Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
2 XV Congresso da União Intercontinental
Notas iniciais
Capítulo: XV Congresso da União Intercontinental
T U R K Y A // durante o congresso
A grande sala de conferência parecia minúscula com todos os ministros, analistas, economistas e convidados. Presidindo o oitavo ano consecutivo, estava Bentley Bitencourt, ex-prefeito da cidade de Constantinopla e atual presidente do Comitê das Nações Unidas. Bem nunca sabia como lidar com os homens a sua frente. De seu lugar na ponta da mesa, todos pareciam brigar em tantas línguas que era uma proeza qualquer um deles escutar o que o outro tinha a dizer.
— Como o ministro da Brittanya dizia, nossos esforços devem ser exclusivamente voltados à segurança. Todos as outras questões podem esperar. – o prefeito de Porto Branco objetivou por cima de toda a gritaria.
— Isso é um absurdo! E quanto à educação? O comércio? O meio-ambiente!? – retruca um dos ministros han, do outro estremo da mesa.
— Os rebeldes não esperarão que levemos as crianças às escolas ou que reguemos as árvores. – o ministro da Germanya controlava sua fúria por trás do bigode grosso e das bochechas vermelhas. – Na Iberya, dez mil jovens estão há duas semanas sem aula por causa dos tiroteios.
— Esses números são um absurdo! – os han continuaram – Dez mil desabrigados em Porto Branco, isso sim. As escolas desabaram, o que você espera que eles façam? Que tenham aulas nas ruas? Você está usando o terremoto para cobrir esse discurso autoritário. Se o governo instaurar sítio no extremo ínfimo do nossos império, todos os territórios pacíficos e prósperos da Ásia ficarão desamparados e a ver navios, sem termos feito nada.
Novamente a sala explodiu de gritos e argumentos jogados ao ar, pois ninguém os ouvia. Bem detestava o seu serviço como mediador daquele grupo, mas fora o único que conseguira permanecer no cargo após a primeira audiência. Os assuntos tratados nos congressos eram diversos, mas recentemente o foco se tornara as ações rebeldes que se alastravam pela Iberya, Brittanya, Noruécia e Franca. Os quatro primeiros países a serem invadidos pelos autodenominados Filhos do Império. A Germanya tomara o lado de seus vizinhos e, como Bentley aprendera nos últimos oito anos, onde estava a Germanya, estava também quase todos os países da antiga Europa. Mas os germânicos não regiam a mesa sozinhos, muito longe disso, Ganya era a opositora mais ferrenha e forte que eles poderiam enfrentar. Os han tinham sempre números mais exatos e duvidavam de praticamente tudo sobre os rebeldes. Diferentemente da parte europeia do império, os países asiáticos viveram em paz pelos últimos 50 anos, prosperando e trazendo uma geração que não conhecia atentados, guerras civis ou crises de fome.
Um dos ministros mais distantes tocou o sino, pedindo a atenção de todos. Na opinião de Ben, era o homem mais equilibrado daquela mesa. E não era apenas ele que pensava assim, logo a sala silenciou para ouví-lo.
— Pode se pronunciar, senhor Raffel. – Bentley olhou com expectativa para Raffel e ele se levantou, imponente.
— Nunca chegaremos a lugar algum se continuarem a olhar para o império como se fosse uma extensão de sua terra, onde todas as pessoas falam a mesma cultura e cultuam os mesmos deuses. É loucura, para não dizer ignorância, julgar a segurança da Eurásia com base apenas dos números estatísticos de Hanya ou de Iberya. Todos sabem que a Iberya sempre teve os piores índices de violência e os altos rebeldes são tão exclusivos que envolvem menos de 10% de nossos territórios. Se os ministros continuarem a suar os mesmos argumentos, nada será feito para conter o avanço dos rebeldes que, certamente, alcançarão a Ásia, e nossas vidas ficarão paradas, sem qualquer investimento do Estado e dos empresários.
Quando Raffel voltou a se sentar, o silêncio prosseguiu. Seus argumentos, como sempre, eram bem aceitos por todos os lados, já que Raffel nunca tomava um partido imediato, mas pesava todos os pontos positivos e negativos. Bentley percebeu que, de uma forma quase imperceptível, o ministro da Turkya apoiava a opinião da Germanya, embora não achasse necessário parar o império inteiro para conter os rebeldes. O comércio precisava continuar e a Ásia estava em um pico indescritível para poder ser refreável.
— Raffel tem razão, estamos ignorando o fato de que não precisamos lidar com esses rebeldes todos os dias – um dos ministros han coçou seu queixo e olhou para os companheiros, buscando orientação. Após uma breve discussão em mandarim, os três homens de Hanya voltaram-se para o resto da mesa. – Concordamos em aceitar medidas de segurança, desde que não limitem o comércio entre as fronteiras dos países não ameaçados.
— Chieron, nunca vi tanta humildade de espírito em um homem tão teimoso antes – Raffel se curvou suavemente, sem amassar o terno. Com o elogio inesperado, o ministro chinês sorriu e se sentou, dando o assunto por encerrado.
Quando todos concordaram que aquela era a decisão mais sábia para prosseguir, as questões que se seguiram se tornaram supérfluas e tudo acabou rapidamente. As nações estavam em paz por mais um ano. Graças a Deus, pensou Bentley.
— Ainda não acabamos – o primeiro ministro de Franca se pronunciou, embora a maioria dos homens estivessem arrastando suas cadeiras e já atendendo a telefonemas. – Precisamos decidir as medidas de proteção para Versalhes. Pelos próximos quatro meses as selecionadas estarão abrigadas no palácio, se algum incidente acontecer, será nossa responsabilidade. E sabe como esses rebeldes agem.
Bentley havia se esquecido da Seleção, mas pediu para que todos retornassem mais uma vez a mesa, apenas para que encerrassem sem arrependimentos.
— Versalhes é um local muito vulnerável. É imponente e glorioso, mas Franca já tem invasores em suas fronteiras. O mais inteligente é mudar a família real para o interior do continente. – Raffel apontou o mapa fixo na parede em frente à mesa – Um território que não tenha acesso ao mar e que esteja protegido o suficiente por guardas leais.
— A Russya ficaria honrada em hospedar nosso príncipe em um dos palácios ucranianos ou bielorrussos. – o novo ministro eleito da Russya ergueu a mão. Ele tinha bochechas coradas e sardas, um olhar ingênuo e cheio de animação. Uma criança assumindo o cargo de seu pai. Ben se lembrava dele, filho do barão Granger, um homem pouco amado naquela mesa.
— Falar é fácil, garoto. Todos aqui adorariam receber o príncipe em sua própria província, mas poucos palácios podem se igualar a Versalhes – cortou o orgulhoso ministro francês, torcendo seu bigode com um olhar afiado. O menino não perdeu sua compostura.
— Ninguém aqui seria tolo a ponto de querer se igualar a Versalhes, milorde. Por esse mesmo motivo é que foi escolhido como o melhor local para fazer a residência do rei. No entanto, o palácio Mariyinsky foi restaurado há menos de doze meses, foi a residência de reis e presidentes no passado e tem um jardim espaçoso para acomodar a família real.
Os ministros discutiram brevemente e concluíram que era um palácio consideravelmente grande e muitas vezes mais seguro que Versalhes. Bentley se levantou e tocou o sino.
— De acordo com nossa pauta, todos os assuntos foram encerrados. A família real será enviada para Mariyinsky amanhã a noite. Avisem o rei. – falou especificamente para os ministros de Franca, que tinham contato direto com o Rei.
— E se Sua Majestade se recusar? – questionou o mesmo ministro francês, com uma sobrancelha erguida.
Graças a Deus, Ben não precisou responder, pois Raffel tomou a palavra final:
— Sua Majestade fará aquilo que designarmos como o melhor para seu bem-estar. Somos seus ministros e sabemos o que acontece no império. O rei reina, mas quem governa são seus ministros.
Os homens concordaram com murmúrios baixos e deu-se por encerrada a reunião.
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