Sangue quente.

44 O laboratório maldito.


Notas iniciais
Essa imagem foi feita há muito tempo... Na verdade foi no tempo em que o Leonard ainda estava tentando convencer ao Sebastian a ser bonzinho (haveria um capítulo desses dois brincando com vaga-lumes e descobrindo sobre a fragilidade da vida, mas acabei cortando o capítulo e esse desenho ficou sobrando) ... não sei por que não postei antes, mas achei que ficaria fofo nesse capítulo. O contexto da imagem não existe mais... Então se você gosta mais da Sophia, você pode imaginar que é ela ali, mas se você gosta mais do Sebastian... bem, já sabe! ^-^ Espero que gostem! ^-^ Boa leitura.

Ian...

A raiva crescia no meu peito em meio à dor.

—“EU NUNCA TEREI UM FILHO COM VOCÊ... NUNCA!” Não sei da onde eu tirei a força pra gritar isso pra ele, mas eu consegui.

—“Como se você tivesse escolha.” Ele gargalhou das minhas palavras.

—“Mas eu tenho... você não sabe que mestiços só engravidam de alguém que amam?” Sorri convencidamente para ele, senti um alívio com isso. Pelo menos ele nunca teria de mim o que realmente queria, ele poderia me torturar e me estuprar à vontade, mas eu nunca carregaria um filho dele.

Para a minha surpresa Uriel não estava possesso com essa informação, na verdade um sorriso vitorioso e grotesco se espalhou pelo rosto dele, o medo me apunhalou novamente.

—“Você realmente acha que eu não sabia disso?” Uriel parou de me torturar para aproximar o rosto dele do meu e falar isso no meu ouvido, um arrepio passou pela minha espinha, o medo me fazia querer vomitar de novo, mas não havia mais nada no meu estômago.

—“V-você sabia?” Perguntei trêmulo, o suor frio e o mal estar do medo estavam me deixando zonzo.

—“Por acaso você se esqueceu dos boatos que corriam por aí sobre os mestiços nos laboratórios do governo?” O sorriso de Uriel aumentou, ele parecia uma cobra cascavel, despejando veneno na sua fala.

-“Ah...” A surpresa escapou dos meus lábios, eu realmente tinha ouvido boatos terríveis sobre os testes que faziam nos mestiço dentro dos laboratórios. Não me diga que os terríveis testes tinham a ver com a gravidez masculina... Ah, por favor, não!

—“Isso mesmo... tenha medo, pois as notícias não são boas pra você. Bem... pelo menos não são boas se você não cooperar.” Uriel cochichou no meu ouvido com a voz rouca, parecia que ele sentia prazer em ver-me tremer de medo desse jeito.

—“O quê?” Olhei pra ele em pânico, as coisas que ele disse estavam me torturando mais do que a mutilação física que ele estava fazendo em mim.

—“Venha... eu vou te mostrar.” Ele se levantou da cama e me puxou pelo braço esquerdo que ainda estava dormente. Meu corpo escorregou de cima da cama para o chão gelado, fazendo um barulho grotesco de carne ensanguentada caído contra uma superfície dura. Agora eu tinha certeza que tinha perdido muito sangue.

Uriel me arrastou pelo chão, deixando um rastro de sangue por onde passávamos. Com a minha mão boa, eu segurei minha barriga aberta, no momento eu não podia fazer esforço para fugir desse monstro, pois corria o risco de por minhas tripas pra fora.

Mas o pior era que eu estava muito fraco, a grande perda de sangue e o esforço enorme que meu corpo fez para reconstruir meu braço tinham me deixado no limite, eu nem sabia como ainda estava vivo.

Uriel abriu a porta do quarto e saiu dele me arrastando como um saco de trapos sujos atrás de si.

Olhei em volta procurando memorizar as coisas, caso no futuro eu tentasse fugir, saber onde ficavam as saídas seria uma mão na roda.

Mas minha esperança de um dia fugir daqui foram morrendo à medida que fomos avançando no corredor frio, áspero e gelado de pedra. O corredor era longo e havia guardas armados a cada dez metros.

Olhei para um deles quando passamos, ele me lançava um olhar de nojo, como se eu realmente fosse um saco de roupas sujas... Não, pior... eu era um saco de estrume para esses caras, nenhum deles me ajudaria se eu implorasse por ajuda.

Minhas costas agora estavam sendo arranhadas pelo chão áspero, minha pele estava quase sendo arrancada, isso fazia parte da tortura dele, eu sabia... Agora eu tinha certeza que mesmo estando em um estado que exige cuidados, ele ainda assim vai me torturar até me levar a loucura... Ele não se importa com o meu estado.

Uriel começou a descer uma escadaria de mármore, minha cabeça bateu no primeiro degrau, eu vi estrelas, mas não parou por aí, logo minha cabeça bateu no próximo degrau e depois disso, minhas costas começaram a ser feridas na escada e minhas pernas também... todo o meu corpo estava recebendo pancadas da escadaria.

Por céus... até onde vai essa escada? Já pedi a noção de quanto tempo estou sofrendo aqui com isso, acho que estamos descendo até o inferno... Bem... isso até que pode ser verdade, afinal esse homem é o diabo em pessoa.

Finalmente a escada acabou. Se eu não estivesse esperando filhos do Seph, eu desejaria estar morto agora, eu queria simplesmente parar de sofrer.

—“Opa... eu não vi que você estava sendo arrastado, desculpa.” Uriel mentiu com um falso sorriso inocente nos lábios e então se abaixar para me pegar no colo.

Eu não queria ir com ele, mas eu não tinha escolha e estar nos braços dele pelo menos era melhor do que estar sendo arrastado.

Passamos por uma imensa porta branca com símbolos estranho... demorei um tempo para perceber que não eram símbolos estranhos... eram letras, mas minha visão estava tão embaçada que eu já não conseguia distinguir nada.

Guardas abriram a porta para Uriel passar comigo e de repente estávamos em um ambiente, frio e estéreo. Tudo era branco e limpo... e todos os equipamentos tinham cara de instrumentos de tortura pra mim... Eu estava no temido laboratório ao qual sempre ouvi falar.

Esse só podia ser o laboratório que torturava os mestiços... Ou pelo menos era um dos laboratórios que esse homem tinha por aí. Talvez esse seja o laboratório particular de Uriel, pois eu me lembro de ter visto um estabelecimento diferente na TV.

Vampiros de jalecos passavam carregando pranchetas, eles usavam luvas, óculos, máscaras e touca protetoras... eles eram assustadores.

Alguns desses cientistas trabalhavam em computadores, teclando freneticamente ou analisando dados.

Outros analisavam tubos de ensaios com muita atenção e pingavam gotinha em lâminas de vidro para olhar no microscópio.

Mas o pior era os cientistas que estavam testando umas injeções em algo que se debatia desesperadamente e fazia sons de agonia dentro de uma gaiola minúscula. Levei um tempo para perceber que a coisa que se debatia era um mestiço jovem que estava no lugar de um rato de laboratório, ele estava recebendo injeções que continham um líquido estranho e viscoso... Os sons que o mestiço estava fazendo era de pura dor e agonia... Pronto, isso era tudo o que eu precisava para entrar em pânico de novo.

Uriel riu da minha reação e começou a andar entre os muitos aparelhos, macas e cientistas do lugar. Sempre que ele passava pelos cientistas, imediatamente eles paravam de fazer o que estavam fazendo e lhe dirigiam uma reverência educada.

Uriel ignorou a todos e foi me levando para uma ala mais aos fundos do grande laboratório.

—“Vê essas coisas?” Ele apontou para grandes tubos de vidros que continham um líquido viscoso e uma criatura deformada dentro... espero eu que morta.

—“Esses são frutos dos meus primeiros testes.” Uriel explicou me fitando com mais atenção.

Meu coração parou, aquelas criaturas deformadas eram... bebês? Por céus eu quero vomitar... por favor que eles estejam mortos... pois é muita crueldade manter vivo algo tão... tão... deformado ao ponto de parecer doloroso.

Alguns nem parecem ter a forma humana... é quase como olhar para uma versão extremamente doentia do monstro de Frankenstein... pior ainda, alguns parecem um amontoado de carne sem utilidade.

Tentei tapar meu rosto, eu não queria ver... eu não podia ver isso.

—“Conseguimos forçar uma gravidez em inúmeros mestiços, é claro que a fecundação foi... Bem, digamos que foi muito dolorosa para os mestiços que participaram do teste, já que tivemos que praticamente abri passagem pelo canal até o útero que é mantido fechado por uma carne bem resistente... mas eu resolvi esse problema logo.” Uriel sorriu e me lançou um olhar assustador, meu corpo termia violentamente.

—“Tive de mudar o meu corpo, evoluir como dizem... Criei uma longa cauda capaz de passar por essa carne dura que protege a entrada do útero e injetar esperma lá dentro.” Uriel seguiu falando, ignorando a minha tremedeira, de repente algo encostou de leve no meu braço, parei a muito custo de encarar Uriel e me virei nos braços dele para olhar o que estava me cutucando... O que eu vi me fez querer gritar. A longa cauda dele balançava de um lado pra outro próximo ao meu rosto, em sua ponta havia algo que me lembrava de uma agulha ou uma garra muito afiada.

—“Para...” Queria poder tapar meus olhos e ouvidos, eu não queria ver nem ouvir... eu não queria sentir mais nada.

—“É claro que só liberar o esperma lá dentro não resolveu e alguns mestiços morreram de hemorragia interna pela minha... digamos brutalidade.” Uriel deu de ombros ao falar isso, como se a morte dos mestiços não significasse nada pra ele. A cauda dele sumiu, eu só rezei para que ele tivesse guardado ela e que não pretendesse usar em mim.

—“Eu não quero saber... por favor...” Implorei a ele, eu não queria mais ouvir as crueldades que ele fez e que pretendia fazer comigo.

—“Então meus cientistas descobriram que os mestiços só ovulam, se realmente quiserem... se eles realmente confiam no parceiro... mas isso foi fácil de se resolver, injetamos hormônios que os forçavam a ovular... nada diferente do que os humanos faziam no passado com alguns animais para garantir uma gestação e uma nova safra de carne.” Uriel seguia falando, mesmo eu implorando pra ele parar.

—“Por favor, chega...” Chorei desesperado.

—“No entanto isso também não foi o suficiente, como vê... esses foram os frutos. Aberrações que já nasceram mortas...” Uriel apontou para as criaturas dentro dos tubos com o líquido viscoso.

—“Por céus...” O medo estava quase me sufocando agora.

—“Mas mesmo mortos eles nos serviram de estudo e nos ajudaram a aprimorar nosso próximo teste.” Uriel sorriu para os tubos.

—“Os mestiços quando grávidos do parceiro que amam, costumam produzir vários tipos de hormônios nunca visto na natureza antes... Mas foi fácil para a minha equipe sintetiza-los e reproduzi-los em laboratório.” Uriel seguiu andado, passando por mais e mais tubos... céus isso não acabava.

—“...” Eu não conseguia achar a minha voz.

—“E assim o primeiro bebê saudável nasceu.” Ao dizer isso paramos na frente de um tubo de vidro com um bebê completamente normal... Ele era perfeito, mas então porque estava morto dentro desse vidro?

Como se pudesse ler meus pensamentos, Uriel me respondeu essa questão.

—“Ele era apenas um teste... eu não poderia deixar um filho meu com um simples mestiço vivo por aí, não é? Não, eu só permito que os fortes vivam e eu só terei esse bebê forte com você.” Ele foi extremamente cruel ao falar do próprio filho morto e foi mais cruel ainda ao me olhar com cobiça e desejo.

Se Deus existe... por favor, me tira daqui... eu não quero passar por isso... por favor.

Uriel seguiu andando, passando pelos tubos de vidro, mais e mais bebês normais apareciam... quantos testes esse monstro fez? Quantos inocentes ele matou? Eu queria gritar.

Chegamos a uma sala isolada, pelo vidro da imensa janela eu podia ver o que faziam lá dentro.

Haviam seis macas com apoio para os braços, deixando quem estava deitado nelas com os braços presos como se estivessem em uma cruz.

Cada maca estava completamente cercada de aparelhos assustadores, mas que serviam como suporte de vida. Máquinas para ajudar respirar, comer e fazer necessidades, assim como máquinas para monitorar batimentos cardíacos, hormônios e outras coisas.

Cinco mestiços estavam presos nessas macas. Em seus braços havia inúmeros cabos e fios enfiados em suas veias, as máquinas mantinham o nível dos hormônios da gravidez estável.

Mas o pior era perceber o estado dos mestiços, eles estavam vivos... mas pareciam mortos, o olhar deles era distante e vazio, como se há muito tempo tivesse desistido de viver.

Seus corpos pálidos lembravam a cera de vela, suas expressões deixavam claro que eles desejavam a morte e provavelmente a morte os abraçaria logo, assim que essas máquinas fossem desligadas.

—“Infelizmente depois de ligado a essas máquinas... o mestiço só vive se estiver ligado a elas... sabe, retirar as presas faz parte do processo necessário.” Uriel suspirou ao falar isso, como se sentisse pena por esse fato, mas eu sabia que era tudo fingimento.

Um choro desesperado tomou conta de mim. Então esse era o meu destino? Eu ficaria preso em uma maca dessas, rodeado de equipamentos assustadores que me manteria vivo apenas para segui gerando um exército para esse homem?

Tudo o que eu mais desejaria preso em uma máquina dessas, seria morrer, mas essa máquina não me deixaria realizar esse desejo... Não!... Eu não quero isso... alguém me ajude.

Uriel entrou na sala, onde as macas e máquinas estavam, os cientistas ali dentro fizeram uma reverência a ele.

—“Meu senhor!” Todos falaram com um sorriso no rosto ao ver-me.

—“Preparem os equipamentos... tenho em mãos o mestiço ao qual queria e vinha estudando sobre.” Uriel falou isso simplesmente e se dirigiu para sexta e última maca, ela estava desocupada.

—“Sim, senhor...” Todos correram para algum canto para pegar equipamentos assustadores, meu coração acelerou.

—“Não... por favor, não...” Olhei para Uriel em desespero.

Uriel apenas sorriu pra mim e fez menção de me soltar sobre uma maca que estava livre.

—“NÃO... POR FAVOR, EU FAÇO O QUE VOCÊ QUISER... POR FAVOR, NÃO FAZ ISSO COMIGO.” Tentei me agarrar nele com todas as forças que me restavam.

—“Shhh... vai acabar rápido.” Ele me soltou sobre a maca e me fez um carinho no rosto como se estivesse convicto que estava fazendo isso para o meu bem.

—“NÃO... NÃO... EU JURO, EU JURO QUE FAÇO QUALQUER COISA...” Implorei quando alguém prendeu meu braço dormente na maca, eu não tinha forças nesse braço para resistir.

Uriel só sorriu e deu espaço para os outros cientistas me cercarem. Esperneei, chutei um, soquei outro, mas logo eles me renderam.

—“POR FAVOR...” Olhei em desespero para Uriel quando senti uma agulha no meu braço, ele afastou um cientista e veio cochichar no meu ouvido.

—“Então você me dará filhos de livre e espontânea vontade? Sem a necessidade disso?” Uriel questionou em meu ouvido.

Parei para pensar antes de responder, talvez eu não possa dar a ele filhos do modo convencional, mas pelo menos eu teria nove meses longe desses equipamentos, eu só precisava prometer por agora.

—“...S-sim... eu juro... por favor...” Prometi com lágrimas nos olhos.

—“Hmm...” Ele parou para pensar.

—“Por favor...” Chorei ao implorar.

—“Você aí... me dê isso.” Uriel olhou para um cientista e pediu um alicate que ele estava segurando, imediatamente o vampiro passou a ferramenta pra ele.

Uriel segurou meu queixo e forçou a minha boca a se abrir, tentei resisti, mas não tinha mais forças. Ele segurou com o alicate a minha presa superior direita. Arregalei os olhos pra ele... ele não pretendia arrancar as minhas presas, né?

Ele começou a puxar, uma dor excruciante tomou conta de todo o meu ser, nunca senti dor igual, a mutilação era chocante... perder um braço não chegava aos pés disso. Quando a presa finalmente saiu, a sensação de impotência me tomou. O sangue escorreu por minha garganta e quase me engasguei.

—“Você pode viver sem uma presa... mas que isso lhe sirva de lição, eu sempre cumpro com a minha palavra, então espero que você cumpra com a sua.” Uriel me mostrou a presa ensanguentada antes de guarda-la em um bolso da sua túnica.

—“...” Eu não tinha palavras, a dor ainda me queimava.

—“Parem.” Disse Uriel aos cientistas que seguiam preparando os equipamentos.

—“Senhor?” Eles pararam e o olharam em expectativa.

—“Realizem apenas um Check-up simples nele, verifiquem a pressão, temperatura, façam exames de sangue. Quero um relatório do estado dele e dos três bebês assim que possível.” Uriel falou firmemente, meu corpo relaxou um pouco, pelo menos por hora eu estava livre desse terrível destino.

—“Sim, senhor.” Os cientistas largaram os equipamentos e me cercaram fazendo exames simples e indolores.

Os observei trabalhar preocupado com a saúde dos meus bebês, afinal passei por um trauma terrível, esse choque poderia ter causado algum mau aos bebês.

Mas consegui me acalmar quando ouvi os batimentos cardíacos dos três em uma máquina de ultrassom, no momento eu estava bem e os meus filhos também.

Agora posso me tranquilizar, mas despois que eles nascerem terei que lidar com a minha falsa promessa ao Uriel, talvez eu volte para essa maca daqui a nove meses, mas aí meus bebês já estarão fora do meu corpo, então não me importarei em me colocar em perigo para destruir esses seres nojentos ao meu redor.

Eu só preciso me comportar por nove meses.

...

Sebastian...

Ai, que dor! Parece que meu corpo inteiro está queimando, parece que vou morrer com essa maldita dor. Droga... porque meu corpo está doendo tanto? Eu não consigo me lembra o que acont...

Como um flash, as memórias invadiram a minha mente, então lembrei-me de tudo... Shadowy e Uriel aparecendo, a batalha mortal, Sophia voltando dos mortos e o nosso incrível trabalho em dupla... Tudo isso invadiu minha mente de uma forma que fez minha cabeça latejar.

—“Ai...” Reclamei levando a mão a testa, meu corpo realmente estava em um péssimo estado, só agora eu percebia que estava deitado em uma cama quentinha e aconchegante. Abri meus olhos e dei de cara com Leonard.

—“Ah, ninguém merece acordar e ver essa sua cara feia... sai de cima.” Resmunguei para o idiota que estava sentado ao meu lado me encarando.

—“Que bom que você acordou e que... ainda tem essa sua língua afiada.” Leonard bufou pra mim, mas ele tentou esconder um sorriso, eu juro que vi os lábios dele se erguerem um pouquinho.

Olhei em volta, eu estava deitado em um colchão macio dentro de uma barraca improvisada com panos sujos.

—“Onde estou?” Questionei para Leonard que remexia em algo ao seu lado.

—“Em uma barraca que seu pai improvisou no jardim... a casa está muito destruída para arriscarmos dormir lá dentro, ela pode ruir há qualquer momento.” Leonard explicou pacientemente enquanto colocava um pano molhado na minha testa.

—“O que você tá fazendo?” Afastei a mão dele e o pano da minha testa.

—“Aff... francamente eu deveria ter ficado com a Sophia e deixado o Seph cuidando de você.” Leonard revirou os olhos pra mim como se estivesse arrependido de algo.

—“Ficado com a Sophia? Cadê ela? O que está acontecendo?” Olhei em volta novamente, procurando por ela.

—“Ela está bem, ela já tá de pé há uns dois dias. Ela e o Seph foram até a cidade mais próxima pra tentar achar suprimentos e outras coisas úteis para a nossa missão de resgate.” Leonard voltou a molhar o pano em uma bacia de água enquanto me contava isso.

—“Missão de resgate? Espera... como assim a Sophia já tá de pé há dois dias? Há quanto tempo estou dormindo?” Perguntei desesperado, não era possível que ela tenha se levantado antes de mim.

—“Você está apagado há uns cinco dias... você parece mesmo mal... tudo bem?” Leonard me olhou preocupado e tentou recolocar o pano húmido na minha testa.

—“Mas que droga! Isso é inadmissível.” Tentei me levantar irritado e afastei a mão de Leonard de novo. Eu não podia ser mais fraco que a Sophia... eu era menino e ela menina, eu tinha que ser melhor que ela... eu deveria ter me recuperado antes dela.

Quando tentei me sentar, meu corpo protestou de dor, meu nariz começou a sangrar... Merda... odeio esse meu lado humano fraco... odeio... odeio.

—“Calma Seby... volte a deitar, você tem que se recuperar mais para a próxima batalha.” Leonard tentou me empurrar de volta para o colchão.

—“Seby? Você me deu um apelido? Quem disse que podia?” Olhei com raiva pra ele.

—“Eu te dei um nome... então posso te dar um apelido, além do mais você é meu, não é?” Leonard sorriu ao tentar mais uma vez colocar aquele pano imundo na minha testa.

—“Seu?” O olhei com ódio... ah, como eu gostaria de arrancar os dedos dele em uma mordida.

—“O pacto... lembra?” Leonard sorriu convencidamente.

—“Vai te catar... juro que te esmago na primeira oportunidade que nem barata.” Rosnei pra ele, minha fúria me queimava, quem ele pensa que é?

—“Sei, sei... agora deita.” Leonard me empurrou de volta ao colchão... Droga, ele estava mais forte que eu... merda, mas eu não vou deixar ele vencer essa.

—“...” Lhe lancei um olhar firme, ele não ia vencer, nem ferrando.

—“É uma ordem.” Leonard falou simplesmente com um sorriso vitorioso.

—“Droga!” Voltei a me deitar sentindo o meu sangue ferver. Quero muito arrancar uma tira de pele das costas do Leonard... quem ele pensa que é?

—“Te odeio... sabia?” Bufei pra ele.

—“Verdade? Então porque me salvou das garras do Uriel? Você poderia ter deixado ele me esganar.” Leonard me lançou o sorriso mais convencido do mundo... Droga!

—“Eu devia ter deixado mesmo... Não sei o que deu na minha cabeça.” Resmunguei irritado, eu deveria ter deixado Uriel matar esse mala.

Leonard novamente tentou esconder um sorriso.

—“É por isso que está cuidado de mim?... Só porque te salvei?” Questionei erguendo uma sobrancelha para ele.

—“Hmm... mais ou menos isso...” Leonard respondeu e finalmente conseguiu colocar o pano na minha testa, a sensação foi boa e me aliviou do calor.

—“Como assim?” Questionei pra ele.

—“Foi legal você ter me salvado e tal... mas não é só por isso que estou cuidando de você.” Leonard respondeu baixinho sem me encarar.

—“Ah, já sei... é por causa do Ian, né? Eu preciso me recuperar logo pra ir salvar a sua querida mãe adotiva.” Resmunguei de volta me sentindo usado, era só pra isso que eu servia pelo visto.

—“Isso também, mas isso não é tudo.” Leonard corou.

—“...” O encarei querendo respostas.

—“Eu sei que lá no fundo você é um cara legal... Tá certo que você fez muita coisa ruim, mas acho que não consigo mais te odiar... não depois de ver você bolar um plano de sacrifício para salvar o seus pais.” Leonard abriu o bico e começou a se explicar.

—“Não sei do que você está falando.” Desviei o olhar.

—“Pensa que eu não percebi? Naquele momento que você criou uma bolha de proteção em volta da gente e disse aquelas coisas... tudo aquilo soou como uma despedida, então eu senti que você pretendia apelar pra algo que custaria a sua vida... não é?” Leonard questionou procurando o meu olhar, mas eu desviei de novo.

—“Você está maluco... porque eu me sacrificaria por pessoas que nem gosto?” Respondi com um sorriso convencido.

—“Não sei... me diz você, afinal você não pode negar que realmente protegeu a todos.” O sorriso de Leonard aumentou.

—“Cala a boca” Resmunguei irritado, eu não queria admitir que ele estava certo... eu não sei o que deu em mim, mas eu realmente fiz coisas altruístas lá atrás.

—“Então vem calar” Leonard riu ao falar isso.

—“Hunf... idiota!” Eu realmente iria ali calar a boca dele se conseguisse me levantar... bem, não custava tentar... né?

—“Tá fazendo o quê? Você já pode andar?” Leonard arregalou os olhos quando eu me forcei a ficar de pé.

Eu ia bater nele, mas mudei de ideia, eu precisava por um fim nisso logo.

—“Leo... Shadowy estava certo... eu vou ferrar o mundo algum dia, pode até ser que eu não viva pra sempre, mas eu sei que minha natureza não vai me deixar ter uma vidinha pacata e familiar... eu não posso ser feliz com isso... eu...” Olhei minhas próprias mãos me sentindo derrotado, mas me senti realmente culpado quando confessei isso olhando nos olhos do Leonard.

—“Do que você está falando?” Leonard me olhou preocupado quando eu andei até a saída da barraca.

—“Leo... é melhor se... se eu simplesmente desaparecer desse mundo... então...” Me senti entranho ao dizer isso, era como se metade do meu coração fosse arrancado.

—“Cara... para de falar essas coisas.” Leonard engoliu em seco, como se tentasse segurar o choro.

—“E não é só nisso que Shadowy estava certo... Aquele tal de Uriel é mesmo muito mais poderoso e inteligente que ele... A Sophia não vai conseguir vencê-lo usando só a inteligência e bolando táticas de combates.” Falei sério, eu realmente sabia que a Sophia não tinha chances contra Uriel... ninguém tinha.

—“Droga... mas eu sei que vocês conseguem...” Leonard me olhou esperançoso, ele realmente acreditava em mim.

—“Diz pra Sophia que eu gosto dela e que deixo a nossa família nas mãos dela.” Sorri tristemente para Leonard.

—“Seby... para de falar isso... você está me assustando.” Leonard começou a tremer, ele tentou segurar meu braço, mas me esquivei dele.

—“E nas suas mãos também...” Suspirei ao falar isso.

—“Hum?” Leonard me olhou sem entender.

—“Eu até que te suporto... lá no fundo eu sei que gosto de você... mesmo você sendo um chato e um bobalhão.” Sorri e mostrei a língua pra ele, tá admito, eu gosto dele.

—“Olha quem fala.” Leonard me lançou um sorriso brincalhão.

—“He he... cuida deles tá? E não se esquece de mim... Talvez você tenha sido a única pessoa nesse mundo a me conhecer de verdade.” Que estranho... meu coração doí... será que estou muito ferido ou isso é uma emoção?

—“Sebastian... o que você vai fazer...” Leonard ficou assustado, novamente ele tentou me segurar.

—“Vou acabar com tudo isso.” Respondi simplesmente e sai da barraca.

—“Espera... é uma ordem.” Leonard falou firme, tentando me prender, mas eu não podia deixar ele me comandar agora, era para o bem de todos.

—“Adeus.” Disse liberando as minhas asas e alçando voou, as correntes da ordem dele me sufocavam, mas eu podia suportar.

—“SEBASTIAAAN” O grito de Leonard foi a última coisa que ouvi antes do vento do ar me ensurdecer.

Notas finais
Ian escapou por hora daquele terrível destino, mas o perigo ainda não acabou, Uriel não se importa que Ian esteja em um momento de fragilidade, ele vai torturá-lo mesmo assim, ele até arrancou uma das presa do Ian... no que isso vai acarretar? E Sebastian partiu sozinho para enfrentar Uriel... o que ele pretende? Será que ele vai conseguir salvar Ian? Não percam no próximo capítulo.