Save My Soul
4 Let Me Take Care Of You
Save My Soul
CGates
Chapter#4
“Ela é gay!”
A voz debochada de seu irmão ecoava em sua cabeça, fazendo o ar faltar em seus pulmões e seus olhos arderem. A morena sentia como se o buraco do inferno houvesse aberto sob seus pés e estivesse caindo direto às chamas. Sua vida havia acabado. Ela tinha certeza absoluta.
“O que você está falando?!”. A voz de sua mãe ecoa no cômodo e a morena vê-se encarando um trio de vultos. Sua visão estava embaçada e só conseguia distingui-los pelo tamanho. “Do que você está falando meu filho?”. Pergunta a mulher novamente com a voz trêmula.
“A Santana é gay! Ela e a Brittany são namoradas! Eu vi elas beijando-se na escola na frente de todos!”. Responde o menino com a voz embargada voltando a chorar. A morena piscou algumas vezes, limpando a sua visão, conseguindo enxergar seu irmão pequeno agarrado a cintura de seu pai. Sua mãe encarava-a chocada e seu pai estava estático em estado de choque.
“É verdade o que ele está falando Santana?”. Pergunta sua mãe boquiaberta.
A morena não consegue responder. As palavras estão agarradas em sua garganta. Não pretendia contá-los desse jeito, talvez nunca contasse, porque saberia qual seria a reação e estava preste a presenciá-la ao vivo. Sua boca se abriu mais nenhuma palavra saiu. A morena sentiu as lágrimas queimarem a pele de seu rosto e um soluço alto sair de seus lábios.
“Oh meu Deus!”. Berra sua mãe cobrindo a boca com a mão e acompanhando-a em lágrimas. “Oh meu Deus! Eu não posso acreditar nisso!”. Repete a mulher escorando no corpo de seu marido. Seu pai possuía um olhar frio e ainda não havia se pronunciado.
A morena mantinha-se firme para não desabar. Não conseguia cessar as lágrimas e conforme sua mãe xingava e gritava, seu corpo ficava ainda mais fraco. Santana sentiu sua barriga contorcer em dor. “Eu posso explicar”. Tenta Santana dando um passo para frente falhando e precisando apoiar-se na parede quando seus pais automaticamente recuaram. “Por favor, eu posso explicar”. Repetiu a morena entregando-se mais uma vez às lágrimas.
“Afaste-se de nós! Você não é mais a nossa filha! Olha só o que você fez com a nossa família!”. Grita sua mãe com ódio na voz. “Eu não acredito que carreguei você por nove meses para ter uma decepção tão grande!”. Completa a mulher cerrando os punhos sendo impedida de caminhar até sua filha pela mão de seu marido segurando-a.
Santana encolhe-se e recusa-se a acreditar no que estava ouvindo. Sabia que seus pais não aceitariam a principio, mas não poderia imaginar que iriam tão longe. Suspeitou que sua mãe chorasse, mas não que causaria um escândalo. É bem provável que seus vizinhos estejam chamando a policia para cessar a discussão nesse exato momento.
“Saía da minha casa”. Uma voz autoritária e grossa ecoou no cômodo, cobrindo-o imediatamente em um silêncio assustador. A morena observou o homem de paletó branco estático ao lado de sua mãe. Ele não parecia seu pai. Sua expressão era fria e sua voz foi ríspida sem nenhum sentimento de raiva, indignação, tristeza, foi apenas seca. Santana cobriu a boca com a mão e arregalou os olhos. Não acreditava no que acabara de ouvir. Não acreditava que a reação de seus pais havia sido tão exagerada e sua mãe não adiantou para lhe proteger. Sentiu o seu peito inflamar, como se estivesse prestes a explodir. E talvez estivesse.
“Não faça isso. Por favor, pai”. Implora a morena sentindo as lágrimas descerem mais rápidas e quentes por sua face. “Eu não tenho pra onde ir”. Continua a morena em desespero, passando a mão pela face e dando mais um passo na direção do trio. Sua mãe estava em prantos junto com o seu irmão, que ainda rodeava a cintura de seu pai.
Santana viu sua mãe passar primeiro recusando a olhá-la, subindo direto para o seu quarto e batendo a porta. Logo em seguida seu irmão seguiu sua mãe e trancou-se no quarto. Por último seu pai finalmente movimentou-se e passou por Santana parando apenas para ordenar pela ultima vez. “Você tem cinco minutos para sair”. Repetiu o homem afastando-se e deixando uma Santana completamente em choque e desamparada.
Seu lábio tremia fortemente, assim como suas mãos e pernas. Foi difícil dar o primeiro passo para longe da parede. A morena passou a mão na bolsa sobre o sofá e buscou a chave no carro no bolso de sua jaqueta. Conseguiu errar três vezes a chave até dar partida. As lágrimas não paravam de cair e seus soluços tornavam-se cada vez mais alto. Enquanto tirava o carro da garagem sentiu o celular vibrar no bolso. Retirou-o e olhou o número no visor. A dor em seu peito aumentou quando constatou que o único lugar que tinha para ir, era para a casa da loira que lhe ligava insistentemente e havia deixado várias mensagens de texto e ligações perdidas.
Durante o percurso, a morena não estava com atenção cem por cento na estrada, mal sabia se estava fazendo o caminho certo, sua cabeça estava explodindo e não havia palavras para descrever o quão vazia estava sentindo-se no momento. Havia sido traída por seus próprios pais, se é que pode chamá-los de pais. Nunca que uma família expulsaria um membro por causa da sua opção sexual. Só quando estava caminhando pelo jardim dos Pierce que a morena percebeu que querendo ou não, aceitou a humilhação por Brittany e até o final, em nenhum momento sentiu-se arrependida, pelo contrario, sentia-se apenas mais forte e confiante em seu relacionamento.
Seu dedo vacilou ao tocar a campanhinha. Não era muito tarde para ter acordado algum dos Pierce, sabia que eles tinham o costume de dormir tarde. Não se preocupou em arrumar-se, sabia que não tinha como desinchar os olhos e a face vermelha, muito menos diminuir o ritmo das lágrimas e das constantes falta de ar.
A morena ouviu passos e a porta sendo destrancada. De repente, um homem magro e loiro, usando um roupão verde abriu a porta. Seus olhos arregalaram-se ao perceber o estado da morena em sua porta, ainda mais sendo a namorada de sua filha. “Meu Deus Santana. O que aconteceu?”. Disse o homem preocupado dando espaço para a morena entrar e ficar ao seu lado.
Logo a mãe de Brittany e Brittany apareceram na porta da cozinha para ver quem chegara e porque estava tão silencioso o cômodo. A loira exclamou quando viu o estado de sua namorada ao lado de seu pai e correu até o seu encontro a envolvendo em seus braços, em um abraço apertado. Santana soluçou alto e as lágrimas molharam o ombro da loira. “O que aconteceu?”. Pergunta Brittany afastando o rosto da morena para lhe encarar. Suas mãos passaram pelo rosto moreno afastando algumas mechas de cabelo e limpando algumas lágrimas. Seus lábios se encontraram e as duas não se importam com a presença do casal ao seu lado. “Ei S. O que aconteceu?”. Repetiu a loira quando percebeu que a morena voltara a chorar e apertava-se mais contra o seu corpo.
Santana inspirou fortemente antes de responder, sem forças e disposição para isso. “Eu fui expulsa de casa”. Responde ouvindo a exclamação do trio na sala. Brittany afastou o seu rosto novamente e agora seus olhos estavam em choque e boquiaberta.
“O que houve querida?”. Perguntou a mãe da loira colocando uma mão em seu ombro, fazendo-a virar o rosto para encará-la. As mãos de Brittany ainda estavam fixas em sua costa a mantendo firme. O pai de Brittany logo se posicionou ao lado de sua esposa e esperou pela resposta da morena.
“Meus pais descobriram que eu sou gay”. Responde Santana escondendo a face na curva do pescoço da loira. “Eles descobriram sobre Brittany e eu”. Completa a morena fracamente sentindo-se envergonhada pela falta de caráter e postura de seus pais. Era totalmente antiético e preconceituoso o que acabaram de fazer e ter que admitir em voz alta que o mesmo sangue que corria em seu corpo a enjoava e lhe trazia vergonha apenas piorava a situação. “Me Desculpe B”. Disse a morena como se precisasse desculpar-se pela ignorância de seus pais.
“Você não tem culpa S”. Restruca Brittany afagando os cabelos de Santana. A loira ainda estava em choque e seu corpo vibrava em ódio. Não acreditava que estivera ausente quando Santana mais precisou de sua ajuda. Sentia-se impotente, porque já não havia mais nada que pudesse ser feito. “Você pode ficar aqui o tempo que for necessário”. Completa Brittany olhando de relance para os seus pais que assentiram com um balançar de cabeça.
“Britt está certa querida. Você pode ficar o tempo que for necessário”. Afirma a mulher ao seu lado acariciando sua face. “Agora porque vocês duas não vão deitar para amanhã podermos conversar melhor? Você precisa descansar querida”. Brittany assente e afasta-se de Santana para segurar em suas mãos direcionando-a para o seu quarto.
A morena faz o caminho em silêncio. As lágrimas já não caíam por sua face. Pela primeira vez, sentia-se como se pertencesse a alguma coisa. Ficara extremamente surpresa pela cordialidade dos pais de Brittany em relação ao acontecido. Sabia que não iria morar com Brittany, porque não queria ser um peso para mais uma família. Caminharia com suas próprias pernas e mostraria para as pessoas que uma vez chamou de família, que não dependia deles e que não era mais àquela pequena criança indefesa, sem propósitos e sonhos. Eu cresci.
Brittany levou Santana até à cama e a fez sentar. A loira colocou a bolsa da morena sobre a cômoda e retirou seu casaco logo em seguida. A morena estava com a cabeça abaixada, encarando suas mãos em sua coxa. Brittany caminhou até seu guarda-roupa e pegou uma blusa e um short para a morena. Santana levantou os olhos quando percebeu Brittany parando novamente em sua frente. A morena sentiu as mãos da loira correrem a lateral de seu corpo e puxar sua camisa, jogando-a sobre a cadeira e vestindo a que havia pego. Logo em seguida, Brittany afastou as mãos da morena da coxa e abriu o zíper de sua calça, retirando-a por completo jogando-a junto da blusa e ajudando a morena a vestir logo em seguida um short largo.
Santana ainda estava imóvel sentada na beira da cama até que Brittany suspirou profundamente e contornou a cama deitando-se e colocando as mãos na cintura da morena e a puxando para perto. Santana deitou-se na cama de costa para a loira e Brittany colou-se ao corpo da morena, apertando-a e encostando seus lábios em sua nuca. “Olha pra mim”. Pede a loira contra a pele da morena.
A morena arfa ruidosamente e vira-se para a loira, fazendo o possível para desviar os olhos das íris azuis. Seus olhos ainda estão inchados e vermelhos, assim como sua face e lábios. Seu braço descansou na cintura de Brittany, trazendo-a para mais perto. “Me Desculpe”. Diz a morena mais uma vez fechando os olhos para conter as lágrimas.
“Olha pra mim”. Pede a loira novamente levando a mão à face de Santana e acariciando-a. “Por favor”. Implora Brittany forçando-se para manter a voz firme e as lágrimas presas. “Por favor, S”.
Contra a sua vontade Santana abre os olhos novamente, deparando-se com as íris azuis próximas demais.
“Lembra o que você me disse mais cedo?”. Pergunta a loira fazendo movimentos circulares em sua face. A morena assente e a loira continua. “Você disse que você é minha. Então me deixa cuidar de você”. Pede a loira contornando os lábios carnudos de Santana com a ponta do dedo indicador. “Eu prometo que farei a dor passar, mas você precisa confiar em mim e me ajudar”. Continua a loira descansando a mão nos cabelos escuros. “Eu estou com você nesse barco S”.
“B...”. Sussurra a morena sendo interrompida pela nova onda de lágrimas que lhe tomam. A ferida em seu peito parecia que nunca iria parar de doer e conforme inspirava, todos os músculos de seu corpo contraíam-se de dor. Santana sente os lábios de Brittany cobrir o seu, sugando-o e aproveitando a sensação da textura lisa dos lábios finos contra os lábios carnudos.
Santana afastou-se dos lábios de Brittany e escondeu o rosto na curva de seu pescoço. A loira sentiu a respiração da morena acalmar aos poucos, conforme alternava os carinhos em seus cabelos. Brittany sentiu quando a morena caiu no sono, pois o aperto em sua cintura havia diminuído e não havia mais lágrimas molhando sua pele. A loira afastou as mechas da testa da morena e beijou o local. “Eu amo você”. Murmurou Brittany aconchegando-se na cama e apoiando a sua testa na da morena, fechando os seus olhos.
•••
Havia sido uma longa noite. Brittany acordara duas vezes durante a madrugada quando ouviu o choro da morena. As duas vezes Santana havia chorado durante o sonho e a loira sussurrara palavras de consolo e carinho, fazendo a morena relaxar em seus braços novamente e voltar a aconchegar-se junto ao seu corpo.
Quando acordou, já havia passado o horário de ir para escola e o sol entrava forte pelas frestas da cortina. Santana estava deitada de costa para ti e ainda estava dormindo, aparentemente. Brittany levantou da cama da forma mais cuidadosa possível e caminhou até a janela, fechando a persiana corretamente. Logo em seguida caminhou para o banheiro e assustou-se ao olhar no espelho. Duas manchas roxas estavam fixas abaixo de sua pálpebra. Abriu a torneira e encheu as mãos de água, jogando logo em seguida em seu rosto. Como se a água fosse melhorar alguma coisa na minha vida.
A loira caminhou cuidadosamente para fora do quarto para verificar se seus pais ainda estavam em casa. Como suspeitara, eles tinham ido trabalhar e resolveram dar uma folga para as duas porque sabiam que Brittany e Santana precisam muito conversar. Um ruído estranho ecoou da sala. Brittany caminhou apressada até o cômodo à procura do barulho. A loira viu o celular de Santana sobre a prateleira de vidro ao lado da porta principal. Não se recordou de ter visto a morena colocá-lo ali. Talvez tivesse caído quando as duas se abraçaram e seus pais resolveram deixar em um lugar visível.
“Alô?”. Atendeu a loira sem olhar o identificador de chamadas.
“Sabia que você que iria atender. Por que estão matando aula?”. Pergunta Quinn do outro lado da linha visivelmente irritada. A loira olhou no relógio sobre a televisão. Droga, clube do coral. Nesse exato momento era para ela e Santana estarem reunindo-se no coral para ensaiar a coreografia mais uma vez. “Não precisa responder. Eu sei exatamente o motivo. Não sei nem porque perguntei”. Completa Quinn ríspida. Era possível ouvir as reclamações de Mercedes e Rachel no fundo.
“Q, não é nada disso. Aconteceu um imprevisto”. Responde a loira suave e baixo procurando não acordar a morena no andar de cima. Queria estar no momento que Santana fosse despertar devido à fragilidade emocional da morena.
“Estou até imaginando o imprevisto”. Responde Quinn irônica.
“É sério Q. Eu não posso falar agora”. Insiste a loira procurando manter a paciência e a voz baixa. Não estava compreendendo porque Quinn estava agindo daquele modo.
“Oh desculpe, eu estou interrompendo vocês duas!”.
“Que droga Quinn! Santana foi expulsa de casa. Os pais dela descobriram sobre o nosso relacionamento”. Responde Brittany alterando a voz e deixando a sutileza de lado. “Satisfeita?”. Pergunta Brittany ironicamente imitando Quinn. A linha ficou muda; junto com o resto dos alunos na sala. Droga! Estava na viva-voz, amaldiçoou-se. Deveria ter prestado mais atenção, mas Quinn conseguira lhe tirar a paciência, uma coisa rara de se fazer. Antes que o clima ficasse mais desconfortável, a loira finalizou a chamada, desligando o celular logo em seguida e repousando-o novamente sobre a mesa.
Brittany caminhou até a cozinha e encheu um copo de água e o levou para o quarto. Abriu a porta lentamente, certificando-se de que a morena ainda dormia. Santana encontrava-se na mesma posição, com a mesma respiração leve e baixa. A loira deixou o copo sobre o criado-mudo e voltou-se para a cama, arrastando-se para baixo das cobertas novamente, aproximando-se do corpo de Santana e enlaçando-o por trás. A morena resmungou quando a loira encostou os lábios em sua nuca.
Santana resmungou novamente quando em vez de beijos, a loira traçou uma trilha de mordidas até o lóbulo de sua orelha.
Santana sentia suas pálpebras super pesadas e uma dor de cabeça que parecia que iria arrancar sua cabeça e não sentia a mínima vontade de levantar-se no momento. “Não quero ir pra aula hoje”. Murmura a morena ainda de olhos fechados e bocejando. A loira ri contra sua pele, fazendo-a arrepiar instantaneamente.
“Era para estarmos assistindo a terceira aula agora”. Responde Brittany sugando e marcando a pele da morena em um ponto abaixo de sua orelha. Santana resmunga novamente percebendo que Brittany não iria parar enquanto não virasse e por mais desanimada que estivesse, agüentar Brittany era uma tarefa realmente difícil.
A morena vira-se na cama, ainda envolvida no abraço da loira, roçando os narizes e provocando um arrepio confortável no corpo de ambas. “Você é muito preguiçosa, sabia?”. Brinca a loira escondendo o rosto na curva do pescoço da morena. Santana inspira fortemente, capturando o odor suave e doce dos cabelos loiros. Suas mãos acariciam a costa de Brittany, trazendo-a para mais perto. A morena solta um riso abafado fazendo a loira levantar a face e encará-la.
“Você também é preguiçosa. Eu sempre acordo você nos finais de semana, esqueceu?”. Santana beija a testa da loira e logo em seguida a ponta de seu nariz. Brittany acompanha o sorriso da morena e franze o cenho.
“Você me deixa exausta”. Responde Brittany aumentando o sorriso na face e sentindo as bochechas adquirirem um tom rubro. Santana solta outro riso e beija novamente sua bochecha. Seus olhos perdem-se no mar azul dos olhos da loira por um momento. “S, nós precisamos levantar. Temos muita coisa pra fazer”. Completa a loira mudando de assunto antes que Santana quisesse dar continuidade às suas provocações.
A morena assente e sela seus lábios antes de sentar-se na cama. Brittany lhe imita e caminha até o banheiro, deixando um rastro de roupas até o chuveiro. Santana segue a loira para dentro do banheiro e encara o seu reflexo no espelho. Seus olhos ainda estavam vermelhos com grandes machas roxas sob as pálpebras, como Brittany. A morena muda o foco da sua visão, encarando a sombra do corpo nu através do vidro do box esfumaçado, sentindo o seu ventre pulsar e contenta-se em acompanhar a loira. Santana abre a torneira da pia e molha o seu rosto, procurando amenizar o calor que começara a sentir por dividir o mesmo cômodo com uma Brittany nua e não poder sentir a sua pele macia sob suas mãos.
Antes que Brittany saísse do banho, a morena saiu do banheiro para trocar de roupas. Aproveitou que a loira estava demorando, arrumou a cama e desceu para a cozinha, preparando café e arrumando a mesa do desjejum. O relógio da geladeira apontava para as dez horas da manhã, seus pais já haviam ido trabalho e seus irmãos para aula, seria uma boa hora para pegar suas coisas. A dor que até então estava adormecida, voltou a ferir ao relembrar-se da noite anterior. Ainda estava chocada com tudo que havia acontecido.
Santana não percebeu que Brittany havia entrado na cozinha e estava com os olhos fixos em sua costa. A morena estava com as mãos apoiadas no balcão de frente para a cafeteira, com a cabeça baixa e imóvel. Brittany caminhou até Santana e envolveu-lhe em um abraço surpresa, tirando-a de seu devaneio. “Fiquei esperando por você no banho”. Fala a loira próxima ao seu ouvido, observando a pele morena arrepiar sob seus lábios.
“Você disse que temos que fazer muita coisa hoje. Se eu entrasse você sabe que perderíamos toda a manhã”. Responde a morena virando-se no abraço e deparando-se com os olhos arregalados da loira e os lábios entreabertos.
“Toda a manhã?”. Repete a loira para a morena que acabara de formar um sorriso em nos lábios.
Santana tomba a cabeça e da de ombros. “Tenho que fazer um trabalho bem feito”. Diz a morena naturalmente percebendo seus sentidos começarem a falhar quando se imaginou no banheiro com Brittany. Por sorte, o alerta da cafeteira a despertou. Brittany soltou-se de Santana e pegou duas xícaras, servindo-as.
Sentaram-se na mesa, uma de frente para outra, sem saber exatamente como começar o assunto. Sabiam que precisavam falar, mas ainda estava muito recente e dolorido e Brittany não queria ver a tristeza novamente nos olhos escuros. Havia agradecido mentalmente por Santana ter acordado melhor, sem demonstrar qualquer vestígio de sofrimento, como se não tivesse acontecido nada. “Que horas você quer ir?”. Começou a loira suavemente, servindo-se de um pedaço de bolo sem encarar a morena.
Santana engoliu seco. Não teria como fugir do assunto e quanto antes falassem sobre isso melhor. “Eu estava pensando em ir agora. Será melhor que a casa estará vazia”. Responde a morena dando um gole em seu café, encarando a toalha da mesa. “Depois eu vou ver qual hotel fica mais perto da escola”.
Brittany desviou os olhos para a morena, sentindo a comida entalar em sua garganta e suas células vibrarem intensamente. “O que?”. Perguntou a loira incrédula colocando as mãos sobre a mesa e forçando a comida descer. “Você vai ficar aqui Santana”. Completa Brittany observando a morena levantar a cabeça e lhe encarar.
“B, eu não posso ser um peso para a sua família”. Diz a morena sentindo o olhar ríspido da loira espetar seu corpo. “Eu tenho um dinheiro guardado, eu consigo me sustentar por alguns meses até arranjar algum emprego”. Continua Santana engolindo seco.
“S, isso não é uma opção ou um pedido”. Afirma Brittany suavizando sua voz e a sua expressão ao notar o rosto da morena ficar rubro. “Você nunca será um peso para nós. Você precisa ficar”. Completa a loira estendo a mão e acariciando a de Santana em cima da mesa.
Santana tentou desviar os olhos, mas estava paralisada no sorriso da loira. “B, é melhor conversar com seus pais antes. De qualquer jeito eu tenho um dinheiro guardado. Ao falecer, minha avó materna me deixou um porta-jóias repleto de suas economias. Eu vou ficar bem”. Finaliza apertando a mão da loira e retribuindo com um fraco sorriso.
Brittany assentiu contra a sua vontade. Por um lado Santana tinha razão. Não podia tomar as decisões por seus pais mesmo já sabendo qual será o veredito. Sabia que eles não seriam frios a ponto de recusar o seu pedido, ainda mais após ver como a morena encontrava-se frágil e desprotegida.
O resto do desjejum ocorreu tranquilamente. Santana e Brittany conversaram sobre as Nacionais e como as meninas tinham a chance de ganhar dos meninos. Apesar da última competição ter sido acirrada, dessa vez as meninas estão muito mais empolgadas e estão esforçando-se cada vez mais. Quinn e Mercedes possuíam ótimas idéias para o figurino, por isso sempre havia discussões, porque era simplesmente impossível escolher apenas um. Lauren e Tina haviam feito um ótimo trabalho juntas; a iluminação e a decoração estavam hipnotizantes assim como a coreografia de Brittany. Faltavam agora apenas reunir-se para repassar os passos e experimentar as roupas.
Santana esperava Brittany no carro enquanto a loira voltava para pegar um casaco. A morena ligou o rádio e passou as estações à procura de uma música agradável. Desistiu quando constatou que não havia nada de seu interesse e pegou o seu cartão de memória dentro do porta-luvas, encaixando-o na entrada do aparelho de som. A primeira música que começou a tocar foi Little Wing do Skid Row fazendo-a arquear uma sobrancelha surpresa; não se recordava de ter colocado essa faixa na sua playlist. A melodia tomou conta do ambiente e Santana aproveitou e acompanhou a canção, sem perceber que Brittany fechava a porta da casa e caminhava em sua direção. A loira entrou no carro no exato momento em que Santana estava em seu verso favorito.
“She comes to me
With a thousand smiles
She gives to me free
It's alright she said
It's alright
Take anything you want from me
Anything...”
Finaliza a morena encarando a loira sentada ao seu lado. Brittany forma um sorriso na face e Santana aproxima-se da loira e recita os últimos versos da música que terminava suavemente no fundo. “Take anything you want from me. Anything…”. Recita a morena contra os lábios de Brittany. A morena não percebeu quando que o beijo havia realmente se iniciado; sabia apenas que estava avançando cada vez mais para junto de Brittany. Sua mão puxava a nuca da loira enquanto sentia Brittany apertar as mãos contra a carne de sua coxa. Santana arrependia-se de ter escolhido um short para sair, porque cada vez que Brittany pressionava as mãos em sua pele, uma nova carga carregada de calor e energia corria por seu corpo.
Da mesma forma confusa que começou, o beijo terminou. Brittany afastou-se da morena, limpando o canto da boca e piscando para Santana. A loira aproveitou para limpar o contorno dos lábios da namorada que havia borrado com o brilho labial que usava, fazendo Santana prender a respiração e agarrar-se ao seu autocontrole para não terminar o que haviam começado. A morena recompôs-se em seu banco e ligou o carro. Estava insuportavelmente quente dentro do carro, não sabia se era por causa do tempo ou por causa de Brittany. Já tirara o seu casaco e prendera o cabelo, mas mesmo assim continuava sentindo as gotas de suor escorrer em sua face. “Eu causei isso?”. Diz a loira ao seu lado passando o dedo na face da morena secando uma gota.
Santana aproveita que o carro está parado no sinal e vira-se para a loira. “Você não tem noção do que é capaz”. Responde maliciosamente. Brittany sorri misteriosamente e leva o dedo com a gota de seu suor à boca, sugando-o demoradamente. Santana prende a respiração e todas as suas células gritam e explodem por Brittany. Sua boca estava seca e entreaberta, seus olhos acompanhavam hipnóticos os movimentos dos lábios de Brittany no próprio dedo. A morena apertava o volante fortemente e conseguia sentir o sangue parar de correr na ponta de seus dedos, fazendo-os ficar doloridos. “Por favor B, vamos parar em um motel”. Implora a morena passando a língua nos lábios.
Brittany sempre ficava fascinada com as expressões de concentração da morena e adorava provocá-la, sempre rendia um ótimo sexo, mas não podiam desviar o objetivo, como dissera mais cedo, ainda tinha muita coisa para se fazer. A loira conseguia sentir a excitação da morena apenas pela forma faminta que seus olhos marcavam sua pele. “O sinal abriu S”. Ignora a loira voltando a olhar para frente e escolher a música no aparelho de som.
Santana resmungou ruidosamente e deu partida. O calor que sentia por sorte havia diminuído após a morena virar quase todas as saídas de ar para si, tendo um bom resultado. Brittany estava aparentemente distraída ao seu lado olhando as unhas e procurando uma lixa dentro da bolsa da morena. “O que é isso?”. Pergunta Brittany para a morena, abrindo a carteira da morena e lhe mostrando a foto de uma menina pequena e loira, com um sorriso largo e faltando um par de dentes na frente. Santana desviou a atenção da estrada rapidamente vendo a foto de Brittany quando pequena e sorriu.
“É a minha namorada”. Responde a morena voltando a atenção para a estrada, memorizando a expressão curiosa de Brittany. “Linda não?”.
“Como você conseguiu uma dessas e por que você anda com ela?”. Pergunta Brittany voltando a guardar a carteira da morena e pegando o estojo de maquiagens, retirando a lixa de unha.
“Ela me dá juízo e sorte”. Responde a morena estacionando o carro na frente da sua antiga casa. Se Brittany não estivesse ali seria muito mais difícil entrar novamente no local onde um dia chamou de lar. Virou seu corpo para a loira e sorriu. Brittany retribuiu e mandou-lhe um beijo soprado abrindo a porta do carro e saindo.
Santana respirou fundo antes de seguir a loira. Imediatamente segurou em suas mãos em busca de apoio. Caminharam em silêncio até a porta principal. A morena respirou fundo antes de encaixar a chave na fechadura e abri-la. Era como se estivesse prestes a entrar em um lugar totalmente desconhecido e arrepiante.
A casa estava vazia como havia suspeitado. Decidiu que entraria, faria suas malas e sairia o mais rápido possível porque era sufocante e doloroso só o fato de passar e encostar nas mesmas coisas que havia sido tocado por seus pais. Brittany manteve o contato com as mãos durante todo o percurso ao seu quarto. Santana levou a mão à maçaneta e a girou, deparando-se com o quarto escuro. As cortinas estavam fechadas e nada havia sido movido aparentemente. A morena caminhou até o guarda-roupa e abriu-o.
Brittany separou as mãos para poder ajudar a morena a arrumar suas coisas. Santana pegou duas malas de viagem embaixo da cama e Brittany abriu as gavetas do guarda-roupa. Arrumavam em silêncio cada uma das malas. Levaria somente o necessário. Brittany guardava as roupas e Santana guardava alguns acessórios
, como o seu porta-jóias. Era incrível como o desconforto tornava-se cada vez mais forte, fazendo Santana duvidar de sua força. Conforme guardava uma peça dentro da mala, sentia como se parte de sua vida estivesse sendo trancada junto com os acessórios. A morena prometeu-se que não derramaria mais uma lágrima por quem não merecia e até agora se mantinha fiel. Brittany toda hora virava em sua direção para certificar que estava tudo bem e a morena sempre confirmava com um acenar de cabeça e um pequeno sorriso.
Demoraram cerca de uma hora para colocar todos os seus pertences dentro das duas malas. Ao descer as escadas, Santana retirou a chave da casa do seu chaveiro deixando-a dentro da caixa de correio após trancar a casa. Ajudou Brittany a colocar as malas no banco de trás para depois voltar e sentar-se. “Está bem?”. Perguntou a loira ao seu lado colocando a mão em seu ombro para atrair a sua atenção.
“Estou melhor”. Responde sincera. “Quer almoçar onde?”. Pergunta a morena conferindo as horas no celular de Brittany e encarando a loira logo em seguida.
“Em qualquer lugar S. Não estou com muita fome”. Responde a loira ligando o aparelho de som novamente. “Por que não pedimos alguma coisa e ficamos em casa assistindo um filme?”. Pergunta a loira sugestiva, concentrando-se em lixar suas unhas.
Santana franze o cenho. “Eu não quero ficar 24hs trancada dentro de casa B”. Responde a morena percebendo que os papéis haviam invertido, porque ela era a que gostava de ficar em casa, enquanto Brittany insistia por sair. “Vamos ao BreadStix pelo menos”.Choraminga a morena arrancando alguns risos de Brittany ao seu lado.
•••
“Agora nós podemos nos trancafiar dentro de casa B”. Fala sarcasticamente Santana entrando pela casa dos Pierce junto com Brittany e as duas malas.
A refeição havia sido extremamente agradável e Brittany confessou que sentia falta de sair com Santana, já que eram poucas as vezes que as duas saiam juntas para se divertir por causa do desanimo morena. A última vez que saíram, havia sido quando foram ao cinema com Kurt, Blaine, Quinn e Mercedes há um mês. Desde então estavam sempre recusando convites para ficarem apenas as duas. Quinn estava sempre reclamando que a amizade estava afastando-se, mas Santana sempre a fazia perder as palavras ao falar que tudo não passava de ciúmes.
Santana subiu com as malas ao quarto da loira enquanto Brittany arrumava a sala para as duas assistirem o filme. A loira arrastou o sofá e colocou as almofadas sobre o carpete de frente para a televisão. Estava perdida em qual filme assistiriam, havia comprado tantos que não tinha certeza qual queria veriam primeiro até que a campanhinha soou alto assustando-a e fazendo-a largar as caixas de DVDs no chão.
Brittany levantou-se e caminhou até a porta para atendê-la enquanto ouvia a morena fechar a porta de seu quarto preparando-se para descer as escadas. Brittany paralisou quando abriu a porta e encarou as dez pessoas paradas em sua porta. Quinn foi a primeira a pronunciar-se, caminhando até Brittany e lhe dando um abraço. “Viemos dar uma força”. Diz Quinn afastando-se e apontando para os nove membros do clube do coral atrás si.
“Quem é B?”. Pergunta a morena preocupada terminando de descer as escadas e deparando-se com quase toda a sala do coral na porta da casa de Brittany. A loira estava parada na porta de frente para Quinn que avançou o espaço e enlaçou Santana em um abraço apertado. A morena assustou-se e manteve as mãos ao lado do corpo, retribuindo o abraço só após alguns segundos de surpresa. “O que vocês estão fazendo aqui?”. Pergunta Santana afastando-se do corpo de Quinn encarando-a e logo em seguida os outros alunos.
“Brittany me contou o que aconteceu ontem e nós viemos dar uma força”. Responde Quinn encarando a morena. Santana desviou os olhos para Brittany que possuía uma expressão espantada de culpa e estava em silêncio. Quinn logo percebeu o que havia dito e procurou reformular a sua frase, não queria causar problemas para Brittany conhecendo o temperamento da morena. “Que dizer, eu arranquei de Brittany depois de muito tempo insistindo para saber por que vocês faltaram”.
Brittany deu espaço para os outros alunos entraram e acomodarem-se na sala enquanto sentia um peso enorme em seus ombros por ter contato para Quinn. A loira aproximou-se da morena e segurou em sua mão a levando para sentar no chão ao lado de Sam e Mercedes encostados no móvel da televisão. A morena ainda sentia-se irritada por todos saberem sobre os seus problemas pessoais e ainda mais irritada por Brittany ter contato. Por mais difícil que seja Santana procurou dissipar o stress; não valeria a pena ficar irritada com Brittany, porque uma hora ou outra todos iriam saber. A morena acomodou-se no chão e deu espaço para que Brittany sentasse no meio de suas pernas, apoiando a costa contra o seu tórax.
“Você já sabe o que fazer Santana?”. Pergunta Kurt sentado ao lado de Rachel no sofá.
“Ainda não decidi”. Responde a morena encarando o rapaz a sua frente. Seu corpo envolve a loira em sua frente em um abraço, descansando a cabeça em seu ombro. Brittany une suas mãos, colocando-as sobre sua coxa e encosta o rosto na bochecha da namorada.
“S vai ficar aqui”. Afirma a Brittany olhando Kurt e logo em seguida Quinn. Santana aperta a mão da loira repreendendo-a.
“Você não pode afirmar isso B. Nós nem conversamos com seus pais e eu não quero causar mais problemas”. Adianta a morena odiando ter que conversar esse tipo de assunto na frente de seus amigos do coral. De vez enquanto era difícil suportar a teimosia de Brittany. Nada havia sido decretado para poder sair afirmando. A morena percebeu que Brittany estava prestes a retrucar e antes que uma discussão surgisse, resolveu adiantar-se. “Depois conversamos sobre isso Brittany”.
Brittany sentiu a pressão das palavras de Santana atingir cada um da sala, sendo pior em si. Havia acostumado com o apelido carinhoso que quando Santana lhe chamou pelo nome seu corpo todo retesou.
Um silêncio incômodo formou-se na sala. Todos estavam olhando as duas abraçadas. Santana encarava o chão e Brittany suas mãos enlaçadas. Puck foi o primeiro a quebrar o silêncio atraindo a atenção de todos. “Isso aqui está muito melancólico. Esse final de semana vou fazer uma festa lá em casa e quero ver todos vocês lá”. Disse o rapaz acomodando-se na poltrona de veludo ao lado do sofá. “Bebidas por minha conta”. Terminou arrancando risos e aprovações dos alunos, inclusive de Brittany.
“O Mr. Shue disse que nós não podemos beber até as Nacionais, lembram-se?”. Disse Rachel quebrando a comemoração dos alunos e recebendo olhares de desaprovação. A pequena manteve a sua postura autoritária ao lado de Kurt.
“Ele não precisa saber”. Retruca Puck encarando Rachel. “É só uma festa. Que mal há beber um pouco?"
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