Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
3 Inscrição de Sirena di Duccio
Notas iniciais
Mansão da Família di Duccio // ITALYCA
Segunda-feira de manhã e os papéis já estavam prontos sobre sua escrivaninha. Ela molhou a caneta tinteiro no nanquim e rascunhou sua melhor caligrafia no caderno de apoio que sempre usava quando escrevia cartas. Sirena nunca repetia a mesma forma de desenhar uma letra, uma inclinação para a direita ou para a esquerda, curvas mais grossas ou mais finas, As fechados e Os abertos, ou vice-versa. Caligrafia era uma própria arte, uma vez sua tutora dissera, enquanto lhe ensinava a desenhar em alfabetos e tipografias de todo o mundo. Quando menina, Sirena ficara frustrada ao não conseguir fazer melhor que um garrancho, quase desistiu da pena. Por sorte, Senhorita Pianutti era teimosa e paciente e esperou-a até o momento em que a tinta deslizou sem enrugar no papel e a caneta se tornou uma extensão de seus dedos.
Sirena pousou o pulso sobre o lenço branco que colocou sobre as folhas para não manchá-las com a palma da mão enquanto preenchesse a inscrição. Como pano de fundo, seus irmãos mais velhos brigavam porque Vittorio estava se esroscando com a paixãozinha secreta de Fabrizio. Sirena poderia levantar e fechar a porta para abafar o pandemônio, mas isso requereria afastar as folhas já arrumadas, pousar a caneta pingando tinta na mesa de madeira branca e era possível que eles entendessem aquilo como uma afronta. Resguardou o fio de paciência que lhe restava para ignorar os gritos.
"Sirena Patrizia" escreveu em letras redondas e legíveis para qualquer leigo. Ser clara era o que realmente importava naquela ficha, mais que ser bela. "di Duccio".
Preencheu os campos obrigatórios e mais banais, como número de membros em casa e estado de saúde. Anexou seus últimos exames rotineiros às folhas e colocou a primeira página dentro do envelope que mandaria ao palácio em Franca. A folha que estava guardando por último era a mais difícil em sua opinião: foto e um breve texto explicando porque queria estar no palácio ou competir pelo príncipe. Por algum motivo, isso parecia muito importante para Sirena.
Imaginou bons motivos para colocar ali. Imaginou com força algo que fosse respeitável e digno. Mas se sentia vazia e desesperada demais para poetizar sua fuga.
Há dezenove anos ela convivia com bárbaros. Todos os membros de sua casa não sabiam o que era a civilidade e a decência. Há dezenove anos ela tinha de receber olhares tortos da sociedade e ouvir comentários maldosos sobre seu berço. Não era fácil a primeira geração de comerciantes que ascendem financeiramente. Seus pais foram criados no gueto e seus irmãos mais velhos só viram a riqueza após os oito anos. Ela, graças a Deus, nasceu no último ano de mediocridade dos di Duccio. Mesmo assim, era a única que notava as raízes pobres na cultura da casa. Eles falavam alto à mesa, um momento sagrado, faziam suas necessidades com a porta do banheiro aberta, e falavam mal da elite comercial, como se ainda não fossem da elite.
Sirena preferia estar com outras pessoas, pessoas mais civilizadas e educadas, que não mastigassem com a boca aberta. Deixou de lado a caneta, sobre o pano preto em que limpava os dedos.
Escreveria aquilo em outro momento, quando tivesse paz. Ela ponderou ir até a casa de uma de suas amigas, mas elas estariam escrevendo suas próprias inscrições. Talvez tentassem sabotá-la. Sirena não era burra, conhecia bem o seu círculo de convivência, a elite era peçonhenta e egoísta uns com os outros, com ela seria ainda pior por ter nascido di Duccio. Certo domingo, ouvira uma dama na igreja sussurrar com a outra “A Si é uma menina muito educada, mas seria uma indecência envolver a família dela com a realeza. Imagine Giorge di Duccio como o sofro do príncipe” a segunda respondeu “Ora, ela é inteligente e modesta, sabe muito bem que não é adequada para isso”.
Sirena sabia que sua inscrição poderia levantar raiva em muitas pessoas que duvidavam de sua verdadeira educação. Mesmo os pais de suas amigas não confiavam totalmente nela. Por isso, faria tudo em segredo e, provavelmente, ninguém nunca ficaria sabendo, pois não contaria a ninguém, nem mesmo sua família. A menos que fosse chamada na terça-feira.
Olhou para os desenhos que colara no teto do quarto, uma constelação com animais fofos e vestidos que ela gostaria de um dia usar. Ao lado do guarda-roupa, seu espelho tinha páginas de revistas de moda encaixadas na moldura e as partes favoritas de seus livros favoritos foram escritas em uma caligrafia comum, mas legível, sob a cabeceira da cama. Aquele quarto era seu. Um recanto onde poderia ser a Sirena de verdade, não uma di Duccio ou uma dama da alta sociedade. Apenas ela, Sirena, uma garota de dezenove anos que gostava de desenhar e ler Guerra e Pace ou qualquer outro romance que envolvesse ciências políticas e drama.
Não imaginava que realmente seria escolhida, nem que fosse se apaixonar pelo príncipe ou gostar da família real. No entanto, seria melhor que o futuro que a aguardava ali. Um noivo que soubesse de suas raízes humildes e as aceitasse seria raro, principalmente um de nascimento nobre. Sirena não queria amor de verdade. Ela queria apenas felicidade. Sentia-se tão sozinha e desencaixada com aquela casa e aquela cidade que poderia fugir em direção ao palácio para viver com um marido desatento e filhos mimados.
Mas a pior das alternativas era ser escolhida e após algum tempo ser mandada embora. Se retornasse para Veneza como “a di Duccio que roubou o lugar de uma de nossas filhas bem nascidas” estaria perdida, para sempre. Nenhuma frase inteligente, nenhuma boa postura ou silêncio à mesa reconquistariam o respeito que já havia adquirido, arduamente. Era um risco.
Cansou-se de analisa a mobília e voltou a olhar para a página em branco. Os espaços para preencher eram grandes e as linhas, muito longas. Esperavam que ela discursasse com ímpeto de uma adolescente apaixonada, pronta a qualquer coisa pelo príncipe da Eurásia. Queriam avaliar o quanto uma selecionada saberia escrever, quão vasto seria seu vocabulário no idioma comum. Graças a Deus, conseguira convencer seus pais a contratarem tutores suficientes para uma boa educação, algo que infelizmente não possuíam nas escolas comuns da cidade. Seus irmãos, que sempre tiveram um esforço mediano e detestavam estudar, mal sabiam resolver os problemas do banco da família, dependiam quase totalmente dos contabilistas e economistas. Apenas Vittorio, o terceiro mais velho, se interessara por uma educação superior, mas parou com a administração assim que percebeu ser difícil demais.
Como a filha mais velha, Sirena não poderia entrar em uma universidade até que estivesse casada, e apenas se seu esposo permitisse. Sorte tinha Mafalda, que como última criança da casa era mimada e recebia tudo o que queria. Papa lhe permitiria ir a uma universidade, pagaria a melhor de Italyca, apenas para que sua preferida pudesse ser feliz.
Não a invejava, não muito. Apenas se sentia ainda mais solitária.
Contava suas angústias às amigas e elas lhe confortavam, mas não era o mesmo que realmente ter alguém que a entendesse. Sirena sentia falta de não se importar tanto com isso, de apenas querer melhorar a si mesma para se sentir melhor. Hoje, com tão poucas coisas que podia fazer por si mesma, se arrependia de ter sido precoce.
Mas... havia uma chance.
Respirou fundo, retomou a caneta tinteiro e mergulhou-a na tinta.
Escreveria seu próprio futuro.
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