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8 Gotas de Solidão
Notas iniciais
A sala estava quieta, somente a voz do professor era ouvida em meio aos muitos olhares que voltavam sua atenção as explicações da matéria. Mas ao canto esquerdo da janela, a bela garota de olhos verdes e longos cabelos castanhos, rabiscava coisas a toa na folha que deveria ser de suas anotações. Sophie viajava em sua mente, se perguntando o que Albafica estaria fazendo naquele momento... Provavelmente estaria recebendo alguma cantada de freguesas da doceria... Ela sorriu bobamente sem se quer dar-se conta disso. Era engraçado, há alguns meses atrás estava no fundo do poço, se sentindo o último dos seres humanos, a tristeza corroendo-lhe os ossos até a alma. Porém tudo mudara em sua vida, com a chegada extraordinária do herói de sua infância. Não entendia até agora o que havia acontecido, mas procurava não quebrar mais a cabeça pensando, pois os dias que se sucederam a chegada do cavaleiro, foram suficientes para tirar-lhe da mesmice depressiva que estava sendo seus dias. Recuperara sua alegria, e talvez só agora estivesse se dando conta do quanto Albafica lhe fazia bem. Justo ele, o mais complicado dos doze cavaleiros...
– O que é esse sorriso idiota na sua cara Sophie?
– Hã? – Sophie retornara à Terra, trazida por um colega de sala.
– Não é nada Henri... – Disse ao rapaz que sorrira de canto, vendo-a escapar do assunto. O sino tocara logo em seguida, mas alguns cochichavam algo, mirando a janela do lado de fora. Ela não dera muita importância, arrumara suas coisas dentro da bolsa, e descera as escadas rumo à saída. Ao alcançar o pátio, notara que ali também havia o mesmo muxoxo de sua sala. Desta vez percebera do que se tratava. Longas madeixas loiras, balançavam ao vento daquele fim de tarde. Encostado ao muro próximo ao portão da universidade, estava Albafica, as mãos no bolso das calças largas, mirava a entrada do local, seus olhos buscando algo, ou melhor, alguém. Ela sorrira inconscientemente ao vê-lo.
– Boa tarde! – Dissera ele ao se aproximarem.
– Ótima tarde! – Falou sorrindo. — O que faz aqui? Sempre sou eu quem vai te buscar... – Disse ela em tom de brincadeira.
– Hoje foi dia de pagamento... Lorena me liberou mais cedo. Deixe-me ajudá-la. – Ele apanhou sua bolsa, colocando sem cerimônia a mesma em seu ombro.
– Obrigada... – Agradecera. – Mas olha só! Seu primeiro salário! – Disse ela sorrindo.
– Pois é... – Falara ele. – E foi por isso também, que vim lhe buscar... – Ela o analisou de canto enquanto andavam. Ele estava sem jeito, as maças do rosto se tornando gradativamente rosadas.
– Certo... Então...? – Quis saber ela curiosa.
– Bom... Eu estava conversando com a Lorena, e ela me falou que recentemente abriram um restaurante perto da sua casa, então pensei... Quer dizer, eu pensei que poderia chamá-la para irmos comer algo... – Disse mirando o chão, o coração estranhamente acelerado. Ela semicerrou os olhos.
– Albafica, está me convidando para sair? – Ele engolira em seco, será que estava dando na pinta? Pensou para seu desespero. Sophie não era idiota, mais cedo ou mais tarde ela notaria... Notaria?! Quer dizer que talvez ela poderia ter se tocado a respeito de seus sentimentos?
– Bem.. Sophie você tem feito tanto por mim, que pensei que poderia agradecer-lhe de algum jeito... Agora posso pagar. – Ela sorrira, e todas as dúvidas do pisciano esvoaçaram de sua mente, sempre se perdia quando a via sorrir daquela maneira.
– É claro que eu vou! Mas não quero que tente me agradecer... Você fez mais por mim do que imagina... – Ele a mirou por fim com mais calma.
– Eu não fiz nada... Só lhe dei trabalho...
– De maneira alguma. Você me ajudou na hora em que eu mais precisava... Sabe, acho que foi você quem me salvou. – Disse ela com o olhar vago. Ele não sabia o que falar, sabia do que ela estava se referindo. Sempre que conversavam, de algum jeito, ela comentava sobre Charlie, ele entendia que eles se gostavam muito, e se sentia egoísta em as vezes não gostar de escutar o nome, ou a simples menção do ex namorado de Sophie.
– Meu dever como cavaleiro sempre foi esse afinal. Posso não ter mais meu cosmo, mas possuo minha honra como tal. E salvar as pessoas sempre foi nossa principal missão. – Disse ele por fim.
– Ora... Não seria proteger Athena? – Perguntou Sophie. Ele rira de seu comentário.
– Também. Mas Athena é uma deusa, humanos precisam de mais proteção, ela possui muitos cavaleiros ao seu serviço. — Ela se surpreendera com sua resposta, sempre achou que os cavaleiros de ouro venerassem Athena, mas se enganara ao escutar as belas palavras do pisciano. — Você se esqueceu Sophie, que Athena descera à Terra para proteger os humanos? A Athena da minha geração sempre teve esse objetivo. – Falou.
– Sim. Tem toda a razão. – Respondera ela. Sim, ele sabia como deixá-la sem graça com suas respostas diretas e sem atalhos.
– Certo então... Que tal às oito? – Ela o mirou sem saber do que ele falava.
– Oito?
– É... Acha muito tarde? – O jantar... Ela sorrira.
– Não... Está ótimo. – O belo rosto de Albafica se iluminara com sua resposta.
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Não era um lugar “chique”, e sim um tipo jovial de restaurante. Com pista de dança, mesas ao ar livre e vista para o mar. Era um belo e aconchegante lugar.
– Nossa! Como eu não soube que este lugar ia ser inaugurado? – Perguntara Sophie assim que chegaram.
– Sabia que ia gostar. – Disse Albafica. Sophie usava um vestido branco de tecido leve e sandálias gladiadoras. Já Albafica estava do jeito que todos imaginam, perfeito. Ele comprara algumas peças de roupas mais cedo. Trajava jeans escuro, camisa branca, também leve, com as mangas dobradas até os cotovelos. Combinava com ele, discreto, não estava tão social, e nem tão esporte. Um perfeito equilíbrio para alguém que só com sua mera presença já chamava muita atenção. Sentaram-se em uma mesa ao ar livre, a um canto isolado do restante, um pouco afastados dos outros. A maresia fresca da noite, dava um clima ainda mais belo à tudo.
– Sophie eu desisto...! Não sei o que pedir... – Falara Albafica soltando o cardápio com a cara emburrada. Sophie rira da cena. – Não conheço nenhuma dessas comidas...
– Deixa que peço uma aqui que sei que vai gostar. E não deve ser caro! – Ele rira. Não demorou e ambos estavam comendo lasanha aos quarto queijos. E é claro que Albafica não reclamou. Tomaram suco de laranja, o mais básico talvez, já que Sophie não bebia e Albafica muito menos. Vários estilos de música eram tocados, havia caixas de som do lado de fora, o que permitia a quem estivesse ali escutar também. Conversaram sobre várias coisas, como sempre faziam. Até que uma música lenta tocara.
– Eu gosto dessa música... – Comentara Sophie por alto mirando a praia iluminada. Albafica a olhou de canto, uma ideia um pouco ousada passando por sua mente.
– Quer dançar comigo? – Ela o olhou surpresa.
– Mas é claro! – Ele se levantou lhe esticando um braço. – Ora, mas você é um perfeito cavalheiro... Uma raridade eu diria...
– É uma pena... Pois parece que os homens se esqueceram de seu cavalheirismo. Isso não deveria ser raro.
– Tem toda a razão. – Disse Sophie segurando-lhe o braço. Albafica colocara uma de suas mãos em sua cintura, e com a outra segurara a mão de Sophie. Ele sabia conduzir. Apesar de ser alto, ela conseguia alcançá-lo, o que era um milagre, pois não era tão alta assim. – Você dança bem, onde aprendeu? – Perguntou ela.
– Meu mestre me ensinou... Ele sempre foi como um pai pra mim, como já disse, e as vezes a gente se divertia... – Disse, sorrindo gentilmente. Ela notara o quanto seus olhos estavam brilhantes, vendo-o tão de perto. Era bom estar perto dele, uma sensação familiar de amparo e carinho lhe viera à mente. Sim, já sentira aquilo antes, pois era o mesmo calor que Charlie costumava lhe oferecer. A música já estava na metade, e ela notara que os olhos azuis a sua frente estavam mais escuros do que o normal. Uma brisa batera mais forte, esvoaçando os cabelos de Sophie tampando-lhe a face. Albafica levou uma das mãos lhe tirando a mecha que fora em seu rosto. Seu coração batia ainda mais acelerado do que antes. Mirar aqueles lindos olhos verdes diante de si fazia suas pernas bambearem. Ela sorriu, e ele não conseguiu tirar os olhos de seus lábios. Pensamentos estranhos entorpecendo-lhe a mente.
– Você é linda... – Disse por fim, sem ao menos notar o que escapara de seus lábios.
– Você é que é! – Falou ela sorrindo gentilmente. As mãos macias e quentes de Albafica lhe tocando a face, senti-lo tão perto lhe fazia o coração acelerar minimamente, e mais uma vez a lembrança de seu ex surgindo em sua cabeça. – Charlie costumava me dizer isso também... – Disse ela por alto. Albafica sorriu decepcionado, a tristeza imediata lhe atingindo em cheio o peito a menção daquelas palavras. Ele se aproximou lhe beijando a testa.
– Charlie era um rapaz de sorte... – Disse. – Pois mesmo não estando mais presente, ainda tem o seu coração. – Ela notara algo que há algum tempo não via em seus olhos, tristeza e solidão. – Vocês se amavam e se correspondiam... Não deve haver sentimento melhor do que esse no mundo. – A música acabara em fim e ele se afastara, lhe soltando as mãos. Era estranho, mas Sophie enxergava um abismo gigantesco surgindo entre eles.
– Disse algo... errado? – Perguntou Sophie. Albafica engolira em seco. Não podia dizer a ela o que estava sentindo, dizer a ela suas dores, e os outros tantos sentimentos que se misturavam naquele momento em seu coração. Não podia dizer que sim, que ela disse e estava dizendo palavras erradas e que há séculos não queria mais ouvir. Ele sorriu novamente.
– Vamos... Está ficando tarde.
Aquela cidade era mesmo enorme, e parecia não parar nunca... Concluía Albafica, mirando-a pela sacada. Já passavam das duas da manhã, mas ele não conseguira dormir, não conseguia tirar as palavras de Sophie de sua mente. Aquilo estava sendo insuportável para ele... Por quê? Era a única pergunta que pairava. Porque aquilo estava acontecendo a si? Os deuses deveriam estar querendo brincar consigo, e deveriam estar se divertindo, pois reviver um cavaleiro que há muito já havia desaparecido, deveria ser mesmo o tipo de brincadeira que lhes agradavam... Estava em um lugar estranho, em outro século, em outro mundo. Tudo havia mudado, tudo... Mas ele continuava o mesmo. Poderia não ter mais o sangue envenenado, mas ainda assim não poderia estar ao lado de quem amava... Amor, sentimento desgraçado que só servia para machucá-lo ainda mais... Talvez aquilo doesse mais do que os tantos golpes que sofrera em sua última luta, aquela que lhe tirara a vida. Sentia que era um intruso naquele lugar, sentia que não deveria estar ali... Suas rosas, aquelas malditas rosas que sempre odiou, agora lhe faziam falta. Queria lhes contar à dor que dilacerava seu coração, queria ajoelhar diante delas e chorar as lágrimas que estavam presas dentro de si. Mas as rosas não foram necessárias, pois sentira seus olhos que há horas já estavam inundados, derramarem em fim as gotas de solidão que lhe rasgavam a alma. Chorara diante da noite, diante das estrelas que miravam com pesar apenas um, dos tantos corações partidos naquela noite.
A manhã começara cansativa para o pisciano que passara a noite em claro, os olhos azuis escuros, agora pareciam mais desanuviados. Ele já havia preparado o café. Sophie talvez não levantasse tão cedo como de costume, já que era sábado, dia em que ela reservava para si uma folga de suas obrigações semanais. Mas ele trabalharia logo mais, portanto já estava arrumado para tal. Sentara-se no sofá, apreciando sua xícara de café. Correu os olhos pela estante em frente a si, levantando-se e apanhando os mangás em que suas histórias estavam. Já fazia algum tempo desde que os vira pela primeira vez. Sorrira tristemente ao se lembrar, pois fora ali que tudo começara. Ele se sentou novamente, largando a xícara sobre a mesa de centro. Folheara o mangá por alto, mas notara algo estranho.
– Mas o que é... isso? – Perguntara-se em voz alta ao perceber as páginas iniciais em branco. Ele apanhara o gaiden, folheando-o também, porém este estava um pouco pior. Nada havia nas páginas das quais meses atrás estava desenhada sua história, estava totalmente em branco, como um caderno que se compra em uma loja. Ele apanhou novamente o mangá. – A luta... – Balbuciara após ver que algumas folhas ainda estavam conservadas um pouco antes de sua luta contra Minos, já na parte quase final de sua história. Ficou sem entender o que ocorria, perguntando-se o que estaria acontecendo.
– Bom dia... – Sophie se levantara. Foi então que ele se dera conta de que talvez estivesse ali há mais tempo do que imaginava. – Algo errado Albafica? – Ele a mirou.
– Sophie... Desde quando isto está assim? – Perguntou mostrando as revistinhas. Ela se aproximara dele apanhando os mangás nas páginas que ele havia marcado. Arregalara os olhos ao ver o que ocorria.
– Mas...? Como? – Também não entendera ao visualizar o nada contido ali. Ela o mirou, perplexa. – Não estou entendendo. Até o dia em que lhe mostrei estavam perfeitos! – Disse.
– Isso já faz alguns meses... – Falara ele.
– Eu sei, mas não tem como a tinta ter-se apagado, ou algo dessa maneira... Isso... isso não acontece! – Sua voz falhara, algo estranho pulsando em seu coração. – Albafica, isso é como se... É como se sua história estivesse... sumindo.
Notas finais
~ As coisas se esclarecerão nos próximos capítulos... ;D Obrigado a todos que leram! Abraços ~ Lyze.
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