Save Me
16 Ready my mind
Notas iniciais
"I don't mind, if you don't mind, 'Cause I don't shine if you don't shine"
Fiz o que normalmente faço em momentos como aqueles. Saio desesperadamente daquele ambiente.
Saio em passos rápidos por aquela infinidade de corredores. Tentando criar coragem e não ouvir meus pensamentos que gritavam desesperados por atenção. Tudo ao meu redor era como um vulto, tudo que eu queria era sair. Sair.
Puxei o ar em meus pulmões, percebendo que tinha chegado num lugar que eu não fazia ideia de qual era. Balancei a cabeça, confusa e sem saber como voltar de onde saí.
Virei os calcanhares, dando meia volta e batendo de cara com Anfritite, que pareceu ler minha situação deplorável em poucos segundos, e talvez já soubesse que eu e seu enteado tivemos uma discussão.
—Annabeth, minha querida, o Percy está ali – ela apontou para um prédio relativamente afastado, à esquerda. Parecia preocupada, mas eu não estava de fato em condições de me compadecer com outros naquele momento.
Observei aquele prédio, que parecia mais com um galpão, tentando buscar coragem em algum lugar que parecia não existir. Mas eu estava ali, tinha conseguido, certo? Minha mente não tinha ferrado de vez com tudo.
Percebi que Anfritite ainda me observava, suas mãos entrelaçadas e repousadas perto dos joelhos, tinha um mínimo sorriso no rosto.
—Tem uma bolsa rosa do lado de fora do prédio, você vai achar. Te aconselho a usá-la.
Então ela continuou andando em direção que eu honestamente não sabia para onde chegava. A verdade é que estava numa encruzilhada: Ou eu, pela primeira vez na vida, batia de frente com meus problemas e ia no suposto prédio que Percy se encontrava, ou eu fazia o mais cômodo e andava perdidamente pelo sítio gigantesco até achar a saída.
Respirei fundo, pensando que naquele mesmo dia eu e Percy estávamos na praia, felizes, e finalmente resolvemos nossas indecisões.
Naquele momento, Percy não tinha sido um covarde, então eu não deveria ser daquela vez.
Respirei fundo, indo em direção ao prédio.
Era escuro.
E não muito atrativo, como os outros espaços do sítio.
Anfritite tinha razão, era realmente fácil achar a bolsa rosa. Ela ficava numa estante de madeira que se encontrava na parede de fora do galpão. Mas no caso eu não fazia ideia do que tinha dentro dela até visualizar um vulto negro há alguns metros de mim quando entrei no prédio.
O teto era baixo, e as luzes amareladas, tinha um aspecto um pouco abandonado, mas parecia um lugar interessante para esvaziar a mente.
Assim que percebi claramente o que Percy fazia, lembrei-me dele cuidando dos meus machucados na minha luta acirrada com Clarisse Le Rue.
Percy socava assustadoramente forte um saco de boxe. Usava somente um calção que eu reconheci prontamente como sendo da Velocity, uma academia de lutas marciais bastante famosa em Nova Iorque.
Ele não percebeu minha presença, e pelas minhas experiências, sabia que não perceberia tão cedo.
Abri o zíper da bolsa, e percebi que tinha roupas de ginástica. Visualizei uma portinha à esquerda que institivamente acreditei ser o banheiro.
Confirmei o instinto assim que empurrei a porta, uma luz esbranquiçada incomodando minha visão. As roupas de Anfritite eram rosa, o que não eram muito a minha praia, mas serviram com perfeição.
Saí do banheiro ajeitando o cabelo. No único tatame do local Percy continuava socando, ecoando por todo o lugar. Fui andando em sua direção, no centro, em que ele estava de costas.
Curvei-me entre as cordas e senti o tatame, como sempre fiz em meus anos de treino. Aquele era seco... Se você caísse ali, teria um machucado mais feio do que o normal.
Coloquei uma das mãos em seu ombro, e automaticamente senti um tapa no meu antebraço, Percy se virou instintivamente.
—Então você realmente lutava – constatei – Achei que era conversa para impressionar a lutadora nata.
Sorri, tentando ignorar tudo que havia se passado uma hora atrás. Ele estava suado, pingando, e parecia melhor humorado.
—Então normalmente garotos se intimidam com você, acertei? – ele deu um belo sorriso de lado.
Acabei de prender meus cabelos, tentando não me prender aos seus músculos, que estavam evidenciados naquele momento injusto, pós- treino.
—Não os julgo – sorri, tentando esconder principalmente os momentos estranhos que tinha acabado de passar. E ali, com Percy, percebi que eles haviam se coberto como névoa, assim como todos os meus pensamentos negativos. Ele era um corretivo tampando tudo de ruim que se passava, deixava todas as minhas inseguranças num cantinho escuro da minha mente.
Tirou as luvas de boxe lentamente, e sua expressão se fechou. Provavelmente se lembrando do porque estava ali, da nossa briga anterior. E, honestamente, não queria discutir a relação naquele momento.
Por isso, enquanto ele jogava as luvas num canto do tatame, corri em sua direção, pegando em seus antebraços e mobilizando seu corpo.
—Sim, você acertou- sussurrei, e percebi que ele sorriu. Seu pés fizeram um peso pra baixo. Ele me jogou contra suas costas e me fez cair do outro lado do tatame.
Normalmente isso quebraria algumas costelas, se claro, eu não soubesse cair da forma certa.
Lembro-me de Quíron, sempre dizendo, “aprenda a ser feroz como um leão, mas cair como um mero gatinho”.
Quando Percy foi em direção ao meu braço, rolei para o lado. Levantei-me rapidamente e diferi um chute de lado, observando seu olhar surpreso enquanto desviava com um braço.
—Você joga bem, mas eu sempre ganho – disse. Dei um sorriso irônico.
—Pode até ser, mas o problema é que eu nunca perco.
Reagimos na mesma hora, indo em direção um do outro. Percy não queria me bater, então tentou me mobilizar pelas pernas. Para seu azar, as pernas sempre foram meu forte. Acabei desviando, em seguida tentei mobilizar seu braço, torcendo-o para dentro. Para meu azar, parecia que Percy era especialista em jiu-jítsu, pois cinco segundos depois me vi estatelada no chão, seus joelhos pressionando minhas pernas.
Sorri, poderia tentar me livrar dele. Mas honestamente, não queria. Seu rosto estava a poucos centímetros do meu, e seus olhos estavam diretamente em minha direção.
Ficamos alguns segundos em silêncio, e por fim o próprio Percy desmontou sua posição. Sentando-se ao meu lado.
Ele, assim como eu, respirava fundo. Sentei-me, observando melhor o ambiente ao meu redor. Estávamos no tatame, que era o meio do galpão. Na parede bem à nossa frente tinha uma bandeira gigantesca da academia de luta que Percy provavelmente treinava.
—Vai ser assim? Vamos lutar, literalmente, sempre que tivermos um problema? – perguntou Percy. Mordi a parte de dentro da minha bochecha.
—É uma boa estratégia de reconciliação – disse ironicamente. Honestamente, não conseguia imaginar um relacionamento duradouro com Percy. Não conseguia imaginar eu e ele depois de anos, vivendo felizes.
Posteriormente, descobri que não conseguia imaginar nós dois juntos no futuro porque sequer conseguia me imaginar em qualquer futuro. Passei a mão pelos meus braços, retirando a camada fina de suor.
Decidi que deveria voltar naquele assunto terrível, até porque, não poderíamos evitar para sempre.
—E só eu sei disto, não é?- perguntei, respirando fundo- Anfritite, e Tritão...
—Eu não tenho coragem. Isto podia acabar com a gente, com toda nossa família. Não sou tão desapegado assim a todo mundo. Eu amo Tritão, ele é meu irmão, e a empresa dele...
—Foi patrocinada com o dinheiro do seu pai – respondi, pensativa. Percy concordou.
—Tritão nunca se perdoaria – falou Percy.
Não poderia imaginar o fardo nas costas dele, e como deveria se sentir estranho em não contar aquilo para todo mundo, como se compactuasse com seu pai. Mas ao mesmo tempo, era a melhor coisa a fazer.
—Estou me sentindo terrível por ter desconfiado de você – disse, e era um eufemismo. Não estava me sentindo terrível, estava me sentindo mais que terrível. Eu, sinceramente, queria me matar.
Percy negou com a cabeça, como se não concordasse com uma só palavra que eu dizia.
—Eu que não deveria ter gritado, nem sequer ter te deixado aqui com todos estes problemas que estou tendo– ele suspirou – Você não precisava ter se estressado com os meus problemas.
Alguma parte dentro de mim tinha se incomodado profundamente com seu tom. Como se eu não estivesse em condições mentais para ajuda-lo com seus problemas. Depois percebi que o que me incomodava, verdadeiramente, era o fato que ele tinha razão.
Tudo estava confuso dentro de mim, até que Percy pegou no meu queixo, fazendo-me olhar diretamente em seus olhos.
—Esta uma hora foi a pior coisa que aconteceu comigo em séculos. A ideia de você não estar comigo... – ele abaixou a cabeça, meu coração bateu mais rápido do que eu queria – Eu te amo, Annabeth... E eu não sabia o que era amar alguém até te encontrar, então obrigada por isso.
Meu coração se afundou, minha respiração estava descompassada. E eu sabia que aquelas três palavrinhas mexeram com algo no fundo do meu estômago.
—Eu... – olhei para seu rosto, que esperava alguma reação diferente do que eu tinha. Mas estava confusa. Juntei as sobrancelhas – Também te amo.
Sorri, mas aquilo foi estranho. Talvez fosse porque eu nunca tivesse dito aquilo pra ninguém antes na vida.
— Sinto algo que eu não se explicar, obrigada por isso também – respondi. E daquela vez não parecia nada estranho. Percy sorriu também, e aquele mínimo sorriso de três segundos me faria repetir que e o amava para sempre.
Muito clichê, eu sei, mas infelizmente quando você gosta de alguém de verdade, os clichês aparecem eventualmente, trazendo sentido a tudo que você sente.
Percy apoiou o cotovelo no tatame, sorridente.
—Que sensacional a gente ter admitido todos estes sentimentos, porque você vai me odiar daqui a cinco segundos – olhei para ele, arqueando uma sobrancelha.
—O que foi?
Percy deu uma breve risada.
—Anfritite quer fazer uma festa, hoje à noite.
—Não! Uma festa? – abri os braços – Como assim? Ela viu a briga de vocês e pensou, “Ah, que ótimo clima para se fazer uma festa”.
Percy gargalhou mais um pouco, e até eu acabei sorrindo um pouco também. Mas a verdade é que Anfritite era realmente a pessoa mais louca daquela casa. Normalmente, não é assim que as famílias lidavam com seus problemas.
—É um jantar, só para os amigos que estão aqui nos Hamptons. Então você se prepare, vão vir só as melhores companhias – conseguiria sentir o tom irônico de Percy em 200 milhas de distância.
Deitei-me ao seu lado no tatame, e sorri quando vi suas covinhas nas bochechas. Mais uma vez me veio àquela sensação que ele no fundo, não estava realmente chateado ou preocupado com nada.
Ele me deu um selinho antes de se levantar. Estendeu sua mão e disse:
—Você até luta bem, mas sabe como é... Sou da arte suave – sorriu, e eu peguei em sua mão, me levantando também.
—Jiu-Jítsu não é nada no MMA comparado com um bom judô. Que, aliás, não usei por ter um grande apreço pelo seu rostinho.
Percy pegou na minha cintura, senti suas mãos pesadas descendo pela minha bunda até minhas coxas. Uma de suas mãos por fim subiu até minha nuca, me puxando para um beijo de tirar o fôlego. Sua língua aprofundou-se enquanto seu toque ficou violento na medida certa.
Vou ser honesta e isto não me orgulha: Senti meus joelhos cederem, e meu corpo se desfalecer se apoiando totalmente nele. Sua boca foi até meu pescoço, dando selinhos até chegar à minha orelha.
—Talvez este seja o melhor jeito de ganhar uma luta – sussurrou, fazendo meus olhos se fecharem. Sorri enquanto entrelaçava meus braços em seu pescoço.
—Se sempre acabar assim, deixo você vencer pra sempre.
Ele riu, e acabamos nos separando. Fomos andando, ainda abraçados de lado, até fora do galpão.
Pela primeira vez, conseguia me ver fazendo aquilo por muito tempo. Treinarmos juntos, e sairmos juntos de uma luta, abraçados daquela mesma forma. E claro, se possível, ele sempre estaria sem camisa. Exatamente daquela forma extremamente pecaminosa.
E entendi o ponto de Sally, a mãe de Percy, em querer coloca-lo nas lutas.
Normalmente Percy tem um tipo de masculinidade que é sensacional, acredite, mas diferente. Com suas roupas de grife, ele traz um ar de superioridade humilde que eu não sei como explicar. Talvez esta seja a definição de elegância.
Mas quando lutava, Percy era simplesmente ele. E que homem. Parecia que exalava todas as suas emoções, e deixe a elegância de lado. Ele era simplesmente animalesco no tatame.
Sempre gostei das duas formas, mas a segunda me atraía mais pelo fato dele ser exatamente daquela forma na cama. E enquanto andávamos para dentro da casa, esperando encontrar com algum familiar de Percy. Coisa que, felizmente não aconteceu, refleti muito para saber se era o melhor ou não dizer o que eu disse assim que ele abriu a porta do quarto.
—Você, hum, está indo tomar banho? – Percy expirou com força, parecia não gostar das suas opções.
—Aparentemente uma dúzia de milionários dos Hamptons chegarão aqui em algumas horas, então... – mordi o lábio inferior. Percy inclinou a cabeça, dando um sorrisinho enquanto tentava me entender – O quê? Você está vermelha.
Seu comentário fez minhas bochechas arderem mais. Tateei uma mesinha de madeira que ali estava.
—Não sei, não quero ser uma dívida para seus pais. Melhor economizar a água.
Meu sorriso malicioso apareceu sem eu querer. E Percy finalmente entendeu aonde eu queria chegar. Ele coçou os cabelos, e em seguida pegou uma toalha azul marinho que estava encima da cama.
Apontou para o banheiro.
—Deixarei a porta aberta... Caso precise de alguma coisa, claro – concordei, ironicamente.
—Sim, obrigada... Pela atenção, claro. – Ele concordou, sorrindo sapeca e entrando num banheiro que parecia maior do que meu quarto.
Depois de alguns segundos, ouvi o barulho do chuveiro. Consegui imaginar muitas coisas, mas decidi ver para crer.
O banheiro era todo de mármore branco, o que me fazia pensar quanto de dinheiro os Jacksons tinham, literalmente, 500 milhões? Um bilhão? Não fazia ideia.
Tirei o top rosa de Anfritite, deixando-o no caminho do banheiro. Andei mais dois passos e tirei o short. Virei-me e vi Percy no fundo, esfregando seus cabelos.
O box era dourado assim como o chuveiro, o que era algo realmente inovador.
Honestamente, observando novamente os detalhes do banheiro, a chance da torneira e do acabamento do vaso serem de ouro era mínima, mas existiam.
Tirei o prendedor do meu cabelo, soltando-o e vendo que eles caíam em queixos até um pouco acima dos meus seios. Quando olhei novamente para o Box, percebi que Percy olhava para mim.
Seu corpo estava molhado assim como seus cabelos, impecavelmente jogados para trás. Cada parte do seu corpo me era atraente, desde seus braços fortes até o abdômen definido.
Andei mais até sua direção, colocando a mão na maçaneta do Box. Percy me observava enquanto acabava de lavar os cabelos.
Por fim, tirei a calcinha. Afastando-a com o pé. Arrastei o vidro lentamente, sentindo o ar quente do chuveiro. Coloquei um dos pés na água, e o outro foi puxado pelo fato de Percy me pegar pela cintura, me colocando na reta do chuveiro.
—Você demorou – disse, passando a mão pelas minhas bochechas. Sorri.
—Observava a vista.
Ele arqueou as sobrancelhas, pegando o sabonete em seguida. Suas mãos pesadas massagearam meus ombros, passando o sabonete naquela direção até chegar aos meus seios.
Os olhos de Percy estavam num verde musgo. E eu percebi que era a primeira vez que fazíamos as coisas realmente com calma... Muita calma.
Lentamente, ele passou a mão na minha barriga, fazendo-me arrepiar os braços. Agilmente, ele me virou. Colocando-me contra a parede do banheiro.
Passou as mãos nas minhas costas, carinhosamente até chegar às minhas pernas. Claro, não antes sem passar na minha bunda. Mas eu não sentia malícia em seu toque, era somente carinho. E aquilo me deixou feliz como uma boba apaixonada.
Ele beijou meu ombro, e acabei fechando os olhos. Virei-me para beijar seus lábios, sentindo os jatos de água molharem meus cabelos.
Eu e ele tínhamos um toque que era inexplicável. Estava viciada em seu corpo, nunca me cansava, sempre queria mais. Mas daquela vez, eu não fazer algo devasso, depravado. Daquela vez, queria somente abraça-lo.
E foi o que eu fiz.
Honestamente, a vontade que tive era de chorar.
E não era de tristeza, sequer desânimo. Era de chorar por algo que eu não sabia bem o que era, mas tinha um quê de felicidade. Por ele estar ali, me dando seus ombros para eu poder me encostar, seu corpo para eu abraçar. Sua mente, para compartilhar.
E no fundo, queria chorar por querer chorar por tudo aquilo. Estava assustada com meus próprios sentimentos, que chegaram numa hora tão inoportuna.
Seu dedo indicador fazia círculos nas minhas costas, e seu nariz fungava meu pescoço, ele também parecia querer compartilhar parte do seu peso comigo. Estava feliz dele confiar em mim.
—Te amo – ele sussurrou mais para ele do que para mim. Mas eu ouvi, ouvi e me senti reconfortada.
Daquela vez, foi como ser adolescente novamente. Transamos exatamente como dois adolescentes. Vagarosamente, sentindo tudo como a primeira vez.
E senti que tinha feito do jeito certo, pois era a primeira vez que sentia o que era transar com alguém que te ama. E a sensação é muito melhor.
Depois de tomarmos o nosso banho, Percy me enrolou na sua toalha azul felpuda, e pegou uma toalha branca para secar seus cabelos. Pegou em minhas mãos e me puxou para a cama.
—Vamos cochilar, foi um dia e tanto – ele apoiou sua cabeça num dos travesseiros. Estava em silêncio, parecia em paz.
Deitei-me ao seu lado. E dormimos, com as mãos e pernas entrelaçadas.
Quando apareci na festa, parecia que ela já estava no meio. O fato é que o cochilo meu e de Percy foi mais que um cochilo, foi meio que uma noite de sono.
Quinze minutos antes da festa começar Anfritite bateu na porta, nos chamando para receber as visitas. No caso, acordamos assustados e atrasados com a hora.
Outro detalhe, eu e Percy demorávamos em nos arrumar, que por fim, nos fez perder o jantar e chegar à festa no momento que os convidados já se confraternizavam na sala de estar.
Um jazz romântico ressoava pela sala. E eu percebi que aquela parecia à reunião da alta cúpula. Todos ali pareciam incrivelmente milionários.
A sala estava num tom escuro, com as luzes alaranjadas bem fracas. Tinha velas nas mesas e o requinte daquele lugar me fez sentir estranha de usar somente uma saia de pregas e uma regata.
Os sofás brancos no meio da sala estavam tomados pelas esposas, que com suas pernas cruzadas e vestidos impecáveis pareciam ter aquele ar superior que me enojava.
Percy me puxou até Tritão, que estava estranhamente sozinho.
—Aliás, parabéns para mim que fui proibido de me confraternizar numa festa- comentou ele, revoltado.
Ri, sem entender nada do que ele dizia.
Enquanto Tritão explicava para Percy como seus pais eram uns ditadores, e para não repetir a cena genial, acredito eu, da última festa, foi expressamente proibido em confraternizar com qualquer pessoa, percebi o quão parecido ele estava naquele momento com seu irmão. Os dois usavam blusas sociais da mesma cor, uma falha do destino, acredito. Blusas azuis marinhas que destacavam a cor verde dos olhos de ambos. A diferença era que a de Tritão era uma lisa, enquanto a de Percy tinha botões brancos.
As duas blusas custavam mais que o aluguel da minha casa, já que percebi serem as duas do Tommy Hilfiger. A diferença estilística entre os dois talvez fosse o relógio de ouro que Tritão esbanjava em seu punho esquerdo, relógio este que me lembrou das várias joias que Anfritite ostentava em seus braços na última festa.
Percy parecia mais simples, sem acessórios. Somente sua blusa azul e uma calça caqui. Combinação de muito bom gosto, aliás.
—Você quer uma bebida? – perguntou Tritão, oferecendo seu corpo de cerveja. Sorri.
—Depende, seu pai costuma encher o saco?
Tritão riu, olhando para Percy em procura de explicações.
—Como assim?
— Só tenho vinte anos- respondi, observando as pessoas que conversavam num tom baixo. Tritão riu. Percy arqueou uma sobrancelha, talvez se esquecendo deste mero detalhe.
—Sério? Percy, você tem tanta sorte... Vou pegar uma batida sem álcool para você, então – ele saiu do seu banco e deu três passos para à esquerda. Depois girou os pés e suspirou.
Percebeu que Anfritite o observava mortalmente, e Tritão acabou chamando Percy para acompanhá-lo. Ri, sentando-me num banquinho ao lado do que Tritão estava.
Poseidon e seu clube dos milionários pareciam animados numa conversa chatérrima sobre economia. Entortei a boca quando percebi que um de seus amigos tinha feito mais plástica no rosto do que todas as Kardashians fizeram juntas na vida.
Estava desnorteada com a péssima expressão que o homem fazia quando senti um toque em meu ombro, uma mão longa e ossuda.
Virei-me e me preocupei logo em seguida.
Pelo que parecia, Calipso fazia parte da alta cúpula convidada para a festa. E porra, ela estava linda. Como sempre. Incrivelmente alta e magra e essas coisas que modelos normalmente são.
—Olá... Annabeth. Certo?
Sua voz era suave e aveludada. Estava com medo dela não ter defeitos. Levantei-me e a cumprimentei.
—É ela. E você é a Calipso.
Ela juntou as sobrancelhas.
—Você me conhece?
Quase disse que Thalia achava que ela era namorada de Percy, mas percebi logo em seguida que era uma péssima ideia.
—Você é uma modelo famosa – falei, sorrindo. Ela concordou e parecia surpresa e feliz de alguém reconhecê-la. Depois, fez o que deveria ter sido uma careta. Deveria, digo eu, pois ela continuou bonita.
—Droga, eu queria não estar gostando tanto de você agora – respondeu. Arqueei as sobrancelhas, observando seu vestido branco. Caía muito bem no corpo dela, parecia ser um vestido Gucci da última estação.
—Ah é? E porque você não deveria gostar de mim?
Sabia perfeitamente porque ela não deveria e provavelmente não gostava de mim, mas sempre gostei de confirmar minhas ideias antes de comprá-las. Ela mudou seu peso do pé direito para o esquerdo. Sorriu com escárnio.
—Sabe como é... Já namorei o Percy.
Pisquei, sendo falsa no mais alto nível.
—Ah, é mesmo? – perguntei, fingindo estar surpresa. Ela, porém, parecia confusa.
—Ele não te contou?
Dei de ombros.
—Não que eu me lembre.
Ela concordou com a cabeça, parecia decepcionada. Em seguida pegou uma taça de champanhe que passava à nossa esquerda. Bebeu tudo de uma só vez.
—Sabe, Annabeth. Eu era exatamente igual a você quando comecei a namorar o Percy. Impressionada, entusiasmada. Sempre me perguntando se tudo isto é verdade, ou um grande sonho... Mas quer saber de uma coisa, isto aqui é mais um pesadelo.
Juntei as sobrancelhas, não gostando nenhum pouco do rumo de nossa conversa.
—Quando namorei Percy, estava começando minha carreira de modelo. E foi maravilhoso, tudo se conciliou tão bem... Estávamos realmente gostando um do outro. E toda esta realidade, me era tão confortável... Tão lindo, não é? Todos tão elegantes...
Ela suspirou. Bebeu mais um gole de outra taça.
—Onde você quer chegar? – perguntei já cansada de toda aquela conversa.
—Não era madura o suficiente para estar com ele. Só tinha dezenove anos na época. Depois de um tempo comecei a me sentir meio excluída. Ele tinha uma vida tão agitada, e eu ainda tinha muita coisa a provar. Comecei a problematizar nossa relação, e ele não importou de se afastar... Quando percebi que não queria ficar longe dele era tarde demais. Ele já tinha conseguido algo melhor pra fazer. Outra mulher, outro país.
Ri com escárnio.
—E você com sua boa alma vem me dar o conselho de sair de perto dele? – perguntei. E dessa vez ela que riu, verdadeiramente. Poderia soar maléfico, se ela não fosse tão bonita.
—Oh, não. Claro que não. Depois de falar que me arrependi de ter sido tão ingênua? Não... Eu o quero de volta. Sempre quis.
Olhei nos seus olhos, que tinham uma cor tão aveludada. Ela tinha ótimos traços. Conseguia visualiza-la perfeitamente num desfile de alta costura.
—E agora seria diferente por que...
—Porque agora eu estou madura. Agora estou com minha vida feita, sou uma modelo conhecida. Agora eu consigo lidar com o Percy, e com sua família, e todo o resto. Sabe, eles são mais complicados do que se pode imaginar – ela chegou mais perto de mim, e sussurrou:
—Milionários vivem num mundo diferente do nosso.
Sim, aquilo eu tinha que concordar. E por causa daquilo, vacilei. Não me sentia madura o suficiente para lidar sequer comigo mesmo. Olhei para Calipso e sua altura louvável assim como sua beleza estonteante. Ela e Percy seriam o melhor casal.
—Annabeth, agora sim é um conselho, pois você parece ser uma garota legal: Ele me descartou, foi ridículo. Era como se eu não fosse nada para ele, e isto porque a sua vida é muito maior do que nós. Muito maior do que eu. Ele me usava quando era conveniente, quando queria parecer o filho de Poseidon, elegante e fino. E agora está te usando, fingindo ser rebelde, fingindo ser livre. Mas você não parece apta a aguentar tudo isto, você acha que aguenta?
Meu coração batia a duzentos por hora. Ela tinha razão, em cada palavrinha que saiu de sua boca. Ele queria parecer rebelde, ele queria parecer melhor do que seus pais e todas aquelas pessoas. Estava cansado, foi à primeira coisa que me disse quando me conheceu.
Talvez estivesse me usando, assim como eu o usava como via de escape. Mas o fato é que, se aquilo fosse de fato verdade. Eu não aguentaria, não aguentaria a rejeição.
Calipso sorria em minha direção, e eu sabia que minha expressão não estava das melhores. Então ela conseguiu, me atingiu bem em meu ímpeto.
—Boa sorte- sussurrou Calipso, girando os calcanhares e desfilando como modelo até uma amiga mais próxima. Coloquei a mão na testa, sentando-me novamente na mesinha. Alguns segundos depois, Percy e Tritão chegaram com bebidas.
E quando olhei em suas direções, suas blusas de marcas e suas risadas chamativas, foi como se eu os olhasse pela primeira vez. Aquela cena me marcou, e nunca senti que não conhecia Percy mais do que naquele momento.
Meu coração parecia vazio, Calipso tinha mexido com algo bem importante dos meus sentimentos, me deixando confusa e incomodada.
Percy me ofereceu a bebida, que apenas peguei de sua mão. Ele beijou minha testa, e por algum motivo aquilo me deixou ainda mais triste.
Cheguei perto do seu ouvido, e sussurrei:
—Você me disse que nunca tinha amado ninguém. É verdade mesmo? – perguntei, e Percy parecia confuso de me ouvir perguntar aquilo. Talvez não esperasse meu acesso de insegurança. O fato é que sequer eu esperava aquilo.
Por fim ele sorriu.
—Verdade absoluta.
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