Save My Soul

CGates

Chapter#3

Finalmente as chuvas haviam cessado. O clima frio ainda permanecia nos arredores de Lima, mas dessa vez os raios solares eram capazes de proporcionar um calor momentâneo. Havia poucas nuvens no céu e poucos alunos atreviam-se a ficar ao ar livre como Santana e Brittany que aproveitaram o longo intervalo para afastarem-se da multidão de alunos e apreciar um tempo só delas. Todas às vezes no refeitório, as duas eram obrigadas a limitar as ações e era terrivelmente insuportável. Às vezes, precisavam apenas de um tempo a sós.

Santana arrastou a loira até as arquibancadas que davam no campo de futebol americano. A Treinadora Sue estava treinando as cheerios no meio do campo enquanto alguns jogadores procuravam manter a forma fazendo polichinelos e flexões. Brittany conseguiu ver Sam e Finn correndo em volta do campo enquanto Puck permanecia sentado no banco observando a saia das cheerios levantar conforme os movimentos. A loira revirou os olhos e sentou-se ao lado da morena.

Por sorte, as duas eram as únicas ali. Poderiam em fim ter um pouco de sossego. Brittany esticou o seu corpo na arquibancada e colocou a cabeça sobre as coxas da morena enquanto Santana procurava uma posição confortável para ela e Brittany. Logo em seguida, a morena levou uma das mãos aos cabelos loiros, acariciando-os, e a outra sobre o abdômen da loira, sentindo a mesma colocar a mão sobre a sua. Seus olhos encontraram-se momentaneamente e trocaram um sorriso cúmplice.

“O que foi S?”. Perguntou a loira após algum tempo em silêncio observando a expressão distante da morena. Às vezes tinha dificuldade de compreender e perceber os detalhes, mas quando se tratava de Santana, tudo ficava muito mais fácil e claro, ainda mais agora que loira notara certa distração estranha por parte da morena.

Santana abaixou o rosto para encarar a loira. Outro sorriso formou-se em seus lábios e a que mão afagava os cabelos loiros foi até o rosto de Brittany, acariciando-o suavemente. “Nada B. Eu estava apenas pensando”. Respondeu a morena procurando manter a voz firme e crível.

A loira arqueou uma sobrancelha. Ela conhecia Santana o suficiente para saber que alguma coisa estava errada. “Você está pensando nos seus pais não é?”. Arriscou a loira com os olhos ainda fixos nos da morena.

Santana por mais surpresa que havia ficado procurou não demonstrar seu espanto. Era impossível esconder alguma coisa de Brittany, por isso não faria mais esforços. Um suspiro longo e trêmulo saiu de seus lábios. “Eu não sei como contar”. Confessou a morena desviando os olhos do da loira, era muito doloroso ter que admitir aquele tive de covardia na frente de Brittany que se manteve tão forte desde o princípio. O que poderia acontecer se seus pais soubessem? Iriam ficar desapontados é claro, mas até que ponto? A morena assustava-se ao pensar no que seus pais seriam capazes de fazer após a confissão. Talvez a mandariam para um colégio católico para ser reeducada, ou pior, impediriam de se encontrar com Brittany. Um nó formou-se em sua garganta ao perceber o quanto a última opção era a mais provável e seus olhos começaram a arder.

“Eu estou aqui com você S. Sempre vou estar”. Disse a loira, procurando acalmar a morena, que agora estava com os olhos marejados. Brittany levantou e se sentou ao lado de Santana, trazendo seu corpo para mais perto. “Ei! Confia em mim, nada de ruim vai acontecer”. Pediu a loira virando a face da morena de encontro à sua, limpando algumas lágrimas que insistiam em cair. “Eu prometo”.

Por mais que tentasse segurar as malditas lágrimas, sua insegurança e medo falavam mais alto. Seus braços enlaçaram o corpo da loira em um abraço apertado, enterrando seu rosto na curva do pescoço de Brittany, deixando as lágrimas molharem a pele clara. Brittany sussurrava palavras doces, enquanto afagava os cabelos escuros. A morena sentia o seu peito inchar e arder, como se todo o seu corpo estivesse sendo massacrado; músculo por músculo, órgão por órgão, célula por célula. Santana intensificou o abraço, como se só a loira tivesse o poder de afastar toda a sua dor.

Brittany estava segurando-se para não acompanhar a morena nas lágrimas, pois alguém precisava manter-se forte e racional para que pudesse contornar a situação e mais uma chorando, apenas formaria uma bola de neve. A loira afastou-se alguns centímetros do corpo da morena para poder cobrir os seus lábios.

Ficaram sentindo a textura dos lábios uma da outra por um tempo, absorvendo todo o calor e sabor. Santana então deu o primeiro passo, entreabrindo os lábios permitindo que sua língua corresse pelos lábios finos da loira e logo em seguida invadisse sua boca. Brittany não conseguiu conter um gemido ao sentir a língua da morena encostar-se à sua famintamente. Suas mãos subiram para a nuca da morena a puxando para mais perto e Santana segurou a face da loira entre as mãos e avançou mais fundo com o beijo, encostando a língua no céu da boca da loira, sentindo as unhas de Brittany cravarem em sua nuca com um gemido rouco saindo de seus lábios.

Brittany capturou o lábio inferior da morena entre os dentes e o puxou levemente. Seus lábios afastaram-se brevemente e um sorriso surgiu na face da loira. Suas mãos foram à face da morena limpando as últimas lágrimas e acariciando-a ao mesmo tempo. “Está melhor?”. Perguntou Brittany cautelosamente e ofegante.

A morena assentiu e aproximou-se de Brittany novamente, envolvendo-a em um novo abraço, só que mais suave dessa vez. “Obrigada B”. Sussurrou a morena contra o pescoço da loira. Santana fechou os olhos quando sentiu as mãos de Brittany afagarem o seu cabelo novamente. Sua respiração estabilizou-se, assim como a da loira. Era como se não existisse nada ao redor das duas; como se o mundo na qual se encontravam, fosse resumido apenas àquela arquibancada e àquele minuto.

E para quebrar àquela bolha invisível que as cercava, o sinal tocou ao fundo, alertando as meninas que o intervalo havia chegado ao fim. A morena afastou com certa dificuldade do abraço de Brittany e levantou-se, erguendo a mão para a loira. Brittany aceitou a mão da namorada e pôs-se de pé ao seu lado. Santana tomou os lábios da loira mais uma vez antes de seguir de volta para o colégio.

Caminharam para a próxima aula juntas. Santana insistiu para ir ao banheiro checar sua face antes de seguir para aula, mas Brittany lhe garantiu que estava perfeito e não parecia que o intervalo havia sido turbulento. Após começarem o namoro, Santana e Brittany mudaram o horário escolar para que suas aulas coincidissem. Fora difícil convencer o diretor, mas ter o Mr. Shu ao lado facilitou um pouco, porque de acordo com o professor, as duas precisavam manter-se unidas para agüentar todo o caminho que estava por vir.

Passaram pela porta do laboratório de biologia e seguiram até o último balcão. A sala estava relativamente vazia e o professor não estava presente. Alguns dos poucos alunos dentro da sala espiavam por cima do ombro a interação das duas meninas e por sorte a morena não havia percebido, estava ocupada retornando uma mensagem de texto de Quinn. Brittany adiantou-se e abriu o caderno sobre o balcão, atraindo a atenção da morena e torcendo para que ela não percebesse o interesse dos alunos, porque querendo ou não, Santana sempre resolvia as coisas do seu jeito.

“Q e o resto das meninas do clube do coral querem encontrar após a aula no auditório”. Disse a morena guardando o celular no bolso e virando-se para Brittany. A loira ergueu a cabeça e encarou a morena, levando uma mão na testa e fechando os olhos.

“Droga! Esqueci de trazer o notebook com os vídeos das coreografias”. Resmunga a loira retirando a mão da face e apoiando no balcão. “Rachel vai ficar uma fera”. Suspirou fundo, ajeitando uma mecha loira que caía em sua face.

Santana colocou a mão por cima da loira e a acariciou. “Não se preocupe com Berry, eu cuido disso”. Confortou a morena com a voz carregada de sarcasmo.

A loira arqueou a sobrancelha cautelosamente. “O que você pensa em fazer S?”. Pergunta Brittany temendo a resposta da morena.

A morena apenas dá de ombros e abre um sorriso perverso na face. Seu corpo virou-se para o professor que acabara de entrar na sala e pedia a atenção dos alunos, fazendo o sorriso da morena desaparecer na face e seu corpo vibrar de choque. Junto dele, uma menina com a pele clara e cabelos curtos e ruivos passava pela porta com um papel na mão. O professor pegou o papel de sua mão e o leu. “Bem vinda senhorita Blanc, escolha um lugar para sentar-se, por favor”. Disse o professor assinando o papel e entregando à novata novamente. Mas a menina continuou imóvel ao lado do professor, todos os lugares estavam ocupados com suas respectivas duplas. “Eu iria sugerir isso mais tarde para o desenvolvimento da atividade, mas como entrou mais um aluno na sala, gostaria que vocês formassem trios”. Ordena o professor de frente para os alunos. “Senhorita Blanc, você pode juntar-se com as senhoritas Pierce e Lopez no final da sala”.

Santana sentiu a sua perna fraquejar e sua boca secar. Seu rosto virou de encontro ao da loira ao seu lado, não conseguindo esconder a sua surpresa. Brittany não precisou pedir para que Santana explicasse o que estava acontecendo. A morena estava com medo do que podia acontecer no momento seguinte, afinal, a menina nova havia deixado muito claro que se interessara por Santana. “Eu não vou fazer nada S. Vou agir normal, e você também”. Ditou a loira com a voz suave e um pequeno sorriso nos lábios. Brittany acariciou a mão de Santana sobre o balcão e virou-se para cumprimentar a novata que arrastava uma cadeira e sentava-se à frente de Brittany e Santana, do outro lado do balcão.

“Oi. Sou Claire Blanc”. Disse a ruiva olhando para as duas garotas, com um pequeno sorriso estampado na face.

“Sou Brittany e essa aqui é a Santana”. Disse a loira com um sorriso acolhedor indicando a morena ao seu lado, entrelaçando as mãos por cima do balcão, não passando despercebido pela ruiva sentada.

Santana apenas fez um movimento com a cabeça cumprimentando-a. Seu rosto virou-se na direção do quadro, ignorando a ruiva e sentindo a mão de Brittany apertar a sua. Talvez precisasse ser mais discreta. A morena pigarreou a afastou uma mecha castanha de sua face, encarando o professor à sua frente.

“O que está achando de Lima?”. Perguntou a loira ainda encarando a ruiva.

“Melhor do que a última cidade que morei”. Respondeu a ruiva dando de ombros virando o olhar para a morena e logo em seguida para a loira. Brittany sentiu o sangue correr mais rápido em suas veias e precisou controlar o seu ciúme. “O único ponto negativo de Lima é ser cidade pequena”. Completa Claire.

“Você acaba se acostumando”. Diz Santana sem afastar os olhos do professor que anotava tópicos no quadro-negro, pronunciando-se pela primeira vez, indicando que o assunto estava encerrado, caso contrário perderia sua mão no aperto de Brittany.

A morena agradeceu mentalmente que Claire e Brittany entenderam o recado e finalizaram a conversa. Brittany soltou a mão da morena para poder copiar o que o professor anotava no quadro e Santana a imitou, odiando sentir os olhares de Claire conforme levantava o rosto para ler as palavras do quadro. Por sorte, Brittany estava distraída o suficiente copiando a explicação do professor. A morena percebeu que Claire não havia anotado uma palavra do que estava escrito no quarto. A ruiva estava com usando fones de ouvido e desenhando em seu caderno. Talvez esse seja o motivo de ter sido expulsa, pensou a morena.

• • •

Para a sorte da morena, o clima entre as três garotas havia estabilizado. Nenhuma outra palavra fora dita e quando o sinal soou finalizando a aula, Claire despediu das duas com um aceno enquanto juntavam os materiais na bolsa para acompanhar as próximas aulas.

O último sinal do dia soou finalmente, despertando Santana de seu devaneio. Estava apoiando o seu rosto com a palma da mão e quase cochilou durante a aula de inglês. Se Brittany estivesse ao seu lado, tinha certeza que isso não aconteceria. Essa era uma das poucas aulas que tinham separadas. Santana pegou sua bolsa e a levou ao ombro, caminhando para fora da sala, com os outros alunos. Ficou de encontrar com Brittany no auditório junto com as outras meninas do coral.

Santana resolveu deixar alguns livros em seu armário com o objetivo de dirminuir o peso de sua bolsa. Santana terminou de colocar os livros dentro do armário e fechou-o, deparando-se com uma menina ruiva ao seu lado, arrumando alguma coisa no armário aberto. A morena sentiu o estômago revirar quando Claire virou em sua direção com um sorriso amistoso. “Você se assusta muito fácil”. Disse a ruiva voltando a atenção para dentro do armário.

Santana levou à mão ao cabelo ajeitando-o, procurando forças e paciência. “É melhor você parar com isso Blanc. Não vai levar em nada”. Disse Santana optando por esclarecer e encerrar os joguinhos que a ruiva queria impor. Qualquer um que não fosse ‘experiente’ o bastante, jamais perceberia os motivos de Claire como Santana notou. “Eu estou com Brittany”.

A morena observou a ruiva rir e fechar o armário, virando-se para a morena com o sorriso ainda nos lábios. Seus olhos verdes encaravam fielmente os escuros. “Eu agora não posso mais guardar os meus materiais no armário?”. Perguntou a ruiva cinicamente, esgotando as últimas gotas de paciência da morena.

“Acho melhor você deixar essa estupidez de lado e me ouvir”. Respondeu a morena levemente alterada. Sua voz soava firme e ríspida, como nos velhos tempos. “Nada do que você falar ou fazer irá mudar isso. Seus joguinhos não irão funcionar comigo”.

“Desde quando olhar é crime?”. Perguntou Claire cruzando os braços sobre o tórax e franzindo o cenho. “Se eu estivesse jogando, tenho certeza que você não estaria mais comprometida”. Completou Claire com um sorriso torto, virando-se de costa para a morena e caminhando para a porta principal.

Santana engoliu em seco. A pressão exercida pelos lhos verdes da ruiva era quase palpável. Eu não posso fazer isso com B. Preciso me controlar, afirmou a morena, buscando o seu autocontrole e agarrando-se à ele. Se fosse algum tempo atrás, Claire provavelmente estaria sendo prensada no armário, com o corpo de Santana sobre o seu. A morena imediatamente balançou a cabeça afastando os pensamentos e apressou-se a sair o mais depressa dali.

Santana empurrou a porta do auditório e deparou-se com seis meninas sentadas no meio do palco. Conseguiu localizar Brittany de longe; a loira estava sentada ao lado de Tina e Mercedes, passando os olhos por uma revista. Santana só foi percebida quando subiu no palco, fazendo barulho no assoalho de madeira. Mercedes afastou um pouco de Brittany para a morena poder sentar-se ao seu lado. Brittany devolveu a revista para Tina e sentiu os lábios da morena sobre os seus brevemente enquanto a mesma ajeitava-se ao seu lado.

“Você está atrasada Lopez”. Disse Rachel atraindo a atenção da morena e das outras garotas. “Só estávamos esperando por você”. Completou levantando-se e caminhando para o centro da roda com as mãos na cintura.

“Eu estou aqui agora. Pode começar”. Retrucou a morena, segurando a mão de Brittany sobre sua coxa.

Rachel respirou fundo antes de continuar resolvendo ignorar o comentário da morena. “Bom, eu as convoquei aqui hoje para poder falar sobre o projeto do clube do coral”. Começa Rachel arrancando um bocejo de Santana. “Kurt me mandou uma mensagem de texto dizendo que os meninos estão esforçando-se após as aulas na casa do Noah. Nós até agora não temos nada”. Diz irritada e com a voz alterada. “Como vamos ganhar de braços cruzados?”

“Por que Kurt está passando informações?”. Pergunta Brittany atraindo os olhares das meninas da roda. “Você está subornando ele?”. Completa a loira com os olhos arregalados e sobrancelhas arqueadas. Não era difícil duvidar que Rachel fizesse isso para ganhar.

“Mas é claro que não!”. Responde Rachel exasperada. “Kurt disse que mesmo sendo obrigado a ficar no grupo dos meninos, ele é leal a nós”. Finaliza apontando para as meninas ao seu redor.

“E por que devemos acreditar nele?”. Pergunta Santana desconfiada. “Hummel pode muito bem estar te manipulando. Ele é tão competitivo quanto você”.

Rachel abriu a boca para responder, mas logo a fechou fazendo a morena rir da expressão confusa da pequena à sua frente. Rachel realmente não havia parado para pensar nisso e Santana pressentia que estava certa. Sabia que Kurt era ambicioso e egocêntrico, não seria tão fácil confiar em suas palavras.

“Independente do que o Kurt esteja falando, nós precisamos ensaiar. Querendo ou não temos que apresentar, e suponho que todas aqui querem ganhar dos meninos”. Responde Quinn por Rachel, levantando e posicionando-se ao lado da mesma. Santana franze o cenho e percebe que Quinn resolve não encará-la e a morena sabia o porquê. Santana não conseguiu conter um pequeno sorriso em seus lábios e suas mãos pressionaram a de Brittany sentindo a loira apertar de voltar, percebendo que Brittany viu a mesma coisa.

Rachel virou-se para Quinn e sustentou o olhar por alguns segundos. Se Brittany não tivesse passado pela mesma situação, jamais compreenderia o brilho ofuscante nas íris castanhas, que transbordavam surpresa. A loira sabia do sentimento de Quinn por Rachel e cada dia que se passava, tinha certeza que Quinn era correspondida. Seria um choque ver as duas juntas, mas seria também extremamente adorável.

“Ok. Hm, eu acho que devemos nos separar certo?”. Pergunta Quinn gesticulando para todos levantarem e juntarem-se nos seus respectivos grupos. Santana e Brittany caminharam de encontro à Rachel, ficando no meio do palco, enquanto Quinn e Mercedes juntavam-se para repassar o figurino, e Tina e Lauren escolhiam a decoração.

“Então Man-han... Berry”. Diz Santana pigarreando, tentando desfazer o insulto. Era tão comum ofender as pessoas que de vez em quando era difícil desacostumar com velhos hábitos. “Qual é a coreografia que você propõe?”. Pergunta a morena levando às mãos para prender o cabelo em coque.

“Eu gostaria de ver os vídeos que Brittany trouxe primeiro, seria mais fácil buscar auxilio em uma fonte extra. A coreografia que eu fiz em casa talvez não fique muito boa nesse tipo de música”.

Brittany olha para Santana em suplica. Havia chegado a hora de ouvir Rachel explodir e amaldiçoar toda a sua família. Sabia que estava esquecendo alguma coisa ao sair de casa, se tivesse olhado em sua bolsa, talvez tivesse lembrado. “Bom Rachel, eu...”. Começa a loira com a voz falha e baixa, quase como um sussurro, sendo interrompida bruscamente pela morena ao seu lado, que acabara de rodear os braços em sua cintura.

“O notebook dela ficou comigo Berry e está em casa. Teremos que começar com a sua coreografia”. Santana procura sustentar o olhar de Rachel paralisando-a. “Ou Brittany pode mostrar simplesmente o que tem em mente”. Finaliza a morena com sua estratégia. Desconfiava que Rachel houvesse esquecido de preparar a coreografia e que faria de tudo para não apresentar-se e deixando a loira ganhar o seu espaço mostraria que Rachel estava perdendo a liderança. Santana aproveitou a oportunidade para colocar Brittany na frente dos holofotes. A loira precisava ser reconhecida pelo seu talento.

Brittany virou o corpo e seus olhos encontraram-se com os da morena ao seu lado. Sua respiração estava acelerada e provocava arrepios na namorada ao inspirar próximo à sua face e uma sensação de segurança tomou conta de seu corpo. Santana havia cuidado da situação como disse que cuidaria. Brittany sentia-se como se fosse uma pequena criança sendo cuidada por alguém que a amasse. Santana balançou a cabeça para a loira e Brittany voltou a encarar Rachel à sua frente. Rachel engoliu em seco e procurou recompor a sua postura. “Pode mostrar a sua coreografia Brittany”. Disse a pequena com a voz falha de cabisbaixa.

Santana abriu um sorriso vitorioso da face e observou a loira afastar-se para se preparar. A morena cruzou os braços e ficou ao lado de Rachel para observar Brittany começar a movimentar-se. A loira movia-se como se realmente estivesse tocando uma melodia ao fundo. Seus passos e rodopios eram precisos, assim como os seus gestos. Sua face estava relaxada, seus olhos fechados e sua boca entreaberta; era possível perceber que a loira agia com sentimento, sem mecanização ou imitação, formando uma áurea mística ao redor de seu corpo. A morena perdeu-se olhando a loira em sua frente, seus batimentos cardíacos estavam acelerados e pressentiu que Rachel podia escutá-los ao seu lado. Talvez pelo simples modo de ter a possibilidade observar Brittany em seu momento mais íntimo e prazeroso estava fazendo seus sentimentos dispararem, assim como todas as sensações físicas sentidas por um arrepio que transcorria em seu corpo.

“Nossa Brittany...”. Disse Rachel visivelmente surpresa ao lado de Santana, arrancando a morena de seu devaneio. “Você fez isso sozinha?”. Perguntou Rachel com um sorriso tímido na face.

Santana ainda estava estática e mal conseguia conter o seu corpo. Tudo o que desejava fazer era poder beijar Brittany da forma mais intensa e verdadeira para mostrá-la o que estava realmente sentindo no momento. Sentiu suas mãos começarem a tremer e a morena precisou guardá-las no bolso de sua jaqueta. Brittany ficou em frente as duas com um sorriso estampado na face. Seu cabelo estava bagunçado, seu rosto suado, sua respiração pesada e suas roupas desajustadas, expondo a pele macia e lisa de sua barriga. Santana engoliu em seco e desviou o olhar, achando mais seguro encarar a face da loira.

“Eu tive uma inspiração...”. Respondeu a loira olhando para a morena à sua frente com o rosto levemente rubro. Afastou algumas mechas de seu rosto e o sorriso em seus lábios cresceu. “Então vocês gostaram?”. Pergunta Brittany extrovertida. “Pensei que ia ficar horrível, eu não treinei muito”.

“Está perfeito B”. Responde Santana retribuindo o sorriso e piscando para a loira. “Eu acho que já temos a coreografia da apresentação. Certo Berry?” Pergunta a morena virando-se para a pequena ao seu lado, que a encarava suavemente, assustador, pensou Santana arqueando uma sobrancelha.

“Eu acho que sim”.

•••

“Eu preciso de carona S”. Diz Quinn caminhando ao lado de Brittany e Santana no estacionamento da escola. O ensaio havia sido longo, Quinn e Mercedes haviam discutido diversas vezes sobre o figurino, restando para as outras meninas a opção de opinar cada proposta. Cada vez que Quinn era rejeitada, outra discussão começava e vise-versa. “Minha irmã me trouxe hoje e como tivemos ensaio, ela não pode vir me buscar”. Completa Quinn virando-se para Santana.

“Você dá sorte que sua casa é perto da B, se não iria a pé”. Responde a morena sarcasticamente abrindo a porta do carro, esperando as duas loiras entraram. Brittany sentou-se no banco do carona e Quinn atrás, ajeitando-se para ficar entre as duas da frente.

“Até parece que você faria isso S. Eu te conheço e você me ama”. Ironiza Quinn rindo logo em seguida.

Santana estava prestes a ligar o carro quando ouviu Quinn. Um riso irônico brotou de seus lábios e virou-se para encarar Quinn. “Quer apostar o quê Fabray?”. Pergunta Santana cruzando os braços, virando-se para Brittany. A loira imita a morena e encara Quinn. “Quer apostar que eu faço você ficar logo com Berry antes das nacionais?”. Provoca a morena vendo a expressão de Quinn mudar rapidamente. O sorriso sumiu de sua face e seu lábio inferior tremeu.

“Por que vocês sempre ficam voltando nesse assunto?”. Pergunta Quinn voltando a recostar-se no banco do carro, desviando o rosto rubro para o lado. “Eu simplesmente não entendo o que vocês irão ganhar com isso”.

Santana vira-se balançando a cabeça rindo vitoriosa, ligando o carro e dando partida. Brittany continua encarando Quinn no banco de trás. “Q, por que você não gosta de falar sobre isso?”. Pergunta a loira suavemente, tombando a cabeça tornando-se ainda mais meiga. “Não é um pesadelo. Nós somos suas amigas. Pode contar com a gente”.

“Porque...”. Começa Quinn depois de alguns minutos em silêncio limpando a garganta e virando-se para encarar Brittany que ainda estava virada em sua direção esperando pela resposta. Santana observava a situação em silêncio, capturando brevemente as cenas pelo retrovisor interno. “Porque é difícil B”.

Brittany estende a mão segurando a de Quinn e a apertando. “Não precisa ser Q”. Conforta a loira com um sorriso torto e sincero. “Deixar-se apaixonar é a coisa mais fácil do mundo, independente do sexo”. Completa Brittany virando o seu rosto para encarar a morena que a olhava enquanto o carro estava parado no sinal. A loira conseguiu ver o próprio brilho dos olhos quando se fixou às íris castanhas. “Você verá que não terá motivos para se arrepender”.

“B, nós estamos falando da mesma pessoa?”. Pergunta Quinn ríspida, respirando fundo e atraindo a atenção da loira novamente. “Eu estou falando de Rachel Berry. A garota que roubou dois dos meus namorados, que é super egocêntrica e me odeia. E ela tem todos os motivos do mundo para me odiar; eu tornei sua vida um inferno, desde o ensino fundamental”. Termina Quinn segurando um soluço na garganta e levando uma mão para acariciar a têmpora.

“Engraçado Fabray. Nós tivemos uma conversa parecida com essa alguns meses atrás. O Frankteen conseguiu te tornar retardada”. Pronuncia Santana encarando a estrada à sua frente sentindo o olhar pesado de Quinn e Brittany. “Só estou dizendo que você parecia ser mais confiante”.

“S tem razão Q”. Diz Brittany ajeitando-se no banco. “Você precisa lutar por ela”. Completa Brittany fazendo a morena perder o controle da direção e dançar com o carro na pista, jogando Brittany e Quinn de lado no carro. Brittany e Quinn gritam quando o carro canta pneu e troca de faixa. Santana freou rapidamente antes que o carro continuasse a deslizar e arriscasse mais a vida das três. Brittany segurou-se no braço da morena a atrapalhando com o volante, enquanto Quinn agarrava-se no cinto ao lado da porta traseira. Após finalmente controlar a situação, Santana guia o carro ao acostamento e respira fundo.

“Que merda foi essa?”. Grita Quinn dando um chute no banco no qual a morena estava sentada. “Quer me matar Lopez?”. Berra novamente.

Santana vira-se para Brittany que estava com a mão sobre o tórax tentando controlar a respiração. A morena sentiu o seu corpo ser esmagado por uma força invisível quando viu uma lágrima correr dos olhos da loira. Suas mãos foram para o rosto de Brittany e a trouxe para perto; uma ação totalmente automática. “Me desculpe B. Você está bem? Eu prometo prestar atenção. Me desculpe”. Pede a morena pressionando os lábios contra o da loira, depositando vários beijos e acariciando sua face com os polegares. Brittany balançou a cabeça confirmando que estava bem e afasta de Santana para verificar Quinn no banco de trás.

Brittany não pôde conter um riso quando viu Quinn com as mãos sobre o rosto corado tampando-o. “Pode abrir os olhos Q”. Fala a loira rindo novamente. “S já se afastou”.

“Você está bem Fabray?”. Pergunta Santana quando Quinn tira as mãos da face e as posiciona ao lado do corpo. “Eu tive um flashback e me distrai”. Confessa a morena estreitando os olhos, franzindo o cenho torcendo para que Quinn não recordasse da tarde que lhe dera um sermão sobre seus sentimentos por Brittany há um mês atrás.

“Eu estou bem S”. Assente Quinn passando uma mão na face e arrumando o cabelo e a roupa. “Da próxima vez eu vou andando”. Completa Quinn fazendo Brittany rir e Santana fechar a cara e voltar à posição inicial, ligando o carro novamente.

Após alguns minutos Santana estava estacionando em frente à casa dos Fabray. O assunto sobre os sentimentos de Quinn por Rachel não voltou à tona, por segurança de todos. Brittany e Santana concordaram que seria melhor elas se resolverem e que as apoiariam independente da decisão tomada. A morena agradeceu pela loira não ter insistido em saber qual foi o flashback que quase causou um acidente, porque Santana não teria a mínima idéia de como responderia. Não teria coragem de dizer que ela e Quinn tiveram uma conversa sobre a sua covardia em querer ficar com Brittany.

“Você está mesmo bem?”. Pergunta a morena mais uma vez caminhando até a porta dos Pierce junto com Brittany.

“Eu já disse S. Não aconteceu nada comigo”. Responde a loira impaciente, virando-se para a morena ao seu lado. “Mas eu estou preocupada com você. Promete que irá prestar atenção até chegar em casa e que irá me ligar quando chegar?”.

Santana aproxima-se da loira e pressiona o seu corpo no de Brittany, fazendo a loira encostar-se à porta. “Eu prometo B”. Responde a morena puxando os lábios da loira com os dentes. “Mas você tem que me prometer uma coisa também”. Provoca a morena segurando a cintura de Brittany e sugando seu lábio.

“O que?”. Pergunta a loira fracamente, com os olhos grudados nos lábios carnudos da morena. Suas mãos entravam no cabelo de Santana, puxando e acariciando-o ao mesmo tempo.

“Você tem que me prometer que só eu serei o motivo de suas distrações”. Responde a morena mordendo a bochecha de Brittany e apertando a sua cintura, sentindo a pele de Brittany queimar sob suas mãos. “Que só eu serei o motivo do seu sorriso, do brilho nos seus olhos, dos seus melhores sonhos e do seu futuro”. Diz a morena mordendo a outra bochecha da loira e seguindo com os lábios até o lóbulo da orelha da loira, sugando-o antes de continuar. “E quando você sentir-se sozinha, com medo ou sentindo como se o mundo tivesse lhe dado as costas, eu quero que você lembre-se de mim, porque eu sempre vou estar aqui por você”. A morena respira fundo, sentindo o cheiro de Brittany impregnar em todas as células de seu corpo fazendo-o vibrar. “Eu sou toda sua”. Finaliza Santana afastando o rosto para observar a face da loira. Brittany estava com os olhos fechados e os lábios entreabertos. Sua respiração estava tão pesada e acelerada quanto à da morena.

Santana sorriu antes de cessar o espaço entre as duas, cobrindo seus lábios desesperadamente. A morena pressionou-se mais contra o corpo da loira quando Brittany puxou seu cabelo, aproximando-a ainda mais. A loira movimentou o rosto, mudando o ângulo para aprofundar ainda mais o beijo. Santana gemeu um pouco alto quando Brittany sugou sua língua. A loira imediatamente afastou os lábios assustada. Seria bastante constrangedor se seus pais tivessem escutado e não estava disposta a procurar uma explicação.

“Você ainda não me prometeu B”. Alerta a morena com os olhos semicerrados e com os lábios ainda próximos, sentindo a respiração quente contra o seu rosto, o hálito doce e o gosto de Brittany em sua boca.

“Eu acho que você já sabe a resposta”. Responde Brittany encostando o seu nariz no da morena, esfregando-os. “Você sempre foi o meu motivo S”. Completa Brittany observando a morena abrir os olhos e seus lábios contraírem-se em um sorriso.

“Eu preciso ir B. Se meus pais chegarem em casa e meus irmãos estiverem sozinhos eu sofrerei com as conseqüências”. Diz a morena dolorosamente, esfregando seus lábios contra o da loira e os tomando mais uma vez.

Santana afasta-se com dificuldade da loira, sentindo como se toda a sua essência estivesse ficando para trás. Acenou do carro para Brittany, verificando como sempre, se ela havia entrado com segurança em casa. Procurou dirigir com cuidado como Brittany havia pedido, mas era difícil concentrar-se quando o único odor que sentia era o da loira e seus pensamentos lhe enviavam as imagens da loira dançando mais cedo no auditório, com todo a volúpia e beleza jamais vista. Era como se tudo se resumisse em Brittany.

Estacionou o carro na garagem e agradeceu por seus pais não estarem em casa, porque com certeza ouviria por bastante tempo. Era incrível como ser filha mais velha trazia várias obrigações desnecessárias, afinal, seus irmãos estavam sozinhos em casa por aproximadamente duas horas. Com certeza seus pais alegariam que qualquer coisa poderia ter acontecido com eles sem supervisão. Eles são tão estúpidos que nada aconteceria, resmungou a morena passando pela porta da cozinha caminhando em direção à sala para subir as escadas.

A morena parou na metade do caminho quando ouviu um choro familiar. Sua cabeça latejou e seus sentidos apontaram para uma desgraça. Talvez não tivesse sido uma boa idéia deixar seus irmãos pequenos sozinhos e a culpa logo lhe caiu aos ombros. Seus passos apressaram-se em direção ao choro que vinha do sofá branco de frente pra televisão ligada com o volume no mudo. A morena contornou o sofá com o peito ardendo e as pernas tremendo. Seus olhos estreitaram-se quando viu seu irmão encolhido, em posição fetal, com o rosto inchado e vermelho de tanto chorar.

“Oh meu Deus. O que aconteceu?”. Perguntou Santana abaixando-se e procurando alguma ferida no corpo do pequeno. A morena levou a mão à face do garoto para verificar se estava com alguma marca, mas fora interrompida quando o pequeno empurrou seu braço para longe e encolheu-se mais.

“Não me encoste sua gay!”. Grita o menino desperdiçando mais lágrimas. Santana sentiu seus músculos tencionarem-se e travarem. Seus olhos arregalaram-se e a saliva secou em sua boca. Sua cabeça latejou fortemente e sua visão ficou turva.

“O que você disse?”. Perguntou a morena gaguejando fracamente, com a voz baixa. Seus olhos ainda estavam fixos no rosto do garoto que possuía uma expressão e um olhar de nojo.

“Eu disse para não me encostar!”. Repete o menino levantando-se e afastando-se da morena, como se ela tivesse uma doença contagiosa. “Eu não quero que você me contamine com essa sujeira! Sua imunda!”.

“Retire o que disse agora!”. Irritou-se tomando consciência da situação, sentindo o seu coração acelerar-se e o sangue correr em suas veias como se estivesse cortando-as. Não merecia àqueles insultos por escolher ser verdadeira. “Não ouse falar assim comigo, moleque!”. Ameaça a morena na mesma intensidade, levantando-se e caminhando até o menino, que procura afastar-se mais.

“É exatamente isso o que você é! Uma gay imunda! Junto com àquela sua amiga, ou desgraça de namorada!”. Gritou o menino levando as mãos à cabeça e apertando-a como se procurasse extrair toda a indignação e decepção que sentia no momento por ter um ‘erro’ em sua família considerada ‘perfeita’.

“Não ouse falar assim dela!”. Ordenou a morena perdendo a paciência e empurrando o garoto contra a parede, ignorando o fato que era mais alta e forte do que o menino e que poderia muito bem machucá-lo com um empurrão. “Nunca mais fale dela desse jeito!”. Completou a morena levantando o punho em direção ao rosto do irmão que se encolheu contra a parede.

“O que está acontecendo aqui?”. Pergunta uma voz masculina na porta da sala. Santana sente o sangue gelar em suas veias e suas pernas voltam a ficar bambas. A morena virou o rosto e encontrou a figura do seu pai e sua mãe estancados na porta, horrorizados com cena: sua filha mais velha ameaçando bater no seu filho mais novo, que a propósito, estava em prantos.

“Essa gay está querendo proteger a namorada dela!”. Responde o menino aproveitando o choque da morena para afastar-se e correr até seus pais. “Ela é gay!”. Completa o menino gritando e apontando para a morena.

Notas finais
Terceiro! O/
UHEUEHEUEHUEHEU. ;*