Save Me
7 Crazy
Notas iniciais
“You turn it on, then you're gone. Yeah, you drive me Crazy”
Estava apoiada no balcão enquanto mastigava meu chiclete de menta lentamente. Meu olhar acompanhou o homem muito bem vestido de terno, ele parecia nervoso, como se estivesse cometendo algum crime.
Dei uma risada abafada, não poderia transparecer o quão engraçado aquilo era para mim. Nico ao meu lado parecia muito ocupado conversando com todos aqueles seus pretendentes pelo telefone, arqueei uma sobrancelha e suspirei. Pelo jeito eu, como funcionária primaz, teria que aguentar os frequentes malas que apareciam no estabelecimento.
Fui à sua direção, ao lado do compartimento de camisinhas de sabor (a coisa mais “decente da loja”) mesmo sendo óbvio que o olhar do homem estava em todas aquelas fantasias picantes.
–Algum interesse?- perguntei. O homem praticamente deu um pulo. Ajeitou a gravata e ronronou alguma coisa pela garganta.
Por fim respirou fundo, seus cabelos castanhos eram perfeitamente alinhados para o lado por causa do gel. A expressão cansada e cheia de rugas além da maleta de couro me fazia ter certeza que era um veterano executivo provavelmente com o casamento em queda abismática.
–Moça, sou um homem de bem. Vou à igreja todo domingo e sei que isto é...
–Eu não sou pastor. Não precisa se confessar comigo – já sabia exatamente o que ele queria dizer e aquilo me cansava exponencialmente – Aliás, isto aqui não é pecado. Sexo não é pecado. Tenho certeza que José e Maria transaram bastante depois de Jesus e são todos santos, então porque você não pode transar e não ter filhos? Uma coisa totalmente normal.
Protestantes. Se existia um câncer na população americana eram os protestantes fanáticos. Cruzei os braços, esperando a resposta do homem e eu quase podia ouvir seu cérebro maquinando. Suspirou.
–É para o bem do meu casamento...
–Como quiser – respondi e sorri de lado. Ele finalmente parecia mais relaxado — Se é a primeira vez que vem aqui, e já está casado há muitos anos recomendo uma coisa mais calma. Que tal uma fantasia? Muitos homens tem a fantasia de ver mulheres vestidas de policiais, bombeiras... É impressionante o fetiche com funcionárias da segurança pública...
–Secretária. Tem secretária? – ele perguntou ansioso.
Tentei me inibir a não arquear uma sobrancelha. Alguém provavelmente tinha uma secretária gostosa no escritório. Fui até a linha de fantasias e procurei entre as centenas de ganchos.
Depois de uns segundos finalmente achei o que ele queria. Vinha até com óculos. Aquele emprego era uma prova de fogo contra mim e a minha vontade de rir. Estendi a fantasia para o homem que agora parecia bem descontraído, conseguia ver pela sua expressão o que estava imaginando e não era algo legal.
Agora que ele já estava no clima era hora de extorquir. Fui novamente até a prateleira de camisinhas.
–As mulheres amam a de menta, é... Afrodisíaco – estendi duas camisinhas para ele, que colocou ainda confuso encima da sua fantasia – E se você quer uma noite especial, existem certos detalhes que podem fazê-la ficar diferente, por exemplo, calcinhas comestíveis. O gosto é ótimo.
Estendi uma calcinha vermelha que tinha gosto de morango. Eu provei e era realmente gostosinho (claro que não no ato sexual, foi por pura curiosidade). Vi que ele olhava para a moça na embalagem da calcinha que usava justamente ela. Engraçado, modelos encima daquelas embalagens sempre faziam os homens mais religiosos traírem suas mulheres mentalmente.
O homem ainda parecia confuso, mas sabia que já estava imaginando uma noite com todos aqueles detalhes.
–Algo mais? –perguntei, ele negou com a cabeça. Ainda parecia meio confuso. Os iniciantes eram os piores.
Levei ele até o balcão, onde Nico contra sua vontade largou o telefone e deu um sorriso simpático. Contabilizou todas as coisas e quando entregou a sacola para o homem disse despretensiosamente:
–Boa sorte.
O homem assentiu e pegou a sacola, nem sequer perguntou por que e como Nico sabia que ele estava com problemas. Assim que o homem saiu não pude deixar de rir.
–Ele parecia estar pegando em algum artefato satanista...
–Os protestantes são os melhores – comentou Nico, rindo – Quando eles começam não param mais, aliás. Você conseguiu um cliente.
Voltei para trás do balcão. O meu mais novo emprego na sex shop estava até bastante interessante, o lugar era aconchegante e pequeno. Intimidante para os novatos, mas um lugar legal.
Tinha uma luz constantemente avermelhada, que deixava as coisas mais “picantes”. Além do balcão avermelhado logo na entrada, o fundo da loja era revestido de prateleiras com lanternas vermelhas piscantes assim como na vitrine da loja.
Os produtos mais cobiçados, vibradores famosos e alguns instrumentos de masoquismo leve tinham luzes encima deles, como realmente manequins em lojas de roupa.
Além das milhões de coisas que me remetiam sempre a palavra putaria. Algemas, chicotes, fantasias, filmes pornôs, bombas de sucção, desenvolvedores, aromatizantes, lubrificantes e outras milhares de coisas. Perto da parede, no canto, a coisa mais engraçada da loja. Um provador com uma cortina rosa que tinha os dizeres em preto: “Não perturbe, estamos testando a loja”.
A porta abriu e Leo entrou, rindo daquele jeito que sempre ria quando entrava na sex shop, era um idiota.
–Olá, discípulos do sexo bom – comentou ajeitando sua mochila nas costas – Como estão às vendas?
–Ótimas –falei– Amo fazer contato com a parcela da população nova-iorquina que tem a vida sexual estagnada no nível zero.
–É sociológico fazer contatos com os dois polos da cidade – respondeu Leo ainda rindo. Existiam dois tipos de cadeira na frente do balcão (as duas bastante fofas) uma em forma de vagina e outra em forma de pênis. Leo se sentou na forma de pênis. Ri. Nico revirou os olhos. – E pare de fazer piadas com essas pessoas, você está virando uma delas.
Foi a minha vez de revirar os olhos, e Nico acabou rindo ainda encarando a tela do telefone.
Estava me arrependendo profundamente de tê-los como amigos. Acabei, é claro, contando o que tinha acontecido entre eu e Percy para eles. Era importante contar para alguém, não só para extravasar aquilo, mas também para quem sabe me fazer lembrar de que era real.
Depois de duas semanas sem ver Percy ele parecia ter sido algum tipo de ilusão, o fim de semana que o conheci parecia ter sido um sonho, e o dia em que transamos algo irreal.
Claro, contei tudo para os garotos com a condição exclusiva e inquebrável deles não contarem nem uma palavra para Thalia. Que não só me mataria como ficaria extremamente chateada de eu estragar o novo mundo perfeito dela.
Sabia que se algo ruim acontecesse entre eu e Percy interferiria diretamente na imagem dela com Luke, e isto eu não deixaria acontecer.
Até porque eu e Percy não acontecemos, ele foi para Paris.
–Como é ser a chutada dessa vez, Annabeth? –perguntou Nico. Dei um soco no seu braço.
–Transar e fugir para Paris. O plano de fuga ideal quando eu conhecer uma mala – riu Leo.
–Ei, eu não sou uma mala!
–Não, gata, claro que não. Só vou usar a estratégia dele com as minhas malas, mas você não é uma mala. Você é a mais gata de todas.
–Obrigada por elevar a minha estima, realmente estou precisando.
E eu não estava mentindo. Querendo ou não aquele sumiço de Percy me jogou no chão, tipo, abaixo do chão. Mais ou menos no nível de onde você acha petróleo. Na minha cabeça idiota de garota eu e ele tivemos algo diferente, pelo menos eu senti algo diferente.
Mas então o cara deu o famoso “como quieto” e vazou. Só avisou que estava indo embora e, “nós transamos, mas e daí?”.
Era exatamente o que eu fazia com as pessoas, estava na hora de eu provar meu próprio veneno. Suspirei.
–Aonde você vai? – perguntei para Leo. Ele deu um sorrisão.
–Estou indo transar, você quer ir?
–Não precisa ser tão direto, Leo – respondi enquanto fazia uma careta – Fala sério, a garota do Hapiness Forgets? Ainda? Leo, aquela garota é...
–Uma vadia– respondeu Nico para mim e Leo fez uma cara feia – Que foi? É a verdade e você sabe disso.
–Não vejo problemas em sair com vadias – ponderei– Só quero que você esteja consciente de que as chances de sair qualquer tipo de relacionamento diferente desse aí são nulas.
Leo saiu do pênis, quer dizer, da cadeira. Sabia que ele estava revoltado, mas ele tinha um sorriso duvidoso.
–Eu sei me cuidar, tudo bem? Não é como se eu não tivesse experiências com esse tipo de relacionamento.
Ficava com bastante raiva por Leo. Ele era um garoto romântico, daqueles que acreditavam em cara metade e poderia preparar um jantar de velas se fosse necessário. Só que ele andava com a gente, e a gente só conhecia pessoas de caráter desconfiável. Era complicado medir em palavras o quanto Leo já tinha sofrido na vida por vadias sem coração.
A porta vermelha atrás do balcão se abriu. E eu sabia que era a dona do estabelecimento. A porta em questão era do segundo andar do prédio no qual a dona, Lizzie, morava.
Amava Lizzie, a mulher de muito bom humor que comprava cadeiras em formas de genitais e cortinas com piadas muito bem feitas. E ela parecia gostar de mim, o que era ótimo.
–Nico, sem telefone. Vai trabalhar. Olá Leo, namorando de novo? – Lizzie se sentou ao meu lado no balcão, no qual ela tinha essa mania de ficar batendo com suas unhas enormes pintadas com estampa de oncinha.
Leo pegou novamente sua mochila esverdeada e pôs nas costas. Pronto para ir embora.
–Nós temos que correr atrás, Liz. A pessoa perfeita não cai do céu.
Lizzie era uma romântica incurável, o que era algo bastante irônico pela sua vida amorosa decadente. Aos quarenta anos de idade Lizzie era solteira e não tinha filhos. A única coisa que tinha na vida era aquele prédio de dois andares no Brooklyn o qual vivia a maior parte do tempo.
Se não estava no andar de cima ouvindo Lionel Ritchie e Marvin Gaye enquanto assistia àqueles filmes românticos clichês dos anos cinquenta, estava no andar de baixo conosco na loja.
–Você faz bem, Leo. Não deixe os céticos te desanimarem – respondeu ela, sorrindo. Nico abriu os braços, descrente do que ouvia, e eu dei um sorrisinho de lado.
Algo em Lizzie me invejava bastante. Não uma inveja ruim, é claro. Algum tipo de admiração que nem eu conseguia entender. Sua vida era horrível, um lixo. À noite ela saía com outras três amigas tão estagnadas em relacionamentos quanto ela e iam para esse clube country realmente decadente.
Nico me contou que elas dançavam umas com as outras, e era bem triste.
Mas mesmo assim, Lizzie era perfeitamente bem humorada. Sempre muito feliz consigo mesmo e uma pessoa agradabilíssima, nenhum pouco ranzinza. E eu com vinte anos de idade era a pessoa menos agradável que eu conhecia.
–Annabeth não é mais uma cética – comentou Leo enquanto ia embora, acabou rindo – Aliás, está sofrendo agora mesmo por um relacionamento inacabado. Ajude-a, especialista Liz!
E com a bomba ele foi embora, quis mata-lo. Eu não estava sofrendo. Sofrer é uma palavra muito forte. Talvez um pouco ansiosa pelos acontecimentos recentes, mas sofrendo? Não estava sofrendo.
Lizzie parecia surpresa, tinha os olhos brilhantes e a boca ligeiramente aberta.
–Sério? – perguntou, fiquei calada. Não queria responder que estava tendo problemas com aquele tipo de coisa, foi sempre a minha especialidade tirar sarro das pessoas que sofriam com aquilo.
Lizzie passou seus cabelos castanhos com mexas aloiradas para trás. Estava bastante animada.
–Graças a Deus eu te contratei! Algo interessante nessa sex shop! Quando pergunto para Nico o que está acontecendo na vida dele a única coisa que ele me fala é o número de paus que ele chupou na semana.
–Isso é uma coisa muito interessante– respondeu Nico ainda distraído no telefone. Lizzie suspirou.
–Vamos fazer uma coisa? Você merece uma folga, eu e você vamos tomar um café e você me conta tudo sobre esse pretendente – seu sorriso foi impossível de dizer não. Nico parou finalmente de mexer no seu telefone.
–Eu trabalho aqui há dois anos e nunca recebi uma folga. Ela está aqui há duas semanas e vocês vão tomar café?
–Só recebe folga quem se abre para amar – dei uma risada. Aquilo tinha sido a coisa mais idiota que eu já tinha ouvido. Mas era uma folga e fingi que concordava.
Peguei meu casaco junto com Lizzie.
–Nico, se abra — falei enquanto fingia estar séria. Ele abriu os braços, revoltado.
–Mais?
Gargalhei. Eu e Lizzie saímos da luz avermelhada e a escuridão da loja, e como sempre meus olhos estranharam os raios solares que insistam em continuar a todo o vigor às quase cinco horas da tarde.
Era impressionante a altivez de Lizzie, ela era extremamente mal vestida. Uma perua original que insistia em usar estampas de animais em todas as peças de roupa. Mesmo assim, mesmo com nenhuma peça de roupa combinando e aquelas milhares de bijuterias totalmente sem nexo Lizzie era tão confiante que poderia se passar como uma modelo aposentada.
Depois de andarmos algumas quadras naquele movimentado Brooklyn em horário de pico, finalmente achamos uma lanchonete de qualidade razoável numa esquina de uma das ruas mais empresariais do bairro.
Entramos no estabelecimento e tocou o típico sininho na porta. O lugar era exatamente do jeito que imaginei, tinha quatro mesas com poltronas almofadadas, um balcão de vidro cheio de bombas calóricas que fizeram meus olhos saltarem.
Arrastei-me por uma poltrona, Lizzie sentando-se à minha frente. Graças à parede de vidro conseguia ver do outro lado toda a movimentação da rua. Que não era pouca. Além das buzinas, assovios, motores e o barulho típico do dia que era como música para os meus ouvidos ainda tinha toda aquela conversa dentro e fora do lugar.
Pedimos para uma garçonete magérrima e provavelmente anêmica dois cafés puros e donuts de morango e chocolate que me deixavam com água na boca.
Donuts também eram conhecidos como a coisa mais gostosa do mundo inteiro. Provavelmente eu gastava cinquenta dólares mensais na Don’s Dunuts, comendo todo o tipo de bomba calórica.
–Então, me conte sobre o garoto que fez a cética Annabeth Chase sofrer por amor, como os idiotas da Lizzie e Leo – ela não parecia ser vinte anos mais velha que eu. Tinha um espirito e um jeito tão jovial que eu me sentia conversando com uma amiga da minha idade, menos é claro quando ela revelava (o que era raríssimo) algo do seu passado obscuro.
–Não estou sofrendo por amor- respondi, o café e os donuts chegaram e eu decidi encher minha boca com comida para não falar besteira – Só foi algo estranho que aconteceu.
Lizzie deu um sorriso quase que imperceptível. Bebeu um gole do seu café.
–Mesmo? Por quê? – suspirei, era complicado falar sobre Percy.
–Porque eu não sei... Acho que não esperava esse tipo de atitude dele. Parecia uma pessoa diferente do que estou acostumada. Fugirem de mim é uma realidade mórbida, totalmente dentro do meu contexto de vida.
–Ele está fugindo de você? Como você sabe disso? – suspirei e revirei os olhos.
–O cara transa com você e no mesmo dia fala que precisa viajar, sinceramente, quem nunca ouviu essa desculpa antes? A gente só vê o cara de novo quando o casamento dele estiver no jornal.
–Mas você disse que ele era diferente, talvez estivesse viajando mesmo. Pode acontecer – ri.
Era complicado conversar com Lizzie por causa disso, muito otimista. Sempre otimista, não era possível que ela não enxergava os malandros a um palmo de distância, não me era estranho o tanto de homens que a decepcionaram. Ela depositava fé demais nas pessoas.
–Mesmo assim, você deu a chance de tentar. E isto já é coisa demais para os seus parâmetros.
Olhei para o lado, estava me sentindo uma retardada. Porque era complicado falar sobre os meus sentimentos? E que sentimentos? Eu nem sabia o que tinha acontecido entre eu e Percy. Assim que olhei para o lado abri a minha boca cheia de donuts.
–Ele está ali – murmurei, meu coração batia tão rápido que parecia que ia rasgar meu peito. Lizzie olhou para o meu lado.
–O quê?
–Você está vendo dois homens bem gatos atravessando a rua? O mais novo.
Juntei as sobrancelhas, mal acreditando no que via. Qual era o problema com o universo? Percy estava com uma pessoa do lado, com toda certeza seu pai. Era perceptível pelos traços parecidos, os dois olhos de cores iguais e cabelos pretos. E sinceramente, os dois eram como lamparinas no meio da escuridão, se ressaltavam pela beleza e estilo, também pelo jeito de andar.
O seu pai tinha uma mão no bolso da calça social, usava um terno extremamente elegante que eu tinha certeza ser uma distinta peça Armani com uma gravava azul marinho, os cabelos perfeitamente penteados para o lado. Era alto e forte, os ombros largos. Exatamente aquele tipo de coroa que você imagina nos seus sonhos ter já uns vinte anos de casado.
E Percy estava glorioso como sempre, usava uma calça verde musgo bastante escura, uma malha de frio num tom de vinho com uma blusa branca por baixo, onde se conseguia ver somente pela gola e as dobras dos pulsos. E enquanto andava pecaminosamente na minha direção eu babava no seu sapato de couro amarronzado e perfeitamente engraxado, ele tinha uma queda por sapatos de luxo.
Lizzie arregalou os olhos para mim, colocando a xícara de volta na mesa.
–É ele?
–O mais novo, sim.
–Meu... Deus – seus olhos estavam quase que saltados.
Os dois chegaram finalmente do nosso lado da calçada, estavam distraídos numa conversa acalorada. Percy tinha uma expressão brava, e por um momento eu quis saber o que estava acontecendo para ele sair do seu estado natural de homem relaxado.
Lizzie pegou rapidamente dez dólares na parte de trás da calça, jogando encima da mesa. Depois me puxou pelo pulso.
–O que você está fazendo? – perguntei quando ela empurrou a porta e saímos para a rua movimentada.
Merda, eu já tinha entendido tudo. Percy agora estava andando na minha direção, meus olhos arregalaram. Odiava Lizzie, odiava.
–Vamos sair daqui, agora – respondi brava. Não sabia o que era pior, ficar mais tempo sem vê-lo ou de fato me encontrar com ele.
Lizzie sorriu, ela pegou minha mão e ficou parada ali. Percy agora estava bastante perto, conversava com seu pai que parecia sério.
Estava desesperada. Ele estava numa distancia de cinco ou seis braços. Baguncei os cabelos tentando desesperadamente sair das garras ou unhas de Lizzie.
Puxei meu braço com raiva, olhando para ela de um jeito que eu raramente olhava para as pessoas. Seu sorriso sumiu. Quando olhei novamente na direção de Percy seus olhos estavam em mim, totalmente em mim. Sua expressão era indecifrável, mas definitivamente seus olhos estavam em mim.
Quis sair daquela situação o mais rápido possível, e foi literalmente isto que eu fiz. Saí correndo pela rua.
–Annabeth! – gritou Lizzie – Pelo amor de Deus, cuidado!
Um cara buzinou na minha direção, decidi sair correndo num sinal aberto. Muito inteligente. Não liguei, não tinha sido atropelada e estava inteira. Finalmente estava do outro lado da rua. Não olhei para trás até ter virado a esquina.
Encostei minha cabeça num dos típicos muros cinzentos do Brooklyn, respirando todo o ar que me faltou nos momentos passados. Lizzie passou correndo na minha frente, e quando olhou na minha direção voltou, parecia aliviada.
–Você teve um ataque de pânico ali! –exclamou Lizzie, parecia assustada.
–O que você quer? Simplesmente me puxou e me grudou justamente na direção dele. Entrei em pânico. E porque ele sempre está na mesma rua que eu? Essa cidade é enorme, gigante. Qual a real probabilidade disto acontecer mais de uma vez?
–Destino – disse Lizzie, e eu quis matar. Matar. Odiava aquela palavra, odiava tudo que ela representava.
–Não. Não é destino, é puro azar. O cara não quer me ver, fui obviamente rejeitada e de repente lá estou aparecendo na sua direção. Sinceramente, que ódio.
–Você está ficando desesperada! Quem disse que ele te rejeitou? – Lizzie riu – Acho que você está maquinando problemas inexistentes porque está apaixonada.
–Não, não estou – pigarreei, não acreditei no que ouvia – Olha Lizzie, já deu o meu horário. Eu preciso ir treinar.
Ela fez uma expressão decepcionada, mas eu não podia fazer nada. Cara, ela tinha me enfiado numa situação bastante horrível.
–Tudo bem – disse ela – Amanhã nos vemos na sex shop.
Uma pessoa passou ao nosso lado, juntando as sobrancelhas. Decidi ignorar a reação geral do público quando ouvia as palavras “sex” e “shop” junto.
Ela foi até a rua, chamando um táxi da forma mais original que você possa imaginar e eu suspirei. Milhões de coisas passavam pela minha cabeça e eu precisava extravasar.
[...]
Era o lugar escuro mais aconchegante de todos, entrar ali era quase como entrar em casa. Distinto pelo fato que raramente ficávamos dois meses sem entrar em casa.
O barulho era o mesmo de sempre, e de repente me senti exatamente do mesmo jeito que dois meses anteriores. Minha vida se resumindo em trabalhar oito horas diárias numa loja de design, vir aqui e ir beber. Não estava tão ruim pelo esplêndido fato que meu salário era sensacional.
Este barulho conhecido era de gritos masculinos, batidas e apitos. Fiquei um tempo parada naquele portão, escutando e vendo tudo e sentindo falta do meu primeiro ano em Nova York, em que tudo para mim era perfeito.
–Olha só quem voltou! – gritou uma voz conhecida, dei uma risada enquanto andava pelo local.
Resumindo, era um galpão bastante mal iluminado de luzes amarelas, distribuído com quatro tipos diferentes de tatames e um lugar especial com os sacos de boxes. Quem havia gritado foi Clarisse Le Rue, uma amiga de treino que eu sabia que iria encontrar assim que pusesse os pés de novo no tatame.
Clarisse deu um pulo realmente impressionante do tatame até o chão, seus joelhos sequer dobraram.
–Estava complicado lutar com esses marmanjos, era nocaute na certa – dei um abraço rápido em Clarisse. Éramos inimigas de luta e eu era bastante orgulhosa em falar que as melhores batalhas quem tinha vencido fui eu.
–Clarisse está se gabando. Ela sofreu com a gente – o irmão dela que falou. Outro cara bastante forte que não saía do tatame nem se o pagassem.
O galpão estava cheio, deveria ter umas trinta pessoas por ali. Tinha quatro tipos de tatames diferentes, e eu e Clarisse gostávamos do melhor e o do meio. O octógono.
–Bem vinda de volta, Annabeth — atrás de mim ouvi a voz conhecida de Quíron. Dei meia volta enquanto via o meu treinador favorito. Ele estava tipicamente com a barba mal aparada, bastante grande. Os milhões de cardigãs e lãs amarrotados e sua cadeira de rodas.
–Ei, Quíron.
Estava um pouco envergonhada de não aparecer por quase dois meses. As primeiras duas semanas por lesão, as outras duas semanas por cansaço e o outro mês por demissão.
–Tudo bem? Melhorou? – seus olhos me encaram diagnosticando qualquer tipo de problemas. Olhei para baixo, era possível que ele já soubesse o que poderia ter acontecido. Tanto pela forma que me conhecia quanto por sua experiência de vida com todos os tipos diferentes de pessoas problemáticas.
–Melhorei. Meu joelho está ótimo e estou pronta para o tatame.
Ele deu um meio sorriso, não parecia convencido com a minha animação forjada.
–Alongue-se e treine um pouco do boxe. Depois você vai para o judô e só depois disso eu te deixo ir pro MMA.
Clarisse riu, batendo nas minhas costas.
–Bem vinda de volta – comentou, dando uma piscadela. Quis morrer, queria lutar e extravasar tudo que sentia de ruim dentro de mim, mesmo que nem uma luta conseguisse tirar tudo de desagradável do meu ímpeto.
Deixei minha mochila no vestiário, assim como a minha maravilhosa roupa que não poderia ser denegrida, um vestido verde musgo colado até a cintura e que se abria despojadamente até os joelhos. O bom gosto típico da Lanvin e suado duzentos dólares. Coloquei meu típico top cinza escuro, os meus shorts de lycra e quase como um alivio retirei os meus saltos luxuosos.
A luta era uma parte de mim que eu não gostava de comentar, me lembrava de algumas coisas ruins da minha vida e também que eu tinha algo em comum com todos aqueles problemáticos que vinham no galpão.
Bati com toda a minha força no saco de boxe, tentando ao máximo sentir aquela dor muscular extremamente viciante. Só parei quando o próprio Quíron falou que já estava bom o suficiente.
Não queria me gabar, mas sabia que era a melhor lutadora do galpão. Clarisse poderia ter envergadura, mas eu acabava com ela rápido.
Fui para o tatame do judô, a arte marcial em que eu era mais forte. E depois de uma luta fácil e rápida com um veterano Quíron me parou.
–Annabeth, você pode ir pro MMA – sorri. Feliz – Mas cuidado com o seu joelho. Outra coisa, você tem plateia hoje.
Arqueei uma sobrancelha, olhando em todas as direções. Perto do portão Thalia acenou para mim, e ao seu lado estava... Perseu Jackson.
Fiquei séria e brava. Não entendi porque ela tinha trazido aquele garoto justo para o galpão. O galpão era o meu santuário, o meu lugar, não podia ser contaminado por pessoas que fugiam de mim.
Pulei do tatame até o chão de forma muito menos impressionante que Clarisse, até porque meu joelho não estava dos melhores. Fui andando lentamente para o octógono.
–Você vai lutar?- perguntou meu amigo Malcolm. Sorri.
–Voltei com tudo – sussurrei pra ele. Depois abri os braços – Desafio Clarisse Le Rue no octógono!
Todo mundo gritou, aqueles gritos ensurdecedores. Decidi não olhar na direção do portão e ignorar totalmente a presença de Perseu.
Clarisse, que estava no jiu jitsu, deu um sorrisinho e pulou do tatame. Mais urras zunindo no meu ouvido. Aquilo ia ser épico.
Um calouro que eu não conhecia me deu as luvas de MMA, estralei meu pescoço e pulei para o octógono. Todo mundo tinha parado seu treino para ver a luta.
Estava com as luvas azuis, e Clarisse com as vermelhas. Um aluno subiu para ser o juiz.
–Tudo bem. Coloquem protetores bocais, e mesmo assim cuidado com os socos na boca. Lembrando, o boxe pode vir com tudo então melhor subirem a guarda.
Ele riu. Aquela luta era pra matar. Quíron parecia interessado num canto do galpão, e veio como sempre lentamente com sua cadeira de rodas ver melhor a luta.
O “juiz” fez a marca para começarmos, e Clarisse pegou como estratégia se afastar. Levantei a guarda, os dois punhos em frente o rosto e decidi atacar.
Dei um soco de esquerda que não entrou. Depois um soco cruzado que foi justamente na sua bochecha. Todos deram urras e eu me senti confiante.
Clarisse nem balançou com o meu soco, contra-atacou com um chute de frente que eu tive que dar alguns passos para trás para desviar.
O problema de Clarisse é que ela não era boa na arte suave, jiu jitsu e judô. Se fosse um vale tudo ela provavelmente ganharia.
Suas pernas estavam erradas, e foi nelas que eu foquei. Minhas duas mãos pegaram nos seus joelhos, e eu ouvi todo mundo ofegar. A joguei para cima e depois para o chão.
Urras.
Comecei a dar socos, mas ela se defendeu muito bem e até revidou. Então investi mais no seu quadril, neutralizando as chances dela de sair do lugar. Apliquei uma chave de braço, puxando-a para frente.
Cinco segundos depois ela bateu no chão, desistindo. Tinha sido uma luta bastante rápida. Sorri, tinha cortado na altura da sobrancelha e estava tudo bem.
O juiz levantou o meu braço em demonstração de vitória, e eu sentia o sangue acabar com a minha visão. Saí do tatame num pulo, e Malcolm veio logo me ajudar.
–Você cortou o supercílio, mas que chave de braço. Annabeth, você é a melhor e precisa me ensinar judô.
Sorri, mas agora que a adrenalina tinha passado senti uma dor na bochecha proveniente do soco de Clarisse. Quíron veio na minha direção.
–Não precisava dar os socos... Foi falta de estratégia competir no braço com Clarisse.
Concordei. Quíron raramente elogiava qualquer pessoa numa luta. Somente numa vitória espetacular de Clarisse sobre uma veterana do galpão que já tinha até aposentado as luvas. Isto foi no ano passado.
Thalia veio correndo na minha direção, depois de alguns cumprimentos e ter reestabelecido meu respeito no galpão fui para a arquibancada beber a água que parecia faltar em exagero no meu corpo.
–Você está... Destruída – ela disse e se sentou na minha frente. Percy estava algumas arquibancadas atrás, vinha lentamente – Ele foi até o apartamento atrás de você, e quando eu falei que você estava aqui ele pediu para eu leva-lo, não consegui...
–Dizer não – Conclui. Ela falava tão rápido que eu mal entendia. Percy chegou ao lado de Thalia, olhou por alguns segundos na minha direção e deu um mínimo sorriso.
–Olá Annabeth. Eu não sabia do seu mais novo talento, foi uma bela luta lá embaixo.
Dei um sorriso falso, tanto pela falta de consideração dele continuar tão polido e gentleman quanto pela dor pulsante na bochecha.
–Sim. Você é louca, sabia? Não vinha no galpão há séculos e quando volta decide desafiar a campeã. Parece até que tá querendo se matar.
Eu e Percy nos olhamos na mesma hora, e desviamos justamente ao mesmo tempo. Malcolm chegou quase correndo com um balde, curativos e gelo.
Peguei a sacola e coloquei no meu olho esquerdo, que eu já sentia bastante inchado. Peguei a garrafa de água e joguei na minha boca, cuspi no balde junto com o sangue.
Thalia fez uma cara de nojo, mas Percy olhava tudo aquilo com bastante normalidade.
–O que devo a honra da presença ilustre de vocês no simples galpão? – perguntei, sorrindo falsamente na direção de Percy. Thalia pigarreou.
–Na verdade eu não tinha a intenção de vir, então acho melhor deixar vocês dois sozinhos – comentou e foi embora. Arqueei as duas sobrancelhas mal acreditando no que ela fazia. Porque todas as pessoas não podiam agir normalmente quando o assunto era eu e ele?
Percy mais uma vez era um deslocado, por mais que agisse de forma bastante relaxada e nenhum pouco incômoda. Ajeitei meu top, ainda com o gelo no olho.
–Você quer que eu faça o seu curativo ou...?
–Não, Malcolm. Não quero nada, pode ir embora – respondi agora me estressando. Malcolm parecia uma formiga elétrica, andando de um lado para o outro como louco. Foi embora correndo e quase caiu na última arquibancada.
Eu e Percy ficamos algum tempo em silêncio. Imagine a cena cômica de uma Annabeth Chase com o rosto inchado olhando por vários segundos sem reação alguma para um homem lindo à sua frente.
–Eu também luto. Quer dizer, lutava. Quando fiz doze anos minha mãe achou que todo esse contato com a moda poderia estar me afetando, então decidiu me colocar no MMA para me “masculinizar”.
Arqueei uma sobrancelha, surpresa. Percy não precisava se masculinizar. Tudo nele expirava virilidade, do seu jeito de falar até o jeito de agir. Mas imaginei um garoto de dez anos olhando os sapatos da mãe e comentando “Tem certeza que quer ir com o Louis Vuitton hoje?”, também desconfiaria.
Dei um sorriso de lado, era complicado ficar com raiva dele.
O gelo começou a derreter e me irritar, e eu tive que joga-lo dentro do balde. Meu corte voltou a queimar. Percy se levantou, sentando-se ao meu lado na arquibancada.
–Deixa comigo – falou enquanto pegava a maleta de curativo – Não sei contar o número de vezes que cortei o supercílio, virei expert em primeiros socorros.
–E o que te fez sair do mundo das lutas? – ele mexia na maleta.
–A faculdade. No primeiro período eu não tinha tempo para nada, decidi puxar todas as matérias possíveis. Mas agora que estou formando e as coisas estão mais calmas, pode ser que eu volte.
Dei um sorriso de lado. Com bastante calma ele pegou a pomada, colocando-a no dedo. Depois passou lentamente pelo corte encima do meu olho esquerdo, ardeu. Ardeu com tudo.
–Desculpa – sussurrou, olhando nos meus olhos. Depois de algum tempo nos olhando ele deu um mínimo sorriso. Voltou com a cabeça para baixo, pegando agora o algodão que tinha aquele remédio amarronzado que também ardia pra caramba. Fechei os olhos porque aquilo doía. Ele passava com muita calma e muito cuidado, mas a merda do remédio ardia.
Ele tirou o algodão e por fim pegou o curativo hidrocoloide, massageando lentamente a parte de cima do meu olho.
–Não vai precisar de ponto – comentou enquanto colocava tudo de volta na maleta.
Queria dizer que não teve um momento nas últimas duas semanas em que eu não pensava nele, onde estava e porque não veio falar comigo. Mas as palavras não conseguiam sair, de repente aquilo não era importante mais. Estava, e odiava admitir aquilo, extremamente feliz dele vir atrás de mim.
Cuspi mais um pouco de sangue no balde. Bebendo mais água e sentindo o gosto férreo descer pela minha garganta. Percy mordeu a parte de dentro da bochecha, como sempre fazia quando estava nervoso.
–Desculpa ter aparecido sem aviso prévio no seu treino – ele disse- Não era a minha intenção ser inconveniente, mas achei necessário vir depois de você ter literalmente corrido de mim na rua.
Minhas bochechas só não coraram porque eu já estava vermelha por causa da luta, não falei nada. A situação por si só era vergonhosa o suficiente.
–Minha semana em Paris foi péssima– ele falou, calmamente. – Não parei de pensar em você, e depois quando voltei tive milhões de problemas e a única coisa que eu pensava era te encontrar. Mas então eu lembrei que a única forma de falar com você era por Thalia e isto complicou tudo.
Juntei as sobrancelhas. Esqueci do fato importante e que diferenciava Percy de todos os outros caras, ele não tinha o meu telefone. Não me lembrei de passar para ele.
Me senti bastante idiota com toda aquela desconfiança e insegurança, e percebi que Lizzie poderia estar certa. Talvez eu estivesse apaixonada por ele.
–Espero que não esteja ressentida – concluiu. Fiquei um tempo em silêncio, a parte dele falar “não parei de pensar em você” repetindo-se como fita travada na minha mente milhões de vezes.
–Vou trocar de roupa, e você me espere aqui. Tudo bem? Acho que está na hora de tomarmos aquela cerveja que você me convidou.
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