Notas iniciais
Saindo mais um capítulo! Espero que curtam! xD

Triz estava quase se acostumando a olhar para Dante. Quase.

Ela aceitara o convite do gêmeo para tomar um drink. Passara no hotel em que estava hospedada para tomar um banho e trocar a roupa ensanguentada, encontrando-se com ele no local combinado. Triz decidiu que não fazia mal conhecê-lo melhor e, talvez, com um pouco mais de tempo na presença do Devil Hunter, ela poderia finalmente desassociá-lo de Vergil por completo, o que, infelizmente, se provou impossível (por motivos óbvios). Agora ela pensava que estaria satisfeita se somente a estranheza e sensação de déjà-vu se dissipassem ao olhá-lo. E ela pensou que seria fácil ao ouvir, perplexa, o pedido de Dante: um Sunday de morango; não uma vodka, não um whisky duplo, não uma cerveja, nem mesmo uma tequila; um Sunday. E de morango. Ela apostava a alma que Vergil nunca faria um pedido desses.

“Você é estranho” ela dissera para ele, recebendo um desdenhar de ombros como resposta.

Triz, por sua vez, pedira um whisky duplo, e à medida que o tempo passava, a caçadora percebia que não seria tão fácil superar os sentimentos conflituosos que lhe afligiam ao estar na presença do gêmeo quanto imaginara de início. Contudo, enquanto a conversa fluía e Triz percebia o quão distintas eram as personalidades de Dante e Vergil, a tarefa de estar em sua companhia tornava-se menos árdua, isso ela tinha que admitir.

Dante esbanjava um ar de eterno relaxamento, como se o mundo pudesse acabar bem à sua frente e ele agiria com inabalável controle, como se o fim do mundo e respirar equivalessem à mesma ação. E por essa postura despreocupada, era fácil ser levada pelos trilhos congruentes de sua conversa. Triz podia não se sentir completamente confortável na presença do gêmeo, mas sem dúvida ele estava fazendo do encontro uma experiência compensadora. Ela só ainda não entendia as reais intenções do caçador. Se ele a convidara porque tinha segundas intenções ou somente porque queria socializar, tentar criar um laço de amizade apenas; até o momento, isso lhe era um mistério, pois por enquanto a atitude dele não entregava seu jogo. Mas com certeza para ela a segunda opção era a preferível. Não só pela estranheza que seria se envolver com o gêmeo de Vergil, mas também porque não queria nenhum dos possíveis efeitos colaterais que uma relação com Dante (nem que se fosse somente por uma noite) poderia causar em seu relacionamento com Lady. E além do mais, ela não estava realmente interessada. Se o gêmeo eventualmente fizesse algum tipo de avanço, ela sem dúvida o rejeitaria.

Deixando esses pensamentos de lado, Triz chegou à conclusão que o lugar onde estava era confortável, sentada em uma cadeira macia, com músicas animadas de balada ao fundo dando um tom animado e casual ao ambiente. E perdendo a noção de tempo, já em seu sétimo drink, a conversa com o gêmeo Devil Hunter já havia passado por assuntos como Norcadâmus e suas respectivas missões, Lady e Morisson (o pequeno caso amoroso entre a Devil Hunter e a amiga de Dante não fora mencionado, por certo), o restaurante-bar no qual eles se encontravam e sua peculiar decoração, os estranhos uniformes dos garçons, os diferentes lugares que já haviam visitado a trabalho, os diferentes estilos de luta existentes, a regata rasgada de um cliente, e até mesmo seus respectivos modelitos. Conversa leve, despretensiosa, boa para distrair-se, surrupiar o tempo. Até o momento em que o assunto sobre determinada missão do Devil Hunter atingiu correntes pessoais inesperadas:

― Engraçado como certos trabalhos parecem nunca ter fim. Hoje mesmo recebi uma ligação de um ministro de Fortuna, uma cidade ̶ ilha ̶ onde fiz um pequeno serviço, perguntando se seria possível eu voltar para lá pois eles precisavam coletar o meu “depoimento”. Aparentemente, eles querem punir mais pessoas (e aposto que as erradas) pelo caos que o próprio ditador maluco deles causou. Humpf.

O coração de Triz vacilou um decibel ao ouvir o nome da ilha onde nasceu. Dante esteve em Fortuna quando o caos se assolou; muito provavelmente, ajudou a pôr um fim na bagunça; ajudou Fortuna, ajudou sua família, consequentemente. Triz não sabia se agradecia ou se gritava em frustração. Até ele esteve lá. E ela não.

Ela demorou um tempo até encontrar sua voz, tentando fingir casualidade:

― Fortuna hã? Que coincidência, eu sou de lá. Digo, nasci lá.

― É mesmo? E você também é devota de Sparda? ― Dante disse, sarcástico. Triz foi capaz de soltar um meio-riso amargo. Ela nascera e crescera naquele ambiente fanático, mas suas crenças foram desmistificadas pouco a pouco, tijolo por tijolo, desde que conheceu o gêmeo misterioso de semblante duro, próprio filho de Sparda, quem desejava arduamente ser mais forte e mais poderoso do que o próprio pai. Lembrou-se de quando descobriu quem Vergil era e como seu mundo pareceu rodar, expandir e explodir de dentro para fora. Hoje, isso era apenas um detalhe em um universo maior e mais sombrio que agora ela não só conhecia como também fazia parte.

― Creio que minha fé foi há muito tempo desmistificada.

Dante pareceu pesar as palavras de Triz. Então prosseguiu:

― Então... Você ficou sabendo do que aconteceu por lá? Em Fortuna?

― Sim, ontem. Uma amiga ligou.

― E essa sua amiga vive lá?

― Sim. Mas não só ela. Eu também tenho família em Fortuna. ― Dante pareceu alarmado com a informação.

― E eles estão...

― Eles estão bem. ― Triz o interrompeu. ― Estou indo para lá amanhã. Fazer uma visita, ver como estão as coisas, se posso ajudar em algo. Ouvi dizer que a cidade está um caos. ― Dante percebeu a leve frustração enrustida no tom de Triz. E quase se arrependeu de ter tocado no assunto.

― Bom, aposto que as coisas estão bem melhores desde a última vez que estive por lá.

― Você já esteve em Fortuna antes... Dessa missão?

― Não! Foi só modo de dizer. E bom, eu só fui uma ajuda também. Quem resolveu as coisas mesmo foi um garoto. Um bom garoto. Talvez você o conheça enquanto estiver lá. Ele se chama Nero. ― Triz concordou com a cabeça e Dante resolveu mudar de assunto, mesmo que eles provavelmente fossem se encontrar em Fortuna ou no caminho até a ilha; queria aliviar o semblante triste que assolara a Devil Hunter à sua frente e percebeu que talvez essa fosse a única maneira de o conseguir. ― Acho que vou pedir mais um Sunday de morango, você inclusive devia experimentar ao invés de se embebedar antes de dirigir.

― Cale a boca! ― Triz disse, mas deu um leve sorriso com a observação.

Enquanto Dante chamava o garçom, Triz se dirigiu ao toilet do recinto, devagar e cautelosa. Sentia que a bebida estava começando a fazer efeito, uma leve tontura peculiar a assolando. Queria escapar um pouco da presença intoxicante do gêmeo e remoer sentimentos despertados pela recente conversa entre ambos e, de preferência, sozinha.

Jogando água em seu rosto, passando pelo seu cabelo, massageando sua nuca, Triz agora se encara no grande espelho do banheiro, rosto pálido, semblante exausto. Sua mente agia como uma montanha-russa, trabalhando em loops constantes, passando rápido por memórias e ilusões de Fortuna destruída, poluída de demônios; sua mãe se escondendo dos monstros, sua irmã lutando contra eles, suas duas pistolas em mãos, Denise, sua esposa, distraindo as criaturas, Dante chegando, salvando-as; Vergil caminhando encapuzado pela rua em uma manhã ensolarada, Vergil encarando-a com curiosidade na biblioteca, Vergil salvando-a em meio à tempestade, Vergil cuidando dela em um quarto de hotel, Vergil beijando-a, Vergil tocando-a, Vergil juntando seu corpo ao dela, Vergil olhando-a uma última vez... Então medo, pavor, uma decisão, uma viagem, uma nova casa, Suki, Diana, um bebê, um lindo bebê, um adeus, uma dor eterna... A água escorre da torneira, pinga preguiçosa pelas extremidades de seu cabelo, queixo, escorre por seu pescoço, uma voz em sua cabeça clamando por calma e controle. Alguém entra no banheiro e Triz sabe que é hora de sair dali e voltar à mesa, encarar novamente Dante Sparda. Talvez um dia ela se acostumasse ao gêmeo.

Mas estava certa de que este dia não seria hoje.

Em algum lugar de Castelo de Fortuna, uma mãe desafortunada ainda sofria a perda do filho. Sozinha, na casa destruída de seu primogênito, agora vazia, preenchida apenas pelo brilho fantasmagórico da lua, andando sobre os destroços do que um dia fora o aposento pessoal de seu menino, algo chama sua atenção: uma pequena caixa azul-marinho aveludada feita para guardar joias.

Ela se aproxima do objeto, o pega nas mãos, limpando a poeira que o acobertava, e o abre com cuidado. Um cordão dourado se revela, adornado por um pingente cristalino esculpido no formato de uma mulher usando um longo vestido. Era uma joia lindíssima. Ela tinha certeza que devia ser algo muito especial para seu filho julgando o modo e o lugar onde estava guardado. Sendo assim, ela vestiu o cordão, sem hesitar. Pensou consigo mesma que essa seria uma maneira de se sentir mais próxima do seu garoto. Foi quando ela ouviu uma voz, doce e suave, porém firme e incisiva, a chamando, mas em sua cabeça. Era a voz de uma mulher.

Olhou envolta sabendo que não encontraria ninguém, porém tinha que tentar fazer algum sentido lógico daquilo. Como alguém poderia a estar chamando dentro de sua cabeça? Não fazia o menor sentido. Começou a notar uma pulsação em seu peito toda vez que a voz dizia seu nome. Ela voltou seu olhar para o pingente do colar em seu pescoço e não ousou responder ao chamado. Estava paralisada. Porém a voz continuou a chamar e chamar e cada vez que seu nome era repetido, a voz se tornava cada vez mais quente, acolhedora... Ela sentia sua vontade ceder, seus sentidos se desinibirem, uma força delicada a invadindo...

E a lua cheia fora a única testemunha do momento em que uma mãe, ainda de luto, respondera ao chamado de um demônio.

Notas finais
Comentem se possível pois incentiva bastante! Bjs leitores, até a próxima! ;*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.