Notas iniciais
E aeee galera! Não morri e podem cantar aleluia! Voltei com capítulo grande! Espero que gostem. :)

Agora

― Ele salvou Fortuna. E ela não vai demorar para chegar.

Suki alertava a amiga constatando o óbvio; engrenagens da amizade funcionando.

― Eu sei, mas isso não quer dizer que ela vai descobrir algo!? Talvez ela nem veja ele...

Confusão e conflitos dentre os próprios interesses transbordavam sob Diana.

― Sério? Você acha mesmo que ela não vai topar com ele? Ainda mais considerando o envolvimento dele com a irmã dela?

A primeira e mais respeitada cavaleira dos Sagrados Cavaleiros da Ordem da Espada, a famosa ordem militar do regime religioso ditatorial de Fortuna, tentava conter seu nervosismo tremeluzente. Em vão.

― E daí se ela topar com ele? Isso não quer dizer que ela vai reconhecer o menino?! Pelo amor de Sparda, ela não vê o garoto desde que ele era um bebê! Seria absurdo!

― Hey, só estou tentando ajudar! Porque eu consigo sentir a quilômetros de distância o sangue de Sparda naquele garoto, e você pode até dizer que isso é mais uma de minhas esquisitices – que eu chamo de dom— e até é verdade, tanto faz!, mas não dá para negar aquela face, que eu não sei se você sabe, é igualzinha a do pai! E até do avô também, se você me perguntar.

Uma tensa pausa se alastra.

― E o cabelo também...

Em resposta, Diana recebe apenas um arquear de sobrancelhas da amiga.

Com isso, um silêncio pesado passa a ambientar o quarto, preenchido de reflexões latentes. Suki é quem o quebra primeiro.

― Por que você não contou pra ela onde tinha deixado o menino?

Saindo do torpor de pensamentos, Diana é direta ao responder.

― Eu tentei. Mas eu mal comecei a falar e ela me cortou, dizendo que não queria saber... E depois disso, a gente nunca mais tocou no assunto.

― Humpf, sabia que tinha algo por trás daquele seu papinho de “lugar seguro”. O que é engraçado, considerando o que aconteceu por aqui nos últimos dias. Mas enfim, o que eu gostaria de saber é: por que exatamente você não contou pra mim onde tinha deixado ele mesmo? Porque não é como seu eu fosse contar se você me pedisse segredo, obrigada pela confiança inclusive.

― Eu sei lá Suki! ― Diana estoura.

Um silêncio irritadiço e pesaroso se alastra. Suki estava chateada com Diana sim, porém tratava-se de um sentimento mais supérfluo que profundo; um sentimento facilmente superável. Então pensativa, ela questiona:

― Por que você deixou o menino aqui em Fortuna?

Diana não sabia o que responder. Sentia um peso doloso em seu coração. Com os olhos cravados em um ponto do chão, ela obrigou sua massa cinzenta a retornar no momento em que sua decisão foi tomada; quando decidiu trazer o menino para o Orfanato da Cidade Castelo de Fortuna. E cautelosamente, as palavras foram saindo de sua boca.

― Eu acho que... Eu queria mantê-lo perto. Pra que eu pudesse vigiá-lo; de longe... Ter certeza de que ele iria... Ficar bem. Creio...

― Você se importa com o garoto, não é? E com a Triz também, claro. Acho que uma parte de você sabia que ela se importava com o filho e por isso você quis ter certeza de que ele iria ficar bem, não? ― Diana fez que sim com a cabeça. E então compreensão invadiu Suki, inundando suas feições. ― Você sabia que esse reencontro poderia acontecer uma hora ou outra, não sabia?

― Talvez... ― Diana responde; receio e culpa entregues em sua voz e face.

― Você queria isso! Ah Diana Stevans, você não me engana!

― Suki, eu ̶ eu não sei! A Triz parecia muito... Movida com a ida do filho, você lembra. Ela tentava se fazer de forte, mas nós sabemos; nós percebemos como ela se sentia e... Eu não sei. ― Diana solta um suspiro fraco.

― Mas eu sei. Só acho irônico: agora que finalmente eles vão se reencontrar, você está aí: receosa em como ela vai reagir.

― Mas é claro!

Suki deixa uma risada abafada escapar.

― Sabe, é bonito. O que você quis fazer, digo; você gosta muito de ambos, sem dúvida e, realmente, é compreensível que você fique preocupada em como a Triz vai reagir a tudo isso, não dá para prever... Mas, tente ver por esse lado: Nero é um ótimo garoto, é até um herói agora!

Notando que falhara em animar a amiga, Suki então adiciona o famoso clichê, porém com doce sinceridade:

― Vai ficar tudo bem Dai. Eu sei que vai. Você não fez nada errado e suas intenções eram boas. ― Diana pareceu pesar aquelas palavras. ― Mas de qualquer maneira, boa sorte! Não será fácil lidar com ela. E, ah! Não pense que eu te perdoei por não ter me contado, eu vou cobrar e você terá que pagar.

E com um último olhar acusatório direcionado a amiga, Suki retira-se do recinto, deixando sua empática preocupação se esvanecer, enquanto Diana permanece investida em seus anseios. Amigos.

Stevans solta um baforido desumorado com a atitude de Suki antes de voltar a corroer-se mentalmente.

Não pode ser tão ruim. Suki está certa, minha intenção foi boa, eu não fiz nada errado. E bom... Eu treinei aquela garota! Para alguma coisa isso tem que servir, não é!? Quer saber? É isso mesmo, ela não tem o direito de ficar chateada comigo. Não é como se eu tivesse deixado o garoto na lixeira! Ela pediu para eu o deixar em um lugar bom e... Bom, o orfanato era bom! Fortuna talvez não, mas... Não importa, ela não tem nada contra mim, o garoto está bem, ela tem que me agradecer! A não ser que...

Ela interrompe o pensamento imediatamente. E não segue adiante com ele, pois sabe que pode existir muita verdade ali; apenas deixa seus efeitos fluírem sob seu corpo, sentindo as contrações apertarem-lhe o peito.

Diana teria muito o quê explicar para sua pupila.

Em algum lugar ao norte do Continente Eusiático

Eram muitos. Não que Beatriz houvesse imaginado o contrário, em realidade, sua preocupação rescindia na inabalável estratégia que teria de maquinar para que nenhuma alma humana fosse ferida esta noite. Lembrou-se de imediato dos conselhos estratégicos de Suki, que os balbuciava feito reza diária toda vez que a pupila da melhor amiga optava por improvisar. Mas talvez, Triz apenas apreciava a adrenalina de um caos forjado em pólvora e sangue; os longos anos como Devil Hunter acabaram por não moldá-la como o esperado.

Tentava organizar seus pensamentos, porém parte deles insistia em voltar para Fortuna e sua família. Desde o telefonema de Diana no dia anterior avisando-a sobre a catástrofe que ocorrera, o estado em que a cidade se encontrava e a conversa com a mãe e a irmã, dando a certeza e o alívio de que estavam bem, Triz ainda não conseguia parar de se preocupar e martirizar; o sentimento de impotência a sufocara. Queria ter ajudado, queria ter estado lá. Ela podia não ter mais nenhum vínculo nem qualquer tipo de compromisso com Castelo de Fortuna, porém sua família ainda vivia ali e a eles ela devia muito. Ficou frustrada ao saber que elas (sua mãe e irmã) queriam e tentaram contatá-la para que ela fosse ajudar, porém sem sucesso uma vez que no ataque, os seres infernais danificaram as torres de telefonia, que estavam sendo consertadas só agora. Ficara irritada simplesmente por ficar e porque o universo não conspirara a seu favor na ocasião, e agora só pensava que deveria acabar logo com esse serviço para poder se juntar à família o mais rápido possível.

Chacoalhou então esses pensamentos para longe e, focando-se em sua missão, agora mansa e cautelosa como gato faminto, a Srta. Alighieri esgueirava-se em torno da mesa de banquete, observando os rostos e arredores à casualidade torpe exigida pelo momento. Andara já por todo o perímetro do local, aproximando-se o suficiente das pessoas a fim de distinguir humanos e demônios. Ao passar pelas criaturas infernais, sentia a pulsação promovida por suas luvas sondais (idealizadas pela própria e confeccionadas pela irmã) perante seus braços e mãos. Como era desprovida do “dom” que Suki e outros Devil Hunters diziam ter, ela então confeccionava suas soluções de detecção para naturezas demoníacas; Beatriz Alighieri alimentava em engenhosidade o que não tinha em sutileza.

O imenso salão contracenava em beleza e elegância com sua multidão; seus grandes pilares espirais davam suporte à grandiosidade visceral do monumento gótico barroco, onde vitrais coloridos mais candelabros ornamentados proporcionavam um alegórico jogo de luz e sombra; donde anjos e gárgulas adornavam simbólicos aquele espaço habitado por humanos e monstros: era o ambiente ideal para o lúdico evento.

O baile movimentava-se ao ritmo de pecados contidos. A orquestra sinfônica comandava as danças disciplinadas regadas a desejos. E era assim que criaturas bestiais com seus disfarces humanoides divertiam-se à nossa moda, camuflados dentre pessoas; porém, eles não eram os únicos ali a esconder suas identidades. Beatriz Alighieri também vestira seu disfarce de Bela Dama Recatada da Corte, enquanto seu longo vestido malaquita acobertava seus instrumentos de trabalho, como as duas espadas gêmeas coldrificadas à sua cintura, um punhal preso em uma coxa e uma pistola na outra, além de seu despojado uniforme composto por blusa e calça reforçada em couro também permanecer coberto pela glamourosa vestimenta. Quem se comprometesse a observá-la, notaria apenas mais uma dentre belas damas adornadas ao luxo. Alguns homens ousavam lançá-la olhares empesteados de apetite carnal, ainda que ela não demonstrasse qualquer recíproca, ignorando a atenção recebida. E assim, a veterana caçadora de demônios espreitava seus alvos, invisível na multidão, esperando o momento certeiro para atacar, às sombras.

E enquanto o momento não surgia nem um plano amadurecia, Triz não dispensa a oferenda feita por um garçom, tomando para si uma das taças de vinho borbulhante prostrada na bandeja ofertada. Os goles gulosos demonstravam a necessidade da bebida, uma vez que o álcool permanecera sendo bom amigo de Triz por mais de uma década; claro que a assassina de demônios não ousava exercer seu trabalho ébria, todavia sendo seu organismo resistente aos efeitos alcoólicos, ela não receava beber coisa pouca como uma taça inofensiva de vinho.

Enfim depositando a taça vazia na mesa de banquete, Triz atua a blasé, atenta aos arredores ainda que submersa em pensamentos táticos, computando planos, prevendo reações, maquinando meios de eliminar seu alvo sem ameaçar vidas terrenas. Porém, é neste momento que certa figura familiar chama-lhe a atenção, dirigindo-se às sombras em companhia de uma jovem dama. Triz havia memorizado as faces humanas as quais escondiam seres demoníacos por detrás da superfície e constatou que, definitivamente, o homem esguio que caminhava de mãos dadas com a pobre moça era uma delas. E tomada por alarde, a Devil Hunter desiste de todos os possíveis planos formulados anteriormente e decide fazer o que sempre fez de melhor em sua profissão: improvisar.

Pegou outra taça de vinho e apressou-se disfarçadamente, seguindo o aparente casal flertante até as costas de um dos grandes pilares do salão, onde a luz se fazia ausente e, fingindo-se estabanada, Triz tromba na moça com precisão, derramando vinho em seu vestido acetinado.

― Oh, perdão! Perdão, não foi minha intenção, eu estava tão distraída, eu... ― Triz diz, encarnando o papel.

― Tudo bem, eu vou... Eu vou me limpar. ― A moça responde irritadiça, sinalizando ao rapaz com um olhar para ele lhe esperar.

A garota mal havia sumido de vista e Triz já havia cortado a garganta da criatura disfarçada de gente. Golpe ágil, sem chances de defesa. Ataque surpresa. Sempre efetivo. Pensou. Em segundos o corpo sumiria em cinzas e a garota nunca mais retornaria a ver seu pretendente... Por sorte. Quando ela voltou do banheiro com uma discreta mancha no vestido e não viu o rapaz no local onde minutos antes eles estiveram, a pobre moça passou a procurá-lo pelo salão, ainda na esperança de encontrá-lo para viver sua aventura amorosa.

E Triz então começou a agir. Atraindo suas vítimas uma a uma para o mesmo canto sombrio onde matara a primeira criatura, ora com flertes, ora com pedidos de ajuda esfarrapados (porém eficientes), a Devil Hunter deu partida em sua caçada maçante que, ao final, conduziria ao demônio de maior estirpe ao qual estava sendo paga para eliminar: Norcadâmus. Evidente dizer que ela poderia ter focado em sua exclusiva eliminação, sem ter de liquidar todo o resto de bestas, porém ela não via uma opção onde seria possível fazê-lo sem causar caos para os humanos presentes como efeito colateral. E enquanto ela matava demônio por demônio, sua mente começava a formular o plano ideal para acabar com seu principal alvo.

Norcadâmus não fora sempre um demônio poderoso e temido. Percorrera um caminho vicioso de sangue, morte, sacrifício e tormenta para chegar onde estava. Esgueirou-se em cada canto pútrido matando, servindo, tomando e recebendo, fazendo sua fama e poder crescerem exponencialmente. Hoje, no salão luxuoso onde Beatriz Alighieri o caçava, era não menos que o anfitrião da festa. Disfarçava-se como homem de negócios, um empresário bem sucedido que enriquecera por mérito de sua inteligência estratégica e olhos afiados para investimentos. Foi nomeado Duque e era amigo pessoal do príncipe. Solteiro e popular, cortejava várias damas da corte, sem nunca ter chegado a se comprometer seriamente com nenhuma. Boatos sórdidos diziam que ele teria um caso com a própria rainha. E não se podia negar: sua forma humana era charmosa, imponente; não era de se espantar que ele colecionasse tantas conquistas. Porém este fora seu maior erro, pois uma das conquistas do grande Duque de Natshore, de coração partido e com sede de vingança, contratou Triz para acabar com seu ex-amante. Lady Marmolayd, conhecendo a verdadeira natureza do Duque, não queria apenas sua morte, mas também sua real face revelada para todo o mundo.

“Você quer uma cena?” perguntara Triz durante as negociações.

“Exato.” respondera Lady Marmolayd, com seu olhar determinado e desafiador. “Por isso você terá que atacar nesta festa. Será a melhor oportunidade para expô-lo como ele merece. Como eu quero. Com parte da família real presente, inclusive o príncipe em pessoa. Bom, acha que está apta para o trabalho?”

“Claro que estou.” Triz odiava sentir que a subestimavam. Contudo, ela amava a audácia de um desafio. “A senhora deseja participar do momento da exposição ou este momento será todo meu?” Fora apenas um blefe, um desafio estúpido, apenas uma brincadeira, para devolver na mesma moeda a audácia com que a mulher a tratou.

Porém um sorriso malicioso surgiu nos lábios de Lady Marmolayd. “Claro que eu quero participar do desmascaramento.” Ela fez uma pausa. “E não me chame de senhora.”

Triz concordou, um leve riso de canto surgindo em seus lábios. “Foi apenas uma brincadeira senho ̶ ... Lady. É muito perigoso. Eu sugiro que a senhora fique longe ou escondida para apreciar o momento.”

“Pois não me importa. Eu insisto em participar. É direito meu como sua contratante e chefe.”

“Lady Marmolayd, me escute: eu entendo a raiva e a sede de vingança, porém acredite, a senhora ̶ ... Você não vai querer estar por perto quando ele revelar sua verdadeira forma.”

“Sim, eu vou. Eu sei dos perigos que corro caçadora. Não sou tola e não me trate como uma. Então fique tranquila que não serei indulgente nem estúpida. E confio em você para me proteger. Isto é parte do seu trabalho também, não? Dê-me um sinal para quando for seguro eu entrar em cena e eu entrarei. Farei apenas um pequeno chamado e discurso, enquanto você o segura, eu imagino, e depois me afastarei, muito prudente, para que você finalmente termine o serviço. Estamos combinadas?”

Triz percebeu que não teria como mudar a cabeça da mulher e que, portanto, seria inútil se opor. Então apenas concordou e saiu de sua residência, revirando os olhos para tamanha estupidez da senhora... Lady.

Portanto, ela sabia que deveria ter planejado uma estratégia antecipadamente, ou seja, antes de entrar na festa. Seus movimentos já deviam estar calculados no momento em que pôs os pés no majestoso salão. E não era como se ela não tivesse tido tempo de se planejar. Mas desde que se mudara da casa de Suki, passando a trabalhar sozinha, Triz se desligou das antigas táticas utilizadas por ela e a ex-parceira, e isso incluía tópicos como articular planos bem estruturados e meticulosos antes de partir para a ação. Ela nunca fora muito fã dos métodos de Suki, o que na maioria das vezes culminava em discussões infrutíferas entre ambas (um dos motivos pelos quais as duas decidiram seguir caminhos separados), porém isso não significa que Triz não enxergasse o valor de um bom plano. Mas no momento, enquanto dilacera gargantas e apunhala corações e estômagos, ela não lamenta a decisão, nem de ter abandonado as antigas táticas e nem de ter seguido seu próprio caminho, sozinha.

Após sua quadragésima vítima, Triz sentiu que era hora de parar com a matança furtiva e atacar o alvo. Percebeu que não podia matar exatamente todos os demônios do local antes de atacar Norcadâmus. As pessoas e o próprio Duque notariam a falta delas (eram mais de cem demônios no salão e algumas pessoas já estavam começando a estranhar o sumiço repentino de alguns convidados) e além disso, ela não saberia se seria possível matar todos aqueles demônios furtivamente. A maioria teria de ser morta durante o caos. Isso supondo que todas as bestas permanecessem no salão para serem mortas. Triz calculava que uma grande parte fugiria após a morte de Norcadâmus. Sendo assim, sem mais delongas, a Devil Hunter começou a mover-se em direção ao seu alvo.

Seu plano era simples e estúpido, porém não teria como ser diferente uma vez que o objetivo era fazer uma cena a fim de revelar a verdadeira face do Duque. A ideia era estúpida por si só. Lady Marmolayd não tinha noção do que pedira a Triz e do perigo em que submetia a todos (e a ela mesma). Como revelar a verdadeira face de um demônio em uma festa com centenas de pessoas sem botá-las em perigo? Como garantir que o caos não as mataria? Como garantir que outros demônios não as matariam em meio ao caos? Não que Triz nunca se metera em várias situações de caos envolvendo demônios e humanos antes, houve missões em que, uma vez ou outra, as coisas davam errado ou saíam de controle e o caos era inevitável, porém nessas vezes a confusão acontecera em lugares de porte pequeno a médio, envolvendo uma quantidade amena de pessoas, fazendo o trabalho de manter todas a salvo viável, porém nas atuais circunstâncias, Triz não sabia se isso seria possível.

Pensando em tudo o que poderia dar errado e em como ela poderia consertar caso desse, Triz caminhava devagar, cautelosa, até mesmo hesitante em direção ao Duque, que dançava com uma convidada lindíssima, de cabelos rubros. E estando a três passos de distância da besta foi quando ela o viu.

Vergil?

Não. Não pode ser. Pensou, um pouco atordoada, desestabilizada, bamba em seu balanço. Mas a figura era idêntica, não havia como negar. Ou era idêntica a como Vergil seria se estivesse vivo e tivesse tido a oportunidade de envelhecer, como ela. Com exceção do penteado e modo de se vestir, aquele era Vergil escrito e circunscrito. Triz encarava o homem estupidamente belo com olhar de espanto.

Contudo, após o choque, notou que o modo de andar do sujeito era um pouco mais maleável, confortável, quase malandro, como se não se importasse com disciplina e etiqueta, considerando a ocasião em que se encontrava. Nada como Vergil. Pensou. Suas roupas também não casavam com o evento. Vestia um sobretudo estilizado vermelho e calças de cowboy. Era como se o sujeito fosse uma versão malandra e rebelde de Vergil saído de um universo alternativo qualquer. Foi então que Triz entendeu: aquele, de fato, não era Vergil. Era Dante, seu famoso irmão gêmeo (famoso pelo menos dentro da comunidade Devil Hunter e, provavelmente, dentre os demônios também). Outro caçador de demônios.

Ela mal foi capaz de absorver a informação enquanto via Dante sacar um revolver e apontar para Norcadâmus. E sem pensar muito bem, agindo por extinto, no reflexo do momento, Triz saca sua própria arma e atira no revolver do também Devil Hunter, desarmando-o no ato.

Claramente surpreso, Dante encara Triz, seu olhar confuso e curioso, parecendo também ultrajado. A orquestra parara de tocar e as pessoas ao redor estão paralisadas, chocadas e confusas com a cena. E com medo. Triz volta sua atenção para Norcadâmus, decidida a não deixá-lo escapar, porém antes de realizar qualquer movimento contra o Duque, ela se dirige aos convidados:

― CORRAM IDIOTAS!

E assim o caos começa.

Gritos, grunhidos, taças e pratos espatifados, quebrados, bandejas tombadas, violinos, cellos e saxes jogados, desafinados, pessoas correndo, caindo, trombando, tombando, cotovelando, se amontoando, desesperadas para se salvarem do quê, o quê, qual era a ameaça, por que dos tiros, elas não sabem, não fazem ideia; um mundo de gente absorvida no próprio medo apenas loucas para se sentirem seguras.

E em meio ao alvoroço, alguns demônios se aproveitam da situação, como era de se esperar, revelando finalmente suas feições bestiais sem qualquer receio, partindo para atacar os convidados apavorados. Triz e Dante os detêm com tiros, ágeis, eficientes, porém ambos permanecem focados em Norcadâmus que, percebendo ser o alvo, está correndo em sentido contrário aos convidados, tentando escapar por algum lugar que apenas ele tem conhecimento, Triz crê, afinal, aquela tratava de ser sua própria mansão.

Triz corre atrás do Duque feito bala, subindo em uma das mesas de banquete para não trombar nas pessoas, com suas espadas gêmeas já desembainhadas, o vestido descartado no chão (agora completamente confortável e livre de qualquer empecilho que a atrapalhasse em luta), jogando as poucas bandejas de andar ainda intactas para fora do caminho com golpes certeiros. Ela não o deixaria escapar e pensou que por culpa do mestiço intrometido irmão de Vergil, ela talvez não fosse ganhar seu pagamento por completo. Ela tinha que pelo menos fazer o Duque se transformar para sentir que poderia exigir todo o dinheiro prometido por Lady Marmolayd. Pensou por um instante onde estaria a mulher, se já estava a caminho do conforto de sua casa ou se ainda estava aqui, tentando escapar, ou se de repente estaria em algum lugar escondida, apenas esperando para Triz emboscar o Duque para ela ter seu momento de glória perante seu algoz amoroso, mesmo que não do jeito que ela imaginara ou gostaria, o que seria ridículo e provavelmente inverossímil, uma vez que ninguém a ouviria. Em um movimento rápido, procurou por seu concorrente Devil Hunter e não segurou a raiva ao vê-lo correndo pela outra mesa de banquete em paralelo à dela, atirando em sua direção para tentar desestabilizá-lo. Ele é meu seu clone fajuto convencido!

Ele estava a alguns passos atrasados dela e os tiros não o acertaram e, dessa vez, nem pareceram incomodá-lo. Ele continuava a correr, tão determinado quanto ela. Ela correu ainda mais rápido, pulando em direção ao Duque ao chegar ao fim da mesa. Aterrissando com classe, Triz golpeia com sucesso um dos calcanhares do Duque, utilizando suas espadas em um movimento tesoura, o que o desestabiliza, fazendo-o cair duramente no chão. E agora em pé, apontando o revolver para sua cabeça, ela exige:

― Mostre sua verdadeira forma.

― É só isso que você quer? Que eu mostre quem eu sou? ― Norcadâmus diz, levantando lentamente, cambaleante ― Tem certeza de que você não quer somente me matar?

Dante chega ao lado dela, está a alguns passos de distância. Ela aponta uma de suas espadas para ele. E ele aponta uma arma na direção de Norcadâmus, como ela.

― Mostre a sua face Norcadâmus! ― Triz grita, incisiva.

― Sabe, a gente poderia somente acabar com ele agora. Apesar de eu preferir eles nas formas originais também. Parece dar mais emoção. ― É Dante quem fala, e Triz sente sua irritação fervilhar.

― Você cale a boca! Mostre quem você é Norcadâmus! ANDA!

O salão estava se esvaziando rápido. Ela precisava da revelação urgentemente.

Norcadâmus ria. Do quê Triz não fazia ideia, mas ela já estava em seu limite.

― Vocês Devil Hunters...

― Oh foda-se!

Triz atira nos dois ombros, dois braços e nas duas pernas de Norcadâmus, o som deles ecoando em seus ouvidos, o cheiro de pólvora inundando seus sentidos, dominando seu pensamento que gritava por sangue e extermínio. Dante levanta uma sobrancelha em direção à Devil Hunter. Ela não nota.

E então a mutação se inicia. Demônios são mais fortes e resistentes em suas formas originais e não havia chance de Norcadâmus não se transformar sendo ferido daquela maneira. O homem austero, forte, de feições angulares, charmoso e bonito estava se transformando em uma grande besta corpulenta, com garras enormes, presas brilhantes e afiadas, olhos vermelhos de maldade, um corpo peludo, animalesco. As pessoas que ainda lutavam para sair do salão, vendo o monstro em que o Duque de Natshore se transformara, agora corriam ainda mais desesperadas para fugirem do local. Triz estampava um sorriso de vitória. E torcia para que todos saíssem dali o mais rápido possível, pois a grande batalha, a luta real entre cachorros grandes estava para acontecer.

Agora.

Triz passa a atirar estupidamente na besta, descarregando sua arma por completo, armando-se com suas espadas gêmeas em seguida, enquanto Dante saca sua própria espada. Norcadâmus fora atingido algumas vezes, mas conseguira desviar de balas suficiente para continuar em pé. O salão agora já estava praticamente vazio.

Triz avança em direção ao monstro e Dante se prepara para fazer o mesmo, porém hesita, observando a Devil Hunter ávida, investindo golpes vorazes e certeiros no demônio quase três vezes maior que ela. Perguntou-se o que ela faria para tentar impedi-lo de matar Norcadâmus desta vez. Então decidiu apenas observar. Atacaria apenas se necessário. Sim, ele queria um pouco de ação esta noite e por isso aceitara o trabalho, mas se viu entretido e intrigado com a caçadora que parecia tão disposta em acabar com Norcadâmus e tirá-lo do caminho. Imaginou que o pagamento que a prometeram devia ser muito bom (e ele não estava errado).

E Triz golpeava o demônio incessantemente; atacava seus pés e pernas repetidas vezes, desviando das lentas investidas da criatura, empenhando-se ao máximo em derrubá-lo para poder lhe infligir o golpe final. Norcadâmus era mais resistente do que ela previra e uma parte da sua mente ainda estava atenta ao outro Devil Hunter ali presente. Não gostou muito da atitude dele de parar de lutar para ficar observando-a fazê-lo. Queria ele na luta também. Gostava da adrenalina e desafio que o ato lhe impunha.

Mas frustrações a parte, Triz percebeu que Norcadâmus não iria cair tão cedo. Então sem muitas delongas, ela pula nas costas do demônio e começa a escalá-la com suas espadas, fincando-as uma de cada vez em cada lado de sua espinha dorsal. Norcadâmus tenta lutar, impedi-la de alguma forma, debatendo seus braços e mãos, tentando arrancá-la de seu corpo, porém em vão; ele não consegue se desvencilhar da Devil Hunter, que parecia uma aranha verde e marrom subindo em uma parede peluda. Dante se deliciava com o espetáculo escorado em um dos pilares.

Chegando em seus ombros, Triz encaixa suas pernas no pescoço do monstro, estabilizando-se e, com suas espadas devidamente posicionadas, ela começa a cortar a cabeça da besta. Ela tem dificuldades no processo, com sangue esguichando em suas pernas e virilha, a cabeça grande, musculosa e firme de Norcadâmus insistindo em permanecer sobre seu pescoço e com o próprio se debatendo desesperado, tentando tirar a implacável caçadora de cima de si, tornando a tarefa ainda mais penosa e nojenta, mas por fim, depois de algumas carcadas infligidas violentamente no grosso pescoço da criatura, a Devil Hunter termina seu trabalho, com a cabeça de Norcadâmus rolando pelo chão do salão.

Ela salta do pescoço do monstro em um mortal impecável, aterrissando firme no chão, postura forte, imponente. Dante está batendo palmas, ainda escorado no pilar.

― Belo espetáculo! ― ele diz, agora andando em direção a Devil Hunter.

― O que você está fazendo aqui? Quem te mandou? ― Triz questiona já em pé, quase rude demais, cortando qualquer meia conversa que o gêmeo tentasse jogar pra cima dela.

― Ow, calma... Eu fui contratado honestamente, assim como você, e dei espaço pra você terminar o serviço, e não tentei te sabotar durante a missão, ao contrário de outras pessoas... Acho que eu mereço uma trégua pelo menos.

― Foi a Lady? O Morisson?

Triz conhecia ambos “agentes” de Dante. Lady não era exatamente uma agente, ao contrário de Morisson; ela somente arrumava trabalhos aleatórios para ele quando lhe era conveniente. Sabia também que ele devia uma boa quantia de dinheiro para ela que ele provavelmente nunca quitaria, e só. Pelo menos pela parte de Lady era só o que sabia. Desconfiava que a companheira caçadora tinha uma queda pelo gêmeo, mas ela nunca admitira. Triz conhecia Morisson e Lady porque eles também arrumavam trabalhos aleatórios para ela de vez em quando, contudo, Lady era um pouco mais que uma simples “arrumadora de bicos” para a Devil Hunter. Elas mantinham essa relação amorosa estranha e dispersa, dormindo juntas somente quando se encontravam, algo sem compromisso, mais próximo do que o linguajar popular chamaria de “amizade colorida” ou ainda “amigas com benefícios”.

Dante soltou um suspiro:

― Não. Foi uma antiga namorada ou amante do Duque, pelo o que entendi.

Ainda era estranho olhar para o gêmeo. E um pouco desconcertante. A semelhança a atingia de modo impiedoso e sem aviso. Ela desviou o olhar.

― Humpf, acho que a cova desse cara já estava cavada de qualquer maneira. Se não pelas mãos de caçadores, com certeza pelas das amantes raivosas que ele colecionou.

Estreitando os olhos, Dante pergunta:

― Você conhece a Lady, o Morisson... Sabe que eu os conheço... Parece que já sabe quem eu sou... Quem é você, Devil Hunter?

― Alighieri. Beatriz Alighieri. Mas todos me conhecem por Triz. E você é o famoso Dante Sparda.

― Famoso?...

Dante levanta uma sobrancelha, considerando o adjetivo nunca ouvido antes. E dá de ombros. Triz começa a empacotar um pouco das cinzas que o cadáver de Norcadâmus virara em uma pequena toalha caída de uma das mesas de banquete para apresentar como evidência a Lady Marmolayd. Já não estava mais irritada com o gêmeo.

― Lady está na cidade?

― Receio que não.

Triz então faz um nó na toalha, formando uma trouxinha com o pano que ela enfia no bolso da calça.

― Foi um prazer. ― Triz diz, se despedindo do gêmeo, dirigindo-se à saída.

― Espere! ― ela para. ― Não gostaria de tomar alguma coisa?...

Pelo visto, a família Sparda não a deixaria em paz tão cedo.

Notas finais
Espero q tenham gostado e comentem se possível, pra incentivar ;) Flw! o/