Save Me
18 Don't save me
Notas iniciais
"If your love isn't strong, baby! Don't save me now"
Numa escala de um a dez, qual era a probabilidade daquela festa ser uma das melhores da minha vida? E claro, estas são as considerações:
Provavelmente era a festa mais cara do país, eu digo de todo o território estadunidense. Ou seja, já se pode imaginar o tamanho do porte.
Tinha uma punk, um gótico, e um louco. Todos provavelmente num mesmo metro quadrado, o que pelo histórico festivo, sempre resultava em ótimas cenas.
Ah, o mais importante: A punk também era a noiva.
Agora claramente está justificada toda minha animação por aquela festa especifica. Não poderia ser diferente, já que minha melhor amiga, Thalia Grace (agora finalmente podíamos pronunciar seu sobrenome) estava se casando.
Enquanto o táxi passava pelas ruas de Manhattan, sempre mais veloz do que precisava, vários mixes de sentimentos bons estavam dentro de mim naquele momento. Pelo menos era o que Julius sempre me falava para fazer, tentar separar cada sentimento para entendê-lo melhor. Acho que o conselho não se aplicava para os sentimentos bons.
Era impressionante, tudo em Manhattan parecia tão diferente, mas ao mesmo tempo muito igual. Quando você deixa de morar na cidade, parece que ela te chuta, como se você não pertencesse aquele lugar mais. Mas ao mesmo tempo te reconforta, porque ainda tem pessoas discutindo nas ruas, e os táxis buzinando, e as luzes, sempre maravilhosas.
—Estamos a duas quadras do Plaza – disse para o motorista – Não precisa fazer o contorno.
O taxista me olhou assustado, provavelmente achou que eu não conhecia a cidade. Dei um sorriso, retocando o batom na câmera do telefone.
Quando chegamos à esquina, fechei a minha bolsa de mão. Me senti ansiosa como se fosse o meu casamento, por mais que eu não estivesse realmente com essas pretensões, mesmo que Julius falasse que eram pensamentos muito otimistas. Mas ele não iria me convencer do contrário, independente do seu poder persuasivo.
Quando saí do táxi, todo o glamour de ir para uma festa no Plaza Hotel acabou assim que o vento bateu no meu rosto, provavelmente deixando meu cabelo estranhamente frisado.
Suspirei, o Plaza estava coberto de flashes, assim como imaginei que seria. Desde que Thalia havia torcido o braço para seu pai, assim como Luke a convenceu de fazer, aquela festa teria mais empresários engomados do que Thalia gostaria que tivesse.
Fui a passos lentos, tentando parecer com que meu medo de cair terrivelmente soasse como confiança. Subi as escadas, entregando meu convite a um dos trinta seguranças que estavam na porta do prédio.
Depois do ok, continuei a subir a escadaria. Olhei para cima, para o prédio gigantesco e rústico a minha frente. Seria como se casar num castelo, e sim, seria como se Thalia fosse uma princesa. Por mais que ela odiasse, com toda a certeza, a comparação.
O Plaza por dentro era exatamente como achei que seria. O piso antigo de mármore, a luz alaranjada e escura, parecendo como que antiga. E claro, os lustres de cristais.
Não conhecia ninguém pelos corredores, todos me pareciam empresários insuportáveis. Alguns me olhavam estranho, mesmo com as esposas do lado. Absurdamente nojento.
Decidi ir ao banheiro antes de entrar no salão. Quando entrei, estava vazio. Quis rir, somente em festas como aquela as mulheres estão confiantes o suficiente para não precisarem olhar rapidinho uma coisa no espelho.
Eu estava bonita. Aquele vestido dourado era legal, era brilhante, mas não como se eu fosse uma árvore de natal. Era longo, assim como o evento pedia, e tinha essa fenda na metade da minha coxa esquerda, o que deixava o vestido sutilmente sexy.
Revisei meus olhos, a maquiagem escura. O batom claro, rosa. Os braceletes dourados estavam combinando, assim como o salto alto da mesma cor. Tentei tirar o frizz do meu cabelo, que decidi só Deus sabe por que, deixa-lo ondulado, o que depois daquele vento me parecia uma ideia terrível.
Refiz os cachos na ponta do meu cabelo, que estava pegando na cintura. Expirei fundo.
Saí do banheiro com esse jazz tocando suavemente no fundo do salão. Não vou mentir, tinha sentido falta de todas aquelas festas elegantes.
Andei mais um corredor até o salão a procura de rostos conhecidos. Quanto mais perto chegava do local da cerimônia, mais cheio os corredores ficavam.
Girei os calcanhares, quando toda a visão do salão encheu meus olhos. Era tudo tão bonito, os arranjos das flores, roxas. Os bancos de madeira. A celebração ia ser magnífica, tinha certeza.
A luz do salão combinava perfeitamente com as flores. E finalmente, enquanto andava pelo tapete vermelho no meio do salão, encontrei rostos conhecidos.
Nico Di Ângelo sequer parecia ele mesmo. Estava todo de preto, como imaginei que estaria. Porém mais elegante do que imaginei, o terno perfeitamente engomado, a blusa preta de botões por baixo não foi nem a pau escolhida por ele.
Andei até ele, que estava felizmente perto de um dos últimos bancos do salão.
—Já está na hora das bebidas? – perguntei quando cheguei ao seu lado. Seus cabelos negros estavam maiores, e perfeitamente penteados, algo que nunca tinha visto antes na vida. Quando vi um sorriso lindo crescer no seu rosto, percebi que ele estava mais saudável, com mais cor nas bochechas e até mais forte.
—Não existe hora errada para champanhe, minha querida- disse, beijando minha bochecha.
—Você está estupenda, Annabeth – disse Will Solace, a minha frente. Ele estava o oposto de Nico, com seu terno branco chamativo, porém muito bonito.
—Oi Will – beijei uma das suas bochechas, essas sim extremamente rosadas. Seus cabelos loiros caíam em cachos em sua testa – Parabéns pela escolha da roupa, sua e do Nico.
Will deu uma risada, mas Nico parecia ofendido.
—Quem disse que ele escolheu minha roupa? – Will riu, passando uma mão na bochecha de Nico.
—Nem tenta, querido... Vou pegar um champanhe, aceita Annabeth?
—Aceito sim – ele assentiu e saiu, o que foi algo com toda certeza muito bem planejado – Ele sabe a hora quando você quer ficar a sós com alguém só pelo clima... Esse é pra casar.
Nico levantou sobrancelhas num provável “quem sabe?”, o que foi tão inesperado e legal que acabei dando um daqueles meus sorrisos shippers.
-Para com isso – Nico disse, dando uma olhadela em minha direção – Como estão as coisas? Você sumiu.
Não queria dizer que estava tentando evitar tudo que acontecia em Nova York nos últimos três meses, e não precisava, ele sabia que era por isso que eu não vinha pra cá.
—Ocupada. Com a universidade e tudo o mais.
—Imagino, você agora é uma universitária. De Princeton. Será que eu deveria tentar me matar pra tentar guinar minha vida também?
Ri. Nico seria a única pessoa que me faria rir naquelas situações.
—Você tem o Will. Ele me parece uma guinada boa o suficiente pra mim
—E você tem o Julius – ele riu – Todos nós precisamos de um Julius na vida.
Foi minha vez de rir. Mas eu concordava com ele.
—Você fica brincando, mas se todos fizessem psiquiatria o mundo seria muito melhor do que é hoje – ele colocou as mãos em rendição.
—Eu entendo. Vocês dois se veem trinta vezes por semana, então é um assunto delicado pra você.
Eu ia abrir a boca para responder, quando me senti sendo envolvida por trás num abraço de urso que somente uma pessoa poderia me dar.
—Leo! – exclamei, rindo. Me afastei um pouco para vê-lo melhor, pegando em seus ombros. Ele parecia tão bem, e estava lindo com um terno vinho com acabamentos pretos. Seus cachos foram escondidos por conta dos cabelos penteados para trás.
—Sumida! Pelo menos aqui você dá o ar de sua graça – comentou, dando um beijo estalado na minha bochecha.
—Não perderia esse casamento por nada.
—Aposto vinte pilas que a Thalia vai dar um piti com algum desses empresários insuportáveis antes de cortar o bolo – Ri.
—Não vou entrar nessa aposta, você vai ganhar – Leo me abraçou pela cintura, parecia genuinamente feliz em me ver. E Leo tinha essa felicidade contagiosa, que sempre fazia com que me sentisse melhor.
Não sabia se a vida amorosa de Leo estava tão boa quanto à de Nico, mas a financeira certamente. Não só por causa daquele terno claramente caro, mas também pelas notícias recentes. Ele tinha virado sócio do bar, o que era algo a se celebrar, também.
—O que vocês estavam conversando? Parecia sério.
—Nico disse que eu e Julius nos vemos sei lá quantas milhões de vezes, e eu ia responder que ele já diminuiu o número de sessões. De acordo com ele, não preciso ir mais todos os dias. Somente duas vezes por semana.
—Ou seja, você tomou um fora do seu psiquiatra – Leo disse, me observando. Nico começou a gargalhar, e eu quis socar cada um dos seus dentes, mas acabei rindo. Só os dois conseguiriam caçoar do meu tratamento psiquiátrico.
—Isso na verdade é uma coisa boa, ele disse que eu fiz um grande progresso – Leo me observou, daquele jeito brincalhão, mas com um fundo de seriedade que eu sabia que ele estava orgulhoso.
-Isso é ótimo, Annie. Você merece. A Thalia vai ficar muito feliz de você estar aqui.
Concordei, de repente o assunto tinha ficado sério demais.
—Eu nunca vou esquecer o que ela fez por mim, parece que foi ontem que ela me levou correndo para o hospital... Toda vez que me lembro parece que foi ontem.
Will chegou na hora certa com o champanhe, que eu aceitei de bom grado.
—Leo, acho que o resto dos padrinhos chegaram – Will disse para ele, que somente concordou, me entregando sua taça.
—Ah, Thalia pediu para te falar que a culpa de você não ser uma das madrinhas é toda sua – Leo parecia tentar se lembrar de mais alguma coisa – É, essa foram as exatas palavras.
Gargalhei, conseguindo ouvir Thalia falar estas palavras perfeitamente. Nico ficou estranhamente sério.
—Melhor irmos nos sentar – ele disse, me virei para olhar na direção que ele olhava.
Leo estava com outras pessoas, os padrinhos. Tinham algumas pessoas que eu não conhecia, que pareciam rir de alguma coisa que Leo falou. Juntei as sobrancelhas, nem eu e nem Nico conhecíamos nenhum deles.
Então aconteceu.
Ele estava encostado no batente da porta, olhava na minha direção. Diretamente. Não sei o que deu em mim, de repente tudo envolta parecia ter embaçado todas as coisas que eu vivi a tanto tempo voltando como feridas novas, quentes.
Virei-me novamente.
—Vamos logo – Nico olhava nos meus olhos, me desvendando. Mas eu não estava afim de ser desvendada, não naquele momento. Peguei em sua mão, me deixando ser conduzida até o meio do salão. Will foi para o canto daquele banco amadeirado, ao seu lado Nico.
—O que você tem? – perguntou Nico, sussurrando.
—Nada.
—E o Jackson? Você precisa falar com ele.
-Não preciso nada – respondi, e sem querer olhei para trás. Percy estava rodeado de padrinhos, porém conversava animadamente com seu pai, Poseidon. Os dois riam, e eu me lembrei do que Calipso me disse, anos atrás “Os milionários vivem num mundo diferente do nosso”, da ultima vez que eu vi Percy, ele não conversaria com o pai nem a pau.
Nico e Will conversavam sobre a decoração, e eu tentei prestar atenção naquilo também. Nas luzes que refletiam tão bem nas flores roxas, com toda certeza escolhidas por Thalia, observava o altar, dourado. E todos aqueles ornamentos lindos, brancos. Os vasos eram de mármore puro.
Infelizmente nada daquilo captava realmente minha atenção, a vontade de me virar e observa-lo melhor era gigantesca. Desnorteada em pensamentos, sequer percebi que o salão estava cheio, completo. E em perfeito silêncio. A orquestra começou a tocar e finalmente tive a permissão de olhar para trás.
Percy estava com Calipso, os dois eram os primeiros padrinhos. Ele estava bonito, o terno preto combinava com seu porte atlético, a gravata era perfeita, ele estava perfeito. Aquele terno era perfeito.
Seus cabelos estavam maiores, gigantescos. Se não estivessem molhados e penteados para trás, com toda certeza estariam batendo em seu queixo.
Ele sequer olhou na minha direção, o que era algo muito bom, pois consegui observar cada detalhe do seu rosto, que estava quase me escapando da memória.
A partir dali, tudo passou rápido demais. Talvez pela real importância dos fatos.
A marcha nupcial começou a tocar, e Thalia entrou, vestida pela primeira vez na vida, toda de branco. Seus olhos estavam límpidos como nunca antes, e eu percebi que era porque sua maquiagem estava clara.
Olhei para o altar, Luke parecia tão emocionado. Ele tinha um brilho no olhar que parecia ser algo tão especial, amor. Quando eles se olharam, pela primeira vez, eu percebi que tanto Thalia quanto ele tinham sorrisos tão grandes que fui contagiada com a felicidade deles.
Até eu tinha contestado esse casamento, eles eram tão novos, com vinte e cinco anos você tem tanta coisa para viver ainda. Mas naquele momento, justamente ali, eu percebi porque eles queriam tanto se casar.
Os dois se amavam, de verdade.
Thalia olhou na minha direção quando passou ao lado do meu banco, e daquela vez, seu sorriso era pra mim. Finalmente entendi porque estava ali, ela era importante para mim. Mais do que isso, era importante para mim que ela fosse feliz.
O sermão foi rápido, mas eu não prestei atenção numa palavra sequer. Nunca fui de prestar atenção em missas e sermões, ou qualquer coisa que saísse da boca de um pastor.
Mas nas promessas eu percebi. Quando Thalia começou a falar “Luke, prometo te amar...” me lembrei perfeitamente do dia que a conheci. Ela perguntou “O que você está fazendo aqui?”, foi a primeira pessoa que achou esquisito eu estar presente naquele ambiente, estava com medo, aterrorizada. E era só uma sala de estar, algumas pílulas, eles tinham prometido que eu ia me sentir bem. Acabei não conseguindo mentir, disse “Não sei”, ela sorriu, foi um sorriso triste, e me respondeu “Nem eu”.
Lembro-me de sentir um vazio gigantesco perto dela, o tanto que parecia perdida, em sua própria existência. E ali, falando o quanto amava Luke, ela parecia o extremo oposto.
Estava convicta, certa, encontrada, tinha plena consciência do lugar que tomava. E percebi a diferença daquela Thalia que conheci para Thalia na minha frente, e eram suas mãos. Estavam saudáveis, e seguravam as de Luke.
Por algum motivo comecei a chorar, as lágrimas caíam tão espontaneamente que eu não conseguiria me controlar nem se quisesse. Will me ofereceu um lenço, onde enxuguei as lágrimas. Olhei para Percy, e percebi que ele tinha acabado de desviar o olhar.
A cerimônia acabou tão rápido quanto começou. De repente tinha uma fila quilométrica para cumprimentar os noivos. Mas eu não queria fazer parte daquela fila.
Eu, Will e Nico fomos furtivamente para o salão ao lado, o que teria a festa. Pegamos uma grande mesa no canto, nós e os idosos éramos os únicos que já estavam ali. Por isso começamos a rir.
Depois, claro, chegaram os padrinhos. Quando vi Leo olhando na minha direção, meu sorriso sumiu. Não faça isto, Leo. Não faça isto.
Ele fez. Gesticulou para o resto dos padrinhos, apontando para nossa mesa. Calipso sorriu, acompanhando Leo alegremente. Aquela vaca puxou o resto dos padrinhos.
Olhava para todos vindo em nossa direção desesperadamente, até que Percy a puxou pelo pulso. Estava sério, a expressão nenhum pouco amigável, provavelmente dizia “Cali, você não quer fazer uma cena. Aquela menina é desestabilizada”. Calipso riu, e o puxou pelo pulso trazendo para nossa mesa.
Vaca.
—Vou retocar a maquiagem – falei, me levantando desesperadamente. Nico, que estava muito ocupado flertando com o namorado, somente olhou na minha direção e assentiu. Quase corri até o corredor, em direção ao banheiro.
Quando cheguei à porta, percebi que toda a calmaria que tinha encontrado anteriormente tinha acabado. O lugar estava muito cheio.
Abri a porta, já tentando pensar numa forma de conseguir falar com Thalia e dar o fora sem parecer terrivelmente mal educada.
Mas como mágica, Thalia apareceu em minha direção. Estava trocando de vestido, e por isto que todos esperavam do lado de fora do banheiro. Sorri.
—Lá vem à noiva, toda de preto... Espera. A Thalia decidiu vestir outra cor! – ela deu um grito, correndo na minha direção e me abraçando. Seus braços ossudos me pareceram tão aconchegantes que acabei retribuindo com toda a força.
—Eu ia usar preto, mas todo mundo ficou me dizendo que dá azar.
—Nah, besteira.
—Eu sei! – ela riu, e eu acabei rindo também – Eu parecia um bolo com aquele vestido, pelo menos na festa eu posso ficar um pouco mais despojada, mesmo que ainda de branco.
Dei uma olhada no novo vestido que ela colocou.
—As pernas de fora...
—Ainda sou jovem, não se engane com essa cerimônia toda. Acabei de fumar um baseado pra ficar mais calma – Ri, mas as costureiras atrás de nós fizeram uma careta impagável – Vem, não aguento mais ficar presa nesse banheiro.
Ela me puxou pela mão, tirando toda a chance de eu me explicar e ir embora. Chegamos ao salão de festas já cheio. Thalia me observou bem.
—Você parece nervosa. Já conversou com ele? – suspirei, arqueando uma sobrancelha e olhando na sua direção.
—Quem, o garoto ao lado de Luke? – Thalia riu.
—Acho que esse já tem dona – Ri. Mas a sensação de dejavú me foi muito estranha. – Voltamos à estaca zero?
—Não tem estaca – respondi, ela me observou tão atentamente quanto antes.
—Vem, você tem que cumprimentar meu marido – quis parar, mas ela era a noiva e estavam todos olhando em nossa direção. Luke estava na mesa de Nico, porém em pé, conversando com Perseu.
Luke sorriu gigantescamente na nossa direção. Ela deu um selinho em Thalia, e minha reação madura foi olhar para cima.
—Você viu? No bolo o seu vestido é preto – Luke disse para ela.
—Não. Acredito. Eu amo a Dona Mary- não sabia quem era Dona Mary. Queria sair dali naquele exato momento. Thalia recuperou a sanidade quando seu olhar caiu em mim novamente – Ah, olha quem decidiu dar o ar de sua graça! Tive que fazer um casamento para ela vir em Manhattan.
Luke já sabia o que estava acontecendo e parecia não aprovar o que Thalia estava fazendo, mas sua expressão de “Thalia, o que você está fazendo?” durou três segundos. Um sorriso educado deu lugar a toda sua confusão de sentimentos.
—Annabeth... O que você anda fazendo? Eu não te vejo há... Nossa, eu não te vejo há anos.
Minha estratégia foi não olhar para Percy em momento algum.
—Bem, estudando... Em Nova Jérsei.
—Princeton! Arquitetura! – exclamou Thalia – E Bolsa integral, ela é um prodígio.
Olhei para Percy sem querer, vi um pequeno sorriso escondido em seus lábios. Meu coração bateu rápido demais para minha sanidade.
—Isso parece realmente prodigioso, parabéns Annabeth – Luke soava sincero.
—Obrigada – Thalia olhou para mim e depois para Percy, de um jeito nem um pouco disfarçado. Pegou Luke pela mão.
—Vem, vamos olhar esse bolo lindamente decorado de forma punk – os dois saíram andando pela festa. E eu não sabia se estava sem chão, sem jeito, ou simplesmente confusa.
Olhei para Percy, e sabia que tinha feito uma careta bastante singular. Ele sorriu verdadeiramente para mim pela primeira vez.
—Parabéns, pelo curso de Arquitetura. Eu sabia que você tinha... Tem talento.
Eu ia agradecer, quando Calipso apareceu afortunadamente ao lado de Percy. Pegou em seu braço.
-Annabeth! Quanto tempo! – ela deu um sorriso educado, e somente isso – Eu não te vejo há uns dois anos, o que você estava fazendo?
—Estudando. Princeton – e isto foi Percy quem respondeu. Calipso arqueou as sobrancelhas, surpresa.
—Nossa, que prestígio. E eu achei que estes dois anos tinham sido bons pra você, Pers – arqueei a sobrancelha.
—Mesmo? O que aconteceu? – ele não parecia nenhum pouco feliz com Calipso, mas ela continuou falando. Como eu já sabia que ela faria.
—Você sumiu mesmo! O Percy tem um aquário, aqui na cidade. Ele conseguiu – ela chegou mais perto de mim – Sem um centavo dos Jackson, acredita?
—Ela não está realmente interessada, Calipso – ele queria parecer educado, mas foi à primeira vez na vida que ouvi Percy sendo impaciente, e rude. Ele próprio pareceu perceber, e suas bochechas ficaram vermelhas- Vamos nos sentar, todos nós.
E eu já tinha chegado ao limite com aquela festa. Não aguentaria mais um segundo de Percy e Calipso, o casal mais perfeito do universo, esfregando a felicidade no meu rosto.
Sentei-me ao lado de Nico. Que parecia preocupado comigo, os outros dois se sentaram a nossa frente, no lado oposto da mesa. Calipso entre Percy e Leo.
—Annabeth esteve fora todo este tempo, estudando. Estou realmente surpresa – comentou Calipso – Acredito que não te vejo desde aquela festa na mansão dos Jackson... Parece uma eternidade atrás. Tenho que lhe pedir desculpas, fui extremamente indelicada naquela ocasião. Estava bêbada. Mas tudo foi resolvido, sobre aquele assunto que conversamos. Na exposição da Thalia, aquela da faculdade dela, tudo se acertou tão bem. E eu tenho que te agradecer, honestamente...
-Cala a boca! – gritei, e todos a mesa pararam de conversar. Percebi que estava vermelha e não era só de vergonha. Os olhos de Percy estavam arregalados, ele não parecia acreditar na minha reação. Nem eu acreditava na minha reação, Calipso também parecia atordoada.
—Desculpa, Annabeth. Fiquei sabendo que Leo e Thalia se conheceram através de você – pisquei. O que? – E se Leo não conhecesse Thalia, eu nunca teria o conhecido naquela exposição. Por isso estou aqui, devo muito a ela, e a você, claramente.
Leo sorriu, beijando sua mão. Estava atordoada, sem chão, e sabia que estava com uma expressão confusa. Tanto que Leo acabou rindo.
—Eu me esqueci de contar para a Annabeth, querida. Por isso que ela parece que acabou de ter levado uma bofetada na cara – Calipso riu. Eu estava... Foi um dos momentos mais estranhos que eu já vivi.
Olhei para Percy, que continuava me encarando, me desvendando com aqueles malditos olhos verdes. Pisquei novamente, olhando para o mais novo casal.
—Uau... Parabéns para vocês, então. Eu nunca iria adivinhar – os dois riram, e só então eu percebi que ela estava realmente feliz, e realmente educada. Não era para me fazer raiva, era porque ela queria me agradar.
Nico olhava para mim atordoado, sabia que ele queria rir do papelão que tinha acabado de passar. Levantei, não tinha mais estomago para continuar naquela festa.
Não me expliquei, saí da mesa em passos rápidos. Eu ainda não tinha superado Percy, não o suficiente para ter ido aquela festa.
Me odiava por ter feito o que fiz, estava na cara que eu estava com ciúmes. Um ciúme que sequer tinha fundamento porque Leo tinha encontrado a mulher perfeita e estava todo mundo se encaixando na vida e eu estava problematizando tudo, como sempre.
Saí do Plaza o mais rápido que consegui. Chamei um táxi desesperadamente, queria estar em qualquer lugar menos ali.
Não queria fazer uma viagem até Nova Jérsei, não naquele momento. Mas Manhattan me lembrava Percy, tudo me lembrava Percy. Decidi não fugir, então... E sim matar todo aquele sentimento. Falei o endereço para taxista.
O vento assoviava nos meus ouvidos. O frio era congelante, mas ali estava eu, contemplando a vista. Quando estive ali na última vez, foi um dia esquisito. Eu sequer me lembro muito bem como tinha chegado a decisão de ir até lá.
O que lembro era que estava saindo de uma festa, drogada e absurdamente bêbada. Estava cambaleando e me sentia confusa como nunca antes, enquanto perambulava pelas ruas vi um pai com seu filho, os dois me pareciam muito pobres, e tinham um pedaço de pão e um pouco de café.
Olhei para eles, e me senti vazia, foi quando o pai me parou. Ele me ofereceu o café, e também repartiu um pouco do pão. A criança não parecia tão satisfeita, mas o pai disse “ela precisa mais que nós”.
E aquele gesto caridoso, naquele dia, me fez sentir como a pior pessoa do mundo. Eu não precisava de nada, eles precisavam de tudo. Mas eu me coloquei numa situação tão deplorável que eles, que não tinham nada, tiveram que repartir o seu café e o seu pão.
Eu recusei. E então decidi me matar. Por isso fui pra ponte, porque eu tinha percebido que a minha vida não tinha sentido nenhum.
Meu psiquiatra ia gostar que eu estivesse voltando ali, revendo as águas que um dia seria o local da minha morte. Foi ali que eu o conheci, salvando minha vida, salvando tudo. Mas, a bosta era que, isso nem era sequer o mais importante.
Se eu não tivesse tido Percy na minha vida, eu nunca conseguiria entender o quão dependente eu era de outras coisas. Se não fosse por ele, eu não saberia que arquitetura era o meu futuro. E agora, tudo que eu queria era honestamente olhar para ele, em seus olhos, e dizer “Obrigada por tudo”, para poder seguir com minha vida.
Mas eu não conseguia, não conseguia seguir. Não conseguia agradecer. Porque eu não conseguia?
Coloquei as mãos na testa, tentando fazer com que o som das águas me acalmasse. Ouvi passos a minha esquerda, comecei a chorar porque eu sabia quem era.
Olhei para ele, que parecia ofegante. Como se tivesse corrido do Plaza até ali. Limpei minhas lagrimas, meu coração batendo mais rápido a cada passo que ele dava na minha direção. Eu já sabia o que aquilo significava, eu e ele, e a ideia de nós dois voltarmos ao lugar que tudo começou. Estávamos ali porque não queríamos que acabasse.
Quando ele chegou perto o suficiente, retirou minhas mãos do meu rosto, ele próprio tirando as lágrimas com os dedões.
—Desculpa – falei, com aquela voz minguada de choro. Ele arqueou as sobrancelhas.
—Pelo que?
—Por... Eu te amo. E se um dia eu disse o contrário, foi porque eu estava muito confusa.
Seus olhos verdes pareciam mar, tempestuosos. Seu rosto me era tão certo e me lembrava casa, era para ali que eu queria voltar.
—Você fez a coisa certa – ele disse. E parecia tão sereno, era como se ele soubesse que aquilo iria acontecer o tempo inteiro.
—Eu não consegui te esquecer, mesmo depois de tanto tempo – dei de ombros – O que isso significa?
Ele sorriu.
—Significa que você é orgulhosa demais para telefonar – acabei rindo, mas era tão bom vê-lo. E eu estava tentando fugir daquele sentimento há tanto tempo, e naquele momento, era a primeira vez na vida que eu estava verdadeiramente plena.
Fui eu que o beijei. Porque era eu que precisava daquilo, desesperadamente. E tudo estava exatamente da mesma forma de antes, o coração batia rápido, o estomago revirava, mas algo estava diferente. Era a primeira vez que aquilo me deixava realmente feliz.
Percy se separou, ofegante.
—Espero que você ainda me ame, porque senão isso foi muito inconveniente – falei, ele riu. E foi ótimo.
—Eu ainda te amo – respondeu, depois suspirou – Aqui é um bom lugar para começar histórias novas.
—Ah, não. Pelo amor de Deus, não vamos nunca mais voltar aqui – ele arqueou as sobrancelhas, talvez por causa do sujeito no plural. Nós.
—Tudo bem.
—O que você quer fazer? – perguntei, porque olhando para o horizonte, as possibilidades pareciam infinitas. Percy me abraçou pela cintura.
—De tudo um pouco.
Concordei. Sentia minha alma velha e chata dando lugar a algo novo. Melhor. E com Percy do lado.
Eu sabia que em uma oportunidade sequer que o visse, não conseguiria fazer nada de diferente do que tinha feito. Vivia pela oportunidade de reencontra-lo desde que o perdi. E daquela vez, ele não precisava me salvar, estávamos no mesmo barco, juntos. Nos ajudando, mutuamente. E eu estava ali para o que desse e viesse, para ele, por quanto tempo ele quisesse.
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