Save Me
17 Creep
Notas iniciais
“You're so fucking special, I wish I was special, But I'm a creep, I'm a weirdo”
Eu e Thalia precisávamos trocar aquela maçaneta urgentemente. Respirei fundo e joguei os cabelos para trás, fazendo mais força com a chave para girá-la por completo.
Joguei meu ombro na porta e finalmente ela abriu. Expirei finalmente, puxando a mala gigantesca que levei para o sítio dos Jacksons.
—Thals, cheguei! – gritei, percebendo que o apartamento estava estranhamente calmo. Puxei a mala mais para o centro da sala. Thalia apareceu no corredor, os olhos esbugalhados. Parecia tão pálida quanto papel.
Deixei minha mala de lado.
—Aconteceu alguma coisa? Você tá bem? Quer dizer, você fumou alguma... – ela abriu a boca, mas nada saía.
—Desculpa, ele forçou a entrada, eu...
Juntei as sobrancelhas, não entendendo nada do que Thalia dizia. Até que meu coração afundou e começou a pesar como chumbo, e uma figura horripilante apareceu no meu corredor.
—Desculpa, Annie...
Eu não ouvi nada depois disto, meu coração batia disparado. Minha respiração estava descompassada, eu sentia tudo ao mesmo tempo e sabia que era uma das minhas piores crises de ansiedade.
—Pai? – perguntei, mas não sabia exatamente o que saía da minha boca. Não estava raciocinando muito bem.
Sim, era o meu pai. Eu não precisava perguntar, reconhecia seu olhar gélido e seu cabelo loiro em qualquer lugar. Ele me olhava sem emoção, por trás dos seus óculos absurdamente iguais aos de anos atrás.
Thalia olhou para nós dois, parecia preocupada.
—Eu... Vou deixar vocês a sós – disse, coçando os cabelos e saindo em disparada para seu quarto, que trancou logo depois.
Meu coração continuava disparado, eu não o via há anos, e achei que não o veria nunca mais na vida.
—Sabe o que eu tive que fazer para te encontrar? – ele perguntou, e parecia estranhamente bravo. Minha boca estava seca, eu não sabia o que dizer.
Ele balançou a cabeça, olhando em volta.
—O que é isso aqui? – perguntou, gesticulando ao redor da casa. Depois percebi que ele não só parecia bravo, estava de fato muitíssimo enfurecido.
—Eu moro aqui.
—Eu percebi! – gritou – Não acredito que você saiu de casa pra isso! Você acha que eu não vi as drogas no seu quarto? Que não vi as camisinhas no seu quarto? O que você virou, porque minha filha você não é!
Minha cabeça estava a mil. Não era daquele jeito que eu queria encontrar meu pai, não era assim que eu tinha planejado sair de casa. Meus olhos encheram de água.
—Que bom que você já está de malas, porque você vai voltar para São Francisco comigo, agora!
Foquei meus olhos nele.
—Não vou não!
Seu rosto estava vermelho, quase roxo. Ele veio correndo em minha direção, pegou forte no meu braço.
—Demorei quase um ano pra te encontrar! Achei que você tinha sido molestada ou que tinham feito algo de muito feio com você, e no caso você é uma prostituta! Você quer que façam isso! Se você não voltar para casa agora esqueça que eu sou seu pai!
Puxei meu braço, enraivecida.
—Eu já esqueci há muito tempo, pode ficar tranquilo! – gritei – Sai da minha casa agora, eu não quero ir pra porcaria da sua casa pra porcaria da sua esposa me espancar, seu lixo!
Seus olhos se arregalaram, e eu percebi que ele não achou que poderia ser confrontado daquela maneira. Mas ele nem era meu pai mais, ele não era nada.
—Eu tenho outros filhos pra cuidar- ele disse, ajeitando os botões da sua blusa – Todo mundo me falava que você tinha um gênio difícil, personalidade forte. Eu nunca acreditei, sempre achei que você seria uma pessoa importante.
Ele deu passos em direção à saída do apartamento. Colocou a mão na maçaneta, porém se virou.
—Sua madrasta estava certa, você é só uma vagabunda. Não me procure quando estiver morrendo, não vou pagar reabilitação nenhuma.
Ele bateu a porta com força, fazendo com que uma poeira caísse do teto. Eu senti que tinham me dado um soco na barriga, com tanta força que eu perdi o ar. Meu coração batia disparado e eu queria morrer.
Quando saí de casa pensava em reencontrar com meu pai, sim. Mas eu seria tão boa quanto ele, e quando eu jogasse na sua cara o quão bosta ele foi na minha vida, eu seria melhor. Superior.
E eu estava ali, Nova Iorque só me destruiu. Ele estava certo, eu não era uma pessoa boa. Eu era só uma pessoa destruída como qualquer outra pessoa perambulando confusa pela cidade, humilhada.
Que merda eu estava fazendo ali? Vivendo sem viver, eu me odiava. Me odiava. Odiava tudo que eu tinha criado pra mim mesma, e agora meu pai chegava e me humilhava porque ele podia, porque de fato eu só piorei desde que saí da sua casa.
Só percebi depois de minutos o quanto eu chorava, meu peito doía assim como minha cabeça. E eu não aguentava mais aquilo, eu odiava tudo.
Não pai, você não tem que pagar minha reabilitação quando eu estiver morrendo.
Eu já vou estar morta há muito tempo.
Saí correndo pra cozinha. Minhas mãos tremiam como se eu tivesse Parkinson, abri a terceira gaveta e peguei a faca. Fechei meu punho esquerdo, tremendo com raiva de mim mesmo e do mundo e do fato de eu ter nascido nesta bosta de lugar.
Enfiei a faca no meu pulso, cortando até que pelo menos aquela dor suprisse todos os meus pensamentos.
—Annabeth! – gritou Thalia do meu lado. Tirei a faca, começando a chorar desesperadamente. Ela pegou a faca, percebendo o sangue e olhando pra mim atordoada. – O que você fez?!
—Desculpa – disse, chorando. Ela jogou a faca longe, observando meu pulso. Percebi que ela chorava, e era a primeira vez que eu a vi chorando – Desculpa.
[...]
Thalia observava tudo como se fosse à coisa mais trágica, porém mais magistral da sua vida. A vida. Era aquilo que ela sentia naquele momento, potencialmente mais bem vivida. E ela tinha que valorizar, depois de tudo que aconteceu.
Sua exposição estava um sucesso, mesmo sendo somente uma exposição de faculdade. Ela sabia que era um trabalho bem feito, e somente isto já tinha a deixado satisfeita consigo mesma.
Nico se aproximou, por mais que zoasse com Thalia, ele sabia o quanto Luke havia a melhorado, e o quão feliz ela estava com ele.
Nico me olhou, parecia preocupado.
Era sempre assim com ele e com o Leo desde o acidente na cozinha, e por mais que fosse tudo que eu não queria, que eles me olhassem como uma esquisita, era bom. Não era terrível ter os meus amigos se preocupando comigo.
—E aí, como você está? – perguntou Nico, me abraçando pela cintura.
—Acho que você deveria perguntar isto para a Thalia. Ela é a estrela da noite – Nico riu.
—Você é a estrela de todas as noites – respondeu, me observando. Percebi que era uma brincadeira, por causa do vestido azul brilhante. Ele passou um fio do meu cabelo de um lado para o outro, e mordeu a parte de dentro da bochecha – Você não tem muito tempo mais para fingir que ele não existe, o que vai fazer?
Observei uma bandeja de taças com bebidas, suspirei. Malditos antidepressivos.
—Já sei o que vou fazer – respondi vagamente, Nico estava satisfeito com a resposta. Bebeu um gole do que parecia ser vodca, e eu respirei fundo, ansiosa.
Nico parecia ter sido um belo de um adivinha, pois assim que me virei Luke Castellan e Percy Jackson entraram no lugar, pareciam animados e como sempre, bem humorados com a vida.
Percy usava um belo terno Armani, preto e bem cortado. Por baixo somente uma blusa branca de botões.
—Vamos cumprimentar – sussurrou Nico, me puxando delicadamente justamente pelo meu pulso cagado, tampando o curativo. O que me deixou aliviada e agradecida.
Luke me observou por um segundo e puxou Percy pelo ombro, que estava virado para o outro lado. Então foi como uma forte onda elétrica, me atingindo em cheio, me revivendo novamente.
A sensação era viciante.
Quando os dois me observaram, me senti ainda mais esquisita. E fiquei me perguntando se eles sabiam de alguma coisa, o que era teoricamente impossível porque Thalia me prometeu que não contaria nada.
Nico cumprimentou Luke, e os olhos verdes de Percy caíram diretamente na direção do meu pulso. O que me fez perceber que 1, Thalia não tinha contado. E 2, não importava porque Percy já tinha sacado tudo em dois segundos.
—Tem que começar da esquerda pra direita- falei, apontando para os slides, quadros, eu não sabia bem dizer. Luke assentiu e deu um beijo em minha bochecha.
—Onde ela está?
—Onde está horrivelmente cheio – falei, sorrindo. Ele assentiu, saindo atrás dela igual um louco apaixonado.
Nico olhou para mim, e depois para Percy.
—Eu vou ver se acho o Leo – falou, saindo correndo também. Porém ele era de medo mesmo, revirei os olhos. Cagão.
—Da esquerda? – perguntou Percy, apontando para trás. Assenti – Vamos?
Abri a boca, tentando falar tudo que estava ensaiado. Mas percebi que seria bom ter um momento de paz. O lugar da exposição do trabalho de faculdade de Thalia era muito legal, além de ficar perto do Central Park, o que já era prestígio suficiente pra muita coisa, também estava cheio de pessoas mais velhas, o que significava que era realmente bem feito.
Thalia tinha feito uma pesquisa sobre o marketing nas organizações não governamentais e outras coisas assim, eu não sabia bem explicar. Mas era bonito as fotos e as frases, e principalmente o local. Todo de vidro, com aquela luz roxa. Me deixava extasiada.
Vimos o primeiro slide, eu pela segunda vez. Era de uma ONG da Ucrânia, que cuidava de baleias em extinção. E ficamos observando os slides, em silêncio. E foi bom.
Quando estávamos na metade, chegamos numa exposição de um trabalho na Europa de pesquisa sobre problemas mentais. E Percy olhou para o chão, naquele momento meu coração bateu mais rápido que o normal. Eu sabia que ele não aguentava mais.
—O que foi? – perguntei, o mais doce que conseguia. Percy me olhou, parecia revoltado e preocupado e tudo ao mesmo tempo. Todos aqueles sentimentos nos seus olhos verdes, que mostravam tudo.
—Você não fala comigo há duas semanas, quer dizer... Eu tentei falei com você na última semana e fui ignorado de forma bastante fria. Pensei que era um jeito bastante ridículo de me dar um fora, até porque a gente estava bem. E eu vim pensando do caminho inteiro até aqui em diferentes formas de te matar, até que eu percebo que você já tentou fazer isso sozinha, de novo. E aí você tá me deixando ainda mais puto porque eu não estou mais com raiva de você, se é que isso faz sentido.
Ele expirou com força, parecia ter tirado uma tonelada das costas. Eu quis sorrir, pois imaginei ele falando algo parecido com aquilo, desde o começo. Mas eu não conseguia sorrir, não mais.
—Meu pai foi na minha casa, depois que você me deixou lá. Não foi legal – o antidepressivo fazia com o que poderia ser um sentimento de tristeza parecer somente um vazio. Era bom. –Minha madrasta me batia, muito. Ele nunca fez nada. Tem medo de perdê-la.
Ele me observava, impassível.
—Foi por isso que você saiu de casa?
Concordei com a cabeça, suspirando. Ele pegou no meu pulso com o curativo, massageando com o dedão. Senti um vazio ruim naquele momento, sabia o que estava prestes a fazer. E era ruim, era diferente de tristeza, era pior.
—Você está certo, terminar te ignorando seria muito errado. Por isso estou aqui. – afastei minha mão. Ele juntou as sobrancelhas- Eu não consigo fazer isso mais, Percy. Eu... Minha cabeça tá fudida, e você é como uma droga, mas de um jeito ruim. Estou te usando desde que te conheci pra ignorar tudo que eu sinto de ruim e quando algo, qualquer coisa, não tem você sendo meu príncipe encantado, tudo arruína. Eu me sinto um lixo e fico querendo me matar.
Ele deu um passo para trás, parecia desnorteado. Meu peito doía, e meus olhos se encheram da água.
—Desculpa, eu não sou mentalmente saudável pra ter um relacionamento com ninguém. Não consigo viver nem comigo mesmo. Percy, eu lamento muito por que... Eu queria te amar, mas minha mente não consegue fazer isso.
Eu estava chorando na exposição da Thalia e me odiava por aquilo. Tirei minhas lágrimas do rosto, respirando fundo. Olhei para ele, esperando que dissesse alguma coisa. Que me convencesse do contrário. Mas ele não dizia nada, ele sequer olhava na minha cara. Fiquei segundos o encarando, esperando algo. Foi a vez dele respirar fundo.
—Isso dói mais do que eu imaginei – falou, e por fim olhou pra mim. E na boa, foi horrível. Olhar pra ele depois de tudo que eu disse, sabendo que ele não era mais meu. Foi a pior sensação do mundo. Deu um passo na minha direção, pegando novamente no meu pulso.
—Eu ainda te amo – disse, beijando minha testa em seguida, depois pegou nos meus ombros. Seus olhos verdes estavam muito perto dos meus, e me encaravam tanto, pareciam que me desvendavam e que me conheciam por completo.
Depois, ele deu um passo para trás, se virou, e foi embora. E eu o observei indo, me deixando. Era esquisito porque sabia que tinha feito a coisa certa, mas não foi nenhum pouco gratificante.
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
1 Coríntios 13:1; 13:4; 13:7
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