Notas iniciais
Eu sei que as minhas notas são no final, mas eu só queria aconselhar a ouvirem a música que a Santana irá cantar quando chegarem nessa parte : Dear God - Avenged Sevenfold.

Save My Soul

CGates

Chapter#18

Uma semana geralmente tem o costume de passar tão despercebido para as pessoas que chegava a ser assustador, afinal, todos estão tão ocupados com as suas rotinas que o tempo acabava virando uma conseqüência a ser enfrentado todos os dias. Porém, para Santana não havia sido tão fácil ou suportável quanto desejava, porque há exatamente uma semana ela havia perdido todas as suas rotinas e todas as razões para querer fazer alguma coisa. Seus atos se resumiam a beber e fumar. Dormir não entrava em sua lista, não como item desejável porque todas as vezes que fechava os olhos, seus pesadelos a atormentavam e o único modo que conseguia apagar era quando se rendia para o seu corpo, resultando em um período que sua mente finalmente a deixava em paz, sem pesadelos ou se quer sonhos. Não havia ido à escola durante esse período de tempo e perdeu o contato com o mundo exterior, desviando-se de todos os meios de comunicações possíveis. Não tinha coragem e muito menos forças para sair de casa, mesmo que essa isolação estivesse a matando, porque o seu apartamento a lembrava do erro de sua vida, ela não estava se importando com o futuro. Nada mais importava, porque ela a perdeu.

A morena ergueu o seu corpo do chão brevemente para poder pegar o maço de cigarros que estavam em cima do sofá sentindo a fraqueza ecoar em seus ossos. Era curioso o fato de o seu vício ter voltado tão rápido. Acreditou até que ele estava apenas substituindo o anterior. Um sorriso fraco formou-se em seus lábios quando sentiu a fumaça descer até a metade de sua garganta, fazendo cócegas e massageando seus músculos, para depois sair por suas narinas. Seu corpo ficava tão relaxado quando repetia aquele processo que por míseros segundos esquecia-se do quão sem rumo estava. Sabia que suas notas na escola estavam caindo e que provavelmente teria que repetir o ano, porém não sabia se estaria inteira para fazer isso. O pensamento de acabar com tudo isso passou por sua cabeça várias vezes e ainda a iludia, porém todas as vezes que caminhava até o banheiro seu corpo a traí e acabava escorando na parede do seu quarto aos choros.

Não era forte o suficiente para levar sua vida porque já haviam retirado-a e de certo modo se continuasse nessa rotina não duraria por muito tempo. Mal recordava o que era se alimentar direito, porque quando sentia fome, o que estava sendo raro ultimamente, procurava alguma coisa em seu armário e se contentava com qualquer porcaria que tivesse.

Santana voltou a encostar as suas costas no chão e olhou para a porta principal. Alguns dias atrás Quinn havia tentado entrar com a chave extra que possuía, mas a morena havia trancado por dentro e a única coisa que a amiga conseguiu foi a atenção dos vizinhos pelos gritos que ela havia soltado ordenando que Santana abrisse a porta. Quinn disse que todos estavam preocupados, porém Santana não se importava com o que seus amigos estivessem pensando ou sentindo e mesmo sem suas ordens, sempre surgia a dúvida e a curiosidade em saber como Brittany estava se sentindo. Não havia tido noticias dela desde a última visita que teve à casa da loira e Quinn não havia soltado nada. Estava envergonhada o suficiente para perguntar alguma coisa e tinha certeza que nenhum dos amigos do coral iriam falar alguma. "Pelo bem das duas", esse era o lema.

Seus olhos estavam pesados assim como o seu corpo. Não conseguia soltar um suspiro sem sentir seu corpo repuxar em dor. Já havia gastado todas as suas lágrimas e talvez fosse por isso que estivesse sentindo seus músculos queimarem mais, porque a sua tristeza e angústia haviam desistido de sair de seu corpo.

A morena tragou pela última vez e apagou o cigarro no chão ao seu lado. A nicotina havia se tornado uma boa amiga, não tão fiel quanto o whisky, mas era a que mais a preenchia. Ao lembrar-se da bebida, a falta de sentir o líquido âmbar descendo por sua garganta queimando e destruindo todo o caminho que percorria vibrou o seu corpo e automaticamente ergueu o corpo do chão para procurar a garrafa mais próxima.

Não estava muito longe, mas a simples idéia de ter que caminhar para pegá-la a desanimou e Santana preferiu ascender outro cigarro. A morena estava colocando o cigarro na boca e estava prestes a acendê-lo com o isqueiro nas mãos quando escutou uma batida forte na porta. A princípio se assustou, só então parou para analisar que provavelmente era Quinn de novo perdendo a paciência por querer entrar. A morena revirou os olhos e terminou de acender o cigarro resolvendo ignorar as batidas na porta que ficavam cada vez mais altas e que estava começando a lhe incomodar.

Um estrondo ecoou no cômodo quando a porta se abriu. Santana sentiu seu coração expandir três vezes de tamanho com o susto e virou o seu corpo na direção do barulho, com a língua queimando para xingar Quinn de todos os nomes que conhecia. E foi uma surpresa e tanto quando ela estava esperando que fosse encontrar uma garota loira de cabelos curtos e pele clara parada na porta com a postura assassina e em vez disso quem se encontrava era um homem alto de pele morena e cabelos curtos pretos. Seu estômago revirou e o cigarro ficou esquecido em sua boca. Estava esperando encontrar qualquer pessoa, mas nunca imaginou que seu pai estaria ali.

"Tire esse cigarro da boca agora". Ele ordenou entrando no apartamento e encostando a porta, já que ele havia quebrado a maçaneta e seria impossível trancá-la, mas tentava apenas ter um pouco de privacidade. A morena ainda estava atordoada com tudo o que estava acontecendo e com o que aquilo estava significando para poder fazer algum movimento. "Eu mandei você tirar essa droga da boca agora". Ele exaltou e caminhou com passos apressados até Santana arrancando o cigarro de seus lábios e tacando-o no chão.

Como se estivesse servido para acordar de seu choque, Santana adquiriu a postura rígida tão famosa pela ex-cheerio e sentiu a garganta arranhar por estar se entupindo de drogas há algum tempo e por isso teve um dificuldade de impor alguma ordem ao deixar as palavras saírem de seus lábios. "Que diabos você pensa que está fazendo?".

"Eu estou agindo como seu pai. Vá fazer as malas agora que você está voltando para casa". O médico respondeu ríspido enquanto caminhava pelo local e analisava o estado que sua filha chegou. Havia garrafas de bebidas vazias por todos os lugares e vários pacotes de cigarros vazios decorando o novo lar. As janelas estavam fechadas assim como as persianas, deixando o local escuro e cheirando a cigarro. Era incrível como ela não havia se sufocado na própria fumaça. "Você não me ouviu? Vá arrumar suas malas agora, eu não tenho o dia todo".

Seu cérebro estava racionando lentamente e estava odiando isso. Ainda não estava compreendendo um terço das palavras que seu pai estava pronunciando e a idéia de ter escutado-o dizer que ela estaria que voltar para casa era totalmente absurdo. Ela não podia voltar, ela não queria voltar. Mesmo seu pai bancando o seu apartamento, ela havia conseguido, de certa forma, a sua independência. Ela estaria jogando tudo fora se arriscasse sair dali de mãos atadas. "Eu não vou a lugar algum". Reprovou Santana tentando limpar sua voz para melhorar o tom rouco de sua voz, sentindo suas cordas vocais e sua garganta arranhar com a tentativa.

"Você não tem direito de escolha aqui. Eu sou o seu pai e digo que você vai e pronto". Rebateu seu pai aproximando-se da morena e fazendo-a tremer inconscientemente com a voz e a postura enraivecida do médico.

"Desde quando você resolveu agir como se fosse meu pai?". Perguntou Santana dando alguns passos para o lado para tentar desviar-se do médico. Já havia visto seu pai estressado, geralmente por causa de sua mãe ou por causa do trabalho, mas jamais pensou que fosse vê-lo por sua causa e conhecendo o sangue que corria em suas veias, temeu que ele fosse fazer alguma coisa se ela continuasse nesse estado de negação.

"Desde o momento que eu vejo minha filha mais velha afundar sozinha sem a minha presença para impedir o seu fim". Respondeu em um brado. Ele passou as mãos pelas têmporas quando percebeu que a morena encolheu os ombros e após uns minutos em silêncio acabou sentando-se no sofá, apoiando os cotovelos nas coxas e escondendo o rosto com as palmas das mãos. "Eu não posso te deixar ficar assim. Você não sabe o que eu senti quando o diretor da sua escola me ligou perguntando o porquê você não estava indo às aulas. Por um segundo eu pensei que estavam me passando trote já que você leva os estudos a sério. Então eu liguei para os Pierce e eles me contaram o que aconteceu". O médico disse em um fôlego só e ao perceber o silêncio da filha, ele levantou a cabeça e a encarou. Santana estava com os olhos desfocados e nebulosos. Seu corpo estava com pequenos tremores e era como se ela estivesse recebendo algum tipo de tortura, porque ela estava imóvel e com a respiração falha. "Você não sabe como eu entrei em desespero quando eu imaginei o que você poderia ter feito. Preciso admitir que é uma surpresa encontrar você respirando". Ele completou com um suspiro longo. "Eu agi tão rápido que quando percebi já estava estacionando na entrada do prédio e correndo para os elevadores. Quando você não atendeu a porta eu agi por instinto e acabei arrombando e agora eu estou aqui, ordenando que você volte para casa. Deixe-me cuidar de você".

A questão era se Santana havia prestado atenção nas palavras dele depois que ele pronunciou a família de Brittany. A resposta é sim, ela ouviu atentamente cada palavra que havia saído dos lábios do médico e ainda não havia reagido por causa do choque. Choque de ver o seu pai agindo como tal e choque por ter escutado o sobrenome dela. A saudade lhe invadiu de imediato é claro, sufocando todos os seus poros e queimando todas as suas células e o que há algum tempo não estava conseguindo liberar, nesse momento as lágrimas saíram tão automáticas que não conseguiu as impedir.

Seu corpo começou a vibrar mais e havia tantos motivos para aquilo que ela não conseguia enumerá-los. Seus olhos focaram-se no homem à sua frente que se levantava do sofá e caminhava em sua direção, abrindo os braços e trazendo o seu corpo fraco e magro para perto, completando-a de calor, de carinho e de atenção que tanto precisava. Santana apertou-se contra o corpo de seu pai e deixou as lágrimas caírem. Não recordava quando havia sido a última vez que tivera a oportunidade de realizar um ato como aquele e preferiu não ocupar sua mente com fatos desnecessários, o que ela precisava agora era apenas sentir-se segura e seu pai estava fazendo isso muito bem. "Eu sinto tanta dor". Santana sussurrou apertando-se mais contra o corpo quente e forte de seu pai.

"Eu vou cuidar de você". Ele disse mais uma vez acariciando os cabelos longos e escuros da morena enquanto ela prendia os braços ao redor de seu corpo. "Nós vamos superar isso". Ele completou encostando o queixo no topo da cabeça da filha.

"Eu não quero superar. Eu não quero ficar sem ela. Eu não posso esquecê-la". Santana retrucou fracamente enquanto os soluços ecoavam mais altos pelo cômodo. Sabia que estava sendo irracional e que qualquer pessoa em seu lugar optaria por não sentir, mas não era qualquer pessoa. Definitivamente não, porque se optasse por não sentir dor, então o que sentiria? A dor era a forma de demonstrar que ainda a amava e por isso estava sofrendo. Amar Brittany foi o mais certo que já havia feito e não se arrependia por isso. O erro havia sido seu e não deixaria que um sentimento tão puro fosse embora por sua causa e precisava manter-se forte para tê-la de volta, apesar de já ter perdido a confiança em si mesmo.

"Então nós vamos recuperá-la de volta. Agora o que eu preciso é que você faça a sua mala para eu te levar para casa". Disse o médico abrindo um sorriso fraco e cansado quando Santana afastou-se de seu tórax para lhe encarar com os olhos arregalados e surpresos. Ele aproveitou e abaixou o rosto depositando um beijo na testa da morena que fechou os olhos automaticamente.

Santana não demorou arrumar sua bolsa porque não colocou todas as suas roupas e pertences. Ela havia convencido o seu pai que seria provisório e ele não discordou, o que a intrigou porque sabia que quando ele revirava os olhos daquele modo significava que ele não iria desistir de seus objetivos. Era estranho estar entrando em um carro que fosse diferente do seu e o mais estranho era o contato com o exterior. Tudo estava como antes, a diferença era que dessa vez a morena não sentia. Ela não sentia o vento bater em sua pele, os raios solares esquentarem as suas células, a buzina dos carros irritarem os seus ouvidos, os olhares incomodarem a sua atenção. Nada mais lhe atraía ou lhe motivava.

"Sua esposa não vai brigar com você por estar me colocando dentro de casa de novo?". Perguntou Santana ironicamente enquanto percorria os olhos pelos letreiros de propagandas.

"Eu não tenho esposa". Respondeu o médico e Santana virou o pescoço tão rápido em sua direção que foi possível ouvir um estalo. Sua boca ficou entreaberta e antes que pudesse perguntar alguma coisa, seu pai continuou. "Eu pedi a separação há um mês".

"Por quê?". Perguntou a morena com a voz falha. A expressão em seu rosto era uma mistura de alegria e surpresa e quando menos percebeu, estava sorrindo. Não um sorriso largo ou entusiasmado, mas um sorriso verdadeiro.

"Porque eu não a amava". Respondeu em poucas palavras e Santana percebeu que ele não queria conversar sobre o assunto, mas aquela havia sido uma surpresa e tanto, porque jamais pensou seu pai tomaria uma posição dessas. Ela precisava de mais informações.

"O que aconteceu?".

"Ela descobriu que eu comecei a manter contato com os Pierce para ter noticias sua. As nossas discussões se tornaram rotineiras e quando ela disse para eu escolher entre você ou ela, eu escolhi você. Ela se mudou no mesmo dia e a guarda dos seus irmãos ficou comigo". Ele respondeu e o silêncio voltou a preencher o ambiente.

Havia muitas coisas que precisavam ser digeridas e alisadas no momento e o cérebro da morena não estava conseguindo fazer aquilo direito. Seu corpo logo sentiu falta do seu anestésico, só que seu pai havia proibido-a de fumar, porém não havia sido obediente e colocou alguns maços no meio de suas roupas. A falta de nicotina para acalmar suas células e relaxar seus músculos estava se tornando cada vez mais incomoda e necessária. Seus lábios estavam começando a ficar ressecados e seus dedos não conseguiam parar de bater no suporte da porta.

"Está tudo bem?". Perguntou o médico virando em sua direção com uma sobrancelha arqueada.

"Só estou preocupada como a Isa irá reagir". Respondeu a primeira coisa que veio à sua mente que acabou atraindo a sua atenção para esse ponto. A morena havia se arriscado a olhar como estava o seu estado no espelho e mesmo tentando dizer a si mesmo que não estava surpresa, não conseguia esconder o choque. Seus olhos estavam muito fundos e sem brilho. Suas bochechas que outrora foram cheias, agora estavam fundas e seus lábios estavam com vários cortes pelo ressecamento iminente quando não estava com um cigarro na boca. Os ossos em seus ombros e pescoço estavam mais visíveis e odiou estar parecendo com um cadáver, mas não tinha motivo para se arrumar. Para quem ela iria se dar ao luxo de perder horas se maquiando e arrumando o cabelo se não teria ninguém para falar o quão bela estava e lhe encher de beijos e carinhos? Não havia ninguém também todas as noites para lhe abraçar pelas costas e distribuir beijos em seu pescoço até pegar no sono. Estava sozinha.

"Eu disse que você está doente". Confortou o seu pai a trazendo de volta à realidade antes que fosse massacrada por sua própria dor.

"Talvez eu realmente esteja". Suspirou Santana fechando os olhos e encostando a testa no vidro do carro. Não teve muito tempo para aproveitar o silêncio que havia formar-se, pois sentiu o carro reduzir a velocidade até parar.

Seus olhos abriram-se lentamente e sem muita vontade para encarar a casa que um dia havia morado. Por fora ainda estava como da última vez que tivera aqui e conforme se aproximava da porta principal com seu pai em sua frente, sentia um calafrio na espinha. Não sabia se estava preparada para entrar naquele lugar, eram tantas lembranças, não só ruins como também boas, que iriam afetá-la inevitavelmente.

Santana apertou a alça da mala em suas mãos e quando seu pai abriu a porta dando-lhe permissão para passar suas pernas estatizaram. Como se estivesse passando flashes na frente de seus olhos, a morena foi entorpecida pelas imagens da primeira vez que trouxera Brittany para visitar sua casa. Ambas eram pequenas e possuíam cerca de seis anos de idade. A morena recordava de como seu coração estava batendo forte conforme caminhava pelo jardim com a loira ao seu lado, porque ela finalmente iria apresentar a melhor amiga aos pais. Brittany estava envergonhada e desconfortável e Santana adorava, desde pequena, a forma que as bochechas grandes da loira ficavam rosadas e o modo compulsivo que ela mordia o lábio inferior quando estava nervosa com alguma coisa. Para tentar dissipar o nervosismo da amiga, a morena pegou a mão dela entre as suas e abriu um sorriso fraco. Ela não teve certeza do que havia sentido e por isso deixou passar despercebido, mas agora ela entendia o motivo de ter sentido o estômago revirar e as pernas bambearem com aquele simples toque. Não é preciso dizer que a loira relaxou no exato momento e que abriu um pequeno sorriso na face contrastando perfeitamente com a aparência angelical que a pequena possuía.

Santana voltou à realidade quando sentiu um aperto forte em sua cintura e por isso se assustou, recuando um passo, quando abaixou a cabeça para visualizar o que, ou melhor, quem, estava te apertando. Seu corpo relaxou imediatamente e seu coração voltava ao normal, assim como a sua respiração.

Isabella estava com os pequenos braços enlaçados em sua cintura e com o rosto levantado em sua direção. O sorriso que se encontrava nos lábios dela era tão doce e verdadeiro que a morena não conseguiu não retribuir. Estava sentindo falta de carinho e não resistiu quando sua irmã decidiu resolver essa carência. A morena abaixou o corpo e ficou de joelhos no chão para ficar da mesma altura que a pequena e quando Isabella rodeou o seu pescoço com os braços, Santana sentiu seu corpo expandir e um suspiro cansado saiu de seus lábios.

"Eu estava com tantas saudades Tana". Confessou Isabella afastando-se do corpo da irmã para encará-la nos olhos.

"Agora eu estou aqui". Disse Santana passando a mão pelos cabelos longos e macios da irmã que estavam sobre os ombros, percebendo que eles estavam maiores do que a última vez que a havia visto. Por mais tenha feito forças para não relembrar da última vez que viu a pequena, foi inevitável e acabou recordando-se da festa que foi com a família de Brittany e que havia feito sua promessa que faria de tudo pela felicidade da loira. Pelo visto eu falhei.

"Papai me disse que você está doente Tana. É gripe?". Perguntou Isabella passando a mão pelo rosto fino de Santana chamando sua atenção e acariciando a pele morena.

"Não se preocupe com isso Isa". Respondeu Santana sentindo-se mau por não poder falar a verdade para a irmã, optando por desviar do assunto.

"Você vai melhorar?". Perguntou Isabella mais uma vez colocando as mãos pequenas em cada bochecha da irmã, apertando e capturando atenção exclusiva da morena.

"Eu não sei".

• • •

O resto da tarde não passou rápido como esperava e de certa forma não ficou surpresa. Sabia que deveria existir alguma conspiração contra ela que estava fazendo o tempo correr devagar apenas para o seu corpo sentir mais dor e sentir mais o peso da culpa em seus ombros. Sentiu falta do cigarro e da bebida para ocupar o seu tempo quando ficou sozinha depois de ter passado mais da metade do seu tempo ao lado de Isabella.

A pequena estava fazendo o possível para ficar o mais perto de Santana possível. Ela a ajudou a retirar as roupas da mala e guardar no guarda-roupa. Ajudou também quando Santana disse que iria preparar o jantar, porque a caçula havia reclamado que a comida do pai era um pouco difícil de ser digerida.

Ainda não havia se acostumado com a ausência de sua mãe, porém não era tão desconfortável. Pelo menos uma coisa boa havia acontecido durante esse período de tempo e finalmente ela estava sentindo-se como se pertencesse a esse lugar novamente. Sabia que demoraria certo tempo para que seus irmãos e até mesmo seu pai se acostumasse com esse novo ritmo porque era sua mãe que costumava ditar as ordens dentro de casa e agora que ela havia ido embora, eles estavam perdidos e sozinhos. Familiar, não?

Descobriu durante o jantar que seu pai havia contratado uma empregada para cuidar da casa e das crianças durante o dia e sentiu-se aliviada. Não gostava da idéia de Isabella ficar sozinha com Tommy, que por sinal, não havia soltado uma palavra durante o jantar. O irmão havia crescido bastante e estava chegando quase em seus ombros. Santana não forçou contato e o ignorou, já que o que as lembranças do que ele havia feito e falado ainda estavam presentes.

A morena não precisou pedir ao seu pai para que ele a ajudasse a dormir. Minutos depois de ter saído do banho e ter colocado a sua roupa de dormir, o médico entrou em seu quarto com um comprimido e um copo de água nas mãos. Ele deu uma rápida explicação de que não era um remédio para dormir e era apenas um relaxante. Santana não precisou pensar duas vezes para pegar o comprimido das mãos dele e colocar na boca. Precisava dormir e sentia seu corpo exausto pelo esforço que havia feito durante o dia, que mesmo tendo sido pouco e insignificante, foi o suficiente para lhe cansar.

O dia seguinte não começou como esperava, começando pelo fato de ter sido acordada sete horas da manhã por seu pai. Havia compreendido poucas palavras do que ele havia falado, porém quando percebeu que ele estava com os seus materiais em mãos e os colocava em sua bolsa, a morena se desesperou. Ele havia acordado-a para informar que ela iria à aula naquele dia. Não estava preparada para isso e quando menos percebeu já estava em pé e gritando com seu pai. Tentou o fazer entender que não estava preparada para ir à aula, sem sucesso já que a palavra final foi que ela iria.

O sangue ainda estava correndo quente por suas veias quando desceu para encontrar com seu pai e seus irmãos na cozinha. Como no dia anterior, não se preocupou em esconder a sua fraqueza e a única coisa que fez, foi colocar um óculos escuro na face com a explicação de que a claridade estava fazendo seus olhos arderem, o que em parte não era desculpa, seus olhos estavam sensíveis por ficar tanto tempo sem a presença do sol.

Ainda não havia aceitado ir para a escola e tentou pela última vez fugir do seu pai, alertando que iria com o seu carro, mas o médico a cortou dizendo que fazia questão de levá-la e apesar disso, o seu carro ainda se encontrava em seu apartamento. Não tinha escapatórias. Seus dedos tamborilavam conforme se aproximava do local e visualizava a quantidade de adolescentes e jovens caminhando para as portas duplas. Caminhou com certa dificuldade entre as pessoas e agradeceu que ninguém havia lhe reconhecido. Não parou para pegar os seus materiais em seu armário, pois correria o risco de encontrar com algum conhecido e por isso caminhou direto para fora dos corredores em direção a área externa do colégio. Não conseguiu passar pelo local que havia visto Brittany coberta de tintas, ainda não tinha forças para isso e por isso optou por dar a volta, mesmo que tivesse que andar alguns metros a mais.

A morena sentou no último lance de assentos da arquibancada e colocou a mochila ao seu lado. O campo estava relativamente vazio, exceto por alguns jogadores de futebol que corriam ao seu redor ou líderes de torcidas que ficavam se aquecendo para o ensaio. Agradeceu por não ter tido nenhum incomodo até agora e ao perceber que estava sozinha, suas mãos logo foram na direção da mochila retirando o maço de cigarros e o isqueiro.

A sensação de sentir todo o seu corpo relaxar após a primeira tragada foi sentida e um sorriso satisfeito saiu por seus lábios. Fez o possível para não acabar com o primeiro rápido, mas a ausência no dia anterior havia sido tão forte que quando percebeu já estava acendendo o segundo. Estava correndo um grande risco fumar na escola, mas problemas já faziam parte de sua rotina então não faria diferença se alguém a pegasse.

A morena prendeu o cigarro entre os lábios e trouxe a sua bolsa para mais perto, retirando duas caixas de veludo do fundo. Sabia que o que estava prestes a fazer demonstraria que não iria desistir, pelo contrário, persistiria em tudo aquilo que estava sentindo. Não conseguia retirá-la de sua vida, seria impossível. Ela era uma parte dela, ou melhor, ela era sua vida. Com as mãos levemente trêmulas, Santana abriu a primeira caixinha de veludo encarando mais uma vez a aliança. A morena abriu a segunda caixa de veludo antes que se arrepender com aquela tortura e encarou o cordão enrolado no fundo da caixinha. Havia ganhado-o quando pequena por sua avó e nunca havia usado-o, pois recordava que nunca tivera uma ocasião importante ou um motivo para usá-lo igual possuía agora. A morena abriu o fecho do cordão e pegou a aliança sentindo-a queimar a ponta de seus dedos como se fosse uma brasa de carvão e a passou pelo cordão. Santana afastou com uma mão o cabelo de seu pescoço e colocou o cordão.

Pensou que não resistiria à dor que aquilo tudo estava causando. O contato com a aliança e sua pele estava sendo insuportável, como se de fato alguém estivesse usando fogo para lhe ferir. O cigarro caiu de seus lábios quando abriu a boca tentando pegar por ar, já que suas narinas não estavam fazendo um bom trabalho, enquanto sentia o seu coração contrair conforme pulsava. Todo o seu corpo estava reagindo àquilo que ela havia acabado de fazer e não estava sendo do modo que esperava. Era como se todas as células de seu corpo estivessem entrando em combustão ao mesmo tempo. E quando pensou que fosse de fato explodir, a dor cessou. Da mesma forma silenciosa que havia chegado, ela havia ido embora.

Santana estava ofegante e suas mãos ainda tremiam quando abriu o maço de cigarros para pegar outro cigarro. Sua decisão havia sido tomada e enquanto ela abaixava o rosto para analisar o novo acessório, sentiu o calor que antes estava por todo o seu corpo estacionar embaixo da aliança. Apesar de ser desconfortável e dolorido, Santana ignorou.

O sinal alertando que o terceiro período havia acabado soou ao fundo e Santana encarou a movimentação de alunos pela área. Havia perdido as três aulas sentada na arquibancada. De um modo que ainda não sabia dizer, seus pensamentos não estavam a atormentando desde o momento que colocou o cordão, o que era um grande alívio porque não tinha certeza se conseguiria suportar a quantidade de imagens que a atormentava em qualquer que estivesse e se lembrasse de uma parte de sua vida que compartilhou com Brittany.

A morena amassou a ponta do cigarro ao seu lado e só então percebeu que havia um casal subindo as escadas na sua direção. Sentiu seus dentes trincarem e fechou as mãos automaticamente. Não acreditava que Fabray e Berry haviam a encontrado e que resolveram ignorar o pedido de distância da morena. Santana cruzou as mãos no tórax e respirou fundo, controlando para não fazer nenhuma estupidez e só então percebeu que as duas estavam de mãos dadas e que Quinn estava séria, assim como Rachel.

"Você quer perder mais uma semana de aula?". Perguntou Quinn parando na frente de Santana com Rachel ao seu lado.

"Até onde eu sei você não é minha babá". Retrucou Santana depositando a sua atenção no treino das cheerios no meio do campo. Sua voz saiu tão ríspida e indiferente que isso assustou não só o casal à sua frente, como ela própria.

"Ser sua amiga e preocupar com você não é o suficiente?". Perguntou Quinn com a voz um pouco exaltada.

"Não". Respondeu Santana secamente virando-se para a loira pela primeira vez para encará-la. Agradeceu por estar de óculos para Quinn e Rachel não verem o quão difícil estava sendo pronunciar aquelas palavras. Apesar de não querer afastar os seus amigos, ainda não estava em condições para tê-los por perto. Estava fraca e vulnerável e não queria que ninguém a visse assim. Deixar Quinn e Rachel ter conhecimento disso já era sufocante o suficiente.

"O que você quer eu faça então Lopez?". Exaltou Quinn e se a morena não a conhecesse tão bem, não perceberia que em vez da raiva que a Quinn aparentava ter, ela estava de fato magoada e perdida.

"Você quer saber o que eu realmente quero Fabray?". Perguntou Santana levantando os óculos automaticamente e encarando as íris de mel da loira. "Eu quero voltar no tempo para parar arrumar todos os erros que eu cometi. Eu quero abraçá-la mais uma vez apenas para adquirir forças para continuar vivendo, porque o objetivo de estar inteira para recuperá-la de volta não é mais suficiente. Eu não consigo parar de sentir. Eu não consigo...". A morena não conseguiu terminar sua fala, pois as palavras prenderam em sua garganta com um soluço que saiu de seus lábios. Por mais sufocada que estivesse se sentindo, as lágrimas não saíram. Sua mão levou aos lábios o último cigarro que possuía para lhe acalmar e não hesitou em acendê-lo na frente das duas.

"Nós podemos te ajudar Santana". Falou Rachel pela primeira vez fazendo uma careta de nojo ao sentir o cheiro da fumaça.

"Ninguém pode". Cortou Santana tragando demoradamente.

"Você que não quer ajuda. O que você ganha ficar sofrendo?". Perguntou Rachel mais uma vez e Santana desviou os olhos para encarar Quinn e só então percebeu que ela estava com os olhos marejados e com as bochechas levemente rosadas.

"Significa que ela está sempre comigo". Respondeu Santana voltando os olhos para Rachel. Um momento de silêncio se formou e Santana se recusava a encarar Fabray mais uma vez, já que acabaria desfazendo toda a barreira que havia formado ao seu redor.

"Cante". Pediu Rachel soltando-se da mão de Quinn e sentando-se ao lado de Santana. A morena por impulso afastou o corpo e percebeu que a pequena não se importou com o seu ato.

"O quê?". Perguntou Santana franzindo o cenho e tragando mais uma vez enquanto encarava os olhos grandes de Berry.

"Cante o que você está sentindo. Venha comigo e com a Quinn até o coral quando acabar o intervalo". Respondeu Rachel em um tom ansioso. "Todos estão sentindo a sua falta e cantar sempre ajuda quando você está passando por um momento difícil".

"Eu não posso". Cortou Santana tragando o cigarro pela última vez e jogando-o longe. As suas palavras saíram doloridas e não precisava explicar o motivo. Ainda não estava pronta para vê-la porque não tinha sabia ao certo o que faria. Seu corpo todo sofreria uma reação e estava temendo que fosse negativamente. Apesar disso, sabia que Brittany não queria a sua presença por perto e mesmo já tendo prejudicado a vida dela, estava respeitando esse desejo. Era o mínimo que podia fazer depois de tudo.

"Você é mais forte do que você pensa. E é inevitável, uma hora você irá vê-la". Disse Rachel cruzando os braços no tórax adquirindo a postura autoritária que irritava tanto Santana.

A morena desviou os olhos da pequena e encarou a loira a sua frente mais uma vez. Quinn pelo visto havia se recuperado e olhar doce e familiar que Santana tinha a oportunidade de presenciar raras vezes na amiga estava transparecendo e isso a acalmou. "Confie em nós". Pediu Quinn esticando a mão na direção de Rachel que logo a aceitou e passou os braços pela cintura da loira. Quinn passou o braço pelos ombros da pequena e depositou um beijo rápido em sua testa, voltando a sua atenção para a morena à sua frente.

"Eu só vou se vocês pararem de ser tão gays na minha frente". Disse Santana levantando-se e colocando a mochila nos ombros e o óculos novamente nos olhos. O sinal soou ao fundo alertando que o intervalo havia chegado ao fim e isso fez a ansiedade rodear o seu corpo. A morena segurou para não retribuir o sorriso que as duas abriram e adiantou-se para descer primeiro pela arquibancada.

Apesar de todos os seus instintos a alertarem que não era uma boa idéia e que seria pior se ela fizesse aquilo, ela optou por não ouvi-los, porque se sua memória estivesse certa, havia sido esses instintos que a motivaram a estragar o seu relacionamento. Eles gritavam em sua cabeça que ninguém iria sair ferido se cedesse à sua atração e acabou que no final estava pagando o preço e o pior que não era sozinha.

Sua respiração ia ficando cada vez mais pesada conforme caminhava pelo corredor e sentia alguns alunos lhe encarando. Estava acostumada a ser o centro de atenções, mas não por aquele motivo. Sabia que toda a escola já deveria estar sabendo do que havia acontecido e provavelmente estavam curiosos pelo seu sumiço e pela sua aparência.

"Eu preciso concordar com a Quinn que é uma aliança linda". Disse Rachel ao seu lado enquanto caminhava com Quinn a uma distância considerável por ainda não terem assumido o relacionamento. "Você tem um bom gosto".

Santana abaixou os olhos e percebeu que o cordão estava por cima de sua blusa e automaticamente escondeu em sua vestimenta. Não correria o risco de deixar Brittany ver, porque não é desse jeito que desejava que a loira descobrisse e só então parou para analisar as palavras de Rachel.

"Você contou pra ela Fabray? Não sabe guardar segredos?". Perguntou Santana parando de caminhar e virando-se na direção da amiga. Rachel arregalou os olhos assustada e logo se aproximou de Quinn em busca de proteção. Quinn por outro lado não se assustou, pois sabia que a amiga reagiria daquele modo às palavras da namorada.

"B não sabe se é isso que você quer saber". Retrucou Quinn fazendo a morena ficar em silêncio e colocou uma mão no ombro de Rachel e a outra no braço da amiga, fazendo as duas voltar a caminhar já que estavam atraindo mais a atenção dos alunos do que desejavam.

A porta do coral estava fechada quando finalmente chegaram e as três pararam antes de entrar. A morena retirou os óculos escuros e pelo vidro da porta, Santana a achou e seu coração acelerou inconscientemente. Ela estava linda, como sempre. Os cabelos loiros estavam presos e a franja caía pela testa. Seus olhos estavam concentrados no caderno que estava em suas coxas e por isso Santana não conseguiu saber como ela realmente estava. Aparentemente estava bem, melhor do que a morena pelo menos, pois não havia perdido muito peso e apesar de estar com maquiagem no rosto, sua aparência não estava tão cansada.

"Eu não consigo". Suspirou Santana colocando a mão no pescoço sentindo o ar entrar e sair com mais dificuldade. Seus olhos estavam ardendo e sabia que não era forte. Encarar a realidade não era fácil como pensou e falhou em acreditar em sua ansiedade.

"Nós chegamos até aqui S, você consegue. Nós estaremos logo atrás". Consolou Quinn encarando a morena.

Santana balançou a cabeça negativamente e sentia sua respiração ficar mais pesada. Um arrepio correu por sua espinha quando Rachel se atreveu a rodar a maçaneta e abrir a porta, atraindo a atenção de todos que estavam na sala.

Não soube por quanto tempo ficou sem respirar e sem sentir seu corpo até que Quinn colocou a mão em seu ombro. Sentia a palma de suas mãos suarem apesar de todo o seu corpo estar frio. Seus lábios estavam trêmulos e seus olhos estavam arregalados. Não conseguia desviar a atenção da loira sentada na primeira fileira que a encarava e a fazia sentir tantas coisas ao mesmo tempo em que não conseguia nem enumerá-las. A corrente elétrica que sentia todas as vezes que encarava as íris azuis estava presente, só que não causava uma sensação confortável como antigamente. Dessa vez ardia e perfurava seus ossos.

Todos do clube do coral estavam em silêncio analisando apenas a interação muda de Santana e Brittany. A morena ainda não sabia como estava agüentando ficar em pé suportando todas aquelas sensações, até que uma delas se destacou. Vergonha. Suas bochechas coraram no mesmo instante e estava sentindo-se suja por estar ali. Ela não era mais bem vinda, pois havia arruinado tudo e todos sabiam. Ela sentia-se envergonhada por tentar querer agir como se nada tivesse acontecido, sendo que ninguém irá esquecer. Nem mesmo ela.

"Eu preciso sair daqui". Alertou Santana dando as costas para a sala e tentando afastar-se o mais rápido dali antes que não fosse capaz de suportar toda a pressão, porém Quinn e Rachel colocaram a mão em seu ombro e ficaram em sua frente para impedir que ela saísse. O desespero correu por seus membros e ela tentou se afastar das mãos das duas até que sentiu um toque em seu ombro e quando virou o rosto viu o professor com um sorriso nos lábios.

"Bem vinda de volta Santana". Cumprimentou Mr. Shue com as duas mãos em cada ombro da morena fazendo-a caminhar para dentro da sala com Quinn e Rachel logo atrás.

A morena não respondeu e muito menos conseguiu desviar o olhar de Brittany. Era como se uma força invisível arrastasse os seus olhos de encontro às íris da loira e odiava o que estava vendo, porque mesmo afastadas, ela sempre conseguiria ler o que estava por trás da postura firme que Brittany estava tentando manter. Ela estava ferida e com raiva. Seus olhos estavam sem brilho e por isso Santana soube que ambas estavam vazias.

"Por que você não se senta Santana?". Perguntou o professor apontando para um lugar próximo do Mike na última fileira.

"Na verdade Mr. Shue, Santana irá cantar uma música". Disse Rachel sentando-se na cadeira vazia ao lado de Brittany na primeira fileira, com Quinn ao seu lado.

"Isso é ótimo. Quando estiver pronta". Disse o professor confuso afastando as mãos dos ombros da morena e caminhando até um dos lugares vagos ao lado dos alunos.

Foi a primeira vez na vida que a morena ficou em uma posição desconfortável na frente de seus amigos por não conseguir esconder o que estava sentindo. O silêncio estava a matando tanto quanto os olhares de todos nela esperando que alguma coisa fosse feita. Não sabia o que cantar e muito menos se deveria cantar. Sua voz provavelmente estaria horrível pela quantidade de cigarros que havia fumado nos últimos dias. A morena sentiu borboletas em seu estômago com a humilhação que estava se deixando passar. Ela estava provando o seu fracasso a todos a cada segundo que se passava e ela ficava em silêncio ou sem dar um simples movimento. Não possuía a dignidade de continuar encarando as íris azuis e por isso percorreu os olhos pela sala pela primeira vez. Ela esperou encontrar um olhar de nojo, decepção e até mesmo raiva nos olhos dos seus amigos e quando não identificou nenhum resquício do que esperava, motivou-se a dar os primeiros passos até os integrantes da banda. Ela retirou a bolsa do ombro e pegou o seu aparelho mp3 e selecionou a música, deixando pausado enquanto passava para o guitarrista, que passou logo em seguida para o resto dos integrantes para tomarem conhecimento de qual música seria tocada.

A morena voltou para o centro da sala e colocou a bolsa no chão ao lado de seus pés. Ela fechou os olhos e respirou fundo, tentando inalar toda a quantidade de ar possível, como combustível para mantê-la firme até o final. Não sabia se havia sido uma boa escolha e apesar da letra da música ser clara e seguir contra o que desejava, ela sentia que precisava daquilo. Não só para ela, mas para Brittany.

A melodia começou a soar e as dores já começaram a perfurar seus membros, seus ossos, suas veias. A sua decisão havia sido tomada e agora que os primeiros versos estavam quase chegando, não teria como voltar à trás. Apesar de ainda ter tempo para isso.

A lonely road, crossed another cold state line

Miles away from those I love purpose hard to find

While I recall all the words you spoke to me

Can't help but wish that I was there

Back where I'd love to be, oh yeah

Sua voz estava melhor do que esperava e ainda não havia falhado apesar das palavras estarem saindo arranhadas de sua garganta. Santana sentiu seus olhos começarem a arder mais do que desejava, porque ela estava fazendo o que jamais pensou que faria um dia. Estava deixando-a livre.

Dear God the only thing I ask of you is

To hold her when I'm not around,

When I'm much too far away

We all need that person who can be true to you

But I left her when I found her

And now I wish I'd stayed

Cause I'm lonely and I'm tired

I'm missing you again oh no

Once again

Não conseguiu segurar as lágrimas por muito tempo. O que ela havia visto nos olhos da loira quando a encarou quando encontrou no coral foi o suficiente para tomar a sua decisão. Ela não podia ficar prendendo Brittany e ela havia tentando reconquistá-la e havia falhado. Era egoísta de sua parte tentar fazer tudo sair como esperava, sendo que esse seu ato acabou trazendo a infelicidade da pessoa que mais amava no mundo. Ela sempre esperaria por ela, porque seu amor jamais desapareceria, porém Santana precisava deixar que Brittany seguisse o seu caminho e fizesse as suas próprias escolhas. Se ela sentiria falta e iria sofrer? Sim, mas era um risco que precisava ser pago.

There's nothing here for me on this barren road

There's no one here while the city sleeps

And all the shops are closed

Can't help but think of the times I've had with you

Pictures and some memories will have to help me through

As lágrimas haviam aumentado de intensidade e quando arriscou a encarar as íris azuis, percebeu que a loira a estava acompanhando por estar entendendo o recado. Todo o seu corpo agitou-se enquanto analisava o quão estúpido era o que estava fazendo, pois estava declarando o seu fracasso. Santana fechou as mãos e as apertou quando viu Brittany esconder o rosto na palma das mãos. Ela queria continuar encarando os olhos da loira pela última vez, pois sabia que aquela seria a última vez que teria a oportunidade.

Dear God the only thing I ask of you is

To hold her when I'm not around,

When I'm much too far away

We all need that person who can be true to you

I left her when I found her

And now I wish I'd stayed

Cause I'm lonely and I'm tired

I'm missing you again

Ela não sabia até quando iria suportar aquilo tudo. Era incrível como suas pernas ainda agüentavam o peso de seu corpo. A morena sentiu seus órgãos contorcerem quando ouviu um soluço vindo da loira à sua frente e automaticamente caminhou ao seu encontro. Sabia que seria uma aposta arriscada, mas não suportava ver Brittany chorando e não fazer nada. A morena abaixou na frente da loira e afastou as mãos de seu rosto, aproveitando momentaneamente o calor e a maciez daquele simples toque.

Some search, never finding a way

Before long, they waste away

I found you, something told me to stay

I gave in, to selfish ways

And how I miss someone to hold

When hope begins to fade...

A lonely road, crossed another cold state line

Miles away from those I love purpose hard to find

Queria abraçá-la e espantar toda a sua dor por ser o motivo dela. Queria sentir os lábios dela nos seus mais uma vez e queria ouvir a voz dela doce e rouca dizendo que tudo iria ficar bem. Mas nem tudo acontecesse do modo que é esperado. Brittany apesar de não ter afastado o corpo da morena do seu, ainda estava trancada em seu próprio sofrimento. Estava sendo tão dolorido ficar tão perto e compartilhar do mesmo ar que Santana pensou que fosse se afogar em suas próprias lágrimas.

Dear God the only thing I ask of you is

To hold her when I'm not around,

When I'm much too far away

We all need the person who can be true to you

I left her when I found her

And now I wish I'd stayed

Cause I'm lonely and I'm tired

I'm missing you again

Santana terminou a última estrofe em sussurro e destacou o último verso encarnado as íris azuis. Teve que conter o impulso de levar as mãos ao rosto da loira e limpar suas lágrimas, beijar o caminho que cada uma delas fizeram e afastá-la de todo o sofrimento. Seu corpo estava explodindo porque havia colocado o destino do seu futuro nas mãos de outra pessoa e estava ansiosa com a resposta. Era insuportável ficar encarando Brittany por tanto tempo e ficar sem saber o que estava por vir pela primeira vez. Ela queria acreditar que estava vendo esperança nos olhos da loira, mas ela não tinha certeza do que estava presenciando e temeu por isso.

Foi então que Brittany quebrou o contato com os olhos da morena e levantou-se da cadeira, afastando-se cuidadosamente do corpo de Santana e caminhando para fora da sala. Santana ficou imóvel. Não conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer. Ela queria gritar, chorar, perder-se. Ela queria sufocar-se com a sua dor e decepção porque não havia mais nada para sentir. Do mesmo modo que ela havia se decidido em deixar Brittany livre para fazer as escolhas que quisesse, ela precisava arcar com as conseqüências e estava sendo tão dolorido que se arrependia amargamente. Foi imatura e sonhadora em achar que tudo ficaria bem depois de uma canção. Reconstruir os pedaços quebrados de uma vida por causa de seus erros era mais difícil do que esperava.

Santana sentou-se no chão e escondeu o rosto nas mãos. Doía, qualquer movimento ou pensamento doía e ela queria só acabar com aquilo. Ela precisava acabar com aquilo para o seu próprio bem. Ela precisava apenas deixar de sentir.

• • •

Brittany correu pelos corredores vazios do colégio com a visão embaçada e com as pernas bambas. Estava aproveitando que seu corpo ainda não havia desabado e aproveitou para afastar-se o mais rápido possível da sala do coral. A voz da Santana ainda ecoava em sua mente atormentando-a e fazendo suas lágrimas caírem mais forte conforme a sua dor a envolvia.

Ela não esperava que Santana fosse abrir mão tão fácil e tão rápido dela e isso estava confundindo-a. Era para ela estar se sentindo aliviada, mas tudo o que ela estava sentindo era indignação. Ela não queria que a morena desistisse tão fácil, Santana não podia fazer isso com ela, porque o que ela estava usando como suporte nesses dias era a esperança de que juntas superariam essa fase, porém não conseguia se aproximar da morena para propor esse avanço e sabia que Santana era orgulhosa para também tentar se aproximar. E por isso ela optou por esperar.

Não foi nada fácil não ver Santana no primeiro dia de aula, mas acabou tornando suportável assim como todas as outras coisas que fazia e não tinha a morena por perto. E por mais que tentasse seguir sua vida, ignorando as pontadas de dores em seu corpo, não conseguia viver como se nada tivesse mudado sua vida. Havia chegado um momento que cansara de mentir e fingir que estava tudo bem, quando não estava. Então ela resolveu seguir o caminho que a morena havia seguido e se afastou. Afastou de seus pais e de seus amigos. Ela não se trancou de casa como Santana, sendo que talvez tivesse sido melhor já que nada mais possuía importância. O que ela fazia era por obrigação e não por vontade.

A loira piscou lentamente para saber o porquê de ter parado de correr e não soube como havia chegado ao vestiário das cheerios. Ela havia deixado o seu corpo guiar quando sua racionalidade não estava funcionando devido à quantidade de sentimentos que estavam em seu corpo. Ela queria dar uma chance à Santana, ela sabia que não conseguiria viver sem a morena, mas não compreendia porque estava sendo tão difícil. Talvez fosse porque a ferida ainda estava muito recente e o simples pensamento de deixar Santana tocar em sua pele embrulhava o seu estômago, já que a fotografia voltava em seus pensamentos.

Um barulho a alguns metros de distância da loira a fez se concentrar novamente onde estava. Ela não queria que nenhuma cheerio a encontrasse naquele estado, porque não estava com cabeça para ouvir comentários desnecessários e maldosos. Porém não sabia para onde iria. Não poderia voltar para a sala do coral, porque não conseguiria ver o quão destruída Santana havia ficado depois da sua saída e também não podia se arriscar a ir para algum banheiro e ser pega pelo zelador. Querendo ou não, naquele momento, aquele local era o mais seguro que possuía e precisava dividi-lo com quem quer que esteja ali dentro.

Brittany esfregou a mão no rosto tentando desfazer o estrago de suas lágrimas enquanto caminhava na direção dos armários vermelhos. A loira já estava preparando algumas palavras para retribuir os comentários da cheerio quando virou no corredor de armários e encontrou uma menina com o uniforme vermelho e com os cabelos ruivos presos em um coque mal feito arrumando a maquiagem de frente para o espelho que possuía na parede.

O sangue congelou em suas veias e não estava preparada para aquilo. Ela desejava encontrar qualquer pessoa naquele momento, porque nas condições que estava era capaz de qualquer coisa ainda mais se a pessoa que ela acabasse esbarrando fosse a responsável por tudo de ruim que estava acontecendo em sua vida. Suas mãos fecharam-se automaticamente e seus sentimentos tomaram um caminho diferente, partindo para ódio, desprezo, nojo e vingança.

A ruiva que ainda não havia prestado atenção que tinha outra pessoa no vestiário abriu um sorriso largo na face quando viu o reflexo de Brittany no espelho após ter escutado um suspiro. "Olá Brittany querida. Gostou do presente de aniversário?".