Sebastian Smythe

21 Academia Dalton - parte 2


Notas iniciais
Oi pessoal, leiam as notas finais. Boa leitura!

– Eu não acredito que você me convenceu a fazer essa viajem de carro. – Blaine diz passando o cinto de segurança à sua volta.

– Eu também não acredito que consegui te convencer. – digo sorrindo imitando seu gesto.

– Tudo bem, nós tentamos ir e voltar no mesmo dia, certo? – Blaine me relembra de nosso acordo.

– Sim senhor! – digo batendo continência para ele.

– Sem brincadeira agora, Sebastian. – ele diz sério. – Você prometeu que voltaríamos sábado para me ajudar com a minha mudança.

– Você tem a minha palavra. – digo a ele dando partida no carro.

Partimos do campus por volta das 10 horas da noite de quinta-feira. Calculamos que chegaremos por volta do meio dia se não parássemos.

Passamos algumas horas conversando enquanto dirijo, Blaine aquenta bem até ser derrotado finalmente pelo sono. O que torna a viajem um pouco intediante.

O céu da noite está limpo de nuvens , mas muito iluminado graças a imensa lua cheia e as várias estrelas. O vento que bate é forte gélido. Olho para o lado e Blaine está rendido em um sono profundo. No rádio os Beatles cantam In My Life. Não posso evitar de analisar a beleza daquele momento.

Sim, eu poderia ter pago duas passagens de avião para mim e para Blaine. Então, aquilo só era um pretexto para atrasá-lo? Sim, definitivamente é sim. Não quero que ele se mude do alojamento, mas não posso impedi-lo sem parecer um louco possessivo. Então estou tentando fazer o que posso para fazer-lo ficar sem precisar apelar para cordas e correntes para mantê-lo. Essa é a chance de me aproximar dele e não pretendo desperdiçá-la. Quero dar a ele um motivo para ficar.

Algumas horas se passam e já estamos no meio da madrugada. Uma rajada de vento bate e faz Blaine se encolher no banco do carona. Fecho os vidros apertando o botão do painel do carro, ligo o aquecedor e como manteiga que se derrete a expressão no rosto de Blaine é de prazer com o calor imediato.

Aquela era uma mentira inofensiva, sei disso. Então por que em minha consciência não para de formar a frase “Isso é sequestro.” em minha mente? “Isso não é um sequestro” digo a mim mesmo. Eu só criei uma oportunidade com ele, por que eu não posso ter a minha chance com Blaine?

Conforme saímos da cidade de New York as estações de rádio ficam com o sinal péssimo. Elas se tornam escassas nessa parte da estrada e as poucas que pegam tem a programação péssima. Me decido pela menos pior. O radialista com a sua voz sedutora anuncia a próxima música.

Queridos amigos ouvintes, obrigado por sua companhia. Fique agora com Wake Up Sunshine do grupo musical Chicago. São 6:05 da manhã, bom dia!

A música com todo o seu toque nostálgico é cantada à capela. Começo cantar junto com os cantores.

Acorde raio de sol
Abra seus olhos sonolentos para mim
Você não pode se esconder
Eu estive esperando por toda a noite
Pessoas esperando pela luz
Raio de sol, raio de sol

Tamborilo meus dedos baixinho no volante. Blaine começa a despertar ao meu lado.

Acorde raio de sol
Me deixe sentir o calor de sua luz de sol sobre mim
Você não pode se esconder
A noite foi longa e a noite foi fria
Mas hoje nós estamos um dia mais velhos
Raio de sol, você faz minha vida raio de sol

Posso jurar ter visto os cantos dos lábios de Blaine se curvarem em um sorriso disfarçado. Blaine retira a almofada de trás de sua cabeça e recobre seu rosto com ela.

Você sabe que estou falando com você – Canto olhando para ele agora. – Eu sei que você sabe disso também

Blaine continua recobrindo seu rosto.


Então apenas pare de esconder o seu rosto – Tiro a almofada de seu rosto e a jogo no banco de trás. – Apenas abra seus olhos.

Blaine abre seus olhos um pouquinho.

Apenas sorria o seu sorriso. – canto manhoso. Blaine tenta segurar seu sorriso, mas fracassa, me exibindo um belo sorriso. Logo em seguida tampa seu rosto com suas mãos. – Eu estou falando com você...

Tamborilo meus dedos no volante no longo arranjo musical.

Levante-se raio de sol
Ooh é muito bom ter você aqui comigo
Não pode se esconder
Não pode imaginar o que eu fiz
Mas me senti tão sozinho sem você
Raio de Sol, Raio de sol
Você tem que acordar garoto
E encara o dia que tem pela frente.

– Oi! – digo para Blaine.

– Oi – ele responde sonolento.

– Quer parar para tomar café? – pergunto a ele com os olhos na estrada.

O sol já se mostra tímido entre os grandes morros que cerca a estrada. Não há transito, mas alguns carros começam a aparecer no sentido contrário de nossa direção.

– Hmm... – Blaine diz com os olhos fechados saboreando a idéia de tomar café. – Gosto de café.

Dou risada do seu jeito manhoso de falar. Apesar de dividir o quarto com Blaine a pouco mais de um mês, nunca o vi acordar. Nosso horários sempre são diferentes e sempre estamos nos desencontrando.

– Então... café? – pergunto apenas para ouvi-lo falar mais daquela maneira.

– Sim, café! – ele afirma de olhos fechados.

Blaine se despreguiça preguiçosamente, esticando seus braços fazendo sua mão empurrar minha cabeça no processo. “Hey!” protesto sem me importar verdadeiramente. “Desculpa!” ele diz sem realmente sentir por aquilo. Ele boceja passando a mão em seu rosto e cabelos, fazendo o gel perder seu efeito o deixando seu cabelo com sua forma natural.

Me divirto com aquilo.

– Você deveria deixar seu cabelo assim. – digo sincero.

– Assim como? – Blaine abaixa o para-sol com espelho acoplado para se olhar. – Ah meu Deus...

– O que foi? – pergunto o olhando brevemente.

– Onde foi que eu coloquei a minha nécessaire? – Blaine procura no banco de trás.

– A sua néce... – tento processar aquela idéia. – Por que você quer a... Melhor, por que você tem uma nécessaire?

Blaine solta seu cinto de segurança, se ajoelha no banco, encaixa eu tronco entre seu banco e o meu e começa a procurar por sua nécessaire no banco traseiro.

– Preciso arrumar isso. – ele diz.

– Você está ótimo, não sei o por que usa gel. – digo tentando me concentrar na estrada. – Tudo bem que se a empresa de quem você compra gel me ouvir dizer para você parar de usá-lo irá me processar. Já que eles só não faliram ainda por que você os sustenta...

– Sebastian deixa de ser babaca. – Blaine diz se esticando ainda mais e acaba empinando a bunda para poder alcançar a bagagem.

Tento manter o foco.

– Olha, — tento desviar o olhar de sua bunda para a estrada. – você está me atrapalhando, quando a gente chegar em algum lugar para tomar café você pega essa sua bolsinha.

Andamos cerca de 15 km até encontrar uma lanchonete de beira de estrada, não muito convidativa pelo seu aspecto caído.

Ao estacionarmos, Blaine sai correndo do carro direto para o banheiro masculino com sua nécessaire em mãos. Ele demora alguns minutos até saia de lá.

– Eu preferia do outro jeito. – afirmo ao ver Blaine se aproxima da mesa que estou sentado.

– E eu prefiro desse jeito. Tudo perfeitamente alinhado e no seu devido lugar. – ele diz se sentando na cadeira à minha frente.

Sem que percebamos a garçonete, muito velha, nos interroga sobre o nosso pedido.

– O que vai ser? – ela diz com má vontade.

– Ah... – digo tentando esconder a minha surpresa. – você pode trazer o menu para a gente poder decidir?

– Aqui ta com cara de restaurante grã-fino, moleque? – ela diz quase cuspindo em mim. Enquanto fala, a sua dentadura dança em sua boca. – O menu ta na parede. Grita quando souber o que vão querer.

A mulher sai arrastando os pés se afastando da nossa mesa.

– Que classe... – digo traumatizado.

– Achei charmoso. – Blaine diz rindo.

– Você precisa rever todo o seu conceito de chame. – digo sem achar graça.

Por fim nos decidimos apenas por dois cafés simples. Não que o lugar oferecesse algum tipo de café mais incrementado. Ou era café simples ou café simples.

– Sem conhaque? – Blaine pergunta surpreso após a garçonete se afastar de nós novamente. – Que progresso.

– Eu estou dirigindo, aí está o progresso. – digo triste ao pensar na possibilidade de café com conhaque.

– Achei que fosse o primeiro passo para admitir que tem problemas com álcool. – Blaine diz.

– Eu não tenho problema com bebida. – digo teatralmente.

– Jura? Por que parece que tem sim. – ele insiste.

– Eu descordo.

– Sejamos francos um com o outro, eu apreciso tudo o que tem feito por mim, Sebastian. – Blaine se reclinando um pouco mais sobre a mesa que nos separa. – Sabe, você estava certo sobre eu estar tendo comportamentos auto-destrutivos e eu estou tentando me reerguer. Você cuidou de mim e agora eu cuido de você.

Aquilo não me faz sentir confortável de nenhuma forma, sei que Blaine está tentando ajudar, mas ele fala como se eu fosse algum tipo de cara viciado em cocaína e crack.

– Wow! De onde isso veio? – digo exaltado.

– Olha, eu estou tentando te ajudar. Você tem admitir que sair quase todos os dias com um cara diferente e voltar embriagado seja uma coisa natural. – Blaine diz aquilo com naturalidade.

– Blaine, querido, quando se tem uma boa aparência como a que tenho... – digo cruzando os braços. – É natural que se tenha tantos caras querendo sair comigo.

– Okay, mas você precisa sair com todos? – ele diz erguendo as sobrancelhas.

– Espera aí. – começo a rir. – Você concordou que tenho boa aparência? ... E espera aí de novo, você está com ciúmes? E espera aí mais uma vez, desde quando isso é da sua conta?

– Olha, eu já disse. Só estou devolvendo o favor. Você é um cara legal e acho que mereça estar em uma relação significativa com alguém, para variar. – Blaine diz dando de ombros.

– Você está se candidatando a vaga?

– Por que você acha que todo cara que se aproxima de você tem interesse sexual em você? – ele diz irritado.

– Bom, é por que todo cara que se aproxima de mim é por interesse sexual. – digo sincero.

– Mas eu não! – Blaine diz sério. – Eu estou tentando ser seu amigo.

A garçonete finalmente traz nossos cafés, o gosto é horrível, mas ainda assim o bebemos. Nos mantemos calados por algum tempo até que eu quebre o silêncio.

– Olha, o que te faz pensar que quero ter uma relação significativa com alguém.

– Você está certo... – Blaine diz azedo.

Nos mantemos quietos por mais algum tempo.

– Isso é por que você nunca teve um relacionamento significativo. – ele murmura para seu café?

– Como é? – pergunto irritado.

– Você me ouviu. – ele diz bebendo mais de seu café.

– O que te faz pensar que nunca estive numa relação significativa?

– O que não me faria pensar que nunca esteve em uma relação significativa?

– Eu namorei um cara pra valer.

– Aham...

– Eu to falando sério.

– Claro que sim.

– O nome dele é Andrew, nós namoramos por um bom tempo...

– Ah, sim. Claro, o Andrew.

– Vai se fuder, Blaine.

Blaine tem a reação que jamais teria imaginado que tivesse diante aquela situação. Ele simplesmente começa a rir.

– O que foi?

Blaine apenas ri.

– Babaca. – digo terminando o café, coloco uma nota de 10 dólares em cima da mesa e me levanto.

Blaine se levanta e saímos do lanchonete.

– Me diz uma coisa... – Blaine diz atrás de mim enquanto andamos. – Por que terminaram? Você terminou ele por que ele era imaginário de mais para você ou por que você era real demais para ele?

Paro e me viro para Blaine.

– Por que está sendo tão babaca comigo?

– Espera, você não está brincando?

– Eu pareço estar brincando, seu idiota?

– Calma, eu só achei que... Olha, você tem que concordar que é difícil de acreditar que...

– Que eu me envolveria com alguém? Que tenho sentimentos? Legal saber. Agora entra no carro antes que eu decida te largar aqui. – digo a ele entrando no carro em seguida.

Deixamos o estado de New York em algumas horas depois. Enquanto atravessamos o estado de Pensilvânia, paramos em um restaurante para almoçar. Esse melhor do que o primeiro.

– Posso me sentar aqui ou o seu namorado vai se sentar aí? – Blaine diz apontando para a cadeira a minha frente.

Reviro os olhos. Eu não estava mais bravo com ele.

– Tudo bem, engraçadinho. – digo olhando o menu.

– Posso? – ele insiste.

– Senta logo. – digo encarando o menu.

– Tudo bem, mas se o vir por perto eu não quero problemas.

Suspiro pesadamente.

– Isso perdeu a graça faz tempo. – digo sem olha-lo. – Na verdade nunca teve graça.

– Tudo bem – Blaine diz se sentando. Ele se cala por alguns segundos para analisar o menu. – Então... por que terminaram?

– Não é da sua conta. – digo sem emoção.

– Nossa! – ele diz se calando.

Aquele assunto não retorna pelo resto do almoço e viajem.

Agora falta algumas horas para chegar em Ohio. Dirigimos mais algumas horas até chegar na cidade de Lima finalmente.

Após várias horas viagem chegamos finalmente. Estacionamos o carro em frente ao portão de entrada da Academia Dalton, onde, mesmo do lado de fora, já é visível os danos causados pelo incêndio.

– Nossa! Esse lugar está um lixo! – exclamo olhando para o prédio ao sair do carro.

– Sebastian! – Blaine me repreende.

– O quê? – pergunto sem entender a repreensão. – Vai me dizer que esse lugar está um completo deleite?

– Guarde esses comentários maldosos para você. – Blaine diz fechando a porta do carro atrás de si.

– Hmm como ele está mandão. – digo.

Ao passar pela velha porta de carvalho do prédio, somos recepcionados pelo diretor da Academia. Ao entrar vemos que os danos foram infinitamente piores na parte interna do que a externa.

– Nossa esse lugar está péssimo! – digo ao diretor dando uma piscada para Blaine em seguida.

Blaine me lança o seu olhar de: “O que foi que eu te disse?”.

– Não sobrou muita coisa senhores. – Charles, o diretor, diz retorcendo suas mãos.

– É muito triste ver esse lugar desse jeito. – Blaine diz sincero.

– É uma pena que tenham voltado para cá apenas sob essas circunstâncias, senhor Anderson. – o homem de meia idade diz apertando a mão de Blaine em um cumprimento. – Mas ainda assim é bom revê-lo.

– É acredite em mim, não foi por falta de tentativas. – digo me referindo as inúmeras tentativas de trazer Blaine de volta à Academia Dalton anos atrás.

Blaine me olha feio.

– Senhor Smythe, é bom vê-lo novamente também. – Charles estende a mão para me cumprimentar. – Como vai o seu pai?

– Casado com uma mulher nove anos mais nova que eu. – digo sem emoção ao estender minha mão para apertar a dele em cumprimento.

– Desculpe? – ele diz sem entender.

– Hmm-Hmm. – digo voltando minha atenção para o prédio.

– Então, como vai o processo para a reconstruir da Academia? – pergunto.

– Estamos aguardando generosas doações de ex-alunos para nos reerguermos. – ele diz.

Olho para Blaine com um olhar de: “Não te disse?”. Blaine me encara com o olhar “Não se atreva a falar isso em voz alta.”

– E é por isso que estamos aqui. – digo. – Viemos contribuir com as doações.

– Nós... o quê? – Blaine me encara sem entender.

– É muita generosidade cavalheiros. – o homem diz apertando nossas mãos novamente.

– Nós sabemos. – dou tapinhas nas costas de um Blaine mais branco que papel.

– Podemos ir até o meu escritório, ou pelo menos o que sobrou dele. – Charles faz menção ao caminho de seu escritório com a mão. – Se fizerem a gentileza de me seguir...

– Mas eu... – Blaine balbucia.

– Pode ficar aqui que eu resolvo isso. – digo dando uma piscadela para Blaine.

O diretor e eu andamos até sua sala defasada. Ele aponta uma cadeira que se equilibra de forma precária em frente a sua mesa em igual estado.

– Não, obrigado. – digo recusando o acento.

– Eu entendo. – o homem diz envergonhado. – Devo dizer novamente que é muita generosidade, senhor Smythe.

– Tudo bem... – falo sem emoção

Ele anda até o armário chamuscado e retira de lá uma ata.

– É... só uma pergunta, vocês não tem seguro contra essas coisas? – pergunto.

– Sim, nós temos, mas sabe como essas coisas são eles repõem as coisas, mas ... – o diretor não sabe terminar aquela frase.

– Sei... – digo desconfiado. – Me diz Charles, qual desses moleques mimados vocês estão protegendo? O pai dele tem que cargo de peso?

O seguro cobriria todo dano causado pelo incêndio, mas isso envolveria a polícia que descobriria que o incêndio foi criminoso se tivesse de fato sido causado por alguém e não por falha técnica. A Dalton sempre encobre os seus alunos marginais pelo fato de serem filhos de pais poderosos. Isso não é novidade para ninguém.

– Desculpe senhor, — ele desconversa. – eu não sei o que está falando. O incêndio não foi causado por ninguém.

– Como sabe disso? – o desafio. – A polícia ainda não determinou a causa, certo? Espera aí... a polícia foi acionada? O seguro foi acionado?

– Senhor Smythe, por favor... – Charles começa a soar feito um gordo em uma sauna.

– Tudo bem. – digo o encarando. – Mas eu sei como essa escola funciona. Não pense você que sou idiota.

– Então, — ele pigarreia. – Quanto devo marcar em seu nome?

– Em meu nome nada.

– Desculpe?

– Eu quero que coloque no nome de Blaine Anderson. – explico.

– Não entendo senhor, — ele diz confuso. – a doação será do senhor Anderson?

– Não. – digo calmamente para que entenda. – A doação será minha, mas quem levará o nome de bem-feitor será Blaine Anderson.

– Ah... Então, coloco o nome de Blaine Anderson!?

– Isso.

– E quanto será a quantia que o Senhor Anderson irá doar?

Para aquele homem pouco importa de onde o dinheiro venha, ele só quer ver o seu império de sujeira reconstruído. Não me entenda mau. Eu amo a Academia Dalton, mas reconheço suas falhas.

– Posso? – digo pegando a ata e caneta de sua mão e escrevo nele o valor de cinco dígitos as devolvendo em seguida.

– Isso é, isso é muito mais do que esperava. – ele diz esganiçado. – Muito obrigado senhor. A academia Dalton tem uma eterna dívida com o senhor.

– Tudo bem, Charles, não precisa babar. – digo. – A academia Dalton pode pagar sua dívida colocando alguma placa honrosa ao senhor Blaine Anderson, que fez muito pelo clube glee dessa escola. E falando em clube glee, acho que seria uma boa idéia se a sala do clube de coral levar o nome dele.

O homem alinha a própria gravata borboleta e seus cabelos envergonhado.

– Receio que esteja pedindo uma coisa muito além de minhas possibilidades, senhor.

– Não há dígitos o suficiente nesse número, Chuck? – pergunto o ironizando.

– Eu verei o que posso fazer. – ele diz irritadiço.

– Você é um cara legal, Chuck, posso te chamar assim? Chuck? Tanto faz, vou te chamar de Chuck – digo sorrindo.

Conversamos mais alguns minutos até que por fim, Charles se compromete cumprir todas as minhas exigências.

– Posso perguntar o por que fez isso? – ele me pergunta ante que eu deixe a sala.

– Eu estou tentando provar uma coisa... – digo a ele. – Se me der licença, preciso procurar o Blaine.

Ele não me segue.

Ando pelo corredor, a cada paço as lembranças se tornam vívidas em minha mente. Paro na porta da sala de coral. Blaine está de costas e não pode me ver. O observo por alguns minutos. Então resolvo me aproximar.

– Muitas lembranças? – digo colocando a mão em seu ombro.

Blaine se assusta e limpa a lágrima em seu rosto.

– O que te entristeceu?

– Nada. – Blaine diz tentando disfarçar.

– Tudo bem. – digo enfiando minhas mãos nos bolsos da calça. Ando pela sala a analisando.

Olhamos a sala de coral que está em cinzas.

– Sabe, eu estava falando com o diretor e ele disse que a estrutura do prédio não está comprometida, então é uma boa coisa, só reporão a mobília – digo pegando uma caixa sobre a mesa que se desmancha em minha mão. – e o restante...

– Parece que foi a vidas passadas de tanto tempo que faz... – Blaine diz reflexivo.

Okay, não estamos falando mais a mesma coisa.

– É engraçado como quando somos adolescentes o nível de intensidade das coisas são tão maiores. – Blaine está com o olhar perdido. – Tudo é para sempre até o dia em que crescermos, nos tornamos independentes... Então, tudo se vai. Tudo muda. O que era importante já não é mais.
É como quando somos crianças, sabe? Ter que esperar alguma coisa por 5 minutos é uma eternidade sem fim... O que acontece conosco? A que momento quebramos?

Ele faz uma pausa. Não me atrevo a interrompe-lo.

– Foi aqui que conheci Kurt. – ele diz. – Foi nessa sala que me apaixonei por ele. E agora essa sala só parece uma metáfora. Somos apenas fantasmas de nós mesmo.

– Bom, foi aqui que nos conhecemos também... – digo.

Blaine parece não me ouvir. Acontece que eu não dirigi mais de 10 horas para ficar aqui parado enquanto ele relembra do ex-namorado.

– Se lembra disso? – pergunto a Blaine, mas ele continua perdido em suas próprias lembranças.

Decido agir. Dou alguns passos até parar na frente de Blaine.

– Eu te segurei pelo braço... – o seguro como na primeira vez. – e te puxei para o centro da sala, onde nós dançamos.

Puxo Blaine para o centro da sala.

– Então começamos a dançar... – finjo puxar em minha memória o que acontecia em seguida. – Não lembro direito como dançamos...

Continuo o segurando pelo braço.

– Foi uma música ao estilo anos 50? – improviso alguns passos com ele. – Não, acho que não foi isso.

– Que? – Blaine sorri.

– Não, não sopra! Eu quero lembrar sozinho. Estou quase lembrando. – faço minha melhor pose de pensativo. – Ah, já sei... foi uma dança country!

O forço a dar alguns passos de dança country comigo. Blaine começa a rir finalmente.

– Não... Isso é ridículo de mais... Eu me lembraria disso se o tivesse feito. – digo ficando pensativo novamente.

– Foi... – Blaine diz se divertindo.

– Não se atreva a trapacear, Blaine Anderson! – o ameaço.

– Ahá! Já me lembrei!

Blaine ri revirando os olhos.

– Foi valsa! – digo passando a mão em sua cintura um pouco receoso com a reação dele, seguro sua mão direita. Fazemos alguns passos o conduzo. Blaine não recura. Dançamos sem música nenhuma.

Fazemos o tradicional dois pra lá dois para cá. O faço se reclicar para trás, o seguro pela cintura em meu braço esquerdo. Quando o puxo de volta, a nossa valsa aos poucos se torna em uma dança lenta, mais colada e menos elaborada. Apenas nos balançamos para lá e para cá.

Mantemos nossos olhos conectados.

– Não foi isso, Sebastian. – Blaine diz sem graça.

– Não foi? Bom, então acho que deveria ter sido. – dançamos um pouco mais. – Dançávamos assim e na sala só havia nós dois.

– Do que está falando? Nós dançamos Uptown Girl e a sala tinha no mínimo uns vinte outros Warblers.

– Jura? Não me lembrava disso. – minto enquanto Blaine sustenta meu olhar. – No momento que vi você aparecer por aquela porta ali você me deixou desnorteado como se o céu tivesse acabado de cair sobre a minha cabeça.

– Sebastian...

Blaine se afasta interrompendo nossa dança. Pigarreio tentando afastar o momento constrangedor.

– Acho que já é hora de irmos, certo?

– Espera aí, Blaine. – digo o segurando pela mão. – Olha, eu estou cansado disso. Seja franco comigo pelo menos uma vez sobre isso. Eu pude ver em seus olhos, Blaine. Sei que eu mexi com você naquele dia. Eu estou certo? É uma pergunta inofensiva.

– Tá tudo bem, mas depois eu descobri a pessoa horrível que era. – Blaine deixa sua simpatia pra lá.

– Não consegue me fazer um elogio, não é verdade? – digo sem emoção.

– E você acha que merece? – ele me desafia.

– Sim, eu acho. – há certa indignação em minha voz. – E também acho que você continua me julgando por erros que cometi no passado. Eu mudei e você vê isso. E acho que é um mentiroso.

– Eu mentiroso? – Blaine fica na defensiva. – Sobre o que estou mentindo?

– Sobre o que sente. Do que tem medo? – pergunto elevando o tom de minha voz.

– Tudo bem então. – Blaine eleva a sua também. – Sim eu me senti atraído por você. Sim você era um cara interessante e com tanta experiência com tão pouca idade. Mas eu me envergonhava por olhar para o lado enquanto estava com o Kurt e eu o amava e me sentia atraído por você. Eu me sentia um monstro. Feliz agora?

– É tão ruim assim se sentir atraído por mim? – aquilo me fere.

– Você não faz idéia. – Blaine está com os olhos mareados.

– Isso quer dizer que se sente atraído por mim? – insisto.

– Isso quer dizer que isso nunca irá acontecer, Sebastian. – ele me golpeia com suas palavras duras.

– Tudo bem, – digo seco. – foi uma péssima idéia ter vindo aqui.

Não me orgulho disso, mas feito como uma criança mimada e emburrada por que os pais não o deram o brinquedo que queria, saio na frente de Blaine. Charles está nos esperando na porta de entrada da academia.

– Fico muito agradecido pela visita dos senhores, até mais, espero que façam uma boa viagem até New Yor...

– Fica frio Chuck. – digo passando por ele.

– Até mais senhor Anderson. – escuto falar para Blaine.

– Até Charles. – Blaine diz sério.

– Qual é o seu problema em? – Blaine diz atrás de mim. – Está se comportando como uma criança!

Entramos no carro, dou partida nele. Nos mantemos em silêncio por um tempo.

– Olha se não vai dizer nada, então eu vou dizer... – Blaine diz se virando para mim do banco de carona. – Eu tenho o observado por meses e você não é o tipo de cara que eu costumo querer para namorar. Você sai quase todas as noites, enche a cara até não poder mais... Você é um amigo ótimo, mas não acho que vá dar certo. Eu quero sossegar, encontrar alguém que possa ter uma estabilidade e construir uma família.

– Você não acha que eu seria esse tipo de cara? – digo quebrando o meu próprio silêncio. – Acha que não quero ter uma família algum dia?

– Como é que eu posso saber? Sendo que tudo o que sei de você é que quando sai só volta depois de dias e parecendo um lixo humano. – Blaine diz alterado.

É oficial, estamos brigando feito um casal.

– Quer me conhecer? Então tá. – faço uma manobra imprudente invadindo a pista oposta e dando meia volta.

– Puta merda! – Blaine diz se segurando. – O que está fazendo?

– Você disse que não me conhece, estou te levando pro lugar que possa me conhecer. – acelero o carro mais do que o permitido e necessário.

– Você está me assustando. – Blaine diz com a voz trêmula. – A onde estamos indo?

Me mantenho calado enquanto dirijo.

Continua...

Notas finais
Oi pessoal, traduzi a música Wake Up Sunshine para dar mais sentido ao contexto da cena. E acho que hoje é o dia perfeito para publicar mais um capítulo da fic. Hoje é um dia importante, como provavelmente devem ter visto nos sites e redes sociais o Estados Unidos tem apartir de hoje legalizado o casamento homoafetivo em todos os 50 estados. Pode não ser o nosso país, que também tem já tem esse direito garantido para os cidadãos, mas é sempre bom ver essas coisas acontecendo. Espero que tenham gostado do capítulo de hoje e até semana que vem, voltaremos para os dias padrões de postagem: Terças e Quintas.