Sayonaara Daarin
7 O beijo do elfo
Notas iniciais
Todos andavam atarefados de um lado para o outro. Spitz-sensei voltava naquela mesmo dia, o dia do aniversário.
As tarefas mais pesadas cabiam a Esel e Drako, as menos pesadas cabiam-me e Heim e Liese ocupavam-se das comidas e bebidas. Valde, como sempre, ficava refastelado no sofá, acompanhando os meus movimentos como uma víbora.
Logo que acabamos de arrumar tudo, Esel, Drako e eu fomos a correr para a cozinha.
– Alto aí! – gritou Liese ao ver que nos aproximava-mos de uma das milhares travessas – vocês os três, para a varanda. Já!
Saímos da cozinha, amuados. Acordamos bem cedo para deixar tudo pronto pela hora que Spitz chegasse e agora tínhamos os estômagos a roer de fome. Para nossa surpresa, um pequeno-almoço caprichado esperava por nós na varanda.
Ao meio dia, fomos buscar Spitz as docas. Como sempre, abraçava-nos todos de uma vez e ria, aquele riso que eu tanto adorava. Pouco depois de voltarmos, os convidados começaram a chegar.
Aquela seria uma festa e tanto.
…..
O céu estava escuro. Spitz havia saído com uma série de amigos, para participar na caça ao tesouro organizada por Liese, Esel estava podre de bêbado e brincava aos gladiadores com um grupo de colegas de trabalho, Drako e Heim lavavam os pratos na cozinha e Valde continuava sentado, rodeado de mulheres. Quem diria, nunca pensei que alguém se pudesse interessar por aquela criatura arrogante, no entanto, lá estavam elas aos risinhos.
– Daarin – gritou Valde deixando o seu prato cair –limpa isto.
– E por que cargas de água eu faria isso?
Tirou do seu bolso o símbolo da sua família, mas quando se preparava para dizer “porque eu to ordeno”, uma espada voou pelo ar, passando entre nós e estilhaçando o seu símbolo.
– Ops! – disse Esel – acho que bebi uns copos a mais. Desculpa aí primo.
As raparigas, sentindo-se ignoradas, começaram a fazer perguntar as Valde sobre as batalhas do Este.
– São uma seca e a gente sempre ganha. – respondeu Valde, vendo uma oportunidade – mas talvez devêssemos perguntar a Daarin como é perder uma batalha, viver como um cão no meio do lixo e escombros, ser prisioneira de guerra e virar escrava. Podemos perguntar isso ao cão de colo do meu tio Spitz.
Fitei-o por momentos irada e depois saí, dirigindo-me ao terraço enquanto ouvia os risinhos falsos daquele grupo de miúdas.
~ Na cozinha~
Drako secava os últimos pratos. Heim já havia dispensado o resto das pessoas e aproximou-se de Drako.
– Chegou a hora. – sussurrou no seu ouvido.
– Sim Milady. – respondeu ele, baixando a cabeça.
Logo que Heim saiu da cozinha, Drako olhou para as suas mãos. Tremiam muito e ele sentia vontade de fugir dali, mas sabia que isso não ia acontecer. Levantou-se e foi para o terraço. Daarin estava de pé a olhar para a lua, linda como sempre.
~Daarin~
Virei-me e vi Drako sorrindo atras de mim.
– Esel contou-me o que houve. – disse ele segurando as minhas mãos – Estás bem?
– Vá, não te preocupes que esse género de coisa não me perturba. – respondi, retribuindo o seu sorriso.
Ele largou-me, bateu as palmas e disse:
– Bom, se é assim, vou apreciar a caça ao tesouro.
– Diverte-te – disse, vendo-o fazer uma vénia e saindo a correr.
As minhas mãos ardiam um pouco. As nossas temperaturas eram tão diferentes que ele acabara por deixar o rasto do seu calor. Sentia-me cansada e fui para o meu quarto.
……
Lá estava o elfo mais uma vez. No entanto, continuava a olhar para a lua e não se virou para mim como fazia normalmente. Queria chama-lo para saber se estava tudo bem, mas lembrei-me que nunca perguntara o seu nome e pensando bem, não sabia nada sobre ele. Isso não me incomodava, mas decidi que havia de fazer toda e qualquer pergunta nesse dia.
Toquei no seu ombro e ele virou-se lentamente. Não sorria, os seus olhos emanavam uma dor insuportável e a sua respiração era estranhamente audível.
– Diz-me quem és tu. – comecei, tentado manter-me fiel a minha decisão.
– Disamis, o Sin Siriche Duh. – respondeu.
– És mesmo real?
– Tão real quanto tu, tão real quanto as caixas que carregas todos os dias, as pessoas com que convives e a comida que comes.
– Porque é que só apareces aqui? – a voz falhava-me diante da face triste de Disamis.
– Fui amaldiçoado a servir uma certa família e isto é o único que posso fazer sem o seu consentimento.
– Que família?
– Saberás isso logo, se bem que gostaria de ser eu a contar-te. – ajoelhou-se e encostou a cabeça no meu abdómen – Oh! Meu bem…
Eu queria perguntar muito mais, mas a sua figura prostrada dilacerava-me e só tentava imaginar o que poderia magoar tanto aquele ser.
– Nem imaginas o quanto te vou magoar. Perdoa-me, por favor perdoa-me. – levantou a cara – ou se não me quiseres perdoar, pelo menos promete-me que serás o mais forte possível. – segurou nos meus pulsos, pondo neles as pulseiras que eu achei que havia perdido.
Disamis chorava, lagrimas que escorriam pela sua face como fios de prata. Aquele ser era lindo, o mais lindo que alguma vez vira. Afaguei o seu cabelo, debrucei-me e abracei-o.
– Prometo. – sussurrei.
Disamis colocou suas mãos nas minhas costas e aproximou-me. Apoiou a sua cabeça no meu ombro enquanto soluçava, a sua respiração era muito quente.
–Disam…– calei-me logo que olhou para mim.
Paixão brilhava nos olhos e sua expressão decidida acicatava-me.
– Amo-te Daarin. – disse, pondo a mão entre os meus cabelos – amo-te mais do que alguma vez amei o que quer que seja durante todos este milénios.
Aproximou-se e beijou-me. O calor da sua língua preenchia a minha boca e em questão de instantes retribui o seu beijo.
– Isto não é um “adeus”. – disse abraçando-me e tudo ficou escuro.
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