Save Me
14 Sex on fire
Notas iniciais
“Your sex is on fire, consumed with the words you transpire”
Naquela sexta feira foi o terceiro dia de uma semana horrivelmente normal.
Não estava acostumada com a vida operária nova-iorquina, extremamente regulada e chata. Acordar ao amanhecer, chegar em casa ao anoitecer, para depois fazer a mesma coisa de novo e de novo.
Qual era o sentido daquilo tudo? Porque as pessoas gastavam seu tempo e seu sopro de vida trabalhando na maior parte dela? A liberdade humana existe ou não?
Precisava de uma bebida.
Mas estava de manhã, meu turno matinal começava em cinco minutos e eu torci a maçaneta da loja como se entrasse em casa, o que não deixava de ser verdade.
No balcão estava Nico Di Ângelo, meu melhor amigo e melhor pessoa para se estar junto num momento de depressão pós profundas reflexões. Fui até ele.
—Quero beber.
—Têm café e conhaque na casa da Lizzie, você aceita? — suspirei, sorrindo e agradecendo algum deus inexistente a presença de Nico em minha vida.
Honestamente, o trabalho na sex shop no turno matinal é terrível. Apenas pessoas bêbadas demais para aparecer de madrugada e comprar alguma coisa de fato. Sempre tínhamos na maioria das vezes que chuta-los da loja. Era bem chato.
Mas valia à pena vir ao turno da manhã por causa do horário do almoço. Normalmente era quando pessoas “normais”, trabalhadores e chefes de famílias, vinham à loja pingando de suor. E não por causa do trabalho e sim pelo desconcerto de suas próprias perversões.
Era divertidíssimo.
Eu e Nico apostávamos o que eles decidiriam comprar naquele dia. Sempre ganhava porque falava algemas e fantasia. Mas principalmente fantasias. Homens são bastante óbvios, todos eles estavam atrás de alguma fantasia ou algum objeto para suprir. Era impressionante como eu ganhava dez pratas extremamente fácil por causa de Nico.
Já falei que amo a amizade dele?
De qualquer forma, trabalhar numa sex shop não é tão divertido quanto normalmente às pessoas imaginam. Aliás, era extremamente entediante às vezes. E depois de um tempo surpreendentemente paramos de nos importar com a vida sexual alheia.
Estava sentada no banco de atendente, fazendo alguns pedidos de lubrificantes, enquanto eu e Nico apostávamos o que os clientes da noite iriam querer comprar, quando um cliente mais interessante chegou à loja.
Foi engraçado.
Tinha duas mulheres beirando entre os 30 anos (claramente solteiras), que seguravam pênis de borracha em suas mãos. E quando Percy chegou, elas simplesmente deixaram os pênis cair, de forma que todos apontavam à nossa direção.
Honestamente, demorei mais tempo que elas para perceber quem estava no recinto. Primeiramente porque não conversava com Percy há dias, desde aquele piti que ele havia dado na sua casa de praia, nos Hamptons, e falou que não ia conversar comigo por um tempo; e depois porque estava muito ocupada comprando lubrificantes e separando caixas de calcinhas comestíveis.
Ele estava impecável, como sempre. Usava uma blusa branca de botões, de linho, em que ficava bastante bonito. E simples calças jeans, o que era realmente descontraído para o seu estilo.
Sua barba estava por fazer, o que me fez entender que ele decidiu se desleixar por alguns dias. Mas não importava, porque ele conseguiu ficar mais bonito do que já era.
Não soube como reagir. Segurando uma caixa de calcinha comestível e com o cabelo preso num coque por uma caneta em forma de pênis não era exatamente como queria me encontrar com Percy depois de dias.
Ele, porém, estava risonho. Mas não poderia negar que tinha as bochechas vermelhas.
—Olá – disse, olhando para os dois bancos: Um em forma de vagina e outro em forma de pênis, e optando por ficar em pé.
—Ei – falei – Nico, você poderia atender este cliente, por favor?
Nico olhou na minha direção como se eu fosse a pessoa mais idiota que ele conhecia. Mas não iria brincar de namorado e namorada daquela vez. Já tinha decidido que não servia para aquilo.
—Nico, Prefiro o atendimento da Srta. Chase, se você não se importar – Percy retrucou, abrindo um sorriso malicioso que me lembrou de muito seu irmão, Tritão. Nico simplesmente ignorou toda aquela situação, o que me deixou numa posição extremamente desconfortável.
Joguei minha caixa de calcinhas comestíveis no chão e sentei na cadeira oposta onde ele se encontrava.
—Em que posso ser útil?
Não sei por que estava puta com ele. Para ser bem honesta aquilo não fazia sentido sequer na minha cabeça. Talvez porque eu não tenha gostado de ter sido descartada daquela forma, mas não era bem aquilo... Percebi dois segundos depois que eram saudades, sendo exaladas em forma de ódio.
Revirei meus olhos e ele percebeu, mas o que ele não sabia que não era para ele e sim para mim. Suspirei, precisava parar de comunicar comigo mesma. Ele decidiu ignorar a provável cena estúpida dos meus gestos sem sentido e disse:
—Acho que você já sabe. Estou numa Sex Shop, então preciso saber o que exatamente posso comprar de interessante para mim e minha namorada – Arqueei uma sobrancelha, alguma parte dentro de mim querendo muito mesmo brincar daquilo.
Seu sorriso era pecaminoso, mas decidi manter o foco.
—Então se está com problemas em seu desempenho a loja pode te ajudar – foi a vez dele arquear as sobrancelhas.
—Problemas? – sussurrou, passando de leve os dedos no meu pescoço onde estava uma quase curada marca dos seus beijos fortes. Como disse anteriormente, quase.
A luz vermelha da Sex Shop contrastando com seu sorriso malicioso era uma das coisas mais devassas que já tinha visto em minha vida. Dei à volta no balcão.
—Siga-me – mordi o lábio inferior. Aquilo era estranhamente constrangedor. Percy cruzou os braços encima do peitoral, parecia muito ansioso para o que eu poderia mostra-lo – Você já tem alguma coisa em mente?
Sussurrei e me puni mentalmente logo depois. Foi tão espontâneo que eu não percebi antes de já ter feito. Seu sorriso cresceu, e ele passou seu braço do lado do meu corpo, pegando um pacote na prateleira atrás de mim.
—O que é isso? – perguntou, estendendo o pacote ao lado da minha cabeça. Olhei rapidamente.
-Camisinha de sabor – revirei os olhos – Honestamente, você pode comprar uma dessas em qualquer drogaria. Se está numa Sex Shop, seja mais ousado.
Ele riu.
—E o que você me recomenda?
Droga. Tinha entrado no jogo dele fácil demais. Como falar aquilo sem parecer que eram as minhas preferências sexuais? Respirei fundo.
—A maioria dos clientes gostam de olhar fantasias, algemas e... – Olhei ao redor da loja – Estranhamente? Sqweel. Não gosto de pensar o que homens fazem com aquilo.
—E o que seria exatamente...?
—Simulador de sexo oral – ele gargalhou, como já presumia que faria; e eu sabia que estava sorrindo apenas de olhar seu ataque de risos. Odiava tudo aquilo, o poço de sentimentos controversos que havia virado.
—Tenho quase certeza que a minha namorada já está bem satisfeita com a minha língua – sussurrou Percy. O que me fez ficar séria rapidamente. Pigarreei.
—O que você quer? Achei que você queria me ver amanhã, ou depois. Ou quando seu pai decidisse que quer fingir ser a família de margarina de novo – voltei com a camisinha no lugar.
Foi a vez de Percy suspirar.
—Vim ver se você ainda quer ir para os Hamptons amanhã... O Senhor Poseidon faz questão.
Tirei a caneta em forma de pênis do meu coque, deixando meus cabelos cair e usando-a para marcar na minha prancheta as camisinhas em falta.
—Não, eu não vou. Obrigada pelo convite – sim, estava puta com Percy. E não, não sabia por quê. Só sei que eu fiquei sem notícias dele há dias e de repente aparece como se fosse algo totalmente normal.
Percebi como soava ridícula antes mesmo de terminar meu pensamento. Desde quando era daquelas mulheres que não deixavam o namorado respirar? Na verdade sempre fui ao contrário. Dei tanta liberdade que o cara nem meu namorado virava.
Mas agora era diferente. Agora eu sentia várias coisas, inclusive saudades e ciúmes. E são sentimentos imundos que só te atrapalham.
Percy mordeu a parte de dentro da boca, como sempre fazia quando estava desconcertado.
—Fiz alguma coisa? – perguntou, arqueando uma sobrancelha. Suspirei.
—Não, você não fez. Desculpa, eu só... Não sei se estou preparada para ser apresentada formalmente à sua família ou qualquer coisa assim.
Ele coçou os cabelos, pensou por um segundo e depois deu uma curta risada.
—Espera. Você está achando que vai ser uma viagem em família mesmo? Daquelas que todos vão para a fazenda tirar leite da vaca? – Percy riu – Annabeth, meu pai não ficará conosco nem vinte minutos em todo o fim de semana. E, honestamente, não estou te chamando para te apresentar a ninguém. Estou te chamando porque não quero ficar lá sem você... Ou em qualquer outro lugar.
Seus olhos verdes seduziam com bastante afinco quando ele falava sobre seus próprios sentimentos, e tudo aquilo era viciante. Respirei fundo.
—Então eu vou – falei e vi um cliente chegando. Um engravatado nos seus quarenta anos. Os melhores – Você já pode ir embora e me deixar trabalhar de verdade, pode ser?
Percy fingiu que estava ofendido.
—Mas quem disse que eu não vou comprar nada? — perguntou irônico. Olhei para o rosto dele cética e ele só continuou irônico. Foi andando pelos corredores e chegou à parte de lubrificantes e géis.
Ele foi bem preciso em duas caixinhas. Uma congelante e outra que esquentava. E ali eu percebi que ele estava fingindo.
—Você não precisava da minha ajuda – comentei, revirando os olhos – Escolheu os melhores géis sem mesmo eu ter falado nada...– olhei seu gel de fogo, aquele negócio era bom, muito bom- Você gosta de brincar com temperaturas? Interessante...
Percy riu.
—Mais do que você pode imaginar. A verdade é que eu fiquei bem curioso sobre o lugar que você trabalha depois do que você disse na festa... Gostei. Sobre o gel de fogo... – ele chegou perto do meu ouvido – É uma brincadeira divertida.
Tinha a impressão que nós dois gostávamos de um sexo quente e que estranhamente nunca havíamos tentando, meus olhos crepitaram de desejo, se eu pudesse fazia tudo àquilo naquele momento. Tive que me lembrar de que estava no meu trabalho, e respirei fundo.
Ele foi em direção ao balcão, que Nico resguardava com atenção. Fiquei pasma, observando-o comprar aquilo e indo embora sem sequer olhar para trás. Fui até Nico.
—Eu...
—Vai atrás dele, se eu fosse você já tinha feito isto no momento que ele chegou.
Ri e abri a porta da sex shop. Assim que abri fui puxada por Percy, que estava me esperando encostado no muro ao lado.
—Como você sabia que...
—Sabendo – respondeu, olhei em seus olhos verdes. Os mais bonitos que já tinha visto em minha vida. Ele me beijou, e seu beijo estava diferente, ou talvez eu estivesse diferente, porque tinha uma delicadeza que nunca antes havia tido. E eu sabia o que era aquilo: Daquela vez tinham muitos sentimentos envolvidos.
Separei ofegante, com o indicador nos lábios sentindo tudo aquilo que tinha acabado de acontecer. Percy me observava.
—Annabeth... – chamou, e olhei mais uma vez para seus olhos – Antes de irmos pro Hamptons, preciso te contar o que aconteceu... Tudo que está acontecendo, aliás.
Meu coração bateu rápido de nervosismo, e fiquei mais séria do que queria. Quase desde o primeiro dia que o conheci queria saber o que exatamente estava acontecendo com sua família, que tipo de crise ele enfrentava e por que... Porque eu estava naquele redemoinho de confusões.
Olhei para os lados, observando as pessoas da Nova York que como sempre estavam muito ocupadas com seus próprios telefones para prestar atenção em qualquer outra coisa. Depois de alguns segundos, sentenciei:
—Vamos para minha casa.
Era a segunda vez que ele se encontrava no corredor do meu apartamento. E na primeira vez lembro-me de ter pensado somente em “sexo, sexo, sexo”. Era estranho como agora eu estava tão confusa que não pensava exatamente em nada. Minha curiosidade me corroía por dentro.
Nada havia mudado desde a primeira vez que ele havia me visitado. O mesmo apartamento antigo, a mesma estante embutida no corredor de entrada, o mesmo sofá velho no meio da sala.
—Vou pegar alguma coisa para beber – respondi, correndo até a cozinha.
—Não se dê ao trabalho – ele disse gentilmente – A história é longa e prefiro conta-la sóbrio.
Parei no meio do caminho. Arqueando uma sobrancelha em resposta. Lentamente me sentei ao sofá junto dele. Estava mordendo o dedo de ansiedade.
—Minha família é muito rica – ele disse, e estranhamente não olhava em minha direção – E para se ter muito dinheiro, nem sempre você segue os caminhos mais... Bonitos. Não é que o meu pai já fez alguma coisa ilegal, mas acho que já beirou a isto. E eu sei disto desde muito tempo.
Abri a boca para perguntar, mas fechei em seguida.
—Basicamente minha briga é que eu não quero ser igual... Igual a ele. Meu pai acha que a minha faculdade é uma brincadeira e quer que eu seja seu... Sucessor. E por isto estamos brigando já há um tempinho, mas ultimamente a briga começou a ficar pior, agora que estou formando... Por causa de algumas coisas que ele andou fazendo.
—Tipo o quê?
—Tipo comprar uma empresa de pesquisa biológica que eu queria trabalhar assim que formasse... O problema é que este ano, o meu de formatura, ele fez de tudo para que as coisas não seguissem seu rumo para mim como biólogo. E não consigo brigar com tanto dinheiro.
-Então não brigue – respondi. Percy riu.
—É o que estava tentando fazer... Ajudei meu pai com várias coisas e tentei aproximar dele, mas mesmo assim ele ainda acha que pode mandar na minha vida... É um tanto frustrante.
—Você quer ser independente, é isto? – perguntei, ele concordou com a cabeça. Mas mesmo assim não parecia que era tudo, Percy não contou a história toda.
—Só quis te contar o que está acontecendo para não cair em qualquer história que meu pai queira tentar inventar este fim de semana.
Juntei as sobrancelhas. Algo estava terrivelmente mal contado. E a discursão com sua mãe? Como aquilo entrava em sua história? Não perguntei, porque se ele quisesse ter contado já tinha feito isto.
Mas não demorou muito tempo para eu descobrir toda a verdade. E não... Ele não tinha contado nem um terço da história.
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