Notas iniciais
Boa leitura a todos!

Resoluções Noturnas

Lia ao lado da cama há quase duas horas, bebendo o chá que a criada trouxera e olhando por cima das páginas de tempo em tempo para ter certeza que sua paciente não acordava. Quando o sol abaixou no entardecer e começou a invadir o quarto com uma claridade desconfortável, se levantou e fechou as cortinas. Nesse momento, a governanta Verônica entrou com passos lentos e os óculos redondos na ponta do nariz, ela lia uma folha de papel com nomes e informações confusas, pois suas sobrancelhas se franziam no centro da testa. Ana pousou o livro sobre o colo e esperou-a chegar até a cama.

— Nenhuma palavra? — perguntou Verônica.

— Os soníferos ainda fazem efeito — explicou, olhando para a outra russa adormecida nos lençóis. — A criada foi buscar mais gelo.

— Obrigada por se voluntariar, Anastácia, com certeza será lembrada por isso. — a governanta sorriu de lado, ainda abalada pelo modo que foram surpreendidos naquela tarde, logo após o almoço. O príncipe saiu com seus primos e voltou esbaforido, gritando ordens aos seus guardas para irem atrás de uma de suas selecionadas, e quando voltaram com a menina… Era outra pessoa, irreconhecível. Anastasiya ainda sentia vertigem ao olhar para o rosto belo de Kateryna e ver a bochecha inchada e as manchas roxas coaguladas sobre seu olho e queixo. Ofereceu-se para vigiá-la pois não tinha nada melhor a fazer e falava russo, então poderiam se comunicar facilmente. Para todas as outras meninas, aquilo foi um sinal de que as coisas não começavam bem.

Os murmúrios diziam que tudo fora obra de Mizandre ou Joanna para tirarem Kateryna do caminho. Mas Anastasiya não acreditava naquilo.

— Era o mínimo que eu podia fazer. — respondeu com sinceridade, pois mesmo que não quisesse admitir, Ana começou a analisar Kat naquela manhã e ela parecia uma pessoa boa. Não uma nobre soberba, mas apenas submissa das opiniões machistas de seu pai. Ela era tão vítima quanto Anastasiya. A governanta assentiu e fez um gesto para que Ana se levantasse e se aproximasse. Quando o fez, ela lhe mostrou o papel que estava lendo.

— Como ficou aqui o final da tarde, chamei outra garota para tomar seu lugar para o jantar. Galaxia chegará em alguns minutos. Você pode ir se arrumar para a ceia.

— Obrigada — Ana meneou, mas leu as linhas daquele relatório. De acordo com um dos guardas de sua majestade, Kateryna sofreu um acidente com seu cavalo durante o passeio na estrada próxima ao aeroporto. O animal se assustou com o barulho de um helicóptero sobrevoando o heliporto e saiu correndo com a menina presa pelo estribo. Os ferimentos de seu rosto foram causados pelas batidas incessantes da sela solta enquanto ela estava pendurada. Imaginar a cena deixou Anastasiya ainda mais enojada. Não queria voltar a olhar para a ferida.

Deixou o quarto com passos decididos, indo em direção a seu quarto. Estava de luz acesa e sua companheira dobrava as roupas usadas sobre sua mala. Quando entrou, ela lhe olhou e acenou brevemente. Ana continuou caminhando até o banheiro, para se lavar e colocar um vestido elegante para o jantar. No dia seguinte, seria o baile do príncipe. Diziam que os criados começariam a arrumar todos os enfeites antes do sol nascer, e que elas não poderiam descer as escadas até o horário da festa, ou seja, presas no segundo andar, dentro da sala de chá. Ana tirou a roupa e esperou a banheira se encher. Enquanto isso, pensou.

Havia conversado com Sirena antes da aula de dança e formaram uma das duplas naquela manhã. A italyana não era dada a conversas frívolas, mas também não a ignorava, era educada e gentil o suficiente para manter um diálogo sobre coisas a fazer enquanto não estivessem com o príncipe e como sobreviver naquele palácio contra trinta outras meninas. Ambas concordaram que o baile seria decisivo. Anastasiya tinha certeza que príncipe Heid expulsaria metade das selecionadas que não o impressionassem, assim como acontecia sempre nas demais Seleções, para diminuir as opções confortavelmente. Ela esperava que não fosse uma das escolhas obsoletas, estava se esforçando para parecer uma candidata à altura sem surtar.

Mas Sirena não queria sua amizade.

Se Kateryna tivesse acordado em algum momento daquela tarde, poderia ter colocado em ação o plano B, mas agora se via sozinha naquele palácio, com nada mais que um nome sujo e atos de caridade. Queria saber como Kateryna fizera para se aproximar do príncipe, o que chamava a atenção dele. Mas aparentemente, nada que não fosse beleza ou um nome importante interessava a Heid. Ainda queria entender como Mizandre se tornara uma das favoritas sendo uma pessoa tão desprezível.

Mas a banheira ficou cheia e ela entrou, aproveitando a água quente. Relaxou os músculos e a tensão, a sós, sentia-se mais livre para suspirar e deitar a cabeça contra a beira de porcelana. Acalmou-se. Em algum momento naquele jogo, teria a chance, e, quando a tivesse, não desperdiçaria por nada nesse mundo.



A garota acidentada estava deitada na cama, com um braço para fora do lençol e os olhos fechados. Bom, um dos olhos fechados, pois o outro fora quase completamente coberto por sua bochecha inchada. O coração de Galaxia se contorceu ao vê-la naquela posição tão dolorosa. Aproximou-se da governanta Verônica com passos apressados e ajoelhou-se diante do leito, movendo de leve os dedos até o copo de água e remédios analgésicos da cômoda.

— Devo dar algum deles quando ela acordar? — perguntou, anotando mentalmente que aquela tarefa deveria ser feita com todo o seu coração e esforço. Se fosse preciso, passaria a noite em claro.

— Os enfermeiros voltarão quando for a hora do remédio. Apenas a observe.

Assentiu enquanto a governanta saia do quarto, atarefada.

Quando soube do que acontecera, a primeira ideia de Galaxia fora ir ver o estado da menina, mas não permitiam entradas no quarto, apenas de quem fosse supervisioná-la. Acabou ficando com o turno da noite e, graças a Deus, pois se precisasse passar outra vez por aquela indecisão de escolher qual roupa, sapato, luva, anel, brincos… Sua criada a esganaria, tinha certeza! Não, não, não podia agradecer a Deus por algo como aquilo, que horror, aquela menina estava sofrendo de verdade. Queria ter um saquinho de gelo para pressionar contra os hematomas, mas talvez já tivessem feito aquilo.

Claro que já tinham feito aquilo, o palácio tinha seu próprio hospital com profissionais e todos os recursos que ela fosse precisar…! Olhou para os braços de Kateryna e para sua perna, tentando descobrir se havia quebrado alguma coisa. Ela dormia profundamente, apenas o som de sua respiração como um sinal de que estava viva.

Que bom, ela não sentiria dor enquanto dormisse.

Galaxia mordeu os lábios. O baile aconteceria no dia seguinte e a menina de rosto tão delicado não se apresentaria em sua melhor forma. Que desastre aquilo! Justo no dia anterior ao aniversário do príncipe Heid. Galaxia não conseguiria imaginar isso acontecendo a si mesma. Fez uma prece aos deuses para que cicatrizassem da noite para o dia aqueles hematomas.

Sentou-se na poltrona ao lado da cama e ficou observando a garota, atenta a qualquer sinal de mudança. A noite escurecia mais do lado de fora do palácio e ela podia ouvir o som das outras selecionadas deixando seus quartos para jantar com a família real. Galaxia sentiu uma pontada de ciúme, mas logo se lembrou de seu dever naquele quarto e se consolou. Se fosse para cuidar de outra pessoa, não havia príncipe que não pudesse esperá-la.

Passou uma hora olhando para o quarto e para a cama, vigiando. Embora o tédio viesse, Galaxia se lembrava sempre daquilo que estava fazendo e se sentia realizada. Ela nunca negaria a ajuda a alguém que precisasse. Mas adoraria que Kateryna estivesse acordada para conversarem.

Isso ajudaria o tempo a passar.

Sem perceber, encostou a cabeça na poltrona e começou a fechar lentamente os olhos, caindo num sono leve e gentil. O estômago vazio parou de reclamar. Galaxia quase sonhava, quando a porta se abriu com um estalo e ela voltou a si de imediato, olhando a escuridão até a luz que entrava do corredor. A pessoa acendeu as lâmpadas e custou-lhe se acostumar com elas. Quando conseguiu erguer seu rosto, viu o príncipe andando em sua direção.

Apertou a saia do vestido, colocando-se de pé imediatamente. Ele olhou para a cama e então para ela, seu rosto estava desolado, mas ele se vestira muito bem para o jantar.

— Soube que ficou aqui para cuidar de Kateryna.

— Ah… eu...

— É muito gentil — Heid se curvou — Agradeço.

Galaxia enrubesceu, sentindo-se nas nuvens com o elogio que ele fizera.

— Mandarei o cozinheiro lhe trazer um prato de comida.

— O-obrigada — sussurrou, com os olhos fixos no chão. Não conseguia encará-lo agora.

O príncipe olhou de novo para a menina adormecida e então suspirou.

— Guarde segredo que estive aqui. Ninguém pode saber disso. — ele olhou com um aviso em sua direção, mas Galaxia assentiu rapidamente. Ele não tinha permissão para vir até o quarto das selecionadas, mas fizera-o mesmo assim para certificar-se da situação da garota que sofrera o terrível acidente. O coração de Galaxia tremeu diante de tamanha bondade. Ela tinha certeza de que nunca conheceu um homem tão doce.

— Sim, príncipe Heid. — murmurou, olhando-o com pura admiração — É muito doce que tenha vindo até aqui vê-la.

Heid voltou os olhos cinza-tempestade para Galaxia, mas ela não se intimidou dessa vez. Sorria, gentil. O príncipe ergueu uma sobrancelha, mas apenas assentiu. Começou a dar as costas, para voltar para o andar de baixo, onde o esperavam para o jantar, mas…

Se Kateryna não era mais uma de suas opções imediatas, então…

— Você gostaria de me ajudar a escolher um terno para o baile, amanhã?

Galaxia piscou.

— Claro!

Ele assentiu e deixou o quarto.

A grega sentou-se na poltrona e só então percebeu. Ela escolher roupas para o príncipe, quando não conseguia fazer isso nem por si mesma! Colocou as mãos contra o rosto e gemeu para si mesma.

Tola, tola, tola.



Heid desceu até a sala de jantar rapidamente. Não conseguiu aguentar a preocupação com Kateryna após o episódio, mesmo quando a viu chegar a salvo (pelo menos inteira) no palácio. Uma de suas selecionadas sofreu um acidente, que poderia ter acontecido com qualquer um no palácio. Se fossem rebeldes, eles teriam grandes problemas com os ministros e o povo, mas como era apenas um acidente… Ninguém podia evitar acidentes.

A não ser que fosse você o causador dele. Heid se negou a admitir que havia sido o principal culpado daquilo. Ninguém podia controlar um cavalo assustado, muito menos depois de ter dado a ordem para que se protegessem. Ele estava certo de que era o melhor a fazer, como poderia prever Kateryna? A culpa era de Savyna que começou toda a história, ele não teria se assustado tanto se ela não estivesse com um olhar que pressentia a morte. A culpa não era dele.

— Que cara de defunto — a imperatriz o encarou, conforme se aproximava de sua cadeira na mesa. As selecionadas estavam comendo, mas levantaram as cabeças para vê-lo passar. O modo como pareciam animais ansiosos por sua atenção era incômodo, ele se sentia pressionado tanto pela mãe quanto por elas para escolher alguém logo, como se isso fosse fácil. — O que houve?

— Nada — respondeu-lhe, sem tocar no assunto. A rainha havia concordado que o acidente não devia ser mencionado, já que ninguém tivera culpa, mas Savyna o encarava do outro lado da mesa, com Azra por perto. Quando os dois irmãos estavam juntos, Heid se sentia ainda mais culpado das merdas que fazia.

Serviu-se, mas a comida parecia aveia em sua boca e ele comeu apenas metade, antes de desistir do prato. As conversas estavam baixas, nem mesmo seu pai ou seus primos falavam. As crianças voltaram cedo para os quartos e, conforme as selecionadas também se iam, Heid ia notando o quanto seu humor influenciava no jogo. Nunca as coisas haviam sido tão centradas nele. Estava sufocando naquilo tudo.

— Você não disse que voltaria. — comentou, enquanto caminhava ao lado de Azra, até a sala de fumo.

— Avisei meus pais, pensei que eles já estariam aqui. — o primo respondeu, tinha as mãos nos bolsos e olhava para frente. Azra era vinte centímetros mais alto, sete anos mais velho e pelo menos mil vezes um príncipe melhor do que ele jamais seria. Se pudessem trocar de lugares, o império estaria a salvo.

Sentaram-se nos sofás e começaram a jogar baralho.

Savyna saiu com as cartas.

— Você não está bem. — comentou ela, fingindo prestar atenção na jogada de seu irmão.

— Eu deveria estar? — Heid colocou uma carta inútil sobre a mesa e passou a vez.

— Não importa como realmente se sente, você precisa mostrar ter o controle. As garotas vão saber quando olharem para você e se elas não se sentirem seguras, não irão querer continuar aqui.

— Talvez elas não devam continuar aqui. Tudo isso parece ter sido uma grande besteira.

Savyna bufou.

— Uma garota se machucou e você está num velório eterno? Foi acidente, Heid, pare de se lamentar! O rosto dela vai voltar ao normal e o cavalo será sacrificado.

— Isso resolve muito a reputação que adquiri diante das outras selecionadas. — ele devolveu o argumento, olhando para ela com irritação.

— Ninguém está te culpando.

Heid afundou no sofá, encarando o teto. Seus pais se distanciaram e foram juntos para o quarto, dando boa-noite. O trio permaneceu na sala, mas o jogo perdeu a graça.

— Eu sinto que não tenho o controle de nada. Não sei quem eu devo escolher. E se qualquer uma delas é certa para mim — seus olhos alcançaram Azra, o primo estava silenciosamente assobiando uma canção cigana. — Eu não sei como me aproximar delas.

— Por que Joanna, Mizandre e Kateryna? — Azra perguntou, deixando o desinteresse. Era hora de ajudar seu primo burro.

— Anna é da família, ela me ajudará com tudo isso. E vocês a adoram também. Kateryna é filha de Mikael Petrov, o ministro da Russya, ele tem uma longa história na política e uma reputação dentro da nobreza. Mizandre é… ela faz o meu tipo.

— Então exclua Joanna e Kateryna e comece a pensar em garotas que façam o seu tipo — ele aconselhou — Savyna tem alguma dica?

— Se formos pegar a franca egocêntrica como padrão — Heid a censurou com os olhos, mas a prima deu de ombros. — eu diria que Sabrina, que fala pelos cotovelos, é uma boa. Sirena é bonita. Surya, a pequena hindu. Galaxia também tem um coração bom. Mas não há nenhuma que seja como Mizandre.

— A coisa mais linda que já sei viu, de fato — Azra brincou e o primo príncipe lhe atirou uma almofada na cara. Eles riram. — Esqueça Kateryna por um tempo, ela precisa se recuperar e não ficar traumatizada. Se o pai a vir amanhã, será o fim para nosso relacionamento com a Russya. Nunca vi um homem que protegesse tanto a sua família.

— Pretende mantê-la no quarto a noite toda? — Savyna o encarou, estava ameaçando-o em silêncio. A irmã era contra qualquer coisa que “prendesse” uma mulher a um lugar. E isso significava casas, palácios, títulos e casamentos.

— Eu disse para não mostrá-la ao pai. Como fazer isso é outro problema. — retrucou — Mas… Heid, você não se interessou por ninguém ainda?

— Elas são todas bonitas e parecem realmente gostar de mim. Galaxia estava no quarto de Kat, chamei-a para um encontro amanhã cedo.

— É um bom começo — Savie bateu palmas — Eu apoio muito mais Galaxia do que a cobra.

Nesse momento, a porta da sala de abriu e Joanna entrou, saltitando em direção ao sofá, até se jogar nos braços de Azra. Eles se abraçaram e riram um para o outro.

— Veja só você!

— Veja só você.

Após os cumprimentos, Anna se acomodou ao lado dos Czaveritch e continuaram o assunto.

— Galaxia é um pouco tapada — Joanna resmungou — E Mizz não é tão má quanto você pensa. — diante da careta de Savyna, a iberyana fez um sinal obsceno. — Julgar livros pela capa é feio, Savie.

— Certo. Se a sua dificuldade é chamar as pessoas certas, escolha uma pergunta de sim ou não e as que responderem corretamente continuam no jogo. — Azra sugeriu.

Os demais o encararam em silêncio.

— Ei, isso foi inteligente — Savyna piscou — Parabéns, Az.

— Diminua as opções antes de escolher alguém, pode ser o melhor a fazer — Joanna assentiu — Como esperado do Az.

Azra deu um sorriso convencido e voltou a assobiar. As duas garotas pareciam convencidas, mas o príncipe ainda mantinha uma expressão insegura. Os eventos da tarde ainda o asfixiavam. Azra não viu Kateryna após levarem-na para a enfermaria. Estava preocupado, claro, mas sabia que agora apenas o tempo restauraria sua disposição e beleza. Se as pomadas funcionassem, o inchaço estaria bem menor na manhã seguinte. O verdadeiro problema seria sua mãe e o pai de Kat .

Realmente pensou em sugerir que ela não comparecesse ao baile, mas logo notou que era injusto, se não maldoso. Talvez maquiagem bastasse. Mesmo que Kat nunca tenha usado maquiagem nas reuniões e festas. Seu pai perceberia. Pense, pense, As esperto, pense. Mas não foi nessa noite que conseguiu uma segunda resposta perfeita.

Notas finais
Postei no tumblr os núcleos até o momento, basta clicar na postagem e ela carregará as imagens maiores. Tem também o grau de afinidade, possíveis outros envolvimentos e amizades entre as meninas. Espero que ajude. Qualquer dúvida ou mudança que queiram pedir, já sabem, Mensagem Privada. Nesse capítulo, experimentei uma fórmula diferente, de focar em mais de um personagem para narrar e passear de acordo com quem aparece na cena. Gostaram? Beijos da Lady!