Save Me
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Notas iniciais
“We could go and get 40's, fuck goin' to that party”
Certas coisas deveriam virar leis entre melhores amigas. Leis eu digo escrito na constituição, literalmente falando. Uma delas seria que quando uma ficar bêbada, por favor, não faça o favor de beber também. O caso é que lá estávamos eu e Thalia, brigamos pela madrugada por algum motivo que eu realmente não me lembrava. O banheiro estava sujo porque ela tinha vomitado e eu não estava bem o suficiente para ajuda-la, e agora as duas estavam de ressaca e extremamente mal humoradas.
Quando deu duas horas da tarde, percebi que eu estava fadada ao desastre. Abri a porta do apartamento e lentamente fui descendo as escadas, tendo real consciência da minha indisposição e dor de cabeça. Infelizmente era sábado, e sábado para alguns estabelecimentos do demônio também significava “entrevista de emprego”.
Assim que o sol bateu no meu rosto eu tive a plena certeza de que a coisa mais interessante naquele momento era eu dar meia volta e ficar em casa, na cama, pelo resto do dia. Depois me lembrei de que a empresa era muito boa, e o salário era estranhamente favorável, então suspirei e peguei óculos escuros ray-ban, o meu favorito, o retangular com a estampa de oncinha, e fui andando contra a maré da minha disposição até a maravilhosa entrevista de emprego.
Quando estava sentada, vendo eu e mais algumas garotas esperando serem chamadas, percebi que era muito irresponsável. Não tinha nem me lembrado que tinha uma entrevista marcada para aquele dia, não tinha nem se passado na minha mente desajustada que “hum talvez eu tenha algo a fazer no dia seguinte. Devo mesmo ir a essa festa?”.
Chamaram o meu nome, e eu tive que obrigatoriamente tirar os meus óculos. Sentei na frente da mesa, não era um grande trabalho: Só mais um em técnico de moda, mas assim que a entrevistadora pôs os olhos em mim e provavelmente percebeu a minha ressaca brava, eu tive a certeza que não ia conseguir aquele emprego.
Voltei para as ruas de Manhattan com a ideia maravilhosa de que eu deveria realmente virar um mendigo, tentar achar um magnata velho para me casar e então ficar rica o resto da minha vida. Estava sentindo que estava quase na hora de pôr a minha ética de lado e desistir de fazer essas entrevistas de emprego malditas.
Virei dois quarteirões à esquerda e cheguei finalmente no complexo que eu mais gostava naquela cidade. Aquelas centenas de lojas de um lado e do outro me faziam parecer finalmente saudável de novo.
Parei especialmente numa vitrine iluminada de luzes douradas, ao centro como uma figura divina lá estava o novo par Christian Louboutin, meu coração parecia até ter dado uma parada cardíaca diante dos sapatos mais lindos que eu tinha visto naquele ano. Era como se houvesse uma luz especial naqueles sapatos dourados, e um coro cantando ao seu redor enquanto eu o observava.
E se eu fosse cardíaca, realmente iria morrer naquele dia porque aconteceram muitas coisas ao mesmo tempo.
–Fascinada? – sussurrou alguém no meu ouvido. Dei um pulo, meus óculos quase caindo no chão. Quando me virei, lá estava ele, o anjo ou endiabrado Percy Jackson, ainda não tinha conseguido me decidir.
Estava em todo seu esplendor, usava estes maravilhosos óculos aviadores dourados que combinavam bastante com seu tom de pele, uma blusa de algodão preta com três botões e um casaco amarronzado por cima de botões pretos, os dois puxados até os seus cotovelos. Usava também um jeans lavado claramente desgasto e maravilhosamente fashion. Era impressionante a percepção estilística daquele homem.
Em poucos segundos reparei aquilo tudo e ainda seu sorriso brincalhão. Era de se imaginar que assim estaria depois de afirmar que nosso destino estava entrelaçado e então lá estávamos nós, encontrando nas ruas da pequena gigante ilha de Manhattan horas depois.
Virei-me, decida a não olhar muito na sua direção.
–Aqueles sapatos – apontei, suspirando – São...
–Christian Louboutin- completou ele, cruzando os braços e sorrindo ao meu lado. Olhei na sua direção descrente. Como que ele sabia assim numa olhada as marcas daquele sapato? – Seriam perfeitos pra você usar hoje à noite, na minha festa.
Olhei para o chão, nem sequer me lembrando dessa festa. Já tinha me decidido na noite anterior que não iria de jeito nenhum, não pretendia e não iria me encontrar com Percy (pelo menos não propositalmente). Mas lá estávamos nós, na calçada de uma rua no centro de NY às três horas da tarde naquele dia ensolarado. Estava começando a me perguntar se talvez ele não tivesse razão, talvez alguma força superior nos quisesse juntos.
–Ah, sobre isso... – olhei para frente – Infelizmente não vou poder ir à sua festa.
Ele arqueou uma sobrancelha, parecia surpreso. Pigarreei, não estava nos meus planos falar aquilo pessoalmente. Decidi não prolongar aquela conversa constrangedora, e continuar andando na direção contrária que ele fosse esperando do fundo do meu coração que seja para o subúrbio e não na rua lotada das minhas lojas favoritas.
–Mesmo assim, acho que seria uma falta de educação você não comprar aqueles sapatos. Vocês dois – ele riu, apontando para a vitrine depois para mim – Tem uma conexão. E eu percebi desde ontem que você parece ser uma grande admiradora de moda.
–Eu? –ri – Você conhece a designer das minhas botas, que, aliás, são da Franziska Hubener. Eu tenho que te perguntar, você é um homem distinto ou gay?
Ele riu. Uma risada de tirar o fôlego que fez a garota que passava ao nosso lado sorrir em sua direção.
–Acho que nenhum dos dois. Sou somente filho de pessoas que gostam de investir todo o seu dinheiro nisso – juntei as sobrancelhas.
–O que?
–Simplificando: o meu pai é um investidor, gosta de fazer a vida na bolsa de ações. E desde 1995 quando investiu mil dólares na Jimmy Choo e um ano depois estava milionário sentiu que o mercado da moda era um bom lugar. Desde então ele não perde um investimento sempre que o faz em qualquer empresa de moda. É óbvio que ele sabe de tudo sobre esse mundo, e o seu filho...
–Um expert júnior – respondi, fascinada com a história que ele contava. Se eu tivesse uma família tão ligada aquele mundo provavelmente sairia dançando sempre que contasse para alguém o que o meu pai fazia. Mas Percy falava aquilo como se falasse que seu pai era jardineiro ou empregada doméstica, uma pr ofissão totalmente comum.
–Isso – ele deu uma risada breve. Era a quinta ou sexta vez que eu o via fazendo aquilo em dois dias de convivência. – Nós vamos ficar aqui parados ou quem sabe entrar na loja?
Cocei os cabelos. “Nós”. Tinha bastante bloqueio diante dessa palavra. Gostava mais do “eu” e “você”, cada um no seu lugar. Mas pelo jeito Percy não tinha tantos problemas em fazer coisas coletivamente quanto eu.
–Eu não vou comprar esses sapatos, são muito caros – não queria e sabia que aquilo era idiota, mas eu tive uma pontada de vergonha, a verdade é que eu vinha nessas lojas e via o que estava na tendência, depois achava coisas parecidíssimas nas lojas mais ao leste, os brechós e vintages que eu tanto amava.
–Ah, eu não estava pensando em comprar nada – respondeu ele – Achei que você era daquelas que achava divertido experimentar roupas e ir embora.
Estranhamente eu ri, algo tão distinto na minha vida ultimamente que até eu me assustei. Ele deu um sorriso de lado, parecia satisfeito com alguma coisa.
–Você fica muito mais bonita quando sorri, Chase – não deu tempo nem ao menos de corar pois ele me puxou para a rua, atravessando comigo pelo outro lado, onde tinha as lojas de roupas. Entramos na primeira loja, tão branca e tão fina que eu me senti quase suja naquele lugar. As roupas estavam organizadamente separadas em manequim e cabides, com pouquíssimas peças repetidas. Tinha três ou quatro socialites.
–O que estamos fazendo? – sussurrei para ele, uma sinfonia de Beethoven tocando quase que sussurradamente na loja, o ar condicionado gelado esfriando o meu rosto. Percy deu um mínimo sorriso.
Foi até a esquerda, onde tinha uma manequim com o vestido vermelho mais lindo que eu já vi. Todo de renda, uma renda linda e finíssima que vinha até os joelhos. Percy pegou um daqueles vestidos, depois pegou na minha cintura e foi comigo até o fundo da loja, onde tinha uma cortina enorme branca.
Familiarizado (ao contrário de mim, que parecia um peixe fora d’água), ele entrou no corredor de provadores, me entregando o vestido e sentando-se no sofá. Ele tirou os óculos, seus olhos verdes me fitando divertidamente. Também tirei os meus.
–O que você quer que eu faça? – perguntei. Ele apontou para um dos provadores.
–Vista, olha se você gosta – ele parecia relaxado ali. E acho que isto vai ser uma frase muito estranha de se pronunciar, mas um homem estava me incentivando a vestir roupas, entrar em lojas e sair sem comprar nada.
Queria decifrar quem era esta pessoa e porque novamente ele estava empenhado a entrar na minha vida. Caramba, ele tinha um pai foda, uma vida foda, era cheio da grana e bastante bonito, e ainda era feliz. Porque ele não estava naquele momento com uma modelo, artista ou qualquer coisa e sim gastando seu tempo com uma pessoa tipo eu?
Baguncei os cabelos e fui em direção ao provador, depois olhei novamente em sua direção que fez um gesto de “vá” enquanto eu bufava. Entrei no provador, o primeiro confortável que eu tinha visto na vida. Era gigante, quase do tamanho do meu quarto, tinha uma poltrona, vários cabides e espelhos em duas paredes diferentes.
Dei uma olhada no preço daquele vestido, cinco mil dólares. Quase tive um AVC. Seriam cinco meses de trabalho (que eu não tenho) somente para pagar aquele vestido. Tirei as minhas roupas, ansiosa para ver como eu ficaria num vestido de cinco mil dólares.
A parte ruim é que eu simplesmente não fiquei, tinha me esquecido de outro detalhe de lojas elitistas: faziam roupas para pessoas magérrimas. Eu não cabia, minhas pernas eram grossas demais, depois minha bunda era grande demais.
Quis me matar. Nunca me achei gorda, na verdade gostava razoavelmente do meu corpo, nunca quis ser aquelas garotas pele e osso. Mas agora estava começando a perder a paciência de como as coisas davam errado para mim.
Puxei o vestido até o chão, com raiva e até mesmo encabulada. Vergonhosamente, chamei:
–Percy? – não foi um grito, não queria gritar numa loja tão fina, foi um chamado meio alto. E eu nem sabia se ele tinha ouvido.
–Tudo bem?- ele perguntou alguns segundos depois do outro lado, abri um pequeno pedaço da cortina e o puxei para dentro.
–Não, não está tudo bem – pigarreei, estava com raiva e triste e ao mesmo tempo com um pouco de vergonha – Eu não... O vestido... Não me coube.
Olhei em seus olhos, que decididamente não estavam olhando nos meus. Ele desviou o olhar, mas percebi que olhava para os meus seios. Depois me dei conta de que estava seminua por ali, minha raiva era tanta que eu queria somente que o vestido sumisse da minha frente, e eu nunca fui exatamente do tipo puritana, raramente me importei com pessoas me olhando nua ou seminua.
Mas algum tipo de animal feroz rugiu em satisfação no meu peito quando percebi que deixei Percy Jackson envergonhado, suas bochechas estavam vermelhas e seus olhos não sabiam para onde olhar.
Ele coçou os cabelos, bagunçando-os. Isso tudo durou poucos segundos, logo após isto voltou à sua pose gentleman de sempre.
–Desculpa, nem perguntei seu tamanho e duvido que tenha outro por lá. Eu deveria ter perguntado – respondeu sussurrante, olhei para baixo na direção dos meus seios para saber o que ele tanto olhava. Depois percebi que estava com a minha lingerie favorita porque não tinha lavado roupa na última semana e era aquela que tinha sobrado.
Era um push-up preto de renda, e era o meu favorito, não se chamava “push-up” à toa, meus peitos ficavam ótimos nele. Percy se sentou na poltrona, pegando o vestido e o desvirando. Tomava cuidado para não olhar na minha direção.
–Eu vou entregar – respondeu ele, coçando os cabelos de novo. Ele fazia isso quando estava nervoso, percebi. Dei um sorriso imperceptível, e depois me forcei a lembrar mais uma vez a fala de Thalia “acho que ele tem dona”.
Ele era comprometido, não podia nem sequer pensar em fazer aquilo. Nem ao menos imaginar algo do gênero. Levantou-se, batendo no meu ombro sem querer ao passar. Depois pegou na minha cintura para se desculpar, e percebendo o que fez praticamente deu um passo para longe na minha direção.
Percy colocou a mão na cortina, eu o ouvi suspirar e depois se virou rapidamente.
–Nunca mude um centímetro do seu corpo, ele é... Lindo– sua voz estava mais rouca que o normal, e agora ele olhava nos meus olhos de um jeito que parecia que as minhas pernas iam derreter.
Estava começando a me odiar por aquilo, aquelas merdas de efeitos de menininha que me deixavam parecendo uma palhaça de tão ridícula. Vesti rapidamente o meu short jeans seguido do poncho vermelho que eu usava. Calcei minhas botas e abri rapidamente a cortina. Decidida que o meu tempo de convivência com Percy já tinha se esgotado.
Ele não estava sentado no sofá, então passei pela cortina do corredor do provador e o vi cumprimentando a vendedora, uma sacola amarronzada em mãos.
–O que é isso? – perguntei, apontando na direção da sacola.
–É o vestido – ele sorriu – Achei o tamanho maior. Não estava na loja, mas a vendedora foi até o estoque e achou.
Eu quase derreti por completo, mas depois me lembrei do preço do vestido que quase fez meus olhos saltarem. Cinco mil dólares. Não podia aceitar.
–Ei, Percy – chamei, este que conversava animadamente com a vendedora – Obrigada, foi muita gentileza sua, mas não posso aceitar. Este vestido é muito caro.
Ele parecia ter ouvido uma piada.
–Que? Não foi nada – respondeu, estendendo a sacola na minha direção – Literalmente nada. Depois que me apresentei, a vendedora decidiu me dar um de seus vestidos desde que eu fizesse uma propaganda da sua loja com a gerente de produção da Chanel. Já mandei a mensagem, foi bem fácil.
Abri a boca, inacreditável. Ele falava seu nome e conseguia peças caríssimas de graça daquele jeito? Em que universo paralelo ele vivia e qual era o portal para eu ir para lá? Peguei a sacola e nós dois saímos. Estava realmente impressionada, e era difícil alguém me impressionar. Percy, porém, parecia estar tendo um dia normal.
Ele olhou no seu telefone.
–Acho que você me deve um café, o que acha? – olhei no relógio, cinco horas da tarde – É o mínimo e depois eu te deixo ir para sua casa se preparar para a minha festa.
Dei um sorriso, eu realmente não iria. Qual era o problema com ele? Depois olhei naquela sacola, o vestido lindo que ele tinha conseguido para mim e como eu ficaria perfeita naquele vestido com o meu escarpam da Jimmy Choo da mesma cor e quem sabe alguma joia da...
–Um café, e rápido. Porque eu tenho que me arrumar – respondi. Fomos juntos até um pequeno e aconchegante Starbucks a algumas quadras dali. Não entendi como tinha acontecido, mas por algum motivo começamos a conversar sobre a minha vida:
–E então é por isso que você tem as roupas mais desconhecidas que eu já vi– ele riu, seguido por mim – E porque você não fez uma faculdade de moda?
O chocolate quente satisfazia todo o meu paladar, e eu pensava se era uma boa ideia comentar sobre meu passado vergonhoso com um cara que provavelmente estava na faculdade e já tinha toda essa carreira brilhante pela frente. Pensei que era melhor não mentir.
–Eu quase não concluí o ensino médio, saí de casa no dia da minha formatura só pra pegar meu diploma – dei um sorrisinho, lembrando do fatídico dia que saí de casa – E mesmo assim, moda é só um hobbie. Eu nunca pensei em seguir carreira neste ramo.
Porém seguia – concluí na minha mente. Já não estava me sentindo muito confortável naquela conversa e pensava seriamente em ir embora, não sabia se iria à festa dele. Nunca foi uma decisão tão difícil ir ou não numa festa como era ir naquela.
Refiz mentalmente minha lista de entrevistas de emprego, e não tinha nenhuma marcada para amanhã. Não tinha desculpas. Ele parecia atento nas minhas palavras, no meu rosto. Parecia realmente interessado naquela história de bosta que era a minha vida.
–E você queria fazer o que?- perguntou. Seu tom era descontraído, mas ele percebeu que estava mexendo numa zona perigosa. Rapidamente olhei nos seus olhos que estavam sérios.
–O que eu realmente queria? Pedir um cappuccino, mas eu tenho espirito de porco e pedi um chocolate quente – dei um sorriso, saindo gentilmente do assunto “faculdade”. Ele ainda parecia muito concentrado no meu rosto, parecia ler tudo que eu falava e fazia. Era uma merda.
Prestei também atenção no seu rosto, agora de perto eu percebi como ele tinha a mandíbula acentuada, os ossos aparecendo o fazendo ter sempre essa expressão de modelo que acabava comigo. Tinha a barba perfeitamente por fazer e os cabelos planejadamente bagunçados, estilosos naquele negro petróleo que simplesmente matava qualquer uma. Sua boca era do tamanho perfeito, seus lábios pareciam perfeitos para beijar, era vermelho e sempre convidativo. E seus olhos eram a maldição, verdes numa cor que me lembrava do oceano, mas tinha vários tons de verde, o mais comum era este verde claro que eu citei anteriormente, mas tinha riscos até o verde musgo. Era do caralho.
Ele falava alguma coisa, e eu simplesmente não prestava atenção. Depois percebi que nós dois estávamos calados, abaixei meu olhar para o copo. Trocamos olhares novamente, e eu mais uma vez olhei para o copo desviando-me daqueles olhos verdes.
Ele bateu sem força na mesa, fazendo-me prestar atenção.
–A gente podia sair e beber umas cervejas, foda-se ir naquela festa – olhei descrente na sua direção, rindo em seguida.
–A festa é sua, lembra? – ele encostou-se relaxadamente na cadeira.
–Ah, existe este pequeno detalhe. Mas acho que eles podem viver sem mim – dei um sorriso de lado, depois me lembrei do quão puta Thalia ficaria se Percy não estivesse na festa por minha culpa. Além disso, era a oportunidade perfeita para eu usar aquele vestido maravilhoso.
–Nós podemos tomar cerveja lá, quer dizer... Se não tiver cerveja na sua festa nem conte com a minha ilustre presença – levantei e peguei copo da mesa – Foi um prazer, Percy. Realmente sua amizade foi muito lucrativa – levantei a sacola. Ele acabou rindo.
Sussurrou um “tchau” enquanto eu ia embora. E depois que saí do Starbucks, percebi o quanto queria sair e beber cervejas com ele, de preferência dar o foda-se para aquela festa.
Quando cheguei ao apartamento e vi Thalia distraidamente passar os canais na televisão falei assim que fechei a porta:
–Me conta tudo sobre o Percy – foi uma exclamação. Invés de eu falar “olá” ou “querida, cheguei!” aquele foi o aviso de que eu estava em casa. Ela olhou na minha direção processando a informação, depois deu um mínimo sorriso.
–Você está realmente interessada nele, até comprou um vestido para ir à festa – ela riu, e eu me lembrei de que nós tínhamos brigado e estávamos sem nos falar. Já que eu tinha feito o favor de começar a conversa decidi deixar esse assunto para lá.
Coloquei minha bolsa no balcão da cozinha e voltei com a sacola numa mão e uma garrafa de cerveja em outra. Joguei a sacola em direção à Thalia.
–Primeiramente, eu ainda não sei se vou à festa – ela arregalou os olhos quando viu o vestido, depois quando olhou a etiqueta parecia que ia ter um enfarto – E segundo, não fui eu que comprei o vestido e sim o Percy.
Sua expressão estava totalmente surpresa, ela olhava na minha direção balbuciando alguma coisa, só que não falou nada nos 30 segundos seguintes.
–Você transou com ele? – sussurrou Thalia – E ele te deu isso?
Arqueei uma sobrancelha, lembrando-me porque tinha brigado com ela naquela madrugada. Porque ela era uma presunçosa ridícula.
–Não, se você está me chamando de prostituta já vou te adiantando que não foi isso – me levantei, com raiva e mais uma vez sem vontade de falar com Thalia.
Era sempre assim, podia-se dividir nosso tempo juntas como metade em amor eterno e a outra metade em ódio eterno. Ela se levantou também, me seguindo até a cozinha. Abri a porta do armário e de lá peguei um pacote de chips.
–Qual é Annabeth, isso foi bastante estranho. O Percy nunca faz essas coisas para impressionar garotas, entende? Ele nunca nem fala do pai dele – parei de ignora-la, minha curiosidade sobressaindo sobre a minha raiva – Na verdade, acho que só os amigos mais íntimos e claro, os interesseiros, sabem do nome Jackson em todas essas marcas de luxo. Eu só achei muito estranho.
Respirei fundo, pegando mais uma batata e bebendo outro gole de cerveja. Ela se sentou num dos banquinhos do balcão, dando um sorriso malicioso.
–Ele deve ter gostado de você. Que loucura – abri os braços, revoltada.
–Isso é tão difícil assim de imaginar? – Thalia riu e roubou as minhas batatas. Continuou sorridente enquanto mastigava. Seus olhos estavam esbanjando malícia.
–Não é isso – falou ela ainda mastigando – É que pelo o que o Luke me contou, ele teve pouquíssimas namoradas, não é do tipo mulherengo. Entende? Luke disse que ele só teve uma namorada sério, e pelo o que ele falava parece que estão juntos desde então.
Gelei. Algo parecia ter apertado no meu coração, algum tipo de sensação incômoda que eu nunca tinha sentido. Pensei nele e essa garota, namorando há anos e então ele falava “conheci essa pobre coitada que estava tentando se matar...”.
–Annabeth. Tem algo errado? Você está tão pálid-
–Estou ótima – cortei, respirando fundo. Eu não gostava da pena de ninguém, muito menos de ser caçoada. Sempre fui na escola e não achava engraçado. Rapidamente fiz minha decisão final sobre aquela festa – Só vou provar o vestido, até porque eu vou com ele para a festa.
Ela riu, olhando estranhamente para os chips que eu tinha acabado de abrir sendo deixados de lado e depois na minha direção. Eu não costumava fazer aquilo, dei meia volta e peguei o pacote. Saindo depois da cozinha.
–Você não queria que eu te contasse “tudo sobre Percy”? – ela riu. A cena dele falando distraidamente com a namorada de anos e anos voltou na minha cabeça, e meu corpo inteiro tremeu de raiva.
–Não – respondi – Não estou mais interessada.
[...]
Às vezes fico impressionada com a quantidade de vezes que mudo o meu pensamento. Todos falam que o pior defeito do ser humano é ser fechado a novas experiências e pensamentos, como um diamante, resistente a tudo senão a si mesmo. Acredito que eu seja o contrário, e talvez até a parte ruim do contrário. Hoje minha cor favorita pode ser preto, e amanhã pode ser outra. Hoje o meu número favorito pode ser sete, e depois treze. Tanto faz. Ninguém liga para números.
Hoje eu posso achar tal pessoa maravilhosa e sensacional, um dia depois pode vir a ser a pior pessoa do mundo para mim. Essa coisa de “pensamento prévio” não entrava muito na minha mente. Pra mim, pensamentos podem ser mudados como em mutação, completamente. E é por isso que às vezes posso ter alguns problemas de indecisão na vida.
Por isso que eu gosto tanto de fotos, recordações, lembranças. Lembram-me não só de como eu era fisicamente falando, mas também me remete do jeito que eu pensava; Às vezes de forma muito mais fechada do que hoje.
Percy Jackson estava nessa parte da minha mente que eu não gostava muito. Até poucas horas atrás eu gostava bastante dele, depois caiu razoavelmente no meu conceito. Agora era meia noite, e lá estava eu na frente de uma mansão segurando a maior vela do mundo com Thalia Grace e Luke Castellan se beijando.
Suspirei e toque a campainha, já que para o casal cem entrar na festa não estava nas prioridades de vir nela. Abriu a porta uma garota ruiva, simpática, e bastante bonita. Ela olhou para mim de forma bastante diferente do que as pessoas olharam na festa do dia anterior, era como se fosse normal eu estar por ali.
Imaginei que um vestido pode causar impressões complexas.
–Rachel – falou Luke, ainda respirando fundo. Thalia fez uma careta, e eu juntei as sobrancelhas. A Rachel num primeiro momento me parecia bastante legal – Como vai?
–Vou bem, você que parece bastante bem – ela deu uma risada – Entrem. O Percy é um horrível anfitrião e falou para eu cuidar da entrada da festa.
–Ele é um folgado – respondeu Luke. Entrou como se fosse realmente a sua casa, Thalia foi puxada por uma mão e me puxou pela outra. Dei uma olhada naquela casa, meus olhos saltaram levemente.
Era a típica casa de milionários, simplesmente exuberante. Tinha esse piso branco que parecia não sei vidro ou qualquer outra coisa já que eu conseguia me ver nele. A casa em si só tinha essa cor pastel e branca muito típica de gente com bom gosto. Uma escada preta de mármore subia para um andar de cima que também subia para outro andar de cima. Tinha uma porta de vidro no fundo que dava claramente para uma piscina muito bem iluminada numa luz roxa lá do outro lado. Mas dentro da casa tinha somente sofás e poltronas brancas (imagino que muitos móveis devem ter sido retirados para a festa) e um balcão cheio de bebidas e muita gente perto dele.
Uma música bastante agitada tocava, por mais que ninguém dançasse dentro da casa e todos bêbados o suficiente para decidir dançar estavam perto da piscina. Era uma ótima festa, bastante elitizada e com pouquíssimos casais se pegando (inclui Luke e Thalia nessa), a maioria conversava e ria em grupos.
–Porque você fez cara feia para a Rachel? – perguntei sussurrante quando Luke deu uma pausa na agarração para pegar bebidas para nós. Thalia revirou os olhos.
–Ela é uma ridícula lá da faculdade. O pai dela é um dos sócios com o meu pai, eles jogam mais dióxido de carbono da Terra do que a humanidade inteira junto. E aí ela fica dando uma de protestante na universidade, com aqueles jeans cheios de tinta e uma aura de “revolução”, tudo papo furado. Quando está perto dos papais quase falta estender um cartaz escrito “eu amo a empresa que me dá dinheiro pra comprar minha Ferrari”. Uma hipócrita.
Arqueei as sobrancelhas, era difícil realmente pensar nisso tudo assim que se via Rachel. Ela só parecia mais uma garota mimada. Perto da porta de vidro eu reconheci nada mais nada menos que...
–Seu irmão está aqui? – perguntei dando um sorriso de lado, Thalia arqueou uma sobrancelha naquela direção e depois riu.
–Ele é amigo do Percy – respondeu ela, eu ia perguntar se por algum acaso Jason não a deduraria, era só ele falar “e aí maninha” e Luke já poderia começar uma confusão daquelas. Luke voltou com as bebidas e Thalia fez a expressão conhecida dela de “depois a gente bate um papo, queridinha”.
Fui até a direção dele. Jason Grace era um pedaço de mau caminho. Olhos azuis, cicatriz sexy na boca por ser uma criança retardada e aquele corpo digno de observação que ele fazia questão de ressaltar com suas blusas coladas. Fui até a sua direção dando um sorriso educado. Ele parou seja lá o que estava fazendo enquanto olhava na minha direção.
–Annabeth – respondeu ele, me abraçando. Abracei de volta, sentindo seus braços me envolverem daquele jeito só dele.
–Ei Jason, como vai? – perguntei, bebendo o que restava da minha cerveja e entregando ao garçom que passava justamente naquele momento. Ele sorriu e depois olhou na direção do cara em que estava conversando. Era legal ver Jason por ser uma pessoa da minha idade (ou seja, menos de 21 anos e proibida de beber) por ali.
–Charles Beckendorf, essa é Annabeth Chase, é amiga da min... Da Thalia – respondeu, e logo eu entendi o que estava acontecendo. Eles provavelmente bateram um papo sobre aquilo. Thalia era inacreditável.
–Prazer – olhei para o garoto a minha frente, impressionada com o número de pessoas bonitas naquele lugar. Ele tinha um corpo de se gabar, olhos amendoados e um sorriso magnifico.
–O prazer é todo meu – respondi, olhando na sua direção e o vendo rir. Jason também riu, pegou distraidamente na minha cintura e me puxou para perto dele. Olhei na direção que Jason olhava e uma garota bastante bonita parecia olhar para mim como se eu fosse algum tipo de vírus altamente transmissível.
–Silena está olhando para cá- falou Jason, rindo. Charles nem olhou.
–Eu tenho que ir. Um prazer te conhecer – ele deu meia volta e foi na direção da garota. Revirei os olhos. Todo mundo era comprometido? Que festa mais chata.
–Todo mundo aqui é comprometido? – perguntei, cruzando os braços. Jason deu um sorriso de lado que combinava muito bem com a sua cicatriz.
–Eu não sou – olhei na direção dele, dando meu melhor sorriso sapeca. Jason era lindo, maravilhoso, beijava muito bem e era um partido a desejar, porém...
–Eu não fico com garotos mais de uma vez.
–Você pode abrir uma exceção – respondeu – Eu duvido que tenha uma garota tão bonita nessa festa quanto você e eu tenho certeza que você não vai achar um cara tão bom de cama quanto eu.
Ri, afastando- me dele lentamente. Thalia veio quase correndo em nossa direção e interrompendo totalmente o nosso momento paquera. Luke tinha sumido e ela deu somente um beijo numa das bochechas do irmão.
–Oi querida irmã – falou Jason.
–Cala a boca – Thalia fechou a cara para o loiro – É ela.
–O que? — perguntei, às vezes Thalia era louca demais e eu não entendia uma só coisa do que ela estava fazendo. Aquele era um destes momentos.
–A garota que o Percy namorou sério, é ela – ela apontou a cabeça lentamente para o outro lado da piscina, e eu realmente percebi que Percy estava abraçado com uma garota de cabelos castanhos. Os dois estavam de costas, mas pareciam ser o centro das atenções do grupo em que conversavam e que Luke tinha acabado de se juntar.
Pelo jeito que estavam, parecia realmente que estavam ficando. Semicerrei os olhos, entendendo finalmente qual era a sensação esquisita que senti assim que Thalia me contou sobre os dois. Era ciúme.
–Vem, Luke nos chamou para ir pra lá – ainda olhava diretamente para a cena dos dois juntos. Minha barriga se embrulhou.
–Não, depois eu vou. Estou me... –olhei na direção de Jason – Divertindo muito com seu irmão.
Thalia fez uma careta olhando para nós dois.
–Já falei uma vez e volto a repetir. Vocês dois juntos: NO-JO – uma música do Van Halen começou a tocar e Thalia levantou sua garrafa de cerveja, atravessando a piscina e indo na direção de Luke.
Jason parecia abismado com o comportamento da irmã.
–Eu nunca vi Thalia atrás de um garoto – respondeu ele – Na minha vida.
Ri. Era exatamente o tipo de coisa que todos os amigos mais próximos de Thalia falariam assim que visse o jeito que ela está com ele. Suspirei totalmente desanimada, não estava nos meus planos ser totalmente ignorada por Percy e seu grupo maravilha quando vim na festa. Mas mesmo assim, lá estava Jason. E ele realmente era muito bom de cama.
E lá estava eu, que não era muito seletiva na hora de ficar com um cara. Por mais que puxando um passado prévio eu tenha ficado com pessoas até bonitas. Puxei Jason pela gola, juntando nossos lábios e dando a iniciativa do beijo, a minha língua invadindo sua boca.
Era gostoso, mas não era onde a minha cabeça estava. Infelizmente. Fui pressionada na parede, meus pensamentos ficaram nebulosos quando as mãos dele desceram até a minha bunda. Ele tinha pegada.
–Não no meio do caminho! – gritou Thalia, separei-me ofegante de Jason. Estávamos realmente no meio do caminho, logo na porta de vidro. Ela estava acompanhada por Luke, que olhava maliciosamente em nossa direção. Ao lado deles estava Percy e a garota de cabelos castanhos, que de frente era ainda mais linda do que de costas (e ela era muito bonita de costas) ao lado deles estava Charles e Silena e outras pessoas que eu sinceramente não tinha reparado.
–Nós saímos do caminho – falei maliciosamente e decidida. Puxei Jason pela gola e fui até a piscina, onde as pessoas estavam dançando. O grupo com que Thalia estava foi para dentro da casa.
Sentamos num dos espreguiçadores perto da piscina e eu voltei a beija-lo da forma mais feroz que conseguia. Na minha cabeça, se eu gostasse bastante de beijar ele e me sentisse realmente excitada era a prova que eu não gostava do Percy, só mais uma bobeira da minha cabeça.
Ele passou uma das mãos pela minha coxa, chegando perigosamente perto da minha virilha. Desci meus beijos para o seu pescoço, uma das minhas mãos apertando seu pênis e sentindo o quão excitado ele estava. Dei um sorrisinho contra o seu pescoço, era sempre ótimo inflar o ego.
Eu separei para tomar um ar e voltar a beijá-lo quando algo, ou melhor, alguém nos interrompeu.
–Será que vocês podem parar com isso? – perguntou Percy, num tom e expressão séria que eu nunca tinha ouvido e visto antes.
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