Save Me

4 The kids are alright


Notas iniciais
Olá. Como vão queridos leitores? A música desse capítulo é The Kids Are Alright do The Who. Vão ter muitas músicas do The Who por aqui porque gente melhor banda só isso. Boa leitura!

“And I know if I don't, I'll go out of my mind”

Pela primeira vez depois de muitos anos me senti realmente encrencada. Raramente me senti assim na vida, no máximo uma ou duas vezes durante a infância quando quebrava algo que a minha madrasta gostava muito. Como suas xícaras de porcelana.

Mas ali era como se eu estivesse novamente com sete anos de idade, olhando para todos aqueles cacos de porcelana pintados à mão e esperando que a minha madrasta não estivesse mal humorada.

Percy era bastante irreconhecível bravo. A primeira coisa que constatei. Ficava bastante sério e compenetrado, e seus olhos pareciam duros como pedras, sua boca em linha reta e os braços friccionados de raiva. Nada comparado com a pose relaxada com o qual o conheci na noite anterior.

–Nós estávamos no meio de algo por aqui, cara – falou Jason disfarçando propositalmente a braguilha do jeans. Eu não estava tão descontraída quanto ele, não era exatamente “da casa” e sabia que estava fazendo um papel um tanto vergonhoso.

Lá dentro Thalia, Luke, e a namorada de Percy nos olhavam como se fossemos algum tipo de criança a ser detida. Senti-me um pedaço de lixo.

Cara – falou Percy, ressaltando cada sílaba. Sabia que ele estava fazendo de propósito porque nunca o ouvi falando gírias – Só vai com mais calma, as pessoas estão reparando e não está legal.

Jason fez uma expressão incompreensível, como se estivesse medindo suas palavras ou suas ações.

–Tudo bem. Vamos sair daqui, Annie – chamou. Queria me matar porque sabia que tinha feito besteira.

Aquilo ali não era como as baladinhas que eu ia todos os dias, não era bonito ficar se agarrando em público daquele jeito. Jason sabia disso, só estava excitado demais para aceitar. Não era assim que funcionaria com Percy, se eu quisesse por algum motivo conquista-lo. Algo que eu não queria, acredite. Não seria daquele jeito.

Estava cansada de ser inconsequente, fazia isto sempre. Os dois olhavam para mim, esperando a minha resposta. Não consegui olhar de volta para nenhum dos dois.

–Acho que eu vou sair daqui – falei, e Jason se levantou quase num pulo – Sozinha. Fica, J. Você está com o Charles não é?

Jason parecia não entender, suas sobrancelhas estavam juntas. Annabeth Chase recusando transa? Provavelmente pensava quem era eu e onde estava à verdadeira “Annie”.

Levantei, morria de vergonha de ser eu. Morria. Eu pensava nas coisas que eu falava e fazia e me sentia patética, ao contrário do que eu pensava ficar com Jason não clareou minha mente. E sim, tinha conseguido a atenção de Percy, mas não de um jeito bom.

Ele não era como os outros caras, não iria chegar e dar um soco na cara de Jason, pegar na minha bunda e falar “vamos dar o fora daqui”. Ele não era assim, nem ele nem o mundo dele. Entendi isso quando vi as pessoas me olharem como se eu fosse ridícula.

E ao contrário do que Thalia tanto tentava, sim, ela era daquele mundo. Ela se saía muito bem como a “namorada rebelde” do Luke. Eu nunca iria me sair bem como nada, tinha que me acostumar com aquilo.

Saí andando em direção à porta de vidro. Todos que olhavam na minha direção se dispersaram educadamente. Olhei para o lado e Jason já estava na mesa de mixagem, se divertindo. Para ele aquilo não tinha sido tão vergonhoso, talvez fosse só coisa da minha cabeça. Talvez eu fosse à dramática ridícula por ali. Não dava a mínima.

Não era como se eu pudesse reverter à situação! Ele já tinha me visto na minha atitude mais desesperada, ele já sabia que eu era ridícula.

Andei mais rápido, e vi Thalia num dos sofás afastados com Luke. Ainda bem a namorada de Percy não estava ali, não teria paciência ou saco para ver a futura maravilhosa Sra. Jackson.

–Estou indo embora – avisei. Thalia parou de conversar distraidamente com o namorado, parecia confusa.

–Chegamos não tem nem uma hora. Quer dizer... Não são nem uma da manhã. Está muito cedo pros seus padrões –ela riu junto com Luke. Fiquei com muita raiva.

–Meus padrões?- perguntei – Infelizmente não tem como eu seguir meus padrões por aqui, querida. Essa festa não LSD suficiente para os meus padrões.

Thalia ficou séria. Luke ao meu lado parecia confuso, até assustado. Sim, estava tendo meus ataques de raiva e era a primeira vez que ele via. Aquele mauricinho idiota teria que se acostumar se quisesse ser namorado de Thalia porque sua melhor amiga era a vadia desestabilizada.

–Ok. Relaxa. Eu te levo pra casa- respondeu ela, levantando-se. Sabia que quando eu chegava naquele tom de voz era dali para mais algumas oitavas.

–Você viu o que aconteceu lá fora?- falei no tom mais baixo que consegui. Que era um pouco mais alto que o normal – Você tinha razão, eu nunca vou me incluir nesse grupo. Vocês são perfeitinhos demais, estou em NY porque gosto da loucura.

Não sabia mais o que estava falando. A cerveja que bebi com Jason fazia efeito porque eu falava e falava sem parar, sem me dar conta das pessoas à minha volta. Que eram simplesmente insuportáveis! Meu Deus! Porque eles falavam tão baixo? Porque tinha essa música estúpida de velhos na merda do som? Quem eu queria enganar? Aquela festa não era legal, era ridícula! Aquelas pessoas eram insuportáveis!

Queria os meus amigos. Tinha entrado em crise por passar vergonha com um carinha que eu gostava e me odiava por isso. E daí, para piorar, exatamente ele estava ali. Do meu lado. Segurava seu maldito uísque, sendo maravilhosamente educado e gloriosamente lindo.

Só faltava sua educada e linda namoradinha para deixar as coisas ainda melhores.

–Percy, você pode fazer uma exceção e deixar eu e Annabeth irmos lá encima? Ela não está se sentindo muito bem – fechei as mãos para ele não perceber que eu tremia de raiva e vergonha.

–Claro – seu tom de voz era o mais acolhedor possível, maldito seja. Ele pegou no meu queixo, fazendo-o se levantar na sua direção. Meu olhar era duro e compenetrado, não queria estar ali e sim num bar qualquer fazendo idiotices. Não com aquele vestido caríssimo e sim com uns jeans da animale que me faria delirar de tão confortáveis. Suas duas sobrancelhas se arquearam quando viu minha expressão (ou melhor, a minha falta de expressão).

Ele se virou, indo até a escada. Thalia me puxou e nós duas subimos sendo seguidas por Percy. Paramos no segundo andar daquela escadaria sem fim. Perseu abriu uma porta e percebi logo que entrei que era seu quarto pelo cheiro bastante cítrico e as roupas de marca encima da cama.

Só alguém bastante acostumado deixaria sapatos Walter Steiger revirados no chão por aí. Percy passou por todo o seu quarto e abriu a porta da varanda.

Sim, o amigão tinha uma varanda e um banheiro no próprio quarto. Eu ainda não tinha entendido porque estava impressionada. Ele já tinha deixado algumas pistas de que tinha um bocado de dinheiro.

–Vocês precisam de alguma coisa? Annabeth, um copo de água? – perguntou. Respirei fundo, fechando os olhos. Porque ele não podia perder a compostura e ir à merda?

–Um copo de água seria ótimo, se não for pedir muito – respondi. Não queria aquela merda da água provavelmente filtrada quarenta vezes, só queria uma desculpa para ele sair.

Ele só assentiu e saiu. Nós duas ficamos na varanda, sentadas nessas cadeiras de madeiras lindas e lá embaixo via-se a piscina, as pessoas dançando e Jason na mesa de mixagem.

–Tudo bem? Você está melhor? –perguntou Thalia – Quem te deixou assim? Algumas das garotas? Eu sei que elas não são legais, mas não dê ouvidos àquelas mimadas. Se for Rachel te aborrecendo com aquele papo de salve qualquer bosta pode deixar comigo que...

–Foi o Percy, na verdade – respondi, porque não conseguia ouvir mais Thalia falando mal da garota que tecnicamente era igual a ela. Rebelde fora de casa? Hum, quem mais era assim?

Thalia encostou-se à cadeira. Parecia confusa.

–Percy? O que ele fez?

Parecia ilógico ele fazer algo errado. E eu entendi porque Thalia estava tão desconfiada, tão polido, tão meigo. Impossível não se irritar com ele. Pois é, mas ele estava me irritando.

–Ele foi falar comigo e Jason que estávamos pegando pesado, fala sério – revirei os olhos. Thalia cruzou os braços, minha raiva tinha passado, mas eu não sabia como lidar com a vergonha que era saber que Thalia já tinha sacado tudo.

–E...?- ela perguntou.

Respirei fundo. Olhei para trás, o quarto de Percy era todo azul. Atrás da sua cama tinha uma onda pintada que cobria toda a parede. Era lindo e em alto-relevo.

–Ficou todo mundo olhando pra mim e...

–Você ficou envergonhada na frente dele? – perguntou Thalia, arqueando uma sobrancelha. Não falei nada, e pronto. Thalia já tinha sacado a porra toda – Ei, Annabeth. Cuidado, ok? O Percy é bastante encantador e eu sei disso, mas a vida dele é perfeita. Entende? Ele não sabe o que é...

–Você tem cigarro aí? –perguntei, não queria ouvir aquela merda. Tanto faz, eu não ligava para aquela bosta de vida perfeita de todo mundo lá embaixo. Não era como se eu quisesse ter aquela vida, aliás.

Ao contrário do que as pessoas pensavam, nem sempre desistir é a última opção. Às vezes você escolhe desistir, e vira a melhor opção. Eu podia estar numa bosta de universidade e ter amiguinhos revoltados com passeatas e ser bastante normal. Mas eu escolhi ser daquele jeito, não precisava da minha melhor amiga superiorizando o outro jeito de viver, não queria saber dele. Não queria saber da forma saudável de viver a vida. Estava farta de pensarem que eu estava no caminho errado, era só o meu caminho e tinham que me deixar em paz.

Acendi o cigarro, tragando com bastante vontade e fechando os olhos. Era como um alívio. Thalia se levantou quando Percy chegou com o copo d’ água.

–Vou no Luke –ela falou, olhando para mim e depois para ele. Saiu quase que correndo. Agora ficaria agindo como se fôssemos um casal ou algo assim. Odiava garotas.

Percy estendeu o copo, eu tirei o cigarro da boca e peguei. Ele pareceu surpreso por me ver fumando, mas rapidamente disfarçou. Sentou-se onde Thalia estava sentada e me encarou por alguns instantes enquanto eu bebia a água, depois olhou para o horizonte.

Ele estava bonito naquela noite. Usava uma jaqueta de couro preta bastante bonita com uma blusa de botões com estampas étnicas embaixo. Ele se sentava com uma das pernas sobre um joelho, claro que seria assim. O gentleman.

–Isso acaba com o pulmão – falou ele, quando me viu fumando mais um pouco. Estava sério e bravo, com uma das sobrancelhas arqueadas. Era sexy.

–Olha querido, eu sei. Eles fazem questão de me deprimir com essas matérias em jornais e televisão. O que eles não entendem é que a gente sabe, eu sei – dei um sorriso – Só não ligo.

Ele assentiu com a cabeça, dando um sorriso meio triste.

–É isso que você faz?- perguntou – É assim que é a sua vida? Se você não tenta se matar pulando de uma ponte então tenta se matar lentamente com drogas?

Revirei os olhos. Não estava com paciência para sermões. Se fosse para eu ter mais um pai não tinha saído de São Francisco.

–O jeito que você estava com o Jason – ele balançou a cabeça negativamente, rindo em seguida – Eu não sabia que você era simplesmente aquilo, pra mim você era diferente...

–É assim que eu sou querido – dei um belo sorriso irônico enquanto olhava na sua direção. Esses mimados achavam que sabiam de tudo, que eu era a idiota. Pois eu tinha a resposta na ponta da minha língua – Você não faz ideia o quão prazeroso é se matar lentamente, sentir cada célula morrer é revigorante. Me mostra que ainda bem eu não vou estar aqui para sempre. E a sua vida maravilhosa pode te cegar disso, mas você está morrendo tanto quanto eu, a cada hora, minuto e segundo. Qual a grande diferença entre eu e você? Então pare de falar que eu estou me matando como se fosse imortal porque você não é.

Falei as últimas palavras bastante devagar, daquele jeito que eu sei que acabo prendendo as pessoas. Encaramo-nos pelo que pareceram horas, consegui prestar atenção em cada detalhe dos seus olhos verdes, cada risquinho mais escuro que o outro.

–Desculpa – ele falou, por fim. E depois coçou os cabelos e os bagunçou mais do que já estava. Dei um mínimo sorriso – Eu não queria te julgar por nada. Você é só...

Ele suspirou enquanto olhava na minha direção, parecia procurar palavras. Deu um mínimo sorriso em seguida.

–Enigmática- respondeu por fim. Gostei da sua descrição. Joguei o cigarro no chão e expirei tudo em seguida. Fechei meus olhos, sentindo o que sobrava de fumaça sair do meu corpo. Era prazeroso.

Quando abri os olhos novamente Percy ainda olhava para mim, seus olhos com pontos mais escuros do que antes, seu corpo virado na minha direção.

Eu queria muito beija-lo naquele momento, mesmo depois de ter fumado. Mesmo depois de ter passado muita vergonha. Mesmo assim, eu ainda queria beija-lo. Muito mais do que queria beijar Jason. E foi isto que me quebrou, não era o fato de se sentir bem o beijando ou excitada que media alguma coisa. Era querer. Querer beija-lo, querer ser excitada por ele. E eu queria, queria muito.

Só que lá embaixo uma garota magérrima apareceu em meu campo de visão. A namorada dele. Caralho, que ódio. Ela veio na minha visão como um tapa na cara, um balde de água fria.

–Ela está te procurando – falei depois de ficarmos simplesmente ali, nos olhando. Fazíamos isso com muita frequência. Ele olhou lá embaixo, focou na namorada e eu me lembrei de que nem sabia qual era o seu nome – Aliás, qual o nome da garota?

Ele parou de encarar o andar de baixo, olhando na minha direção como se fosse a primeira vez que me via.

–Calipso- assenti. Era um nome diferente – Ela é modelo, veio dessas ilhas da América Central como um achado de um estilista qualquer.

Não sabia se queria mesmo saber daquela informação. Fazia todo sentido ela ser modelo porque era bastante magra e tinha essa beleza diferente que deixava qualquer um boquiaberto. Definitivamente eu não queria saber daquilo.

–Então você só conhece pessoas envolvidas com moda? Faz todo o sentido...

–Mais ou menos, fica difícil sair desse mundo depois que você entra nele. Ele te persegue, gruda no seu corpo. Literalmente – assenti.

–Te procura no andar de baixo – frisei e dei um mínimo sorriso – Não deixe sua namorada esperando.

Eu sussurrei, mas tinha certeza que ele tinha ouvido, por mais que sua reação demonstrasse que não. Ele me encarava como se eu fosse um objeto de arte. Balançou a cabeça em seguida, dando um sorriso educado.

–Desculpa? Namorada?- ele riu – Cal­­ipso não é minha namorada.

Foi a minha vez de ficar bastante sem reação. Juntei as sobrancelhas. Thalia não parava de me lembrar do quanto ele “tinha dona”. Não tinha se passado pela minha cabeça que talvez fosse um engano.

–Ah... Não?- foi uma reação estúpida. Mas era como se tivessem estraçalhado um tanto de convicções minhas sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Ele riu enquanto coçava a bochecha. Olhava na minha direção divertidamente.

–Você achava que era?- suas duas sobrancelhas se arquearam. Dei de ombros, me esforçando para não olhar na sua direção – Então é por isso que você está tão estranha desde que chegou?

Não deu, olhei para o seu rosto. Ele tinha esse mínimo sorriso que matava qualquer uma. Mordeu rapidamente o lábio inferior enquanto olhava na minha direção e eu tenho que dizer que fiquei arrepiada.

–Ah, e você estava naquela cena horrível com Jason por que...

Ri. Interrompendo-o. Tinha chegado longe demais.

–Porque ele beija bem? Porque eu gosto de homens que beijam bem? –ele semicerrou os olhos, ainda sorrindo.

–Você não parecia tão confortável de onde eu olhava.

–E você estava olhando por quê? – perguntei, FINALMENTE usando o meu melhor e lento tom malicioso tristemente proibido quando pensei que ele tinha namorada. O sorriso de Percy aumentou.

Tinha sigo pego. E eu amava aquele jogo. Infelizmente o meu sorriso vitorioso saiu segundos depois, quando seu rosto chegou perto demais do meu, praticamente na minha zona.

–Talvez porque eu quisesse estar no lugar dele – sussurrou, seu hálito de menta batendo em meu rosto e fazendo minha barriga revirar de borboletas no estômago – Não no meio da festa, é claro.

Aquilo não podia ser sério. Não podia ser sério mesmo. Aquela tensão sexual toda na minha cabeça estava acontecendo. Estava no ar palpável como um objeto.

Pela primeira vez em anos, não soube como reagir. Meu cérebro fritou pela surpresa da sua sinceridade. Ele sorriu. Pois é. No fim ele tinha ganhado.

Seus olhos focavam na minha boca, e não saíam de lá.

–Eu tenho que ir lá embaixo. A festa é minha, não é?- assenti lentamente. Olhando para seus olhos olhando para a minha boca. Algo esquentou embaixo do meu ventre, pulsante. E eu senti que não era hora de sair daquela zona que ele tinha invadido.

Segurei na sua mão quando ele se levantou. Dei um sorriso de lado.

–Você me propôs nem virmos nessa festa hoje pela tarde.

–Isso foi horas atrás, e você recusou – respondeu. Meu coração batia bastante rápido com as descobertas recentes. E eu nem sabia direito o que estava fazendo.

Levantei-me, assim como ele. A brisa fria não me incomodava mais, a música ridícula não me incomodava mais. Nem sequer a cena vergonhosa. Eu só queria fazer-lhe uma única pergunta.

–E o que você faria de diferente?

Ele sorriu. Seu rosto a poucos centímetros do meu.

–Tudo- respondeu por fim. Seus olhos verdes estavam próximos como nunca antes, era como enxergar sua alma. Enxergá-lo por completo, aqueles olhos o representavam, eu só não sabia como. Sua boca roçou na minha, somente isso. Sem beija-la. Meus olhos se fecharam – Ia ser um beijo calmo, lento porque eu queria sentir sua língua na minha, e os seus lábios. E então, depois de um beijo lento eu poderia...

Ele olhou nos meus olhos de novo, e parou o que falava. Seu rosto se abaixou, sua respiração foi para o meu pescoço me fazendo arrepiar.

–Eu não iria me contentar só com aquilo – sussurrou perto do meu ouvido, ainda respirando perto do meu pescoço. Revirei os olhos de excitação, fechando-os em seguida.

Seu corpo se afastou do meu, e por fim ele saiu da varanda. Abriu a porta e foi embora. Meu corpo estava quase que extasiado. Era bastante diferente aquele tipo de tentação, e eu imaginava se ele estava fazendo de propósito.

Solteiro. Ri enquanto olhava no espelho. Baguncei os cabelos enquanto olhava naquela direção, impressionante como ele tinha me tirado do meu ponto de equilíbrio com algumas frases. Uma ideia passou pela minha cabeça, depois achei estupidez.

Depois achei que era a minha cara, o que não descartava o fato de que era estupidez. Ri comigo mesmo, na mesa dele tinha vários cadernos e papeis da universidade. Peguei uma folha em branco e mordi um lábio. Eu era louca e ele provavelmente iria me achar uma vadia sem escrúpulos.

Ri. Foda-se, era o que eu era mesmo. Achei uma caneta esferográfica preta e nela escrevi:

Faça tudo diferente”

Peguei o papel e o olhei algumas centenas de vezes, rindo. Fui até a cabeceira da sua cama e coloquei o papel encima do seu travesseiro. Mordi um lábio inferior, e depois ri de novo. Dane-se.

Levantei um pouco a saia do meu vestido, tirando a calcinha de renda vermelha e a pegando com a mão esquerda. Claro que estava molhada, não tinha dúvidas. Coloquei-a ao lado do meu fofo bilhete.

Sai rindo do quarto, e ainda enquanto descia as escadas. Thalia parecia aliviada em me ver bem. Fui à sua direção. Ela que estava com Luke, Percy, Charles e Silena. A Silena me olhava bastante feio.

–Olá – falei, olhando para todos sentados nos sofás. Todos me devolveram “olás” rápidos, pois pareciam numa conversa bastante interessante sobre alguma coisa da universidade.

Sinceramente não prestei atenção. Estava com um vestido curto e sem calcinha, já eram acontecimentos suficientes para eu me preocupar. Percy não olhava para mim, o que era bastante sexy. Ele não era um daqueles idiotas que ficavam te encarando depois de vocês ficarem (ou quase isso) e já era realmente uma novidade na minha vida.

Depois da terceira taça de champanhe me sentia tonta o suficiente para dar vexame. Levantei-me num pulo.

–Acho que vou embora – falei, sorrindo de lado. Thalia se levantou também, não sabia quantas horas eram somente que aquele papo era muito chato e aquelas pessoas eram muito chatas e eu queria ir embora. Fácil assim.

Saí daquela mansão linda. Tinha valido bastante a pena, pois havia um rastro bastante... Íntimo de mim naquele lugar chiquérrimo.

Luke e Percy nos acompanharam até a rua. Passei um pouco do cabelo atrás da orelha enquanto Luke e Thalia se agarravam do nosso lado.

–Foi bom você ter vindo – falou Percy como bom anfitrião. Arqueei uma sobrancelha, pensando no quarto dele.

–É, eu também gostei- respondi. Ao nosso lado o casal maravilha finalmente tinha parado de se agarrar. Percy sorriu daquele jeito que excitava qualquer garota e me deu um beijo na bochecha, sua mão comportadamente na minha cintura.

–Boa noite.

Agh, maldito gentleman.

(...)

Não estava no melhor dos dias, e isto era claro e evidente porque estava num bar às quatro horas da tarde. Claro que não era qualquer bar, era o Safe Bar. Mas a gente sempre falava “vamos lá no bar” e já sabíamos aonde era.

Lá ficou bastante usual para nós já que nosso amigo, Leo Valdez, era o barman do local. E qualquer lugar que me desse tequila de graça ficaria honrada de repetir a visita quantas vezes possíveis.

Leo limpava o chão, a maioria das cadeiras estavam viradas encima da mesa. Três ou quatro alcóolatras bebiam seus primeiros goles de cachaça. Leo cantarolava divertidamente.

Aquele lugar era como casa. Eu me sentia bastante confortável ali. Na verdade, todas as vezes que me sentia meio estranha no apartamento descia para o bar. Que era... Olhe só a ironia do destino: na mesma rua que o apartamento.

Estava na mesa mais afastada possível e perto da parede justamente para não atrapalhar Leo. Tinha vários papeis espalhados na minha mesa por causa dos meus desenhos e lá estava eu trabalhando em outro.

–Quem te vê tão concentrada e com esses óculos acha até que você é uma pessoa ocupada.

Revirei os olhos. Nico conseguia ser bastante inconveniente às vezes. Tirei meus óculos de grau que eu tanto odiava. Ele riu.

–Tira totalmente a minha imagem de vadia – falei, suspirando. Nico olhava distraidamente para os meus desenhos.

–Estão ótimos – ele comentou– Aliás, você sempre vai ter essa imagem de vadia. Não se iluda.

Revirei os olhos e recoloquei os óculos, ainda concentrada nos meus desenhos. Era a coisa que mais me distraia, eu gostava de desenhar prédios, de preferência aqueles que eu já conhecia. Agora estava numa empreitada melhor, tentava desenhar a silhueta de Manhattan.

O que eu mais gostava em Nico era o fato de que ele raramente achava importante falar. Ficava muito confortável calado e era uma das qualidades que eu queria ter, ser mais quieta.

–Você quer ir neste bar novo, o Hapiness Forgets? – perguntou Nico quando tirei meus olhos do desenho.

–Que traição! – gritou Leo – E dentro do bar, ainda! Vocês não tem vergonha?

Eu e Nico rimos.

–Você está convidado, Leo – falei, ele fingiu pensar.

–Porque não? É terça feira. Aqui vai estar vazio e eu ponho qualquer desses escravos no meu lugar – ele veio varrendo em nossa direção – E Thalia? Onde está aquela traidora mor?

Nico também olhou na minha direção, era bem verdade que desde o seu namoro com Luke ela tinha meio que abandonado à gente. Eu não a via direito desde a festa de Percy, três dias atrás.

Leo e Nico não a viam provavelmente há quase uma semana. Ela ficava o dia inteiro na universidade e à noite saía com Luke e seus amigos.

–Vocês não vão nem acreditar – falei – Mas ela está realmente apaixonada. Então quando vocês a encontrarem, por favor, sejam gentis e não a julguem porque senão ela vai ficar toda chata e ninguém merece.

Leo arqueou as sobrancelhas.

–Apaixonada? Não acredito. Ainda mais que você falou que era um cara rico da faculdade. Thalia nunca gostou deste tipo.

–E ela também nunca deu certo com os “tipos” que ela gostou – respondi. Nico parecia bastante entretido nos desenhos e não falava nada – Isso é bom pra ela, acho até que ela está mais saudável. Mais gordinha.

–Meio difícil ela emagrecer mais – respondeu Nico, rindo. Eu e Leo também rimos.

–Olha quem fala – caçoou Leo. Nico deu um soco no seu braço e eu ficava só rindo. Eu amava estar ali, era o melhor tempo dos meus dias – E então Annabeth, conseguiu mais um emprego costurando lindas roupas para bonecas Barbie?

Nico riu, e eu revirei os olhos ainda dando traços finais nas sombras dos prédios que eu desenhava.

–Não estou conseguindo achar emprego, tenho uma entrevista daqui a duas horas... Mas não sei se eu vou – Nico ficou sério.

–Como assim não sabe se vai?

–O salário é péssimo, e eu teria que trabalhar igual uma escrava. Não é como se eu tivesse tantos gastos assim.

–Além dos seus shots de tequila – me cortou Leo – E as milhões de roupas... Se você quiser pode trabalhar aqui como garçonete, só não acho que seria muito saudável pra você ficar num bar.

–Você me demitiria no segundo dia – respondi rindo. Leo também riu.

–Também preciso de ajuda na loja se você quiser um emprego – Leo agora gargalhou, e eu quis bater sua cara na mesa.

–Ótimo! Bar e agora Sex Shop! O que mais nós vamos oferecer pra ela!? Assistente de traficante de drogas?

Pensei na oferta de Nico, era realmente interessante. Seria divertido ficar num balcão olhando mulheres frígidas cheias de vergonha atrás de vibradores e pênis de borracha.

–É uma ótima ideia. Você pode dar uma olhada para mim, Nico? – Leo parecia estupefato, Nico deu um sorrisinho na direção dele.

–Vou ver com a chefa.

–Como trabalhar numa sex shop é melhor do que num bar? Qual é o problema com as suas prioridades?

–Trabalhar numa sex shop é bem melhor que num bar! – respondeu Nico. E eu sentia que estávamos entrando na discursão mais estúpida de todos os tempos.

–Claro que não!

–Claro que sim!

Os dois pararam de discutir quando três pessoas entraram no bar. E não quaisquer três pessoas. Thalia, Luke e Percy. Oh, não. Porque Thalia estava fazendo aquilo? Que estúpido.

Eu amava o bar, não me leve a mal. Mas aquele lugar mal iluminado e as mesas e cadeiras de madeira não eram nada comparado àquela boate que fomos. Era aconchegante, mas nenhum pouco glamoroso e bem longe dos padrões de Percy e Luke.

–O loiro é namorado da Thalia, tratem ele bem – sussurrei.

–Quem é o moreno?- perguntou Nico – Porque ele se veste tão bem? Ele é gay?

–Não – respondi, semicerrando os olhos na sua direção. Estávamos sussurrando e eu nem sabia por que, eles estavam no começo do bar e eu no lugar mais afastado – Os pais dele mexem com moda.

–Ele é lindo.

–Pare de olhar na direção dele.

–Todo mundo tá olhando na direção dele! – respondeu Nico. Thalia finalmente nos viu e sorriu, acenando na nossa direção.

Ótimo, até porque eu estava linda e maravilhosa. Meus cabelos estavam bagunçados e eu usava somente uma calça jeans e uma regata cavada, decotada demais e fora dos padrões de qualquer garota decente. A única coisa realmente de luxo naquele look todo era o meu sapato, a plataforma preta da Valentino que me deixa numa altura razoável.

Os três vieram em nossa direção. Tentei juntar meus desenhos, mas não deu tempo.

–Oi – falou Thalia animada. Sabia que ela queria que Luke conhecesse seus melhores amigos e eu tentaria ao máximo não ficar mal humorada. Nico e Leo cumprimentaram lentamente, ainda tentando entender quem eram aquelas duas pessoas ao lado de Thalia.

Rapidamente olhei para Percy, que olhava para mim. Ele usava uma blusa branca linda que eu tinha certeza ser da Ralph Lauren, de botões e manga curta. Uma calça azul petróleo que eu não sabia a marca, mas a coleção poderia variar também de um Ralph Lauren até Armani. Voltei a olhar para os meus desenhos.

–Este é o Luke e o Percy, vocês já conhecem Annabeth. Esses são Nico e Leo – ela apontou para os dois. E os dois acenaram distraidamente.

–Você estudam na mesma universidade? – perguntou Leo. Luke confirmou – Achei que estudantes estavam fazendo estrelinhas no Central Park há esta hora.

Cotovelei sua barriga, o fazendo praticamente ficar sem ar. O que eu tinha falado sobre ser gentil? Percy deu uma pequena risada e Thalia parecia agora bastante séria.

–Eu quero cerveja, Leo. Para todos nós. Será que dá pra pegar? – hm, tinha pegado pesado. Leo não gostava quando o tratavam tão mal educado, por mais que fosse realmente um empregado do bar.

Ele se levantou, provavelmente entendendo o recado de Thalia. E eu era um peixe fora da água naquela situação. Luke os seguiu e Nico também. Poderia parecer surpreendente, mas eu não estava realmente interessada em beber.

E agora, depois de sóbria, estava um pouco envergonhada pelo que fiz no quarto de Percy. Quer dizer, que falta de polimento deixar uma calcinha na cama de alguém.

Percy se sentou ao meu lado.

–Posso ver? – perguntou. Olhei rapidamente para o seu rosto.

–Sim – peguei o lápis 2B e comecei a contornar os prédios, internamente orgulhosa do meu trabalho. É claro que agora eu não conseguia ficar totalmente concentrada, sentia que ele estava do meu lado. Sua presença perto de mim.

–Você é muito talentosa – ele comentou depois de um tempo – Estou sendo sincero, é impressionante.

Dei um mínimo sorriso.

–Obrigada.

Era difícil lidar com ele. Quer dizer, nunca tinha me sentido daquele jeito. Ficava insegura do seu lado, mas não desconfortável. Ele me atiçava à curiosidade e eu sentia que poderia ficar horas e dias conversando sem parar somente para conhecer cada detalhe seu.

E tinha poucos dias que nos conhecíamos, o que estava sentindo era uma completa estupidez. E, além disso, sempre em algum lugar da minha mente estava àquela desesperada Annabeth Chase que falava como um despertador “Você não é boa o suficiente”.

–Você fica diferente de óculos – ele disse – E quando não está com cada peça de roupa perfeitamente analisada.

Ri, genuinamente. Cocei os cabelos tentando pensar numa resposta à altura, mas nada me veio à mente. Somente olhei na sua direção, assentindo. Ele acabou rindo.

–Você parece desconcertada – falou. Fiz provavelmente um bico marrento, agora que eu sabia exatamente o que sentia por ele as coisas pareciam mais difíceis de serem ditas, as ações mais difíceis de serem feitas.

–Desconcertada? –perguntei – Nunca estou desconcertada.

–Não é o que parece – respondeu com uma sobrancelha arqueada. Ele parecia tão errado naquele cenário com sua roupa de marca e o jeito polido.

–Sinceramente, não esperava te ver por aqui – respondi. O que era verdade, ele não combinava com o local. Ele coçou a barba que agora estava quase grande.

–Nem eu – disse ele – Mas Thalia insistiu para que viesse, não sei por que. Às vezes ela pode ser bastante teimosa.

–E irritante.

–E repetitiva, não tive escolha.

Nossos olhos se encontraram pela primeira vez no dia, desviei rápido.

–Não precisa se justificar – comentei, ainda contornando os prédios. Ele ficou calado por um tempo, e eu sentia que era a primeira vez que ficávamos daquele jeito. Sem respostas na língua e milhões de perguntas a serem feitas.

–Em que está trabalhando? – perguntou educadamente quando fiz uma pausa.

–A silhueta de Manhattan. Pelo ângulo do lago. – ele chegou mais perto, observando o papel A3. Se não fosse mais alto que eu poderia jurar que estaríamos com os rostos praticamente colados, seus olhos foram pra minha direção.

–Invista nisso – disse. No imperativo. Não foi uma sugestão. Dei um mínimo sorriso e pensei que poderia investir naquilo se fosse outra pessoa senão Annabeth Chase; se as coisas realmente dessem certo para mim algum dia.

–Isso aqui não é nada– respondi e dei um riso sem graça. Ele continuava olhando na minha direção, parecia olhar para cada canto do meu rosto. De tão perto, me sentia exposta.

–Invista nisso – repetiu. Nossos lábios estavam tão perto um do outro, quase colados. Eu poderia sentir sua respiração, a textura macia dos seus lábios. Fechei os olhos.

–Vocês querem cerveja? –perguntou Leo, e parou em seguida sem graça. Era como se eu tivesse saído de um transe.

–Sim. Obrigado – disse Percy e Leo colocou o copo de cerveja na mesa. Neguei enquanto coçava os cabelos, ainda mais envergonhada.

De repente cada detalhe do bar me pareceu muito interessante. A escada de madeira que dava como um loft para o segundo andar, os quadros de cerveja e times de futebol americano. Cada mesa retangular com as cadeiras viradas encima dele. Ao meu lado, Percy riu. Como fazia com muita frequência.

–Você é impressionante- falou, e eu não pude deixar de olhar na sua direção- As pessoas acreditam que são diferentes de todas as outras. É isso que as fazem acordar toda manhã, se levantar e viver. A esperança que são especiais. É esquisito porque você não acorda com nenhuma esperança, mas é verdadeiramente especial.

Meus olhos encontraram os seus como sempre. E por mais que naquela festa eu tenha conhecido seu lado monótono e comum, naquele dia, naquele momento, percebi que Percy Jackson era diferente de todas as pessoas que estavam naquela festa.

–Você se considera um crítico social?- perguntei, dando um mínimo sorriso. Decidi ignorar seu elogio. Ele mordeu a parte de dentro da bochecha, parecia pensar.

–Nem um pouco. A única coisa que me considero é um futuro biólogo marinho – arqueei as sobrancelhas, aquilo me era uma novidade.

–Crítico social é uma profissão mais realista, combina com você.

–O ramo das ciências podem te explicar mais coisas sociais do que você imagina. No mar, por exemplo, existem certas ondas... Sonoras, que nós seres humanos não conseguimos ouvir, existem certos animais que conseguem. Como cachorros. Essa onda poderia fazer-nos sentir coisas impossíveis, como por exemplo, o que as pessoas pensam. Mas somos indecifráveis, todos nós. E eu fico feliz por isso porque seria muito menos excitante te conhecer se você não tivesse toda essa personalidade enigmática.

–Excitante? – perguntei, sorrindo. Ele também sorriu, agora maliciosamente.

–Você quase morre de vergonha por alguém quase nos viu se beijando e me dá uma lingerie de presente no segundo dia que te conheci – ri, fechando os olhos. Imaginei que poderia ter acontecido de alguma empregada ter pegado a calcinha e ele não a ter recebido.

Não foi o caso. Ele deu um sorriso enorme, percebendo quão envergonhada eu estava.

–É, bem... – balancei a cabeça, olhando pra frente e depois passei a mão na testa – Espero que tenha sido, ãhn...

–Útil? Satisfatório? – perguntou, era a segunda vez que ele me deixava embaraçada – Sim, foi. Obrigado.

Pensei no que ele poderia ter feito com o presente. Uma cena bastante excitante veio em minha cabeça, algo como quem sabe ele pegando a calcinha sem entender nada, ver o bilhete e rir. Certos homens gostam de cheirar, mas na minha imaginação ele não era um destes. Na minha imaginação ele estava com a calcinha numa mão, os olhos fechados enquanto se masturbava, pensando em mim.

–Que ótimo – sussurrei, a cena nem um pouco saudável na minha mente. Algo estava me incomodando e eu percebi que era a região embaixo do meu ventre, meu braço estava arrepiado – Acho que vou para casa.

Ele assentiu, bebendo o resto da sua cerveja.

–Thalia me falou que é nessa mesma rua. Deve ser bastante interessante morar num lugar com o bar do lado, bem saudável.

–Não me deixa nem um pouco alcoolizada.

–Bastante sã...

–E meus indícios para cirrose estão lá embaixo – completei, rindo. Ele também riu – Vou falar com a Thalia.

Juntei meus desenhos com sua ajuda. Ele se levantou e foi em direção a Luke, que agora parecia bastante confortável numa conversa animada com Leo.

–Nós dois vamos ao bar novo com vocês daqui a pouco – disse Thalia quando comuniquei que estava subindo. Fiz uma ligeira expressão surpresa, mas depois pensei no que poderia acontecer de ruim se eles fossem. Nada.

–Você também quer subir enquanto isso? –perguntei para Percy, que tinha deixado o copo no balcão e colocado uma nota de dez dólares muito acima do preço real de um copo de cerveja.

–Ahn... – ele olhou para Luke, que continuava numa conversa animada sobre futebol com Leo – Tudo bem.

Thalia estava com uma expressão que era como se tivesse uma placa luminosa em sua testa escrita “hm, safados”. Revirei os olhos para ela e saí do bar.

Tateei o bolso da calça atrás do maço de cigarros, e com os desenhos embaixo de um braço o acendi. Percy educadamente pegou os meus desenhos, olhei na sua direção.

Ele era lindo mesmo, o vento batia nos seus cabelos pretos como petróleo, deixando-os ainda mais bagunçados e o fazia parecer mais e mais com uma capa da vogue. Ele tinha essa mania gostosa de morder os lábios e a parte de dentro da bochecha.

–Então, Percy... Biólogo marinho? Você pretende cuidar de sushi daqui a quantos anos? – ele deu uma pequena risada.

–Esse ano, eu já tenho vinte e três. – Três anos mais velho. Interessante. Imaginei que ele não era tão inocente quanto aparentava normalmente, quatro anos de faculdade pode te deixar bastante maduro.

Vinte passos depois já tínhamos chegado ao meu prédio. Abri a porta que ia para o pequeno saguão.

–Sem cigarros por aqui, Srta.Chase – disse o faxineiro. Sussurrei um “droga” e abri a porta rapidamente jogando o cigarro fora.

–Desculpa Hernandez.

–Isso ainda vai acabar com seu pulmão, Srta.Chase – Percy ao meu lado sorriu, uma frase repetida. Dinks – E uma menina bonita como você não deveria fumar.

Peguei os desenhos da mão de Percy e abri o armário que tinha as minhas correspondências, gostava de deixar os meus desenhos lá porque um — não tinha correspondências e dois — se eu deixasse os papeis lá encima sempre me esqueceria de pegá-los.

–Só garotas feias fumam? Fale isso para Audrey Hepburn – adorava Hernandez. A vida dele era uma droga. Fugiu do México a nado e ganhava um maldito salário mínimo naquela bosta de prédio, mas era mais feliz que todos os americanos ricos.

–Você é muito mais bonita que essa Hepburn – ele disse, apoiando-se na vassoura. Gargalhei.

–Assim você me conquista, Hernandez – ele colocou as duas mãos para cima em rendição.

–Não tenho a intenção e nem acho que consigo conquista-la do rapaz – comentou. Arqueei as duas sobrancelhas, eu e ele parecíamos um casal? Percy ao meu lado deu um sorriso de lado.

–Espero que não tente mesmo, Hernandez – comentou Percy. Abri a boca totalmente surpresa. Estava estupefata. Hernandez riu e voltou a cantarolar. Comecei a subir as escadas até o segundo andar, tateei o bolso da calça e achei minhas chaves.

Assim que abri o apartamento e Percy entrou percebi que poderia ter cometido um engano, até porque nunca entrava homens no meu apartamento para não acontecer coisas erradas, e eu e Percy tínhamos probabilidades gigantescas de fazermos coisas erradas.

Notas finais
Espero que tenham gostado. E pessoal, leiam o especial percabeth que eu e as lindas e maravilhosas amigas minhas e escritoras do site fizemos: fanfiction.com.br/historia/636137/Contos_Percabeth_-_2_Especial/ Deixem seus reviews. Contem-me o que gostaram ou o que odiaram no capítulo. Beijos e até o próximo!