Scarlet Roses
8 Yes
Syndra sentiu o peso da realidade cair sobre os seus ombros. Desviou o olhar, recuando alguns passos, como se aquela única palavra tivesse lhe acertado como um soco. Não. Por que não? O que o impedia de lembrar-se daquilo?
— Syndra. – Ele chamou. Sua voz acordou a mulher aos próprios sentidos e ela o encarou, novamente, dessa vez um pouco hesitante. Sentia que não era normal que aquilo estivesse acontecendo. – Eu não... Tenho memórias.
A feiticeira uniu as sobrancelhas, mais confusa do que Zed estava havia alguns segundos. Ele disse aquilo com tanta serenidade que era quase difícil de acreditar que lhe afetava de alguma forma. Parecia não se importar com não guardar momentos importantes em sua mente. Aquilo sim era muito estranho.
— Eu lembro do que eu fiz. – Ele continuou, ainda de braços cruzados. – Lembro de como matei meu mestre, lembro de ser dominado pelas sombras. E só. Sei que elas controlam o que eu posso ou não lembrar, mas não me importo com isso. Essas coisas me atrapalhariam a ser o Mestre das Sombras.
Syndra sentia que havia entendido. As sombras, que tornaram Zed aquele ninja tão misterioso e obscuro, escondiam o que achavam desnecessário. Mas por que ele parecia tão conformado com aquela situação? Por que não entendia que as sombras o mestreavam? Como se pudesse ler sua mente, ele deu de ombros e encostou-se na parede.
— Qual é o seu ponto?
Syndra sentiu o sangue subir ao seu rosto e respirou fundo antes de tentar começar a falar. Era difícil entender como a mente de Zed funcionava. Por que ele era tão racional e irracional ao mesmo tempo? Por que ele não entendia que era horrível ter algo aprisionado dentro de si, que assumia o controle do seu corpo em determinados momentos? Por que ele não se importava com o fato das sombras terem iludido-o a quase matar Syndra, somente pela necessidade de matar sob qualquer circunstância? Qual era o problema que ele tinha para não entender isso?
— Nada. – Ela respondeu, mesmo que várias palavras tivessem morrido em sua garganta. Era melhor que deixasse daquela forma. Era melhor que ignorasse a trajetória de Zed em sua história, a forma como ele havia voltado, como lhe seduzia, como era extremamente irritante e atraente ao mesmo tempo. Talvez fosse realmente melhor deixá-lo recuperar-se e depois mandá-lo embora. Seria doloroso, mas não impossível. – Ignore tudo isso.
Ele ergueu as sobrancelhas e Syndra sentiu vontade de beijá-lo. Entretanto, deu as costas e começou a caminhar para fora do quarto, ansiosa para sentir-se livre daquela atmosfera sufocante. Sentiu Zed segurar o seu pulso e virou-se para ele, levemente incomodada com a distância menor que os separava.
— Por que isso te incomoda? – Ele perguntou. Syndra suspirou, já que sua perguntava havia soado realmente inocente. Ele não se lembrava, e ela não supria esperanças de que ele o fizesse por si só. Talvez... Precisasse de uma ajuda.
— Você quer que eu te conte, então? – Perguntou, envergonhada. Seria humilhante ter que fazer aquilo, já que nem sabia como começar. Zed desviou o olhar para o lado, pensando. Syndra analisou sua expressão pensante e sorriu de canto. Era uma bela expressão. Ele deveria pensar mais vezes.
— Não tem algum jeito mais fácil? — Ele perguntou depois de desviar olhar novamente para ela.
Um relâmpago clareou a mente de Syndra e ela abriu a boca, mas dela não saiu nenhum som. Na verdade, tinha sim um outro método de compartilhar memórias. Havia feito somente uma vez, com Ahri, quando a resgatou na floresta. Assim que atingiram o templo, a mulher raposa desmaiou, desidratada e muito gelada, e quando acordou, pela manhã, não sabia onde estava. Tentou até atacar Syndra, arranhando seus braços, mas a mulher foi mais rápida. Explicou o que aconteceu, tendo que observar o tempo todo aqueles olhos desconfiados da outra, que no fim de tudo não acreditava que havia sido salva daquela forma. A feiticeira optou por uma técnica antiga e praticamente proibida que havia aprendido com a sua mestra; Conexão. Mostrou-lhe as suas memórias do que havia acontecido – Ahri aparecendo das árvores, os homens lhe perseguindo, a luta e, por fim, a caminhada das duas até o templo, onde desmaiou. Ela entendeu. Entendeu e absorveu tanto o que havia visto que agradeceu e abraçou Syndra por horas.
Syndra fitou Zed, que parecia curioso. Estendeu a mão direita, tocando o seu rosto, e tentou mentalizar o que queria lhe transmitir. Rezou para todos os deuses que conhecia para que aquilo desse certo e fechou os olhos, concentrando-se no silêncio.
Um arrepio lento e gradual foi da sua cabeça à ponta dos seus dedos, distribuindo uma sensação de formigamento misturada com um calor desconcertante. Syndra apertou os olhos, quase que podendo ver as cenas flutuando em sua mente. Podia ver Zed sorrindo. Podia ver Zed preocupado, segurando seus ombros e lhe dando as melhores instruções para que fugisse da vila. Podia ver Zed sumindo no meio das árvores, indo na direção contrária, e podia ouvir-se chamando desesperadamente por seu nome antes de continuar a andar. Quando percebeu que várias memórias aleatórias começaram a fluir desesperadamente, Syndra retirou a mão do rosto de Zed e abriu os olhos, sentindo um choque assim que se desconectaram. Abriu os olhos e voltou a respirar quando notou que o oxigênio faltava desesperadamente aos seus pulmões.
Zed a observou. Ele continuava sereno como antes, quando havia falado sobre como as sombras controlavam sua mente. Syndra admitiu que havia falhado e, pronta para sair do quarto, desistiu quando ele sorriu. Foi apenas um sorriso fino e discreto que fez a mulher novamente perder o fôlego que já não tinha e martelar a própria mente com perguntas. No que ele estava pensando? Será que ele lembrava? Será que as sombras haviam deixado aquelas memórias passarem? Por que diabos ele não falava alguma coisa?
Os braços de Zed rapidamente envolveram sua cintura e ele a puxou para perto, envolvendo-a num abraço.
Syndra engoliu em seco e fechou os olhos, colocando as mãos sobre os seus ombros. Ainda não sabia o que aquilo significava. Por que ele estava a abraçando? Por que ele emitia um calor tão bom? Por que Syndra não conseguia parar de pensar em perguntas?
— Zed... – Ela chamou. Ele a abraçou com mais força, trazendo seu corpo para perto.
— Shhh.
Syndra sentiu um arrepio quando ele sussurrou aquilo perto da sua orelha e prendeu a respiração, fechando os olhos. Precisava muito de respostas. Agora, estava duplamente nervosa com a situação que se encontrava. Como era possível que seu corpo tivesse determinados desejos num momento como aquele? Zed sacudiu-se um pouco com uma risada baixa e rouca e Syndra ergueu as sobrancelhas. Quê?
— Desculpa. – Ele disse, parecendo se controlar para não rir mais um pouco. Syndra virou o rosto em sua direção, chocando-se com um sorrisinho zombeteiro e um olhar provocante. Quê? – Você... Meio que mostrou outras coisas também.
Syndra corou. O que diabos o mostrou sem que tivesse conhecimento? Zed riu mais um pouco, voltando a desviar o olhar.
— Eu me lembro agora. – Ele disse, depois de alguns segundos controlando seus risos que irritavam e envergonhavam Syndra. – Me lembro mesmo.
A mulher voltou a observá-lo, recebendo um sorrisinho como resposta. Fitou o chão, sentindo os braços de Zed firmarem-se em sua cintura com um pouco menos de força. Seus músculos relaxaram e ela soltou um suspiro, tentando acalmar as batidas rápidas do seu coração. Se continuasse ali, daquela forma, provavelmente morreria em poucos segundos.
— Eu acho que sempre gostei de você. – Zed murmurou. Syndra olhou para cima, sentindo o rosto esquentar ao encarar aqueles olhos escarlate.
Fechou os olhos quando percebeu que ele iria beijá-la.
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