Notas iniciais
Boa leitura!

Sangue de Mármore

Harumi abriu um sorriso, enquanto saltava sobre o que deveria ser o capô de um carro, mas mais parecia uma piscina com água da chuva acumulada. Surya gargalhou quando a água a encharcou da ponta dos cabelos até a sola dos pés. Estavam em um paraíso aquático a céu aberto. Havia água por todos os lados e, por incrível que pareça, estava tudo muito limpo. Até mesmo peixes nadavam entre a piscina e um pequeno lago natural, ligados com o que parecia o buraco que uma trituradora havia feito, exclusivamente para levar a água do lago até a piscina. E o lago, por sua vez, era alimentado por um rego do Rio Vermelho.

Que fazia juz ao nome, de águas vermelho-salmão.

— Não deveríamos estar aqui — murmurou a menina, embora não quisesse trocar aquele lugar por nada. Nem a companhia.

— Permita-se ser louca às vezes, é saudável — Haru chutou a poça do capô e deu um salto para a piscina, desaparecendo em meio às águas. Quando voltou, um peixinho laranja escorregou de seu ombro. Ela parecia uma sereia, na opinião de Surya.

Surya estava mesmo precisando se libertar. Já havia pulado em outras poças e também molhou os braços até os cotovelos tentando pegar um peixe de dentro da piscina, mas não tivera coragem de saltar para lá. Estava frio e nada assegurava que poderiam se secar antes de voltar para o palácio. Harumi se apoiou na borda da piscina e ergueu os olhos felinos em sua direção. O modo como suas sobrancelhas se uniam fez Surya se sentir levemente incomodada, como se estivesse sendo analisada.

— Você não gosta muito de água — a amiga concluiu, de repente.

— Claro que gosto — Surya retrucou, sorrindo — Eu tomo banho todo dia.

— Não foi o que eu quis dizer — elas riram — Todas as vezes que espirro água em você, você faz essa expressão estranha de pânico por um segundo e depois se afasta.

— Não sei nadar — era verdade, mas não justificava muito, afinal ela nem estava dentro da água.

Harumi, é claro, também percebeu.

— Já se afogou antes?

Surya balançou negativamente a cabeça. Não era como se tivesse medo da água, seria bobagem acreditar que qualquer coisa em seu passado provocasse seus nervos a ponto de entrar em pânico. Ela riu, nervosa.

— O que foi?

— Nada — mentiu.

— Fale comigo, Surya… Somos amigas.

Aquilo era engraçado, notou a hindu, afinal se sentia da mesma forma com Harumi. Ela não lhe contava nada, não o contrário. Deveria estar indignada. Mas não conseguia se irritar, por algum motivo peculiar e novo.

— Não é muito justo você exigir isso quando não fala comigo — disse, por fim.

Harumi ergueu as sobrancelhas, mas então relaxou, como se tudo fosse explicado. Surya não gostava de como ela parecia sempre no controle da situação, mesmo quando faziam coisas loucas e irresponsáveis. Não gostava de sentir que era a única irritada com algo ou que não conseguisse resolver seus problemas tão rápido quanto os outros. Não sabia ao certo se a detestava ou se estava apenas com inveja, mas algo no peito de Surya se movia deixando-a muito irritada.

— Quer me perguntar algo, Surie?

— Quero! — exclamou a hindu, mas sem saber o que. Então as palavras jorraram de sua boca — Você beijou o príncipe?

Harumi arregalou os olhos e quase afundou nas águas de novo. Estava verdadeiramente surpresa com a pergunta, pois julgava que ninguém vira seu pequeno momento com o príncipe, no jardim do palácio. Se era esse o motivo da constante irritação de Surya, então talvez fosse mesmo sua culpa, pois Harumi fizera todo o esforço possível para não deixar que alguém descobrisse aquilo.

— Por que você está me perguntando isso? — ela quase sussurrou.

— Antes, falávamos do príncipe com frequência, e mesmo que você nunca tenha demonstrado interesse extraordinário por ele, ao menos tocava no assunto. Agora todas as vezes que menciono Heid, você foge.

Harumi assentiu lentamente, o que era engraçado, visto de cima e de dentro da piscina. Surya se sentia muito mais alta que ela, superior. Embora fosse uma bobagem se sentir assim, era o necessário para não recuar. Não estava certa de que conseguiria pressionar alguém. Nem mesmo Harumi.

— Se essa é a sua dúvida: sim, nós nos beijamos. Mas foi uma vez e não significou nada.

Como o tom de voz de Haru era frio e inexpressivo, Surya se ajoelhou na beirada da piscina e quase tocou seu rosto.

— Ele te obrigou? Ele te fez alguma coisa? Harumi! — então um desespero assumiu seus movimentos e Surya se viu debruçada sobre a amiga, envolvendo-lhe os cabelos molhados — Não, não, não.

E repetiu aquilo, lembrando-se do rosto de Raj, de seu sorriso sádico e diabólico, suas mãos quentes e grandes agarrando seus ombros com tanta intensidade que lhe arrancava toda a força do corpo. O sentimento de completa impotência, o que ela mais odiava. Não poderia aguentar se Harumi também sentisse aquilo.

— Não fui obrigada — a oriental murmurou, entre um apertão e outro — Apenas aconteceu.

— Não importa se é o príncipe, você não pode deixá-lo fazer o que quiser.

— Não deixei…

— ...isso é errado! É crime!

— Mas Surya…

— Temos de ir até o imperador imediatamente! Não, até a Governanta Verônica! Não, até a polícia!

— Surya! — Harumi a agarrou pelos ombros, tentando colocar algum juízo em sua cabeça. Decisão errada, pois ela estava dentro da piscina e a hindu estava muito inclinada sobre a beirada. Surya caiu ao seu lado com um lindo splash.

Algo dentro de Surya se apagou.

O breu percorreu toda a sua mente e um trovão soou ao longe. Chuva fria, mar salgado, gritos de socorro. Ela nos braços de sua mãe enquanto o navio afundava no meio do oceano, sem qualquer perspectiva de terra firme há quase um mês de viagem. Estavam perdidos. Estavam mortos. Condenados pelas forças da natureza a perceber no meio das ondas de onze metros, no olho de um tufão. Bem, não seria o seu olho, pois haveria calma lá, mas era a única forma de Surya descrever o episódio aos seis anos de idade.

Sua cabeça afundou novamente e então sentiu as mãos de sua mãe serpenteado suas roupas, sumindo. E estava sozinha. Perdida. Ninguém para segurá-la, ninguém, ninguém, ninguém…

Harumi passou o braço por sua axila e a levantou com toda a força que conseguia fazer sem apoiar os pés no fundo da piscina. Ela jamais imaginou que Surya não soubesse nadar a ponto de não conseguir se segurar à borda, mas nem por isso iria rir do pavor da amiga. Elas pararam de se debater quando o ar finalmente voltou aos pulmões de Surya e ela notou que não estava perdida doze anos no passado, mas sim doze anos a frente, muito longe de qualquer naufrágio ou oceano.

Seus lábios tremiam de frio, mas também de medo.

Se piscasse forte demais, tinha a sensação de voltar para lá, então manteve os olhos bem abertos e as pálpebras dolorosamente afastadas uma da outra.

— Está tudo bem, Surie, estamos na borda — assegurou Harumi, sentindo que precisava preencher os tremores da amiga com algum conforto além de suas mãos — Vamos sair.

E elas saíram, facilmente. Surya se sentou e encarou as águas avermelhadas, afastando incontrolavelmente as memórias e também o fôlego. Ela parecia se afogar no ar. Harumi sentou-se às suas costas, passou as pernas ao seu redor e tomou-lhe a testa com as mãos, deixando a nuca de Surya pousada sobre seu ombro. Aproximou a boca de sua orelha e começou a sussurrar que estava tudo bem. Era um truque que havia aprendido na faculdade, para lidar com crianças especiais que estivessem em crises de pânico ou violência. Nunca imaginou que precisaria usar esse conhecimento ali, mas também nunca havia imaginado que estaria ali. Harumi se deu conta de que a vida inteira fora passada sem esperar grandes coisas, nem criando grandes expectativas para os outros. Em geral, gostava de se imaginar uma pessoa prática que fazia diferença em de pequenas e insignificantes maneiras.

Mas talvez fosse o certo estar ali. Tanto para ela quanto para Surya, talvez fosse necessário que se conhecessem e que fossem para aquela piscina. Os membros de Surya começaram a relaxar e ela se lembrou de como respirar mantendo o fôlego preso a seus pulmões. Harumi balançava-se para frente e para trás, embalando-a.

— Está tudo bem, tudo bem…- murmurou.

Agora mais para si, do que para a outra.



Algumas coisas apenas precisam acontecer, foi a conclusão a que chegou em frente ao dormitório 206. Estava ficando louca. Não havia outra explicação. Sabrina respirou fundo e olhou as horas em seu celular: 18:37. Um pouco tarde para visitas no dormitório masculino, mas ninguém pareceu se importar quando ela entrou no prédio, rumando decididamente para o segundo andar. Não havia campainha, pois se houvesse ela a teria tocado sem hesitar, mas agora que precisava erguer seu punho e jogá-lo contra a porta, algo lhe incomodava os nervos e ela sentia que cometeria o pior erro de sua vida.

Precisava voltar para a Noruécia. Precisava pedir desculpas a seu pai e retornar à vida entediante e pobre na fazenda. Gemeu consigo mesma, detestando cada parte daquela ideia, mas era seguro, muito mais seguro que bater à porta de um dormitório que ela nem sabia se pertencia a Henry. Meu Deus, o que pensariam dela?

— Você veio — ele a assustou, falando do corredor. Estava parado a alguns metros, com as mãos ocupadas com o que parecia uma caixa de pizza. E não usava o uniforme militar, nem os cabelos amarrados em tranças. Céus, estava lindo. Irresistivelmente lindo. — Você veio mesmo.

— Ah, é, eu vim — assentiu, sentindo suas bochechas corarem. Não queria parecer tão tímida, mas, oh vida, estava mesmo ali.

— Pensei que tivesse dito que nunca viria.

— Mudei de ideia — as palavras pareciam sal — É uma prerrogativa das mulheres.

— Ah, sim, é mesmo — ele abriu aquele sorriso ensolarado e se aproximou da porta. Fez um esforço para pegar as chaves no bolso de trás e a abriu com uma reverência irônica — Depois da senhorita.

Sabrina não deveria entrar naquele quarto. Sabia disso, sentia em cada músculo de seu corpo. Assim que entrasse, estaria sob a constante ameaça de ser atacada, violada e assassinada. Assim como se pai sempre dissera para ela, quando implorava para ir até a cidade. Mordeu os lábios e olhou para a caixa de pizza. Poderia haver um revólver ali dentro. Caberia. Então ergueu um pouco mais os olhos, para Henry, e simplesmente soube.

Ele não a machucaria. Não faria nada que não quisesse.

E era esse o problema: talvez ela quisesse.

Céus, não confiava em si mesma.

— Se está ponderando as chances de eu a estuprar aí dentro, saiba que é o quarto da minha irmã e eu nunca faria algo assim na cama dela, com todos aqueles posters de bandas orientais estranhas e nojentas.

Ah, então por isso ninguém ligou de ela entrar no prédio dos dormitórios tão tarde. Era o edifício das meninas. O intruso ali era Henry.

Aquilo a fez rir, entrando no quarto decidida e com o humor renovado. Algo naquela história finalmente fazia sentido: ele não queria um caso de uma noite, senão não a teria chamado até o dormitório de sua irmã. Envolver a família era no mínimo curioso, senão errado, em um relacionamento frívolo.

Mas por que se importava com que tipo de relacionamento Henry queria ter? Não era como se fossem namorar. Nada indicava isso. Nunca indicou.

Henry entrou logo atrás dela e fechou a porta com o pé, sem se importar em trancar. Ele colocou a pizza sobre uma mesa pequena com apenas duas cadeiras e se sentou no braço do sofá, olhando-a com curiosidade e um sorriso alegre que causou arrepios em Sabrina. Ela não conseguia acreditar em boas almas, alguma coisa nelas sempre lhe dizia que a bondade vinha com um preço.

— Saiu ou foi mandada embora?

Ah, a pergunta que ela adoraria evitar. Não que esperasse continuar na Seleção, mas o príncipe havia demorado tempo o suficiente para ela pensar que fora perdoada e para detestá-lo ainda mais por ignorar a briga de ambos. Ela queria que ele ao menos se importasse em vir pedir desculpas, ou de exigir as suas desculpas. Qualquer coisa seria melhor do que saber que não era mais do que uma das trinta e uma participantes. Mas ser mandada embora consertou esses sentimentos, pois agora queria que ele apenas explodisse do mapa da Eurásia.

— Ele não sabe o que perdeu — foi a única coisa que conseguiu dizer.

— Há, não duvido — Henry assentiu e escorregou para o sofá. Havia um lugar ao seu lado e Sabrina pensou que seria educado ocupá-lo. Educado? Quem queria enganar?! Queria sentar ali. — Você chegou em um momento… complicado. Mas não pense que quero que vá embora!

— Ah, eu nem imaginaria isso — mostrou-lhe seu humor mais ácido, o que parecia diverti-lo. Sabrina nunca fizera aquilo com um garoto, mas algo em Henry a fazia se sentir ousada e poderosa o suficiente para brincar com ele. — O que é complicado?

— Eu esperava que minha irmã pudesse recebê-la, desde que veio por orientação minha, mas agora que ela não está aqui… Será complicado vivermos sem a presença dela. Mas tudo bem, posso dormir na praça do campus.

— Eu não tenho medo de você — aquilo pegou até mesmo Sabrina de surpresa, pois estava sendo muito honesta — pode dormir no sofá, se preferir.

A piada o fez rir.

— Não se preocupe, Jenny logo voltará. Ela foi para uma viagem de sala, algo sobre fotografar golfinhos.

— Sua irmã estuda aqui?

— É o dormitório dela — Henry explicou, não com sarcasmo, como alguns homens fariam. Sabrina o agradeceu por isso, às vezes ela conseguia ser bastante desligada -, sou conhecido no campus, então ninguém se importa se eu usar o quarto. Me chamam de pequeno Henry.

— Pequeno?

— Sou mais novo que esse prédio inteiro. E esse prédio inteiro está cheio de mulheres intrometidas que adoram cuidar dos irmãos mais novos de suas colegas — aquilo parecia irritá-lo, mas ele sorria. Sabrina achou adorável o relacionamento entre universitárias e irmão-da-Jenny. Imediatamente queria conhecer essa tal Jenny.

— Então estou segura?

— Ora, pensei que confiasse em mim, milady…

Ela ruborizou, mas não se moveu.

— Dou minha palavra de que, se for preciso, basta gritar em plenos pulmões e o andar inteiro virá ao seu resgate.

— Ah, isso é muito reconfortante — Sabrina caminhou descontraída até a mesa e ergueu a tampa da caixa, apenas para ver se realmente havia uma pizza ali dentro. Sabor quatro queijos e brócolis. — Brócolis?

— Jenny é vegetariana. Alguns hábitos não esquecemos nem quando os causadores deles vão embora — Henry se levantou e parou ao seu lado, também olhando a pizza. O sangue de Sabrina começou a esquentar. — Posso pedir burritos se isso a incomodar.

— Não há problema nenhum.

— Ah, que bom. Está com fome, Brina? Vou pegar os pratos.

Ela concordou e se sentou na cadeira oposta da mesa, aquela era a primeira vez que Henry usava seu nome de verdade, sem “milady” ou “senhorita”. Ficou feliz com a mudança. Ele reapareceu com os pratos e dois pares de garfo e faca. Em alguns minutos, ambos comiam. Sabrina estivera devorando tudo o que podia no jatinho da família real, até Paris, mas não conseguia aquietar seu estômago depois de ser dispensada. Algumas coisas só se curam com comida, ela sempre soube.

— Estou feliz que esteja aqui — Henry falou, ao terminar de comer o quarto pedaço seguido. Ele se inclinou para trás na cadeira e suspirou com prazer — Estou cheio.

— Eu também — ela deixou os restos da borda no canto do prato e fez o mesmo suspiro. — Por que mora com a sua irmã?

— Por que não moraria?

Era uma boa pergunta.

— Pensei que os guardas precisassem ficar no palácio.

— Odeio dormir lá — a resposta a pegou desprevenida — Homens roncam demais.

Soltou uma risada, imaginando o dormitório da guarda real. Realmente, era fácil ver Henry pressionando os ouvidos com o travesseiro.

— Bem, imagino que devo lavar a louça, já que comi de graça — ela sorriu e retirou os pratos da mesa. Henry a ajudou com o resto dos utensílios, deu-lhe o sabão e uma esponja. Sentou-se sobre o balcão e a observou. — Não há nada interessante na TV?

— Eu não gosto de assistir TV. — ele retrucou, com um sorriso diabólico que a fez morder os lábios — Emburrece os sentidos.

— É mesmo? — ela murmurou, entretida com as bolhas que se formavam na esponja. A tarefa de lavar a louça nunca a entediou, na verdade até gostava de ver as superfícies ficando limpas. — Que faculdade sua irmã faz?

— Jornalismo — ele murmurou ao coçar a orelha — Acabei pegando a mania dela de duvidar de tudo que a TV fala. No final a gente acaba se entediando daquilo.

Sabrina não conseguia entender, pois adorava as novelas, mas assentiu. Henry e sua irmã pareciam inteligentes e “sabidos das coisas”, então não queria duvidar deles naquele assunto. Nunca se importou de não ser a nerd da sala.

— Por que ela foi fotografar golfinhos?

— O sonho de Jenny é ser uma dessas repórteres pagas para viajar, ela está fazendo um documentário sobre a temporada de acasalamento dos golfinhos no sul do Chipre.

Sabrina assentiu novamente, mas agora estava repetindo a palavra acasalamento em sua mente, com muito desconforto. Não era certo ficar naquele dormitório, não podiam continuar sozinhos, isso seria dar margem a coisas erradas. Mas o que é que ela já havia feito desde sair de Vengsøy que não estivesse errado? As suas decisões a levaram até ali, tinha de arcar com as consequências.

— Parece um sonho muito bom.

— Minha irmã é inteligente — ele sorriu — E me traz umas lembrancinhas, então não ligo. Ela sempre foi contra eu me tornar um guarda.

— Por quê?

— Nunca foi pra mim — Henry encolheu os ombros — Não mesmo. Eu juro, antes de me oferecer para o serviço, eu era franzino e parecia morrer de fome.

Sem querer, Sabrina olhou seus músculos definidos do braço e das panturrilhas e mordeu os lábios, voltando a encarar a louça como se fosse tudo o que precisasse fazer a vida toda.

— Eu queria ser arquiteto.

— É mesmo?

— Mas reconstruir o mundo é uma tarefa difícil.

Sabrina o encarou, mas Henry lhe deu um sorriso travesso e de repente fechou a torneira e saltou do balcão. Sabrina deu um passo para trás e se viu presa contra a parede da cozinha e o corpo de Henry. Aquilo não deveria estar acontecendo, não mesmo. Suas mãos tremiam em frente ao corpo, prontas para afastá-lo. Mas não o faziam. Não ainda, seu cérebro gritava, não ainda.

— Estou realmente feliz que você veio.

— Não tive para onde ir.

Henry tocava seu rosto, mas parou no mesmo instante. Ele se afastou um passo e olhou-a com força. Sabrina notou um vestígio de mágoa em seus olhos, mas então ele abriu seu sorriso vacilante e se encostou na geladeira.

— Sempre pode vir até o seu Henry, ma’am.

Nada de “Sabrina” ou “Brina”.

Ela dissera a coisa errada.

Seu coração estava coberto de autoflagelamento e decepção.

Ora, eles quase se beijaram!

E ela estragou tudo!



Galaxya segurou sua mão, ajudando-a a subir o último degrau da biblioteca. Havia algo estranho sobre a altura dos blocos de pedra, mas não se importou com isso, pois no alto tudo valeu a pena: prateleiras infindáveis de livros. Claro que havia algumas caídas, destruídas, livros queimados e cobertos de cinzas, mas era uma biblioteca grande e pronta para ser desvendada por ela e por Kat.

— Ah, é tão bom que não esteja chovendo! — exclamou, erguendo os braços e sentindo o vento arrepiar seus pelos — O clima está agradável.

Kateryna não podia concordar, no entanto, pois sempre preferira dias ensolarados. De todo modo, a biblioteca estava com seu teto parcialmente destruído, então o fato de não chover deveria ser mesmo exaltado e ela se permitiu sorrir.

O som do disparo as calou imediatamente e os pássaros saíram voando de detrás das árvores. Galaxya gritou de susto e Kat se abaixou instintivamente, com as mão sobre sua cabeça e o coração disparado.

Outros gritos começaram a surgir, ao longe, aparentemente a uns vinte metros da biblioteca. Gritos de dor. Elas estavam descendo as escadas aos pulos quando viram os dois homens vestidos de preto correndo para as árvores e então um grupo de guardas também apareceu correndo. Um dos guardas ergueu uma arma e atirou.

Galaxya soltou outro grito e Kat a puxou para trás dos degraus, escondidas até que o tiroteio terminasse. Não precisou muito. Mais dois disparos e os dois rebeldes estavam mortos.

Por que não se impressionava com isso?



Heid pressionou a mão sobre o ferimento, mas o sangue pulsava quente e em litros, espalhando-se ao seu redor como uma maré que não recuava. Ele não via nada, não ouvia nada, apenas pressionava o ferimento e implorava a Deus que não morresse, por favor, não morra!

— Aguente firme — ele gritou entredentes — Aguente…

Mas os olhos dela estavam vidrados e não havia cor em seu rosto.

Não adiantava. Ela já estava morta.

Com um grito que rugiu do fundo de sua garganta, soltou as mãos e também as lágrimas e acertou a terra com os punhos fechados. Não! Socou. Não! Socou. Não, mil vezes não! O sangue se infiltrar na relva, tão natural que parecia fazer parte do cenário, da natureza. Seus guardar corriam ao seu redor, afastando-o do corpo, perseguindo os assassinos, procurando por mais rebeldes escondidos. Mas tudo o que Heid conseguia ver era ela. Tão linda! Tão terrivelmente linda e morta! Os cabelos castanhos emolduravam seu rosto e ela encarava os céus com esperança, os lábios rosados entreabertos. Ele a estava beijando, estavam se entregando aos braços um do outro e de repente…

Ela morreu. Nos seus braços, já estava morta antes de atingir o chão.

E tudo era culpa dele, porque ele era o príncipe, porque ele era o alvo. Não ela! Não, não, não!

Alguém gritou seu nome por cima do barulho, uma voz grave, familiar e cheia de conforto. Heid cambaleou para Azra e o abraçou com toda a fraqueza que ainda tinha para se manter de pé.

— Azra! — sua voz estava engasgada, esganiçada, ainda vinha rugindo do fundo da garganta — Azra!

— Estou aqui, estou aqui! — o primo o apertou e o arrastou para longe de todos — Heid, estou aqui.

— Azra! — parecia a única coisa inteligível que dizia — Az!

— Shh…

— Ela morreu, Azra, ela morreu! — seus olhos desesperados o fitaram e Azra segurou-o contra seu peito até mantê-lo imóvel, ofegante. — Ela morreu, Azra.

E continuou repetindo aquilo, até que sua cabeça explodisse de dor.


Heid não sabia muito bem como fazer aquilo, já fora beijado antes, mas agora era ele quem deveria começar. Colocou sua mão em seu ombro e com um sorriso de lado, inclinou-se para a frente. Ela ergueu o rosto e apenas entreabriu os lábios. Tomou coragem e se inclinou mais, até que a tocasse. O calor o preencheu e sem perceber tomou-a pela cintura e a pressionou contra si mesmo, tornando o beijo algo mais desesperado, mais necessário. De repente um galho se quebrou e o disparo roubou seus sentidos acordados para o amor. Afastou-se dela, mas já era tarde. Sirena desfaleceu em seus braços.

Notas finais
Enfim, começamos nossa história. Beijos da Lady!