Syndra voltou para seu quarto, confusa demais para fazer qualquer coisa. Podia ouvir Zed mexendo em sua armadura, no quarto ao lado, e hesitava em prestar atenção no que ele estava fazendo.

Deixou a porta aberta, como de costume, mas se sentia incomodada com isso. Observava aquele vazio por dolorosos segundos, se perguntando se Zed poderia aparecer de maneira inesperada, mas os minutos se arrastaram e ela desistiu de nutrir esperanças. Havia percebido que sentia alguma coisa diferente vindo dele. Não sabia ao certo, mas pensava que o conhecia. Depois de observar suas feições e recriá-las várias vezes em sua mente, Syndra sabia que o reconhecia de algum lugar. De qual lugar, ela não fazia ideia.

Passou a pensar, então, em todos os lugares onde havia estado em toda sua vida. Se ele tivesse vindo ao templo ou à floresta antes, a feiticeira saberia; a técnica das sombras não fugiria da sua mente. O templo, antes de estar flutuando, poderia ter abrigado Zed como estudante, assim como Syndra, mas não. Mesmo se lembrando vagamente das outras pessoas que foram treinadas ali, sabia que técnicas ninja como as de Zed não eram bem vistas pelo mestre. Sendo assim, a lista se reduziu pela metade.

Não poderia tê-lo visto em alguma viagem que fez com Ahri. Pelo que havia percebido, ele não tinha o costume de retirar sua máscara e seria difícil ver o líder do Clã das Sombras andando por aí, como se não tivesse nenhum inimigo. Assim como foi com as outras, Syndra descartou essa opção.

Mas e a vila? E a vila que Syndra cresceu, antes de sua vida ser destruída, seus pais mortos e seus poderes explorados?

Zed parou de fazer barulho e Syndra se questionou se ele estava descansando. Se ele nasceu em Ionia, como ela, quais seriam as chances de terem morado na mesma cidade?

Boom. A feiticeira sentiu as mãos tremerem um pouco, como se aquela lembrança tivesse lhe chacoalhado por dentro. E foi quase isso que aconteceu, na verdade.

Zed. Zed. Por que não havia se lembrado antes? Fechou os olhos, repetindo aquele nome mentalmente. E, como se estivessem atendendo a um chamado, mais memórias brotaram em sua cabeça, forçando-a a sentar-se na beira da cama.

Zed era aquele garoto que vivia às margens da vila. Zed era aquele garoto com os olhos escarlates que as pessoas diziam ser amaldiçoado; aquele garoto que se esgueirava por todos os lugares e que era mal visto mesmo sem nunca ter feito nada. E ele foi o primeiro amigo de Syndra, e o único que não teve medo quando descobriu o que ela conseguia fazer.

Porque ele sabia como era ser odiado. Ele sabia como as pessoas sentiam medo dele, e Syndra se sentia assim também. E foi dessa forma, com seus nove ou dez anos, que eles viraram amigos.

Mas então chegou o dia. Os moradores da vila, furiosos, se cansaram da forma como Syndra e seus pais tratavam a magia. Eles tinham medo do que aquela família podia fazer e tinham medo da pequena garota que, apesar de tímida e quieta, guardava um imenso poder dentro de si.

Mas Zed ajudou Syndra a fugir. Ele a guiou pela floresta, enquanto os outros a procuravam com suas tochas e suas facas, acalmando-a. E ela conseguiu não gritar, chorar ou lamentar por seus pais, que àquela hora já deviam ter sucumbido em frente à própria casa. Zed disse que Syndra era forte. Zed disse que ela devia correr em direção ao escuro, e que ele logo a acompanharia.

Mas ele não acompanhou. Syndra foi resgatada por uma boa mulher, depois de vagar pela trilha e chegar a uma cidade. E essa boa mulher a criou, lhe deu amor e lhe ajudou a treinar seus poderes, para que o que havia dentro de si — a Soberana — não a consumisse completamente.

Mas eles a tiraram de Syndra. E ela ficou sozinha, de novo, depois que o governo de Ionia descobriu o que ela podia fazer e atiçou a segunda alma que morava em seu corpo. E Syndra sentiu esse corpo fazer o que ela não queria ter feito, e viu sua mestra morrer em sua frente. E por sua culpa.

Então a mandaram para um templo na floresta, muito distante das outras cidades. E Syndra teve que treinar como uma arma, junto a outras pessoas que a odiavam e que diziam que ela era amaldiçoada. E o templo foi esvaziando aos poucos, até que os últimos alunos fossem embora, alegando que era impossível receber algum tipo de reconhecimento com Syndra por perto. O treino era sempre focado nela.

Syndra ficou com um único mestre. Mestre esse que a tratava com rigidez, a maltratava e a torturava psicologicamente, esperando que a Soberana Sombria se revelasse mais uma vez.

Mas não foi a Soberana que o matou. Foi Syndra, cansada de tudo o que havia passado, que o estrangulou com as próprias esferas e colocou aquele templo nos ares. E, anos depois, ela ainda estava ali, procurando algum objetivo no que havia feito.

Zed aparecera. E ele havia a salvado. Mas por que tentou a matar, dias atrás? O que tinha acontecido com ele? Por que ele também não havia se lembrado?

Syndra ficou de pé e correu até o quarto ao lado, pondo-se em frente à porta. E, lá dentro, ela viu Zed encostado na parede, com os braços cruzados, a fitando com um semblante confuso.

— Você não se lembra? — Perguntou. Sua voz saiu tão rouca e baixa que ele havia, provavelmente, percebido que ela teve dificuldades para falar aquilo. A confusão de Zed se intensificou.

— Do quê?

— Da vila... — Syndra murmurou novamente, esforçando-se para adentrar no cômodo. Continuou se aproximando, aos poucos, e mesmo que sentisse o rosto corar violentamente, não tirou os olhos dos dele em momento algum. — E... O que eles fizeram com meus pais.

Zed estudou sua expressão. Pelo o que Syndra percebeu, ele não fazia a mínima ideia do que ela estava falando. Continuou a se aproximar, até parar em sua frente, e estendeu uma das mãos. Sem perceber o que estava fazendo, Syndra tocou no rosto de Zed e fechou os olhos.

Não via nada. Ao contrário do que acontecia com Ahri, Syndra não via nem um vestígio de memória. Tudo estava coberto com uma sombra, e ela percebeu apenas pedaços que apareciam e desapareciam. Abriu os olhos. O que havia acontecido com ele?

Syndra retirou a mão e recuou um passo. Por que ele não se lembrava? Por que ele não havia a reconhecido? Por que, há anos a trás, ele não a seguiu?

— Como...? — A feiticeira conseguiu murmurar, e logo deu o passo para a frente de novo. — Você...

— Eu não sei do que você está falando. — Ele disse. Syndra encarou seus olhos escarlate e, perdendo-se neles, soltou um suspiro.

— Sou eu. — Sussurrou. — Syndra. Você não se lembra?

Os olhos de Zed desceram pelo belo rosto a sua frente e logo voltaram a encarar as orbes violetas.

— Não.