Saudade
5 Cicatriz
Notas iniciais
Fazia algum tempo que a garota estava sentada no peitoril de sua janela, um pé no chão de seu quarto e o outro bambeando no ar perto do galho da árvore. Dois pulos de distância e depois uma breve corrida, ela já tinha feito isso antes. Então porque essa hesitação atípica, esse gosto amargo no fundo da garganta? Ela nunca se acovardava diante de qualquer desafio — mas uma pequena parte dela desejava que, pelo menos dessa vez, pudesse dar ouvidos ao seu pai e simplesmente não sair.
“Bridgette!”
Seu coração saltou quando ouviu o seu nome e ela virou na direção da porta para encontrar uma pequena criança iluminada apenas pela luz do luar que adentrava pela janela. Bridgette levantou com um salto e caminhou até ela, dosando a força de seus passos, tentando ser o mais silenciosa possivel.
“Sabine, o que eu disse sobre entrar no meu quarto a noite?!” ela fez o possível para vociferar seu susto em forma de sussurro.
“Pra não entrar depois que a luz estiver apagada…” respondeu a menina fazendo biquinho “Mas- Mas é que tinha esse pudim e ‘tá escrito o seu nome e eu queria saber se-”
Sabine parou de falar no momento em que ela sentiu a mão da irmã mais velha lhe afagar os cabelos. Bridgette respirou fundo, tentando se acalmar do susto — poderia ser pior, se seus pais estivessem na porta naquele momento, ela não sabia o que iria fazer. Ela tentou o seu melhor para sorrir divertida como sempre e sentiu como se aquela expressão não encaixava direito no seu rosto, mas tudo bem porque estava escuro e sua irmãzinha nunca iria perceber a sua falta de técnica para mentir.
“Você sabe que a mamãe não gosta que você coma doces a noite.”
“Você ia sair de novo?”
Aquela pergunta atravessou Bridgette como uma lâmina afiada. As vezes se esquecia de que Sabine não era mais assim tão pequena, ela tinha dez anos e já parecia ser o bastante para identificar o seu comportamento padrão — que tanto irritava seus pais. Seu coração começou a palpitar novamente quando tentou cogitar a extensão do que ela realmente sabia, naquele momento, só poderia rezar pra que não fosse nada muito além de seus pulos pela janela noite adentro.
A garota estava suando frio quando se agachou para ficar frente a frente com sua irmã menor e agarrou Sabine pelos ombros de maneira delicada para não assustá-la mas com força suficiente para passar seriedade ao propor:
“Vamos fazer o seguinte: Você pode ficar com meu pudim e eu não conto nada para o papai e a mamãe e você não vai dizer pra eles que eu sai, tudo bem?”
O queixo de sua irmãzinha caiu e seus lábios formavam um pequeno “o”.
“Mentir??” indagou escandalizada, sua voz subindo algumas oitavas.
Bridgette acenou para cima e para baixo com as mãos em um pedido mudo para que a menor mantivesse sua voz baixa e como resposta, ela arregalou os olhos e cobriu a própria boca.
“Não, não mentir!” e quase quis rir de si mesma por tentar justificar uma mentira com outra “ É um segredo, segredo de irmãs! Só meu e seu e ninguém mais pode saber.”
Sabine ainda parecia inflexível e a garota respirou fundo, ela seria o mais honesta que ela pudesse ser.
“Escuta Sabine, a sua irmã tem que fazer uma coisa muito importante agora. Não dá pra deixar pra depois, tem que ser agora! Eu tenho um amigo que pode se machucar muito se eu não for ajudar e eu não posso deixar que…” ela franziu o cenho e tentou escapar de seus maus presságios “ Eu preciso….Eu preciso ir, você me entende?”
A pequena não respondeu, em vez disso, lhe estendeu o dedo mindinho que Bridgette prontamente entrelaçou o com o seu enquanto suspirava aliviada.
“É o nosso segredo, então?”
“Se-gre-do!”
Sabine então pareceu ponderar sobre algo.
“Eu posso comer o pudim?” perguntou ela, claramente preocupada com a questão mais importante daquela conversa.
“Mana, você pode ficar comer a minha parte do pudim por uma semana!” a irmã mais velha deixou escapar um leve sorriso.
Seus passos contra o assoalho pareceram altos o suficiente para acordar a vizinhança inteira e Bridgette tentou manter a sua caminhada até a janela o mais leve possível, mas ela estava tão nervosa que suas pernas apenas conseguiam marchar. E dessa vez, pulou em direção a árvore antes que pudesse hesitar novamente, não podia se entregar para a ansiedade nem por um segundo a mais e foi quando ela aterrissou no chão que ouviu:
“Quando você vai voltar?” a voz era um sussurro pequeno porém urgente, somente a parte de cima da sua cabeça aparecia pela janela — ela deveria estar na ponta dos pés.
A voz de Bridgette entalou em sua garganta por um momento e quando saiu mais parecia um soluço.
“O mais rápido que eu puder.”
E com isso ela começou a correr noite a dentro, geralmente a garota entraria em um beco qualquer para evitar a ladeira íngreme até a próxima rua, mas conseguia sentir os olhos de Sabine queimando em suas costas e por isso, ela rodou nos calcanhares e acenou para a sua casa antes de virar a esquina, esperando que aquilo fosse o suficiente para que sua irmã voltasse para o seu quarto.
Estava quase sem fôlego e o lado direito de seu torso doía de uma forma irritante enquanto observava do alto da ladeira o modo como a sua rua parecia fluir como um córrego, levando embora sua casa e sua família para algum oceano distante, Sabine de pontas de pés na janela era quase um farol distante prestes a sumir na neblina. Bridgette tentou marcar aquela memória em sua mente feito ferro em brasa para se manter acima das águas turbulentas.
Ela não sabia o porque, mas por algum motivo, aquilo parecia um adeus.
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“Marinette!! Marinette, meu amor você esta bem?!”
Marinette recobrou a consciência com um susto, lembrava de ter se deixado levar por uma sensação de torpor e,apesar da dor em sua cabeça ter cessado, sua mente se encontrava completamente desorientada como se ela tivesse acabado de acordar de um sono muito profundo. Porém, qualquer estado que tivesse apresentado não durou muito pois ela se encontrava na mesma posição, no mesmo lugar e a única diferença era que sua mãe tateava desesperadamente o seu rosto, checando bochechas, pescoço e testa em busca de alguma razão para o acontecido.
“O...O que aconteceu?” indagou ela, a voz meio vacilante.
“Eu não sei, Mari. Você ficou branca de repente e começou a chorar...Você esta bem? A sua pressão baixou?”
Agora que ela havia dito, a garota percebeu que o seu rosto estava úmido e que lagrimas continuavam a descer pelo seu rosto sem que ela ao menos se desse conta. Marinette respirou fundo enquanto tentou enxugar toda aquela água salgada usando a manga de sua jaqueta, seu coração parecia pesado depois de tudo que tinha visto.
Ela tinha mesmo visto tudo aquilo?
Por alguns segundos, Marinette sentia que tinha ido ao cinema onde ela era espectadora e também personagem principal. Ela sentiu toda e cada batida de coração exasperada dentro do peito de Bridgette, o vento contra seu corpo ao pular da janela e a textura da madeira de um árvore que não existia mais sob seus dedos, mas principalmente sentiu aquela amarga melancolia ao dar as costas para a sua casa naquela noite solitária.
“Não mãe, tudo bem. Eu estou bem.” tentou tranquilizá-la.
“Me desculpa amor,” e beijou levemente a testa da filha “Eu fiquei aqui contando para você essas coisas e nem parei para perguntar como você se sentia com tudo isso, desculpe por te sobrecarregar.”
“Sabine, não. Eu que tinha que pedir desculpas, como é que eu pude esquecer de você?” a garota quase se assustou ao ouvir a voz de Bridgette se fazer presente, “Eu senti tanto a sua falta…”
E riu baixinho.
“Você parece tanto com a mamãe agora, que esquisito.”
Ela observou por cima dos ombros da mãe enquanto a fantasma se aproximava delas, estendendo o braço como se quisesse afagar os cabelos de Sabine, tal qual fizera na memoria recém adquirida. No entanto, sua mão apenas atravessou o local e naquele momento Marinette percebeu que alguma coisa tinha se quebrado dentro de Bridgette, ela continuou tentando tocar a irmã varias vezes como se em algum momento a ação pudesse lhe ser concebida, sem sucesso — ela parecia tão angustiada e perdida que Marinette não conseguiu conter as lágrimas que pareciam cair como cascatas de seus olhos azuis.
E de repente, se viu aninhada nos braços de sua mãe e a fantasma as encarou confusa, olhando delas para as suas mãos e vice-versa, desesperadamente tentando compreender o que era aquilo que lhe faltava.
“Você é tão gentil, Mari.” sua mãe disse só pra ela em um sussurro “ Até chora a tristeza dos outros.”
Marinette se sentia horrível, como se estivesse roubando o bem mais precioso de Bridgette bem diante de seus olhos e não soube o que fazer para remediar aquilo tudo. A sua única solução foi retornar o abraço, agarrar sua mãe bem forte — em uma tentativa de fazer aquilo valer como o reencontro que as irmãs nunca poderiam ter. E então, a garota foi tomada por uma estranha nostalgia, desejava poder pegar Sabine no colo, fazê-la caber em seus braços e ninar as suas tristezas.
Era estranho porque Marinette nunca viveu um momento como esse para sentir falta dele. Os olhos dela pousaram mais uma vez sobre a fantasma que esboçava um sorriso melancólico em seu rosto.
Ela poderia não saber o que era aquele sentimento mas Bridgette sabia.
“Sabe, eu não quero tratar a minha irmã como se ela fosse uma cicatriz que eu fico tentando esquecer que existe,” continuou Sabine desfazendo o abraço “ Eu quero lembrar dela como a memoria linda que ela é, então…”
Sabine se levantou e se dirigiu a caixa em forma de coração na escrivaninha de sua filha. Depois de brevemente ler o pequeno post-it, ela o amassou e jogou na pequena lixeira no pé da mesa.
“Eu quero que você com tudo, amor. Os brincos, as roupas — use bastante, se quiser. Elas merecem um pouco de ar e não ficar trancadas para sempre dentro de caixas.”
A menina agradeceu silenciosamente com um sorriso enquanto se levantava, o antigo álbum estava em suas mãos agora e como se sua mãe soubesse que ela e Bridgette fossem precisar em algum momento, completou:
“Fica com o álbum também, pode me devolver quando quiser.”
A garota abriu a boca para falar alguma coisa mas fora rudemente interrompida pelo ronco do seu próprio estômago que a lembrava de uma maneira que completamente destoava daquele momento emocional de ligação entre mãe e filha, que ainda não havia tomado café da manhã. Marinette riu nervosamente.
“Eu vou descer pra esquentar o café pra você, Mari.” a mãe respondeu enquanto a filha corava. “Tenho que correr, seu pai deve estar super ocupado lá embaixo”
Sabine se espreguiçou e começou a caminhar em direção a porta. A garota tirou o celular do bolso para verificar o horário e se viu atingida na cabeça como um personagem clássico de desenho animado e sua bigorna era a realidade de que não estava dentro da sala de aula naquele exato momento.
“Mãe…e-eu tinha prova hoje.”
Marinette sorriu sem jeito com o coração acelerado contra o peito só pela antecipação do que a sua mãe faria, uma das maiores regras da casa era nunca -NUNCA!— perder uma avaliação ao menos que ela estivesse tão doente a ponto de não conseguir levantar da cama — e mesmo assim, ela ainda tinha que provar que seu mal estar atingia esse nível. Ela esperava receber o olhar mais mortal e a pior bronca de toda a história, mas em vez disso, Sabine apenas suspirou, cruzando os braços como se a ponderar o acontecimento.
“Ok, eu vou escrever um bilhete dizendo que você estava doente.” e depois de ver o modo com o qual os olhos de sua filha cintilaram, completou, “Não se acostume, hoje foi uma exceção a regra.”
“É o nosso segredo, então.” confirmou ela no que sua mãe sorriu de leve.
“Se-gre-do.”
Bridgette observou a sua irmã mais nova começar a desaparecer pela porta e, de repente, soltou uma exclamação, se dirigindo a Marinette de maneira urgente.
“Por favor, diz pra ela que-”
“Mãe!” ela chamou e apenas a cabeça de sua mãe era visível na entrada de seu quarto “ O que aconteceu não foi sua culpa, por favor, não acredite nisso.”
Marinette ficou contente em ver que o sorriso de sua mãe não parecia mais como se ela estivesse sendo esfaqueada no coração por milhares de cacos de vidro. Ainda era um pouco triste, ainda havia muita coisa para se arranjar dentro dela -mas ainda sim, melhor. E a medida que elas escuram os passos se distanciando da escada, ficaram confortáveis para conversar sobre o acontecido.
Bridgette foi a primeira a quebrar o silêncio e pareceu explodir da maneira esbaforida.
“Eu preciso de dizer o que eu lembrei-!”
“Eu sei.” confessou ela.
“Sabe??Como você sabe?” a fantasma franziu o cenho, confusa.
“Em uma escala de 1 á 10, o quão seria estranho se eu te dissesse que eu lembrei junto com você?”
“Um sendo ‘não me importo’ e dez sendo ‘praticar um exorcismo’?” a outra assentiu.
A fantasma ponderou.
“Vinte e cinco.”
“Bem foi o que aconteceu. Eu comecei a sentir essa dor de cabeça estranha na mesma hora em que você começou a se contorcer no ar e eu apaguei…” falou enquanto erguia uma das sobrancelhas se dando conta do quão estranho aquilo tudo soava “ Dai eu lembrei, como se eu fosse você.”
Horas atrás, Marinette também não acreditaria em suas próprias palavras mas era inegável aquilo que vira. Bridgette tremeu como se tivesse sentindo o mais forte dos calafrios — a outra garota achou aquilo um tanto quanto engraçado, se tranando de uma fantasma.
“Irc — então, a gente esta tipo...conectada?”
“Muito provavelmente, eu acho.”
A garota transparente levou a mão ao queixo e ponderou.
“Quando você chorou aquilo tudo...Você acha que um pouco daquilo, poderia ter sido meu também?” indagou em uma voz pequena.
“Você queria ter chorado?”
“Desesperadamente.” confirmou, sem jeito.
Marinette sorriu timidamente enquanto folheava o álbum em sua mãos.
“Talvez metade daquilo tudo? Eu nunca chorei tanto na minha vida e pior que na maior parte do tempo, eu nem percebi.”
“Obrigada, de verdade.” ela sorriu.
Naquele momento, Bridgette soou mais genuína que nunca. Porém, antes que pudesse lhe responder a outra garota sentiu algo pousando suavemente em seus pés e ela prontamente se abaixou para pegar no que a fantasma curiosamente se aproximou.
Era uma polaroid que deveria estar solta dentre as páginas do álbum, a foto estava meio fora de foco e as pessoas nela apenas meio enquadradas. A primeira, uma garota loira de tranças, tinha o seu braço ao redor dos ombros da outra, porém só aparecia na foto do nariz para baixo, possuía um sinal de beleza na bochecha esquerda e seus lábios rosados construíam um largo sorriso. O topo da cabeça de Bridgette aparecia mais que o resto dela, o modo com o qual seus olhos azuis se moldavam lhe passou a impressão que ela estava sorrindo também.
“Bridgette e Allegra, primavera 1985.” ela leu a frase escrita com tinta cor-de-rosa na parte inferior da foto, “Você se lembra disso?”
A fantasma espremeu os olhos, tentando fazer algum sentido daqueles dois borrões que se assemelhavam a pessoas. Marinette pensou o quanto tirar fotos de si próprio deveria ser difícil sem o visor digital do celular.
“Não...Mas alguma coisa com certeza vai aparecer se eu me concentrar bastante!”
“Calma lá ou você vai acabar fritando o meu cérebro!” era pra ser uma piada, mas podia ser uma possibilidade. “Você acha que ela é uma das suas amigas delinquentes?”
“EU NÃO SOU DELINQUENTE!! E NEM ELA...TALVEZ, EU ACHO!”
“Eu estava brincando, só brincando!”
Marinette riu de leve enquanto guardava a polaroid em seu sketchbook e teve que admitir que tinha se afeiçoado a fantasma. Ela colocou o álbum em sua escrivaninha antes de se dirigir ao seu guarda-roupa para preparar uma muda de roupa, depois do café da manhã merecia ter um longo banho relaxante.
“Mas de qualquer jeito, essa é uma história que eu quero muito ouvir!”
No que a garota puxou a maçaneta, uma avalanche de posters e fotos caiu entre elas. A fantasma as observou e notou o padrão em todos os pedaços de papel — o mesmo garoto de cabelos dourados e olhos verde-esmeralda, seu nome escrito em letras garrafais nas capas de revista de moda. Marinette sentiu as bochechas pegando fogo no que a outra lhe lançou um sorriso malicioso.
“Adrien, é? ‘Tá ai uma história que eu quero ouvir.”
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