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3 A Conversa Inevitável


Notas iniciais
o/ Boa leitura Minna-san!!! ~

- Achei que não iria falar nunca sobre isso. — Disse Albafica seriamente, apoiando o cotovelo sobre a mesa, descansando o rosto sobre as mãos, olhando-a fixamente. Olhar para ele daquele jeito fez o coração de Sophie bater levemente mais rápido. Sabia que estava nervosa sobre a reação que ele poderia vir a ter, quando soubesse a verdade.

- Não sou de fugir com as minhas promessas. — Disse ela em mesmo tom, não desviando o olhar.

- Melhor assim. — Respondeu. Era claro que os dois estavam tendo um acirrado conflito interno, embora ambos nem soubessem o real motivo.

- Certo... — Meu Deus! Como iniciar a história? Mas como ele dissera, teria que começar, pelo começo... Obviamente. Pensando assim... — Quando eu tinha doze anos. — Disse ela. — Era fã de uma história... Uma história sobre guerreiros que defendiam a Terra e a Deusa Athena. — Ele continuava a prestar total atenção. — Eles eram chamados de Cavaleiros, sendo oitenta e oito no total. Que eram protegidos por uma constelação, cada qual possuía uma armadura, divididos em: bronze, prata e Ouro, esses últimos viviam em casas astrológicas em um santuário na Grécia.

- Sophie...

- Eu ainda não terminei. — Disse ela enfática. Ele se calou respirando fundo. — Na história, que denominamos Lost Canvas, ouve uma guerra santa...

- Já deu Sophie. Você está tentando me enrolar? — Ela o mirou querendo questionar, porém o pisciano não deu bola e continuou. — Eu não preciso de alguém que me diga sobre meu passado, da onde eu vim, ou que armadura eu usava. Eu quero saber como e porque estou aqui, se é que pode me explicar, e o que quer dizer isso tudo. Eu quero a verdade, quero que vá direto ao ponto. — Disse ele, não se deixando levar pela falta de paciência, continuando em seu tom cortes. Porém Sophie não tinha o mesmo sangue frio que ele.

- Ah você quer eu vá direto ao ponto? Estou tentando explicar direito para que você possa entender onde quero chegar...

- Vá direto ao ponto. — Repetiu ele. Sophie cerrou levemente os olhos. Estava sendo mais difícil do que imaginava.

- Está bem Albafica! A verdade é que você é um personagem de mangá! Fruto da imaginação de uma escritora! — Ele continuou mirando-a incerto, dando algumas piscadelas.

- O que é um mangá? — Perguntou ele, de maneira um pouco infantil. O que desconcertou Sophie. Mas seu sangue ainda fervia. Ela desejou ter seus gaidens ali, se arrependendo de não tê-los pego. Caminhou a passos rápidos em direção a estante mais próxima, catando o primeiro mangá que viu, jogando-o em cima da mesa.

- Tá aí! Isso é um mangá! — Disse ela. Ele catou a revistinha, mirando sua capa.

- Y-ao... Yaoi? — Leu ele. Ela arregalou os olhos.

- Não, essa daí não! — Tirou-a rapidamente das mãos dele, totalmente vermelha. Albafica ficou sem saber o que pensar.

- Mas o que...?

- Desculpe é que eu peguei a errada... — Falou ela sem graça, sem olhá-lo, voltando as estantes, catando outro mangá, desta vez olhando direito seu conteúdo. — Aqui. — Disse entregando-o. Ele folheou o tal "mangá", e depois olhou-a.

- Resumindo... — Começou ele. — Está me dizendo que não existo. Certo?

- Não estou dizendo que não existe!

- Está dizendo que sou fruto da imaginação de uma escritora, logo, não existo.

- Não é bem assim! VOCÊ ESTÁ BEM NA MINHA FRENTE!

- Porque está irritada Sophie?

- EU NÃO ESTOU IRRITADA! — Ela percebeu que gritava, corando ainda mais do que já estava, se é que era possível. Sim, ela estava nervosa. Tremia dos pés a cabeça. Albafica, porém, continuava com sua calma de sempre, o que chegava a irritá-la. O que os deuses estavam pensando? Em testá-la? Se perguntou ela completamente perdida dentro de si. Sentou-se derrotada na cadeira. — Está querendo dizer que eu estou imaginando você? — Falou ela sem olhá-lo.

- Eu não sei o que está acontecendo Sophie. Até porque, na minha memória, minha última lembrança é de estar conversando com um amigo depois de uma batalha contra um espectro. Eu tenho em mente que não era para eu estar vivo. — A mente de Sophie se acendeu. Ele estava se referindo a sua morte. Seus últimos momentos de vida, quando lutou contra Minos de Grifo, e de sua última conversa com Shion.

- Você foi brilhante naquela batalha... — Disse ela sorrindo pensativa, viajando nas lembranças. — Eu me emocionei profundamente quando vi o tamanho de sua coragem. Mesmo estando em completa desvantagem, você usou sua inteligência e força para se reerguer e dar a volta por cima... Não deixou que estilhaçassem seu coração como fizeram com seu corpo... E no final, a pesar de tudo, ainda conseguiu vencer... Foi incrível! — Falou sorrindo abertamente, levantando a cabeça. Por um segundo, se esqueceu do que estava acontecendo, de quem estava à sua frente e do que acabara de dizer. Sophie se surpreendeu ao ver que Albafica, pela primeira vez desde que se encontraram, manifestara uma reação verdadeira, sem sua máscara rotineira de frieza, ele estava surpreso. Surpreso pelo que ela falara, surpreso por alguém ter-lhe dito exatamente o que estava pensando antes de dar adeus ao seu mundo, sua vida. Surpreso e feliz, por ter ouvido palavras tão belas a seu respeito.

- Acha mesmo? — Falou ele por fim, depois de se encararem por alguns segundos em silencio.

- É claro que eu acho. — Disse ela sorrindo. — Ele fez um sinal de cabeça em agradecimento.

- Obrigado. — Disse, demonstrando sua real gratidão pelas belas palavras. Não tinha como ele ser uma ilusão. Pensava Sophie olhando-o. Ele tinha tudo que só uma pessoa que tenha passado o que ele passou, poderia ter, estampado em sua face e em suas expressões. Albafica não era frio, a verdade é que ele era como ela, machucado pela vida. Como uma rosa, que usa de seus espinhos para se defender. Seu belo rosto, se analisado com calma, mostravam suas cicatrizes, não as físicas, mas sim aquelas inapagáveis, as tatuadas na alma.

- Eu ainda não entendo... — Disse ele. — Mas eu acredito em você. Até porque não teria como eu duvidar, estando onde eu estou... No ano e século que estamos agora... — Falou ele mirando o nada. — Agora, nem eu mesmo sei se sou real, se tudo que vivi realmente aconteceu... — Falou ele com um tom infeliz. Sophie o olhou atentamente, tendo uma ideia. Ela se levantou rapidamente.

- Aonde vai? — Perguntou ele.

- Já volto. — Disse ela. A garota foi a passos rápidos até a porta de entrada, abrindo-a. Foi até a porta de seu vizinho, que ficava em frente à sua, dando pequenas batidas nela. Era um pequeno condomínio, de nove blocos. Cada bloco possuía quatro kitnets, sendo dois no térreo e dois no primeiro andar. Sophie morava no primeiro bloco, em um dos apartamentos do primeiro andar.

- Sophie? – Um adolescente com cerca de dezesseis anos, descalço, com cabelos rastafári e roupas largadas, foi quem abriu a porta.

- Boa noite Raul. – Cumprimentou Sophie, notando que o vizinho tinha muitas companhias dentro de sua casa, devido ao barulho. – Preciso de sua ajuda! Venha comigo! – Disse, segurando uma das mãos do rapaz, o puxando para dentro de sua casa. Raul não entendera nada, mas a seguiu.

- Sophie, pode me explicar o que está acontecendo?

- Sim... – Ela o levara até a cozinha. Albafica que até então estava com a cabeça apoiada na mesa, levantou-a para mirar os dois.

- Sophie... Por favor... É Natal e você vem a essa hora... QUEM É ESSE AÍ!? – Perguntou Raul surpreso ao ver o homem loiro na casa de sua vizinha.

- Que bom... Você então está vendo ele certo? – Perguntou ela. Raul ainda encarava Albafica com total espanto.

- Quem é esse Sophie? – Perguntou Raul.

- Ótimo! Não estou louca! – Disse ela sorrindo. – Obrigada pela ajuda Raul. Você pode ir embora agora.

- Espera Sophie! – Disse Raul relutante. – Mal o corpo do Charlie esfriou e você já trás outro homem pra cá? – Instantaneamente o sangue de Sophie subira. Ela o agarrou pela gola da camisa velha encarando-o.

- Nunca mais fale uma porcaria dessas! Torça a sua língua ao se referir ao Charlie, seu moleque! – Disse ela empurrando Raul ao soltá-lo. Albafica vira Sophie irritada, mas com aquele ódio nos olhos, fora a primeira vez.

- Calma Sophie! Era só brincadeira! – Disse o garoto. Ela continuava séria. Albafica não se atrevera a dizer algo, apenas olhava de um para outro. – Não vai me dizer quem é o loiro?

- Não! – Disse ela arrastando o rapaz de sua casa. Albafica escutara a porta fechar em um baque. Então Sophie retornara a cozinha.

- Viu só? Aquele inútil do Raul também te viu. – Disse ela sorrindo falsamente. Albafica notara o quanto ela se alterara a menção do nome “Charlie”, se perguntando o que realmente havia acontecido a ele. Mas não iria tocar naquele assunto, vendo como ela reagira, podia jurar que vira uma reação sua de tempos atrás, na garota a sua frente.

- Sim. Pelo visto não é só você que pode me ver. – Disse ele, espanando suas indagações.

- É verdade... – Respondeu ela. Ainda não havia se recuperado das palavras de seu vizinho.

- Sophie...

- Sim?

- Eu... Eu me pergunto o que houve com meu sangue envenenado... – Disse. Não havia entendido direito o que ocorrera, pois Sophie nada sentira até então. Na verdade nada fazia sentido desde que acordara de sua morte.

- Bom, talvez você não o tenha aqui... Ou talvez já não seja mais envenenado...

- Pode ser... – Disse ele. Estranhando a pontada de felicidade que brotara lá no cantinho de seu peito. Por tanto tempo tivera veneno misturado ao seu sangue, que se imaginar como um homem normal parecia até mesmo um sonho. Surpreendera-se com o pequeno sorriso que expressara. Foi então que tentou mudar de assunto. — É bem interessante a maneira como vocês evoluíram na iluminação. – Disse Albafica mirando o teto. Sim, ele havia encucado com a luz.

- Ah é... – Falou Sophie sorrindo, agora mais calma. — Se chamam lâmpadas. Funciona com a eletricidade. E com a energia pode-se tomar banhos quentes, ligar aquecedores, televisores... Acho que você viu um na sala... Depois te mostro como funciona tudo. Com o tempo irá se acostumar... – Disse ela.

- Com o tempo... – Ele repetiu quase que num sussurro. Ela notara o olhar vazio que ele expressara. Deveria ser difícil para ele. Pensou. Achar que morreu, e de repente acordar e estar em mundo totalmente diferente do seu.

- Sim... Com o tempo. – Falou ela, mais como um apoio, do que como qualquer outra coisa. Ele apenas concordou com um aceno de cabeça. Perguntando-se por quanto tempo ficaria ali.

Já passavam das três da manhã. Sophie arrumara um futon para Albafica em sua sala, com cobertores e travesseiros. Ele havia ido a cozinha beber água, enquanto Sophie estava em sua pequena sacada, observando a garoa que caia do lado de fora. A brisa fria balançava seus longos cabelos castanhos. Albafica retornara, observando-a de costas. Ela era bonita e possuía um temperamento forte, e quem era ele pra pensar isso? Quem é que era considerado metido e orgulhoso no santuário? Riu com os próprios pensamentos... Mas era engraçado... Ao vê-la pela primeira vez, jurara ser Agathia em uma versão mais velha. Sua pele branca levemente corada pelo sol, os grandes e expressivos olhos verdes somados com seus longos cabelos castanhos, eram idênticos aos daquela menina que sempre o admirava quando passava. Que chorara ao ver seu estado crítico em seus últimos momentos. Ele se perguntou o que deveria ter acontecido a ela depois de sua morte... Mas logo caíra na realidade ao perceber que tudo que vivera, poderia nem ter sido real... Mas e então, o que explicaria sua presença ali? E as cicatrizes nos locais onde os fios do espectro o machucaram? Eram muitas perguntas, e quase nenhuma resposta lógica. Foi então que decidiu se aproximar de Sophie, lembrando-se de algo.

- Feliz Natal Sophie. – Disse ele. A voz macia tornado-se presente. Ela se assustara ao perceber que ele estava ao seu lado, pois não o notara chegar.

- Ah... Obrigada Albafica. Pra você também. – Disse ela sorrindo. Ele a olhou e sorriu ao mirar o belo sorriso que ela expressava. Quando fora a última vez que passara o Natal com alguém? Ele não se lembrava, mas era em companhia de seu mestre que sempre comemorava as datas festivas.

- Eu havia escutado o garoto dizer que era Natal...

- Ah... O Raul. – Disse ela torcendo o nariz. Ele notou que não deveria ter tocado no assunto. – Me desculpe Albafica, deve estar querendo dormir... Eu vou para o meu quarto... – Sophie fez menção de se retirar.

- Não... Eu estou bem. Não estou com sono. – Falou ele rapidamente. Ele não queria confessar a si mesmo, mas estava sendo bom poder estar perto de alguém sem ferir a pessoa. Ela parou onde estava, estranhando a reação dele, sempre frio, por um milagre parecia estar mais à vontade agora. Ela apoiara os braços no corrimão da sacada. No bloco em que morava, por ser o primeiro, lhe permitia o luxo de uma bela vista de toda a cidade.

- São tantas luzes... – Disse ele ao seu lado. Eles estavam em uma capital, e como em quase todas as capitais, a cidade não parava.

- Sim... Cada pontinho de luz é de uma casa, em que muitas pessoas devem estar comemorando o Natal com suas famílias... – Disse ela por alto. Ele se perguntou por que Sophie não estava com a dela... Se é que ela possuía uma família... Ele era e sempre fora discreto. Sabia que não poderia tocar em assuntos delicados como aqueles. Mas também sabia esperar, e se os deuses lhe permitissem, aos poucos saberia mais sobre a bela garota de olhos verdes.

- Obrigado Sophie. – Disse.

- Hã? – Ela o mirou confusa.

- Você está me ajudando. Fez muito por mim até agora... Já que sou um completo estranho...

- Corta essa... Não precisa me agradecer e... Você não é um estranho Albafica! Você é e sempre vai ser um herói pra mim. – Disse ela. Talvez ele estivesse com sono... Havia escutado aquilo mesmo? Mas ele sorriu, e fez com que Sophie se sentisse ainda mais feliz. A leve garoa, se tornando aos poucos uma chuva calma e fria. Mas nem mesmo isso, era capaz de esfriar dois corações que aos poucos, começavam a se aquecer...

Notas finais
Obrigada à todos que comentaram e estão acompanhando a história!!!
*-* Isto é um incentivo e tanto para quem escreve! Arigatou!!! ^^