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2 Real ou Imaginação?


Notas iniciais
Leiam! Importante!
Vamos começar com algumas observações para melhor entendimento deste capítulo. Primeiro: Faço menção do Gaiden do Albafica, sugiro que quem não tenha lido, dê uma olhadinha, pois conta boa parte (se não tudo) da vida do cavaleiro. E segundo: A história se passa no ano de 2019, pois quando Sophie lia o mangá, ela tinha doze anos (e a história foi publicada em 2011) como ela tem vinte, são oito anos depois da data da publicação original.
E pra finalizar, aqui vai o link de um site que curto bastante que possui todos os gaidens do Alba (e de outros cavaleiros de Lost Canvas) - http://lost-canvas.webnode.com.br/news/download-dos-gaiden/ - São nove no total. Desejo à todos uma boa leitura!!! ;D

Ele a olhou mais atentamente. A chuva não dava trégua, a essa altura já estavam ambos ensopados.

– Agathia? — Perguntou ele. O que a surpreendeu ainda mais. Sim, estava louca. Só podia ser essa a explicação.

– Meu nome é Sophie... — Respondeu. — Ele instantaneamente se afastara dela, mas caíra de volta ao chão devido a sua aparente fraqueza. — Calma! — Reagiu a garota.

– Não se aproxime! — Gritou ele. Parecendo realmente assustado, olhando à toda volta. Ela notara a aflição e confusão em seus olhos. — Onde eu estou? — Perguntou.

– Ah... Bem... Perto da minha casa! — Disse sorrindo e apontando para o apartamento ao lado. Ela soube que aquela era uma péssima resposta. Até porque como explicaria que ele era fruto da imaginação de uma mangaká, que sabe-se lá como, saltara do mangá caindo em frente a sua casa e que ainda estava cerca de duzentos e cinquenta anos à frente de seu tempo? — Ele continuava a mirar tudo ao redor, parecendo não se importar com a água que caia. – Não é melhor entrarmos? A chuva está ficando forte... – Disse ela já sentindo frio. Ele a olhou por alguns segundos.

– Sim, é melhor você entrar. – Disse. De fato deveria ser mesmo Albafica, pensava ela, pois era exatamente seu jeito carrancudo e fechado de ser. Ele continuou sentado no chão, o sangue ainda pingava de sua boca, e parecia fazer um esforço enorme para continuar ali, e que a qualquer momento poderia desabar. Ela se afastou, ele apenas a mirou de canto pensando mesmo que o deixar ali seria o melhor a fazer. Albafica sentia o frio tomar conta de seu corpo, não entendendo nada do que estava acontecendo, não tinha energia para raciocinar direito, sua visão se tornando turva a cada segundo. Até que a chuva parou. Ele olhou para cima, dando de cara com grandes olhos esverdeados.

– Vamos. Levante-se. Não precisa encostar em mim se não quiser. Entre e vamos conversar direito. – Falou Sophie com seu guarda chuva, agora meio torto, em mãos. Ela não acreditava que a história de seu sangue venenoso fosse realmente verdadeira, no mangá sim, mas não naquela situação, mas se conhecia bem seu herói de infância, evitaria o máximo tocá-lo, só para não contrariá-lo.

A casa era pequena. Sophie entrou deixando o guarda chuva de lado, puxando o tapetinho para mais perto da porta. Ele apenas a mirava, mantendo grande distância. Ela tateou a parede e ligou a luz. Albafica olhou surpreso para a iluminação no meio do teto.

– Vamos. Entre. Vou pegar uma toalha para você. – Disse ela se afastando. Ela se perguntou o que daria para ele vestir, pois ele estava com aquelas roupas mortuárias brancas, junto com uma capa esfarrapada que o cobrira. Instantaneamente lhe veio à memória. Charlie havia deixado muitas roupas em seu apartamento. Ele era de estatura um pouco menor que Albafica, mas deveria servir. Quando ela voltou, ele ainda estava na porta, havia tirado a capa e foi então que ela notou o quanto ele estava ferido nos braços e nas pernas. – Aqui está. – Disse, lhe entregando uma toalha limpa. Ele a pegou agradecendo, e começou a se enxugar, porém suas pernas estavam começando a falhar. Sophie foi até ele fazendo menção de ajudá-lo, mas foi repelida, se esquecendo que deveria manter distância.

– Por favor... Não encoste em mim... – Disse com dificuldade. Ela estava com pena daquele pobre, e lindo, ser a sua frente.

– Desculpe. – Falou. – Mas quero te ajudar... – Disse. – Sente-se aqui, vai se sentir melhor. – Ela apontou o pequeno sofá. Ele hesitou, mas cedeu cambaleando até o local indicado desabando no mesmo. Sim, ele era alto. Deveria ter no mínimo um e oitenta de altura. Seu sofá era realmente pequeno para ele. Ela retornou para seu quarto escolhendo uma muda de roupas de Charlie, as mais folgadas de preferência, para entregar a ele. Porém foi inevitável as lembranças ao olhar aquele pedacinho de seu guarda roupa que ela não se atrevera a tocar por três meses. Tentou afastar aqueles pensamentos, não pode fazer nada por Charlie, mas poderia fazer algo por Albafica, seja lá o que aquela loucura toda significasse. Voltou para a sala trazendo a roupa e alguns materiais de primeiros socorros.

– Bom... Tenho roupas aqui, não sei se servirão em você mas... – Parou no meio da frase vendo que o corpo de Albafica estava inerte sobre o sofá, os olhos cerrados. Seu coração disparou no mesmo instante, ela correu até ele tocando seu peito, quando sentiu os fortes solavancos que seu coração emitia, respirou fundo em alívio. Ele só estava dormindo... Foi quando conseguiu mirá-lo melhor. Meu Deus, ele era ainda mais lindo pessoalmente, como humano, do que como desenho... Ela limpou os ferimentos que pode ver. Não sangrava mais, o que gerava um alívio ainda maior. Sua pele era mesmo muito branca, talvez por ter perdido muito sangue, e com os cabelos loiros ele ficava ainda mais belo do que com os azuis do anime. O formato de seu rosto era levemente arredondado, afinando em seu queixo, que era pequeno e delicado. Ele não era um homem afeminado, na verdade ele era um misto de beleza, imponência e força, que mesmo ferido e fraco não perdia seu brilho e elegância natural. Albafica se mexera respirando profundamente. Ela parou por alguns segundos, e então vendo que ele não mais se mexia, continuou passando o pano úmido de soro fisiológico. Na certa ele não deveria mesmo ser envenenado, pois ela estava ali a cerca de uns dez minutos e continuava se sentindo muito bem.

– O que está fazendo? – Balbuciou ele com a voz sonolenta.

– Eu não vou parar se era isto que você ia falar. – Falou ela com a voz autoritária.

– Mas voc...

– Não! – Cortou ela. – Se seu sangue fosse mesmo envenenado não acha que eu já teria sofrido algum efeito? Já faz tempo que estou perto de você, não sei se você reparou nisso... – Falou. Ao contrário do que ela imaginou, ele não reagira. Ficara em silencio observando-a atentamente, o que a estava deixando sem jeito. Pois só ela sabia o quanto era fã daquele homem, e ter a chance de tê-lo bem ali em carne e osso, na sua frente, era algo inimaginável.

– Como sabe do meu sangue? – Perguntou. Sua voz era tão bela quanto seu rosto. Suave e um pouco fria. Não era tão grossa e nem fina demais, tudo nele era um perfeito equilíbrio.

– É uma longa história... Seu eu te contar, você vai cair pra trás. – Disse, terminado de enfaixar seu braço. Resolvera não questioná-la por hora. Era estranho ter alguém tão próximo de seu corpo, cuidando de si. Não estava acostumado. – Está sentindo alguma dor? – Que pergunta mais patética! Pensou ela. Se ele estava com aquela roupa, deveria ter voltado da morte, e se isso aconteceu, ele deveria estar todo quebrado...

– Eu estou bem. Meu cosmo não cede facilmente... – Falou. E em seguida ela começara a enfaixar o outro lado, que não estava tão ferido. Ele queria afastá-la, mas definitivamente, estava sem forças, e se parasse para analisar, ela estava bem e até demais... Albafica tirou os olhos dela, olhando ao redor. A casa de Sophie era uma kitnet bem organizada, era um cômodo só, largo o suficiente para se dividir em três, mais o banheiro, que era separado, obviamente. Suas paredes eram na verdade estantes apinhadas de livros. Sua salinha tinha um sofá bege para dois, uma mesinha japonesa de centro, uma cortina leve na bela sacada em porta de vidro. Uma tv pequena, ele se perguntou o que deveria ser aquela caixa estranha, o piso era branco e tudo cheirava um perfume doce e suave. Era relaxante estar ali, apesar de sua mente estar uma confusão, se sentiu frustrado em imaginar a possibilidade de acordar daquele sonho e estar caído ao chão ensanguentado ou dentro de um caixão.

– Prontinho! – Disse Sophie alegre com o trabalho bem feito.

– Obrigado. – Disse ele, embora ela tenha notado que ele tentara sorrir, viu sua tentativa se esvair e se misturar com seu olhar triste e perdido.

– Você precisa comer. Vou fazer uma canja que levanta até defunto! – Ele a olhou arqueando as sobrancelhas, e ela notara a porcaria que acabara de falar. – Quer dizer... – Falou sentindo suas bochechas avermelharem. E pela primeira vez ela viu um pequeno sorriso brotar do canto de seus bem contornados lábios. Ele deveria ser três vezes mais belo sorrindo alegremente, e se dependesse dela iria fazer o possível para ver essa façanha.

O cheiro que vinha da cozinha estava realmente bom, ele sentia suas entranhas revirarem. De fato estava vivo, pois estava ironicamente morrendo de fome! Albafica não entendera muito bem o que estava acontecendo contigo. Ele fizera exatamente tudo que Sophie pedira a ele, ou melhor ordenara, sim, pois ela era boa em exercer autoridade. Quando ele caiu em si, já tinha tomado um banho, em um lugar muito estranho por sinal, pois a água caia de um aparelho pregado na parede, fora aquela luz no meio do teto que ele ainda não entendera como aquela "magia" funcionava... Já estava vestido, e milagrosamente se sentindo um pouco melhor. Apesar de estar muito fraco, não aguentou ficar sentado naquele sofá, com tantas perguntas pairando em sua mente. Se levantou devagar se aproximando da parte "cozinha" daquela casa tão pequena. Era realmente bem bonitinha, dividida por um balcão de granito havia um fogãozinho e uma pia, um pequeno armário com suas poucas vasilhas, uma mesinha de madeira com duas cadeiras e uma pequenina geladeira.

– Você mora aqui sozinha? — Perguntou ele, assustando Sophie que estava centrada em cortar as batatas. Ela mirou a entrada da cozinha. A janela em frente à pia estava aberta, fazendo a brisa leve e fria daquela noite úmida, brincar com os longos cabelos loiros de Albafica.

– Sente-se. — Ofereceu ela. — Você está fraco, não faz bem ficar de pé. — Disse. Ele, mais uma vez, movido por uma força maior, obedeceu. Puxou a cadeira de madeira e se sentou, encostando-a na parede, descansando a cabeça na mesma. — Sim. Moro sozinha. — Ele ficou em silencio por alguns segundos.

– Quantos anos tem? — Perguntou.

– Vinte. E você?

– Vinte e três... Eu acho. — Respondeu ele. — Ela sorriu, e ele percebeu.

– Sophie... certo? — Ele perguntou novamente.

– Sim. Este é meu nome.

– Então Sophie... Eu gostaria de saber...

– Coma primeiro, depois conversaremos. Prometo. Sei que deve estar cheio de perguntas pra me fazer. — E ela estava realmente certa. Ele não questionou. E Sophie estava estranhando tudo aquilo. Ela sempre desejou que seu personagem preferido existisse de verdade, e nos seus sonhos faria muitas perguntas a ele, e os dois conversariam horas a fio sobre tudo até pegarem no sono. Seriam como melhores amigos, daqueles que parecem que se conhecem a vida inteira. Mas agora que seu desejo se tornara real, não estava sendo nem de longe parecido com o que imaginara. Um silencio mortal se instalou entre os dois. Só o barulho da panela com o frango refogando, era ouvido enquanto ela terminava de cortar os legumes. Depois de bons minutos, todos os ingredientes já estavam cozinhando, agora era só esperar, e esperar significava que não faria nada, e não fazer nada significava que teria de encarar Albafica. Não teria outra saída, com aquela casa "enorme" nem que quisesse poderia se esconder.

– Está se sentindo bem? — Perguntou ela ao se sentar na outra cadeira do lado oposto. Albafica que mirava o nada, olhou-a.

– Sim. Bem melhor. — Disse. — Esse lugar é bem estranho não é? — Ela sorriu.

– Sim. Pra você deve ser. — Respondeu.

– Em que ano estamos? — Perguntou ele. Ela pesou a pergunta dele. Não ia adiantar adiar aquela conversa.

– Século vinte e um. Ano de... dois mil e dezenove. — Albafica permaneceu estático. Ele era realmente bem frio. Ou tentava ser, na opinião dela.

– Só pode estar brincando comigo, certo? — Disse, a voz com o mesmo tom.

– Acha que isso tudo é brincadeira? Acha que sou uma brincadeira? — Ela pode notar a respiração dele se tornar mais veloz.

– Não estou dizendo isso.

– Eu também não estou entendendo absolutamente nada, Albafica. — Ele sorriu ironicamente. Ela sabia que aquela conversa não seria nada fácil.

– Por Deus! Como você sabe meu nome? — Perguntou, ainda lutando para manter a voz calma.

– Já disse que é uma longa história.

– Por mais longas que sejam, elas possuem um começo. — Disse friamente. Ela se levantou para verificar a sopa, voltando em seguida. Não queria discutir o assunto com ele naquele momento, não quando ele não estava em condições físicas para isso. Mais uma vez o silencio caiu sobre eles. Mas ela pode notar os suspiros profundos do pisciano, que a mirava hora ou outra, esperando alguma manifestação de Sophie sobre a conversa... Uma manifestação que não veio. Finalmente a canja de galinha ficara pronta. Ela serviu para ambos em duas cumbucas separadas.

– Obrigado. — Disse ele. Ela não o mirou nenhuma vez. Comeram em silencio durante tortuosos dez minutos. Ela oferecera mais depois de acabarem, porém ele recusara.

– Estava muito boa. Obrigado. — Disse ele.

– Não tem de que. — Respondeu retirando as vasilhas da mesa.

– Eu te ajudo... — Disse ele, fazendo menção de se levantar.

– Não precisa... Pode deixar que faço isso. — Disse Sophie esticando a mão para pará-lo, sem olhá-lo diretamente. — Você não está ainda tão forte assim... Minha sopa demora um pouco pra fazer efeito... — Disse ela, fazendo-o sorrir levemente. Era verdade que estava fraco, mas não queria ser um estorvo para aquela garota, pois sabia que estava dando um pouco de trabalho, não gostava disso, não gostava de ter que depender dos outros... Mas jamais sentira seu corpo tão ruim como estava naquela noite. Mesmo das vezes quando fizera o ritual de sangue com seu mestre, sim, sabia que estivera muitas vezes de cara com a morte, mas não fora tão ruim quanto estava sendo naquele momento. Estava com dor em todo o corpo, embora tentasse não manifestar tal fraqueza, pois sabia que deixaria a garota preocupada. Talvez as dúvidas, somadas aos últimos acontecimentos que se lembrava ter ocorrido a si, ajudasse em seu estado físico de saúde. Estava confuso e precisava de respostas. Ele sabia, ou pelo menos achava, que Sophie possuía todas elas... Até porque o rosto daquela garota, não era nem um pouco estranho para ele... Não notara o tempo passar, pois mergulhara em seus pensamentos ao ponto de assustar-se com o barulho da cadeira arrastada por Sophie que se sentara de frente à ele, mirando-o profundamente, dentro de seus olhos.

– Muito bem Albafica. Vamos conversar.

Notas finais
Espero que tenham curtido este capítulo!!! No próximo as coisas vão começar a acontecer (assim eu espero o_o)...