Notas iniciais
Boa leitura a todas vocês, amo cada uma Espero que se envolvam sentimentalmente neste capítulo

Segundo Ato



Uma semana depois, nossas selecionadas estão diante das ruínas de uma grande e próspera cidade incendiada há cem anos. Dos escombros, existe, sim, fumaça.

Lanternas foram entregues a todas, dessas longas e prateadas, com um único feixe de luz capaz de iluminar até o fundo de uma caverna. Akame não pôde resistir à vontade de testá-la como uma espada, mas o fez discretamente. Seria uma arma boa, nas mãos da pessoa certa. E ela deveria ser a pessoa certa, pois o equilíbrio lhe pareceu muito bom, levando em conta que as baterias eram ejetáveis e se moviam no interior. Seus pensamentos nada produtivos a fizeram perder o começo da explicação de Madame Verônica sobre a exploração. Aparentemente, não estavam autorizadas a se distanciar de suas duplas, não poderiam sair de perto dos guardas e, em hipótese alguma, deveriam apontar a lanterna para o rosto despreparado de uma governanta que não queria nada estar ali hoje, naquele frio.

— Podem escolher suas duplas.

Passara algum tempo pensando sobre isso, dentro do carro. Ela não possuía grandes amigas, embora conversasse esporadicamente com uma ou outra. Sirena a conhecia melhor, afinal dividiram um quarto por quase um mês, mas mesmo a italiana já possuía uma companheira. E era sua nova colega de quarto. Aquilo teria magoado Akame, se ela realmente se importasse em agradar.

— Se precisamos ficar em duplas — a voz de alguém a interrompeu em suas divagações — Espero que sejamos nós duas.

— É o mais agradável. — concordou, sem esboçar grande prazer, afinal não o sentia, mas também não podia deixar de ser educada.

Ela não detestava a garota em questão, aliás, não detestava ninguém. A sua falta de afeto por qualquer pessoa do grupo não era um desgosto exclusivo ou refletido, Akame somente não se apegava com toda a rapidez esperada. Ela poderia fazer dupla com, exatamente, qualquer uma, e não se sentiria magoada. Nem especialmente sortuda. Embora, sim, fosse bom saber que sua colega teria plenas condições de defendê-la caso encontrassem perigo (o que sempre era possível em cidades carbonizadas). A árabe vinha se aproximando de Akame sem que precisasse chamá-la, o que significava alguma coisa, visto que Akame não se aproximava de ninguém por vontade própria. Havia algo dentro dela que a impelia a se deixar ser conquistada, ao invés de tentar conquistar alguém. Como se ela fosse um prêmio a ser merecido por algum esforço.

Não que se achasse melhor que todo mundo, era apenas um instinto que nem percebia existir. Mas se a outra se importava com isso, não demonstrava. Elas caminharam por algum tempo, até que seus pés as tivessem levado a nenhum lugar exatamente, entre pedaços de pedra e cimento de não se sabe o quê, perto do que deveria ter sido o teto de uma abadia. Akame descansou seu corpo sobre as escadas do templo. Não conhecia a história de todos os países do Império, mas suspeitava que a cidade fora uma das vítimas dos ataques aéreos durante as guerras contra Afrika, quando o território de Arabyka ainda pertencia ao Egito.

— Água? — Belle esticou um cantil, que ele deveria ter trazido escondida. Akame aceitou.

— Qual o propósito desta… expedição?

— Provavelmente levar uma de nós até um lugar remoto e trocar alguns beijos — a grandona respondeu com tanta sinceridade que Akame sufocou uma risada deselegante, colocando o cantil em frente a boca e tossindo de leve, como uma perfeita dama.

— Não estamos seguindo o roteiro direito, então.

— O passeio é do primo do príncipe, imagino que nós não sejamos o seu alvo. — ela rodou a lanterna na mão. Tinha uma destreza notável.

— Podemos nos divertir — sugeriu, sentindo a água já a fazer efeito para energizá-la. Belle ergueu os olhos com pouca expectativa, ela não era de se impressionar fácil, o que podia dizer muito sobre seu temperamento calmo e modos brandos. Não que fosse inofensiva. Disso Akame tinha certeza.

Analisá-la era um passatempo divertido.

— Não vejo nada interessante num raio de dez quilômetros.

— Temos isso — balançou a lanterna — Mostre-me o que sabe.

— Como?

— Ora, não seja condescendente — Akame se levantou e mostrou uma posição de esgrima muito bem equilibrada, graças aos anos de treino exaustivo. — Eu sei que já empunhou uma espada alguma vez na vida.

Belle olhou bem dentro de seus olhos e então se moveu, dando pequenos pulos conforme estalava os pés e os braços.

— Eu não sou condescendente.

E Akame não duvidava nem um pouco. Provocá-la era uma tática, mas nunca esperaria qualquer artimanha por parte da arábica. Ela era pragmática, simples e honesta. Se havia alguém condescendente ali, seria a própria.

— E eu nunca empunhei uma espada.

Akame ergueu uma sobrancelha, pois aquilo era uma surpresa. Não que estivesse disposta a transparecer isso.

— Então façamos um acordo — era a sua vez de contrapôr — enquanto eu estiver ganhando, você responde o que eu quiser.

Belle abriu um sorriso estreito e fez o que parecia um mantra para começar a socar a cara de ninguém em especial, se é que havia ninjas invisíveis entre elas. Só notou que a grandalhona vinha em sua direção quando já era quase tarde demais. Precisou esquivar-se por baixo do rígido punho de Belle e jogou a lanterna frouxamente contra suas costas, sem causar qualquer dano.

— Há quantos anos esgrima? — nada mais justo do que ela começar perguntando, e Akame não era desonesta. Na verdade a proposta sempre tivera o segundo lado da moeda, pois a honra exigiria que ela cumprisse um combinado com justiça. Mesmo sem promessas de que ambos os lados cumpririam. Mas Akame não precisava que Belle jurasse qualquer coisa, podia ver em seus olhos que ela jamais roubaria em um duelo.

— Comecei a treinar com seis, meu primeiro campeonato foi com doze. Conquistei o troféu mundial aos dezesseis.

Ao fim da sentença, recuou o pé para trás e, com o impacto contra o chão, impeliu-se para a frente, atacando primeiro por cima, no qual Belle a bloqueou facilmente com o antebraço, e depois rapidamente por baixo, sem absorver de todo o impacto do primeiro golpe. Era algo que com uma espada saia muito melhor, já que o punho ficava longe da lâmina, mas segurou-se firmemente para não fazer a lanterna sair voando de suas mãos. Como Belle não esperava a segunda investida, ela recuou defensivamente e abriu um meio sorriso.

— Você luta?

Uma pergunta boba, Akame normalmente conseguia pensar coisas melhores que aquilo, mas não tivera tempo além das estratégias de duelo para formular qualquer outra coisa.

— Sim — Belle murmurou.

Não era uma resposta justa, ela poderia responder muito mais. No entanto, Akame não poderia reclamar, afinal não havia acrescentado nenhum por quê, quando, como, onde.

Belle tentou um golpe de taekwondo, com os pés separados em vertical e um chute alto que a teria acertado bem no ouvido, se não tivesse se abaixado a tempo. Parecia que a altura de sua oponente não a ajudava contra uma pessoa pequena e flexível como Akame. Mas o cérebro era mais rápido que isso e a constatação foi precisa. Quando Belle voltava o pé para o chão, em busca de não perder o equilíbrio, Akame chutou sua perna de apoio bem atrás do joelho, fazendo-a se ajoelhar com todo o peso de um metro e oitenta. Poderia acertar sua nuca com a lanterna.

Mas ela desmaiaria.

Poderia sangrar.

Poderia ter uma concussão.

Não seria uma luta limpa se fizesse aquilo. Empurrou-a com o peito do pé, no ponto logo abaixo de seu pescoço, no primeiro osso da coluna. Não era o suficiente para fazê-la cair de cara no chão, já que Belle era forte, mas bastava para lhe dar tempo de se afastar, recobrando os pensamentos e arrumando a franja de madeixas espessas que caía em seus olhos. Não gostaria de não ter feito barulho, mas ofegava.

— Com quem aprendeu a lutar?

Belle se levantou, agora sua calça estava suja nos joelhos e as palmas de sua mão pareciam cobertas de uma fina camada de terra, mas ela sorria. Sorria de orelha a orelha. Como se apreciasse uma oponente boa. Como se estivesse lhe dando os parabéns. Akame ergueu as sobrancelhas. Começava a gostar um pouquinho da outra.

— Papai — a palavra doce e afetuosa demais não cabia bem na boca de Belle, mas Akame não duvidou que ela o amasse. Como a primeira resposta fora curta, Akame não esperou uma continuação, e estava prestes a atacar de novo — ele era um soldado do exército.

— Sua mãe também?

Belle gargalhou. Sim, era um som estranho e que a tornava tão feminina que Akame teve vontade de rir também. Quem imaginaria que a risada de Belle era fina e meiga? Ela com certeza teria colocado sua mão no fogo antes de ouvi-la.

— Não. Minha mãe foi uma selecionada do Imperador. E isso é tudo o que importa. — como Akame arregalou os olhos, Belle tomou aquilo como tempo ganho — Mas foram duas perguntas, Wu. Você me deve uma.

— Vá em frente.

— Você é filha de Min Wu?

Akame quase cuspiu o gole de água que estava bebendo. Como aquela menina sabia o nome de um dos seus pais? Havia alguma coisa errada. Não teria como ela conhecê-lo, a não ser que… Ah!, sim, ela havia acabado de dizer. Se o pai de Belle fora um militar, então provavelmente havia se encontrado com o seu pai.

— General Min Wu é bastante conhecido dentro do Exército. — Belle explicou, notando a surpresa de Akame.

— Sim. Ele me ensinou tudo o que sei.

— Isso explica muita coisa. — Belle assentiu.

— Não vamos continuar?

— É menos exaustivo apenas fazermos as perguntas, não acha? — a grandona apoiou as mãos nos joelhos e respirou fundo. Estava rindo, de leve.

— Por que saiu do Exército?

Belle a encarou. Oh, havia tocado em um assunto delicado. Pela expressão da árabe, provavelmente havia uma justificativa dolorosa e que ela não aceitava facilmente. Akame esperava que ela tivesse saído das forças pela Seleção, e não por qualquer outro motivo. Mas talvez estivesse errada.

Era muito provável que estava.

— Invalidez — foi a resposta.

— Você? — aquele deveria ser o dia em que Akame esquecia toda a elegância e discreta educação para se tornar a pessoa mais invasiva que conhecia, e olhe que ela detestava pessoas invasivas. Censurou-se assim que disse.

Mas, francamente, como é que Belle fora afastada por invalidez? Ela era perfeitamente normal, e lutava bem. Céus, os músculos de seu corpo quase saltavam para fora das mangas de sua camiseta militar e ela tinha um brilho extremamente saudável na cor da pele, na textura de seu cabelo e até no modo que transpirava. Se aquilo era invalidez, Akame tinha certeza que nunca seria aceita no Exército.

Ou, então, era uma invalidez mental. Não raramente soldados enlouqueciam após voltarem das linhas de frente, ou se traumatizavam. Belle poderia ter um desses sintomas. A curiosidade a consumia, mas a educação falava mais alto. Akame jamais faria uma pergunta dessas.

Como o silêncio se estendeu, elas acabaram com o cantil de água e ficaram jogando pedrinhas na cúpula da abadia, até que outra dupla passasse por ali, rindo e “vasculhando por tesouros”. Quando olharam para elas, logo se assustaram com o estado em que se encontravam. Desgrenhadas, com certeza, suadas e ofegantes. A lanterna de Akame havia amassado e trincado o metal e a lente, duvidava muito que pudesse funcionar agora, mas ambas as selecionadas quase correram de Belle quando viram o estado de suas roupas e um hematoma roxo crescendo em seu antebraço.

Elas olharam para Akame, com raiva e (Deus sabe o por quê) medo, e logo concordaram em sair dali logo, antes que fossem as próximas vítimas.

— Às vezes eu não gosto do nosso gênero — confidenciou Belle.

— Nem eu.

E elas esqueceram o mal-entendido de poucos minutos antes.



Do outro lado da cidade fantasma, em um lugar que você pensaria, sim, existirem fantasmas

O esqueleto da usina fora transformado no viveiro de umas cem espécies de trepadeiras. As máquinas quase desapareciam por trás dos ramos e das folhas, e nem todas elas eram verdes. O céu às vezes aparecia em espaços que o telhado havia desabado, mas àquela altura não pareciam mais do que quadrados com pedaços de nuvens e de azul. Mais a frente, o céu começou a parecer um quebra-cabeça de proporções galaxiais. Joanna chutou uma das placas de zinco para o lado e provocou uma cortina de poeira e bichos correndo desesperados. O som ecoou até parecer que vinha do lado de fora.

— Tem certeza que não quer que eu a carregue?

Mizandre torceu o nariz pela milésima vez.

A franca vinha caminhando com toda a delicadeza, desviando de cada pedaço de ruína que encontravam ali. E, pelo amor de Deus, elas estavam em uma usina abandonada há cem anos. Era impressionante a capacidade de Mizandre de não se frustrar com sua tentativa de não arranhar as botas perfeitamente lustrosas de um roxo cintilante. Ela tivera o bom-senso de escolher calças ao invés de uma saia, mas só uma pessoa realmente rica usaria calas de seda branca e uma bata até os joelhos transparente. Se ela não estivesse usando uma regata colocada preta por baixo, Joanna a teria achado um bom partido para si mesma. Depravada, mas ela nunca gostara de meninas inocentes.

Fosse o que fosse a impulsionar o senso de moda de Mizandre, não a ajudava naquele momento.

Joanna havia se oferecido para ser sua dupla depois de perceber que ninguém iria propôr a ela. E, ela não conseguia entender porquê, Heid havia escolhido outra menina para acompanhá-lo. O rosto de Mizandre dizia muito quando ela viu isso, mas Joanna não a deixaria se sentir excluída por muito tempo, e, graças a seu senso de maternidade inconveniente, se sentiu obrigada a não abandonar a menina mais odiava da Seleção. Odiada pelas outras, é claro. Nos últimos dias, ouvira tantas histórias ridículas sobre Mizandre que duvidou muito da força do seu próprio gênero. Ela não esperara que outras mulheres pudessem ser tão mesquinhas.

Bem, ela não iria perder nada em sua reputação ao se aproximar de Miz, então não havia problema algum.

— Mesmo que tivesse, não iria importar. — resmungou consigo mesma.

— O quê?

— Pensando alto.

Mizandre franziu as sobrancelhas, mas não insistiu.

Elas se davam bem. Aquilo era bizarro, mas era verdadeiro. Joanna ainda não conseguia entender completamente o quê em Mizandre lhe fazia pensar que ela era uma boa pessoa, mas não conseguia simplesmente não gostar dela. Talvez a lembrasse a si mesma quando era mais jovem e imatura, ou Savyna. Ou qualquer moça audaciosa e consciente de si mesma. Não importava, Joanna gostava dela.

Estagnou, sem terminar de dar o passo.

Gostava dela.

Ah, meu Deus…

— O que foi agora? — a franca apontou a lanterna no seu rosto — Viu um fantasma?

— Acho que era uma ratazana.

Com a expressão de horror de Mizandre, Joanna contornou seu embaraço e continuou caminhando em direção à saída. A usina não tinha nada a oferecer e, embora Savyna jurasse que havia preparado uma caça ao tesouro durante a última semana, ela duvidava muito que fosse contar onde deveriam procurar, senão não seria Savyna. Ela não se importava nem um pouco em trapacear se isso significava que iria vencer.

— O que estamos procurando, exatamente?

— Alguma coisa brilhante e redonda — lembrou-se das pistas que haviam recebido — E se Savyna estiver dizendo a verdade, está no fundo de algo molhado.

— No fundo de algo molhado? — Mizandre franziu as sobrancelhas pela… quinta vez?

— Um lago, um rio, uma piscina… há tantas opções.

— Eu consigo imaginar algo molhado.

A afirmação teria soado presunçosa aos ouvidos de qualquer pessoa, mas Joanna sabia que não fora a intenção de Mizandre. Ela apenas sabia.

E isso assustou mais ainda.

Mas se havia algo de que se orgulhava era de seu autocontrole, então ignorou a sensação de estar perdida e prosseguiu, mantendo a missão impossível em mente.



Num lugar úmido

Formar dupla com Savyna não fora seu primeiro instinto, mas percebeu que deveria ser o correto a fazer, afinal Heid estava com eles e não seria apropriado que ele saísse por aí sozinho com Kateryna. Mesmo que o primo fosse eventualmente descobrir seus sentimentos. E Azra tinha certeza de que o apoiaria. Não havia porquê não apoiar.

A irmã tinha o péssimo hábito de ignorar todos os indícios de que ele estava divagando até que o interrompesse no pior momento para perguntar sobre o que era. Tinha certeza de que, assim que puxasse o tema de seu próximo encontro com Kat, ela se viraria nos tornozelos e, com as mãos na cintura, iria dizer:

— O que você está pensando?

Bem, ela não parecia tão sarcástica quanto ele supôs que estaria, mas funcionara do mesmo jeito.

— Que devo ser o homem mais desafortunado por ter planejado esse passeio e acabar aprisionado a minha irmã mais nova. — retrucou, mas havia um sorriso brincalhão em seu rosto e Savyna nunca se machucaria com aquele tipo de investida. Ah, ela era pior, sim.

— A sua princesinha russa não estava disponível?

— Você sabe muito bem que é culpa sua — cutucou-a o suficiente para que precisasse se afastar.

— Eu só queria passar um tempo com meu irmão, antes que ele morra.

— Ah, por favor — ele tentou apertar seu rosto, mas Savie esquivou com impressionante rapidez, levando em conta que ela tinha muito mais massa corpórea do que ele. Deveria ser uma habilidade de mulheres escorregadias como ela. Gostou da comparação. — A teatralidade não combina com você, Savie.

— Não? — ela o encarou, aquilo não sendo uma pergunta — Pensei que fizesse parte de ser eu.

E fazia, Azra não poderia negar. Mas dar-lhe o prazer de ter a razão não era algo a que ele fosse se render. Nem para ser um homem charmoso, como Nora dizia. Fosse como fosse, sua jogada para fugir da pergunta da irmã funcionara e ela voltou a procurar incessantemente pelo prêmio que jurava ter mandado que escondessem dentro do palácio abandonado. Talvez os guardas que organizaram o passeio tivessem feito um trabalho bom demais, pois mesmo com a dica chave de onde procurar, Savyna havia passado por duas piscinas aquecidas (que estavam vazias), uma banheira de hidromassagem (partida ao meio) e agora estavam agachados perto do encanamento do banheiro do quarto do conde. Azra podia imaginar ambientes mais agradáveis para estar, com companhias mais agradáveis.

— Você poderia se esforçar um pouco mais para me ajudar? — ela resmungou, tirando seu braço enfiado no buraco atrás da pia. O punho retornara envolto em tufos de cabelo e coisas que Azra não queria nem imaginar o que seria. Como se não estivesse impressionada, Savyna limpou os dedos na roupa e se levantou.

— O que estamos ganhando com isso? — perguntou a ela.

— Você é um tolo… desde quando deixou de se importar com vencer a qualquer custo?

— Desde que você nasceu e passou a vencer a qualquer custo na minha frente. A gente acaba se acostumando com o segundo lugar.

— Você é impossível — ela revirou seus lindos olhos, na cor idêntica aos dele.

Azra a seguiu de perto, enquanto atravessava o quarto do conde e abria o quarto da condessa pela porta que conectava ambas as salas. Aquela porta era comum em casas grandes, em que os casamentos eram feitos por interesse e o encontro de um casal apenas para gerar um herdeiro. Ele não conseguiria imaginar Heid fazendo o mesmo, o primo faria questão de dividir a cama com sua esposa, ainda que fosse apenas para ouvi-la roncar.

Ou talvez essa fosse a opinião dele e nunca parara para pensar sobre Heid.

Aquilo não deveria ser grande coisa, mas o incomodou.

— Esse passeio tem de tudo, menos de divertido — ele resmungou ao arrastar os pés para dentro do quarto da condessa.

Era impressionante o quanto a casa havia resistido aos bombardeios. As cortinas estavam rasgadas em lugares que indicavam pequenas chamas de fogo, muito provavelmente enviadas pelo vento, mas nenhum dos móveis fora carbonizado e reduzido às cinzas. Havia fuligem e pó, uma escrivaninha muito feminina fora coberta por um lençol branco e a cama de dossel parecia prestes a se romper ao meio, de tão frágil. Mas ele sempre pensava nos móveis de moças como se fosse capazes de quebrar ao menor toque. Era incrível como as mulheres conseguiam fazer com que até mesmo os seus aposentos fossem delicados e sufocantes, sem que necessariamente deixassem de ser belos e acolhedores. As paredes foram cobertas de papel de parede que imitava um campo florido e todas as cores da paleta do design de interior ia do rosa ao pastel, tão campestre que ele começou a se sentir bucólico. E bucólico sempre lhe pareceu uma palavra que remetia a um estado de espírito próximo do vômito.

Azra detestava se sentir grande e atrapalhado.

— Não acho que vá estar no banheiro da condessa, se não estava no do conde — a irmã deu de ombros — Mas não custa nada.

— Vamos procurar em outro lugar — ele tentou convencê-la — não colocariam esse tesouro em um lugar tão sujo. Eles sabem que o príncipe tentará achar também.

Savyna o encarou e então seus olhos fizeram aquele movimento estranho que parecia tremer e depois afundar mais para dentro da órbita. A única pessoa que fazia aquilo era ela e Azra nunca entendeu como ou o que representava. Se ela quisesse ser condescendente, bastava revirar os olhos.

— Assim perde toda a graça — ela retrucou, mas deu as costas ao banheiro e levou-o em direção às escadas. — Você é sempre tão inteligente que me dá raiva. — Estava descendendo, mais para o subterrâneo, para a adega. Palácios como aquele tinham tudo o que uma posição de conde exigia, realmente. Savyna parou em frente às garrafas de vinho, todas aparentemente intocadas e muito antigas. Poderiam pegar uma, seria tão delicioso após tantos anos… talvez a garrafa mais nova ali fosse de cem anos atrás. Ele percorreu as datas estampadas nas prateleiras, impressionando-se enquanto se deparava com 1956, 1928 e 1894. Aquela adega era muito mais antiga do que supôs.

— Eles são estúpidos — Azra se flagrou dizendo, sentindo a euforia da aventura, como a irmã dissera a ele antes: vencer a todo custo. Tirando o fato de que não fora um esforço. Correu até um balcão mais afastado, próximo da única fonte de luz, um buraco que dava acesso a uma janela muito alta, talvez localizada no andar térreo. Fora estrategicamente colocada ali, é claro. Assim como a garrava. Não havia um sinal de poeira sobre ela. — Desde quando um conde morto há 100 anos encomenda uma garrafa de Italyca?

Mostrou a garrafa à irmã, que já estava ao seu lado, olhando para o vinho como se fosse a piada mais ridícula que já ouvira.

— Eu deveria supôr que não teriam criatividade. Nem tato.

O irmão assentiu, abrindo a garrafa que se permitiu com muita facilidade, mostrando que já fora aberta antes. O vidro verde escuro não o permitiu ver, mas quando a virou de cabeça para baixo, apenas água caiu no chão de pedra. E, sobre a palma de sua mão, um anel.

— Acho que não era para nós encontrarmos isso — ela murmurou, reprimindo uma risada — Duvido que fora a intenção.

— De todas as mulheres que poderiam estar comigo aqui — ele a encarou — Você é a única a quem posso entregar o prêmio sem sentir que estou fazendo uma promessa ao inferno — e lhe deu a jóia. Savyna o colocou no dedo e sorriu, admirando.

— Foi perfeito — ela suspirou, mais consigo mesma do que para ele.

— Como?

— Ah — ela deu de ombros — Disse que foi perfeito.

— O que foi perfeito?

— Isso — balançou a mão com o novo anel — Não acha que foi perfeito?

— Não imaginei que fosse romântica, minha irmã.

— Ah, você consegue estragar tudo — ela fez uma expressão de nojo infinito e depois olhou para a janela, no topo. A luz em seu rosto revelava as sardas e um pouco de uma marca de espinha que ele não havia reparado antes. Marcas que ela havia ganhado enquanto estivera fora, ele percebeu. E seus olhos brilhavam, refletindo a camada de lágrimas presa a eles.

— Savie…? — sua voz não foi mais que um sussurro.

Ela abaixou o rosto e então fungou, limpando os olhos nas mãos. Havia se esquecido do estado de seus dedos, pois manchas negras borraram-na nas têmporas. Nem mesmo isso o assustou mais do que vê-la chorar. Savyna não chorava. Pelo menos não com frequência. E pensava tê-la visto mais abalada em um mês do que durante os últimos dezesseis anos.

— Eu ainda não sei como o amo — ela resmungou, abrindo um sorriso que lhe rasgou o coração. Azra detestava causar aquilo nela. Saber que era o culpado o fazia morrer por dentro.

— O que…

— Não me venha com “o que quer dizer com isso”, Azra. — ela o perfurou com os olhos — Você sabe muito bem o que quero dizer com isso.

— Bem, eu…

— Você nunca fala a coisa certa. — ela continuou, sem olhar para ele novamente — Nunca, nunca. Eu duvido que conseguiria uma namorada se não fosse bonitinho e primo do príncipe. Aliás, eu não sei se ainda teria uma irmã se não fosse pelo meu indisfarçado interesse por ser a herdeira dos nossos pais, num futuro não tão distante.

— Você está me enterrando antes do tempo — conseguiu grunhir, mal-humorado.

— A culpa é sua por se enterrar vivo — Savyna gritou, mas ninguém mais podia ouvi-los, então Azra não encarou aquilo como uma discussão. Queria entendê-la, queria confortá-la. Queria… consertar o estrago que fizera. Ele deveria ser o pior irmão do mundo. — Eu poderia suportar uma doença terminal ou um suicídio causado pela depressão e trauma de ver inúmeros colegas morrendo na guerra, mas…

— Não há nada certo com o meu destino e você sabe disso, Savie. — ele podia, sim, voltar vivo.

— Sim! — ela exclamou, de repente erguendo as mãos, numa atitude completamente italiana que provinha da mãe de ambos, e então o acertou no peito — É exatamente isso que não posso suportar! Ter esperança é pior que não ter!

— Você deve ser louca — ele brincou de leve com o nariz dela, mas não causou o efeito desejado. Talvez ele nunca dissesse a coisa certa, mesmo.

— Eu deveria amarrá-lo à sua cama e nunca mais deixá-lo ver a luz do dia — a irmã falou com convicção — Vou casá-lo com uma Lady rica e influente, para que dê filhos a ela e esteja sempre sob sua supervisão, e de preferência em uma torre alta do outro lado de Insular.

— Você esqueceu do detalhe mais importante — falou, tomando seu rosto nas mãos — Não sou mulher, não pode fazer isso comigo.

— Deveria poder, porque Deus sabe que você merece! — ela, no entanto, não tentou se desvencilhar — Um casamento arranjado e longe da família, para que ninguém nunca o ache.

— Logo nós, que acreditamos no amor.

— Ah — ela exclamou e então começou a soluçar. — Eu não quis dizer isso…

— Não — ele beijou-a na têmpora suja e depois no centro da testa — eu não quis dizer isso.

Savyna não fez mais do que soltar ruídos baixos e estridentes (como se ambos pudessem caminhar lado a lado numa frase e não parecer contraditório), não soltou qualquer lágrima. E ele a amou ainda mais por isso. Sua irmã era forte e decidida, mesmo magoada e mesmo com um coração despedaçado por ele mesmo.

Quem diria que seria capaz de quebrar o coração da própria irmã?

Aquilo não era nem um pouco do romantismo que ele imaginava para algo do tipo.

Era assassino, brutal, criminoso, traidor.

Ele poderia ter infringido a décimo primeiro mandamento: não partirás o coração de vossa irmã. Era imperdoável. Um pecado imperdoável.

— Mas agora eu atingi o meu objetivo — ela, enfim, se afastou dele e voltou a balançar a mão com o anel.

— Não imagino que jóias a agradem tanto.

— Não mesmo — Savyna assentiu, parabenizando-o por pelo menos saber aquilo sobre ela.

— Então o que é tão perfeito, senhorita?

E voltaram a sorrir traiçoeiramente um para o outro e a rumar para a cidade, onde todas as outras buscas seriam em vão, pois os irmãos Czarevitch mais uma vez desvendaram o mistério.

— Memórias — ela o respondeu sem olhar para trás — Memórias com meu irmão.

Azra abriu um sorriso tristonho e sentiu-se imensamente feliz.



Caminhavam há pouco mais de dez minutos, distanciando-se do palácio. A praça central da cidade estava reduzida a um amplo pátio de concreto rachado. Algumas duplas já haviam retornado para lá, outras pareciam nem ter se distanciado muito. Azra sentou-se no lado não destruído da fonte do cúpido (que irônico) e cruzou a perna, sentindo o calor do sol pela primeira vez aquecer sua pele. Ele gostava do clima frio, mas adorava quando se aquecia. Não morrer de desidratação, mas se aquecer. Como numa lareira ou numa fogueira.

Savyna saiu correndo para alguma amiga selecionada que havia visto e, efusivamente, mostrava o prêmio no dedo mais longo da mão. Orgulhosa e arrogante. As meninas olharam o anel e sorriram, reconhecendo-a. Como a vitoriosa da busca.

Azra pensou sobre o que ela havia dito na adega, ainda precisava fazer algo em relação aos seus sentimentos, não conseguiria voltar ao Exército sabendo das aflições de sua irmã, mas ao mesmo tempo estava feliz por tê-la ali. Não queria admitir, mas fora bom ser seu companheiro. Ela estava certa, fizeram memórias dentro daquele palácio que valeriam mais do que momentos a sós com uma dama, cheio de cortesias e flertes incorrespondidos. Ela o amava de verdade e importava mais do que qualquer uma.

Abriu um sorriso ainda triste.

E o fechou.

O som do disparo ecoou por toda a cidade, atingindo-os no campo aberto. Não era uma arma de longo alcance, era um revólver. Ele se colocou de pé e, sem perceber, estava sobre Savyna, segurando-a pelos ombros e movendo os olhos freneticamente sobre ela. Mas seria impossível ser o alvo daquele disparo, se o som viera de longe e o atirador deveria estar bem a frente da vítima. Azra queria não saber tanto sobre assassinatos e mortes, mas seguiu seus instintos e o movimento dos pássaros, que iam para o palácio, e começou a correr na direção oposta.

Mais tarde, ele se perguntaria por Kateryna. E por Joanna. E por Eleonora.

Mas agora, o único nome em sua mente era o de Heid.

Ele havia falhado.

De novo.

Savyna sabia que nenhuma bala havia atravessado seu corpo. Também sabia de um alvo muito mais desejado.

Notas finais
Aguardo ansiosamente vossas mensagens. Beijos da Lady