Sangue quente.

43 A batalha dos irmãos — Parte II


Notas iniciais
Desculpa qualquer errinho, por favor, me avisem caso encontre algum. Espero que gostem do capítulo e do desenho, eu o fiz inspirada em uma arte que achei na internet. Boa leitura!

Sebastian...

Shadowy nos olhava sem entender, era possível perceber que ele estava impressionado com a nossa repentina separação, talvez na cabeça dele nós fossemos capaz de nos multiplicar ou coisa do tipo. Mas o mais assustador era que Shadowy parecia mais do que feliz conosco, seu olhar de cobiça aumentava cada vez mais, enquanto ele olhava de um para o outro.

—“Então? Qual é o plano Sophia?” Perguntei mentalmente para ela. Eu estava sentindo um misto de medo, cansaço e euforia. Cada célula do meu recém-criado corpo gritava desesperadamente por um descanso, mas ao mesmo tempo uma emoção estranha me invadia, acho que era porque finalmente eu ia lutar lado a lado da minha principal inimiga/parceira.

—“Você acha que ainda tem forças para conseguir adaptar o seu veneno?” Sophia me perguntou mentalmente, acho que era melhor mantermos essa conversa em nossas mentes mesmo, afinal por mais que isso causasse um desgaste mental maior, isso era melhor do que gritar os nossos planos para inimigo.

—“O meu veneno?” O que ela pretende? Eu já mordi e tentei injetar meu veneno nele, mas o organismo dele conseguiu quebrar os efeitos em um instante.

Agora Shadowy nos analisava com cuidado, eu sentia os pelinhos do meu corpo arrepiarem, eu sabia que agora a coisa ia ficar séria, então me concentrei no plano da Sophia.

—“Maninho presta atenção... Eu quero que você refine algum tipo de veneno degenerativo ou necrosante potente que impeça as células dele de se regenerar.” Sophia falou isso sem tirar os olhos de Shadowy, pois ele parecia estar preparando um ataque agora.

—“Eu já tentei envenena-lo e não deu muito certo.” Rebati pra ela, eu cansei de tentar envenenar Uriel e Shadowy na nossa primeira batalha, mas eles nem sentiram cosquinhas com a minha toxina.

—“Me escuta... eu também vou refinar um tipo de veneno potente e ataca-lo e...” Ela me ignorou e seguiu tentando me explicar o plano, mas eu já tinha entendido onde ela queria chegar.

—“Você acha que dois venenos diferentes vão causar algum tipo de confusão no sistema imunológico dele?” Questionei a ela tentando manter a calma enquanto o inimigo nos estudava.

—“Não, pelo menos não por completo... Eu sei que um veneno não vai para-lo, o que eu realmente quero é que essa confusão nos poderes regenerativos dele crie uma brecha para que os nossos ataques tenham algum efeito.” Agora o plano da Sophia estava começando a fazer sentido, no entanto ainda tinha um furo nele.

—“Entendi... mas logo o corpo dele vai se adaptar ao veneno e ele perderá o efeito, ou seja, não teremos uma brecha por muito tempo.” Rebati isso pra ela.

—“Por isso que nós não vamos parar de mudar o veneno nem por um minuto.” Ela me lançou um olhar decidido ao dizer isso.

—“Boa ideia!... Quanto mais tipos diferentes de veneno estiverem no organismo dele...” Comecei a sentir um fiozinho de esperança.

—“...Mais tempo o organismo dele vai precisar para encontrar um antídoto e assim ele vai levar mais tempo para se curar dos nossos ataques físicos.” Sophia terminou a minha frase com um sorriso determinado.

—“Mas isso não será nada fácil...” Quase choraminguei ao me lembrar do terrível trabalho que teríamos pela frente, nossos corpos poderiam não aguentar tanta mudança.

—“Eu sei... vai nos causar tanto dano quanto a ele... mas...” Sophia também sabia dos riscos, mas eu podia ver que ela estava determinada em seguir com o plano mesmo assim.

—“Essa é a nossa melhor estratégia no momento.” Falei isso mais pra mim mesmo do que pra ela, eu estava tentando me convencer disso também.

De repente eu senti os meus nervos gritarem em alerta, só aí percebi que Shadowy estava me encarando, seus olhos vermelhos de desejo na minha direção não mentiam, eu seria o seu primeiro alvo.

—“Então lembre-se maninho, faça algo bem forte... quanto mais tempo ele ficar tentando quebrar as enzimas do veneno, mais danos poderemos causar nele.” Sophia reforçou isso na minha mente antes de tomar uma pose de combate.

—“Desse jeito, com um pouco de sorte... a gente descobre o ponto fraco dele.” Novamente eu estava dizendo isso mais para me convencer, pois na verdade eu já estava a ponto de me render.

—“Exatamente!” Sophia sorriu ao olhar para Shadowy.

—“É realmente divertido trabalhar com você.” Um sentimento estranho apertava o meu peito, eu ainda não sei o que sinto pela Sophia, mas com certeza é algo que me causa dor.

—“Com você também...” Havia um certo tom de tristeza e dor na voz dela, então talvez o meu sentimento por ela seja reciproco.

—“Então tá... vamos nessa! Mas fica esperta maninha, pois se ele perceber o nosso plano... ele vai ficar bem agressivo.” Encarei Shadowy ao dizer isso, os olhos dele seguiam em mim, com certeza ele sabia que eu estava mais exausto e fraco do que a Sophia, eu era a presa perfeita agora.

—“Eu sei... eu vou te dar cobertura primeiro e depois disso invertemos... Ok?” Ela me olhou de relance.

—“Combinado.” Era agora... essa era a hora da verdade.

Fui pra cima de Shadowy sem me importar, ele sorriu contente, acho que fazia parte do plano dele eu ir pra cima primeiro.

Shadowy mirou um soco em mim, ele ia me acertar em cheio, mas não desviei, segui indo pra cima.

Faltavam milímetros para o punho dele afundar as minhas costelas no meu peito, esse golpe ia me deixar fora de ação, eu perderia a consciência novamente, no entanto foi aí que Sophia tacou um pedaço de entulho no punho de Shadowy, isso fez o braço dele perder potência, assim eu pude passar sem ser atingido e atacar o pescoço dele.

Minhas presas cravaram fundo nele e injetei o máximo que consegui antes dele reagir novamente, quando ele tentou me pegar, usei minhas pernas contra o peito dele e impulsionei para trás, dando um salto de costas e pousando com dificuldade ao lado da Sophia.

A pele no lugar onde eu mordi começou a ficar negra como se necrosasse. Então eu e Sophia invertemos. Eu a protegi do ataque e ela o mordeu.

Imediatamente comecei a mudar o meu veneno, isso causava certo desconforto nas minhas presas e um esgotamento físico intenso, mas eu não podia falhar nessa missão.

Voltamos a atacar Shadowy invertendo sempre as posições e protegendo um ao outro. E pela primeira vez Shadowy pareceu incomodado com algo. Agora foi a vez da Sophia morde-lo e eu de cobrir a guarda dela.

Quando percebi que Shadowy estava arfante, como se estivesse se concentrando ao máximo em algo, eu dei o primeiro golpe. Usando um pedaço de vergalhão retorcido que achei nos escombros, eu o atingi bem no estômago.

O grito de dor dele foi de arrepiar os cabelos, Shadowy parecia angustiado com o ferro em seu abdômen.

—“Como eu desconfiava... ele nunca sentiu dor antes.” Me entusiasmei ao ver Shadowy gritar mais alto ao retirar o vergalhão da barriga e o sangue jorrar.

—“E isso vai ser a ruína dele.” Sophia também parecia entusiasmada agora.

—“Não entendi...” A olhei completamente perdido, o que seria a ruína de Shadowy?

—“Por ele nunca ter sentido dor ou medo antes, ele nunca precisou evoluir, ele sempre foi invulnerável e onipotente, nunca existiu algo que pudesse ir contra ele, ou seja, ele está defasado.” Sophia também tacou um pedaço de madeira em Shadowy, os gritos de dor e raiva dele eram estridentes agora.

—“Oh... é claro! O fato dele se achar um Deus e se sentir acima de tudo e todos só porque ele é o criador, o fez se tornar muito confiante consigo mesmo.” Shadowy se achava um Deus perfeito, ele com certeza nunca evolui ou mudou a sua natureza imaculada como eu e a Sophia, ele era realmente antiquado.

—“Acabamos de conseguir a nossa brecha maninho.” Sophia estava radiante agora.

—“Temos que ser rápidos agora, pois se ele perceber o seu erro e evoluir...” Senti um arrepio só de pensar nisso.

—“Acabou... não teremos mais nenhuma chance.” Sophia concordou comigo.

—“É tudo ou nada.” Um medo e uma euforia indescritível esmagavam o meu peito... droga, odeio sentir emoções, isso só atrapalha.

—“Vamos pra cima com tudo, sem ligar para as consequências.” Agora Sophia se armava com tudo quanto era objeto afiado.

—“Sim...” Fiz o mesmo que ela, agora nós precisávamos achar o ponto vital de Shadowy e tinha que ser rápido.

—“Hey... se acontecer alguma coisa comigo, eu só quero que você saiba...” Sophia começou a falar essas asneiras, mas eu a interrompi.

—“Não! Não me venha com esse papo agora.” Quase rosnei pra ela, pensar em perdê-la nessa batalha causava uma dor estranha no meu peito... odeio o fato dos meus sentimentos por ela me causar dor, isso só pode significar que ela é importante pra mim... Droga!

—“Tem razão, vamos nessa.” Sophia deixou de lado esse papo idiota e se preparou para atacar.

Mas foi aí que percebi que meu corpo tinha chegado ao limite. Eu não conseguia mais me mexer direito, todos os meus músculos tremiam e exigiam um esforço descomunal para movê-los. Eu não ia conseguir acompanhar a Sophia, eu só ia atrasa-la agora, mas se eu não fosse com ela... Ela poderia... perder.

—“Sophia... você confia em mim?” Perguntei sério.

—“O quê?” Ela me olhou sem entender.

—“Confia ou não?” Questionei irritado, estávamos perdendo tempo aqui.

—“Sim! Confio... você é carne da minha carne.” Ela respondeu firmemente e cheia de certezas.

—“Ótimo... então foca apenas na ofensiva, deixa a defensiva comigo.” A instrui bolando um plano.

—“Tá bem...” Ela realmente confiou em mim e atacou Shadowy sem nem ligar para a clara guarda baixa que ela abriu durante o golpe, ela pulou contra ele mirando a barriga dele.

Shadowy foi esperto e percebeu o ponto desprotegido da Sophia, ele ia acerta-la em cheio bem na coluna no momento em que ela estaria apunhalando o estômago dele com a estaca.

Vi o puno dele descer com fúria contra as costas desprotegidas dela, ela ia ser atingida em pleno ar, o golpe com certeza quebraria a coluna dela e a deixaria impotente no chão sobre os pés de Shadowy.

Meu corpo não mexia mais, mas eu não ia deixar Sophia receber o golpe é claro.

Me foquei em criar um escudo nas costas dela. Esse escudo era quase igual a bolha que criei em volta dos nossos pais e do Leo... a única diferença era que o escudo não envolvia a Sophia completamente e ficava em movimento junto com ela.

Shadowy acabou socando o escudo e sua mão dissolveu ao tocar a proteção, foi nesse momento que Sophia atravessou o estômago dele com a estaca.

O berro de dor de Shadowy foi aterrorizante.

—“Sophia, não pare de atacar nem por um segundo, logo o efeito dos venenos vão passar, é agora ou nunca, eu vou te proteger com o escudo, então não esquenta.” A instruir me concentrando ao máximo no escudo e nos movimentos dela, se eu me desconcentrasse e errasse agora, ela poderia acabar tocando acidentalmente o escudo e se ferindo também.

—“Ótimo!” Ela se encheu de confiança em seus ataques, tendo o meu escudo para protegê-la.

Sophia atacou Shadowy com tudo de si, agora em suas mãos havia um pedaço de metal que lembrava uma faca, ela a segurou firmemente e começou a testar todos os pontos vitais do corpo de Shadowy, o esfaqueando diversas vezes.

Shadowy por sua vez tentava acertar Sophia, mas eu movia o escudo para o local onde ele mirava o golpe, desse jeito ele não conseguia encostar um único dedo nela e ainda se feria com a minha proteção, mas infelizmente isso estava cobrando um preço alto demais para mim também. Eu já podia sentir o sangue escorrer pelo meu nariz, meu cérebro latejava como se fosse explodi, se eu continuasse com isso por mais alguns minutos, provavelmente entraria em coma.

Para a minha satisfação, a expressão de Shadowy aos poucos foi mudando de raiva e dor para medo, eu podia ver isso e me deleitava com isso, ele tentou recuar e fugir, mas Sophia não deu descanso e eu não descuidei da guarda baixa dela.

—“Droga... eu já testei tudo... o coração não é um ponto vital dele.” Sophia choramingou pra mim, mas era eu quem queria chorar de dor agora, minha visão estava começando a ficar turva. Tentei manter a calma e pensar em algo.

—“A anatomia dele deve ser diferente da anatomia humana e vampírica... tente procurar coisas diferentes que existem no corpo dele.” Dei uma dica, mas eu já estava perdendo as esperanças de novo, talvez Shadowy fosse mesmo imortal.

—“Mas... ele tem muitos órgãos extras... e eu já estou perdendo as forças.” Sophia estava entrando em desespero, assim como eu.

—“Merda...” Comecei a pensar em desisti de vez e deixar esse cara me transformar em cobaia, eu já nem ligava mais, eu só queria dormir e descansar a minha cabeça dolorida.

Olhei para Shadowy com desânimo, eu sabia que agora ele estava irritado conosco, ele ia ser monstruoso e doentio nos testes que faria em nós, ele não ia ligar para os gritos de dor, ele ia se vingar do que fizemos hoje. Fitei Shadowy desejando que ele desaparecesse e foi aí que vi... Eu percebi que ele estava reagindo apenas quando Sophia atacava uma região.

—“Espera! Você viu isso?” Meu coração acelerou, por favor... que eu não tenha me enganado.

—“O quê?” Sophia me perguntou já exausta.

—“Ele está protegendo um ponto específico... Ao lado do umbigo do lado direito... Vê?” Indiquei pra ela.

—“Ah... já vi...” Ela também notou que Shadowy parecia dar mais atenção a esse local quando ela o esfaqueava.

Acertar aquele ponto se tornou o foco da Sophia, mas Shadowy agora estava focado na defensiva e não no ataque, então estava cada vez mais difícil pra Sophia esfaquear o local certo e eu podia ver que os músculos dela estavam tremendo, assim como os meus.

Vamos lá corpo... mexa-se... mexa-se... só mais um pouco... vamos.

Como um milagre minhas pernas se moveram, com muito esforço e morrendo de dor, eu corri para as costas de Shadowy e peguei a primeira coisa mais afiada que encontrei.

Sei que foi golpe baixo, mas eu o esfaqueei pelas costas.

Acertei em cheio o órgão pequeno que mais parecia um apêndice, o órgão sofreu um dano extenso, mas deixa-lo dentro do corpo de Shadowy não era uma opção, pois ele poderia regenera-lo, então torci o metal na carne de Shadowy e estripei o pequeno órgão pra fora do corpo dele.

Shadowy estava imóvel agora, claramente em choque, ele ainda tentou se virar para me olhar, mas despencou de barriga pra cima no chão entre Sophia e eu.

O sague jorrou de sua boca e vazou pelos seus ferimentos. Ele estava morrendo lentamente enquanto seu corpo inutilmente lutava para impedir o processo.

Sophia e eu nos aproximamos dele, ficando um de cada lado para assistir o fim daquela criatura... O fim do nosso criador em outras palavras.

—“Então... a cria superou o... criador? Ahahahah...” Shadowy gargalhou ao nos olhar, estranhamente não havia ódio em seu olhar, só orgulho.

—“Tá rindo do quê?” Rosnei pra ele, eu não gostava nada desse riso dele.

—“Vocês ainda terão que enfrentar o Uriel... e ele sempre foi o mais esperto... com ele vocês terão problemas para armar uma arapuca dessas...” Shadowy gargalhou feito louco ao dizer isso.

Sophia e eu nos entreolhamos, ela parecia preocupada, mas não deixou isso transparecer.

—“Uriel sempre foi um sádico de primeira... ele vai se divertir com vocês... Ahahaha vocês vão saber o que é dor de verdade.” Shadowy seguia falando asneiras, acho que ele só queria nos assustar... eu espero.

—“Cala a boca e morre de uma vez, eu não tenho medo da sua namoradinha do cabelo dourado.” Resmunguei pra ele, mas não podia negar que eu havia percebido durante a minha luta contra Uriel que Shadowy tinha razão, Uriel era mais inteligente e talvez... até mais poderoso e sádico que Shadowy.

—“Quer saber o que é mais engraçado?” Shadowy estampou um sorriso satisfeito ao nos fitar.

—“Sophia, não dê ouvidos a ele... Ele está só querendo nos desestabilizar.” Eu queria que ele morresse logo e parasse de falar.

—“O que é engraçado?” Sophia perguntou curiosa, ela caiu na armadilha dele... droga!

—“O mais engraçado é que... Mesmo que vocês me derrotem e ao Uriel também... esse mundo nunca ficará livre de seres como nós...” Shadowy parecia mais do que satisfeito com isso, suas palavras derramavam jubilo.

Olhei para Sophia, ela parecia tensa com essas palavras de Shadowy.

—“Vocês dois tomarão o nosso lugar... é questão de tempo até que um de vocês fique entediado com esse mundo e resolva fazer algo para se entreter.” Os olhos dele vieram na minha direção ao dizer isso, como se me acusasse.

Um frio passou pela minha espinha, ele estava realmente falando de mim, eu sou o cara que vai ficar entediado e vai resolver ferrar com o mundo, afinal de contas, eu já fiz isso. Eu já me deixei levar pelo tédio e pelo desejo de me divertir, eu já matei por prazer.

Por mais que eu esteja em um momento de relativa paz... eu não posso garantir que amanhã eu não vou pirar de novo. Nesse momento temos um inimigo poderoso para manter minha mente e o meu corpo distraído e também tenho o pacto com Leonard, mas e quando isso acabar? Eu vou usar Sophia como principal inimiga de novo?

A resposta é clara, sim, eu vou transformar Sophia na minha inimiga, mesmo agora eu já estou louco para enfrenta-la de igual para igual, ela é para mim como um degrau que eu tenho que superar.

Olhei para a Sophia sentido a culpa me corromper, agora eu podia sentir e entender certos sentimentos, pois Sophia dividiu nosso corpo de forma igual dessa vez, mas mesmo isso não será capaz de me parar no futuro.

Sophia me fitou firmemente, seus olhos cavaram fundo nos meus, senti como se ela estivesse lendo a minha alma. E agora ela sabia que Shadowy estava certo, eu iria substituir esses monstros no futuro. Mas o estranho é que ela não me olhou com ódio ou com tristeza pela clara traição que lhe aguardava, ela me sorriu, como se me aceitasse com eu sou.

—“Você pode estar certo, mas nós não seremos como você, Vovô...” Sophia falou com um sorriso contente nos lábios ao se virar e encarar Shadowy.

—“O quê?” Shadowy a fitou com atenção sem entender e eu espelhei essa expressão dele, eu também não entendi.

—“Nós nunca seguiremos esse caminho, pois diferente de você, Vovô... eu e meu irmão temos algo que você não tem.” O sorriso dela se ampliou.

—“O quê? Amor? Carinho... família? Pfff... besteiras!... Uriel era o meu amor, minha família e mesmo isso não foi capaz de me satisfazer eternamente, o tédio me consumiu em uns milhares de anos e então chegamos a esse ponto... Isso também vai acontecer com vocês um dia.” Shadowy rosnou essas palavras para Sophia, parecia importante para ele provar isso.

—“...” Fiquei em silêncio e encarei Shadowy, eu me vi no lugar dele, eu com certeza faria o mesmo que ele fez... eu concordo com ele... eu sou uma copia dele, então como a Sophia pode garantir que seremos diferentes?

—“Se você pensa que o amor que você sente por sua família será o suficiente para te manter na linha... bem, um dia isso acaba... um dia tudo acaba... seus pais não viverão para sempre, a morte é certa até para aqueles que têm uma longa vida.” Shadowy seguiu falando, ele realmente estava louco para provar o seu ponto, mesmo a morte não podia cala-lo agora.

—“Exato!... A morte é certa para todos e um dia ela nos abraçará e nos acolherá em seu seio também.” Sophia rebateu isso com orgulho.

—“Tem razão... mas até que vocês encontrem algo que possa matar vocês, talvez milênios se passem, assim como foi comigo.” Shadowy sorriu satisfeito.

—“Não... É aí que você se engana... é nisso que somos diferentes de você, Vovô.” Sophia me olhou com uma expressão contente.

—“No quê? Me diz no que nós somos diferentes?” Shadowy questionou irritado.

—“Uma parte nossa é humana...” Sophia respondeu sem mais.

—“...” Tanto eu quanto Shadowy a encaramos percebendo onde ela estava querendo chegar.

—“Um dia esse nosso lado humano cobrará o preço de uma longa vida...” O Sorriso da Sophia cresceu quando ela disse isso. E eu suspirei consternado, pois o que ela disse era verdade, mesmo agora eu já sentia o preço de ser meio humano, meu corpo estava entrando em choque e provavelmente logo eu cairia em sono profundo.

—“Um dia morreremos como todo ser humano morre... Pode até ser daqui a cem anos, mil anos, não importa, a morte é certa. Então não teremos muito tempo para nos entediar, nós vamos ter que aprender a ver a beleza da vida, cada segundo será precioso e único, cada pessoa que cruzar o nosso caminho será um mundo novo a parte.” O tom de voz da Sophia era contente, mas eu sentia medo desse parte.

—“O fato de sabermos e termos a certeza de que um dia morreremos... nos tornará diferente de você... pois você viveu acreditando na vida eterna, na onipotência, onisciência e onipresença, você fez tudo o que fez querendo provar a sua superioridade e nós não temos isso, afinal somos imperfeitos, incompletos e efêmeros.” O orgulho na voz da Sophia era palpável.

—“E por mais que possamos evoluir, nunca podermos mudar da onde viemos, a humanidade ainda vive em nós.” Sophia colocou a mão sobre o coração ao falar isso e eu bufei ao perceber que ela tinha razão. Eu até poderia tentar fugir disso, mas não adiantaria, eu carregaria para sempre esse estigma de descende da raça humana.

—“Merda... então... eu não deixarei nem mesmo um legado? Isso não pode estar acontecendo merda... merda... MERDA...AAAH.” Finalmente vi medo de verdade na expressão de Shadowy, mais do que isso, eu vi ódio, desespero e muitos outros sentimentos ao perceber que tudo que ele fez acabara de ruir.

—“...” Sophia observou calada Shadowy espernear e se debater no chão em um acesso de raiva e desespero antes de seu fim.

Finalmente ele se foi, seu corpo agora era uma concha vazia e quebrada diante de nossos pés.

—“Conseguimos?” Encarei Sophia contente.

—“Parece que sim...” Ela sorriu de volta pra mim.

—“Posso descansar agora?” Perguntei a ela sentindo o meu corpo clamar por uma semana de cama.

—“Maninho...” Ela riu de mim, mas logo ela também demonstrou o quão exausta e quebrada emocionalmente estava.

Antes que nos déssemos conta, já estávamos chorando feito dois bebês, o que realmente somos, então não nos juguem. Mas tudo que eu queria nesse momento era descansar, dormir e me curar.

Sophia correu pra me abraçar e pela primeira vez na vida me senti bem, estar nos braços dela me passava calma e tranquilidade, eu me sentia protegido e finalmente em casa.

De repente um braço adulto nos envolveu, me assustei a princípio, mas então percebi que era Seph. Ele estava tentando nos abraçar da melhor maneira possível com um braço apenas e com Leonard em seu colo ainda por cima. Eu me sentiria incomodado com esse abraço grupal, mas no momento eu não estava ligando pra isso.

—“Papai!” Sophia abraçou o pescoço de Seph com vontade.

—“Ah, Sophia... é você mesmo?” Seph por sua vez chorava feito um idiota enquanto nos apertava mais em seu abraço, isso já estava ficando sufocante, mas eu não podia fugir disso, pois meu corpo estava fraco.

—“Mandou bem... pirralho.” Leonard falou fraquinho ao alisar os meus cabelos. Ele estava péssimo e provavelmente precisava de tanto descaço quanto eu, mas ele ia sobreviver e eu não podia negar que isso me dava certo alívio.

Afastei a mão dele da minha cabeça e fiz uma careta pra ele, não gosto de perceber que também sinto algo por ele... isso me irrita.

—“Não venha me bajular agora... eu sei que ainda temos nossas diferenças.” Mostrei a língua pra ele.

—“He he he... um dia eu ainda pego essa sua língua.” Ele bufou para minha expressão mau encarada... Droga, eu acho que o odeio, mas não ao ponto de querer matá-lo, é mais como se fosse um desejo de maltrata-lo mesmo... não sei dizer que sentimento é esse, pois essa parada de emoção ainda é novidade pra mim.

Não posso negar que me senti... feliz e quentinho estando cercado por esses três, o sono vinha me pegar e eu não pretendia lutar contra ele, eu queria me entregar, mas lá no fundo eu sentia que esse abraço não estava completo, faltava alguém... Alguém que eu vou buscar... aguarde... eu prometo que vou...

...

Ian...

Que dor... alguém, por favor, me ajuda... Seph... eu quero o Seph, eu não quero ficar aqui sozinho... eu preciso dele, por favor... eu estou com medo.

Eu não consigo parar de chorar e não é só pela dor... é pelo imenso e esmagador medo que está me agoniando. Estou com medo de Uriel, estou com medo de perder os bebês, medo de nunca mais ver o Seph ou os meus filhos.

Porque eles não podem me deixar viver em paz? Que mal eu fiz a eles para merecer esse momento de horror e angustia?

Eu estava perdido na minha lamuria, quando de repente ouvi a porta do quarto ranger ao ser aberta.

A figura imponente de Uriel entrou no quarto, arrastando atrás de si seus cabelos e vestes. O ar ficou mais pesado, me senti encurralado no quarto pelo predador mais ardiloso e cruel da face da terra.

Seus olhos assustadores me fitaram e um sorriso se espalhou em seu rosto, ao passo que o pânico tomou conta do meu corpo.

Eu queria correr, mas tudo que conseguia fazer nesse estado lastimável em que me encontrava era rastejar sobre os lençóis, recuando tão lentamente que era aflitivo.

Uriel farejou o ar com gosto, parecia um monstro sanguinário desfrutando do sabor de sua vítima pelo olfato.

—“AAAAAH...” Não sei por que eu gritei, acho que era porque eu estava em pânico e não tinha muito mais o que fazer além de gritar de medo. Meu corpo tremia violentamente e isso só fazia a dor no meu ventre piorar, as lágrimas já me cegavam e o desespero brincava com a minha mente ao ponto de me fazer desejar a morte. Mas eu não podia morrer, não quando a vida de outros dependia da minha.

—“Ah, que cheiro maravilhoso! Sangue, lágrimas, suor, medo e dor... só falta o cheiro de sêmen para ficar completo.” Uriel riu maldosamente enquanto trancava a porta a suas costas.

Ele então se virou e veio na minha direção com passos lentos, acho que ele queria prolongar o meu terror e vê-lo se aproximando cada vez mais fazia meu coração galopar dolorosamente.

—Não, por favor... não...” Larguei meu orgulho de lado e implorei como um pobre coitado. Eu sempre mantive meu orgulho, mesmo quando Seph me torturou, eu nunca deixei que ninguém me visse nesse estado, mas agora era diferente, Uriel era mil vezes pior que o Seph e se eu tinha que rastejar na merda e me humilhar para não sofrer a ira dele... assim eu faria.

Uriel sentou-se na cama ao meu lado, o medo foi tanto que acabei vomitando e me urinando. Não poder correr dele era a pior parte, eu estava tão vulnerável sobre aquela cama, sem forças e sem proteção.

—“Olha a bagunça que você está fazendo...” Ele olhou para os fluidos que escaparam do meu corpo sobre os lençóis, sangue era o predominante no momento.

Ele estapeou meu rosto, não foi forte o suficiente para me machucar, mas o ato foi cruel o suficiente para me chocar e fazer desmanchar em lágrimas.

A dor no ventre me apunhalou mais forte, eu queria gritar de dor agora.

—“P-por favor... me ajuda...” A dor era tamanha que cheguei ao cúmulo de pedir ajuda ao monstro na minha frente, ele estava me assistindo agonizar sobre a cama com um sorriso cruel no lábios.

—“Te ajudar? Pensa que eu me esqueci de que ainda te devo um castigo por não ter me obedecido? Pois considere isso seu castigo meu querido.” Ele sorriu mais desumanamente e acariciou os meus cabelos ao ver-me estremecer de dor.

-“M-mas... mas... eu pensei que você quisesse esses bebês...” Olhei para ele em desespero, ele tinha dito que queria meus filhos como futuros procriadores da nova raça... então porque ele está deixando eu perde-los assim?

—“Ah, mas eu os quero sim... No entanto você está gerando um bebê muito fraco que depende dos irmãos para sobreviver, ele está atrapalhando o desenvolvimento dos outros dois, então...” Uriel passou a mão sobre o meu ventre, eu queria afastar a mão dele, mas não tinha forçar.

—“É melhor estripar de dentro de você esse peso morto de uma vez. Eu quero que os outros dois nasçam poderosos e desse jeito eles estão apenas se enfraquecendo à toa.” Uriel apertou seus dedos sobre a minha barriga, a dor foi tamanha que gritei ao ponto da minha garganta ficar rouca.

Uriel gargalhou ao ouvir o meu grito, minha dor o divertia.

—“Por favor... eu faço qualquer coisa... por favor, eu te imploro... me ajude...” Solucei pedido por ajuda, ele não podia me deixar nesse estado, eu poderia perder todos os três bebês desse jeito.

—“Ora, ora... ora... já tentando negociar comigo? Muito espeto! O que eu ganho se deixar o fedelho fraco viver?” Uriel ergueu uma sobrancelha ao indagar isso.

—“O que quiser... por favor... faça isso parar...” Eu não estava ligado para mais nada, eu só queria que a dor sumisse e que meus bebês sobrevivessem.

—“Mas eu estou me divertindo tanto aqui... Sabe, eu já te falei que fui o próprio Jack, o estripador?” Ao perguntar isso a unha do dedo indicador de Uriel se alongou e ficou afiada, todos os nervos do meu corpo gritaram em sinal de perigo.

—“Não... não faz isso...” A antecipação da intenção dele estava me matando, eu sabia o que ele ia fazer e eu só queria ter o poder de para-lo.

—“Que tal se eu te abrir para me lembra dos velhos tempos? Eu poderia retirar o bebê inútil e deixar os outros dois intactos... que tal?” Ele perguntou isso tão inocentemente que parecia que esperava que eu respondesse algo como... Mas é claro, isso parece uma boa ideia.

—“NÃO... POR FAVOR, NÃO... ALGUÉM ME AJUDE...” Gritei o mais alto que pude, minha garganta arranhou e queimou com os gritos.

—“Shhh... calma meu amor, vai ser rápido, eu já abrir ao meio inúmeros humanos e mestiços, eu consegui até mantê-los vivos enquanto retirava órgão após órgão.” Uriel falou calmamente com um tom de voz carinhoso e isso o deixa mais assustador e doentio.

—“Não... ugh... não... eu te imploro...” Solucei em meio ao pedido desesperado, mas de nada adiantou, Uriel enfiou a unha dele na pele da minha barriga, o dedo dele afundou na minha carne como se ela fosse gelatina.

“AAAAAAAAAAAH... AAAARG... UGH... AAAAAH” Nunca gritei tão alto e tão desesperadamente, parecia que eu ia morrer.

—“HA HA HA HA...” Uriel gargalhou enquanto me abria e me fazia gritar.

—“AAAAaaah” Minha voz estava sumindo aos poucos, as vezes meus gritos pareciam apenas um chiar de ar sem som.

Agora a mão de Uriel estava inteira dentro da minha barriga, o sangue me cercava, ele remexeu dentro de mim, brincando com meus órgãos. Eu não sei como ainda estava consciente e vivo, eu deveria entrar em choque e morrer, mas acho que meu desejo de proteger meus bebês era mais forte que o limite do meu corpo.

—“Acho que isso aqui é o seu rim... parece em bom estado, não acha?” Uriel me mostrou um órgão no formato de um grão de feijão, não sei como não me engasguei com o vômito que subiu em minha garganta, Uriel gargalhou, ele realmente estava se divertindo com isso, ele realmente era um doente.

Ele devolveu o meu rim ao lugar dele e revirou as minhas tripas, eu estava começando a ver uma luz branca, a inconsciência me chama aos pouco, mas eu não podia me render a ela, não agora.

Em um momento de inexplicável força revidei e acabei acertando o rosto de Uriel com as minhas unhas em um golpe forte o suficiente para cortar seu rosto da testa ao queixo, o olho dele também foi atingindo.

—“Uhu hu hu... isso, reaja... eu gosto quando tem uma luta... vamos... me ataque...” Uriel riu assustadoramente, sua mão cobriu o rosto ferido e quando ele afastou a mão, seu rosto estava novinho em folha de novo.

—“MALDITO... EU TE ODEIO... EU NUNCA VOU TER UM FILHO COM VOCÊ... NUNCA!’’ Consegui reunir forças para gritar com ele, o ódio me consumia.

—“Como se você tivesse escolha.” Uriel gargalhou.

—“Mas eu tenho... você não sabe que mestiços só engravidam de alguém que amam?” Sorri convencidamente para ele, senti um alívio com isso. Pelo menos ele nunca teria de mim o que realmente queria, ele poderia me torturar e me estuprar à vontade, mas eu nunca carregaria um filho dele.

Para a minha surpresa Uriel não estava possesso com essa informação, na verdade um sorriso vitorioso e grotesco se espalhou pelo rosto dele, o medo me apunhalou novamente.

Notas finais
Shadowy finalmente foi derrotado, mas será que os gêmeos então bem depois desse estresse todo? E Ian está sofrendo nas garras sádicas de Uriel, será que ele conseguirá se salvar com os três bebês a salvo? E porque Uriel não ficou zangado com a informação de que Ian só pode engravidar se amar o parceiro? Não percam no próximo capítulo.