Notas iniciais
Boa leitura a todos!

Versalhes, F R A N C A

Há quase meia hora estava se martirizando contra a vontade impetuosa de colocar o dedo na boca e roer as malditas unhas. Mas não. Não podia. Prometeu a quase meio mundo de amigas que não iria roer as unhas enquanto estivesse na Seleção. Mesmo curtas, estavam tão delicadamente desenhadas… Priscila fora uma ótima amiga manicure. E sem contar o que Edna fizera em seu cabelo, que maravilha! Até a pele que estava sempre queimada pelo sol parecia ter uma cor naturalmente bronzeada, fruto dos cremes hidratantes de Vanessa, com certeza. Era ótimo ter amigas tão atenciosas…

Quase dava para esconder-se por trás daquela maquiagem exagerada. Mas não totalmente. Os mordomos a encaravam. Os guardas a encaravam (esses com um pouco mais de selvageria), até as criadas a encaravam. Todos. Menos a rainha e o príncipe. O príncipe.

Francamente, ela nunca se acostumaria a pensar em Heid como “o príncipe”. Não quando já havia visto seu junior murcho tomando banho ou quando já havia trocado suas fraldas cheias de cocô esverdeado. Riu consigo mesma, socando de leve a madeira da porta do quarto, a qual encarava há meia hora.

Ele estava demorando.

A meio suspiro de ficar irritada, alguém bateu na porta do outro lado e Joanna a abriu imediatamente, puxando a pessoa pelo braço e rapidamente trancando o quarto para todo o mundo exterior. Empurrou-o contra a parede e deu um abraço tão, tão apertado, que escutou sua coluna estalando. O príncipe gemeu baixinho, mas permitiu o ataque.

Quando já havia matado toda a saudade sufocante, Joanna colocou ambas as mãos em seus ombros e apertou-os, sentindo os músculos, a largura, a textura das ombreiras de seu paletó. Um homem. Meu Deus, um homenzinho! Gargalhou, encarando a barba no queixo magro do menino que fora alvo de todas as suas brincadeiras e confusões durante os dourados anos dentro do palácio. Queria esfregar-se em Heid, beijar toda a extensão de suas bochechas gordas como as da mãe, apertá-las até que ele reclamasse. Queria guardar para sempre o cheiro de homem que ele agora tinha.

— Você está eufórica — Heid percebeu, havia um brilho divertido em seus olhos. Por sua vez, o príncipe sentia-se tão feliz em rever a amiga de infância que quase se esquecera de que ela era uma mulher madura e estava encostando os seios em seu peito. Suas bochechas coravam, mas não de vergonha. Não, nunca sentiria qualquer constrangimento perto de Joanna. Ela era sua irmã mais velha, a irmã que ele nunca teve. Estava vermelho de alegria. — Você cresceu!

— E você! — Joanna segurou o rosto de Heid com ambas as mãos e apertou as amadas bochechas — Meu Santo Senhor, olha só essa barba horrível! E essa bunda! E esses pés maiores que os meus. Meu Deus, Heid!

— Pare, está ficando vergonhoso, Anna…

Anna, ah, ele sempre a chamara de Anna… Para um bebê, ela mais fácil balbuciar aquilo. A imperatriz sempre disse a Joanna que as primeiras palavras de Heid foram “cá Anna”, ou seja, “Com a Joanna”. Ele sempre quisera seu colo, mais do que o de qualquer outra ama que tivera. Era sempre os seus braços que o bebê real desejava. Ah, ele cresceu tanto, tanto! Como podia ter perdido tudo aquilo?

— Olha só tudo isso — murmurou, escorregando as mãos para seu pescoço e então os ombros e por fim percorrendo os braços até suas mãos, as quais segurou fortemente entre si. — Você é um homem mesmo.

— Não espero que eu ficasse pequeno para sempre — Heid deu de ombros, mas estava contente por ela ter notado.

— Você continua pequeno. Menor que eu. Mas ainda é um homenzinho — suas palavras feriram o orgulho do príncipe, mas ele não deixou-a perceber. — E o que é essa seleção idiota que você está fazendo? Que história é essa de esposa, seu babaca.

— Ideia da Igreja, da minha mãe, de Raffel e por fim de papai. — Heid abaixou a cabeça, derrotado. Derrotado! Joanna podia lhe dar uns bons petelecos por isso. — Mas eu confesso que foi tudo friamente calculado para que você pudesse reencontrar a megera, digo, senhora sua mãe de novo.

Joanna gargalhou. Então Heid realmente decodificou a carta que havia mandado.

— Mas… eu também acho que seja preciso fazer isso logo. Ninguém sabe quando a situação do rei irá… piorar.

— Ele parecia muito saudável para mim.

Heid assentiu, mas ainda parecia tristonho.

— Remédios e noites de sono longas. Estamos fazendo tudo o que os médicos indicam. Isso tem ajudado muito, mas as dores de cabeça permanecem e mesmo seu raciocínio não é mais o mesmo.

— Heid — Joanna encostou-se no amigo, abraçando-o — Eu sinto muito. Eles vão descobrir qual é o problema e vão achar uma cura. Eu prometo.

— Você sempre foi boa nisso, Anna — o príncipe apenas murmurou contra seu ombro — Fazer promessas que não pode cumprir.

Ela o encarou. Havia dor entre os sentimentos que o rosto de Heid mostrava para ela. Dor, traição, raiva, decepção… Como se a culpasse por tudo. Mas Joanna sabia que ele não a culpava, apenas… precisava de alguém para descontar aquilo. Toda a dor que vinha sentindo nos últimos anos. Sozinho.

— Você disse que não iria embora, mas foi. Prometeu que iria voltar para fazer visitas, mas não voltou. E agora promete de novo algo que está fora dos seus alcances.

— Heid… desculpe… — sussurrou, o mais gentil que conseguia — Eu nunca… imaginei…

— Tudo bem, Anna. Não quero que fique triste antes de rever sua mama. Eu a avisei de que estaria aqui e ela ficou… surpresa pela novidade. Logo virá para cumprimentá-la. Por favor, não a mate.

— É a minha mãe, Heid — Joanna sorriu de lado — Mesmo que a odeie, eu a amo. Não menti sobre isso na carta.

— Eu sei — ele balançou a cabeça, como se afastasse aquele diálogo e os sentimentos que despertou. — Preciso voltar para o escritório e logo ela estará aqui, então é melhor eu sair. Foi bom revê-la, Anna.

— Melhor ainda te ver, Heid.

Eles sorriram um para o outro e, quando a porta voltou a se fechar, Joanna sentiu-se em paz. Não uma paz completa, pois ainda não havia conversado com sua mãe, mas uma paz necessária. Como a calmaria antes da tempestade.

Notas finais
Espero que tenham gostado, foi apenas um diálogo necessário para a história. Beijos da Lady!