentro da casa para o lado de fora onde estamos. Ele corre gritando em plenos pulmões em nossa direção sem camisa e com os braços para o alto. Só aí é que notamos que ele está completamente pelado. Então ele berra: “A melhor festa de todas!” e se lança na piscina.
Andrew está gargalhando com aquilo e eu estou apenas chocado.
– Eu não sabia que podia ficar pelado. – ele diz rindo. – Por que a gente nunca transou na sua piscina?
O encaro considerando a pergunta que havia me feito.
– A gente não... – olho para Andrew, mas ele já estava fora de foco para mim. – Eu não tenho idéia.
. . .
– ¡Dios mío! ¿Lo que pasó aquí? – acordo com os berros incompreensíveis de Maria. — ¡Fue un robo! ¿Se trataba de un asalto?
Minha cabeça parece que vai explodir a qualquer segundo como se uma britadeira tivesse passado a noite toda tentado abrir o meu crânio.
– Ah meu Deus! – reclamo pegando o travesseiro do meu lado cobrindo minha cabeça com ele.
Maria continua falando enquanto outros empregados da casa chegam e fazem mais barulho por causa da destruição na casa. Maria surge diretamente dos bueiros do inferno para a porta de meu quarto.
– ¡Señor! – ela me grita.
“Essa mulher não vai calar a boca?”
– ¡Señor, levántate! Creo que te robaron. – ela me cutuca sobre o edredom.
– Ah meu caralho! – praguejo tirando o travesseiro da minha cabeça. Ela está ao lado da minha cama segurando o sexto de roupa suja que estava a pouco na entrada da porta de meu quarto – O que foi Maria?
– ¡Levántate! – ela repete assustada. – Creo que te robaron.
– Nós não fomos roubados. Não se preocupa. – digo para ela. – Dei uma festa. Diversão. Gente bêbada. Sabe? Tem isso no seu país?
Me sento na cama bruscamente por que seu que ela não vai me deixar voltar a dormir. Aquela não foi uma decisão inteligente, sinto como se um turbilhão explodisse em meu estômago pronto para sair pela minha boca. Fecho a boca imediatamente e agarro o sexto de roupas de sua mão e boto tudo pra fora. Maria solta um ruidinho de surpresa. Quando acho que não há mais nada para sair é aí que sai ainda mais.
Os músculos da minha barriga já estavam dolorido pelo esforço quando finalmente acaba. Maria dá um tapinha em minhas costas.“Foi mal por isso.” digo para ela que ainda parece estar assustada com o que acabou de assistir. “Viu só? Festa. Diversão.” digo sem animação.
Ela me olha sem entender.
– Fala aí Maria, parece que você acabou de assistir aquela cena do Exorcista, né? – Maria sorri sem graça, não pelo o que eu disse, mas por que não havia entendido nenhuma palavra que havia dito. – Fica tranquila. Eu vou sair do seu caminho pra vocês arrumarem tudo isso.
Me levando da cama pego uma camiseta e uma calça e as vistos. Passo no banheiro para mijar e escovar os dentes. Calço um par de tênis, pego minhas chaves, celular e óculos de sol.
– ¡Sebastián fuera! – digo passando pelo grupo de empregados mexicanos que limpam o hall lavado de vômito do Paul.
Enfio o óculos de sol no rosto por que a claridade, apesar de não estar muito forte, queimava minhas retinas. Entro em meu carro e dou uma olhada no meu celular para ver se há alguma chamada ou mensagem. Nada. Jogo ele no banco do passageiro. Dou partida no carro.
Não tenho a onde ir, só preciso matar o tempo. Dirijo pela cidade que não está muito cheia já que é um dia comercial normal. O silêncio prevalece dentro de meu carro. Não ligo o rádio por que não há música suficientemente boa que a minha ressaca esteja disposta a tolerar.
– Essa cidade está morta. – digo penso alto. – Vai ser que é por que todo mundo está ou no trabalho ou na escola enquanto você dirige pela cidade de ressaca, seu playboy.
Passo na frente de uma loja de presentes que tem em sua vitrine expostos vários bichinhos de pelúcia e outras quinquilharias. O que me chama a atenção é um cachorrinho de pelúcia que usa um tapa-olho. Resisto a tentação de parar o carro e comprá-lo para Blaine.
“Seria uma idéia fabulosamente hilária se não fosse você quem o tivesse deixado desse jeito.”
Aquele pensamento me azeda o meu humor por completo. Olho para o meu celular. Estaciono o carro abruptadamente levando uma buzinada do motorista furioso que estava atrás de mim. Pego o celular e começo a digitar o número de Blaine. Paro por um segundo. Apago o número.
Blaine havia me ignorado desde o incidente. Eu tentei entrar em contato com ele, mas qualquer meio que eu usasse ele me ignorava. Ele sabia o número do telefone da minha casa assim como o do meu celular e por isso nem se dava mais ao trabalho de desligar, ele penas deixava tocar até que a ligação caísse ou eu desistisse. Geralmente era a primeira que acontecia primeiro.
Saio do acostamento e mudo o curso que estava para tomar o sentido para a casa de Blaine.
. . .
Meia hora depois estaciono o carro na calçada oposta a da entrada da casa dele. Consigo ver a televisão da sala ligada apesar da cortina fina cobrir a janela. Ligo para o número residencial de Blaine. Consigo ver alguém se levantando para atender o telefone.
– Alô? – uma voz masculina diz. Não é a de Blaine é mais adulta.
– Oi. – digo. – Ah, Blaine está?
– Tá sim, — ele anuncia. – Quem quer falar?
– É... – Não consigo pensar em nenhum nome.
– Oi? Está ouvindo? – o homem pergunta.
– T... co..n..do – digo forjando um corte de ligação.
– Oi? Eu não estou te ouvindo. – ele insiste.
Silêncio. Desligo o celular.
Não posso bater na porta dele agora, se fosse o pai dele eu seria espancado até a morte pelo o que fiz ao Blaine. Fico sentado em meu carro encarando o volante do carro sem saber o que fazer.
“O homem não tinha voz de pai. Não parecia tão velho.”
Fico ali por cerca de uma hora até que alguém abre a porta de entrada da casa. Reclino meu banco com urgência para me esconder. Um homem, nada velho, sai da casa fechando a porta atrás de si. Ele é definitivamente mais alto que Blaine, seus cabelos são um pouco mais claros do que os de Blaine, mas os cabelos desse cara eram lisos. Os traços de seu rosto são finos e bem definidos. Não consigo identificar a cor de seus olhos, mas são claros.
– Caramba! – exclamo com a beleza daquele cara.
Ele entra dentro do carro estacionado na entrada da garagem da casa. Eu me mantenho reclinado até o carro dele sumisse da rua. Aquela era a minha deixa.
Ainda é arriscado, mas ainda assim eu preciso tentar. Saio do carro, atravesso a sua para tocar a campainha da casa.
Nada dentro da casa faz barulho. Há apenas um silencio mórbido.
– Esqueceu a Chave, Cooper? – Blaine abre a porta abruptamente me pegando desprevenido.
– Ah... Oi – digo.
Há uma mistura de sentimentos acontecendo no rosto de Blaine quando ele me vê. Blaine apenas fecha a porta, mas eu a seguro.
– Por favor. – digo. – Blaine... Só me deixa falar...
Um sentimento havia se definido em seu rosto e era ódio.
– Por que você pensa que tem o direito de ser ouvido? – ele diz quase cuspindo de ódio.
– Eu não tenho. – digo me apressando antes que ele consiga finalmente fechar a porta em minha cara. – Eu só peço que você me ouça.
Blaine não estava me ouvindo, ele só estava se controlando para não enfiar a mão na minha cara.
– Nada do que você tenha a me dizer pode amenizar o que você fez comigo ou o que tentou fazer com o meu namorado. – ele fala.
– Olha, eu fui longe de mais. – tento me explicar. – Eu só estava tentando fazer o que acreditei ser o melhor.
Ele ri sem realmente achar graça.
– E como tentar cegar alguém pode trazer algum bem? – ele me encara.
Tiro meus óculos para olhá-lo. Blaine não se surpreende com a minha cara de ressaca. É muito difícil encará-lo, não por que ele está usando um tapa-olho, mas por que ele está usando um tapa-olho por minha causa.
– Eu nunca tive a intenção de cegar você ou o Kurt. – digo. – Eu não sabia que causaria esse dano todo.
Digo apontando para o olho coberto dele.
– E o que você esperava com isso? – ele pergunta me fazendo sentir um idiota.
– Eu esperava que você visse que você não pertence a aquele grupinho de deslocados. – digo. – Você não pertence a aquele lugar. Você pertence à Dalton. Você é um garoto Danton assim como eu.
– Ter estudado na mesma Academia e ter feito parte do clube de coral deles não nos torna iguais. – Blaine ri revirando os olhos como se aquilo o divertisse. – De forma alguma.
Blaine tentar forçar a porta para fechá-la novamente, mas continuo o impedindo. “Meu Deus! O que você quer, Sebastian?” Ele começa a se cansar daquilo.
– Você ainda não entendeu Blaine? – o olho intensamente. – Eu quero você.
Blaine me olha como se eu tivesse acabado de dizer o maior absurdo do mundo.
– Você não pode negar que nós funcionamos juntos, Blaine. – digo a ele. – Somos iguais.
Blaine ri da minha cara. Aquilo faz meu sangue esquentar.
– Você é ridículo. – ele diz rindo. – Que arrogância. Não somos iguais em nenhum sentido.
– É aí que você se engana... – rebato, mas Blaine me corta.
Blaine me olha intensamente como seu eu estivesse pedindo por aquilo e então dispara: “Eu não sou a pessoa triste que você é. Eu não preciso destruir nada ao meu lado, assim como você faz, para conseguir o que quero.”
Blaine começa a despejar o que parece estar preso em sua garganta há algum tempo: “Sabe, Sebastian, eu tenho muito orgulho de dizer que sou cara muito feliz. Sou muito feliz com a minha vida, assim como sou eu estou muito feliz com todas as escolhas que fiz durante toda a minha vida. Com cada uma delas.”
Cruzo meus braços o encarando dando pouca importância ao discurso dele.“Eu estou exatamente a onde eu deveria estar, Sebastian.” ele diz. Há faíscas em seus olhos enquanto fala: “E pra ser sincero, eu tenho pena de você. Pena por que tudo o que você tem dentro de você são sentimentos tristes e rasos.
E é por isso que você destrói tudo o que está a sua volta. Para você poder desviar a atenção de toda essa infelicidade que há dentro de você.” Blaine diz apontando para o meu peito. Ele continua: “Nem posso imaginar o como isso pode ser difícil, por que sou cercado de pessoas que me amam.”.
Blaine se inclina para falar como se fosse um segredo que estava prestes a me contar. “E cá entre nós, você pode ter quase me cegado, mas eu me atiraria de novo e de novo na frente daquela raspadinha batizada. Por que não há nada nesse mundo que eu não faça pelo Kurt. Por que eu o amo, Sebastian.”. Me contento em apenas dar um sorriso frouxo para ele o desfazendo quase que instantaneamente.
– Sinto muito por ter que te dizer a verdade desse jeito, – Blaine diz sem parecer sentir realmente. – mas você não vai consegui nada de mim.
– Você é patético! – digo cuspindo de raiva.
– Será eu mesmo? – ele pergunta. – Ou será você? O garotinho que tem medo do mundo e tenta chamar a atenção de todo mundo da pior maneira possível?
Nos encaramos fixamente. Há ódio intenso em nossos olhos.
– Mais alguma coisa que você precise que eu saiba a meu respeito? – cada palavra que digo está carregada de ódio.
– Preciso que você suma da minha frente. – ele diz com a mesma intensidade.
– Tudo bem! Eu já vou. – digo. – Eu tentei ser legal com você, mas não adiantou. Então agora vai ter que ser do jeito difícil.
– Ah é? – ele diz em tom de desafio. – E o que você vai fazer?
– Eu vou pulverizar o seu clubezinho patético, Blaine. – digo cautelosamente para que ele se lembre de cada palavra. – Por que, assim como um cubo de açúcar, a união que forma a estrutura sólida de vocês é tão ridícula e frágil que qualquer e mera pressão sobre isso os pulverizará. Sobrando nada além de migalhas.
Dou risada da cara dele. Blaine me encara sem deixar abater.
– Isso ainda não acabou, Anderson. – digo dando as costas para ele.
– Para mim, parece que já terminou. – ele fala alto para o caso de eu não conseguir ouvi-lo.
– A sua ingenuidade é comovente. – digo no mesmo tom que ele entrando em meu carro e dando a partida.
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