Saudade

4 Uma caixa em forma de coração


Notas iniciais
Ops, mil perdões pela falta de atualizações. Eu acabei de mudar de estado e as coisas estavam super corridas, espero que gostem do capítulo.

O relógio em sua escrivaninha marcava nove e meia da manhã.

Em circunstâncias normais, ela estaria na sala de aula sentada ao lado de Ayla e a professora estaria começando a dar as instruções para a prova de inglês a se seguir, porém Marinette estaria muito ocupada lutando contra a sua mente que, por alguma razão, preferia apreciar o movimento delicado dos cabelos loiros do rapaz que sentava a sua frente, a sua voz em forma de sussurro no meio da aula com algum comentário que sempre fazia o amigo dele se esforçar para conter o riso, o pequeno sinal na base de sua nuca — todo e qualquer detalhe lhe era infinitamente mais urgente do que ouvir pela centésima vez que as respostas deveriam ser escritas de caneta e não de lápis.

Não que ela estivesse terrivelmente preocupada com a prova, na verdade ela estava mais desapontada com o fato de perder a chance de interagir com ele.

Adrien era o seu nome.

No começo, Marinette não sabia dizer se estar sentada tão perto dele era uma benção ou uma piada cruel do destino, mas ela não podia negar o jeito que o seu coração palpitava de felicidade toda vez que ele se virava para lhe passar alguma coisa.Desde então, ela esperava ansiosamente por cada dia de prova.

Era um momento breve, como deveria ser. Adrien sempre abaixava um pouco a cabeça e seus olhos verdes e furtivos evitavam de se encontrar com os dela — Marinette realmente não podia culpá-lo por isso. Porém, ele também meio que sorria pelo canto dos lábios, discretamente, como se estivesse sussurrando um segredo só para ela. A garota sempre quis ter um segundo ou dois a mais, apenas o suficiente para agarrar um punhado de coragem e descobrir o que ele estava tentando lhe dizer, se é que estivesse tentando lhe dizer alguma coisa.

Mas o momento sempre lhe escapava.

Ayla sempre dizia que pensar demais no desenrolar de coisas simples era o pior inimigo que Marinette iria ter na vida e mesmo que reconhecesse que havia uma parcela de verdade naquilo, preferia pensar que estava se preparando para todos e quaisquer cenários possíveis. Afinal, da ultima vez em que tinha se deixado agir por impulso perto dele as coisas não tinham terminado muito bem.

De qualquer maneira, eram nove e quarenta e cinco. As provas provavelmente já tinham sido distribuídas entre os alunos e Marinette não estava nem um pouco perto da sala de aula. E de todas as razões que poderia ter para faltar aula; “conversar com a sua mãe sobre a história da tia que ela nem sabia que tinha enquanto o fantasma amnésico da mesma espreitava ao seu redor”,ela tinha que admitir, estava bem abaixo na lista de possibilidades.

Marinette estava sentada no chão de seu quarto enquanto esperava sua mãe aparecer pela porta. Sabine havia lhe dito que precisava encontrar algo para ajudar a memória, mas a menina se perguntou se ela na verdade não estivesse precisando apenas de um tempo para se acalmar.

A garota nunca tinha visto a mãe daquele jeito.

Ela agarrou a caixa turquesa na qual tinha encontrado os brincos e as roupas enquanto tamborilava com os dedos em uma das extremidades. Não sabia o que lhe causava mais ansiedade, o fato da sua mãe estar demorando ou ver Bridgette flutuando de um lado para o outro próximo a porta, se seus pés tocassem o chão, ela estaria próxima de abrir um buraco no assoalho.

“Você acha que ela estava dizendo a verdade?” a fantasma parecia mordiscar as unhas.

“Bem, ela não tem razão nenhuma para mentir.”

A fantasma levou as mãos ao rosto e pareceu reencenar de maneira cômica aquela pintura famosa de alguém gritando em total desespero.

“Tia?!Eu não posso ser sua tia, eu nem pareço muito mais velha que você!!”

“Bem, você também é um fantasma. Vai saber a quanto tempo faz que você-”

Marinette parou antes que pudesse terminar a frase. Não tinha a intenção de ser insensível, mas aquela colocação lhe pareceu extremamente rude. Era difícil para sua mente categorizar a existência de Bridgette, não era uma alucinação, era uma pessoa que não podia ser vista e nem tocada — que se tornou assim, devido a morte. Ela não conseguia admitir para si mesma que em algum momento no passado Bridgette havia de fato falecido e talvez nem a outra garota tivesse pensado muito sobre isso. Prova disso, era o modo com o qual sua face pareceu escurecer enquanto ela franzia o cenho confusa.

“Quanto tempo faz..?” ela levou uma das mãos a lateral do pescoço, como se estivesse a procurar alguma coisa.

Bridgette fechou os olhos com força e pareceu estar concentrada, a outra garota não percebeu de inicio o porque até que fez o mesmo e percebeu uma leve batida contra a ponta dos seus dedos.Ela procurava seu próprio pulso em busca de uma confirmação, um tanto que frívola, para tudo aquilo. Seus ombros enrijeciam de frustração a cada segundo que se passava e por fim, ela soltou um riso curto e amargo.

“É esquisto sabe, eu não me sinto muito diferente de quando eu estava viva.” ela suspirou.

Marinette abriu a boca para dizer alguma coisa mas se encontrou sem palavras, qualquer coisa parecia extremamente inapropriada. Ela entendia o conceito de morte mas nunca a viu frente a frente, todos aqueles que ela conhecia estavam vivos e esbanjando saúde, como poderia falar que compreendia com os sentimentos de Bridgette? Não poderia.

“ As vezes, eu juro que sinto o meu coração bater.”

Os olhos da fantasma eram profundos e escuros como o alto mar. Por alguns segundos, a garota teve a impressão de ter visto alguma coisa afundando neles, sombras de lembranças de uma vida interrompida — distantes, quase se apagando mas não esquecidas. E Marinette se encontrou no meio daquilo tudo, sentia o peito pesado como se alguém tivesse posto uma âncora em volta de seu coração e seu pegou imaginando se sua mãe chegaria antes que ela se afogasse por completo.

“Mari, amor?” a voz estava um pouco rouca, mas ela sabia quem era.

“Oi mãe.”

Ela parecia pequena e frágil na entrada do quarto como se qualquer brisa que viesse pela janela pudesse despedaçá-la completamente. O canto de seus olhos estavam inchados e as lágrimas haviam traçado pequenos afluentes em seu rosto. Por mais que Sabine tivesse tentado limpar todos os traços de sua dor ela parecia ter se dado por vencida em algum momento, não se preocupava mais em esconder a sua respiração pesada.

A garota notou que ela carregava um pequeno álbum de fotos consigo, não muito maior que o seu sketchbook e estava prestes a se levantar do chão quando sua mãe se posicionou ao seu lado. Marinette olhou para a fantasma tentando transmitir um pedido de ajuda mudo porém, Bridgette apenas mordiscou o lábio inferior e se aproximou um pouco mais das duas, afinal ela não precisava se preocupar em ser vista.

Apesar de possuir muitas perguntas, a fantasma não sabia por onde começar e de qualquer maneira, nada do que ela fizesse ou falasse iria adiantar alguma coisa naquele momento. Então, ela esperou, porque tudo que ela tinha agora era Marinette.

“Então...Eu tenho uma tia?” começou com um meio sorriso, tentando melhorar o ânimo da conversa.

Sabine tinha as mãos prontamente posicionadas sobre o álbum mas ainda sim hesitava, como se estive prestes a abrir uma caixa de pandora e tentou sorrir um pouco, pareceu ter sido um esforço doloroso.

“Não é que eu estivesse escondendo de você, amor”, ela deu uma pausa “ Mas é que Bridgette é um assunto um pouco delicado para a nossa família, eu nunca soube muito bem por onde começar...”

As garotas se entreolharam confusas. A fantasma franziu o cenho e cruzou os braços como se desesperadamente tentasse lembrar de alguma coisa enquanto a outra se aproximou de sua mãe, ela não queria pressioná-la a falar sobre um coisa que lhe causava tanto sofrimento, não queria vê-la chorando outra vez. Então, Marinette a tocou suavemente no ombro e perguntou:

“Eu realmente pareço tanto assim com ela?”

Sabine riu baixinho e dessa vez, era genuíno. E com isso, abriu o álbum. Todas as fotos tinham um aspecto amarelado e algumas estavam começando a se desbotar apesar do plástico protetor antes de cada página. Ela observava um pouco maravilhada as versões mais novas de todos os seus familiares, nunca tinha realmente parado para ver nenhum daquelas fotografias.

“Um pouco. Vocês tem suas diferenças, claro. Mas eu nunca tinha percebido em todas as semelhanças, eu acho que a memória esta começando a me falhar — Aqui olha.”

Sua mãe apontava uma foto onde uma adolescente segurava em seus braços uma criança com pouco mais de sete anos, as duas tinham um sorriso bem largo apesar de faltar um dente na boca da menor e a data de quando a foto foi tirada marcada em uma das extremidades: Abril de 1982. Era um pouco difícil de acreditar que um dia sua mãe tinha sido uma criança tão pequena. Marinette lançou um olhar furtivo em direção a fantasma que espiava o álbum por cima de seu ombro.

“Bem, essa sou eu, sem duvidas!“ confirmou com um sussurro sem motivo “Mas mesmo assim, isso não me faz lembrar de nada.”

A adolescente tinha pequenas sardas próximas ao nariz e o rosto era um pouco mais magro se comparado ao seu, mas ela havia notado uma semelhança ainda mais curiosa. Sabine sempre havia prendido o seu cabelo usando marias-chiquinhas, fora o primeiro penteado que Marinette tinha aprendido a fazer sozinha, tanto que agora era o seu automático quando não tinha nada especifico em mente. Porém, ela nunca tinha se perguntado se havia uma razão por trás daquilo tudo e a medida que sua mãe foi passando as fotos, ela foi entendendo. Bridgette com suas longas marias-chiquinhas que lhe caiam sobre os ombros, sempre sorrindo — tão perto e ainda sim, tão longe.

“Vocês parecem se gostar muito.” comentou Marinette.

“Bastante, na verdade. Eu adorava a Bridgette, ela era a melhor irmã mais velha que eu poderia ter tido. Apesar dela ter dado alguns problemas para os meus pais quando ela tinha sua idade.”

“Eu?! Como assim?!” exclamou, prontamente jogando fora qualquer forma de concentração que pudesse ter atingido.

“Como assim?” repetiu a outra garota, tentado conter o riso.

Sabine cochichou como se fosse soubesse que a própria pessoa de quem ela falava estava presente no mesmo lugar.

“Quando ela fez quinze anos, ela começou a sair escondida de casa durante a noite, dormia nas aulas...isso quando ela não faltava. Diziam que era culpa daqueles amigos que ela nunca apresentou pra gente, que todos eram delinquentes e seu avô jurava que de vez em quando ouvia a voz de um garoto no quarto dela de madrugada, mas ele nunca conseguiu encontrar nem a sombra de um por lá..”

Marinette percebeu como a fantasma estava completamente embasbacada, ela não tinha como se defender, então apenas encolheu os ombros enquanto tentava disfarçar o que poderia ser um rubor em seu rosto. Para seu alivio, Sabine parecia estar mais nostálgica pelas suas lembranças em vez de sofrer por elas, o que lhe permitiu brincar um pouco.

“Uau, que escândalo!” disse, sorrindo maliciosamente para uma Bridgette completamente sem jeito.

“Então, eles costumavam brigar muito nos últimos anos, até que...” a voz de Sabine falhou e qualquer humor que ela pudesse ter tido, se perdeu dentro dela.

As páginas batendo uma contra a outra enquanto sua mãe folheava em busca de algo no álbum era o único som que se fazia presente no ambiente e a antecipação só o ampliara, parecia estar ecoando por cada rua de Paris naquele exato momento. O silêncio entre elas era pesado e quase tangível, Marinette queria erguer a mão e estilhaçá-lo.

Porém, foi Sabine que quebrou quietude no quarto. Da ultima folha do álbum ela tinha tirado um recorte de jornal a foto de Bridgette acompanhava um artigo pequeno, não muito maior que a palma da sua mão, no topo havia uma palavra de destaque em negrito: “Desaparecida”. Sua mãe suspirou longamente antes de continuar.

“Um dia ela simplesmente sumiu. No primeiro dia, meus pais achavam que ela estava sendo rebelde mas a semana passou e ela não tinha voltado ainda.” Sabine começou a descascar o plástico na lateral do álbum “Ela nunca voltou.”

Marinette continuou segurando o artigo nas mãos, tendo cuidado para não machucar o papel já desgastado enquanto a fantasma parecia ler o conteúdo por cima do seu ombro.

“O...O que aconteceu?” ela estava receosa de saber.

“Ninguém sabe. Depois de um tempo, me disseram que naquela época havia mais casos de jovens desaparecendo em Paris mas nada era muito concreto, eu nem sei se realmente chegaram a investigar a fundo.”

Sabine respirou fundo e tocou o rosto de sua filha, no que esta observou Bridgette que estranhamente estava cobrindo o rosto com as mãos, como se para bloquear a luz ao seu redor e gemia baixinho — ela quase quis perguntar o que estava acontecendo, até lembrar que não podia fazer isso com a sua mãe ali. Então, ela apenas mordiscou os lábios de maneira nervosa. Algo não estava certo.

“Uma noite, eu resolvi passar a noite no quarto dela e era que nem o seu, no ultimo andar. A janela estava aberta e eu encontrei os brincos no parapeito” ela piscou lentamente, tentando conter as lágrimas mais uma vez “ Eu achei que isso era um sinal que ela ia voltar, então guardei os brincos para que eu pudesse devolver pra ela quando voltasse e ai, eu esperei...”

Por algum motivo, Marinette começou a sentir fisgadas doloridas na região das têmporas e a dor foi aumentando rapidamente, depois de alguns segundos parecia que alguém estava pressionando com força o seu crânio e a qualquer momento ele poderia rachar facilmente como aquela xícara de porcelana no chão da cozinha.

“Então, um policial veio nos avisar que eles iriam fechar a busca e que era bem possível que ela estivesse morta. Eles diziam isso, mas ninguém também nunca achou...” ela hesitou nervosamente antes de completar “...o corpo. Depois de um tempo, nossos pais quiseram vender as coisas delas...Queriam superar a perda de algum jeito.”

“Eu peguei essa roupa dela escondida, era a favorita dela, e eu guardei pra quando ela voltasse, e eu continuei esperando. Eu não conseguia acreditar que ela pudesse estar morta.”

A garota segurou a mão de sua mãe, tentando se focar naquele momento com tudo que tinha.Sabine abaixou a cabeça e quando voltou a falar parecia estar buscando por ar, como se todo aquele tempo estivesse segurando seu fôlego.

“Talvez porque no fundo, eu me culpava por tê-la deixado ir naquele dia…”

A fantasma estava quase em posição fetal. O corpo encolhido quase formando um circulo enquanto suas mãos estavam espalmadas ao redor de sua cabeça quase como se também estivesse compartilhando da mesma dor de Marinette. Ela não parecia estar escutando mais a conversa, estava completamente perdida no que quer que seja que estivesse acontecendo com ela, com as duas.

Bridgette, o que está acontecendo?” indagou em pensamento, como se a outra pudesse ouvir.

“Não, por favor, não…” a fantasma sussurrou e Marinette sentiu uma leve vertigem tomar conta de seu corpo.

O mundo pareceu derreter ao redor de Marinette e ela sentiu como se algo suavemente a puxasse para algum outro lugar. Era um sensação reconfortante, como se uma cálida brisa de verão a carregasse para longe da dor lancinante que atacava sua mente porém,do mesmo modo lhe afastou do toque de sua mãe e da existência da fantasma, a sua própria existência parecia escorrer pelo seus dedos como areia fina.

Alguma voz no fundo de sua consciência lhe alertava do perigo que era se distanciar daquela maneira, mas apesar de não saber bem o que estava acontecendo ou para onde estava indo, Marinette não conseguiu evitar de se deixar levar por completo.

Notas finais
Esse capítulo ficou tão grande que eu achei melhor dividir em dois, a segunda parte vem no fim de semana!! E para quem esta sentindo falta do Adrien, nada tema, ele logo logo vai aparecer ;)