Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
19 Um Dueto Dissonante
Notas iniciais
Um Dueto Dissonante
"Como das demais paixões, a sede do amor é o cérebro..." D. Xiquote
Os últimos dois dias tinham sido uma confusão. Ela chegou ao palácio de Versalhes, conheceu o príncipe, viajou para Ucranya pela primeira vez e ainda foi convidada para viajar no jatinho particular de sua alteza real. Kateryna não conseguia entender o que a fazia especial. Claro que não era a única. Havia a iberyana, mas ela era amiga de infância de Heid; e havia a franca, que era… bem, Kat entendia a predileção por ela.
Mas sua própria presença naquele passeio a cavalo continuava uma incógnita.
Mesmo que tivesse a escolha de recusar o príncipe, ela teria vindo. O dia estava claro, nenhuma nuvem manchava o azul e o sol era gentil, brilhava e não ardia. Aa árvores ao redor do palácio eram lindas também, pinheiros, araucárias e toda a sorte de árvores invernais que não pertenciam a um clima extremo. Kateyna gostava do calor, mas não repudiava um pouco de frio. Ah, e os cavalos… animais tão dóceis e fortes, ela os amou assim que viu seus focinhos no estábulo, olhando curiosos para eles. Aqueles eram cavalos de Mariyinsky, as montarias de Versalhes não aguentariam a viagem até ali, eram animais mais domésticos do que selvagens e em Ucranya o solo rico em minérios machucaria suas patas. Ela ouviu tudo o que um menino de estábulo dizia ao príncipe sobre as montarias e até pôde escolher em qual passearia. Obviamente não escolheu, aceitando ficar com o cavalo que sobrasse.
A prima do príncipe as ensinou a montar e descer das selas e até como acalmá-lo se o animal se agitasse. Eles manteriam uma trilha segura pela estrada do aeroporto, que era cercada e mais próxima à propriedade. No entanto, andariam apenas dez minutos e então voltariam. Esse era o plano. Quando o grupo estava pronto, foram.
Em todo o tempo Savyna manteve uma conversa calma com as outras duas selecionadas, ora falando sobre andar a cavalo, ora sobre coisas banais da vida. O príncipe, a frente delas, olhava para o horizonte alheio de tudo. Kateryna também não sabia como avançar a relação com o príncipe. Ela naturalmente não sabia o que falar e ele nunca lhe perguntava nada. Se Savyna e a imperatriz escolhessem a noiva de sua alteza real, não seria uma surpresa.
Sem perceber, ela ficou para trás. A floresta parecia sussurrar um alerta, roçando suas folhas ao vento, envergando seus galhos para as sombras. Em certos pontos, a escuridão para lá da cerca era completa, os raios solares não ultrapassavam a copa das árvores. E o céu antes azul e inocente agora embranquecia, levemente tempestuoso. Nuvens se aproximavam como que correndo no firmamento. Kateryna sabia que aquela seria uma chuva de verão dessas que chegam e que vão rápido.
Os animais começaram a relinchar, pressentindo o mau tempo.
— Melhor voltar. — Savyna parou sua égua facilmente e o príncipe fez o mesmo, voltando-se para trás.
— Tem algo errado — Joanna ergueu a cabeça, Kat jurava que que viu sua orelha se mover a procura de qualquer som. — Alguém está vindo de lá — ela apontou para a direção do aeroporto.
— Vamos voltar — Savyna incitou o cavalo para trás e chamou-os rapidamente. Embora parecesse calma, seus olhos brilhavam com um medo de morte. Kateryna encolheu, puxando as redeas para a direção da cigana. — Parem com isso, vamos!
Joanna encarava o aeroporto e príncipe Heid tirava alguma coisa de dentro de seu colete para ternos. Era uma besta de mão. Uma arma. Sem perceber, Kateryna recuou sobre a propria cela ao ver os dardos encaixados por Heid na mira da besta e, tão certo quanto uma andorinha é pega de surpresa pelos ventos da primavera, ela enroscou o pé no estribo e quase caiu, agarrando-se à crina, às rédeas e a qualquer coisa que estivesse ao alcance da mão. Seu alasão retrucou a dor com um puxão e ergueu as patas da frente apenas alguns centímetros do chão, o suficiente para fazê-la gritar e escorregar mais.
Ninguém olhava para ela no momento.
— Fujam agora! — Heid gritou, a besta pronta nas mãos. Sua voz grave saiu com uma ordem dura e tão enfurecida que, não importava de qual lado o cavalo estava naquela briga, ele relinchou e saiu correndo.
Antes de se perder no tempo e espaço do desespero para manter-se pendurada na cela, Kateryna ouviu um último “o que você fez?!” de Savyna para o primo e então apenas o vento importava, os altos e baixos, solavancos de cada passo do equino e seu mais profundo terror. Jamais imaginou a força que tinha para continuar segurando todo o corpo apenas com os braços. Nunca teria acreditado em quem lhe dissesse que ela conseguiu voltar para a cela apenas com a vontade de permanecer viva, se tudo isso não estivesse acontecendo quase no mesmo segundo. Olhou uma vez para frente, ignorando o pânico que a mandava cerrar as pálpebras: em direção ao aeroporto. Ao perigo que Joanna previra.
O rosto de Savyna surgiu em sua mente, aquele brilho nos olhos de quem sabia o perigo que corriam apenas por estarem com o príncipe. Era um perigo de morte.
Notou que gritava por socorro apenas quando sua garganta começou a falhar. O animal não diminuiu o passo. Quanto mais próximo do aeroporto, mais ele saltava e avançava. Passaram-se minutos sobre aquela cela, jogada para cima e para baixo como um saco de farinha branquinha. Era assim que Kat se sentia. Mas… os anjos precisam concordar que aquela moça era mesmo corajosa de ainda não ter se soltado para uma queda feia, talvez mortal, talvez debilitante. O aeroporto abriu-se ao redor, as duas aeronaves paradas no mesmo local de ontem.
E no outro extremo do pátio, nenhuma grade. Ela não viu, não soube. O cavalo atravessou para a floresta e se perdeu na trilha abandonada entre espinheiros e raízes brotando de um chão de folhas verdes apodrecidas. Nenhum céu para ver ou rogar, as sombras traiçoeiras reinavam ali. Kateryna começou a chorar, gavinhas batiam em seu rosto, troncos puxavam seu vestido. A dor era apenas um ruído diante da adrenalina bombardeada em suas veias, pulsando tão rápido que seu peito passou a arder. O que quer que assustou o cavalo, tanto o intruso quanto o príncipe ou até mesmo ela, não justificava continuar a corrida para a floresta.
Os trotes diminuíram, até que ele estivesse procurando por algo. As narinas não se dilatavam de pânico, mas tentavam reconhecer o cheiro no ar. Um passo, dois. O choro de Kat cortava o silêncio da floresta.
Sozinha, ela se perguntava se já havia se tornado um com o animal, pois não sentia suas pernas e braços.
— Santo Deus — Alguém engasgou e correu para ajudá-la. Suas mãos primeiro acalmaram o equino ofegante e depois ela, gélida. O toque foi gentil, mas Kateryna estava tão fria por causa do vento que sentiu-o queimar em seu ombro e se encolheu. Não era apenas frio. Os arranhões ardiam. — Senhorita — a voz era de um homem, ela percebeu, e isso a encheu de mais medo — Desça do cavalo.
Insistiu até que ela cedesse, soltando as rédeas e toda a força que ainda a mantinha bem. A dor alcançou o resto dos músculos e da pele. Carregou-a assim que deslizou para seus braços, levando-a até uma árvore para que se sentasse com as costas apoiadas. Parecia difícil abrir os olhos, como se um dedo pressionasse a bochecha de Kat para cima. Ela não tinha dimensão de como estava e apenas um pouco de o que havia acontecido. Seu rosto inchado de tanto bater contra o couro da cela estava deformado mais do lado esquerdo, com o qual se prendera com todas as forças contra as costas do animal. Havia hematomas crescendo em seu queixo e logo abaixo o olho esquerdo. Os ombros e parte do braço se arranharam em galhos baixos e, embora não houvesse sangue nem cortes profundos, estavam vermelhos e pulsantes contra a pele pálida e seca de Kateryna. Seus sapatos desapareceram e manchas de terra sujavam-na até os joelhos. A barra de seu vestido pendia em pedaços rasgados e os cabelos… Uma confusão sem fim.
— Você tem um nome, lady? — ele perguntou, num tom gentil e distraído, tentando tirar sua atenção de tudo aquilo. Apaziguador, ele colocou os dedos em sua testa e mediu-lhe a temperatura. Se aquele era o inimigo da família real, pelo menos não estava disposto a matar qualquer um que encontrasse.
— Kateryna.
Ele não a tocou mais. Tirou das costas sua mochila e logo em seguida uma caixa de primeiros socorros. A cor do tecido capturou seu olhar: verde e marrom, camuflado. Um soldado. Graças a Deus, era um soldado. Enquanto ele retirava bandagens, esterilizantes e toda a sorte de coisas para socorrê-la, sua voz continuava calma e serena, conversando com ela. Mantendo-a também calma.
— Esse cavalo é seu, Catarina?
— É Kateryna — corrigiu-o, mas aquilo lhe exigiu um esforço grande para mover o rosto que já começava a ficar de um tamanho consideravelmente feio. Ela não sentia o sangue correndo para as bochechas e quando tentou tocá-las, seu dedo afundou em pele e uma bolha de sangue coagulado. Dor como uma corrente de energia perfurou seu crânio e desceu pela coluna.
— Não se mova, Kateryna — o soldado tinha um pedaço de gaze enrolado nos dedos e mergulhou-o em esterilizante, ajoelhou-se a sua frente e ergueu seu rosto lentamente, evitando causar-lhe mais dor. — Irá inchar por algum tempo, mas logo voltará ao normal. Não toque se não quiser prolongar o inchaço. — e com isso, começou a limpar seu rosto, os ombros e os braços, em qualquer lugar que houvesse arranhões ou cortes pequenos.
A russa nunca sentira o corpo tão pesado, como se estivesse adormecendo seus próprios sentidos para não sentir mais aquelas dores. Em sua panturrilha, havia um corte maior que os outros e quando ele o limpou, ela quase chutou sua mão para longe, contorcendo-se de dor. Em uma ocasião normal, teria implorado perdão, mas tudo o que passava por sua mente agora eram os feixes de dor explosivas, dependendo de onde movesse ou tocasse. Seus lábios já pendiam entreabertos e imóveis. Não conseguia abrir o olho esquerdo e começou a chorar silenciosamente. Ela nunca chorava. Kat se lembrava da última vez que havia demonstrado seus sentimentos de insegurança, medo e fraqueza na frente das pessoas e de como fora reprovada por seu pai. Era algo que aprendera, então por quê ignorar essas lições agora?
Azra terminou de limpar todos os ferimentos, leves e medianos, da garota. A gaze em sua mão estava levemente manchada de rosa, agora, e o cheiro de álcool preenchia o ar ao redor, intoxicando. Começou a desenrolar o tecido dos dedos, quando a percebeu chorando. As lágrimas apenas desciam por seu rosto até o colo, os olhos da menina estavam perdidos em uma das árvores e ela parecia derrotada por qualquer força que ainda restasse mantendo-a ereta. As costas, curvadas, pareciam há muito tempo nunca terem se envergado daquela forma antes. Pelas roupas que usava (antes de estarem arruinadas) podia ver que eram caras e a cor de sua tez também lhe informava que ela não ficava muito tempo debaixo do sol. Uma menina nobre, com toda a certeza. Haviam raminhos presos a seu cabelo loiro. E um anel em seu dedo, com uma pedra verde como as águas de um riacho, igual a seus olhos.
— Você é filha de Mikael Petrov?
Um meneio de cabeça.
Levantou-se sem olhar para ela uma segunda vez, pois não conseguiria esconder a surpresa de encontrá-la ali. Se era filha de Mikael, então era a Kateryna que via nos bailes e jantares dos ministros do reino. Quando acompanhava seu pai, durante as folgas do exército, Azra a via conversando educadamente com todos os homens importantes, mas nunca a viu dançar com os filhos dos ministros após a meia-noite, nem a viu junto dos jovens quando fugiam dos jantares para caminhar nos jardins e flertar à luz da lua. Ela era conhecida como a “filhinha do papai” por eles, mas Azra apenas a achava muito reprimida. Às vezes Kateryna realmente olhava para eles, deixando o salão principal, e parecia triste de ter de permanecer lá, presa ao papel da filha.
Mas talvez só estivesse sendo tendencioso, pois sua mãe nunca deixava de falar dos Petrov quando eles estavam por perto. Azra duvidava que a russa soubesse quem ele era, mas a conhecia há muitos anos. Desde quando ela nasceu, praticamente.
— Você está bem, rapaz? — tocou as rédeas, o equino não ofegava mais, embora estivesse com os olhos bem abertos. Ele não aguentaria outra corrida como aquela, seria exigir demais e algo que Azra realmente detestava era o abuso desses animais tão prestativos e gentis. Fez-lhe um carinho, passando sua segurança e calma. Deveriam voltar para o aeroporto, a fim de tomar um carro até o palácio de Mariyinsky. A essa altura, Heid já teria mandado guardas atrás de sua selecionada. Olhou por cima do ombro para Kateryna. Ela havia voltado à posição de dignidade, com as costas retas e os ombros erguidos, mas seu rosto ainda era uma massa de cores e pele esticada. No palácio, ela deveria colocar gelo naquilo, para ajudar no desinchar. — Você consegue andar?
— É claro.
Suas palavras de convicção foram seguidas por uma mão apoiada à árvore em suas costas e pernas trêmulas se firmando para ficar de pé. O primeiro passo foi com a perna ferida e ela fez uma expressão de dor, mas logo escondeu tudo por trás do máximo que suas habilidades conseguiam com o lado esquerdo do rosto imóvel.
— Suba no cavalo. — arrumou a cela, que fora parar no quadril do animal, para que ela subisse. Kateryna encarou o dorso no qual havia se agarrado durante aqueles dez minutos de pânico e histeria, mas não recuou diante da ordem. Ela sabia que seria melhor usar o animal se quisessem chegar logo ao palácio. Aonde seria seguro.
Ele a ajudou a subir, com uma mão debaixo de seu pé. Quando estava segura, tomou as rédeas e começou a conduzir o equino do chão. Lentamente, a caminhada de volta ao aeroporto teve início. Em silêncio, Kateryna tentou lembrar de como tudo havia começado. Com o grupo indo até a estrada e então um barulho ao longe que assustou os cavalos, depois as ordens atravessadas entre o príncipe e sua prima e então o grito de Heid, o seu desequilíbrio, o susto do próprio cavalo… Kat não culpava ninguém em tudo isso. Mas se fossem mais sensatos, não teriam passado seus próprios medos para os animais já assustados.
O soldado não estava vestido com a farda, então provavelmente voltava para sua casa em uma folga. Trajava uma camisa colorida, com estampa floral e mangas largas, sua gola redonda se esticada até a metade de seus ombros e ela podia ver a pele bronzeada e salpicada de sardas causadas pelo sol. Tinha cabelos negros e cortados rentes às orelhas, mas ondas em madeixas e fios deixavam aparente os cachos que deveriam ter pendido dali antes de se alistar. Por algum motivo, ele a lembrava de alguém. Talvez fossem seus olhos felinos ou a cor de seu cabelo.
— Poderia me dizer seu nome, após me salvar? — Kateryna perguntou, com um sotaque que vinha da boca dormente.
— Podemos conversar em russo se você preferir — Azra sorriu-lhe por cima do ombro, mas não a olhou. Não conseguia depois de saber quem ela realmente era. A filha de Mikael Petrov. E de Helena.
— Você sabe que sou russa — Kat murmurou, agradecida pela língua materna. — Devo chamá-lo de soldado? Ou comandante, talvez…
— Sou um enfermeiro, no máximo — sabia que se a mantivesse ocupada naquele diálogo, menos ela sentiria e pensaria na dor, então não respondeu a sua primeira pergunta tão facilmente. — Mas sinta-se à vontade para me chamar de capitão, meu capitão, se assim desejar.
Kateryna conhecia aquele livro, a citação que ele usava.
— Diga-me vosso nome, para que eu conte ao príncipe que me salvou e para que ele lhe recompense.
— Eu não a salvei, eu a encontrei. E não precisa dizer nada a Heid, a culpa deve ser toda dele, de qualquer forma. — retrucou e o silêncio que Kat lhe deu mostrou que ela estava surpresa por ainda não ter lhe dito seu nome, por não se importar com a ‘recompensa’ e muito mais por ter colocado a culpa em Heid. — Quando seu primo faz uma merda, você deve consertá-la.
— Então — Kateryna se aproximou dele, na cela, inclinando o corpo para baixo, num interesse genuíno — Você é irmão de Savyna?
Azra esperava qualquer reação, menos o nome de sua irmã. Com as sobrancelhas erguidas, encarou-a até que se tornasse desconfortável. Kateryna voltou à posição normal e ele voltou a olhar para frente, constrangido.
— Como conhece minha irmã?
— Ela está no palácio.
— Ah, claro — ele assentiu consigo mesmo — Eu deveria imaginar que Savie teria usado a festa de aniversário como desculpa para fugir de mamãe. Faz meses que não vejo ela.
— Você pediu licença apenas para vir ao baile?
Azra, embora não quisesse, olhou para a menina e meneou. Ela era inteligente por ter percebido e não perguntado muito mais sobre sua relação com a família real ou sobre sua posição no exército. Inteligente, ou simplesmente educada demais para se intrometer em sua vida. Ele nunca gostou dessa palavra, “educado”, como um cachorro adestrado para rolar e fingir de morto. A maioria das pessoas que trabalhavam com seu pai eram educados, feito cães.
— Você sabe meu nome e eu não sei o seu.
Azra sorriu, escondendo-lhe o sorriso com um dar de ombros.
— Ser o primo do príncipe não é o bastante para você?
— Isso é tudo que você é?
Lançou um olhar penetrante por cima do ombro e sorriu, dessa vez com um instinto primitivo lhe dizendo para responder a altura, mas ela não devolvia o mesmo sentimento. Apenas um olhar frio e distante, interesse reservado.
— Para a maioria das pessoas, é.
— Então lhe chamarei de soldado Czarevitch.
Gargalhada. Ele gargalhou e parou de andar, quase prestes a cruzar o limite da floresta até o aeroporto. Nem mesmo no exército alguém o havia lhe chamado de soldado Czarevitch. O fato de aquilo ter vindo de Kateryna Petrov era ainda mais cômico. Quando a surpresa passou, ele estalou o dedo em sua direção e continuou andando. O gesto, embora Kat não estivesse familiarizada, significava “Boa, boa piada”. Era um sinal que às vezes dava a Savyna para dizer à irmã que ela podia continuar lhe importunando.
Funcionários dos aeroporto vieram correndo em sua direção assim que o viram, com a menina montada no cavalo que, minutos antes, havia cruzado aquele pátio a toda velocidade. Quando perceberam seu estado físico, os rostos se tornaram uma mescla de pânico e histeria, eles levaram um carro até onde pararam e a ajudaram a entrar com toda a prestatividade do mundo. O que uma garota pequena e nobre não fazia com homens tolos? Azra teria rido, se não se sentisse um tolo também. Expulsou o motorista, ele estava tão assustado quanto os demais e teria demorado o dobro de tempo para chegar ao palácio, com a lerdeza com que queria tratar a “vítima” em seu banco traseiro.
Azra mandou que ligassem para Mariyinsky e informassem o paradeiro de Kateryna Petrov, selecionada do príncipe, e de seu estado. Se tudo corresse bem, ele conseguiria chegar lá em cinco minutos e já haveriam enfermeiros no jardim para recebê-la. Não que pudessem fazer muito mais do que ele já havia feito. De amputador de pernas nas linhas de frente do exército para esterilizador de arranhões de uma menina que concorria à mão de Heid. Estava subindo na vida, enfim.
Deu a marcha e partiu.
Poeira restou no lugar, segundos depois.
Azra sempre apostou corridas com carros potentes, um hobbie que ele e Heid tinham em comum, mas usar aquilo para um fim significativo era muito diferente. Ignorou a terra que se desprendia do solo e se grudava ao carro, com os vidros fechados ele nem sentia o impacto contra a estrada, quase como se voassem. Mariyinsky surgiu no horizonte rápido e cresceu até se tornar um quarteirão inteiro de uma pequena vila voltada para o palácio. Teatros, museus, salões de dança e mercearias, casas rurais, pessoas comuns, e a imponente nova residência da família real. O rei deveria ainda estar com dores de cabeça por ter deixado Versalhes.
Estacionou no jardim e saltou do carro, já abrindo a porta de trás para que os guardas ali ajudassem Kateryna a sair. A menina recusou as mãos que tentavam carregá-la e caminhou ao lado dos homens até as escadas do palácio. E entrou.
Sem olhar para trás.
Azra não sabia porque esperara que ela ao menos olhasse para ele, mas voltou para o carro e levou-o até o estacionamento, esquecendo aquilo por um momento. Entrou em Mariyinsky e admirou a decoração, como sempre dourada e cheia de jóias para mostrar poder e fortuna. A Ucranya era o país natal de sua família paterna, embora ele mesmo fosse turco. A imperatriz nascera naquela terra, então deveria estar muito feliz em retornar. Savyna apareceu descendo as escadas com as grossas sobrancelhas arqueadas, sua expressão não era a melhor, mas também não era a pior de sempre.
— Bom dia, querida irmã, senti tanto a sua falta — abriu os braços, mas ela parou a alguns metros, fuzilando-o com um olhar cruel. — Sei que também sentiu a minha.
— Você… seu… — ela gemeu. Gemeu! — … traidor.
Azra não aguentou ver sua irmã mais nova chorando e a envolveu contra sua vontade. Savyna tentou se desvencilhar, mas acabou desistindo conforme os sentimentos a tomavam. Ainda não havia digerido tudo o que a carta do irmã havia lhe dito apenas algumas horas atrás. Ele informou que viria e que teria de voltar para o exército após três meses. As folgas que recebia eram proporcionais ao tempo que teria de ficar nas linhas de frente logo em seguida. Em geral, Azra podia descansar por três a sete dias, mas três meses só podia significar uma coisa. E ela nunca o perdoaria, nunca.
— Eu te odeio — murmurou contra seu peito, enfim abraçando-o de volta. — Eu te odeio, odeio, odeio tanto.
— Savie — Azra tocou seu rosto e sorriu — o que eu já disse sobre ser sincera consigo mesma?
— Porco.
Riu, mas apenas soltou um dos braços e conduziu-a até um sofá próximo a uma das gigantescas janelas do salão principal. Puxou a irmã para seu abraço e deixou-a brincar com a corrente do exército em seu pescoço, lendo as inscrições que fariam seu cadáver ser reconhecido mesmo que uma bomba explodisse em sua cabeça. Azra Dunah Cantare Czarevitch, turko, 25.
Sempre que lhe faziam uma placa nova, a cada ano que passava, ele dava a antiga para Savyna, para que ela pudesse colar no espelho de seu quarto e lhe bater continência todas as manhãs. Era a sua forma de orar para que ele voltasse vivo. Foi o que ela disse.
Azra não acreditava muito em orações, mas não tinha falhado até agora.
— Onde está Heid para limparmos sua bunda?
— No lugar de sempre, se remoendo de arrependimento e vitimismo. — Savie suspirou.
— O que seria dele sem nós.
— Não haveria príncipe nesse palácio até lá.
— Perdão por deixá-la sozinha com essa criança por tanto tempo.
— Ah, não se preocupe — Savyna se levantou e sorriu, com tanto sarcasmo que Azra agradeceu aos deuses por ter sobrevivido mais um ano. — eu o farei pagar por tudo.

Azra
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