Save Me
15 Love the way you lie
Notas iniciais
“Maybe that's what happens when a tornado meets a volcano”
A sensação era que eu deveria estar com uma torta de pêssego na mão.
Ou morango, cereja, qualquer outro sabor servia. Mas com toda certeza não deveria estar de mãos vazias. Quando eu e Percy tocamos a campainha da mansão/sítio dos Jackson naquele mesmo encantador pedaço dos Hamptons eu me senti numa cena de um filme.
Aquela em que duas famílias aparentemente perfeitas se encontram para um jantar e a família visitante leva algum prato especial e etc etc etc.
Foi assim que me senti quando percebi que estava com um vestido (lindo, não se engane), mas extremamente conservador. E Anfritite, ao abrir a porta, com outro vestido igualmente conservador.
Percy e sua blusa social também não me faziam deixar de sentir um gosto estranho na boca e que eu não pertencia aquele lugar. Mas tudo bem, porque ainda era o Percy, e por ele valia a pena estar ali.
—Annabeth, estou tão feliz que esteja aqui! – Anfritite exclamou, me envolvendo com seus braços ossudos, mas aconchegantes. Enquanto Percy entrava no lugar como se fosse sua casa.
O que realmente era.
Pelo pulso Anfritite me puxou para dentro, que estava com outro ar agora que não estava cheia de pessoas vestidas iguais e mobiliada como uma casa de verdade.
Mobiliada, a mansão se parecia muito mais com um sítio de férias. O piso e a parede madeirada com os móveis em tons brancos e pasteis eram chamativos e tinham o tom “rico” exclamado em cada detalhe.
Mesmo com todo o paisagismo da casa de férias, algo me incomodava profundamente. E eu percebi que era o fato de estar extremamente vazia. Normalmente uma casa de férias tem crianças correndo por todos os lados, e tios brigando na cozinha, e primos conversando num canto. Mas ali não havia ninguém.
Sequer Poseidon e Tritão estavam à vista.
A expressão “dinheiro não compra felicidade” estava estampada naquela casa. Ela parecia mórbida, e triste.
Anfritite era o que contrastava naquele lugar. Tinha um sorriso estampado de orelha a orelha que não saía do seu rosto de forma alguma.
—Tenho uma programação perfeita para o dia de hoje! Eventos e mais eventos em família. Começaremos com uma bela refeição brunch, daqui a duas horas que será quando finalmente Poseidon e Tritão chegarão para nos acompanhar. Será magnifico.
Percy, extremamente mal humorado, ia para um corredor do fundo com nossas malas. Olhei para ele que sequer respondeu Anfritite, depois para o sorriso bem humorado de sua madrasta, e engoli em seco. Com pena de Anfritite, que era a única verdadeiramente feliz de estar ali, peguei toda a animação que não existia dentro de mim e disse:
—Vai ser muito legal! Estou ansiosa – sorri amarelo. Que eu não sabia se tinha parecido um sorriso de fato ou a expressão mais falsa do universo. Mas pelos olhos brilhando de Anfritite acredito que a primeira opção.
Entrei logo depois de Percy num quarto conjugado e respirei fundo.
—Você poderia tentar parecer feliz- falei, tirando meus óculos escuros e olhando para um Percy que parecia tudo, menos feliz.
—Impossível. Mas você foi bem lá... Obrigada.
Nos encaramos por alguns segundos. E por mais que odiasse estar ali, percebi que não era algo tão insuportável pelo fato de estar com ele. E, querendo ou não, aquele lugar era extremamente lindo.
O sol batia nas cortinas atrás de Percy, refletindo na cama de forma até poética. O barulho do mar podia ser ouvido já daquele quarto e a brisa marítima me deixava bem humorada.
E é claro, lá estava no meio do quarto, Percy Jackson.
Me deitei na cama, atualizando as mensagens do meu celular, enquanto observava discretamente Percy trocar de roupa.
A blusa social que me incomodava foi desabotoada com paciência, dando lugar para músculos bem definidos salpicados de pintas pretas, e a calça social dando lugar para uma bunda bem legal.
Percy se virou para mim, que desviei rapidamente o olhar para a tela do meu celular.
—Sabe o que deveríamos fazer? – subi meu olhar de encontro com seus maravilhosos olhos verde.
—Não, o que deveríamos fazer?- Percy mordeu o lábio inferior, subindo na cama e engatinhando até ficar encima de mim. Sorri.
—Devíamos... – ele deu um beijo no meu pescoço, e depois outro no meu colo, e por fim extremamente perto do meu seio- Ir para a praia, o que você acha?
Ele se deitou ao meu lado, sorrindo maleficamente. Abri a boca para falar alguma coisa, mas acabei me interrompendo. Não iria dar este gostinho a ele.
—Acho ótimo- murmurei. Percy se virou para mim. O sol batia em seu corpo o que deixava tudo muito mais bonito. E seu sorriso era como uma bela manhã, reconfortante.
Foi naquele momento, naquela hora que ele sorriu para mim, que eu percebi que estava mais que apaixonada. Talvez, mas só talvez, eu o amasse. Amasse de um jeito que nunca havia amado ninguém.
Engoli em seco. Aborrecida e aterrorizada com meus próprios sentimentos. E seu sorriso foi se esvaindo pouco a pouco quando percebeu meu rosto mortificado.
—Está tudo bem?- perguntou, ainda com um mínimo sorriso em seu rosto.
—Sim, tudo ótimo... Eu quero ir para a praia, na verdade. O mar do leste não pode ser tão gelado quanto dizem.
Percy riu. E nos levantamos com certa animação forjada que me lembrou das minhas férias antigas com meu pai.
O fato é o seguinte: Percy tinha estilo até para roupas de banho.
Era terrivelmente genial o fato que até sua bermuda fosse extremamente estilosa, me senti pisada pelo fato que não tinha tamanho senso de moda e meus biquínis eram sempre simples. Com uma cor, as alças e a calcinha extremamente normais.
Mas Percy tinha essa bermuda florida que analisei ser da Maison francesa que me remetia um quê de sofisticação e me deixava indignada. Quando pisamos na areia, ele parecia ainda mais bonito.
Era um absurdo.
Seus óculos aviadores eram de um prata espelhado e que me deixaram sem fôlego. Percebi que era no mínimo o terceiro óculos de sol diferente que eu via no rosto de Percy.
Novamente, quem era aquele homem?
Quase, eu digo, quase, que não utilizei as técnicas mais clichês conhecidas para impressiona-lo. Ele estendeu a canga na areia e eu muito favoravelmente tirei minha saída de praia bem devagar.
Mesmo com todas as suas... Especificidades, Percy ainda era um homem como qualquer outro e percebi seus olhos em mim, mesmo que sendo desviados depois de alguns segundos.
Deitei-me ao seu lado. Absorvendo tudo àquilo que a paisagem me propiciava. A brisa, o sol da manhã que esquentava minhas pernas com parcimônia, o barulho das folhas e do mar.
Percebi porque Percy me queria ali. Era a primeira vez que compartilhávamos algo verdadeiramente bonito juntos. Talvez o que faltava na nossa relação: Menos drama e mais felicidade.
—Eu gosto daqui – sussurrou Percy depois de alguns minutos – Quando eu era criança, era o lugar que eu e meu pai mais gostávamos de ficar. Nós dois compartilhávamos um amor pela praia, os nossos melhores momentos foram aqui.
Respirei fundo. Era absurdamente engraçado o fato que era a primeira vez que eu não clamava por informações de Percy com sua família e ele finalmente me falava sobre.
Mas algo me incomodou. A coisa mais estressante na vida de Percy era seu pai querendo comandar sua vida. Algo terrível, realmente, mas pelo menos Poseidon se importava com ele.
Ainda sim era inquestionavelmente problemas de uma família muito melhor que a de nós, meros mortais. Comparado à família onisciente de Nico e os pais bêbados de Leo aqueles problemas não eram nada.
O mundo de Percy era diferente demais do meu. Tinha muito mais cor, amor e momentos felizes na praia.
—Vem, vamos dar um mergulho – Ri, achando que era uma piada. Porém quando Percy se levantou e estendeu à mão eu percebi que era verdade. Ri ainda mais, confusa.
—A água deve estar puro gelo! – Percy foi andando para o mar.
—Ah, agora você tem medo de cair na água gelada?
Gargalhei. Somente minha alma gêmea poderia brincar com tamanha leveza sobre uma tentativa de suicídio, e eu poderia rir verdadeiramente sobre aquilo. Levantei-me, correndo até ele e subindo em suas costas.
—Só vou se você for! – gritei, me agarrando a seu peito enquanto ele saía correndo. Dez segundos depois senti a água gélida do mar no meu rosto, esfriando minha cabeça e estremecendo minhas costas.
Assim que Percy me trouxe para a superfície comecei a rir de nervoso.
—Porra! Tá frio pra caralho, Jackson! Te odeio!
Percy riu, também tremia, mas parecia um pouco mais acostumado que eu. Ele pulou uma das ondas e eu saí de suas costas, o abraçando de frente daquela vez.
Seu corpo continuava quente, e me agarrei a ele para seguir dentro do mar, observando o balançar das ondas.
—Tá vendo aquela pedra lá encima, na montanha?
Percy apontou para a esquerda, virei-me para onde ele apontava e realmente tinha uma pedra gigantesca que se encontrava entre uma elevação e o mar. Acenei que sim para a cabeça.
—Eu e Tritão costumávamos brincar ali, quem conseguia fazer o melhor pulo. Era divertido.
—E congelante... – disse, tremendo o queixo. Percy percebeu e pegou no meu rosto, sua mão quente era reconfortante. Sorri, seus olhos verdes combinavam muito com o horizonte praiano ao seu redor. Assim como seus cabelos negros bagunçados e a pele levemente bronzeada.
Beijar Percy naquelas condições foi atmosfericamente prejudicial. Perdi todo o meu ar e a noção de profundidade do mar. E quando finalmente nos separamos fiquei tão confusa que ele me segurou pela cintura mais forte.
Suspirei, passando meus braços por seu pescoço.
—Você é lindo – falei mesmo que tremendo, observando seus olhos verdes. Um sorriso cresceu no rosto de Percy, que ficou com as bochechas rosa de vergonha. Sua mão passou levemente pela minha bochecha.
—Annabeth, tenho que dizer... Eu acho que te...
—VOCÊS DOIS!
Nós dois nos viramos de repente, e Anfritite com seu vestido conservador e um elegante chapéu de praia acenava desesperadamente.
—TRITÃO E SEU PAI CHEGARAM! VENHAM LOGO!
Percy suspirou. Levantando o braço num sinal que tinha ouvido. Percebi somente naquela hora o quão longe da beira da praia estávamos. O maldito tinha me levado para o fundo sem eu sequer perceber.
Recomponha-se, maldita Chase apaixonada.
Quando saí da água o frio foi ainda pior, e senti que todas as minhas células começavam a congelar. Percy saiu correndo até a canga, onde pegou uma toalha e me enrolou nela.
Com o queixo tremendo abri meus braços, enrolando-o mesmo que miseravelmente em meu corpo, tentando fazê-lo não sentir frio. Ele beijou minha testa.
—Hora de ser a família feliz.
Vesti a saída de praia enquanto Percy recolocava seus maravilhosos aviadores prateados, e nós dois subimos até a varanda que ficava como que num píer alguns metros acima da praia.
A mesma estava cercada por ingredientes do café na manhã, num típico brunch. Percebi Poseidon no centro da pequena mesa amadeirada, seguido por Anfritite do seu lado direito e Tritão do seu lado esquerdo.
—Já começaram sem mim? – perguntou Percy, abrindo os braços nus e roubando um pedaço de pão do prato de Tritão, que simplesmente o ignorou.
—Bom dia, Annabeth. Já se familiarizou com a praia? – perguntou educadamente Tritão, dei um sorriso amarelo, sentando-me ao lado de Anfritite.
—É muito bonita.
Sim, eu sou uma idiota caipira. Invés de tentar parecer altiva e solene e extremamente autônoma minha eu interior decidiu pagar de tímida.
Era só o que me faltava.
—Tritão estava me falando sobre sua paixão pela moda- disse Poseidon, que momentos atrás estava distraído em seu Iphone – O que você achou do Fashion Week? Gostou do que viu?
—Por favor, Poseidon... – sussurrou Anfritite, porém ainda com seu tom elegante – Sem trabalhos à mesa.
Poseidon fez um barulho de indagação que beirava entre um pequeno urro e um grande suspiro.
—Não estou falando de trabalho, oras! Vocês esquecem que normalmente moda é um assunto de lazer. Correto, Annabeth?
Tritão suspirou.
—Não precisa responder isto.
Olhei para todos os Jackson, sentindo-me um tanto acuada. Percy apoiava uma das mãos no queixo, o cotovelo à cadeira, observando com desinteresse.
-Para mim moda é um assunto divertido – falei francamente, e Poseidon apontou para mim num gesto de “estão vendo?” – Mas eu odiei o Fashion Week.
Anfritite arqueou as sobrancelhas. Tritão deu um sorriso de orelha a orelha. Ah, detalhe importante: Grande parte das empresas da Fashion Week são patrocinadas por Poseidon.
E sim, eu poderia me sentir até intimidada, mas naquela ocasião especifica Poseidon usava uma blusa havaiana, o que deixava tudo menos amedrontador.
Ele que passava geleia em sua torrada cortou o ato imprevisivelmente, observando-me com parcimônia.
—E eu posso saber por que você odiou? – seu tom beirava a cordialidade, mas no fundo era mais uma fala passivo-agressiva. O que deixava tudo ainda mais divertido.
—Não teve nada fora da moda, foi tudo até de bastante bom gosto. Mas é a mesma coisa de ir num desfile Chanel e ver xadrez. É bom, mas é previsível. Sinto que as marcas de luxo estão sendo óbvias, até comerciais. Este tipo de coisa me incomoda.
Cortei a panqueca com o garfo, me lambuzando com a calda de chocolate que saía da massa. Percy sorria em minha direção, mas eu decidi ignora-lo.
—Você sabia que grande parte dos meus investimentos é nestas marcas de luxo, “óbvias”?
Olhei para Poseidon, piscando inocentemente.
—Percy comentou algo do gênero – respondi – O que não faz ser culpa sua o amedrontamento das marcas, tenho certeza.
Tritão riu, fazendo com que seu pai também risse, impreterivelmente. Depois um a um todos os Jackson riram, me deixando mais confusa que anteriormente.
—Gostei de você, Annabeth – respondeu Poseidon, agora num tom brincalhão – Talvez eu deva te contratar para ser minha assistente, caso você não trabalhe.
Tritão arregalou os olhos, lembrando-se de onde eu trabalhava.
—Annabeth já é uma cidadã americana muito bem remunerada- respondeu Tritão, mais que rapidamente. Poseidon riu e murmurou “tudo bem”.
Anfritite tinha os olhos brilhando. Ela parecia feliz em ver que as coisas estavam correndo bem, e por mais que Percy não falasse à mesa, pelo menos demonstrava reações de que estava de corpo presente.
Honestamente, não me era confortável àquela situação. Era feliz demais, legal demais. Não conseguia parar de pensar em Leo no bar, varrendo o chão e limpando as mesas. Ou Nico na SexShop, atendendo tarados sem um tostão no bolso.
Por fim me senti meio mal que poucas pessoas como os Jackson tivessem tanta coisa, e tantas pessoas que eu conhecia tivessem tão pouco. Não só economicamente, mas emocionalmente também.
—Annabeth, você é da Califórnia, correto? – perguntou Poseidon, assenti enquanto bebia um copo de suco – Do que você sente mais falta, do Oeste?
Queria falar que nada. Extremamente nada, não sentia falta dos roxos e sequer das brigas, não sentia falta dos maus tratos e do ódio. De São Francisco nada era melhor do que em Nova Iorque.
Mas lembrei dos momentos que tive em L.A, e por um segundo lembrei-me de uma parte da minha vida que tive momentos mais felizes. Senti-me nostálgica.
—As ondas... Do mar. Lá eram gigantes, e você fazia tubos fenomenais. E quando tomava um caldo, não saía do fundo do mar tão cedo. A adrenalina era ótima.
Poseidon olhou para o horizonte, mas precisamente para o mar. E por algum motivo parecia que conhecia muito bem sobre ele.
—Faz sentido; Aqui no leste o mar parece mais uma piscina. Sem movimento algum – riu em seguida, e eu também ri. Era legal conversar com alguém que conhecia o lugar que eu vim. Me senti ligeiramente em casa.
—Chega de interrogatórios – comentou Anfritite – Annabeth já recebeu mais do que a minha aprovação, agora quero saber como andam as coisas na faculdade pra você, Percy. Faltam poucos meses para você ser finalmente um biólogo, já decidiu o que vai fazer depois que formar?
Percy e Poseidon trocaram olhares mortíferos e cumplices ao mesmo tempo. E eu entendi que aquele foi um assunto a ser discutido justamente por ser polêmico.
Anfritite parecia querer fazer “a conciliadora”, e eu vi de cara que aquilo não iria dar certo.
—Eu ainda não tenho certeza- respondeu Percy, não ousando olhar em direção do seu pai – Mas são muitos caminhos que podem ser seguidos, o campo da biologia marinha é bastante vasto.
Poseidon bufou, e Percy parecia perder a paciência.
—Enfim, uma vaga no aquário é a opção ideal... Quer dizer, era... –completou Percy. Poseidon fez um sorriso irônico.
—Era?
Percy bateu com o punho na mesa enraivecido, e todos pulamos da cadeira de susto.
—Deixa de cinismo! – gritou Percy, e Poseidon se levantou assim como ele.
—E você não me venha com gritarias a esta hora da manhã! Isto é um desrespeito com o seu pai e não vou tolerar comportamentos inadequados no meu sítio!
Percy bufou, arrastando a cadeira e indo para dentro da casa. Anfritite pôs a mão na testa. Minha eu interior quase gritava “Sabia que isto ia dar merda!”, mas decidi ser apenas bastante madura e disse:
—Saí de São Francisco pela falta de liberdade que o meu pai me dava. É a pior sensação de todas e é inaceitável. Eu e ele não conversamos há três anos.
Poseidon me observou, e Tritão e Anfritite me olhavam cautelosos, o que me fez crer que eu posso ter piorado ainda mais a situação. Poseidon se levantou.
—Venha Annabeth, deixa eu te mostrar alguns livros sobre as melhores praias.
Sentia que estava no escritório de Poseidon, mas também poderia ser uma biblioteca, ou quem sabe uma sala de recordações. Eram muitas as informações na sala que ele me levou: Tinha fotos, livros e anotações.
Poseidon era altivo demais para sua bermuda caqui e a blusa florida vermelha. Esse contraste me deixava confusa. Três segundos depois de entrarmos na sala, Poseidon disse:
—Eu entendo que você defenda Percy. E não espero que você faça diferente, contando que você é a namorada dele.
Namorada. Era um adjetivo que me soava bastante estranho.
—Mas não gosto de mentiras, e não gosto quando uma pessoa como você que já sofreu tanto por relações paternais acredite que eu estou fazendo a mesma coisa com meu filho. Não, não estou. E por considera-la da família vou lhe explicar o que de fato aconteceu, do meu ponto de vista.
Olhei ao meu redor. Impressionada com a estante de livros acoplada à parede e a poltrona de couro atrás da mesa de madeira. A bandeja com uísque encima de uma mesinha à esquerda fazia eu me sentir numa série elegante dos anos 60.
—Poseidon, não acho que tenho direito de saber nada disto. Essa é a sua relação com o Percy. Você o conhece desde que ele nasceu e sei que sabe lidar com seu filho. Mas independente do que você fale, vou ficar do lado do Percy.
Poseidon sorriu. Batendo os dedos em sua mesa de madeira que se encontrava no centro da sua sala. Sua expressão não era das melhores.
—Eu sei disto... Eu sei. Mas Percy me deixa frustrado. Não sei o que posso fazer para deixa-lo... Ele está estranho nos últimos anos. Eu percebi e como estava tão ocupado com o trabalho não fiz nada a respeito. Me arrependo disto todos os dias agora que ele me roubou, traiu e ainda acha que está certo! Eu sei que você está do lado dele, mas...
-Espera – falei, interrompendo-o – Roubou? Poseidon, do que você está falando?
Poseidon bufou, rindo.
—Agora ele não considera mais que pegar informações secretas da minha empresa e divulga-la para um concorrente é um roubo? Ele me fez perder milhões de dólares e sabe disto. E entendo que foi um ato rebelde e tudo o mais, mas ele simplesmente passou dos limites... E eu sempre pensei que Tritão iria me dar trabalho. Deus, como estava enganado.
Juntei as sobrancelhas, totalmente confusa. Roubo? Informações secretas? Porque diabos Percy não havia me contado nada daquilo? Aquilo não era um ponto de vista, era o único ponto de vista. Estava me sentindo revoltada porque ele me contou a parte da história em que ele era o bonzinho.
Ah, Percy Jackson o adolescente injustiçado que o pai não o deixa seguir sua carreira amada. Vai se fuder!
—Eu entendo porque ele me odeia de eu caçoar a sua faculdade e profissão, mas simplesmente não consigo deixa-lo a mercê de si próprio mais. Não confio no meu próprio filho! Então, se este é um problema e se foi por isto que você não conversa mais com seu pai, me diga o que tem de tão errado em querer proteger um filho... Pois eu não sei mais o que fazer.
Olhei para os lados, revoltada. Iria matar Percy, com todas as forças. Maldito mimado idiota! Porque ele ficava brigando com o pai dele? Meu pai, o meu pai simplesmente não ligava, e sequer liga. Nunca, nunca ele iria ser possessivo porque se preocupada comigo.
—Não foi por isto que saí da Califórnia, Sr. Jackson. Fique tranquilo... Você é um ótimo pai.
Poseidon olhou para mim verdadeiramente aliviado. E eu não sabia mais o que fazer, estava entre pegar as minhas coisas e dar o fora dali ou esmurrar a cara de Percy até que se sentisse idiota o bastante para ELE se jogar de uma ponte.
Decidi fazer a segunda opção. Com um pedido de licença um tanto confuso me retirei do que poderia ser o escritório ou biblioteca de Poseidon e saí daquele pequeno corredor com as paredes em tom pastel. Sem rumo, fui andando até que impreterivelmente cheguei à sala principal.
Dali, já sabia onde Percy estava, e fui marchando até o corredor do fundo onde estavam as minhas coisas. Abri a porta de madeira e observei Percy que batia com a mão no beiral da janela, onde também estava sentado.
—Que porra foi aquela Percy?
Fechei a porta atrás de mim. Percy arqueou a sobrancelha a minha direção, bufando.
—Mil desculpas. Meu pai consegue sempre me tirar do sério. É... Revoltante.
—Não estou falando do seu showzinho na mesa, estou falando do fato que você não me contou a história toda! Que porra é essa de você divulgar informações do seu pai para um concorrente? Qual o seu problema?
A expressão dele se congelou. De uma forma que eu nunca havia visto antes. Não era tranquila ou sequer nervosa, era impassível. Percy estava impassível. Foi assustador.
—O que?- ele perguntou vários tons abaixo da minha voz. Dei um passo para trás, vacilante. Ele parecia revoltado demais e eu decidi ficar numa distância segura. Cocei meus cabelos, talvez tenha exagerado no tom de voz.
—Seu pai me contou a verdade. Ele só está decepcionado porque te ama etc etc. Sério, não acredito que você está fazendo esse drama todo porque o seu pai simplesmente se preocupa com você.
Percy continuou me olhando impassível por mais um tempo, meu coração batia mais rápido e não era de paixão. Ele estava esquisito. E realmente não fez nada por alguns segundos.
Depois, extremamente do nada ele deu um soco na parede. Meus olhos se arregalaram e minha respiração ficou falha. Nunca tinha o visto fazer aquilo antes, sequer sair dos seus ânimos. Era... Estranho.
-Eu não acredito que ele foi um cínico na sua cara! Depois de saber tudo que você passou com seu pai! E que porra! Porra! – Percy se virou, revoltado, para a janela. Passou as mãos pelos cabelos molhados, passando-os para trás — Ele ainda teve a cara de pau de tentar te deixar contra mim!
—Não, não foi isso!
—Foi sim. Foi porque ele não contou porque eu fiz tudo aquilo, contou? Porque eu fui um traidor, que é como ele gosta de chamar o meu ato “rebelde”. Uma traição. Ou ele contou? E mesmo assim você acha que ele está certo?
—Não, ele não me contou! Não me contou porque achou que você tinha me contado! Que era o que deveria ter acontecido desde o começo! Você deveria ter confiado em mim. Essa balela dele te encher o saco com a faculdade não é nem 10% da história toda. Você praticamente mentiu pra mim! Como você esperava que eu não confiasse, pelo menos um pouquinho, no seu pai?
Percy continuava olhando para a janela, inconformado.
—Não acredito que estou brigando com você por causa disto... É o tipo de coisa que me faz querer me abdicar desse sobrenome – ele bufou e se virou para mim – Annabeth. Desculpa não ter te contado tudo. A verdade é que eu queria proteger, pelo menos um pouco, a integridade da minha família. Mas você está certa, o que eu fiz foi praticamente uma mentira. Então lá vai: Eu dei as informações de uma conduta irregular da nossa empresa que nos fizeram ganhar da empresa concorrente pra quem eu dei a informação.
Minha cabeça estava confusa. Aquela história era muito, muito mais complicada do que imaginei. Retiro o que disse: famílias ricas também tinham problemas bem fudidos.
—O que?
—Descobri há alguns meses que o meu pai faz práticas irregulares para ganhar ações do mercado. Ele não rouba dinheiro de ninguém nem nada e não prejudica ninguém, mas... É ilegal. Eu odeio essas coisas. Odeio mais que tudo. Nunca me senti feliz de ter tanta grana, sempre foi mais um fardo do que uma coisa legal. E depois que eu descobri que uma parte foi ganhada ilegalmente... Eu perdi a cabeça, já estava odiando todo mundo que eu conhecia e que é desse universo de “alta sociedade”, e a verdade é que todos são uma farsa. Todos nós somos.
Me sentei na cama. Aquilo era fudido demais para... Para qualquer coisa. Percy ainda olhava para a janela, extremamente inconformado.
—Não aguento isto aqui – murmurou, indo até o guarda roupa e pegando uma bolsa azul. Não deu tempo de eu sequer perguntar para onde ele iria, acabou que o mesmo bateu a porta do quarto e foi embora. Quem sabe revoltado demais comigo para ficar e explicar melhor.
Foi a primeira vez que me senti realmente um lixo do lado de Percy. E nem era porque eu me tratei como lixo, mas sim porque eu fui mais um fardo do que um alívio pra ele. Não era assim que deveria ser um relacionamento, pelo menos não o meu.
Olhei para o chão amadeirado daquela mansão que provia de dinheiro até então parcialmente irregular, e finalmente caiu a minha ficha que eu de fato não pertencia a nada daquilo.
Minha respiração estava acelerada enquanto eu olhava envolta daquele quarto irreconhecível. E a única coisa que conseguia pensar, desesperadamente, era o que estava fazendo naquele lugar.
Um ataque de ansiedade, logo na casa das outras pessoas. Isto que eu chamo de inadequado.
Coloquei as duas mãos na cabeça, tentando controlar a respiração e os batimentos cardíacos. Mas minha mente repetia incontrolavelmente, cada vez mais alto: Você é um fardo, você é um fardo.
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