Save Me

2 Can't take my eyes of you


Notas iniciais
Olá. Então, decidi continuar a história porque eu gostei do que escrevi como continuação e espero que vocês também gostem. Aliás, todos os nomes dos capítulos serão com uma música. Essa é Can't take my eyes of you de Frankie Valli and The Four Seasons. Boa leitura!

“And i thank god i’m alive, you just too good to be true”

O despertador tocou me trazendo a consciência de tudo que acontecia ao meu redor. Abri os olhos, na rua abaixo o vendedor gritava, o carro buzinava e o som dos motores ronronava. Dentro de casa eu ouvia alguns barulhos simultâneos e avulsos, mas que eu reconhecia por experiência anterior sendo o bule com água fervente e as escadas que algum vizinho do andar debaixo fazia questão de não só subir, mas marchar como se estivesse treinando para entrar no exército.

Fui andando lentamente pelo apartamento, tendo a real consciência de que tudo estava na mais perfeita ordem. A minha epifania do dia anterior havia afetado somente a minha vida, tudo ao meu redor continuava estranhamente normal.

–Olha Thalia, eu já estou ouvindo a AHHHH!

Escondi rapidamente num lado do balcão, até porque estava somente de calcinha que era o jeito que eu normalmente dormia e andava pelo meu apartamento. E estava enganada pela minha constatação anterior, tudo não estava estranhamente normal, estava estranhamente diferente. Até porque não era sempre que eu encontrava um homem seminu agarrado com a minha colega de quarto no balcão da cozinha.

Os dois estavam assustados e ofegantes, mas provavelmente não tão assustados quanto eu. Pelo que conhecia da fama da minha melhor amiga, homens nunca dormiam com ela, muito menos no apartamento dela. O número de homens que Thalia havia trazido para o apartamento no passado memorial de dois anos em que vivo com essa peste é de exatamente zero.

Thalia sorria divertidamente, muito ao contrário do garoto que parecia muito envergonhado e eu que estava vermelha até as raízes dos cabelos.

–Annabeth, este é o Luke. Luke, esta é a minha colega de quarto Annabeth – as bochechas vermelhas dele o fizeram parecer algum cosplay de tomate.

Reparei nos seus olhos azuis logo de cara, eram como duas pequenas órbitas de oceanos mediterrâneos, ele tinha uma cicatriz bastante evidente perpassando por um de seus olhos, mas de um jeito genuíno e até mesmo atraente.

–Prazer Annabeth, e-eu vou trocar de roupa – ele coçou os cabelos loiros quase cor de areia, e saiu andando até o corredor. Olhei para suas costas, mas precisamente para sua bunda, e fui irremediavelmente puxada para a direção da minha amiga de novo. Esta que estava a poucos centímetros de mim.

–Nem pense nisso, ele não é do tipo que se joga fora. No caso, que eu vou jogar fora – dei um meio sorriso, mais que malicioso, e ela acabou rindo também – Ele é meio que um cavalheiro, entende? Acho até que eu o conheço de algum lugar na minha infância arrebatadora com os eventos extremamente insuportáveis do meu queridíssimo pai.

–Então agora você decidiu dar uma pequena pausa nos drogados traficantes e começar a se relacionar com pessoas decentes? – minha boca se abriu em falsa surpresa, e recebi um tapa na cabeça em resposta – Ei, cuidado, ela já não funciona muito bem.

–Eu o conheci numa das conferências da universidade e sei lá, estava com saudades de ter uma conversa com um homem que passasse do “ei gata, hora do sexo” e eu “beleza, mas eu quero oral”...

Olhei no relógio, eram onze e meia da manhã. Às seis horas daquele mesmo dia eu estava prestes a me matar, prestes a não ouvir a conversa de Thalia sobre seu novo ficante, prestes a não fazer nada daquilo que eu estava fazendo. Simplesmente me senti culpada.

Depois que acordei, percebi também que provavelmente aquele homem extremamente bonito foi uma visão projetada pela minha mente para que eu me salvasse, eu o vi como uma miragem me salvando porque eu queria me salvar. E isto já era algo alentador, além do mais, nunca em toda a história das novelas românticas um homem ofereceria sua apenas companhia até a casa daquela que ele salvou somente para se certificar de que ela estava bem. Ninguém chega até a porta do prédio da garota e diz “até mais ver”. É cavalheirismo demais para ser verdade.

–Annabeth! – gritou Thalia praticamente no meu ouvido – Oie!

Pisquei para acordar dos meus devaneios, percebi que todo aquele tempo estava encarando o relógio. Luke estava ao lado dela, olhando na minha direção como se eu fosse algum tipo estranho de alienígena.

–Então Annabeth, você está também mais que convidada – semicerrei os olhos, agora sem entender nada.

–Convidada pra quê? – Luke deu uma meia risada, e eu percebi porque Thalia não queria jogá-lo fora de jeito nenhum.

–A festa que vai ter hoje à noite de uns amigos meus, parece que é chato porque como a Thalia disse é festa de “mauricinho”, só os ex-alunos de um colégio interno que eu estudava antes da universidade, mas mesmo assim a festa sempre fica boa depois da meia noite.

Dei um sorriso, tentando parecer simpática por mais que eu tenha quase a certeza que meu sorriso era mais ou menos irônico.

–Então nos espere lá meia noite e um.

Thalia riu cuspindo parte do seu café recém passado, e felizmente Luke também ria enquanto olhava na minha direção e não prestava atenção na expressão nada sexy da sua ficante. Bebi o que pode ser considerado meio gole de café e decidi deixa-los a sós no apartamento com a desculpa de que iria trabalhar.

O único problema é que eu estava desempregada.

Eu não mencionei em momento algum as minhas formações e históricos? Com a minha formação profissional de técnica em moda consegui passar por coisas maravilhosamente incomuns em Nova York, como por exemplo, estilista de roupas para bonecas Barbie. Mas infelizmente fui demitida por não ser tão profissional e agora estava atrás de um emprego que quem sabe poderia aceitar uma trabalhadora cheia de ressaca e previamente drogada (Prostituição não era uma opção).

Quando tinha dezesseis anos e sonhava que a minha formação acadêmica passaria do requintado ensino médio achei sinceramente que não cairia nada mal fazer um curso técnico em moda, dois anos apenas e começaria a me vestir melhor. Quatro anos depois era basicamente o meu ganha pão.

Depois de horas matando o tempo simplesmente desisti de deixa-los a sós e voltei ao anoitecer para o apartamento.

Quando mais perto chegava do lugar, mas eu acreditava que estava num universo paralelo. Uma música animada tocava de dentro do local e nem um pouco heavy metal (era mais o estilo de Thalia).

Assustada abri a porta, e vi uma cena que pode ficar marcado nos históricos infames de Thalia Grace, sim, ela dançava livremente e de forma bastante vergonhosa pela casa, ao som de um pop que eu honestamente não conhecia.

Dei uma risada, sentindo que alguns quilos de tristeza esvaziavam do meu corpo, e Thalia olhou para mim como se eu fosse louca ou (como eu acreditava que fosse) profundamente inconveniente.

–Parece que viu um passarinho azul! – exclamei, fechando a porta atrás de mim – Ou talvez um par de olhos azuis...

–Calada – ela falou, estava ofegante, mas agora também sorria – Por onde você se meteu? Ficou a tarde inteira fora.

Mordi o lábio inferior, olhando para o relógio e percebendo que não era mais o anoitecer, e sim quase oito horas da noite.

–Eu acho Thalia – semicerrei os olhos– Que a gente deveria começar a se arrumar, eu não acho que tenho uma roupa apropriada para ir numa festa cheia de gente grã fina.

–Você prometeu que ia – ela respondeu e olhou para mim como se eu fosse algum tipo de traidora do estado. Revirei os olhos, mas era a mais pura verdade, tinha quase certeza que não iria me sentir nada confortável com aqueles mauricinhos dos Hamptons olhando meu estilo nem um pouco sofisticado – E, aliás, essa é a melhor parte da festa.

Ela voltou a pôr um pop desgracento, rindo junto comigo e dançando de forma triste e vergonhosa. Depois de toda aquela brincadeira eu ainda olhei de forma bastante desalentadora para as minhas roupas no armário. Algo que poderia parecer estiloso para puros leigos, mas para pessoas que gastam bastante dinheiro com uma peça de roupa poderia ser somente puro lixo.

Coloquei tudo que eu tinha de mais parecido com roupas de festas, algo que variava entre algumas peças dos brechós mais loucos que estavam no meu top 10 e roupas extremamente inconvenientes para uma festa que eu não sei se faria tanto sentido eu ir.

–Thalia! – gritei, e depois de alguns segundos uma morena sem maquiagem (algo que até eu, Annabeth, estranhava) apareceu sorridente – Eu realmente não tenho roupa para esse lugar, vai ser tipo vergonhoso.

Ela coçou os cabelos, indo mais perto da minha cama e olhando para as peças de roupas.

–Você deveria fazer igual a mim, vai com que a que você achar a mais inapropriada. É sempre bom fazer uma chegada triunfal em festas assim – ela pegou um dos meus shorts de cintura alta, jeans e cheio de detalhes em strass preto, lindo e encontrado numa loja vintage muito pouco conhecida na ilha de Manhattan. Depois, uma regata rosa justa que mostrava mais do que era recomendado dos meus seios, e por último uma jaqueta de couro mais do que usada por mim, o traje mais inaceitável para uma festa daquelas.

–Obrigada, Thals. Vou me sentir muito incluída – ela riu

–Nem se você estivesse devidamente vestida se sentiria incluída com aquela gente, pode acreditar... Usa aquelas botas com aquelas coisas pontiagudas que você adora e que nunca me emprestou sua mão de vaca.

Olhei para ela, que estava muito diferente sem a maquiagem pesada. Os cabelos pretos tinham um corte caro e repicado, bastante elitista, seus traços eram parecidíssimos com as garotas que viviam nas capas de jornais e revistas de Nova York.

Quando saímos do prédio, eu percebi o quão péssima era aquela ideia de irmos tão desnudas para a festa, estava fazendo uns treze graus congelantes, além disso, depois de pegarmos o táxi ainda tivemos que andar algumas quadras a pé por causa do tráfico infernal daquele lugar.

Enquanto ouvíamos assovios nada educados e comentários nada respeitosos decidi mexer a minha mandíbula para tentar quem sabe não fazê-la congelar. Ao meu lado, Thalia parecia extremamente confortável naquela situação, seu vestido curtíssimo e preto a parecia deixar muito mais à vontade do que a minha jaqueta que ainda me fazia morrer de frio.

–Ei, Thals, você falou com o Luke sobre a sua hum... Real identidade? – arqueei as sobrancelhas e percebi que ela tinha fechado a expressão. Já sabia a resposta.

–Não – respondeu, depois revirou os olhos – Qual é, Annabeth? Ele é do meio, entende? Eu precisava saber se ele ficaria comigo porque eu sou gente boa, gostosa ou sei lá o que ou somente porque eu sou filha do Zeus. Uau, grande bosta.

–Acho que ele somente ia pensar: “porque a filha do magnata de Manhattan está cheirando tanta cocaína enquanto o pai abre clínicas de reabilitação?” – ela deu uma risada, coçando os cabelos.

–É claro que o meu querido papai está pensando em mim, e que ofensa, eu não cheiro cocaína. Você acha que eu tô querendo me matar?

Fechei a cara, era como se ela tivesse me dado um tapa. Mesmo Thalia, que tinha marcas nos braços de tantas drogas injetáveis e muita cara de morta não queria se matar. O que era necessário então para chegar aonde cheguei? Muita burrice ou o fundo do poço?

–Nossa, Annie, tudo bem? Você parece que viu um fantasma – assenti com a cabeça.

–Só estou congelando – uma fumaça saía da minha boca enquanto eu andava, caramba estava frio pra caralho – Onde você combinou de encontrar com ele mesmo?

Olhei para os lados, estávamos no centro elitista da cidade e aquilo não me era nada confortável. Thalia estava certa, nunca me situaria naquele grupo.

–Luke vai estar na porta da boate nos esperando, relaxa um pouco – arqueei uma sobrancelha, os papeis se inverteram entre eu e Thalia. Normalmente era eu que a mandava relaxar um pouco.

Finalmente avistei a maldita boate, e um garoto loiro que era definitivamente Luke conversando com alguém que estava virado de costas, quando ele nos viu deu um sorriso e o homem que conversava com ele se virou.

Congelei de vez, minhas pernas não saíram do lugar e os meus olhos se arregalaram. Era, com toda a certeza, o cara que tinha me pegado na ponte. Ele não era uma alucinação de uma garota prestes a morrer, apenas um cara muito gato que decidiu entrar na minha vida numa hora muito errada.

Peguei no pulso de Thalia, que me olhava como se eu fosse louca.

–Que foi?

–O garoto... O garoto do lado dele... – minha boca estava seca, minha perna tremendo, eu sentia que iria vomitar de tanto nervosismo. Existia alguém vivo na face da terra que presenciou a minha tentativa de suicídio.

–É só o Percy, eles são amigos – ela deu um meio sorriso – Amor à primeira vista, Annabeth? Acho que ele já tem dona.

Ela me puxou para lá, e eu sabia que eles estavam olhando na nossa direção. Eu sabia que aquele garoto não conseguia parar de olhar para mim, provavelmente assustado demais para poder desviar o olhar.

Ela e Luke se beijaram assim que se encontraram, de uma forma quente demais para que as pessoas ao seu lado não se sentissem totalmente desconfortáveis. Dei uma olhada no garoto, minha boca ainda parecia seca demais, e aqueles malditos olhos verdes me encarando não ajudavam em nada.

Imaginei o que aconteceria em seguida, Thalia ficaria sabendo do que aconteceu naquela madrugada, todo mundo que era ligado à minha vida ficaria sabendo e olhariam para mim como se eu fosse algum tipo de louca ou maníaca que precisa ser presa num manicômio.

Depois do que pareceram horas, mas provavelmente foram alguns segundos os dois finalmente se separaram, mas ainda abraçados. Luke sorria feliz da vida, e eu percebi pela primeira vez que Thalia parecia apaixonada de verdade.

–Vocês dois não se conhecem, não é? – perguntou Luke. Arregalei os olhos. O homem olhou na minha direção, depois para o horizonte como se pensasse no que responder. Mas foi tão rápido que talvez somente eu percebesse sua insegurança.

–Não. Eu não a conheço.

–Essa é a Annabeth, a garota que aparece depois da meia noite. Annabeth, esse é o Percy, normalmente ele é um gentleman.

Assenti, olhando na sua direção como se fossemos meros desconhecidos. Não estávamos muito longe disso, a diferença talvez fosse o fato que ele tinha me encontrado numa situação um tanto desconfortável.

–Prazer – falei, apertando sua mão. Era quente e macia, estranhamente pesada. Ele ensaiou o que parecia ser um sorriso.

–O prazer é meu – acho que ficamos nos olhando por tempo demais, e segurando nossas mãos por tempo demais, porque Luke pigarreou e disse:

–Então, vamos entrar? –Thalia olhava para mim divertidamente. Assim que ele pigarreou eu e Percy nos separamos.

Entramos numa boate escura e barulhenta, a única diferença dela para as outras é que não estava cheia, ou seja, tinha como você respirar e estar ali dentro ao mesmo tempo. No balcão de bebidas que era de uma cor rosa florescente tinha uns drinks realmente caros, um DJ particular tocava numa cabine acima de nós, e eu imaginei que se não tivéssemos entrando com Luke naquele lugar como eu teria que vender minha parte do apartamento para poder comprar uma entrada.

Olhei para Percy, que conversava alguma coisa animadamente com Luke e Thalia, e percebi quão bem vestido os dois estavam. Luke usava uma camisa social preta, seguido de um jeans lavado e um sapato social que eu sabia que custava o olho da cara.

E Percy era realmente um gentleman, ou se vestia como um, pois usava uma blusa de botões pretos que tinha a textura de um jeans, seguido por um blazer amarronzado de camurça que tinha aquelas mangas abotoadas que faziam qualquer menina suspirar, sua calça era um jeans preto que caía muito bem nele e seu cabelo era bagunçado e sexy. Eu conseguia entender porque eu o confundi com uma miragem, ele era bonito demais.

A música eletrônica tocava alto e fazia todos se mexerem no seu ritmo, menos eu que não estava exatamente no clima para dançar. Luke e Thalia acabaram saindo para se agarrarem e dançarem, não sei. E eu acabei ficando sozinha com Percy.

Ele olhou para mim, mas parecia um pouco sem graça. Quer dizer, ele tinha me visto quase morrer logo naquela manhã e esperava (tenho quase certeza) que nunca mais me encontrasse.

Ele bebeu um copo de uísque de uma só vez e veio com a boca no meu ouvido fazendo-me arrepiar.

–Vamos lá pra cima? É mais calmo – ele sorriu educadamente e saiu de perto do balcão, cocei os cabelos pensando se aquilo era uma boa ideia. Mas achei logo depois que era plausível confiar numa pessoa que me puxou da morte.

Lá encima era realmente mais calmo, quer dizer aquilo não era uma boate normal e disso eu já sabia, mas lá encima era como o camarote de uma boate organizada. Tinha mesinhas altas e cadeiras altas, além de nós outros três grupos de pessoas naquele corredor tão imenso.

Um garçom (sim, um garçom) passava pelo corredor com uma bandeja de bebidas. Percy o chamou.

–Um copo de uísque, por favor, e você? — ele bebia só um pouco não é?

–Cosmopolitan – o garçom pôs as duas bebidas na mesa. A bebida amarronzada cheia de gelo e a bebida que eu só pedia quando queria impressionar alguém porque um copo de cerveja era o mais apropriado para a minha pessoa.

Assim que bebi senti o gosto de vodca, morango e limão que atingia em cheio o meu paladar, era difícil não apreciar o meu drink favorito. Ele olhava na minha direção curioso, bebendo um gole do seu uísque. Era difícil não se intimidar com a sua presença, mas eu tinha que me lembrar do que Thalia havia falado: “acho que ele tem dona”. Ele tinha namorada.

–Sabe, Annabeth, eu não sei você, mas eu acredito em destino – ele bebeu mais um gole de uísque olhando para mim curiosamente, eu, ao contrário dele, não conseguia ficar tão relaxada. Não era o tipo de situação que tinha como se preparar, entende? – Só de ter te encontrado hoje de manhã já me pareceu um milagre, agora te encontrar de novo hoje à noite me confirma que era destino.

Ri com escarnio, olhando para o lado.

–Que tipo de destino? Você vai tentar fazer uma intervenção ou algo assim? – sabia que estava sendo rude demais com uma pessoa que eu mal conhecia, mas era isso que mais me preocupava, não precisava da pena de ninguém nem da ajuda de ninguém.

Ele arqueou as sobrancelhas em resposta, depois coçou os cabelos e deu um sorriso de lado que fez todos os pelos do meu braço se arrepiarem.

–Eu não quero ser seu psicólogo se é o que você está pensando, só fiquei encantado com os seus olhos – ele bebeu o resto de uísque no copo, arqueei as sobrancelhas. Ele era sempre direto assim ou variava de acordo com a situação? – São azuis?

–Cinzas.

Ele confirmou, e era esquisito, mas pela primeira vez eu não sabia se um cara estava dando encima de mim ou não, ele não falava como se estivesse dando encima de mim. Era como se falasse do tempo. Presumi então que ele deveria ser daquele tipo de cara que gosta de deixar uma garota sem graça.

Bebi o resto de cosmpolitan do copo sentindo o álcool quente na minha garganta e pulsando nas minhas veias. Percy me observava com bastante atenção e falava muito pouco, não era o tipo de cara que eu estava acostumada e aquilo me deixava bastante incomodada.

–Você chegou num ótimo momento, sabia? Estamos numa maratona de festas este fim de semana.

Ri.

–Talvez você nem tanto –ele olhou para mim, e depois acabou rindo também.

Seu segundo copo de uísque havia acabado e eu percebia que ele não parecia mais tão sério quanto antes, nada como alguns copos de álcool para deixar as pessoas confortáveis numa situação tão incomum. Ele bateu os dedos na mesa lentamente, percebi que era algum tipo de tique dele.

–Você sempre ironiza sua própria vida ou é sua forma de tratamento com estranhos? – fingi que pensava.

–A ironia é a arma dos fracos – percebi que ele tinha chamado o garçom mais uma vez – E eu trato todos desse jeito não se sinta mal.

Depois de mais um copo de uísque e outra cosmopolitan ele continuou sua linha de raciocínio. Ele tinha essa mania honesta de olhar nos olhos das pessoas enquanto falava, e aquilo também não era muito comum na minha vida.

–Então... Estamos numa maratona de festas, e amanhã vai ter uma na minha casa. Thalia não é uma convidada e sim uma obrigação, você é a minha convidada – percebi que ele não parecia mais tão confiante.

Olhei nos seus olhos de volta, tentando entender quem era aquele homem e porque ele estava fazendo tudo o que fez no último dia. Desde me salvar até sentar para conversar comigo somente para ficar me observando.

–Eu mal te conheço – comentei, semicerrando um pouco os olhos.

Minha mente já estava nebulosa e meus pensamentos sendo cortados, sabia que não estava mais com aquela expressão sã de quem sabe exatamente o que fala e começava a divagar os meus pensamentos. Ele deu uma risada, ao contrário de mim, ele fazia isto com bastante frequência. Parecia ser um cara feliz. A pergunta era: o que eu estava fazendo do lado de uma pessoa daquelas?

Ele se levantou, pegou a cadeira alta e a colocou do meu lado. Depois se sentou. Seu copo de uísque sempre em mãos... E impressionante como a roupa continuava impecável.

–Vou te contar um segredo – ele falou perto do meu ouvido, e só então eu percebi o quão rouca sua voz era, chegada num tom que verberava no mais grosso – Eu odeio essas pessoas. Odeio todos estes convidados, com exceção de Luke. São pessoas mesquinhas, superficiais e insuportáveis. Uma pessoa que decide vir numa festa horas depois de tentar pular de uma ponte, eu não sei, é complexo demais e muito diferente destas garotas que estão aqui – ele olhou nos meus olhos, seu rosto estava bastante próximo do meu, assim como sua boca. Seu sorriso sumiu. Essa coisa de nos olharmos nos olhos estava acabando comigo, eu simplesmente não conseguia desviar, ficava como que hipnotizada naquelas pérolas verdes. Depois do que pareceram horas, dias ou quem sabe pouquíssimos segundos ele se afastou– E eu conheço a dona da linha dos seus sapatos, nossa amizade pode ser bastante lucrativa para você.

Olhei para as minhas botas e arqueei uma sobrancelha, sorrindo.

–Qual o endereço da sua casa mesmo?

Ele riu mais uma vez, e eu sem querer acabei reparando no seu sorriso. Era genuíno e sexy ao mesmo tempo, como se ele estivesse realmente feliz em me deixar abalada. Normalmente eu abaixaria minha blusa, passaria um batom vermelho e jogaria o cabelo para o lado e lá estava o cara na palma das minhas mãos, mas por algum motivo eu sentia que isto não iria colar com aquele cara. Na verdade, eu não sabia nem se queria ficar com ele. Era estranho pensar naquilo, mas eu sentia apenas que queria conhece-lo melhor, e de repente eu o entendi. Normalmente você tem curiosidade de conhecer uma pessoa quando vocês duas compartilharam um momento importante.

Luke e Thalia começaram a subir as escadas atrás de nós, e Percy calmamente voltou com a cadeira para o lugar, bebeu seu uísque como se nada acontecesse. E agora por algum motivo eu sabia que ele não contaria nada a ninguém do que aconteceu pela manhã.

–Do que vocês estão falando? –gritou Thalia, e eu percebi na hora que ela estava bastante alterada. Quem deveria leva-la para casa naquele estado? Sim, eu. Ela tentou beber o meu cosmopolitan, mas calmamente afastei a taça de perto dela.

–A festa na sua casa?- ouvi Luke gritando, e eu percebi que Percy deveria ter mudado totalmente de assunto – Sim, vai ser demais cara...

–Eu acho melhor levar a Thalia para casa – falei, olhando a minha amiga que começava a rir loucamente como se fosse o coringa ou coisa assim – Nos vemos amanhã.

Olhei em direção ao Luke, e não ao Percy. Realmente não estava com tanta vontade de ir à sua festa, talvez se eu fosse poderia parecer desesperada demais ou triste demais e eu não gostei do que rolou comigo quando eu o conheci, então decidi deixa-lo para lá.

Mas infelizmente Percy estava certo, e o destino entrelaçou nossas vidas mais uma vez em tempo recorde.

Notas finais
A narração da história será toda em primeira pessoa, no caso a Annabeth. Espero que vocês tenham gostado. Por favor não deixem de falar a opinião de vocês nos reviews isso é muito importante. Beijos e até o próximo!