Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
33 Em Alerta
Notas iniciais
Em Alerta
Havia algo errado acontecendo e Joanna conseguia sentir isso no ar. Voltou pelo caminho mais curto até o palácio abandonado, Mizandre reclamava do fracasso na busca, mas ao menos tiveram um pouco de diversão quando começou a chover. Agora, Joanna tinha os pelos do braço erguidos e os olhos faiscando contra o vento. Não havia guardas por perto, as meninas estavam distraidamente rindo perto da fonte de cupido e Azra, sentado, olhava de soslaio para Savyna. Tudo muito comum, muito normal. Mas não era certo. Estava faltando uma peça.
— Você pode dizer que a… — a voz de Mizandre se perdeu com o som estrondoso de um disparo de arma e em seguida, o alvoroço de pés correndo. — O que foi isso?!
Joanna estava tão espantada quanto sua companheira. Viu Azra correndo até Savyna, segurando-a como se procurasse por qualquer ferimento, e então virou as costas e saiu correndo para o local de onde realmente vinham gritos de pânico. Gritos de Heid.
Antes de ter total domínio do que acontecia no mundo real, suas pernas já corriam logo atrás de Az, cobrindo-lhe a retaguarda com os olhos afiados pelos arbustos e casas destruídas. Um assassino poderia facilmente se esconder por ali. Os gritos amenizaram até serem ruídos e soluços, por Deus, Heid não estava morto, mas o rebelde ainda corria pela cidade. Joanna se aproximou dos guardas, aglomerados a dez metros do príncipe, ignorando a sua existência. Az foi até Heid e o consolou, e era isso… seus olhos confusos procuravam aleatoriamente por algo que pudesse fazer, algo em que pudesse ser útil…
Mais disparos, desta vez ninguém se assustou. E quando cinco guardas retornaram para a cena do atentado, Joanna compreendeu que haviam abatido os culpados. Heid balbuciava para o primo sobre alguém morto, Joanna teria achado que era apenas o susto de quase ter morrido, quando viu uma pão debaixo dos pés dos guardas e, quando eles se moveram mais para o lado, também sangue e um vestido. Alguma selecionava havia morrido. Aquilo atingiu Joanna ainda mais. Ela cambaleou para longe e se viu do outro lado de tudo, de seus amigos e dos guardas. Bem longe, tão longe que pareciam apenas um amontoado de pessoas, sem muito para fazer, apinhadas sobre um cadáver.
Seu estômago revirou. Um cadáver. Alguém, com quem convivera por um mês, agora estava morto. Poderia ser qualquer uma. Poderia ser Kateryna. Poderia ser Galaxya.
Ou pior, poderia ser Eleanora.
Havia tantas amigas ali que não queria perder… amizades que estavam apenas no começo, mas tinham tanto para ainda serem vividas…! Joanna não percebeu quando seus olhos começaram a chorar sozinhos, lamentando a morte de quem quer que fosse. Ninguém merecia morrer. Ninguém merece isso. Cobriu a boca com as mãos e suprimiu um engasgo quando caiu sobre os tornozelos, encostada a uma árvore.
Poderia ser Heid.
Não, não…
Como poderia pensar em algo assim agora? Como poderia sequer supôr que deveria ficar feliz por não ser Heid? Se alegrar com a morte de outra pessoa… isso… não deveria ser possível. Não deveria ser humano. Ela se levantou sem dar tempo aos próprios olhos de entenderem o caminho e apenas retornou correndo para a clareira. Azra e Heid ainda estavam lá e agora os guardas moviam o corpo para um lugar escondido das meninas que, uma a uma, chegavam para ver o que havia acontecido.
Joanna agarrou o ombro de Azra e o forçou a se desvencilhar de Heid. Apenas quando viu seu rosto, é que o verdadeiro alívio chegou a seu peito, até então tomado de ansiedade e aflição. O príncipe, aquele menino que conhecia há tantos anos, tinha os olhos vermelhos e inchados, seu nariz pingava e as bochechas pálidas exibiam o tom mais vermelho que ela jamais o vira fazer. O cabelo de Heid fora bagunçado por Azra, mas ele não mais estava em pânico, agora tudo o que fazia era resfolegar, tentando controlar sua respiração, e fechar os olhos assim que os abria para o mundo.
— Vamos voltar — ela ordenou, e não havia ninguém que questionasse — Vamos voltar.
Azra ajudou a colocar Heid de pé, caminhando lado a lado, com o seu braço sobre os ombros. Joanna se inclinou para apoiá-lo também. Ela não tinha certeza se era isso que amigos faziam em momentos como este, ela nunca imaginara amigos com tanta proximidade ou sentimentos. Deveria ser mais que isso. Algo que irmãos fariam. Isso sim.
Há dois dias, Verônica não via a porta da sala de chá se abrir. A governanta, que acostumara-se ao borbulhar de murmúrios das meninas e ao som de risos no final do corredor dos quartos, encontrava-se contando o silêncio. Era imenso e infinito. Poucos rostos apareceram na sala no dia seguinte, a televisão foi ligada para o noticiário, mas logo que a matéria sobre a selecionada morta começou, desligaram-na para poupar suspiros. Os livros foram os maiores consoladores, as prateleiras estavam quase vazias.
Guardas trocavam de lugar a cada quatro horas, garantindo que seguranças despertos o bastante estivessem sempre alerta. E Verônica odiava a tudo isso.
Um mês fora o suficiente para que ela compreendesse muitas coisas das quais não fazia ideia. Mesmo em seus trinta anos, ela nunca se importara com o silêncio no palácio ou com as portas sempre fechadas. E de repente aquelas trinta e uma garotas a haviam ensinado a amar essas pequenas mordomias.
Agora tudo voltara ao normal, à monotonia. E ela se sentia ainda mais triste.
Gostava tanto de Sirena que não suportou a dor por muito tempo. Assim que chegaram ao palácio e todas as meninas se recolheram a seus quartos, a governanta se isolou e chorou no banheiro, até ter certeza de que seus olhos não mais estariam vermelhos. Foram dois dias difíceis. Dois dias de luto e de silêncio. Mas o luto e o silêncio começaram a envenenar aquilo que deveria ser o recomeço e Verônica temia que as demais meninas não estivessem conseguindo lidar com todos os eventos.
Se esse fosse o caso, então tinham um problema gravíssimo. Imperatrizes deveriam lidar com esse tipo de situação todos os dias. Saber da chance de ser o alvo de um rebelde, de poder morrer em qualquer evento público ou passeio privado. Era o preço a se pagar.
Na verdade, Verônica acreditava que havia muito mais a perder do que a ganhar com o título de imperatriz, mas nunca diria isso em voz alta. A nação acreditava que a família tinha sorte por ter nascido ali, por viver em um palácio e por ter o poder nas mãos.
Um poder fragmentado em treze países, cada qual com seus ministros.
Verônica estava feliz com seu posto como governanta, não o trocaria por nada.
Mas mesmo ela deveria saber lidar com a chance de acabar morrendo nesse meio tempo. Afinal, estava com a família real e vivia no mesmo lugar que eles. Partilhava a mesma comida e ia aos mesmos lugares. Fora uma fatalidade horrível a morte de uma selecionada, mas pelo menos não era o príncipe. Deveriam sempre pensar assim. A vida de Príncipe Heid valia mais que a de todos naquele palácio, com exceção do Imperador e da Imperatriz. Ele era o herdeiro do trono, o futuro do Império. Precisava fazer alguma coisa para tirar todas elas de seus quartos e reanimá-las.
Foi pensando nisso que a porta de seu quarto se entreabriu após a primeira batida.
Era preciso fazer algo e Galaxia não sabia o que. Ela estava ansiosa, avoada e tão triste que não notava o tempo perdido dentro do quarto apenas olhando para o teto. Não dava para acreditar que Sirena havia morrido. Elas conversaram algumas vezes, a italiana tinha o costume de elogiar sapatos que achava bonitos e sugerir alterações numa blusa ou saia. Galaxia sempre imaginou que ela estaria ali até o final. Não fazia sentido ser eliminada. Se havia alguém ali dentro capaz de carregar uma coroa com graça, essa pessoa seria Sirena.
— Madame Veronica.
— Sim, srta. Omaya?
— Precisamos fazer algo.
— Algo? — a governanta ergueu uma sobrancelha, mas não parecia mais tão autoritária com as olheiras escuras debaixo de seus olhos hispânicos. Era outra cena triste a qual Galaxya não estava preparada para presenciar. Nunca imaginou que Madame Veronica teria um olhar tão triste e desamparado.
— Precisamos tirar as garotas dos quartos, tirar o luto da cabeça delas.
— Eu compreendo sua preocupação, Srta. Omaya, mas um passeio no momento seria inapropriado. Os rebeldes estão mais próximos do que julgamos e, de acordo com o Conselheiro Real, logo nos mudaremos para outro lugar mais seguro.
— Imaginei que poderíamos fazer alguns jogos dentro do palácio. — Galaxya sorriu, tentando convencê-la — Também podemos chamar os pequenos primos do príncipe.
A governanta suspirou profundamente e concordou com um meneio. Embora estivesse ganha a conversa, Galaxya não sentia que havia vencido. Seu objetivo era melhorar o emocional de todo mundo, mas Veronica ainda tinha aquela tristeza presa a seu coração.
Com a permissão, agora poderia planejar melhor que tipo de jogo fariam. Galaxya nunca fora boa em criar entretenimento, embora gostasse de se divertir com as pessoas. Ela não fazia o tipo engraçada. Bem, deveria procurar por ajuda, então. Alguém que soubesse o que fazer. E que quisesse ajudá-la.
O corredor à luz do nascer do sol era sombrio. As paredes brancas pareciam acinzentadas e a falta de janelas, com exceção de uma logo a suas costas, deixava tudo ainda mais apertado, como se a largura de uma parede a outra não fosse o suficiente. Galaxya abriu os braços e tocou o gesso com ambas as mãos. As portas eram tão próximas umas das outras, embora os quartos fossem grandes. Nunca saberia como faziam plantas tão fascinantes, talvez, em um dia mais animado, ela se interessasse por ler um livro de arquitetura, mas no momento tudo o que podia era tentar imaginar sem se sentir presa.
Ela nunca havia batido na porta da garota para quem pediria ajuda. Na verdade, nunca haviam conversado, não por mais de alguns minutos e sozinhas. Não fazia parte de uma das concorrentes antisociais e autopreservativas, como as de Brittanya e de Insular, mas suas personalidades eram tão diferentes que Galaxya sempre teve outras meninas para se relacionar. Outras como Sirena. Ora, de todas as selecionadas, elas tiveram o relacionamento mais profundo naquelas duas semanas. Como todas as demais poderiam estar tão tristes se nem a conheciam?
Era medo. Tinham medo de que, se saíssem do quarto, também acabassem mortas.
Galaxya bateu a porta, ansiosa pela resposta.
A porta se abriu após um intervalo breve.
— Sim? — a selecionada olhou-a de cima a abaixo e ergueu seu queixo, de maneira inquisidora.
— Bom dia, srta. Joanna. — Galaxya abriu seu sorriso mais gentil — Tem passado bem?
— O que você quer?
— Nada — talvez fosse melhor ser direta, algumas pessoas não sabiam ser sensíveis — Talvez um pouco de ajuda.
— É sobre o príncipe?
— Como?
— Eu não sou a assistente pessoal de Heid, se você quer um encontro com ele, vá pedir diretamente.
— N-não, espere! — Joanna fechou a porta de imediato, mas Galaxya conseguiu colocar seu pé entre o batente. Doeu, sim, e ela soltou um gritinho lamentável. — Não é sobre isso!
— Não? — Joanna voltou a abrir a porta, olhando para o pé de Galaxya como se lamentasse ter puxado a maçaneta com tanta irritação.
— Não. Estou planejando alguns jogos para animar as meninas e pensei que poderia me ajudar — Galaxya disse num fôlego só antes de sair saltitando, apertando a ponta dos seus dedos quase esmagados pela porta.
— Bem, talvez eu possa ajudar. — concordou a iberiana. — Há algo que precise?
— Eu não conheço muitos jogos.
— Isso não é problema. Reúna todas na sala de chá, estarei indo em alguns minutos. — Joanna mandou e saiu de seu quarto, indo para a sala de chá. Ela provavelmente sairia para pedir alguma coisa aos criados. Agora restava a sua própria parte.
Galaxya sabia que não tinha muitas amigas dentro do palácio ainda, mas esperava que aquela tentativa tosca de divertir as outras lhe desse algumas. Nunca se saia bem quando estava totalmente sozinha, e nem gostava de estar totalmente sozinha. Com a saída de Joanna, precisava bater a porta de todas as selecionadas, convidando-as para a sala de chá. Temia que tivessem a mesma reação de Joanna, batendo a porta em sua cara. Galaxya não queria mais colocar seu pé entre nenhum batente. Então lembrou-se de alguém que, com certeza, ficaria ao seu lado, mesmo que para receber portas na cara. Abriu um sorriso e correu para a porta da hindu sem prelúdios, abriu-a.
— Surya?
Mas o quarto estava vazio.
O céu amanhecia muito bonito, havia feixes de luz atravessando as nuvens escuras e o vento frio fazia levantar da floresta o cheiro de… floresta. Surya adorava assistir ao nascer do sol em sua casa, quando Raj estava dormindo tão profundamente bêbado que não poderia acordar com suas curtas cantarias. Era o único momento do dia em que podia fazer o que realmente gostava. Surya às vezes dançava no telhado, mas desde a última vez em que uma telha escorregou para a varanda do quarto do tio, não ousava. Aqui, longe de Hindu, ela podia sentir o quão diferente do império era, e o quanto isso a assustava. Estava frio. Muito mais frio do que ela jamais sentira. E o céu não era azul, mas cinzento, e não havia cidade, mas vilarejos. Ela conseguia ver mais árvores do que pessoas, mais folhas do que prédios, e isso era assustador. A cidade em que crescera amanhecia sobre o febril fluxo de seu povo: comerciantes, vendedores ambulantes, servas e crianças indo para a escola. Não havia noite silenciosa, nem tarde de feriado. O sangue corria sempre veloz nas veias de Hindu. Mas ali… era como se ninguém mais estivesse vivo além dela. E isso era assustador.
Surya sentiu falta dessas coisas. Sentiu falta das pessoas, dos sons, dos cheiros e do cansaço incessante no rosto dos homens. Também sentiu falta dos festivais, em especial o Festival das Luzes. Ela nunca descera para participar de um, mas imaginava o quão feliz teria sido dançar nas rodas do pátio do palácio de Raj, comer maçãs do amor e espirrar água da fonte dos desejos.
Ela não queria ficar no mesmo quarto que Harumi, por isso fugiu.
Por algum motivo, ela sempre imaginou que Hindu e o Extremo Oriente fossem muito parecidos, talvez por estarem tão perto um do outro, mas estivera enganada. As pessoas tinham seu próprio jeito de evoluir e ambas eram muito diferentes. Surya não suportava mais esperar por alguma mudança. Era tão injusto o que acontecera, tão errado, e ainda mais errado era manter os culpados impunes. Uma menina inocente fora assassinada por causa da raiva de pessoas que não compreendiam a força de seus atos, o quanto isso poderia desestabilizar o Império. Céus, todos estavam vivos apenas por causa do Império, se cada reino prosperasse sozinho, era provável que já tivessem se matado há séculos.
— Os seres humanos são autodestrutivos.
Ela sentiu a mesma sensação de vertigem de quando caíra naquela piscina, e balançou o corpo, tentando se livrar. Era horrível. Toda vez que Surya sentia o peso desaparecer de seus ossos, era como se voltasse para naufrágio do navio que matara seu pai e quase ela e a mãe. Raj, é claro, provocara o acidente. Não havia dúvida, ninguém diria que fora um simples acaso que o navio de repente começasse a afundar, mas como poderiam culpá-lo se Raj estava a quilômetros de distância, protegido no palácio da família?
Surya odiava o mar. Odiava nadar. Odiava tudo que a fizesse se lembrar dos anos que vivera debaixo do mesmo teto do homem que havia matado seu pai, enlouquecido sua mãe e roubado sua virtude.
Quase.
Ela se forçou a lembrar que quase.
Embora as memórias fossem turvas, ela se lembrava de ter uma faca e de ter acertado Raj na barriga antes que ele pudesse lhe fazer mal.
— Eu concordo com você.
Ela se arrepiou com a presença inesperada do primo do príncipe, mas ele estava sentado ao seu lado já há algum tempo, sorrindo. O rapaz tinha ombros largos e um cabelo ondulado muito parecido com o de Raj, mas por algum motivo ela não se sentia intimidada com aquela familiaridade. Na verdade, era mais como se lembrasse de outra figura, maior e mais profunda que Raj. Seu pai. Surya avaliou os olhos esverdeados do primo do príncipe. Ele era cigano, sem dúvida, mas um cigano muito parecido com hindus.
— Seres humanos são autodestrutivos — repetiu ele, colocando sobre seus ombros um casaco militar que Surya não havia notado até então. Na verdade, Azra estava completamente vestido para exercícios militares, com exceção do casaco que agora estava nos ombros dela. O frio, de repente, foi embora, e ela se agarrou ao casaco. Não havia percebido o quanto sentia frio. — Você também gosta de olhar o nascer do sol?
— Sim. — meneou a cabeça, constrangida por estar sozinha com um homem. Em Hindu, isso seria considerado inapropriado e eles seriam obrigados a se casar. A ideia de casar com o primo do príncipe era estranha, pois ela estava apaixonada pelo príncipe. Bem, o primo era bonito, sim. Bem bonito. Mas seu coração fora jurado ao príncipe. E um hindu leva juramentos muito a sério.
— Minha irmã dizia que as únicas pessoas a verem beleza na natureza são aquelas que não conseguem ver beleza em mais nada ao seu redor. — Azra olhava passionalmente para o horizonte. Surya pensava que os homens não tinham essa capacidade de admirar algo, apenas destruir. — Ela não gosta muito de insetos e coisas envolvendo terra, entende?
— Hum… — Surya resmungou em concordância.
— Você estava pensando na menina?
— O nome dela é Sirena. Era.
— Eu sei. — Azra apoiou-se em um cotovelo, sem o menor medo de poder escorrer dali — Eram amigas?
— Não. Mas eu gostava dela.
— Entendo… — o primo do príncipe meneou — Entendo.
— Ela não deveria morrer, ninguém entre nós deveria morrer. Nós não somos da família real e não estamos governando nenhuma coisa para que qualquer coisa seja nossa responsabilidade. Foi uma injustiça sem medida!
— Estou feliz que pense assim.
— Eu estou cheia de raiva! Eu quero que eles prendam esses assassinos e os levem para o julgamento! Eles precisam pagar pelo que fizeram!
— Eu concordo com você.
— Como puderam atirar quando havia uma pessoa inocente por perto? O alvo deles não era ela, era o…
Surya arregalou os olhos e imediatamente cobriu a boca com as mãos. Quase disse que quem deveria morrer era o príncipe e não Sirena, mas essa teria sido uma ideia ainda mais louca. Antes Sirena que o príncipe. Antes uma selecionada que o herdeiro. Era isso que ela deveria dizer, para a imprensa, era isso que deveria afirmar: ainda bem que não foi nosso príncipe. Mas não era isso que Surya sentia.
— Não se sinta mal por pensar assim. — o primo do príncipe não olhava para ela, por isso Surya não se sentiu constrangida.
— Ninguém deveria morrer e ninguém deveria querer matar. Não consigo entender essa maldade no coração dos homens que fizeram isso.
— Para o seu conforto, eles já foram pegos.
— Ah, verdade? — Surya ergueu as sobrancelhas. Ela não havia visto o rosto de nenhum deles, mas julgava que haviam fugido, afinal todos os guardas do palácio haviam redobrado as vigias e elas eram proibidas de sequer sair do segundo andar.
— E também já foram executados.
— Executados! — a hindu exclamou, tomando conhecimento de que não apenas uma pessoa havia morrido naquele dia, mas três. De repente Surya se sentiu ainda pior e soube que, embora quisesse os culpados presos, não os queria mortos. — Mas…
— A cidade estava rodeada de guardas. Não chegaram a ir muito longe.
— Oh…
Azra manteve o silêncio e eles não disseram mais nada, até que o sol já estivesse aquecendo as telhas. Surya abraçou um pouco mais os seus joelhos. Seu coração estava confuso, mas ao mesmo tempo ela queria ignorar os sentimentos e apenas admirar aquele nascer de dia, ao lado do primo do príncipe.
“Surya” alguém chamou no quarto, abaixo de seus pés. Ela piscou ao reconhecer a voz de Galaxya. A selecionada deveria estar procurando-a dentro do quarto, mas não a encontraria lá. Talvez até já estivesse preocupada e indo em direção a governanta Veronica, e se a governanta soubesse que havia saído do palácio e estava no telhado, ai sim ficaria mais encrencada. Surya engatinhou para a varanda e olhou apenas uma vez para o primo do príncipe. Ele fez um aceno com a mão, dando adeus, e então a hindu pulou para dentro do quarto. Harumi soltou um grito de espanto assim que os joelhos de Surya acertaram seu peito e ambas as garotas rolaram pelo tapete.
— Ah, Surya!
— Desculpa, desculpa, desculpa! — ela implorou.
— Onde você estava? — Harumi se levantou e apertou a bochecha da garota. — Eu e Galaxya ficamos preocupadas!
— Não precisam ficar — Surya mudou de assunto — O que você queria?
Galaxya, que estava assistindo, abriu um sorriso calmo, típico dela.
— Querem me ajudar a animar as coisas por aqui?
Surya e Harumi se entreolharam, numa comunicação silenciosa, e fizeram que sim para Galaxya.

Embora todos estivessem correndo naquela direção, Surya e Harumi não os seguiram. Elas haviam ouvido os disparos, mas preferiam manter a fé de que ninguém havia se machucado e que tudo não passava de uma brincadeira de mal gosto.
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